A globalizaçãoda comunicação
Coordenação Editorial    Irmã Jacinta Turolo Garcia   Assessoria Administrativa     Irmã Teresa Ana Sofiatti     Assessori...
Armand Mattelart   A globalização  da comunicaçãoTraduçãoLaureano Pelegrin
M4354g         Mattelart,Armand.              A globalização da comunicação / Armand         Matttelart; tradução Laureano...
SumárioPrefácio à edição brasileira                07Introdução                                  11Capítulo 1:As Redes da ...
Capítulo 5:A Transnacionalização e arazão geoeconômica                        99       Rumo ao fim do monopólio dos     Es...
Prefácio à edição     brasileira      "O que não se conquistou pela força podeser obtido por meio dos negócios": desde mea...
Nem bem dois anos se passaram, e a cruarealidade da guerra de Kosovo mostrou todo oridículo desse tipo de discurso que tem...
perigoso que nos obriga a levar a sério a pre-ocupação dos que se opõem à intervenção mili-tar de evoluir o conceito estra...
tam ser possível a construção de uma alternati-va de emancipação humana através da interli-gação das diversas sociedades, ...
Introdução      Os sistemas de comunicação em temporeal determinam a estrutura de organização doplaneta. O que se convenci...
nações com a segurança, o pragmatismo das em-presas e o imperativo categórico da divisão in-ternacional do trabalho ou, ai...
vertiginoso aumento de poder, marcado pelascrises das bolsas e problemas ecológicos, pelasmissões militares, pelas solenid...
1 As Redes da universalização      A internacionalização da comunicação é fi-lha de dois universalismos: o Iluminismo e o ...
nário natural da revolução industrial. Profunda-mente inserida na construção do espaço entre osEstados soberanos,surge uma...
as fronteiras.Apostrofando o censor, Denis Dide-rot (1713-1784) escreve em sua Carta sobre oComércio de Livros, em 1763: “...
aqueles que, por sua condição, eram os únicosque podiam comunicar-se fluentemente e todosos demais, tidos como ineptos par...
3. Comunicação por sinais. - A invençãodo telégrafo de tipo visual pelos irmãos Chappeinsere-se nessa busca por uma “lingu...
decretado o segredo dos códigos, tornou-se re-gra. A “linguagem de sinais telegráficos” perma-neceu por longo tempo um seg...
ções contribuem para sua promoção e, dessemodo, para a elaboração de um corpo de normasintercambiáveis que possibilita a c...
nações e a abolir as antigas “sociedades milita-res”.Arauto da compreensão entre os povos e asnações, a “República mercant...
Ao lutar pela abolição dos “impostos so-bre o saber”, obstáculo a uma imprensa livre, afilosofia política do liberalismo m...
abre caminho para os acordos bilaterais de co-municação. No final da década de 1840, assina-se um primeiro tratado entre a...
bros, e fiscalizar os fluxos telegráficos. Ao con-trário das antigas formas de acordo intergover-namentais, as decisões to...
manda provocada pela guerra, somada à baixaoferta de mão-de-obra qualificada, vai estimularainda mais este processo.      ...
e a Itália em torno do franco germinal. Em 1867,paralelamente à Exposição Universal de Paris, ogoverno convocava uma confe...
século, essa territorialização excêntrica tambémcausa espécie nos grandes países politicamenteindependentes e economicamen...
nacional para pôr fim à confusão dos horários lo-cais, as estradas de ferro britânicas decidem ali-nhar seu “horário ofici...
dispersas. Além disso, por exigir vultosos em-préstimos de dinheiro do exterior, a construçãodas redes de estradas de ferr...
de, após três tentativas frustradas, instala-se oprimeiro cabo transatlântico. Uma linha diretaentre Malta e Alexandria ab...
sua expansão oeste-leste e o império britânicoem sua expansão norte-sul, Paris somente con-segue comunicar-se com o Sudão ...
vigente para o cabo submarino. A Alemanha,porém, que dispõe das patentes elaboradas pe-las suas empresas Siemens e AEG, fu...
Desde os primeiros anos do século XX, osmeios socialistas de todos os matizes procura-vam definir a natureza dessa lógica ...
primeiro cabo através do Mar Negro, e o estabe-lecimento de linhas telegráficas diretas, tantosobre o campo de operações c...
províncias, converge para a insurreição republi-cana de Wuhan, e derruba, em 1911, um impériomilenar. No quadro da famosa ...
tência mundial”, este texto teórico aborda a di-mensão espacial das relações internacionais deum ponto de vista planetário...
mais “governado” por um Estado tutelar. Esteaxioma está na base da ciência positivista ou “sa-ber positivo” que propõe uma...
antes a Inglaterra inaugura a primeira estrada deferro digna deste nome. As autoridades france-sas, por seu lado, estão se...
de ser o centro de suas preocupações de geren-ciamento do planeta. Mas isso não impede decantar uma vitória: a comunicação...
dans l’exploitation des chemins de fer (1855),onde critica os que confundem “movimentaçãomercantil” com “movimentação inte...
nem nacional, mas social, envolve todos os paí-ses onde desenvolveu-se a sociedade moderna,e necessita, para sua completa ...
antigo médico da marinha, profundamente in-fluenciado, a princípio, pela escola inglesa doromance gótico, e sua representa...
te simbolicamente, a primeira Exposição, abriga-da pelo Crystal Palace de Londres em 1851, inau-gura o primeiro cabo subma...
No final do século XIX, o anarquista e geógraforusso Pierre Kropotkin (1842-1921) e o sociólo-go escocês Patrick Geddes (1...
Existe um contraste flagrante entre o dis-curso utópico de promessas de um mundo me-lhor por meio da técnica e a realidade...
2 A Fábrica da cultura      O século XIX inventa a news e, com ela, oideal da informação instantânea. Entre 1830 e1850 cri...
péias têm porte internacional. Por meio de umasérie de alianças concluídas em 1870, essa tría-de divide o mundo em “territ...
funda-se o Le Matin, animado por uma equipede jornalistas com vários ingleses e americanos.Pouco tempo depois, o New York ...
prensa sensacionalista de William RandolphHearst, cópia do Cidadão Kane, imortalizadomais tarde por Orson Welles, desencad...
2. A Informação estratégica. - Paralela-mente à informação de imprensa, são estabele-cidos os primeiros dispositivos de ob...
vidades de espionagem industrial, empregava106 pessoas; em 1914, contava com 2400 e onúmero de filiais subira de 15 para 1...
de culturas tão diferentes como as da Inglaterrae Espanha. Primeira fórmula de exportação deuma cultura destinada ao grand...
1886 por apenas dez Estados. Um século maistarde, os Estados Unidos continuarão contestan-do o conceito de “direito moral”...
Inglaterra teve a primazia no século XVIII e co-meço do XIX, o suíço Rodolphe Töpffer (1799-1846), romancista, dramaturgo ...
nizadoras, onde ele discute os riscos inerentes àesquematização e à simplificação.      2. Som e desenhos animados. - Em 1...
mam conhecimento desta técnica ao mesmotempo que a Europa e os Estados Unidos. Filma-se em países tão diversos como Egito,...
graças à guerra das patentes (1909-1914) porprodutores independentes que recusavam pa-gar as licenças e estavam interessad...
sociação. Conforme essa concepção, as novasformas de agrupamento e de reunião são vistoscomo uma ameaça à ordem estabeleci...
minado por uma representação chamada difu-sionista: o raio de influência parte sempre deum centro decisório que impõe sua ...
hebdomadário em 1868 com o título Les Mis-sions Catholiques, e vão se adaptando à evolu-ção do jornalismo ao incorporar ma...
Esta dependência geral de todos e detudo, no espaço e no tempo, esta solidariedadeorgânica, indicam o caminho rumo a um no...
identidade nacional, qual das culturas vai im-por-se? A questão é, de fato, efervescente. Naordem dos fatos, a França, cuj...
na Inglaterra, onde predominam os “romancesadaptados à mentalidade feminina ou infantil, oudos homens de negócio superocup...
3 A Vez da propaganda     A Grande Guerra conferiu à propagandaseu título de nobreza. A paz a consagra comométodo de gover...
Londres é a referência técnica para a transmis-são mundial de notícias da guerra. O governodos Estados Unidos cria o Commi...
qualquer atividade ligada à indústria do cinemae da imagem luminosa”. A idéia subjacente énão apenas transformá-la em arma...
transferem para o tempo de paz essa experiên-cia dos tempos de guerra. Cria-se a convicçãode que a democracia não consegue...
Os dois autores chegam a pensar em uma cam-panha sistemática de desinformação destinadaao público americano. É, em todo ca...
num navio caça-minas e em seguida viajou paraos Estados Unidos para observar não somente aprodução dos primeiros filmes de...
Milton santos   a globalização da comunicação
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Milton santos a globalização da comunicação

  1. 1. A globalizaçãoda comunicação
  2. 2. Coordenação Editorial Irmã Jacinta Turolo Garcia Assessoria Administrativa Irmã Teresa Ana Sofiatti Assessoria ComercialIrmã Áurea de Almeida NascimentoCoordenação da Coleção Verbum Luiz Eugênio Véscio
  3. 3. Armand Mattelart A globalização da comunicaçãoTraduçãoLaureano Pelegrin
  4. 4. M4354g Mattelart,Armand. A globalização da comunicação / Armand Matttelart; tradução Laureano Pelegrin. - - Bauru, SP: EDUSC, 2000. 192 p. ; 19 cm. - - (Coleção Verbum) ISBN 85-86259-97-7 Inclui bibliografia. Tradução de: La mondialisation de la communication 1.Globalização. I.Titulo. II.Série CDD 382 ISBN 2-13-047945-6 (original) Copyright© Presses Universitaires de France, 1996 Copyright© de tradução – EDUSC, 2000 Tradução realizada a partir da 1ª edição (1996). Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela Editora da Universidade do Sagrado Coração Rua Irmã Arminda, 10-50 Cep 17044-160 - Bauru - SP Fone (0XX)14 - 235-7111 - Fax 235-7219 e-mail: edusc@usc.br
  5. 5. SumárioPrefácio à edição brasileira 07Introdução 11Capítulo 1:As Redes da universalização 15 O Caudal do Iluminismo 16 Os Postos avançados do livre comércio 21 A Formação da potência mundial 30 As Utopias da comunicação universal 37Capítulo 2:A Fábrica da cultura 47 A Indústria da informação 47 Rumo à industrialização da cultura 52 A Necessária interdependência 61Capítulo 3:A Vez da propaganda 65 O Gerenciamento da opinião popular 65 A Ascensão irresistível dos Estados Unidos 70 A Internacionalização das ondas 81Capítulo 4:A Geopolítica bipolar dastecnologias 85 Conquistar os corações e as mentes 85 Conquistar o espaço 88 Integrar o Terceiro Mundo 94
  6. 6. Capítulo 5:A Transnacionalização e arazão geoeconômica 99 Rumo ao fim do monopólio dos Estados nacionais 99 As Relações de força e as media- ções nacionais 103 O Despertar da consciência planetária 110Capítulo 6:A Globalização: as redes daeconomia pós-nacional 123 O Capitalismo mundial integrado 123 A Busca pelo mercado único de imagens 133 A Guerra globalizada 145Capítulo 7:A Diferença: por uma críticaao globalismo 149 Um Novo mapa das desigualdades 149 As Fronteiras da monocultura 156 Rumo a um novo “cosmopolitismo democrático”? 169Conclusão 183Bibliografia 187
  7. 7. Prefácio à edição brasileira "O que não se conquistou pela força podeser obtido por meio dos negócios": desde mea-dos da década de 80 a nova elite mundial temcontinuamente reivindicado o papel messiâni-co de novo agente da paz mundial. Onde o ecu-menismo religioso e as estratégias dos grandesimpérios falharam na unificação da "grandefamília humana" numa comunidade universal,esses mesmos líderes têm-se arrogado o papelde protagonistas da futura grande unificação.Numa entrevista incrível concedida em 1997ao canal francês Arte, Ted Turner, fundador daCNN, primeira rede de televisão planetária,extrapolou na expressão desse milenarismoque beira a megalomania: "Exercemos umpapel positivo. Desde a instalação da CNN,acabou a guerra fria, os conflitos na AméricaCentral cessaram, a paz na África do Sul acon-teceu etc. As pessoas finalmente compreende-ram que a guerra é uma coisa estúpida. Ora,ninguém deseja passar por estúpido. Por causada CNN, a informação começou a circular emtodo o mundo e ninguém mais quer parecerum idiota. Então eles preferem a paz, porqueesta é uma atitude mais esperta." 7
  8. 8. Nem bem dois anos se passaram, e a cruarealidade da guerra de Kosovo mostrou todo oridículo desse tipo de discurso que tem acom-panhado a saga do mercado global de imagens.O que começava a apresentar fissuras eram asdeclarações peremptórias assestadas, desde odesaparecimento do mundo bipolar, sobre o fimda história, das ideologias, das classes, do políti-co e da história,em proveito das novas "forças danatureza": o mercado e a técnica. A história serepetia e, com ela, a opacidade, a complexidadee a profundidade espaço-temporal dos fatos. O projeto de planetarização da democra-cia de livre mercado, de instauração de uma"comunidade pacífica de democracias respon-sáveis, interligadas pelo comércio e pelos ideaisdo liberalismo", conforme o consagrado eufe-mismo, mostrou sua face obscura: trata-se deuma estratégia de segurança global, indispen-sável para garantir a realização e a estabilidadedas novas formas do mundo sob a dominação damarketização. A possibilidade da globalizaçãogeoeconômica, definida por seus ideólogoscomo uma "descentralização em nível plane-tário", somente é concebível com a concen-tração do poder geopolítico. Em jargãoestratégico, tal exigência já é expressa com umafórmula: unipolaridade-com-globalização. Que oargumento da "guerra humanitária" ou "guerramoral", executada como uma cruzada de defesados direitos humanos, tenha sido invocado paralegitimar o emprego da força, é um desvio 8
  9. 9. perigoso que nos obriga a levar a sério a pre-ocupação dos que se opõem à intervenção mili-tar de evoluir o conceito estratégico da OTAN,sob a hegemonia do poderio americano, rumo aum papel de ingerência planetária, forçosa-mente seletiva, em detrimento da missão uni-versal que o conjunto da comunidade dosEstados-nação confiou à ONU com a finalidadede resolver os conflitos. Ao quebrar os discur-sos ingênuos sobre a globalização redentora esua resposta simplista a questões complexas, ascontrovérsias suscitadas pela última guerra doséculo XX fixou uma pauta de discussão políti-ca para o século XXI. Esta aceleração da históriados conflitos dos homens rumo a formas deintegração mais aperfeiçoadas nos remetempara muito longe dos refrões promocionais que,desde o início da desregulamentação, têm sem-pre anunciado o lançamento da globalizaçãocomo se ela fosse uma vulgar mercadoria: "Aglobalização chegou.Você consegue navegar naNova Ordem Mundial?". As controvérsias sobre o sentido da guerrados Bálcãs têm mostrado toda a dificuldade dasclasses intelectuais que, em todas as latitudes,tentam caracterizar a natureza das mudanças derelações de força e da ordem antiga do mundo.O retorno forte, e acrítico, nesses períodos decrise aguda, dos pares conceituais historica-mente rotulados americanização/antiamerican-ismo ou imperialismo/antiimperialismo é umexemplo entre outros. Para aqueles que acredi- 9
  10. 10. tam ser possível a construção de uma alternati-va de emancipação humana através da interli-gação das diversas sociedades, existe umaurgência em pensar juntos a reformulação dosconceitos e dos modos de análise que possibili-tariam uma reconciliação com a inteligibilidadepolítica de um mundo cada vez mais complexo.E esta tarefa nos parece inseparável da análisegenealógica. É esta a modesta intenção destaobra lançada originalmente em língua francesaem 1996, cuja publicação brasileira foi possívelgraças aos préstimos da nova editora univer-sitária EDUSC e ao empenho pessoal de seuassessor editorial, Luiz Eugênio Véscio. Paris, março de 2000.10
  11. 11. Introdução Os sistemas de comunicação em temporeal determinam a estrutura de organização doplaneta. O que se convencionou chamar demundialização/globalização - o primeiro termo éfamiliar a todas as línguas neolatinas, o segundoé de origem anglo-saxônica - combina com a flui-dez dos intercâmbios e fluxos imateriais trans-fronteiriços. Este pesqueno livro pretende regis-trar essa nova fase de abertura do mundo, na his-tória das formas sociais que o processo de inter-nacionalização foi assumindo no correr do tem-po.A interconexão generalizada das economias edas sociedades é, com efeito, o resultado do mo-vimento de integração mundial que foi iniciadona virada do século XIX.Ampliando progressiva-mente o campo de circulação de pessoas, comotambém de bens materiais e simbólicos, os ins-trumentos de comunicação têm acelerado a in-corporação das sociedades particulares em gru-pos cada vez maiores, redefinindo continuamen-te as fronteiras físicas, intelectuais e mentais. Diversas personagens, tanto da vida priva-da como da pública, têm colaborado para rede-senhar a topografia das redes e sistemas em es-cala mundial. Elas têm procedido inspiradas emideais e interesses os mais diversos: o universa-lismo de uma civilização predestinada, o ecume-nismo religioso, a preocupação generalizada das 11
  12. 12. nações com a segurança, o pragmatismo das em-presas e o imperativo categórico da divisão in-ternacional do trabalho ou, ainda, o bloco reivin-dicativo dos oprimidos. Figura de proa do pro-gresso, o universo reticular também impregnouas utopias. Eterna promessa, a rede de comuni-cações é símbolo de um mundo melhor, porquemais solidário. Da estrada de ferro até as “estra-das da informação”, esta crença foi se reavivan-do no decorrer das gerações tecnológicas.As re-des, porém, sempre estiveram no centro da lutapelo domínio do mundo. A homogeneização das sociedades é ine-rente à unificação da economia.A fragmentaçãodas mesmas, seu corolário. Pois, entre a razãomercantil e as culturas, entre um sistema tecno-científico que se expande e o desejo de afirma-ção de pertença, a diferença aumenta.As dispari-dades transformam a marcha da humanidaderumo à integração num verdadeiro enigma. Harmonizar-se com a genealogia do espa-ço internacional mostra-se tanto mais estratégi-co quanto as novas apelações como mundializa-ção/globalização são capciosas, sempre prontasa subir à cabeça. Portanto é de grande conve-niência adotar a dúvida metódica no presentecaso e refutar a idéia da a-topia social dos ter-mos que descrevem o mundo, para poder iden-tificar a procedência de seus idealizadores eoperadores. Pois estes termos deram a volta aomundo mesmo antes que sua definição fosseempregada como instrumento de análise. Seu 12
  13. 13. vertiginoso aumento de poder, marcado pelascrises das bolsas e problemas ecológicos, pelasmissões militares, pelas solenidades esportivasou por outros acontecimentos transmitidospara todo o mundo, joga a História no esqueci-mento. Corre-se, portanto, um risco significativode haver uma dificuldade sempre maior de dis-tinguir entre fantasia e realidade, num campo jápor demais vulnerável às mitologias. 13
  14. 14. 1 As Redes da universalização A internacionalização da comunicação é fi-lha de dois universalismos: o Iluminismo e o li-beralismo. Dois projetos de construção de umespaço mundial totalmente fluido, ora opostos,ora convergentes, procuram concretizar-se. Deum lado, as “grandes repúblicas democráticas”da utopia revolucionária; de outro, a “repúblicamercantil universal” da economia clássica. A comunicação internacional surge com onacionalismo moderno, para quem o território éa área geográfica que serve de fundamento à so-berania de uma determinada comunidade. Se-guindo o caminho traçado pela Revolução Fran-cesa,multiplicam-se os Estados nacionais,que sãouma forma peculiar de organização existente, emgerme, no tratado de Westfália (1648) que, umavez decretando o fim da ordem regida pelo Papa-do e pelo Sacro-Império Romano-Germânico,muito simbolicamente, havia tirado ao latim suahegemonia em proveito da língua francesa. Du-rante o século XIX começa a desenvolver-se umsistema de relações que liga essas novas entida-des nacionais entre si por meio de um direito co-mum. Adotando uma configuração definitiva, asfronteiras externas e as subdivisões administrati-vas internas do Estado nacional compõem o ce- 15
  15. 15. nário natural da revolução industrial. Profunda-mente inserida na construção do espaço entre osEstados soberanos,surge uma nova ordem produ-tiva sob a égide da divisão internacional do traba-lho. Em 1802, a língua francesa ratifica esse novoprojeto de economia política mundial ao incor-porar o anglicismo “international”.O Caudal do Iluminismo 1. Liberalização dos fluxos. - A invençãoda comunicação como ideal ocorreu sob o sig-no das idéias de modernidade e perfectibilidadedas sociedades humanas. Ela é fruto da esperan-ça no futuro. O Iluminismo preparou seu advento aopropor o comércio como gerador de valores. Osengenheiros civis do Antigo Regime estiveramentre os primeiros a formalizar uma problemáti-ca da comunicação associada a um espaço na-cional e à formação de um mercado internoaplicando-a às estradas e canais. Ao lançar pon-tes e traçar estradas, eles acreditavam estar obe-decendo aos desígnios da razão. Ao domesticara “natureza selvagem”, irracional, que separa oshomens e impede a sua mútua compreensão,eles acreditavam estar contribuindo para otriunfo da “natureza civilizada”, racional, queune, liga e garante a fluidez dos fluxos de pes-soas e mercadorias. Erigida em princípio de direito humano, a“liberdade de pensamento e de opinião” desafia 16
  16. 16. as fronteiras.Apostrofando o censor, Denis Dide-rot (1713-1784) escreve em sua Carta sobre oComércio de Livros, em 1763: “Podereis ponti-lhar, prezado senhor, toda a extensão de vossasfronteiras com soldados, armá-los com baionetaspara que rechassem quaisquer possíveis amea-ças, mas estes livros, queirai perdoar-me a ex-pressão, passarão pelo meio de suas pernas e, sal-tando por suas cabeças, saberão chegar até nós.” O paradoxo do Iluminismo é que, parailustrar os benefícios da livre circulação dasidéias e mercadorias, os autores da Enciclopé-dia não hesitam em invocar a seu favor a Chinado despotismo esclarecido.Voltaire (1694-1778)engrandece o papel desempenhado pelas gaze-tas de notícias da Corte de Pequim na gestão dacoisa pública enquanto François Quesnay(1694-1774), primeiro teórico dos fluxos da ri-queza, louva a perfeição das estradas e dos ca-nais no Império do Meio para legitimar a divisada escola fisiocrática: Laissez faire, laissez pas-ser (Deixai fazer, deixai passar). 2. Revolução na linguagem. - A França de1789 desejava concretizar a idéia do poder cria-dor do comércio. Universalizando as regras dodireito e a circulação do dinheiro, dos bens edas pessoas, ela construiu sua unidade e suaidentidade nacional ao mesmo tempo em queforjou uma identidade universal. “Uma única nação. Uma única lei. Um sóidioma.”Ao suprimir a barreira lingüística entre 17
  17. 17. aqueles que, por sua condição, eram os únicosque podiam comunicar-se fluentemente e todosos demais, tidos como ineptos para a comunica-ção entre si, a política revolucionária de unifica-ção lingüística visava absorver as diferenças ederrubar as barreiras dos particularismos rema-nescentes do feudalismo e das monarquias ab-solutas. Para o déspota, declara Bertrand Barèreem 1794 ante o Comitê de Saúde Pública, “eraimperioso isolar os povos, separar os países, en-fraquecer interesses, dificultar as comunica-ções, suspender a simultaneidade das idéias e aidentidade dos movimentos”.A unidade lingüís-tica libera as energias do “caudal do Iluminis-mo” e converte cada tipógrafo num “mestre pú-blico de língua e legislação”. Para possibilitar as relações, era necessárionão apenas “acabar com os dialetos e adotar uni-versalmente a língua francesa” (título do relató-rio do abade Dom Gregório, em junho de 1794),mas também “revolucionar o próprio idioma”.Condorcet havia já há muito sonhado com uma“língua universal”, rigorosa como a geometria eque seria fruto da “aplicação dos métodos mate-máticos a novos objetos”. A política lingüísticados revolucionários é obcecada por um modelode “língua universal”: a linguagem de sinais. Alinguagem dos surdos-mudos, inventada peloabade de l’Epée e aperfeiçoada por Dom Sicard,exerce grande fascínio sobre muitos dentre eles. 18
  18. 18. 3. Comunicação por sinais. - A invençãodo telégrafo de tipo visual pelos irmãos Chappeinsere-se nessa busca por uma “linguagem de si-nais”. Este sistema repousa sobre um princípiolingüístico: quanto maior for a quantidade de si-nais disponíveis, menor será a quantidade ne-cessária para transmitir uma informação, e maisrápida será essa transmissão. Por ocasião dainauguração da primeira linha em 1794, Barèreexulta:“É um meio que tende a consolidar a uni-dade da república pela ligação íntima e imedia-ta com que favorece as partes. Os povos mo-dernos, pela invenção da imprensa, da pólvora,da bússola e da linguagem de sinais telegráficosconseguiram derrubar os grandes obstáculos àcivilização humana.” Surgem as especulações so-bre o possível emprego civil desta técnica; ospensadores revolucionários acreditavam quebastaria multiplicar as linhas e publicar seu alfa-beto cifrado para possibilitar a todos os cida-dãos da França “comunicar entre si suas idéias eanseios”. Ficariam assim reproduzidas, em esca-la nacional, as condições da ágora grega e, aomesmo tempo, o argumento de Jean-JacquesRousseau contra a possibilidade das “grandesRepúblicas democráticas” perderia todo seu va-lor.Assim, desde os primeiros tempos, a técnicada comunicação a distância ficou consagradacomo um sinal da nova democracia. A seqüência da história é conhecida. O re-gime de exceção, que lhe havia destinado parauma finalidade exclusivamente militar e havia 19
  19. 19. decretado o segredo dos códigos, tornou-se re-gra. A “linguagem de sinais telegráficos” perma-neceu por longo tempo um segredo de Estado.Foi necessário esperar quinze anos após a in-venção do telégrafo elétrico (1837) para que opúblico fosse autorizado a utilizar esse meio decomunicação. O socialismo utópico compensaesse ostracismo da expressão do cidadão confe-rindo às técnicas de comunicação um papel es-sencial na construção da Cidade comunitária.Precedendo a implementação do telégrafo elé-trico, Charles Fourier (1772-1837) transforma alinguagem de sinais em base da “unidade uni-versal” e inventa a “transmissão mirágica” que,retransmitida pelo planeta Mercúrio, estabeleceuma ligação entre Londres e a Índia em menosde quatro horas. Construída em formato de estrela tendo acapital em seu centro, como todas as grandes re-des posteriores e como a rede de estradas que aprecedeu, a rede do telégrafo visual garante acomunicação com as importantes praças fortesdas fronteiras e do litoral e das grandes cidades.Sob o Império, ela chega até Viena, Amsterdã eMayence, somente perdendo sua importânciainternacional com a queda de Napoleão. 4. Padronização. - Comunicar significacolocar dentro da norma, suprimindo oaleatório. Se as normas de segurança impostaspelo Estado francês ao telégrafo visual contra-riam a dinâmica das relações tal como é postula-da pelo ideal da comunicação, outras disposi- 20
  20. 20. ções contribuem para sua promoção e, dessemodo, para a elaboração de um corpo de normasintercambiáveis que possibilita a comunicação“universal”. É a função principalmente da unifor-mização do cálculo das medidas, cimento dastransações comerciais e base cadastral da fiscali-zação. A adoção do sistema métrico de pesos emedidas extingue as diversas medidas e costu-mes de uso exclusivamente local. A nova unida-de estável fundamenta-se no simbólico da comu-nicação. Durante a Convenção Nacional de1792, o astrônomo Joseph de Lalande apresentao metro como um “novo laço de fraternidadepara todos os povos que o adotarem”. O abadeDom Gregório o encarece e o saúda como umsímbolo da unidade nacional e uma “verdadebenfazeja destinada a tornar-se um laço de uniãoentre as nações,e uma das mais importantes con-quistas do ideal de igualdade”. Em 1875, e apesarde irredutibilidade do Império Britânico,o metroé adotado nas referências internacionais. A uni-versalização do sistema métrico abriu caminho àdivisão decimal da moeda. Decretado em 1795,este princípio de fracionamento monetário che-ga pouco tempo depois aos Estados Unidos.Os Postos avançados do livre comércio 1. A Divisão internacional do trabalho. -Para o fundador da economia clássica AdamSmith (1723-1790), o mercador é um cidadão domundo. O mercado cosmopolita é chamado aderrotar as forças hostis das desavenças entre as 21
  21. 21. nações e a abolir as antigas “sociedades milita-res”.Arauto da compreensão entre os povos e asnações, a “República mercantil universal” é cha-mada a unir o gênero humano numa comunida-de econômica composta por consumidores, aosquais os produtores oferecem seus produtos,procurando-se estimular a concorrência visan-do adquirir a maior quantidade possível de mer-cadorias, com a máxima qualidade possível pelomenor preço. Já em 1776, em sua obra sobre ariqueza das nações, o economista escocês fazdo individualismo e da livre concorrência nummercado único regulado pela divisão interna-cional do trabalho a pedra de toque de seu regi-me universal.A comunicação conjuga-se com di-visão do trabalho. Indispensável para organizaras operações internas de uma fábrica do melhormodo possível, ela tem a mesma importância naorganização do ateliê mundial. “Produzir é movimentar”: tal máxima, tãocara a John Stuart Mill (1806-1873), estabelece ohorizonte comunicativo da economia política li-beral da segunda metade do século XIX.A regrado livre comércio vale tanto para a informaçãocomo para os meios de transporte. O princípiodo livre fluxo da informação é somente um co-rolário do da livre circulação das mercadorias eda mão-de-obra. É um ponto desenvolvido maispormenorizadamente por Mill em 1848 em seulivro Principes d’ économie politique, onde eledenuncia os impostos que atravancam os fluxosde informação ao onerar os anúncios publicitá-rios, os jornais e serviços postais. 22
  22. 22. Ao lutar pela abolição dos “impostos so-bre o saber”, obstáculo a uma imprensa livre, afilosofia política do liberalismo mostrou nutrirum verdadeiro ideal emancipador. Ela postulavaa secularização da sociedade, colocava a liber-dade individual na base das instituições e pro-curava impor limites ao poder arbitrário do Es-tado. O livre comércio tendo-se tornado artigode fé, o liberalismo econômico eclipsa estestrês elementos e consagrou na prática o deter-minismo da economia mercantil. É a eclosão doque se chama market mentality, conforme aexpressão do historiador econômico Karl Po-lanyi, o nascimento de uma “nova sociedade”,onde os mecanismos do mercado se difundempor todo o corpo social. O desdobramento das redes técnicas du-rante a segunda metade do século XIX acompa-nha o movimento de integração econômicamundial iniciado na virada do século XVII coma expansão da Companhia Holandesa das ÍndiasOrientais (1602), que detém o monopólio docomércio de especiarias. Num mundo que pare-ce ainda oferecer possibilidades ilimitadas dedescobertas e de exploração, as redes integram-se na nova divisão do planeta com economiasnacionais em plena fase de transformação. 2. O Primeiro espaço unificado dos flu-xos. - O telégrafo elétrico torna sem efeito o ar-gumento da segurança interior que, na França,havia vitimado o telégrafo de tipo visual. Ele 23
  23. 23. abre caminho para os acordos bilaterais de co-municação. No final da década de 1840, assina-se um primeiro tratado entre a Prússia e a Áus-tria por ocasião do projeto do sistema telegráfi-co Berlim-Viena; ele é logo seguido por um agru-pamento regional, a União Telegráfica Austro-Alemã e uma associação entre a Bélgica, a Fran-ça e a Prússia. Neste campo, como no das estra-das de ferro e correios, a futura Alemanha reve-la-se pioneira nos projetos de unificação de re-des. Composta por um mosaico de territórios,sua unificação pelas técnicas de comunicaçãoantecipa sua unificação política. A vocação transfronteiriça do telégraforesulta em 1865 na criação de uma instituiçãooriginal, a União Telegráfica Internacional. Estaorganização contrasta com a habitual políticade consultas então em vigor entre os Estadossoberanos. Diferentemente dos Congressos Di-plomáticos inaugurados em 1815 que se que-rem embrião do sistema político regular e mul-tilateral, mas que na verdade traduzem o embar-go das grandes potências do “Concerto Euro-peu” às relações internacionais, a União Telegrá-fica Internacional abre-se ao conjunto da “co-munidade das nações soberanas”. Destinada aresolver problemas que somente podem ser so-lucionados transcendendo-se as fronteiras doEstado Nacional ele prefigura, pelo mesmo mo-tivo, a moderna organização internacional. Suamissão: estabelecer procedimentos, normas, ta-rifas alfandegárias comuns aos Estados mem- 24
  24. 24. bros, e fiscalizar os fluxos telegráficos. Ao con-trário das antigas formas de acordo intergover-namentais, as decisões tomadas estão munidasde garantias. A função executiva é exercidapelo secretariado ou escritório internacionalentregue aos cuidados de peritos e de enge-nheiros, e não mais aos diplomatas de carreira. Esse tipo de organização é logo imitadopela União Geral dos Correios (1874), rebatiza-da quatro anos mais tarde como União PostalUniversal, a Comissão Internacional de Pesos eMedidas (1875), que marca o triunfo do sistemamétrico, a Convenção Internacional para a Re-gulamentação das Rotas Marítimas (1879), aUnião Internacional de Proteção da Proprieda-de Industrial (1883), a União Internacional paraa Proteção das Obras Literárias e Artísticas(1886), ou ainda o Congresso Internacional deEstradas de Ferro (1890).A fórmula aplicada nosmais variados campos da vida social e econômi-ca num momento em que pululam projetos depadronização. Segundo o historiador alemãoWerner Sombart, 17 acordos de cooperação in-tergovernamentais dessa natureza foram assina-dos entre 1850 e 1870, 20 entre 1870 e 1880, 31entre 1880 e 1890, 61 na última década, e 108na primeira década do século XX. Paralelamen-te à padronização facilitadora das relações inter-nacionais, inicia-se a partir da penúltima décadado século XIX a padronização dentro das com-panhias mais desenvolvidas que procuram tra-balhar com peças intercambiáveis.A grande de- 25
  25. 25. manda provocada pela guerra, somada à baixaoferta de mão-de-obra qualificada, vai estimularainda mais este processo. Por volta de 1870, são registradas aproxi-madamente 30 milhões de transmissões telegrá-ficas anuais. Na virada do século, ela mais quedecuplicou e os fluxos transfronteiriços repre-sentam um quinto desse total. O telégrafo já al-terou profundamente a importância econômicada informação, os métodos de coleta, tratamen-to e codificação. Ele forçou o especulador a pro-curar novas modalidades de intervenção nosmercados e integrou no fluxo econômico osrincões mais remotos da Europa. Na véspera daPrimeira Guerra Mundial, diz Sombart, as cota-ções das Bolsas de trigo de Berlim eram afixadastodas as manhãs nos vilarejos da Sibéria. A liberalização das linhas internacionaisinaugura o primeiro espaço eletrificado unifica-do. Esta iniciativa contrasta com o protecionis-mo dos mesmos Estados contratantes quandose trata de eliminar os entraves ao fluxo de mer-cadorias e de aplicar ao pé da letra os tratadoscomerciais inspirados na doutrina do livre co-mércio, adotado pela Inglaterra desde os anos1840, e por seus concorrentes europeus desdea década de 1860. Se a convergência está na or-dem do dia em matéria de redes telegráficas, omesmo não ocorre com a integração econômi-ca. No mesmo ano em que se criava a União Te-legráfica, a França assinou um acordo de uniãomonetária, a União Latina, com a Bélgica, a Suíça 26
  26. 26. e a Itália em torno do franco germinal. Em 1867,paralelamente à Exposição Universal de Paris, ogoverno convocava uma conferência interna-cional e propunha um alinhamento internacio-nal a esta “moeda única”. Em vão. 3. O Trem, símbolo do Estado nacionalindustrial. - A primeira estrada de ferro dignadeste nome aparece na Inglaterra em 1830. Aconstrução das malhas na Europa continentalchega ao apogeu nos anos 70. O trem é, primeiramente, o símbolo doprogresso e da revolução industrial no períme-tro do Estado Nacional. Mais de meio século se-para a inauguração da primeira linha e a criaçãoda Associação Internacional das Estradas de Fer-ro. No que se refere ao padrão da bitola, en-quanto a maioria dos países europeus adotam anorma padrão do britânico Stephenson (inven-tor da locomotiva), Espanha e Rússia dão nega-tiva alegando razões de segurança nacional. A padronização da bitola começa a efeti-var-se não somente nas colônias, mas tambémnos Estados soberanos independentes. Cada umdeles, ou mesmo cada construtor, adota um pa-drão diferente. Orientado exclusivamente emfunção das necessidades das metrópoles, o mo-delo de implantação das linhas ferroviárias é oda “via de penetração” funcional, obedecendoao imperativo do comércio e da exploração dosrecursos naturais. Estranha nas colônias africa-nas, onde o trem se instala no último quarto de 27
  27. 27. século, essa territorialização excêntrica tambémcausa espécie nos grandes países politicamenteindependentes e economicamente subordina-dos. É o caso do Brasil onde, a exemplo dos ou-tros países do Cone Sul, a presença de interessesdos britânicos, e secundariamente dos france-ses, é um fator determinante: no fim do século,haverá nada menos que cinco malhas locais in-dependentes autônomas, cada uma abrindo-seem formato de leque, centralizada em algumporto e aberto para sua hinterland de minas eplantações. Esta construção orientada para o ex-terior prevaleceu igualmente na zona geopolíti-ca denominada “Mediterrâneo americano” (Ca-raíbas e América Central). Os contratos leoni-nos de concessão de linhas de telégrafo, detransporte marítimo e estradas de ferro arranca-dos, desde os anos 1880-1890, às oligarquias lo-cais pelas grandes plantations como a UnitedFruit, vanguarda dos modernos grupos agroali-mentares, estão estreitamente ligados à forma-ção do conceito de “república das bananas”. O“imbroglio” ferroviário atinge seu ápice no im-pério da China do final do século onde as viasque partem dos portos e concessões são cons-truídas segundo o padrão de bitola russo, japo-nês, anglo-americano, alemão e franco-belga. 4.O Horário universal das gerenciadoras.- A organização ferroviária é o prelúdio da instau-ração do horário universal. Porque a regulamen-tação do tráfego exigia a adoção de um horário 28
  28. 28. nacional para pôr fim à confusão dos horários lo-cais, as estradas de ferro britânicas decidem ali-nhar seu “horário oficial”ao meridiano de Green-wich. Quando a comunidade internacional deci-de em 1884 sincronizar os diversos horários na-cionais, é esse mesmo horário de Greenwichque vai servir de referência ao cálculo do horá-rio universal. Para prejuízo de países como aFrança (que havia proposto o horário do meri-diano que passa pelo observatório de Paris), a Es-panha e o Brasil que interpretam essa medidacomo uma demonstração simbólica do poderiovitoriano, adotando-o somente em 1911. A aventura ferroviária contribui com duasoutras matérias primas para a construção destaracionalidade do capitalismo moderno com vo-cação mundial. As associações ferroviárias - etambém, em certa medida, as telegráficas - repre-sentam as primeiras grandes empresas moder-nas. Elas sentem, antes de todas as outras, a ne-cessidade de inovar em matéria de organizaçãoa fim de administrar fluxos contínuos de bens,serviços e informações em larga escala, e tor-nam-se assim a cobaia dos métodos de gerencia-mento moderno. De fato, elas inventam o mana-gerial capitalism (ou capitalismo gestionário),segundo os termos do historiador das empresas,Alfred Chandler, que aí enxerga o nascimentodas companhias “multidivisionárias”, as primei-ras a empregar um grande número de adminis-tradores para coordenar, supervisionar e avaliaras atividades de várias unidades de exploração 29
  29. 29. dispersas. Além disso, por exigir vultosos em-préstimos de dinheiro do exterior, a construçãodas redes de estradas de ferro em todo o mundoestimula a internacionalização dos mercados fi-nanceiros, e entrega o comando das empresas aocapital financeiro.A metade dos capitais exporta-dos durante o século XIX serve, com efeito, parafinanciar as linhas férreas, os portos, canais e ou-tras melhorias públicas; as minas, as plantações eas empresas industriais mal captam um terço dasoma total, e o restante fica com as instituiçõescomerciais, bancárias e outras. Os bancos comer-ciais que relegam ao segundo plano a Haute Ban-que começam a criar, em todo o mundo, suas re-des de agências.A Formação da potência mundial 1. O Cabo submarino e a Pax Britannica.- O século XIX assiste à ascensão do Império Bri-tânico como novo pólo econômico e financeiropara o qual convergem os grandes fluxos de ri-quezas e também de comunicação a distância.Londres torna-se o centro de uma “economia-mundo”, tal como é entendida por FernandBraudel. Um centro a partir do qual as outras po-tências, as zonas intermediárias e as regiões pe-riféricas se organizam e se distribuem hierarqui-camente. O cabo submarino é um dos exem-plos mais eloqüentes da hegemonia vitoriana. O primeiro cabo submarino é inauguradoem 1851, ligando Calais a Douvres, e Paris à pra-ça financeira de Londres. Quinze anos mais tar- 30
  30. 30. de, após três tentativas frustradas, instala-se oprimeiro cabo transatlântico. Uma linha diretaentre Malta e Alexandria abria o contato diretoentre Londres e a Índia. Na década de 1870, arede britânica estende-se para o Sudeste Asiáti-co, Austrália, e China; e também para as Antilhase América do Sul. O cabeamento chega à Africaum pouco mais tarde, no fim da década de 1880e começo de 1890. O último elemento da redemundial britânica, a Transpacífica, é posto em1902. Nesta data, o sistema de cabeamento doimpério vitoriano representa dois terços darede mundial e sua frota de barcos cabeadores édez vezes maior que a francesa. Do ponto de vis-ta geoestratégico o fato de que, diferentementeda França onde ele é responsabilidade do Esta-do, o cabo submarino britânico seja assunto dascompanhias privadas nada muda no caso, tão es-treitos são os laços entre as lógicas comerciais eas diplomáticas. Escorada pelo Almirantado epelo know-how de seus serviços cartográficos,a expansão das companhias privadas apóia-sesobre o controle das matérias primas (cobre eborracha), o poder financeiro, o domínio detodo o processo tecnológico de cabeamento(fabricação, instalação, exploração), que nadamais faz além de unir-se à supremacia da Navy(Marinha) e das grandes linhas marítimas a va-por estabelecidas em Londres. O sistema britâni-co é um intermediário obrigatório para as co-municações oficiais dos outros governos.Assim,quando em 1898 estoura a crise da Fachoda,onde afrontam-se o império colonial francês em 31
  31. 31. sua expansão oeste-leste e o império britânicoem sua expansão norte-sul, Paris somente con-segue comunicar-se com o Sudão e com o capi-tão da expedição francesa através de ligaçõescontroladas por seu rival. Os primeiros sinais de protesto contra ahegemonia britânica surgem nos anos 1890. OPost Office (Correios) recusa a autorização deimplantação em seu território de um cabo tran-satlântico alemão e Berlim opta por apertar opasso para dominar todo o processo tecnológi-co, desde a fabricação até sua implementação eoperação efetivas. Em 1900, o Kaiser inaugura oprimeiro cabo Emden-New York via Açores eum segundo cabo dois anos mais tarde. Em1903, os Estados Unidos instalam seu própriocabo transpacífico ligando São Francisco, viaHonolulu e Guam a Manila. Cinco anos antes,eles haviam arrebatado as Filipinas a um impé-rio espanhol moribundo. 2. A Designação das freqüências. - Em1901, Guglielmo Marconi inaugura a era das ra-diocomunicações, irradiando através do Atlân-tico os sinais correspondentes à letra ‘s’. ANavy, o War Office e o Post Office são os pri-meiros a se interessar pelas patentes do enge-nheiro italiano. Sua aquisição exclusiva pelaempresa britânica Marconi Co. marca o inícioda tentativa vitoriana de garantir um marcoinstitucional para a internacionalização dessanova tecnologia, inspirada no mesmo esquema32
  32. 32. vigente para o cabo submarino. A Alemanha,porém, que dispõe das patentes elaboradas pe-las suas empresas Siemens e AEG, funda em1903 a Telefunken para explorá-las, interpõe-se. Por iniciativa sua, acontecem em Berlimduas conferências internacionais, em 1903 e1906. A tese inglesa da necessidade de adoçãode um aparelho padrão para a transmissão dossinais é aceita por uma minoria, e abre-se a li-vre concorrência no interior do seleto clubedos proprietários de patentes de uma tecnolo-gia que será de uso exclusivamente militar atéo final da Primeira Guerra. A reunião de 1906cria a União Radiotelegráfica Internacional. Elaregulariza o problema das interferências e es-boça as bases de uma ordem desigual da comu-nicação mundial. As potências marítimas, prin-cipais usuárias dessas tecnologias, impõem aregra de natureza imperialista do “o primeiro achegar é servido primeiro”. Basta notificar àUnião sua intenção de utilizar uma faixa de on-das, para o país tornar-se seu beneficiário. Talprática quase resulta na monopolização dos ca-nais radiofônicos por uma minoria. Ela expri-me, no campo das comunicações, “a desigual-dade de relações”; esta diferença entre ossistemas produtivos vai aumentando com odesenvolvimento científico e técnico. Em1800, a diferença entre o produto internobruto per capita do Norte e do Sul era insigni-ficante; no final da Era dos Impérios (1875-1914), a diferença é de 3 por 1. 33
  33. 33. Desde os primeiros anos do século XX, osmeios socialistas de todos os matizes procura-vam definir a natureza dessa lógica do valor detroca que caracteriza o desenvolvimento desi-gual. Surge, então, o conceito de “imperialismo”.Na base de suas análises: a formação dos gran-des cartéis e trustes para dominar o mercado,ou seja, a limitar essa concorrência que paraAdam Smith deveria ser livre; em primeiro lugar,os cartéis da indústria eletrotécnica, os trustesda energia elétrica, bem como as companhiasdas estradas de ferro, aliadas às siderúrgicas. Por ocasião da Conferência de Berlim, em1906, a regulamentação internacional do telefo-ne, patenteado por Edison em 1876 e regidopor acordos bilaterais, mostra-se menos compli-cada que a questão das radiocomunicações. Épreciso observar que a internacionalização des-sa rede naquele momento é ainda limitada. Aprimeira transmissão entre Paris e Bruxelasocorreu em 1887, e a Londres três anos mais tar-de. O telefone adquire uma dimensão realmentemundial somente em setembro de 1956, com ainauguração do primeiro cabo telefônico sub-marino transatlântico, pouco antes do lança-mento do primeiro satélite artificial. 3. A Guerra e a geopolítica. - Há uma es-treita ligação entre o desabrochar das tecnolo-gias de comunicação e os conflitos que estou-ram na segunda metade do século XIX.A guerrada Criméia (1853-1856) assiste à instalação do 34
  34. 34. primeiro cabo através do Mar Negro, e o estabe-lecimento de linhas telegráficas diretas, tantosobre o campo de operações como entre os es-tados-maiores e os governos de Londres e Paris.A invasão do México pelo seu vizinho do Norte- quando pela primeira vez será formulada ex-plicitamente a doutrina expansionista do Mani-fest Destiny (Destino Manifesto) - deixou evi-dente, a partir de 1846, a utilidade do telégrafoelétrico nas operações militares e transmissãode notícias. Mas é a Guerra de Secessão (1861-1865) que dá aos estrategos militares as liçõesmais importantes sobre o uso do “cavalo de fer-ro” e das linhas telegráficas. Vários exércitos, acomeçar pelo prussiano, aí buscam inspiraçãopara seu projeto logístico, esta arte de movi-mentar exércitos, e armam-se de “tropas de co-municação”.Antes de eclodir o primeiro confli-to mundial, duas guerras, a dos Boers (1899-1902) e, a russo-japonesa (1904-1905) confir-mam, a primeira, o peso decisivo do trem e dotelégrafo e a segunda, o papel da radiocomuni-cação. A Inglaterra procura aprender rapida-mente as lições proporcionadas por esse confli-to e transforma a radiotelegrafia em monopólioestatal, tornando-a atribuição do Post Office,que por sua vez obedecia ao Almirantado. É impossível controlar complexos geoco-municacionais sem provocar tensões nacionaise internacionais. Na China, o movimento pelareaquisição e nacionalização das ferrovias queexige a construção de linhas para as capitais das 35
  35. 35. províncias, converge para a insurreição republi-cana de Wuhan, e derruba, em 1911, um impériomilenar. No quadro da famosa “Questão Orien-tal”, o Império Otomano, ao outorgar ao impé-rio alemão, na virada do século, a concessão deum cabo ligando Constância à Constantinopla euma linha de estrada de ferro para Bagdá e, emtempo, para o Golfo Pérsico, põe em ebulição osimpérios rivais.A Inglaterra e a França aí enxer-gam a expressão do projeto expansionista dopangermanismo que procura colocar em práti-ca sua divisa Drang nach Osten, ao consolidarsua posição numa região que se abre aos cam-pos petrolíferos. Provocar um curto-circuito doimpério britânico ao contornar o Canal de Suezé uma obsessão constante das estratégias de ex-pansão ferroviária para o Oriente. Subjacente aoprojeto pangermanista, ela dirige igualmente aconstrução da Transiberiana. Iniciada em 1891 eterminada em 1903, a ligação Moscou-Vladivos-tok (8.156 km) abre uma janela para o ExtremoOriente e coloca o império czarista numa posi-ção estratégica de primeira ordem. É no contexto do pangermanismo que Frie-drich Ratzel publica, em 1897, o primeiro trata-do de geopolítica intitulado Politische Geogra-phie, que lança as bases de uma “ciência do espa-ço”,precursor da ciência das redes.As redes “oxi-genam” o território. O autor havia compreendi-do sua importância fazendo, primeiramente,uma comparação com o espaço americano empleno dinamismo. Forjando o conceito de “po- 36
  36. 36. tência mundial”, este texto teórico aborda a di-mensão espacial das relações internacionais deum ponto de vista planetário. Observa-se igual-mente a emergência de uma ideologia de fundobiológico, a “ideologia espacialista” com suasidéias de “espaços vitais” ou de “fronteiras natu-rais”, fonte de legitimidade para muitos expan-sionismo futuros: o espaço vital como expressãodas leis do território animal que justifica a guer-ra, as conquistas e a dominação.As Utopias da comunicação universal 1. A Associação universal. - Desde a pri-meira metade do século XIX, vão se consolidan-do, na França, os alicerces da ideologia redento-ra da comunicação em sua mobilidade interna-cional. “Abraçar o mundo”; “Tudo pelo vapor epela eletricidade”: são as palavras de ordem dosdiscípulos do filósofo francês Claude-Henri deSaint Simon (1760-1825). À visão economista da divisão internacio-nal do trabalho proposta por Smith, acusada deaumentar a diferença entre ricos e pobres, Saint-Simon propõe, na virada da década de 1820, autopia da “Associação universal sob o ponto devista da indústria”, a exploração do globo terres-tre por “homens associados”, trabalhando ani-mados pelos mesmos objetivos, para a consecu-ção do bem comum. O planeta, pensa Saint-Si-mon, deve ser “administrado” por industriaiscomo “uma grande sociedade industrial”, e não 37
  37. 37. mais “governado” por um Estado tutelar. Esteaxioma está na base da ciência positivista ou “sa-ber positivo” que propõe uma nova maneira degerenciamento dos indivíduos. Nesse projeto dereestruturação, a rede torna-se a figura simbóli-ca da nova organização social. Essa teoria reorganizadora deve ser a solu-ção para a sociedade contemporânea que se de-bate numa dupla crise. Primeiramente, a criseque se prolonga desde 1789 e que tem suas raí-zes no “saber negativo” do Iluminismo e seusdesvarios revolucionários. Legítima quando setratava de solapar a ordem do Antigo Regime, aatitude crítica tornou-se contraproducente paraa criação uma nova ordem social e para garantira “passagem do sistema feudal e teológico ao sis-tema industrial e científico”. Em segundo lugar,a crise oriunda do fato de uma “Europa desorga-nizada”, incapaz de reconstituir um “sistema depaz internacional”, perdido desde a desagrega-ção do mundo cristão. 2. O Determinismo das redes. - Saint-Si-mon auto definiu-se como um homem da redede estradas, admirador da engenharia civil. Em1832, sete anos após sua morte, seu discípulo Mi-chel Chevalier (1806-1879), um dos fundadoresda efêmera igreja saint-simoniana adere a umaconcepção determinista das redes da “civilizaçãocirculante”. A ferrovia e a locomotiva, no entan-to, ainda estão longe de revelar todo seu poten-cial de estruturação espacial. Somente dois anos 38
  38. 38. antes a Inglaterra inaugura a primeira estrada deferro digna deste nome. As autoridades france-sas, por seu lado, estão sempre dispostas a ques-tionar os méritos de tal ocorrência. Será precisoesperar até 1842 para que seja votada, em Paris,a lei que estabelece a rede nacional. Naturalmen-te, Chevalier alçou-se à posição de vidente. Exatamente como seu mestre, ele acreditaque as “redes imateriais” ou de crédito financei-ro e as “redes materiais”ou de comunicação têmuma importante função de coesão deste vastocorpo que é o organismo social.As malhas ferro-viárias, articuladas às linhas marítimas e de co-municação à longa distância serão, pensa ele, osvetores da Associação Universal; uma associaçãoque deve começar pela formação de um “siste-ma mediterrâneo”, cujos engenheiros e operá-rios serão recrutados das fileiras do exército,agora dedicado a finalidades civis. Viático desubstituição da religião (do latim religare, quesignifica religar), comunicação tem, como ela, afunção de “religar” os membros dispersos deuma comunidade distante e tirar de seu torporcivilizações adormecidas, da Grécia à Ásia Me-nor, da Espanha à Rússia.A solução consiste em“colocar junto às mesmas exemplos de um ex-traordinário movimento, em excitá-las por meiode um espetáculo de prodigiosa velocidade, econvidá-las a entrar no circuito que ora lhesbate às portas”. A questão da democracia, quepara Chevalier é uma variável subordinada dodesenvolvimento técnico e industrial, está longe 39
  39. 39. de ser o centro de suas preocupações de geren-ciamento do planeta. Mas isso não impede decantar uma vitória: a comunicação encurta asdistâncias não somente entre dois pontos, masentre uma classe e outra.Aperfeiçoar as comuni-cações, pois, é necessariamente “praticar aigualdade e a democracia”. Uma vez dissolvida a igreja saint-simonianae encerrada a época militante com suas pers-pectivas grandiosas, o saint-simonismo limita-sea defender uma primeira versão de pensamentoadministrativo e simboliza o espírito empresa-rial da segunda metade do século XIX.A ideolo-gia redentora das redes, criadoras de um laçouniversal, legitima o positivismo gestionário. Osnovos empresários do industrialismo lançam asbases do espaço reticular internacional ao criaras companhias de estradas de ferro e as linhasmarítimas, ao abrir companhias de crédito e aotraçar canais interoceânicos. 3.A Internacionalidade das redes sociais.- Fiéis ao ideal de uma sociedade mais justa con-forme sonhava Saint-Simon, os dissidentes dosaint-simonismo renunciam à visão tecnicista darede, tida como determinante de uma nova so-ciedade. Muitos deles passam para as fileiras dosprecursores do socialismo que colocam nas re-des sociais todas as suas esperanças de “abraçaro mundo”.Vários deles se reconhecerão nas pro-postas de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1864)em sua obra intitulada Des réformes à opérer 40
  40. 40. dans l’exploitation des chemins de fer (1855),onde critica os que confundem “movimentaçãomercantil” com “movimentação intelectual”: “Oque faz circular as idéias, como se diz, não são osmeios de transporte, mas os escritores, a discus-são política, a imprensa livre...A rede ferroviáriafrancesa foi triplicada e, apesar disso, não vemoscircular uma única idéia sequer.” É na órbita de um pensamento centraliza-do sobre a rede social que surge em 1843 a no-ção de “internacionalidade”, na pena de umapioneira do feminismo, Flora Tristan (1803-1844), ela mesma fruto de cruzamento de cultu-ras, sendo filha de mãe francesa e pai peruano.Na base de seu projeto de união operária, cons-tava o “novo princípio do internacionalismo”(idéia que reaparece cinco anos mais tarde noManifesto Comunista de Marx e Engels). No ín-dice do projeto do hebdomadário da UniãoOperária, o primeiro título é:“Dos interesses ge-rais, ou seja, dos interesses internacionais euro-peus e de todo o mundo”. O “cosmopolitismodemocrático” torna-se o grito de guerra de nu-merosos movimentos que, unindo palavra eação, criam sua própria imprensa; muitas vezestêm seus próprios compositores e cruzam as es-tradas para difundir seus ideais de “confraterni-dade” e de “solidariedade entre as nações e osindivíduos”.A Primeira Internacional dos traba-lhadores se institucionaliza em Londres, em1864. Em seus estatutos lê-se: “A emancipaçãodo trabalho, não sendo um problema nem local 41
  41. 41. nem nacional, mas social, envolve todos os paí-ses onde desenvolveu-se a sociedade moderna,e necessita, para sua completa solução, da coo-peração teórica e prática dos países mais avan-çados... A Associação foi fundada para criar umponto central de comunicação e de cooperaçãoentre as sociedades operárias dos diferentes paí-ses que aspiram às mesmas realizações, ou seja:a cooperação mútua, o progresso e a completaemancipação da classe operária.” Dez anos maistarde a Primeira Internacional é dissolvida. Opensamento universalista entra em crise apósum triplo fracasso: a guerra franco-prussiana fazressurgir os sentimentos de patriotismo; o esma-gamento da Comuna de Paris anuncia a derrotada minoria dos “internacionalistas” e de sua divi-sa “A bandeira da Comuna é a da República uni-versal”; a idealização da máquina estatal, os ob-jetivos e os meios de ação causam confusão en-tre os diversos elementos do movimento operá-rio. Dessas divergências logo vai brotar o mapadas grandes federações sindicais e de suas alian-ças internacionais. Antes de se dissolver, a Pri-meira Internacional assistiu ao embate entreduas concepções do Estado em torno da idéiade “serviço público” aplicada ao gerenciamentodas malhas ferroviárias. Simpatizante da primeira versão do saint-si-monismo, o romancista Eugène Sue propaga pormeio de seus folhetins, entre 1830 e 1875, suautopia de reforma social e de reconciliação pací-fica entre os ricos e os pobres.As histórias desse 42
  42. 42. antigo médico da marinha, profundamente in-fluenciado, a princípio, pela escola inglesa doromance gótico, e sua representante máxima,Ann Radcliffe, popularizam um novo gênero,precursor da cultura de massa e da indústria cul-tural e uma das primeiras expressões da literatu-ra em série destinada a ultrapassar as fronteiras.Júlio Verne, através das façanhas dos heróis pro-metéicos do progresso por ele criados entre1860 e 1906 nas redes do vapor e da eletricida-de que entrelaçam o globo, faz eco aos sonhosambiciosos dos primeiros socialistas utópicos. 4. As Exposições universais. - Um meiograças ao saint-simonismo e que contribui para aformação do imaginário comunicacional: asgrandes Exposições Universais. Estes aconteci-mentos transformam Paris (onde se realizam cin-co delas) na “capital cultural do século XIX”.Nestes “bolsões pacíficos do progresso” não ape-nas são expostos os produtos das economias dediversos países, mas também um considerávelnúmero de associações internacionais, governa-mentais e não governamentais tornam-se conhe-cidas e realizam congressos a respeito dos maisvariados assuntos. Exposições e invenções técni-cas esbarram-se na propaganda da retórica dapaz e da fraternidade entre os povos:“Todos oshomens tornam-se irmãos.” Cada geração tecno-lógica proclama os grandes temas da concórdiauniversal e a superação dos antagonismos so-ciais sob a égide da civilização ocidental. Bastan- 43
  43. 43. te simbolicamente, a primeira Exposição, abriga-da pelo Crystal Palace de Londres em 1851, inau-gura o primeiro cabo submarino internacional,entre Douvres e Calais. A que encerra o século,em Paris, em 1900, assiste ao triunfo do cinema. Por causa do filme, a mitologia da comu-nicação universal vai invadir a era da imagem,que se torna outro símbolo da superação das de-sigualdades entre classes, grupos e nações.“Osfilmes animados, escreverá o romancista ameri-cano Jack London (1876-1916) na revista Para-mount Magazine de fevereiro de 1915, derru-bam as barreiras da pobreza e do ambiente queeram obstáculo à educação, e propagam o sabernuma linguagem acessível a todos. O trabalhadorcom vocabulário limitado fica em pé de igualda-de com o sábio...A mensagem é a educação uni-versal... Os efeitos do tempo e da distância fi-cam suspensos pela fita mágica que aproxima ospovos do mundo... Olhai, transidos de horror, ascenas de guerra, e vos tornareis arautos da paz...Por este processo mágico, os pontos extremosda sociedade dão um passo no caminho irrever-sível do reequilíbrio da condição humana.” 5.As Novas arcádias da eletricidade. - An-tes mesmo de ter sido aplicada no âmbito indus-trial e doméstico, a energia elétrica alimentou oimaginário da comunicação. Em 1852, um livroem língua inglesa, The Silent Revolution, entre-via a harmonia social da humanidade com baseem uma “rede perfeita de filamentos elétricos”. 44
  44. 44. No final do século XIX, o anarquista e geógraforusso Pierre Kropotkin (1842-1921) e o sociólo-go escocês Patrick Geddes (1864-1932), críticosacerbos das devastações provocadas pelo indus-trialismo, transformam a eletricidade no pontode partida da era neo-técnica. À noção liberal da divisão do trabalho quesepara grupos, classes, povos e nações, e à inter-pretação neodarwinista da história como lutapela sobrevivência, Kropotkin sugere a históriadas formas sucessivas da “cooperação mútua erecíproca”, a história da integração progressivados agrupamentos humanos. Único parâmetro,em sua opinião, para compreender a evoluçãodo planeta rumo a uma comunidade global. Aenergia elétrica é um meio de reconciliar-secom a história desta lógica comunitária que tor-na solidários os humanos. Deixando para trás aslimitações da era paleotécnica, caracterizadapelo mecânico, pelas concentrações e pelos im-périos, nessa nova etapa da história da humani-dade surgirá uma sociedade horizontal e trans-parente. Apenas o modelo industrialista conse-guiu impedir o desabrochamento dessas poten-cialidades libertadoras da eletricidade. Descon-centração e descentralização: a nova forma deenergia abre a era da reconciliação entre a cida-de e o campo, entre o trabalho e o lazer, entre ointelecto e o trabalho braçal. Contribuindo paraa reflexão sobre a organização regional, essemovimento ideológico exercerá uma influênciaduradoura sobre as utopias do urbanismo. 45
  45. 45. Existe um contraste flagrante entre o dis-curso utópico de promessas de um mundo me-lhor por meio da técnica e a realidade das lutaspelo controle dos dispositivos de comunicação,a hegemonia sobre as normas e os sistemas. Nodespertar da era neotécnica, em 1881, aconteciaem Paris a primeira Exposição Internacional daEletricidade. No âmbito desse acontecimento,reuniram-se os delegados das potências interna-cionais, proprietárias das patentes da invenção,com a finalidade de estabelecer as unidades demedida universais, como o ampère, o volt etc.Ao contrário das Exposições Universais, ne-nhum Estado soberano da zona periférica foiconvidado para este encontro.46
  46. 46. 2 A Fábrica da cultura O século XIX inventa a news e, com ela, oideal da informação instantânea. Entre 1830 e1850 criam-se as grandes agências. A partir de1875, começam a formar-se os grupos de im-prensa. Surgem os primeiros gêneros escritos daprodução cultural de massa. Antes mesmo daPrimeira Guerra, as indústrias do cinema e damúsica revelam seu potencial de exportação.A Indústria da informação 1. Os Agentes da news value. - No centrodo sistema mundial de notícias existe o disposi-tivo de coleta e de difusão das agências de notí-cias. Elas não somente envolvem o globo comsuas redes de correspondentes, como intervêmnos projetos de cabos submarinos. A Agência Havas, ancestral da Agence Fran-ce Presse (AFP) é fundada em 1835. A alemãWolff é inaugurada em 1849 e a britânica Reu-ter em 1851.A Havas faz uma combinação entrenotícias e produção publicitária. A Reuter, porsua vez, dá prioridade ao noticiário econômico.As agências americanas AP (Associated Press) eUP (United Press) são lançadas respectivamenteem 1848 e 1907. Apenas as três agências euro- 47
  47. 47. péias têm porte internacional. Por meio de umasérie de alianças concluídas em 1870, essa tría-de divide o mundo em “territórios”ou esferas deinfluência. É a eclosão de um mercado da infor-mação pensado em âmbito mundial orientadopor interesses geopolíticos.Todas se comprome-tem a não divulgar notícias no “território”alheio. Reuter reserva-se o Império Britânico, aHolanda e suas colônias, a Austrália, as ÍndiasOrientais e o Extremo Oriente. À Havas cabemFrança, Itália, Espanha, Portugal, o Oriente, Indo-china e América Latina. Wolff concentra-se naEuropa central e setentrional (mercados que lhesão retirados ao final da guerra de 1914-18). De-terminados territórios, como o Império Otoma-no e o Egito, estão incluídos num acordo de ex-ploração comum, enquanto outros, como os Es-tados Unidos, são declarados “neutros”. Esta or-ganização oligopolística reforça o monopólio decada agência sobre seu próprio mercado nacio-nal.A regra dos cartéis e dos “territórios”funcio-nará por mais de meio século. O aparecimento tardio das agências nosEUA no cenário mundial não impede o modelode imprensa americano de influenciar o desen-volvimento da imprensa francesa no períodoparticularmente crucial em que os cotidianos,franqueados pela lei dita da liberdade de im-prensa de 1881, procuram conquistar um mer-cado popular. Em 1883, um jornal de língua in-glesa, Morning News, é criado em Paris. Em1884, inspirando-se nessa curta experiência, 48
  48. 48. funda-se o Le Matin, animado por uma equipede jornalistas com vários ingleses e americanos.Pouco tempo depois, o New York Herald lançauma edição européia na capital francesa. Para oscotidianos parisienses e a agência Havas, queainda ocupam-se preponderantemente com onoticiário político e diplomático, parte mais no-bre da profissão, isso foi um verdadeiro choque.Eles deparam-se com um tipo de jornalismopriorizando a chamada news value, o humaninterest. Uma informação pontual, rápida, conci-sa como uma mensagem telegráfica, útil, que tra-ta de generalidades. De acordo com o historia-dor da mídia Michael Palmer, é deste primeiroencontro com o modelo profissional do outrolado do Atlântico que surge a noção da “ameri-canização”. Essa idéia começa a fazer escolatambém no campo do entretenimento. Durantea Exposição Universal de 1889, desembarcamBúfalo Bill e sua trupe sarapintada de “Peles Ver-melhas”. A imprensa parisiense arrisca umacomparação entre os dois estilos de lazer: SarahBernhardt ou o “Napoleão das pradarias”, Cor-neille ou as cavalgadas fantásticas. Ano crucial no processo de legitimação dainformação internacional é 1898, em que ocor-rem três acontecimentos ricos em “interesse hu-mano”: Fachoda, o caso Dreyfus e o desembar-que dos Marines na ilha de Cuba. Para precipitara guerra na ilha das Caraíbas, uma das últimaspossessões de um império espanhol moribundodebatendo-se com um rebelião dos nativos, a im- 49
  49. 49. prensa sensacionalista de William RandolphHearst, cópia do Cidadão Kane, imortalizadomais tarde por Orson Welles, desencadeia umagigantesca campanha de intoxicação que encon-tra apoio nas manifestações populares. Imagensde miséria e fome, mulheres e crianças esquelé-ticas cercadas pelos exércitos espanhóis emcampos de concentração, os reconcentrados,para evitar qualquer contato com os agitadores:os clichês desta mobilização das emoções espa-lham-se por todo o mundo e tornam-se o álibi deuma nova modalidade de intervenção imperialis-ta, de tipo não colonial. É conhecida a passagemque resume bem aquele momento inusitado.Hearst envia para Havana um repórter e um co-nhecido desenhista, Frederic Remington que, dacapital cubana, manda um telegrama a seu pa-trão: “Nada diferente. Tudo calmo. Não haveráguerra. Gostaria retornar.” Hearst responde-lheincontinenti:“Peço que fique. Forneça-me os de-senhos que eu cuidarei de fazer a guerra.”Duran-te a Primeira Guerra Mundial, esses produtos daimprensa sensacionalista servirão de referênciaao estado-maior francês para a legitimação dacensura em tempos de guerra. Decisivas na relação guerra/informação, asúltimas décadas o são igualmente no plano da in-formação financeira. Em 1888, cerca de um sécu-lo após o lançamento do Times, deão dos moder-nos cotidianos, o Financial Times publica seuprimeiro número em Londres. No ano seguinte,lança-se em Nova Iorque o Wall Street Journal.50
  50. 50. 2. A Informação estratégica. - Paralela-mente à informação de imprensa, são estabele-cidos os primeiros dispositivos de observaçãoe análise do mercado internacional. Em 1899, aagência americana J.Walter Thompson, arquéti-po das atuais agências de publicidade, que forafundada aproximadamente quarenta anos an-tes, abre em Londres um escritório de consul-toria para os industriais europeus desejosos deexportar para os Estados Unidos. Em 1888, essaagência havia lançado o primeiro catálogo bi-língüe (francês-inglês) para iniciar os europeusnos arcanos do mercado e da imprensa dos Es-tados Unidos. Ela criou também, em seu escri-tório central, um departamento especializadoem América Latina. As primeiras campanhaspublicitárias de produtos americanos na Euro-pa pela filial londrina acontecerão somente apartir da década de 1920. As empresas de informações comerciais(que no início ocupam-se sobretudo das infor-mações relativas a crédito e a solubilidade dasempresas) são criadas na década de 1830 na In-glaterra, por volta de 1840 em Nova Iorque, em1857 na França e três anos mais tarde na Alema-nha. Nas vésperas da Primeira Guerra, Berlim ésede de uma das maiores empresas mundiais deinformações estratégicas, fruto da fusão, em1887, da sociedade W. Schimmelpfeng e daBradstreet Co. Em 1890, esta firma que cuidatanto dos arquivos sistemáticos sobre empresasa partir de estatísticas publicadas como das ati- 51
  51. 51. vidades de espionagem industrial, empregava106 pessoas; em 1914, contava com 2400 e onúmero de filiais subira de 15 para 100. Essa cul-tura da informação estratégica, modelada con-forme os métodos do estado-maior do impérioalemão, transferiu-se para o corpo consular, inte-gralmente reestruturado. A legitimação da informação econômica naEuropa do século XIX perfaz um longo caminho.Ela confirma a hipótese do historiador america-no David Landes, para quem um dos fatores doprogresso das “sociedades ocidentais”no proces-so de industrialização foi a “paixão de aprendercom os outros”. Inovação rimando com imita-ção, a prática da espionagem industrial correininterruptamente ao longo da história modernada Europa, tanto mais quanto outras sociedadestinham menos espírito de iniciativa neste pontoe faziam progressos consideráveis nos domíniosmais importantes da técnica. Isso explica, porexemplo, o itinerário das importações da China(a manivela, a pólvora, o compasso, o papel, emuito provavelmente a imprensa).Rumo à industrialização da cultura 1. Os Primeiros gêneros da cultura demassa. - A literatura produzida em série ou “lite-ratura industrial”, conforme a expressão da épo-ca, toma forma definitiva na França a partir de1830-1840. As leis do gênero encontram-se naencruzilhada das tradições da literatura popular 52
  52. 52. de culturas tão diferentes como as da Inglaterrae Espanha. Primeira fórmula de exportação deuma cultura destinada ao grande público, o fo-lhetim torna-se o vetor de uma verdadeira “inter-nacional do sentimento”. Traduzido em váriaslínguas, seu original é adaptado à mentalidadedos leitores dos países onde é publicado.A cris-talização do gênero está ligada à história da im-prensa, pois ele nasce de seu seio como meio deelevar as tiragens, do mesmo modo que a publi-cidade lança outro gênero pioneiro, os comics. Se a Europa lega à cultura industrializada ogênero melodramático, os Estados Unidos, porsua vez, contribuem com os comics. Esse tipode história em quadrinhos aparece nos suple-mentos dominicais de cotidianos do último ter-ço do século, em meio a uma violenta luta entreos magnatas da imprensa de Nova Iorque, Jo-seph Pulitzer e William Randolph Hearst. Os co-mics começam a adquirir seu formato caracte-rístico por volta de 1895. Divisão do trabalho epadronização da produção vão de par com a in-ternacionalização. Esta fica garantida por ummecanismo inovador, o syndicate, um interme-diário onipotente. Proprietário exclusivo dos di-reitos autorais, ele tem o direito de retocar, mo-dificar os diálogos e escolher outros autores.Práticas semelhantes que conferem os direitosde copyright unicamente ao produtor, explicama recusa obstinada dos Estados Unidos de filiar-se à União Internacional de Berna para a prote-ção das obras literárias e artísticas, ratificada em 53
  53. 53. 1886 por apenas dez Estados. Um século maistarde, os Estados Unidos continuarão contestan-do o conceito de “direito moral” autoral, pedraangular da Convenção de Berna, que teve entreseus primeiros protagonistas Victor Hugo. O primeiro syndicate, International NewsService, foi criado por Hearst em 1909.Além deseus desenhos em quadrinhos, a agência vende àimprensa os direitos de reprodução e traduçãode materiais diversificados, artigos, reportagens,jogos ou palavras cruzadas. O grupo Hearst fun-da um segundo syndicate, em 1915, o King Fea-ture, destinado a tornar-se o mais importante dis-tribuidor internacional de comics. Em 1929, porsua vez, a agência de notícias United Press vaimunir-se de um syndicate: o United Feature. Pri-meira revista em quadrinhos a atingir o mercadointernacional: a family strip de George McMa-nus, proprietário do King Feature, Bringing UpFather. O fato de se tratar de um produto desti-nado a um público majoritariamente familiar epôr em cena uma família está longe de ser neu-tro. Esta escolha temática moral que se faz emdetrimento de outros produtos da época menospadronizados e conformistas surge como umdos primeiros denominadores comuns para cap-tar um público internacional heterogêneo. Os historiadores dos quadrinhos ressaltamque, muito antes do aparecimento dos quadri-nhos, um outro tipo de narração por desenhos,seqüências gráficas, havia nascido na Europa.Continuando a tradição da caricatura da qual a 54
  54. 54. Inglaterra teve a primazia no século XVIII e co-meço do XIX, o suíço Rodolphe Töpffer (1799-1846), romancista, dramaturgo e desenhista, ha-via lançado ao final dos anos 1820, um novo gê-nero chamado “histórias em estampas” que en-quanto o autor ainda vivia tiveram além de suasedições originais em francês, diversas ediçõesno exterior. Não é por suas tiragens limitadas oupor sua modesta rede de difusão que esta pré-história das histórias em quadrinhos interessado ponto de vista da internacionalização. Seu in-teresse está nas questões que Töpffer suscita apropósito da tipologia ou caracterização dosseus personagens, sua individualização por tra-ços permanentes diferenciadores. Questõestambém debatidas pelos mestres do folhetim namesma época. Sabe-se que Balzac, em sua Comé-die Humaine (A Comédia Humana), e Sue, emLes Mystères de Paris, inspiraram-se em perso-nagens estabelecidos pela morfopsicologia, mui-to em voga desde as últimas décadas do séculoXVIII. Esta pseudociência pretendia estabeleceruma relação entre o “lado visível” e “a parte invi-sível” da pessoa, estabelecer relações entre aface e a personalidade, repertórios de expres-são. Sabe-se igualmente dos excessos cometidosnas tentativas de decodificação psicológica pelaaparência, quando a antropologia criminal apro-pria-se da técnica no último quarto do séculopara esboçar o “perfil” do “criminoso”. Em 1845,Töpffer redige um ensaio crítico premonitóriosobre o emprego das tipologias gráficas padro- 55
  55. 55. nizadoras, onde ele discute os riscos inerentes àesquematização e à simplificação. 2. Som e desenhos animados. - Em 1877,Edison apresenta ao mundo o fonógrafo. Na vi-rada do século, a substituição do cilindro pelodisco de 78 rotações estabelece definitivamentea nova indústria. Em 1895, os irmãos Lumièreprojetam o primeiro filme.As indústrias fonográ-fica e cinematográfica já nascem com um alcan-ce internacional. Em 1897, Pathé Frères lançam-se na indús-tria da música.A sociedade britânica,The Gramo-phone Company, e a alemã, Deutsche Gramo-phon, são fundadas em 1898.A americana VictorTalking Machine, em 1901. No ano seguinteacontece a primeira gravação bem sucedida. Elaé realizada por Enrico Caruso. O primeiro discoa ultrapassar o milhão de cópias é a obra do mes-mo cantor de ópera gravada em 1904, em Milão.Cruzando o oceano, ele estabelece um laço deunião entre os imigrantes italianos e a pátria-mãe. Desde os primeiros anos do século XX, asgrandes companhias fonográficas montam umarede internacional de agentes locais. Prefiguran-do um tipo de indústria cultural de interessescruzados,The Gramophone Co., solidamente es-tabelecida no mercado europeu, instala em 1908uma fábrica em Calcutá e estúdios em Bombaim,que exportam para a África oriental. O cinematógrafo difunde-se tão velozmen-te que vários países da Ásia e América Latina to- 56
  56. 56. mam conhecimento desta técnica ao mesmotempo que a Europa e os Estados Unidos. Filma-se em países tão diversos como Egito, México,Brasil, China ou Índia.Todavia, mesmo neste úl-timo país que devia em seguida recuperar seumercado interior e tornar-se um dos maioresprodutores mundiais, a construção progressivade um mercado internacional do filme vai im-por a diminuição da produção local. Símbolo da empresa internacional do pe-ríodo anterior à guerra, Pathé abre em 1904 su-cursais em Nova Iorque, Moscou e Bruxelas, enos seis anos seguintes em Berlim,Viena, São Pe-tesburgo, Amsterdã, Barcelona, Milão, Londres,Budapeste, Istambul, Calcutá,Varsóvia e Rio. Pro-dutora e distribuidora de filmes, a sociedadefrancesa controla todo o processo: compra sa-las, fabrica e vende aparelhos e películas. Antesde 1914, o monopólio de fato dos produtoresfranceses Pathé e Gaumont é tal que a única al-ternativa que resta aos países como Inglaterra eAlemanha é fazer esforços unicamente no senti-do da distribuição ou exploração comercial.Com poucas exceções, os filmes devem ser im-portados da França. Bem atrás vêm a Dinamarcae a Itália, que possuem duas sociedades de pro-dução de certa importância. Nos Estados Uni-dos, após o fracasso da tentativa de unificaçãohorizontal e vertical, o período pré-guerra é so-bretudo caracterizado pelo surgimento deHollywood. Desligada de Los Angeles em 1913,a futura capital do cinema americano é criada 57
  57. 57. graças à guerra das patentes (1909-1914) porprodutores independentes que recusavam pa-gar as licenças e estavam interessados em dis-tanciar-se de Nova Iorque e estabelecer-se numlugar não muito distante de alguma fronteirapara aí transferir rapidamente sua aparelhagemem caso de confisco.A exemplo desse meio icô-nico que são os comics, o desenho animado re-vela-se como instrumento poderoso para amal-gamar as populações imigrantes. A PrimeiraGuerra Mundial transporta o filme americanopara além de suas fronteiras nacionais. 3.A Natureza dos públicos. - O advento daimprensa destinada às grandes maiorias fixa ostermos de um debate sobre a emergência da de-mocracia de opinião. Neste momento ressurgemos estereótipos de uma tradição conservadoranascida em oposição à Revolução Francesa. Alembrança das desordens da explosão revolucio-nária, associada a uma selvageria coletiva desen-cadeada por turbas convulsionadas, estabeleceuma representação do coletivo como “popula-cho”. Evocada a cada sublevação, movimentogrevista ou manifestação violenta, ela é revalida-da na última década do século XIX pela “psicolo-gia das massas”. Aliada aos pressupostos da an-tropologia criminal, esta análise do coletivo quepretende explicar em termos de psicopatologiasocial a irrupção das massas na vida da Cidadeimpregna o debate sobre os “efeitos” do desen-volvimento das liberdades de imprensa e de as- 58
  58. 58. sociação. Conforme essa concepção, as novasformas de agrupamento e de reunião são vistoscomo uma ameaça à ordem estabelecida, e tor-nam-se sinônimos de “regressão cultural”. Pois amultidão só pode reagir como um sonâmbulo,hipnotizado, alucinado, passível de ser contagia-do, impulsivo, crédulo e irracional. É, por exem-plo, a posição de Gustave Le Bon (1841-1931)em sua Psychologie des foules (1895). Outros autores pensam, diferentemente,que as multidões são fenômeno do passado, eque o(s) público(s) são fenômeno do futuro. Asociedade divide-se cada vez mais em públicos,que se sobrepõem à divisão religiosa, econômi-ca, estética, política, em corporações, em seitas,em escolas, em partidos. Em contato com a in-ternacionalização, esses novos tipos de agrupa-mento social ficariam ainda mais complexos.Pois, como escreve Gabriel Tarde (1843-1904)em L’opinion et la foule (1901) o jornalismo éuma “bomba aspiradora e centrifugadora de in-formações propagadas nos quatro cantos doglobo”. Conforme o mesmo escritor, o fato deque alguns grandes jornais, como o Times e LeFigaro, ou determinadas grandes revistas já te-nham leitores em todo o mundo faz pensar noadvento de públicos “essencialmente e constan-temente internacionais”. É também verdade que nas vésperas daGrande Guerra o debate sobre a natureza do pú-blico, e aquele que lhe é seu corolário, a forçapersuasiva da imprensa sobre os leitores, é do- 59
  59. 59. minado por uma representação chamada difu-sionista: o raio de influência parte sempre deum centro decisório que impõe sua visão demundo às diversas periferias. Nas cidades, ooperário toma como modelo o burguês; na zonarural, o camponês toma como ponto de referên-cia o operário. No cenário internacional, para sa-ber como será seu futuro, as nações “menos de-senvolvidas” devem contemplar indiscutivel-mente aquelas que já atingiram elevado grau de“civilização”. A idéia de influência em sentidoúnico é consubstancial à ideologia do progressolinear e contínuo. Ela inaugura o conceito domi-nante de civilização. 4.A Imprensa missionária. - À margem daimprensa popular continuam a se desenvolver asredes da imprensa missionária católica, encruzi-lhada importante de representações internacio-nais. Neste campo a França,“filha primogênita daIgreja” é um pivô. Em 1822, foram criados emLyon os Annales de la propagation de la foi,com as bênçãos da correspondente Congrega-ção em Roma. Esta publicação bimestral é por-ta-voz de uma vasta rede de coleta de donativose esmolas que coopera com a Igreja Católica natarefa que lhe fora confiada pelo papa após aqueda de Napoleão: “envolver o mundo numarede de missões”. Adotando no início a práticatradicional, iniciada no século XVII pelos jesuí-tas, também eles franceses, de publicar as cartasdos missionários, os Annales transformam-se em 60
  60. 60. hebdomadário em 1868 com o título Les Mis-sions Catholiques, e vão se adaptando à evolu-ção do jornalismo ao incorporar mais e mais in-formações concretas sobre a “gloriosa marchado apostolado”. Traduzido em várias línguas, operiódico lionês é tido como modelo por outrasnações da catolicidade. Após a Primeira Guerra,calcula-se existir no mundo mais de 400 revistasmissionárias católicas em diferentes línguas. Este vigor da imprensa confessional estáem contraste com a doutrina oficial do Vaticanoem matéria de liberdade de expressão. A IgrejaRomana havia posto no Index a Enciclopédia;no século seguinte, ela opunha-se à reivindica-ção dos católicos liberais franceses em favor daliberdade de imprensa.A Necessária interdependência 1. O mundo como uma gigantesca socie-dade de seguros. - O século XIX consagra a co-municação como “fator civilizatório”. As redestransmitem a impressão de que o mundo é um“vasto organismo” onde todas as partes seriamsolidárias. A noção biomórfica de “interdepen-dência” - à imitação da interdependência das cé-lulas - ratifica este sentimento generalizado deinterconexão dos indivíduos e das sociedades.O próprio termo “internacionalização” conquis-ta direito de cidadania no final do século. Pri-meiramente na língua inglesa, e depois nas lín-guas latinas que adotam o termo. 61
  61. 61. Esta dependência geral de todos e detudo, no espaço e no tempo, esta solidariedadeorgânica, indicam o caminho rumo a um novotipo de organização social, que garante o aces-so universalizado ao seguro e à divisão dos ris-cos por todos. A nação e o planeta tornam-seum tipo de gigantesca sociedade de seguro mú-tuo gerida pelos Estados que, calculando os ris-cos e fixando os prêmios a serem pagos a cadaum, funcionam com base na reciprocidade.Talprincípio, oriundo da aplicação do cálculo dasprobabilidades na gestão da coisa pública, mar-ca o início, no perímetro do Estado Nacional,do Estado previdenciário e seu regime de segu-ros sociais e, no campo das relações internacio-nais, prepara a doutrina que servirá de funda-mento, no final da Primeira Guerra, à legitimida-de do primeiro sistema internacional de solida-riedade e reciprocidade calculadas, o primeirodispositivo encarregado de garantir a seguran-ça mútua: a Sociedade das Nações e a Confede-ração Internacional do Trabalho. 2. A Uniformização do planeta: ficçãocientífica? - A idéia de que a interdependênciadas nações conduz inexoravelmente o mundopara sua unificação cultural toma arranque navirada do século. É o debate iniciado, em seuensaio Anticipations, pelo romancista GeorgeHerbert Wells (1866-1946) a partir da seguintequestão: qual será a língua dominante no Tercei-ro Milênio, na Europa e no mundo? E juntocom a língua, lugar privilegiado de definição da 62
  62. 62. identidade nacional, qual das culturas vai im-por-se? A questão é, de fato, efervescente. Naordem dos fatos, a França, cujo idioma fora a lín-gua franca das relações internacionais poraproximadamente 250 anos já sentiu os golpesinflingidos por outros idiomas à sua predomi-nância lingüística. Para enfrentar esta “seleçãonatural” pela hegemonia lingüística, foi criada,em 1883, a Aliança Francesa, declarada “associa-ção nacional para o ensino da língua francesanas colônias e no exterior”. Wells discorda inteiramente das Cassan-dras, para quem a supremacia da língua inglesa écoisa indiscutível. Segundo ele, no ano 2000 ape-nas duas ou três línguas “poderão aspirar ao tro-no do mundo”. O embate principal, porém, serátravado entre as línguas inglesa e francesa. Fren-te a seu rival imediato, a língua francesa dispõede importantes armas para ganhar. A começarpela Europa, onde o 3º Milênio começará com arealização do sonho da União Européia previstajá no começo do século XIX por filósofos comoSaint-Simon. E quem reinar sobre o continentetutelar da civilização universal, terá ascendentemundial garantido. O idioma francês deverá sermais importante porque o público influenciadopor sua cultura “ultrapassa em muito as frontei-ras de seu sistema político”. A grande vantagemdo francês não estaria exemplificada pelas obraspublicadas na França, que são de alto nível cien-tífico, filosófico e literário? A situação é muito di-ferente nos países de língua inglesa, e sobretudo 63
  63. 63. na Inglaterra, onde predominam os “romancesadaptados à mentalidade feminina ou infantil, oudos homens de negócio superocupados, histó-rias destinadas mais a distrair do que estimular areflexão, sendo o único tipo de literatura lucrati-va ao editor e ao autor”. A menos que haja um“renascimento cultural” e uma mudança de hábi-to da “reduzida classe que monopoliza o destinodos negócios, incapaz de compreender o senti-do político da questão do idioma”, o inglês nãopode pretender deslocar a língua francesa de suaposição. São conhecidas as conseqüências damaré da industrialização da cultura. Todavia, ainda conforme Wells, todas essasforças contrárias ao “equilíbrio dos sistemas so-ciais locais” e que conduzem o mundo à adoçãode uma ou das duas “línguas dominantes”, e queele deduz extrapolando a realidade de seu tem-po (o pan-americanismo, o panlatinismo, o pan-germanismo, o paneslavismo), não implicam ne-cessariamente em homogenização. Pois “quantomaior for o organismo social, mais complexas ediversificadas serão as partes, mais indecifráveise variados serão os jogos combinatórios da cul-tura e dos cruzamentos”. No ano 2000, a multi-plicação das formas mais diversificadas de comu-nicação - contatos, viagens, transportes - terá for-çado à adoção de “transações bilíngües”;cada co-munidade falará uma língua universal e uma ou-tra própria de sua esfera particular. 64
  64. 64. 3 A Vez da propaganda A Grande Guerra conferiu à propagandaseu título de nobreza. A paz a consagra comométodo de governo. No período entre-guerras,a ambição hegemônica dos Estados Unidos co-meça a preocupar os criadores europeus noque tange a cultura comercial. Já próximo dasegunda conflagração mundial, as estratégiasde propaganda dão o tom na internacionaliza-ção do rádio.O Gerenciamento da opinião popular 1. Uma Guerra de informação. - Primei-ra guerra de âmbito mundial, a guerra de 1914-18 para alguns significou um “despertar dasconsciências”,ao passo que para outros ela foi“pura enganação”, um imperativo maior. Guerrapolítica, econômica e ideológica, este conflitode proporções mundiais não se limitou apenasao palco das operações militares. Os beligeran-tes criam organismos oficiais de propaganda ecensura. O mais ativo no exterior é a britânicaCrewe House. Sua equipe é composta por jorna-listas como Lord Northcliffe, proprietário do Ti-mes, ou romancistas como G. H. Wells ou Rud-yard Kipling. Centro de emissão de despachos, 65
  65. 65. Londres é a referência técnica para a transmis-são mundial de notícias da guerra. O governodos Estados Unidos cria o Committee on PublicInformation ou o Comitê Creel, nome do jorna-lista que o dirige. É neste comitê que EdwardBernays (1895-1990), futuro fundador da indús-tria das relações públicas, começa sua carreira.A dose de rumores, de notícias fabricadas e declichês enganadores postos em circulação é di-retamente proporcional ao rigor adotado pelosdispositivos de censura. Para a França, que não fica atrás no rigordas medidas de censura interna, a Primeira Guer-ra é uma ocasião de constatar o atraso do dispo-sitivo diplomático na área dos “meios de ação in-telectual no exterior”, conforme uma expressãomuito em voga na época.Associando jornalistase editores, uma “Maison de la Presse” (Casa daImprensa) é criada com correspondentes nasembaixadas. Na primavera de 1918, é acrescenta-do um comitê especial criado sob a égide do Mi-nistério da Educação e das Belas Artes, cuja mis-são é orientar a “propaganda artística no exte-rior”. Um de seus figurantes mais notáveis é a câ-mara sindical da alta costura. Após a grande derrota em Verdun, o altocomando do exército do Kaiser pede, em 1917,que seja criada a UFA (Universum Film AG). Jun-to com os bancos e as grandes empresas, os mi-litares agrupam as empresas do ramo que estãodispersas e fundam uma sociedade cujo campode atividade engloba todos os “setores do cine-ma, bem como a fabricação e o comércio de 66
  66. 66. qualquer atividade ligada à indústria do cinemae da imagem luminosa”. A idéia subjacente énão apenas transformá-la em arma de propa-ganda, mas dotar o país de uma indústria cine-matográfica capaz de garantir-lhe o controle domercado interno dominado pelas companhiasestrangeiras. Em fevereiro de 1916, o governohavia baixado diversas medidas como as quecriavam a exigência de uma autorização espe-cial para a importação de filmes. Um ano maistarde, todas as importações ficavam proibidas.Pela primeira vez na História um país desafiavaas leis do livre comércio com base nas necessi-dades da indústria cultural. A UFA torna-se a primeira sociedade cine-matográfica no mundo a integralizar verticalmen-te suas atividades. O Reich inventa o conceito de“cinemas do fronte”, de “trupes cinematográfi-cas” e de “oficiais do cinema”. Mas não haverátempo suficiente para mobilizar todos os recur-sos deste projeto nascido sob o signo do gigantis-mo e, definitivamente, exageradamente militar.Após a declaração do armistício,os estrategos ale-mães verão na eficiente propaganda aliada umadas principais causas da derrota de suas tropas. 2. A Revelação da propaganda. - Con-forme fora verificado pelos dois campos anta-gonistas, a importância da propaganda na de-flagração do conflito fora tal que chega a servista com todo-poderosa. Os discursos apolo-géticos dos publicitários e cientistas políticos,fundadores da sociologia americana da mídia, 67
  67. 67. transferem para o tempo de paz essa experiên-cia dos tempos de guerra. Cria-se a convicçãode que a democracia não consegue sobreviversem as técnicas modernas de “gerenciamentoinvisível da sociedade maior”, no interiorcomo no exterior do perímetro do Estado Na-cional. Daquele momento em diante, já esti-mam os primeiros especialistas em “relaçõesinternacionais”, a diplomacia deverá contarmais com a “psicologia de massa” do que como “poder do charme”e os “acordos secretos”. Em 1922, o americano Walter Lippmann(1889-1974) lança o Public Opinion. Nestaobra, destinada a tornar-se texto de referêncianas escolas de jornalismo das universidadesamericanas, ele deduz do comportamento dosmeios de comunicação durante a guerra e noimediato pós-guerra uma primeira teoria da opi-nião pública em sua relação com a paz interna-cional. Baseado em sua experiência de capitãodo fronte da propaganda e conselheiro da dele-gação americana na Conferência de Paz, ele fazuma primeira reflexão sobre a natureza da infor-mação e os esteriótipos que impedem a com-preensão entre os povos. Esta teoria havia sidotestada por ele mesmo em “A Test of the News”,um extenso artigo publicado em relatório de 42páginas num suplemento do New Republic de 4de agosto de 1920. Escrito com a colaboraçãode seu compatriota e colega de profissão Char-les Merz, igualmente antigo oficial, o trabalhoanalisa como o New York Times forjou, entre1917 e 1920, a imagem do “perigo vermelho”.68
  68. 68. Os dois autores chegam a pensar em uma cam-panha sistemática de desinformação destinadaao público americano. É, em todo caso, combase em esteriótipos semelhantes que o Depar-tamento de Justiça e o FBI vão apoiar-se para de-sencadear a primeira caça às bruxas contra os“agentes e conspiradores de Moscou”, os cha-mados “Reds”, que termina em 1927 com a exe-cução dos imigrantes italianos Sacco e Vanzetti,símbolo de um erro judiciário provocado pelapressão de uma opinião pública atiçada. No mesmo ano, Harold Lasswell (1902-1978) publica um livro fundador da sociologiafuncionalista da mídia: Propaganda Techniquesin the World War. Como o próprio título indica,o material de reflexão é tirado da Grande Guer-ra. Sob a lupa do cientista político, a propagan-da assume uma aura de eficácia infalível. 3. Alta cultura ou marketing? - Logoapós a assinatura do armistício, a Casa Brancadissolve o Comitê Creel. Ignorando as lições daguerra, e bloqueando qualquer tentativa de pro-longar no exterior o trabalho de informacão ofi-cial, será brutalmente despertada de seu sonocom os assaltos da propaganda nazista. O governo britânico, por sua vez, cria umimpério chamado Marketing Board, com a mis-são de promover a venda dos produtos do impé-rio (Buy British). Uma sub seção do serviço“Publicidade e Educação” é encarregada da pro-dução cinematográfica. Seu diretor, o escocêsJohn Grierson (1898-1972), que passou a guerra 69
  69. 69. num navio caça-minas e em seguida viajou paraos Estados Unidos para observar não somente aprodução dos primeiros filmes de Robert Fla-herty, mas os primeiros passos da indústria derelações públicas, transforma-a num viveiro daescola do documentário britânico, com a qualcineastas estrangeiros são convidados a colabo-rar. Grierson é também o mentor do projeto decriação do British Council e de sua rede de an-tenas culturais, ambicioso plano de ação “para aprojeção da Inglaterra” onde a propaganda cine-matográfica ocupa lugar de destaque. Quanto à França, ela não aprende nemcom o desenvolvimento das técnicas audiovi-suais, nem com o papel estratégico da informa-ção e da propaganda. Confiante na vocação uni-versal da cultura do Iluminismo, ela reformulaas linhas gerais de sua política de “relações cul-turais internacionais”. Convencida de que suainfluência exterior se mede pela captação daselites dos países visados, ela multiplica o enviode missões universitárias de ensino.A Ascensão irresistível dos EstadosUnidos 1. A Base do poder das comunicações. -Durante a Primeira Guerra são aperfeiçoadas astécnicas de codificação e decodificação de men-sagens secretas e aperfeiçoam-se o telégrafo e otelefone. Principalmente, porém, ela confirma opapel das radiocomunicações e a primazia in-dustrial da Grã-Bretanha nessa indústria. 70

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