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Não duvido que essa doutora seja uma pessoa inteligente e
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E isso por duas razões básicas.
Em primeiro lugar, está o fato de que ninguém escreve c...
“culto” e “vulgar”, gerando grave exclusão social.
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Esse é um ponto muito pertinente para o professor, que enfrenta algumas dúvidas
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Referências bibliográficas
ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. 22 ed. São
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Ensaio - Gramática e variação na sala de aula

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE LETRAS CURSO DE LETRAS Alessandra Laroque Ferreira Anderson Moreira Duarte Eduardo Baratto Leonardi Rosana Vieira Chaves Ensaio: Gramática e variação linguística na sala de aula Porto Alegre Junho/2013
  2. 2. Gramática e variação linguística na sala de aula É provável que o Ministério da Educação (MEC) não imaginasse a polêmica que surgiria quando, em maio de 2011, distribuiu o livro didático "Por uma vida melhor". Direcionada à Educação de Jovens e Adultos (EJA), a obra aborda a ideia de preconceito linguístico e variação linguística entre norma culta e popular, incluindo frases como "Os menino pega o peixe" e "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". Mesmo ocupando poucos parágrafos e com a ressalva na obra da importância do falante dominar as diferentes formas e utilizá-las nos momentos adequados, alertando para o risco de sofrer preconceito, a proposta não foi muito bem vista por puristas da língua, jornalistas e até mesmo educadores, que interpretaram o conteúdo como valorização do erro. O jornal Zero Hora, ao abordar o assunto na edição de 19 de maio de 2011, entrevistou a Professora e Pós-Doutora em Linguística, Ana Maria Stahl Zilles, que defendeu a proposta do livro. A polêmica não tem fundamento. Ela está estabelecida nas informações do primeiro capítulo do livro, que é sobre a diferença entre escrever e falar. Ele é muito adequado porque diz que a escrita é diferente da fala e que na fala existe muito mais variação do que na escrita. Faz a distinção entre a variedade popular e a variedade culta, e mostra que elas têm sistemas de concordâncias diferentes. Eles dizem que na variedade popular basta que o primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Quando os autores explicam que é possível falar “os peixe”, não estão querendo dizer que esse é o certo, nem vão ensinar a pessoa a escrever errado. Isso é como as pessoas já falam. A escola tem é que ensinar a norma culta e o livro faz isso. No mesmo dia, David Coimbra, colunista do periódico gaúcho, criticou Zilles, em um texto com o título "A defesa da ignorância", publicado em seu blog (grifos do original).
  3. 3. Não duvido que essa doutora seja uma pessoa inteligente e decerto que é culta, mas ela está muitíssimo equivocada. Em primeiro lugar, não existem duas formas corretas de se expressar. "Uma coisa é falar e outra é escrever", afirma ela. Não, não, NÃO!!! Só existe uma maneira certa de falar e escrever, que é... A MANEIRA CERTA! A leitura do texto de Coimbra deixa dúvida sobre qual ignorância ele faz referência: a dos estudantes ou a do jornalista. Afinal, o que é maneira certa? Quem determina? Zilles já havia proposto este debate anos antes da polêmica surgir. No artigo "Algumas características do português do Brasil", publicado no livro "Ensino do português e cidadania", aponta: Professores de língua? De língua portuguesa? Mas, de qual variedade do português? A preconizada nas gramáticas, o chamado português padrão, que ninguém fala? Ou a efetivamente usada pelos falantes-cidadãos? Em seguida, conclui: (...) essa distinção entre língua culta/padrão e o reconhecimento da variação linguística são condições necessárias para que os professores compreendam mais claramente o seu papel de formar cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade, de acordo com as diversas exigências da vida e da sociedade. A proposta de Zilles não é invenção dela. Está prevista nos "Parâmetros Curriculares Nacionais" do MEC, que têm como objetivo servir de referência curricular para a educação. No capítulo específico sobre Língua Portuguesa, o documento é claro sobre a variação. O uso de uma ou outra forma de expressão depende, sobretudo, de fatores geográficos, socioeconômicos, de faixa etária, de gênero (sexo), da relação estabelecida entre os falantes e do contexto de fala. A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se deve falar e escrever“, não se sustenta na análise
  4. 4. empírica dos usos da língua. E isso por duas razões básicas. Em primeiro lugar, está o fato de que ninguém escreve como fala (...). Em segundo lugar, está o fato de que, nas sociedades letradas (...), há a tendência de tomarem-se as regras estabelecidas para o sistema de escrita como padrões de correção de todas as formas lingüísticas. Cabe observar que os PCN foram lançados em 1998. Treze anos antes de "Por uma vida melhor", já existia orientação do MEC para abordagem da variação linguística no ensino. O pensamento de Coimbra e de outros defensores do ensino exclusivo da gramática tradicional-normativa1 nas escolas vem da herança que, conforme os PCN, só teve questionamentos na década de 80, com o avanço das pesquisas em linguística fugindo da tradição normativa e filológica. Até então, reinavam ideias de gramáticos como Napoleão Mendes de Almeida, que afirma em sua “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”: O professor deve ser um guia seguro, muito senhor da língua; se outra for a orientação de ensino, vamos cair na “língua brasileira”, refúgio nefasto e confissão nojenta de ignorância do idioma pátrio, recurso vergonhoso de homens de cultura falsa e de falso patriotismo. (…) Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. O estudo da língua não se resume apenas a meras definições impostas por um tipo de gramática. Aliás, a gramática é uma variedade linguística, sendo, portanto, muita pretensão exigir que a sociedade siga à risca ensinamentos ditados por seus livros, sem fazer qualquer raciocínio. No Brasil, nosso pensamento ainda está preso a um passado muito distante (a primeira edição da gramática de Almeida completa 70 anos em 2013), não condizente com a realidade da sociedade em que vivemos, pois mantém a língua em estado congelado, fazendo, assim, distinção entre 1 Ao longo deste ensaio, o termo gramática será utilizado com o sentido de gramática tradicional-normativa, obra prescritiva e seguidora da divisão prevista na Nomenclatura Gramatica Brasileira (NGB), a Portaria nº 36, de 28 de janeiro de 1959
  5. 5. “culto” e “vulgar”, gerando grave exclusão social. Dizer que apenas uma única forma do nosso português está correta é agredir os cidadãos alheios a tais regras. Essas concepções geram a crença de que a maioria dos brasileiros não tem identidade por não serem capazes de fazer uso da linguagem considerada padrão e fazem com que certos indivíduos se desvalorizem, inibindo-se na sociedade. Para a professora Doutora em Letras (UFRGS), Magali Endruweit, mesmo com uma nova geração de educadores saindo das faculdades e entrando nas salas de aula tendo noções sobre a variação linguística, os conceitos puristas ainda estão muito arraigados. Às vezes, independe da razão, passando por questões sociais, psíquicas... Há uma recusa ao novo, à mudança que é muito significativa na variação. Isso é uma das causas da manutenção desse lugar de ensino tão normatizado nas escolas. Já na sala de aula, o ex-aluno sofre muita pressão das próprias instituições, que por sua vez são pressionadas pelos pais dos alunos: todos querem que a norma seja mantida e ensinada como garantia de acesso a concursos, vestibulares e universidades. Ninguém quer dar o primeiro passo na mudança e aceitação da variação. Também há a possibilidade de desconhecimento e insegurança do profissional que não foi bem preparado na universidade para poder se sentir seguro o suficiente para ousar.2 Ainda existe grande relutância em aceitar novas propostas de aprendizado. Professores novos são desmotivados pelo mesmo ensino engessado que há anos segue a fórmula de ensinar gramática sem explicar as riquezas da diversidade. Os livros de gramática são bíblias, representando um comportamento de aprendizado dogmático. É válido ressaltar o tempo de estudos entre Ensino Fundamental e Médio: no total, são necessários 12 anos para aprender a nossa língua, e mesmo assim, o aluno conclui o ensino conhecendo muito pouco sobre ela. O aluno sai da escola sem conhecer a história e formação da língua, nem como adequar-se aos diferentes contextos de fala. 2 Comentário feito em resposta a questionamento enviado por correio eletrônico à professora pelos autores deste ensaio.
  6. 6. Esse é um ponto muito pertinente para o professor, que enfrenta algumas dúvidas como: “ensinar língua ou leitura?” ou “trabalhar com gramática ou trabalhar com textos?”. Como diz Marcos Bagno, “os métodos tradicionais do ensino da língua no Brasil visam, por incrível que pareça, a formação de professores de português!”. Se o estudo da gramática tem alto índice de rejeição, é bem provável que os objetivos da disciplina é que estão mal colocados - aliás, o nome da disciplina nas escolas é Língua Portuguesa! Muitos professores acreditam que os estudos da gramática levarão o aluno a ler e escrever melhor. Essa é uma falsa promessa. Conhecer gramática não dá a qualquer pessoa a habilidade de ser um exímio escritor. Mário Perini, em Sofrendo a Gramática, comenta: Meu autor brasileiro favorito é Luís Fernando Veríssimo; na minha opinião (e na de alguns outros), ninguém escreve melhor do que ele hoje em dia, no Brasil. Mas o Veríssimo não sabe praticamente nada de gramática; por ter sido mau aluno, por ter abandonado a escola, por não ter feito letras? Não. Não sabe gramática pela mesma razão que nós, que fomos bons alunos, fizemos nossos cursos até o fim e temos diploma de letras, não a sabemos: porque ninguém sabe gramática. É necessário manter o seguinte pensamento: a língua falada difere da língua escrita, e todo o esforço para fazer uso apenas de uma única forma - ou impor, sobrepondo uma à outra - é inútil e improdutivo. Cabe aos professores, se tiverem suporte necessário, ensinar aos alunos a história da nossa língua, a ler e escrever e, acima de tudo, respeitar a forma de falar desses alunos, sem ameaçá-los com rígidos códigos normativos. Certamente é importante aprender gramática. No entanto, é importante que ela sirva, também, para dar maior flexibilidade à língua (a um estilo de escrita). Ou seja, deve-se ensinar a como usá-la na sociedade, em diferentes contextos. A riqueza da nossa língua está justamente nas suas diversas formas, seja no espaço, no tempo, nas diferentes camadas da população e nos meios em que se apresentam.
  7. 7. Referências bibliográficas ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. 22 ed. São Paulo: Saraiva, 1969. BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 50 ed. São Paulo: Loyola, 2008. BASSO, R; ILARI, R. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2011. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/portugues.pdf>. Acesso em 19 jun. 2013. COIMBRA, David. A defesa da ignorância. Porto Alegre, 2011. Disponível em <http://wp.clicrbs.com.br/davidcoimbra/2011/05/19/a-defesa-da-ignorancia/>. Acesso em 15 jun. 2013. ENDRUWEIT, Magali Lopes. Descompasso no ensino [mensagem pessoal] Mensagem recebida por <anderson.moreiraduarte@gmail.com> em 18 jun. 2013. PERINI, Mário A. Sofrendo a gramática. 3 ed. São Paulo: Ática, 2003. ZERO HORA. Susto na gramática. Porto Alegre, 19 mai. 2011. ZILLES, Ana Maria Stahl. Algumas características do português do Brasil. In: GUEDES, P. C. (Org.). Ensino do português e cidadania. Porto Alegre: PMPA, SMED, 1999. P. 88-107

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