Jô Soaresas esganadas    romance
Copyright © 2011 by Jô SoaresGrafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesade 1990, que entrou em vig...
prólogoOutono de 1938“Atenção, muita atenção, amigo ouvinte da rádio prg-3,Tupi do Rio de Janeiro! A Capital Federal, conh...
notícias. Quem vos fala diretamente dos estúdios da ruaSanto Cristo é Rodolpho d’Alencastro.”                          14
1A    gorda é a última freguesa a deixar o tradicional chá     da tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gon-çalves Dias...
a mão na saia cinza livrando-se dos restos do cremechantilly. As listas brancas sobre a saia formam a ima-gem grotesca de ...
superava o traço de qualquer desenhista. Herdara do paia funerária Estige, denominação do rio que separava osmortos dos vi...
teve seu preço. Na ânsia de aperfeiçoar-se, Caronte sedescuidava no uso do formol. Trabalhava horas a fio,obsessivamente, ...
que o suicídio era o resultado de anos sofrendo passiva-mente o domínio autoritário da mulher.   Caronte queria se livrar ...
ingeri-los. Apesar dos apelos inúteis do pai, nada con-vencia Odília. Ela mantinha o filho sob dieta rigorosa.Cada prato m...
que jamais se livrará da mãe, a não ser que a mate sem-pre, sempre. Resolve assassiná-la novamente em cadagorda que encont...
Cordélia Casari tem trinta e cinco anos e é gulosa desdemenina. Sua avó italiana costumava dizer durante as re-feições, qu...
cobre o corpo inerme com a mortalha que traz dobradano banco da frente, guarda o cartaz na bolsa do carroe empurra a presa...
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  1. 1. Jô Soaresas esganadas romance
  2. 2. Copyright © 2011 by Jô SoaresGrafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesade 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.Projeto gráficoKiko Farkas/ Máquina EstúdioCapaVictor Burton & Angelo Allevato BottinoImagem de capa© David Toase/ Photodisc/ Getty ImagesIlustraçõesDaniel BuenoCarol GrespanImagensp. 181: DR/Almada Negreirosp. 216: CPDoc/JBPreparaçãoMárcia CopolaRevisãoJane PessoaAna Maria BarbosaDados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)____________________________________________________Soares, Jô As esganadas / Jô Soares. – São Paulo :Companhia das Letras, 2011.isbn 978-85-359-1975-2 1. Romance brasileiro I. Título.11-10017 cdd-869.93____________________________________________________Índice para catálogo sistemático:1. Romances : Literatura brasileira 869.93[2011]Todos os direitos desta edição reservados àeditora schwarcz ltda.Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 3204532-002 – São Paulo – spTelefone (11) 3707-3500Fax (11) 3707-3501www.companhiadasletras.com.brwww.blogdacompanhia.com.br
  3. 3. prólogoOutono de 1938“Atenção, muita atenção, amigo ouvinte da rádio prg-3,Tupi do Rio de Janeiro! A Capital Federal, conhecidapela tranquilidade que oferece a seus habitantes, enfren-ta momentos de insegurança e mistério! Três jovens deconhecidas famílias da sociedade carioca sumiram semdeixar vestígios, num intervalo de poucos dias. O caso as-semelha-se às tramas de fitas de suspense do cinema ame-ricano. Nosso estimado chefe de polícia, capitão FilintoMüller, promete uma breve solução para o caso. O emi-nente militar declarou que a presteza das investigaçõesnada tem a ver com o fato das desaparecidas serem filhasde figuras proeminentes do Estado, pois, segundo ele, nogoverno democrático do presidente Getúlio Vargas to-dos os brasileiros são igualmente tratados. “Essa informação chega aos vossos ouvidos numagentileza do Elixir Phospho-Kola de Giffoni. Para fadigamental, nervosa e muscular, o Phospho-Kola de Gif-foni é saboroso, granulado e glicerofosfatado. O FlashPhospho-Kola volta a qualquer momento com as últimas 13
  4. 4. notícias. Quem vos fala diretamente dos estúdios da ruaSanto Cristo é Rodolpho d’Alencastro.” 14
  5. 5. 1A gorda é a última freguesa a deixar o tradicional chá da tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gon-çalves Dias em direção à rua do Ouvidor. Sua bata bran-ca é amarelada pela infinita quantidade de molhos e cal-dos nela derramada. Farelos antiquíssimos apegam-secomo náufragos desesperados aos babados da blusa. Agorda é bela. Bela e voraz. À porta da confeitaria, aindasegura meia fatia de torta de morango na mão esquerda,enquanto a direita envolve um enorme éclair de choco-late. A gorda gruda-se àquelas guloseimas como se delasdependesse sua vida. Ela é gorda, bela, voraz e gulosa. Um dilema a aflige à medida que avança pela calça-da estreita demais para ela: deveria terminar primeiroa torta ou, antes, abocanhar o éclair? Seus pequeninosolhos porcinos, indecisos, olham para os acepipes pre-sos firmemente entre seus dedos roliços. Ela é gorda,bela, voraz, gulosa e indecisa. Finalmente, trêmula e ofegante, numa antevisão go-zosa dos prazeres que as ávidas papilas da sua línguasentiriam, a gorda atocha na boca o pedaço de torta.Mastiga e engole automaticamente, num movimentosimultâneo aperfeiçoado por décadas de prática. Limpa 15
  6. 6. a mão na saia cinza livrando-se dos restos do cremechantilly. As listas brancas sobre a saia formam a ima-gem grotesca de um quadro abstrato. Ela é gorda, bela,voraz, gulosa, indecisa e lambuzona. A gorda chega à rua Primeiro de Março, agarran-do o gigantesco éclair de chocolate com as duas mãos,como se fosse um imenso falo negro. Antes que desfiraa primeira dentada na cobiçada iguaria, sua bisbilhoticeé atiçada por um furgão branco fosco estacionado qua-se na esquina da rua. O que alerta a atenção da gordasão os diversos doces e bombons expostos numa grandeprateleira que sai do veículo, e o cartaz empunhado porum homem ao lado onde se lê em letras garrafais: degustação grátis! prove os saborosos petiscos da pâtisserie doces finos e ajude-nos a escolher. nenhuma experiência necessária. Ela enfia na boca o éclair de uma só vez e se apro-xima daquele Eldorado gastronômico sem saber que seavizinha da sua última tentação. ««»» O homem é magro. Mais do que magro. Esquálido,seco, macilento. Serviria perfeitamente de modelo parauma caricatura da Morte, porém sua ligação com Tânatos 16
  7. 7. superava o traço de qualquer desenhista. Herdara do paia funerária Estige, denominação do rio que separava osmortos dos vivos na mitologia grega. Sua mãe, OdíliaBarroso, possuidora de um senso de humor discutível, obatizara de Caronte, como o barqueiro encarregado datravessia das almas. O pai, Olavo Eusébio, concordara.Olavo sujeitava-se a todos os caprichos da mulher. Localizada à rua Real Grandeza, perto do cemitérioSão João Batista, a Estige é, sem dúvida, a mais pres-tigiosa da cidade. Seus carros sofisticados e caixões deluxo conferem status a simples exéquias. As salas espe-ciais para velórios rivalizam com os suntuosos salões debaile do Rio de Janeiro. Caronte é alto, muito alto. Vestido de negro, comcabelos longos e ralos, ele parece ainda mais emaciado.De uma palidez cadavérica, sua pele fenecida confunde--se com a dos defuntos que costuma transportar. Lavarae vestira seu primeiro cadáver aos treze anos. Quando Caronte completou dezessete, o pai, con-trariando a esposa pela única vez na vida, o enviou àAlemanha. Durante um ano, ele estudou com FriedrichBerminghaus, professor do Colégio Real de Química ediretor do Departamento de Anatomia da Universidadede Munique. Lá, aprendeu tudo sobre tanatopraxia, amoderna técnica de embalsamamento que preserva aaparência natural do corpo, minimiza as alterações fi-sionômicas e permite que o velório se estenda além dastradicionais vinte e quatro horas. Berminghaus fora discípulo de August von Hof-mann, descobridor do formaldeído. Esse aprendizado 17
  8. 8. teve seu preço. Na ânsia de aperfeiçoar-se, Caronte sedescuidava no uso do formol. Trabalhava horas a fio,obsessivamente, manipulando sem a proteção necessá-ria os frascos. Os produtos causavam-lhe feridas na pelee provocavam um prurido intermitente. Berminghaus oprevenira amiúde do perigo: — Vorsicht, Caronte! Das ist sehr gefährlich! — Kein Problem, Herr Doktor... Como desde a infância Caronte tinha dentes, cabelose unhas frágeis, e manchas pardas espalhadas pelo cor-po, as quais ocultava com o uso de camisas de gola alta emangas longas, ele não dava muita atenção às alteraçõescausadas pela química. Depois de terminar o curso, Ca-ronte voltou para o Rio. Trouxe com ele as mazelas queo acompanhariam para sempre: chagas no corpo, irrita-ção nas mucosas e distúrbios no sistema nervoso. Nãose importava. Para ele, a morte era um meio de vida. A funerária Estige passara de pai para filho desde aGuerra do Paraguai. Seu bisavô enriquecera devido a umcontrato feito com o governo, sem licitação, intermedia-do pela namorada de um funcionário ligado ao gabinetedo Ministério da Guerra. Tal contrato cedia exclusividadepara o funeral dos soldados não identificados mortos noconflito. O escândalo da negociata fora abafado quando aimprensa descobriu que havia um número maior de en-terros do que de combatentes mortos. Olavo Eusébio Barroso se enforcou no lustre da salade jantar no dia em que completou cinquenta anos. En-vergava a mesma sobrecasaca antiga das cerimônias fú-nebres. Não deixou carta ou bilhete, mas Caronte sabia 18
  9. 9. que o suicídio era o resultado de anos sofrendo passiva-mente o domínio autoritário da mulher. Caronte queria se livrar da funerária e ingressar norecém-fundado Conservatório Brasileiro de Música.Antes de ser obrigado a participar dos negócios da fa-mília, seu sonho de infância era ser maestro. Aprendeua tocar piano de ouvido numa velha pianola encosta-da no porão de casa e sabia de cor a obra dos grandesclássicos. Na Alemanha, assistia a todos os concertosda Münchner Philharmoniker e adorava as óperas deWagner no Festival de Bayreuth, cidade próxima a Mu-nique. Quando participou sua intenção à mãe, Odíliaolhou-o com desprezo e respondeu lacônica: “Nempensar. Gastamos muito dinheiro na sua educação”. Caronte odiava a mãe. Destilava por ela um ódio figa-dal desde a sua festa de aniversário de dez anos, quando,em vez do bolo, ela pôs na sua frente um prato com meiomamão enfeitado com as velas. O menino famélico so-prou e odiou. Ao contrário dele, Odília era gorda. Muitogorda. Imensa. Parou de se pesar quando sua compleiçãoobesa, de um metro e setenta de altura, acusou cento equarenta quilos numa balança de armazém. Seu rosto eralindo, de uma beleza clássica. Começara a engordar de-pois da gravidez do único filho. Não fosse o excesso depeso, seu corpo suscitaria a inveja das antigas amigas doliceu. A mãe tinha medo de que seu filho engordasse. Umpânico desnecessário, porque Caronte herdara as carac-terísticas físicas do pai, magro como ele. O metabolismoacelerado do menino queimava as tortas e pastéis deglu-tidos às escondidas antes mesmo que ele terminasse de 19
  10. 10. ingeri-los. Apesar dos apelos inúteis do pai, nada con-vencia Odília. Ela mantinha o filho sob dieta rigorosa.Cada prato minguado de legumes que a tirana lhe em-purrava goela abaixo açulava o ódio que ele nutria pelamãe obesa. O que agravava essa tortura eram os cardá-pios portugueses que ela mesma planejava com esmero,usando receitas originais de sua avó natural da região doMinho. Odília costumava dizer ao prepará-los: “É o meupassatempo favorito. Melhor que fazê-los, só comê-los!”,e desfechava uma gargalhada assustadora, sacudindo seutriplo queixo em cascata. Foi num desses dias, ao ver a mãe aprontando uma ba-cia de Ovos Moles d’Aveiro, que Caronte decidiu matá-la. A morte de Odília foi considerada acidental. Na ver-dade, o “acidente” havia sido provocado por um empur-rão do filho. O corpo fora encontrado no chão liso dacozinha como se ela tivesse escorregado e batido coma base do crânio na quina do forno, quando preparavaum imenso Pudim Abade de Priscos. Antes de chamara polícia, Caronte debruçou-se sobre o fogão e sorveuavidamente a calda caramelada do pudim mesclada aosangue da mãe. Um espasmo sacudiu todo o seu corpo ea nódoa escura que se alargava na frente das suas calçasrevelava o fruto de um orgasmo incontrolável. Um dia, Caronte vê uma gorda na rua lambendo umcone de sorvete. O rosto lindo lembra-lhe a mãe. Ser-vindo-se da ponta da língua como um lagarto, a gordadesempenha movimentos ágeis e lascivos em torno dabola gelada. Com perícia, ela evita que as gotas escor-ram pelos dedos gorduchos. É quando Caronte percebe 20
  11. 11. que jamais se livrará da mãe, a não ser que a mate sem-pre, sempre. Resolve assassiná-la novamente em cadagorda que encontrar. A partir de então, ele só vive paravê-la morrer. Começa a temporada de caça às gordas. Caronte é agora rico e independente. Pode fazer oque quiser do seu tempo. Descobre que é dotado deouvido absoluto, a capacidade de identificar cada umadas notas da escala cromática. Estuda música e aprendea tocar, com facilidade, todos os instrumentos de corda.O piano é o seu predileto. Para que a chacina das víti-mas relembrasse de forma indelével a morte de Odília,atrairia cada uma delas com as receitas portuguesas damãe. Pratica intensamente, em segredo, até se transfor-mar num confeiteiro e mestre-cuca melhor que muitosprofissionais do ramo. Pela primeira vez na vida, come. Um dos carros funerários exclusivos da sua agência éde 1931 e tem uma característica original. Caronte é oúnico no Brasil a ter esse modelo. A inovação consistenuma larga porta dupla lateral para a entrada do caixão,a qual não se dá mais pela porta traseira. Uma pranchamóvel sobre trilhos gira para fora, fazendo uma curvaem direção à calçada, o que facilita a colocação do ataú-de sem expor os carregadores ao trânsito. É sobre essaprancha que Caronte dispõe as iscas irresistíveis. ««»» Seu nome é Cordélia e não Gordélia, como a chama-vam as coleguinhas do primário. Fartavam-se de rir dotrocadilho com a crueldade inocente típica das crianças. 21
  12. 12. Cordélia Casari tem trinta e cinco anos e é gulosa desdemenina. Sua avó italiana costumava dizer durante as re-feições, quando ela se empapuçava de nhoque: “Não sejaesganada, menina! Che pecatto, così bella e così ghiotto-na...”. Cordélia vem correndo com a rapidez que seuspassos curtos permitem. As coxas roliças roçam uma naoutra prenunciando uma assadura incômoda. Ela nãoliga. Não é a primeira vez que isso acontece. Depois,em casa, tratará com unguento sua pele em carne viva. O rosto habitualmente sisudo de Caronte se abrenum largo sorriso. Parece o riso morto das máscarasde Carnaval. A boca se rasga de orelha a orelha, deixan-do à mostra dentes perfeitos e de uma alvura excessiva,características peculiares às falsas dentições. Sua voz ésedutora e aveludada quando ele convida: — Será que a senhorita nos daria a honra de subme-ter os nossos doces ao seu delicado paladar? É grátis,sirva-se à vontade... A gorda, tomada por um fervor quase religioso, seacerca da prateleira de doces. Chega-se aos pulos, comoum passarinho seduzido pela serpente. Sua indecisão semanifesta de novo: — São tantos, meu Deus, e tão lindos! Ela se inclina para cheirá-los, as narinas pulsando deprazer. A rua está deserta, não há por que se acanhar.Cordélia lambe o chantilly que cobre uma torteleta demorango. É nesse instante que Caronte a derruba so-bre a prateleira esmigalhando os doces. Antes que elase dê conta, ele tapa seu nariz repleto de creme como lenço empapado em clorofórmio. Em segundos, ele 22
  13. 13. cobre o corpo inerme com a mortalha que traz dobradano banco da frente, guarda o cartaz na bolsa do carroe empurra a presa desmaiada para dentro do furgão. Acarga gira nos trilhos como os bondes nos terminais.Ele senta-se ao volante e acelera a limusine mortuária,sinistro como o Caronte mitológico, singrando com suacarga pelo sombrio rio Estige. 23

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