Magnetismoterrestre2

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Magnetismoterrestre2

  1. 1. Magnetismo TerrestreRegina Gouveia2005
  2. 2. Magnetismo TerrestreGénero: PoesiaAutor: Regina GouveiaFotografia: Fernando GouveiaDirecção gráfica: fábrica mutanteCapa: fábrica mutanteCalendário de letrasmorada ???contactos ???Impressão e acabamento: Papelmunde1ª edição: ????? de 2005ISBN:Depósito legal:
  3. 3. Tudo me prende à terra onde me dei:O rio subitamente adolescente,a luz tropeçando nas esquinas,as areias onde ardi impaciente….Dizem que há outros céus e outras luase outros olhos densos de alegriamas eu sou destas casas, destas ruas,deste amor a escorrer melancoliaEugénio de Andrade, “Canção Breve”
  4. 4. PrefácioA beleza das coisas só pode ser fruída por um espíritosensível e o artista, ao exprimir na obra a estesia quealguma vez experimentou, inescapavelmente deixa nelaas marcas da sua idiossincrasia e das suas vivências. Otítulo desta colectânea de poemas repassados desaudades de um tempo e de um lugar (que afinal é umuniverso) é a transposição alegórica de uma temáticacientífica da área da Física, o que não surpreendeporque a autora, docente de Física e Química pode, coma maior naturalidade, emoldurar o seu estro emreferentes científicos ainda que metafóricos, como é ocaso presente e foi também o caso das obras anterioresReflexões e Interferências e Poeira Cósmica.A vertente poética que a autora manifesta e cultiva commestria mostra, por um lado, que a formação científica ea actividade profissional, ainda que empenhada (como éo caso) não satisfazem cabalmente os anseios de umaalma sensível que busca a completude. Por isso, que aprática da arte seja um complemento cabonde do frioracionalismo que enforma e estrutura a ciência. A autorareconhece-o quando diz “É difícil de explicar pois não háexplicação que assente só na razão“ (poema Sensações,nesta obra). Os poetas são seres sensíveis que,consonantes com a Natureza, vêm e exprimem o que arazão não alcança. A mente do artista pode atribuir àscoisas características que a pessoa dita normal nãovislumbra.”A paisagem é um estado de alma“, FernandoPessoa dixit.Os vinte e sete poemas que a autora nos oferece estãoimpregnados da recordação saudosa das coisas e dosseres dos lugares onde decorreu a sua meninice,infância e adolescência (o Universo da autora)
  5. 5. 08/09 Magnetismo Terrestre Regina Gouveiarecordação que se aviva a cada visita ao seu rincão sitono Nordeste Transmontano. O que está plasmado nosversos que nos deixa é a transfiguração pelo poeta que aautora é, do sentimento induzido por esse pequeno /grande mundo para ela de tão gratas memórias.A formação científica da autora transparece, como emAntónio Gedeão, na obra poética. Assim, às vezes, notasde cariz científico surgem integrados no discurso poéticosem quebras de ritmo nem significância, antes pelocontrário, como é, por exemplo o caso do final do poemaIlusão “ No ocaso, o sol vermelho já se esconde, porém,já lá não está, é ilusão. Ainda o vemos devido àrefracção.” Outras vezes (poema Big Bang) noçõescientíficas como a do Big Bang, ligado à expansão doUniverso são contrapostas à vivência da autora, cujoUniverso, clama, se contrai no tempo.Dos vinte e sete poemas cinco não são inéditos,respigados que foram do primeiro livro publicado pelaautora - Reflexões e Interferências. Foram aqui incluídospor se referirem à temática nordestina, foco polarizadorda inspiração dos poemas agora dados à estampa.Muitos dos poemas destilam nostalgia de um tempo quepassou mas que deixou marcas indeléveis, agoratransfiguradas em poesia induzida pela revivência dessepassado. No poema que tem expressamente essadesignação - Nostalgia - é dada conta dodesaparecimento de práticas ancestrais ligadas àeconomia de subsistência das populações nordestinas(cultura da oliveira e da amendoeira, emblema da regiãoagora substituído pela cerejeira, também objecto de umpoema). Curiosa a terminologia ligada a essas práticascomo alpechim e infernos.
  6. 6. Sem curar de fazer uma recensão completa da obra, noconjunto de grande nível e valor artístico – tarefa quecompetirá a quem for da arte da crítica literária - apraz-me salientar dois exemplos paradigmáticos: No poemaSensações a autora poetiza “o cheiro da sua casa daaldeia”, o que recorda Régio quando refere em uma dassuas obras “ os bons e maus cheiros” de uma velhacasa. No poema Entropia a degradação da matéria viva(medronhos apodrecendo no chão) é usada comoilustração do 2º Princípio da Termodinâmica.Já outros autores com formação científica de basepoetaram glosando, por exemplo, temas de Física (NielsBohr) e / ou de Química (António Gedeão / Rómulo deCarvalho). Mas no caso da presente autora a poesia,ainda que insira aspectos da sua cultura científicaencadeados no discurso poético, o lirismo dos temas e aforma como são tratados denunciam uma sensibilidadeque só pode ser feminina.A presente obra, pela diversidade dos tópicos quepercorre, todos ligados à vivência da autora na terra dassuas raízes ficará, sem dúvida, como um belo retratopoético do Nordeste Transmontano.José Ferreira da Silva11 Professor Catedrático jubilado do Departamento de Física da Faculdadede Ciências da Universidade do Porto.
  7. 7. 10/11 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  8. 8. RaízesAs minhas raízes estão em íngremes ladeiras,em terras de xisto, onde crescem amendoeiras,carrascos, sobreiros, oliveiras,e onde o sentir é outro, mais profundo.Como que em busca da certeza de que existo,gosto de vaguear pelas ladeiras,sentindo rumorejar o rio ao fundo.
  9. 9. 12/13 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  10. 10. OutroraOutrora seriam por certo diferenteso achatamento polar, o campo magnético,a atracção lunar e, como tal,o peso das coisas, as marés.Diferença subtil, irrelevante,pois se esse tempo, à escala humana é já distante,à escala do Universo ainda é presente.Outrora seriam por certo diferentesas gentes que no castro habitavammas como hoje, sofriam, amavam e guerreavamem sangrentas batalhas, deixando virgens,talvez para sempre, tímidas donzelas.Testemunhas desse tempo, as muralhas,naturais do lado do abismo,do outro lado humana construção,como também humana a destruiçãoque de onde em onde grassa.Ignorou-se que enquanto o tempo passa,as pedras guardam na memóriaos feitos da história, o sangue derramado,a glória, o revés.Em terras que com sangue foram adubadas,florescem hoje papoilas encarnadaspor entre alvas estevas, roxas arçãse giestas amarelas. Na Primavera,todas elas salpicam a ladeira do castro até ao rio.Deste, quem sabe, o rumor será ainda ecodum clamor, outrora lançado no vazio.
  11. 11. 14/15 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  12. 12. Tempos agrestesEram tempos agrestesquando da azeitona ou da amêndoa, a apanha.Era o vento cieiro que vinha de Espanha,uma brisa seca, cortante, geladaque gretava a pele já de si curtida,era a soalheira que encardia o rostono ateado Agosto.Eram tempos agrestesde fugas para França e de passadoresde silêncios pesados, de densos suoresque iam desgastando dia a dia a vidaqual roupa delida já de tanto usada.Eram tempos agrestesgrávidos de sol, de frio e de nada.
  13. 13. 16/17 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  14. 14. OcasoEm Fevereiro, o dia quase exangue,era azul claro e rosa a cor do céu.Depois escureceu; tornou-se cor de chumboe cor de sangue.Talvez anjos brincando na imensidão etéreaou, simplesmente,a interacção da luz com a matéria.O sol vai imergindo por detrás do montee no horizonte destaca-se a silhueta de um sobreiro.Difusa, voa rasante uma cotoviae é então que, no céu, Vénus se anuncia.
  15. 15. 18/19 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  16. 16. CaminhadaFlores tímidas, selvagens, atapetam o chão.Coberta de líquenes e musgo, a fraga, ao fundo,onde frágil se equilibra uma oliveiraque espreita a queda de água que escorre na ladeiraonde agoniza um pombal, já sem função.Um balir de rebanho rompe o ar dolentee uma avezita, que emerge de um sobreiro,toma por seu mundo o céu inteiro.Medito enquanto calcorreio o caminho lentamente.Quanta transformação química ocorridapara transformar húmus em vida…Quanta energia transformada…Quanto neutrino atravessando o nada…
  17. 17. 20/21 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  18. 18. MoinhoEntre calhaus e areias, grossas, finas,virgens porque há muito não pisadas,e mescladas de vegetação rasteira,resistem ao tempo, no fundo da ladeira,umas ruínas de um açude, um canal e um moinho,cuja cobertura se perdeucomo todos os anos se perdia quando o rio,nas enchentes, lúbrico crescia.Ainda hoje o rio umas vezes adormeceoutras galopa na viagem.Do moinho que agoniza junto à margemresta, corroída, uma mó que em tempostransformava grão em pó.Restam também vestígios de uma antiga construçãoe, numa fraga, escavada uma pequena cova,talvez a gamela de um cão. Quiçá um perdigueiro,companhia de caça do moleiro.
  19. 19. 22/23 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  20. 20. CrepúsculoPlana o falcão sobre a ravina.O sol declina e todo um mistério invade o ar.Num eco etéreo, há um rumor que se aproxima.Talvez o vento cujo lamento cruza a neblinaque esconde o dia e abraça a noiteque se anuncia numa acalmia,numa doçura crepuscular.Porém, na Terra, algures há guerra,bombas, granadas a deflagrar.
  21. 21. 24/25 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  22. 22. BarcaEntardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiadosque se reflectem nos calhaus roladosque o rio afaga. No ar, um silêncioque apenas o rumor do rio apaga,rumor, ou talvez preceao Senhor da Barca, ali ao lado.Já não existe mais a barca que outrora foi realmas na margem do rio, enferrujado,testemunha de um tempo intemporal,jaz moribundo um pedaço do caboque, a cada viagem, guiava a barcade uma à outra margem.
  23. 23. 26/27 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  24. 24. Big-Bang Na minha infância, o Universo estendia-sedo Castelo até às Eiras, envolvendo a Praçae o Cabecinho onde ficava a minha escola.À volta eram ladeiras que velavam o sono do riolá no fundo. Era assim o meu mundoque, para mim, era maior que o infinitoe que em cinco linhas aqui ficou descrito,contrariando assim, à evidência,uma das conjecturas da ciência.Desde o seu Big-Bango meu Universo contrai-se, não se expande.
  25. 25. 28/29 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  26. 26. TeiaCom as recordações da minha infânciafui tecendo, dia a dia, enredada teia.O cheiro do azeite no lagare no Outono a fermentar o mosto,o céu estrelado, o luar de Agosto,as cores da Primavera e as do Outono,o vermelho das papoilas, dos medronhos,o branco das flores de amendoeira,o sabor das amoras de silva ou de amoreira,as histórias contadas à lareira,o som da chuva, da neve, do granizo,na escacha da amêndoa, o som do riso,o rumorejar do rio no fundo da ladeira,o piar da coruja, o bramir do vento,são imagens que preenchem os meus sonhose assim invadem o meu pensamento,enredando-o na emaranhada teiaque até hoje a minha vida prendepor um fio, que tanto se contrai como distende.
  27. 27. 30/31 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  28. 28. Ponte 2Sempre em concordância com o traçado,desventraram a ladeira de um e outro lado.O rio, no fundo, parece alheado,correndo ligeiro ou sonhando parado.Sobre ele crescem, da ponte, pilares e tabuleiro.Este, apoiado só no meio, cresce dia a diapara um e outro lado, sempre em simetria.As leis da física assim o determinam.Pesos, momentos, reacções, tensões,tudo se conjuga em equaçõesque os operários jamais imaginam.Em busca da terra prometidavêm daquém, dalém, vêm de Leste,vêm de África, têm vida agreste,chegam a pagar o sonho com a vida.E o Sabor, em eterno devaneio,beija a ladeira a tudo o mais alheio.2 Foto gentilmente cedida por Maria Manuel Gouveia.
  29. 29. 32/33 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  30. 30. Casas de XistoCasas de xisto com, sem escaleiras,traves de zimbro nas padieiras,balcões, sacadas, toscas ombreiras,foram com o tempo, há muito tempo…Ficaram histórias entre as memóriasque traz o ventoque chora, chora e no seu prantolembra o encanto das casas de outrora.
  31. 31. 34/35 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  32. 32. StacattoAli onde o silêncio imperae onde o infinito faz sentido,numa fraga, junto ao rio, foi esculpidoalgo que pode ser uma mensagem,uma data, talvez de uma romagem,um nome, quiçá o de um romeiro,que envolto num denso nevoeiro,surgiu num dealbar de primavera.
  33. 33. 36/37 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  34. 34. DivagaçãoCom o olhar perdido entre rio e céu,tendo por horizonte o infinito,divaga o meu eu, angustiado, aflito.Se este rio fosse meu,não permitiria que algo o poluíssee talvez um dia com ele me fundissenum apertado e sempiterno abraçoquando a vida nada mais fosse que cansaço
  35. 35. 38/39 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  36. 36. Cores outonaisO muro de xisto é já uma ruína mas a vinha,velha e tão cansada,exibe de novo os seus tons outonais.Numa subtil gradação de frequênciasa folhagem é agora amarelada, acobreada,cor de vinho, acastanhada.Ostentam cores outonais também, mais além,a pereira e o marmeleiro.Enquanto transferências de electrõesdesencadeiam oxidações e reduções,carotenos e antocianinasconjugam-se em paisagens quase surreais.Sentada numa fraga, ao lado de um sobreiro,quero perpetuar estes instantes,transformar em eterno este momento,mas o agora de há pouco já é antes,nesta implacável corrida do tempo.
  37. 37. 40/41 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  38. 38. ProdígioProdigiosa aquela cerejeira com seus frutos.Sensual, rubro o epicarpo, carnudo, nacarado omesocarpoda pudica semente protecção.Tal como se fora a vez primeira, saboreio uma cerejacalmamente num misto de volúpia e devoção.
  39. 39. 42/43 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  40. 40. AndorinhasSentada no terraço, vejo as andorinhasentrar e sair dos ninhos na casa do vizinho.O vizinho morreu e a casa está abandonada,mas as andorinhas, de luto,como é sempre o seu vestir,talvez pelo vizinho, os que o antecederame os que ainda hão-de vir,continuam a voltear em torno dos ninhosna casa agora abandonadado vizinho que morreu.Sempre me lembro das andorinhasno beiral da casa do vizinho.Sei que as de agora não são as mesmasque as de outroramas talvez de geração em geração,tal como passa o sentido de orientação,tenha passado a informaçãoda minha existência no terraçoem frente à casa do vizinhodesde quando o meu pai me dizia poesiaque falava da sua migração.Orientadas pelo campo magnético terrestre,pelo sol, pelas estrelas,ou simplesmente navegando à vista,aí vão elas seguindo uma pistaque as trará de volta novamente,quando se iniciar o tempo quenteSó que um dia já não haverá casa do vizinho,nem eu estarei no terraço a recebê-las.
  41. 41. 44/45 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  42. 42. LiçãoConstava no compêndio que eu tinhaque estudar que o azeite, no essencial,é um misto de oleína e palmitinade diferente densidade e ponto de fusãoFalava ainda o meu compêndioem decantação, ponto de inflamação,porém, ainda antes do compêndio,era bem pequenina e já sabiaque os negros frutos de todo o olivaliriam ser esmagados no lagarpara das entranhas o azeite retirarjunto com o alpechim do qual se iria separarAmargo e negro, o alpechimiria ser lançado nos infernos3.Também antes do compêndio já sabiaque em candeias o azeite iria alumiare que em gélidos Invernos iria talhar,em duas camadas se iria separar,a inferior, pastosa, esbranquiçada,a superior , viscosa, amarelada.Mas quando criança, também me apercebiaque o tão dourado azeite,à mesa sempre usado com deleite,na malga do pobre não ia ter lugar,quando muito o azeite das sobras de fritar.Só que isso não constava no compêndio.3 Reservatórios para recolha do alpechim.
  43. 43. 46/47 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  44. 44. EstevasPegajosas as estevas, quando florescem,ostentam flores majestosas de fino odor. Porémas flores fenecem. Resta uma além, murcha, esquecida.Pobre flor! Uma das pétalas já não tem vidamas, mesmo assim, desfalecida, mantém o odor.
  45. 45. 48/49 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  46. 46. NostalgiaQuando passo num amendoal, após o verão,sinto um misto de nostalgia e emoçãoao ver a amêndoa abandonadanas árvores e no chão.Outrora significou prosperidadee eram guardados os amendoaispara garantir que os rebusqueirosnão rebuscavam demais,que rebuscavam só no chão, à claridade,só de dia e não ao lusco-fusco.Hoje já ninguém anda ao rebusco.No Verão, sob um sol abrasador, era a apanha.Hoje fica nas árvores e cai na terraque a arrebanha e com ela se funde;confundem-se os seus tons.Da escacha já há muito não se ouvem sons.Os escachadores ora em uníssono,ora desfasados, habilmente manejadoscom gestos secos, certeiros e brevespor mulheres, crianças, raparigas,que enchiam o ar de risos e cantigas,iam partindo a amêndoa, sempre cadenciados,deixando o grão intacto ou com mazelas leves,enquanto das cascas, o monte crescia no chão.
  47. 47. Mais tarde, a par da lenha, na lareira,iriam servir para combustão.O grão ia para sacos de serapilheira.Mais tarde era vendidoe o seu destino era assim perdido.Aquele que ficava imperfeito, esbotenado,iria ser, mais tarde, laminado,misturado com ovos e açúcar, nos rochedoscujas receitas eram envoltas em segredose cuja doçura ocultava a agrurade tanta fadiga e de tanto suor.Eram a lavra, a limpa, a enxertia,ano após ano um ritual que se cumpriae quando floriam as amendoeiras,o lavrador contemplava do cimo das ladeirasaqueles véus de noiva a perder de vista,não com o olhar breve de um turista,mas com um profundo olhar, cheio de amor.
  48. 48. 52/53 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  49. 49. Flores de amendoeiraAs flores de amendoeira, antes da Primavera,cobrem a ladeira como um branco véuou como vestes de anjo que se esfumou no céu.Impressa no código genético a química magiada ebúrnea cor que recende a nostalgia
  50. 50. 54/53 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  51. 51. Ilusão4Em pleno estioos meus olhos vagueiam na ladeiraque exulta em cor, em cheiro e em sonsque me afloram o ouvido, subtis.Os meus olhos vagueiam na ladeira,exuberante em todos os seus tons,tecendo à minha volta mil ardisÉ o amarelo das searas, das oliveiraso verde prateado, dos troncos dos sobreiroso tom acastanhado, mais além um outro verde,das figueiras. Pobres figueirasem terras tão avaras, avaras de água,que não de encantamentoque esse de há muito me há a mim tomadoenquanto dolente passa o ventoque agita os ramos das amendoeiras.Os meus olhos vagueiam na ladeiraem pleno estio e sinto um arrepio.Lá em baixo serpenteia preguiçoso o rioe o céu, por cima, dum azul sem fim,parece olhar para mim.4 Poema incluído em Reflexões e Interferências.
  52. 52. Sinto no ar toda uma fragrânciae volto sem querer à minha infânciade sonhos que nunca mais foram sonhados.Amoras, mel, uvas e mostode repente sinto-lhes o gosto.Tudo se repete agora e logo, de onde em onde.Cigarras, besouros, libelinhas,gaviões, pardais e andorinhas,urze, giesta, papoilas e tomilho,tudo se agita; é grande a euforianos meus pensamentos enredados,grávidos de sonho e fantasiaque parecem gerar como que um filho,envolto em tule, rendas e brocados.Afaga-me uma onda de alegriamatizada de muita nostalgia,aproxima-se a noite, ao fim do dia.No ocaso, o sol vermelho já se esconde,porém, já lá não está, é ilusão!Ainda o vemos devido à refracção
  53. 53. 58/59 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  54. 54. Flores5Eram flores selvagens embelezando Maio,junto ao caminho. Eram muitas e singelas,rubras, azuis, roxas , brancas, amarelas.Os seus nomes?Creio que uma se chamava rosmaninho,as outras não sei, mas não importa.Numa conferência a que a memória me reportaFeynman, Nobel da Física, sobre a ciência diziaque o nome das coisas não é o que mais importa,até porque de lugar para lugar varia.Importa muito mais observar, reflectir, interrogar.Só assim se pode compreender a natureza.E também amar, eu acrescentaria.Veio isto a propósito das flores junto ao caminho,que me impressionaram pela singeleza,mas cujo nome não sei. Por isso as baptizei;a uma chamei ternura e a outra afecto,a uma outra alegria, a uma dei o nome fantasia,a outra atribuí o nome de paixão.A uma que logo ali murchou e murcha se quedoubaptizei-a com o nome de ilusão5 Poema incluído em Reflexões e Interferências.
  55. 55. 60/61 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  56. 56. Castro6Em mato de urze, de giesta, de carrasco,fica ali escondido, abandonado, o castro,castelo dos mouros, como o povo diz,de onde, quem sabe, uma moura donzelafugiu para Castela num belo alazãoenquanto soprava o vento suão.Partiu com um mouro, ou partiu com cristão?De livre vontade ou partiu infeliz?Quem sabe, não descenderia da moura donzelaminha bisavó, de seu nome Anaque era castelhana fugida da guerra, da luta intestinaentre um tal D. Carlos e D. Cristina?Quem sabe? Pergunto ao carrasco,mas não existia, ao tempo, no castro.Questiono o rio que corre no fundo,mas a água de outrora correu, foi embora,perdeu-se no mundo.6 Poema incluído em Reflexões e Interferências.
  57. 57. 62/63 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  58. 58. Hipocrisia7Lactarius deliciosus.Não sei se foi Lineu quem o nome lhes deu.Eu, no meio do pinhal,com gestos suaves, subtis,vou-as colhendo uma a uma.São as sanchas, frágeis, delicadas,como que envergonhadas, por baixo da caruma.Chapéu e pé em tom alaranjado,já em pequenina,a medo eu as colhia pois sabiaque mesmo ali ao lado, outros cogumelos,alguns muito mais belos, teciam seus ardis.Insidiosos, perigosos, escondem em si a muscarina,a psilocibina, tanta, tanta toxina, tantas vezes fatal.Tal qual a hipocrisia nos humanos,desumanos, antes eu diria,que enchem a boca com a democraciae a globalização, visando um mundo novo,enquanto vendem armas para matar o povoque subjugam pela exploração7 Poema incluído em Reflexões e Interferências.
  59. 59. 64/65 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  60. 60. EntropiaDesde o átomo à célula, toda uma evoluçãoque desafia os mais ousados sonhos.E assim, no mato denso de carrascos,salpicando de cor os dias baçose dando aos espaços um ar de fantasia,irrompem sensuais e rubros os medronhos.Alguns logo ali se degradam, ao cair no chão.Eis o sentido da evolução.Chamou-se-lhe entropia.
  61. 61. 66/67 Magnetismo Terrestre Regina Gouveia
  62. 62. Sensações8Tem um cheiro inconfundível a minha casa da aldeiaNão sei se é do rosmaninhoque perfuma todo o linho dentro das arcas guardado,se é da madeira das portas, dos tectose do sobrado se é das pratas no lambrimou das peças de faiança, são travessas e são pratos,nas paredes pendurados, se é das peças de mobília,uma herança de família, não sei se é dos retratosque às vezes, a horas mortas, falam, sorriem para mim.Terão perfume as memórias de quando eu era criança?Terá perfume a lembrança?Tem um cheiro inesquecível a minha casa da aldeiaMas não é só o odor, são as cores e são os sonsque vejo e ouço em qualquer lado e em tudo o que me rodeiaLembro lágrimas, sorrisos, por vezes já imprecisos.Lembro sussurros e histórias,imagens em vários tons, plenas de luz e de corou também acinzentadas baças, sem cor, desbotadas.Têm cor alguns dos sons, sons e cores têm odorA minha casa da aldeia cheira a afecto e amor.Mesmo quando estou distante às vezes,por um instante, chego a pensar que estou lá,pois apesar da distância eu sinto aquela fragrância.Que explicação haverá? Será acção magnética?Uma interacção eléctrica? Força electromagnética?Gravítica? Nuclear? Forte ou fraca interacção?É difícil de explicar pois não há explicaçãoque assente só na razão. Esta estranha sensaçãotem a ver com o coração.8 Poema incluído em Reflexões e Interferências.
  63. 63. Índice07 Prefácio10 Raízes12 Outrora14 Tempos agrestes16 Ocaso18 Caminhada20 Moinho22 Crepúsculo24 Barca26 Big-Bang28 Teia30 Ponte32 Casas de Xisto34 Stacatto36 Divagação38 Cores outonais40 Prodígio42 Andorinhas44 Lição46 Estevas48 Nostalgia52 Flores de amendoeira54 Ilusão58 Flores60 Castro62 Hipocrisia64 Entropia66 Sensações

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