A rapariga descriminada

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história do 5º ano

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A rapariga descriminada

  1. 1. A rapariga discriminada Estava um dia de sol na cidade de Banguecoque, Tailândia, e a família Haong,que vivia na ruela Tiny, estava a cumprir a sua rotina diária: a senhora Haong estava afazer olaria, o senhor Haong ocupava-se dos seus negócios e Maya, a única filha,encontrava-se na escola da cidade. A sua mãe e o seu pai trabalhavam todo o dia sempausa para descansar e ela ia para a escola. Maya tinha 11 anos. Era uma rapariga morena, com cabelos longos, lisos enegros. Os seus olhos tinham a forma amendoada e eram pretos como duas azeitonas. Para além da escola, a jovem tinha outros interesses: fazia ginástica acrobáticadesde tenra idade, ia à piscina uma vez por semana e, nos tempos livres, adorava dar umpasseio de elefante. Mas, um dia, as suas vidas mudaram totalmente… Um grupo de jovens queresidia na cidade estava descontente com a situação atual do país e decidiu revoltar-secontra o governo. A população toda manifestou-se nas ruas com bandeiras e apuposcontra o estado atual da nação. A confusão instalou-se com roubos, violência e atémortes. Como a situação estava complicada e não havia segurança na cidade e no país, afamília Haong teve de se mudar para outro país, tendo optado por Portugal, um paísinteiramente desconhecido e situado no outro lado do mundo. De repente, viram-se numa situação de pobreza extrema à qual não estavamhabituados e tiveram de abdicar de todos os pequenos luxos a que estavamacostumados. Ao chegarem a Portugal, mais precisamente a Lisboa, tiveram a ajuda de umainstituição que os acolheu com muito prazer. Também contaram com o apoio de umaigreja da cidade que lhes cedeu uma modesta casa com água, luz, móveis e algunseletrodomésticos básicos. Ofereceram-lhes comida e colocaram Maya na escola maispróxima. Durante muito tempo, a família Haong procurou trabalho em muitos locais atéque a mãe de Maya encontrou emprego num escritório de uma loja chinesa e o pai nosserviços administrativos da junta de freguesia da sua área de residência. 1
  2. 2. Com o rendimento do seu trabalho, foram conseguindo pagar as suas despesas ea sua comida. Contudo, continuavam a precisar da preciosa ajuda da instituição que osacolhera, para continuarem a pagar a renda da casa. Quando viviam na Tailândia, sempre sonharam construir uma linda mansão comtrês andares, com imponentes escadarias, fabulosas carpetes a perder de vista, imensosquartos e duas salas enormes repletas de cristais fantásticos. Mas o sonho das suas vidastinha ruído. No entanto, apesar das enormes adversidades, nunca desistiram dos seusideais de justiça, solidariedade e trabalho. Maya frequentava a EB 2,3 da Caparica, mesmo à porta de casa. Esta escola eracomo qualquer outra: era multicultural, tinha bolsas para alunos carenciados, tinhaclubes para ocupar os alunos nos tempos livres e desporto escolar. Maya vivia o dia a dia na escola com muita dificuldade, pois não conseguia fazeramigos, todos a olhavam com enorme desconfiança. Nas aulas, mantinha-se silenciosa,sentada ao fundo da sala, rezando para que nenhum professor a interpelasse. Nosrecreios, sentava-se sozinha, num recanto. Sozinha não era bem assim, pois contavasempre com a excelente companhia e a preciosa amizade de um livro, mas este não lhechegava. Os colegas gozavam-na por ser estrangeira e insultavam-na, contudo, Mayatentava sempre ignorá-los, mas a situação estava a ser muito difícil e a tornar-seinsuportável. Passaram dias, semanas, meses e ninguém brincava com ela. Maya não estava aentender a razão de tanto afastamento. Todos os dias a situação se repetia e Maya nãocontava aos pais o que acontecia na escola, com a ténue esperança de conseguir resolvereste seu problema. Um dia, um rapaz negro entrou para a sua turma e começou também a serdescriminado. A rapariga, ao vê-lo tão abatido, ficou feliz por ter alguém que percebia oque ela sofria na escola. Num intervalo, Maya, apesar das suas enormes dificuldades com a línguaportuguesa, conseguiu questionar o colega: _ Qual é o teu nome e de onde vens? 2
  3. 3. _ Chamo-me Nali. Sou do Senegal, da tribo Halkimaia e, como os meus paisvieram para aqui trabalhar, eu fui inscrito nesta escola. E tu como te chamas? –perguntou ele com sotaque africano. _ O meu nome é Maya. Vim da Tailândia, fugida da revolta e da guerra que sevivia no meu país. Vim com a minha família há algum tempo. O intervalo da manhã tinha acabado e todos os alunos foram para as salas deaula. Ao fim do dia, Maya e Nali despediram-se um do outro e cada um foi para o seular. No dia seguinte, já eles conseguiam planear passeios para fazerem fora dohorário escolar, estudos em casa um do outro e muitas outras coisas interessantes. Mas, como os colegas de turma eram muito racistas, nunca se aproximavamdeles nos intervalos, na hora de almoço ou até para a elaboração de trabalhos de grupo.Contudo, um dia, na aula de Formação Cívica, o professor sem comentar, masapercebendo-se do que estava a acontecer na sua turma, solicitou aos alunos quefizessem um trabalho de grupo sobre as virtudes e os defeitos dos alunos da turma. Estetema suscitou de imediato um enorme burburinho na aula, criando desde logo aconfusão para a constituição dos grupos. É certo que Maya e Nali foram imediatamenteexcluídos, não tendo havido, por parte dos colegas, qualquer interesse em incluí-los. Oprofessor deixou que os grupos se formassem assim e que os dois colegas estrangeirosconstituíssem o seu próprio grupo. No dia da apresentação dos trabalhos, para surpresa de todos, o referidoprofessor trazia ele próprio uma lista com as virtudes e os defeitos de cada aluno daturma. A avaliação atribuída ao trabalho traduzia a falta de civismo e de valores sociaisdos alunos. Assim, o professor sugeriu que fizessem um novo trabalho, incluindo nosgrupos os colegas que estavam a ser excluídos. Como Maya e Nali eram excelentesalunos, deram um grande contributo para esse trabalho. Porém, fora da sala de aula,tudo se mantinha, os colegas continuavam afastados. Maya estava cansada de ser humilhada e decidiu contar em casa o que se estavaa passar na escola, pois todos os dias chorava porque os colegas a maltratavam apenaspor ter costumes diferentes. De imediato, os pais dirigiram-se à escola e expuseram oproblema ao Diretor. Este foi à sala de aula e falou com os alunos da turma paracompreender o que estava a acontecer. A turma foi obrigada a fazer trabalhos de 3
  4. 4. pesquisa sobre a multiculturalidade, sobre o racismo na escola e sobre os valoreshumanos. Na semana seguinte, foram obrigados a apresentar os seus trabalhos a todas asturmas da escola. Deste modo, toda a escola compreendeu que a cor da pele não érelevante para a criação de amizades, para maior ou menor sabedoria ou para traduzirmelhores ou piores valores humanos. Apesar de tudo isto, a situação continuava desagradável. A menina adorava ler emergulhava no mundo da fantasia para esquecer o inferno que estava a viver. À noite,ao deitar, tinha sempre a companhia de um livro. Naquela noite, estrelada e linda, algo de estranho lhe aconteceu. Quando foiabrir a gaveta do armário para tirar um pijama, ouviu uma voz que lhe sussurrava: _ Olha Maya, andas tão preocupada, tão triste, abres e fechas as minhas gavetascom tanta força!... O que se passa contigo? Maya olhou à sua volta assustada sem perceber o que estava a acontecer. Geloue parou, com os negros olhos bem abertos, fitando afincadamente todas as gavetas doarmário. Tomou coragem e abriu-as e fechou-as delicadamente. Por fim, o armáriovoltou a falar-lhe: _ Não te queria assustar, apenas sou um amigo cá de casa que não te faço mal,guardo delicadamente as tuas roupas, fecho em mim muitos dos teus segredos… Maya respirou fundo e contou-lhe o que lhe ia na alma. O armário soltou uma lágrima de tristeza com aquela amarga história e a sua voztremeu, dizendo: _ Amigaaaaaa…., juntos vamos conseguir fazer ver aos teus colegas que aamizade não se faz por aparências, mas por sentimentos. Amanhã, vais sentar-te ao ladode um colega e deves participar na aula sem medo, pois tu própria não podes afastar-te.Ao almoço, mesmo que te gozem deves sentar-te próximo deles, sem receio de dar oprimeiro passo e verás que, no final desta semana, te sentirás bem melhor. Maya deitou-se e pegou no seu livro, mas não conseguia concentrar-se,acabando por adormecer. Dormiu muito mal nessa noite. Estava nervosa e confusa comtudo isto: a situação da escola, um armário no quarto que falava, tudo lhe erademasiadamente estranho. No dia seguinte, respirou fundo, entrou na sala de aula e sentou-se ao lado deuma colega. Participou ativamente nas aulas e foi elogiada pelos professores. 4
  5. 5. Passou a ir com frequência à biblioteca da escola, sentava-se ao lado dos colegasno refeitório e, nos recreios, para além da habitual companhia de Neli, passou a ter acompanhia da colega de carteira. A partir dessa altura, os colegas de Maya e Nali começaram gradualmente aaproximar-se deles. Certo é que Maya passou a estar muito mais feliz nas aulas e, nofinal do primeiro período, já contava com a amizade de duas colegas que estudavamcom ela e iam a sua casa. Maya, todos os dias, conversava com o seu armário confidente. Contava-lheagora, não as tristezas dos seus dias, mas as alegrias da sua vida. Os pais tinham trabalho e Maya tinha, finalmente, amigos na escola. Os seusresultados escolares melhoraram e recebeu o diploma de mérito no final do ano. 5

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