17/07/2007

A menina gotinha de água - Papiniano Carlos
Papiniano Carlos

A Menina Gotinha de Água

Porto, Campo das letra...
com suas irmãs.
Brincava
com os peixinhos,
dava-lhes beijinhos
e beliscões,
e fugia a rir
por entre as algas,
e jogava
às ...
ver as baleias
e os navios.
E a menina
Gotinha de Água,
vestida
de esmeralda
e luar,
e tão pequenina,
a força que ela tinh...
na face,
e logo ela
como se voasse
subiu no ar.
Como se sentia leve!
Subiu,
subiu,
subiu
até que se viu
numa nuvem
cor-de-...
as sete cores
do arco-íris:
vermelho
alaranjado
amarelo
verde
azul
anil
e violeta.
Era tão lindo!
Tempos depois
vieram os ...
estremeceu
de medo.
Mas depois
gostou
da viagem.
E as nuvens
viajaram.
Eram como grandes
navios
de algodão em rama.
Andara...
Olha as praias
lá em baixo!
E casas!
E meninos
a brincar!
E estradas
e pontes
e automóveis
e comboios
a passar!

Depois
o ...
secas as fontes,
as flores
e as searas
murchas,
e os homens
tristes,
muito tristes
sem pão
para darem
aos meninos.
Então,
...
aos homens
e aos meninos?
E disse
muito alto
às suas irmãzinhas
— Vamos.
E deixou-se cair.
Ia à frente
de milhões
de gotin...
lhe disse:
— Bendita!
Bendita sejas!
E logo
uma abelha,
que andava por ali
em busca de pólen
para fazer mel,
pousou numa p...
— Leva o pólen
que quiseres
para o teu mel!

O Sol
brilhava agora
cheio de alegria
e sacudia
a luz
da sua imensa cabeleira...
as mulheres
e os meninos
agradeciam
satisfeitos
à chuva que viera
livrá-los
da sede
e da fome.
— Obrigado!
Obrigado!
Então...
a um palácio
maravilhoso
de cristal
e platina
que havia
no seio
da terra.

Quando acordou,
que saudades
sentiu
do Mar!
E d...
as ovelhas
para o monte,
— quem no diria? —
viu que duma fraga
brotava
uma fonte.
— Que lindo! —
disse o pastorinho,
e com...
trinavam
os passarinhos
nos seus violinos,
tocavam os grilos
e os grilões
nos seus rabecões,
assobiavam os melros
nos seus...
(como os sapos)
humildes mas têm
bom coração.

Duas rolas cantavam
ao desafio
trru-trruu
trru-trruu
no alto dum pinheiro,
...
o que nos apetece.
E até
a senhora
Dona Formiga
sempre atarefada
e consumida
com a sua vida,
pousou o fardo
tão pesado
que...
E pôs-se a saltar
de pedra em pedra,
a correr,
a saltar,
a cantar
toda contente.
Atrás dela
vinham
suas irmãzinhas,
e toda...
vestidas de esmeralda
e luar,
puseram-se
a empurrar
com suas mãozinhas
a roda
do moinho,
e o moleiro
todo contente
dizia:
...
Por entre montes,
no meio de vales,
de aldeia em aldeia.
E eis
chegaram um dia
à enorme represa,
àquela albufeira
ainda va...
do alto da barragem.
E
todas vestidas de esmeralda
e luar
enquanto empurravam
com quanta força tinham
as pás da turbina
fe...
Até que um dia...
um dia
eia!
chegaram ao estuário
do grande rio.
Eram
agora
milhões
e milhões
de gotinhas
de água,
a corr...
debruçadas
nas margens
a vê-las passar.

Uma tarde,
a menina
Gotinha de Água
estremeceu
de amor.
Uma gaivota
roçou-lhe
de ...
A menina
Gotinha de Água
pôs-se a correr
mais ligeira
e disse
às irmãzinhas:
— Vamos, meninas,
toca a andar
que estamos
a ...
estava cheio
de gaivotas
que brincavam
com o fumo
dos navios
e gritavam
alegremente
quando viam passar
vestida de esmerald...
a cantar:
Eu sou
a menina
Gotinha de Água,
gotinha azul
do Mar
que foi
nuvem
no ar,
chuva
abençoada,
fonte
a cantar,
ribei...
nuvem no ar,
chuva
abençoada,
fonte
a brotar,
ribeiro
a saltar,
rio
a correr
e Mar
uma vez mais.

Fim
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  1. 1. 17/07/2007 A menina gotinha de água - Papiniano Carlos Papiniano Carlos A Menina Gotinha de Água Porto, Campo das letras, 1999 Era uma vez uma menina chamada Gotinha de Água. A menina Gotinha de Água vivia no mar sem fim. E era linda, tão linda, vestida de esmeralda e luar. Ora no fundo, ora nas vagas coberta de espuma, ela brincava 2
  2. 2. com suas irmãs. Brincava com os peixinhos, dava-lhes beijinhos e beliscões, e fugia a rir por entre as algas, e jogava às escondidas com as anémonas, que são as flores de mil cores que há no mar. Às vezes, vinha até à praia e beijava as pernas e os cabelos dos meninos. Depois, a rir e a cantar ia de novo para o mar, lá para o largo 3
  3. 3. ver as baleias e os navios. E a menina Gotinha de Água, vestida de esmeralda e luar, e tão pequenina, a força que ela tinha de mãos dadas às suas irmãzinhas! Todas juntas eram o Mar. Um dia, a menina Gotinha de Água, vestida de esmeralda e luar, estava a dormir, a sonhar à flor do mar. Então, o Sol beijou-a 4
  4. 4. na face, e logo ela como se voasse subiu no ar. Como se sentia leve! Subiu, subiu, subiu até que se viu numa nuvem cor-de-rosa. Sorriu de contente, olhou em volta e viu milhões de gotinhas como ela boiarem no ar. — Cá estou eu nas nuvens! — disse a Gotinha de Água. Então o Sol de contente sorriu também e ao beijá-la nos cabelos acendeu no céu 5
  5. 5. as sete cores do arco-íris: vermelho alaranjado amarelo verde azul anil e violeta. Era tão lindo! Tempos depois vieram os ventos e disseram à nuvem: — Vamos. E começaram a empurrar aquela nuvem e as outras nuvens que boiavam altas e rosadas sobre o mar. A princípio, a gotinha 6
  6. 6. estremeceu de medo. Mas depois gostou da viagem. E as nuvens viajaram. Eram como grandes navios de algodão em rama. Andaram assim dias e dias sobre o Mar. Até que uma tarde, estava o Sol a espreitar, muito vermelho, lá tão longe que parecia quase atrás do Mar, a menina Gotinha de Água viu que voavam sobre a Terra. 7
  7. 7. Olha as praias lá em baixo! E casas! E meninos a brincar! E estradas e pontes e automóveis e comboios a passar! Depois o vento parou. A gotinha estremeceu quando viu dum lado a outro do céu as nuvens escurecerem como breu. Olhava para baixo e via a terra seca, os campos secos, 8
  8. 8. secas as fontes, as flores e as searas murchas, e os homens tristes, muito tristes sem pão para darem aos meninos. Então, a menina Gotinha de Água que tinha nascido no mar e usava um vestido de esmeralda e luar, pensou: E se eu fosse dar de beber às flores, aos campos, se eu fosse matar a sede e a fome 9
  9. 9. aos homens e aos meninos? E disse muito alto às suas irmãzinhas — Vamos. E deixou-se cair. Ia à frente de milhões de gotinhas todas vestidas de esmeralda e luar e sorriam, cantavam e assobiavam enquanto caíam. A menina Gotinha de Água pousou mesmo na boca duma flor que sorrindo feliz 10
  10. 10. lhe disse: — Bendita! Bendita sejas! E logo uma abelha, que andava por ali em busca de pólen para fazer mel, pousou numa pétala da linda flor e falou-lhe assim: Bom dia, meu amor. Queres tu dar-me um pouquinho do teu pólen para os meus favos? E a flor de pétalas de ouro abertas e cobertas de gotinhas de água, todas vestidas de esmeralda e luar, só lhe disse: 11
  11. 11. — Leva o pólen que quiseres para o teu mel! O Sol brilhava agora cheio de alegria e sacudia a luz da sua imensa cabeleira sobre o mundo. E as searas que estavam a morrer de sede encheram-se de espigas e as árvores abriram no ar os braços carregados de frutos tão docinhos: ameixas figos maçãs, pêras e uvas! E os homens, 12
  12. 12. as mulheres e os meninos agradeciam satisfeitos à chuva que viera livrá-los da sede e da fome. — Obrigado! Obrigado! Então, a menina Gotinha de Água, vestida de esmeralda e luar, desceu aos caminhos escondidos da terra, passou entre as raízes das plantas, desceu desceu desceu sempre até que chegou 13
  13. 13. a um palácio maravilhoso de cristal e platina que havia no seio da terra. Quando acordou, que saudades sentiu do Mar! E disse: — São horas, irmãzinhas. E puseram-se a caminhar lá nos caminhos do fundo da Terra. Caminharam. Caminharam. Até que um dia, um pastorinho que levava 14
  14. 14. as ovelhas para o monte, — quem no diria? — viu que duma fraga brotava uma fonte. — Que lindo! — disse o pastorinho, e com uma folha de castanheiro fez uma bica por onde a menina Gotinha de Água e suas irmãzinhas, todas vestidas de esmeralda e luar, saltaram alegres a cantar. Era um dia de sol na Primavera, 15
  15. 15. trinavam os passarinhos nos seus violinos, tocavam os grilos e os grilões nos seus rabecões, assobiavam os melros nos seus flautins e os sapos, os sapinhos e os sapões, à porta das suas casotas, estavam a ouvir contada pelo sapo Zé Manel a história dum menino que foi poeta e pastor da Primavera e que era muito amigo dos sapos e sapinhos e sapões e de todos os que são 16
  16. 16. (como os sapos) humildes mas têm bom coração. Duas rolas cantavam ao desafio trru-trruu trru-trruu no alto dum pinheiro, e um pica-pau, tau-tau tau-tau-tau brincava de carpinteiro. Satisfeitas e felizes, as cigarras faziam versos ao sol e à alegria de viver: como é bom amar olaré, olaré, o que o Sol aquece e sonhar, cantar olaré, olaré, 17
  17. 17. o que nos apetece. E até a senhora Dona Formiga sempre atarefada e consumida com a sua vida, pousou o fardo tão pesado que levava e estava feliz, esquecida ao sol da manhã… A menina Gotinha de Água, vestida de esmeralda e luar, olhou o pastorinho, olhou as flores e os bichinhos do monte e disse-lhes: — Bom dia, amiguinhos! 18
  18. 18. E pôs-se a saltar de pedra em pedra, a correr, a saltar, a cantar toda contente. Atrás dela vinham suas irmãzinhas, e todas vinham muito contentes e felizes. E tanto correram, tanto saltaram que em breve, eia! estavam no ribeiro ao pé do moinho. — Olá, senhor moleiro — Bom dia, meninas. E as gotinhas de água, 19
  19. 19. vestidas de esmeralda e luar, puseram-se a empurrar com suas mãozinhas a roda do moinho, e o moleiro todo contente dizia: — Obrigado! Obrigado! E seguiram. Saltavam de penedo em penedo, corriam a cantar entre os peixinhos e as enguias esguias do ribeiro. Caminharam. Caminharam. 20
  20. 20. Por entre montes, no meio de vales, de aldeia em aldeia. E eis chegaram um dia à enorme represa, àquela albufeira ainda vazia. E toca a enchê-la enche que enche que queriam vê-la a transbordar. Quantos dias passaram? Estavam agora no topo da alta barragem. Então a menina Gotinha de Água disse às suas irmãzinhas: — Meninas, vamos agora pôr a girar o pião da electricidade! — Vamos! vamos lá! E lançaram-se a toda a velocidade 21
  21. 21. do alto da barragem. E todas vestidas de esmeralda e luar enquanto empurravam com quanta força tinham as pás da turbina felizes cantavam: Roda que roda gira pião roda turbina na nossa mão canta rodízio o novo prodígio bailemos de roda gira dança pião ai roda que roda na nossa mão. Depois outros rios se vieram juntar tecendo os fios, os caminhos a caminho do Mar. 22
  22. 22. Até que um dia... um dia eia! chegaram ao estuário do grande rio. Eram agora milhões e milhões de gotinhas de água, a correr, a brincar, a cantar a caminho do Mar. E havia barcos no rio e homens a pescar e pontes, vilas e cidades 23
  23. 23. debruçadas nas margens a vê-las passar. Uma tarde, a menina Gotinha de Água estremeceu de amor. Uma gaivota roçou-lhe de leve com sua asa. Era o Mar que estava perto! O rio era cada vez maior, mais largo, mais fundo. E havia já grandes navios e uma grande cidade cheia de casas e de gente. 24
  24. 24. A menina Gotinha de Água pôs-se a correr mais ligeira e disse às irmãzinhas: — Vamos, meninas, toca a andar que estamos a chegar à nossa casa no Mar! E uma toninha que subia o rio deu um salto fora da água e disse: — Ora viva quem é tão linda! O céu 25
  25. 25. estava cheio de gaivotas que brincavam com o fumo dos navios e gritavam alegremente quando viam passar vestida de esmeralda e luar a menina Gotinha de Água: — Ora viva! Ora viva! Então, a linda menina Gotinha de Água, vestida de esmeralda e luar, viu que chegara finalmente ao Mar. E desatou 26
  26. 26. a cantar: Eu sou a menina Gotinha de Água, gotinha azul do Mar que foi nuvem no ar, chuva abençoada, fonte a cantar, ribeiro a saltar, rio a correr, e que volta à sua casa no Mar onde vai descansar, dormir e sonhar antes que de novo torne a ser 27
  27. 27. nuvem no ar, chuva abençoada, fonte a brotar, ribeiro a saltar, rio a correr e Mar uma vez mais. Fim 28

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