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  1. 1. Prólogo Àqueles que me conheceram melhor que eu mesmo, e aos que sobre mim souberem apenas por este relato, deixarei umpouco do que minhas recordações de período recente me permitem relatar. Muitos imaginarão ler aqui apenas a assunção de uma mea culpa à espreita da remissão de falhas que são, julgo eu,impossíveis de serem perdoadas. Asseguro-lhes que esta não foi a intenção que me levou a colocar no papel, de maneira desnuda, adesonra de meus feitos. Arrependido, assumo os erros que levo desta vida em que, apesar de claramente ter-se desenrolada em fasestão distintas, uma etapa não pôde, por nenhuma ação, compensar o mal causado pela outra. Nem seria correto se o fizesse. Mesmo que eu não consiga, ou tampouco tente, convencer alguém que não seja a mim mesmo sobre minha realpersonalidade, ficará ao sabor de quem me ler, um julgamento que de nada me valerá, pois o perdão que busco creio não tê-loalcançado onde, unicamente, o tenho buscado: em mim mesmo. Caso esta narrativa der-lhes a entender que o procurei em outrem,desfaçam esta impressão e partam do suposto de que tudo que fiz em meus derradeiros tempos foi pelo horror de meus atos e,sobretudo, por muito amor. Se acaso conseguirem me compreender a partir de meus motivos, encontrarão meu verdadeiro eu e, quemsabe até, apesar de tudo, de mim não guardarão mágoa nem rancor. Capitão O feixe de luz que entrava pela janela entreaberta agredia e ofuscava-mea visão que, desfocada, custava a dar formas ao estranho local. A assimilaçãodas imagens ao redor foi demorada e, quando os olhos recobraram comdeficiência sua função, apresentaram-me uma situação nada agradável que,sem sucesso, ainda deitado, eu tentava compreender. Eu não sabia onde estava, nem qual era o dia da semana, tampouco domês, e estas eram apenas as primeiras questões de um universo de dúvidasque se multiplicavam e ampliavam minha dor de cabeça a tal ponto de eu nemme atentar à questão principal: quem eu era? Não me lembrava como eu havia chegado ali, tampouco se eu chegarasozinho. As dores no corpo limitavam meus movimentos à velocidade similarao de meu lento e débil raciocínio. Contrariei a lentidão que se impunha elevantei-me tão rapidamente quanto tornei a me sentar. A cama acudiu-me daqueda e, nela, permaneci sentado até que eu estivesse livre de uma novahipotensão postural, tontura se assim preferir chamar quem supor que estestermos não cabem ao homem que logo lhes vou descrever. Ainda zonzo, procurei por indícios do que havia acontecido naquelequarto que, por seu aspecto, sugeria um prostíbulo; alguns lugares são tãopeculiares que nos permitem reconhecê-los mais facilmente do que a nósmesmos. Os bolsos da calça jogada em um dos cantos do cômodo estavamvazios; aos pés da cama, encontrei uma jaqueta que, pelo modelo e tamanho,devia pertencer a alguém que passara a noite comigo; dela exalava umadocicado perfume misturado a um leve odor de cigarro, mesmo assim eu avesti, sentindo uma ilusória sensação de segurança. Já a calça, por me servirtão bem, julguei ser minha. Suspendi-a ao máximo para que pudesse unir-se à
  2. 2. curta jaqueta e cobrir-me a barriga. Creio ser desnecessário narrar o quãoridículo ficou meu figurino. Em uma das paredes do quarto onde, nas partes inferiores o mofo sesobrepunha à tinta vermelho-sangue que a cobria, um pedaço de espelhochamou-me a atenção. Aproximei-me do embaçado caco e me deparei com umrosto que eu podia jurar nunca ter visto. Limpei o pedaço que não era grande,mas ainda assim era maior do que os cacos do mesmo que estavamespalhados pelo chão. Permaneci olhando por vários minutos para os olhosarregalados do estranho, procurando-me em vão. “Quem é esse homem suadoe sujo?” “Quem sou eu?”, perguntava-me, enquanto corria os dedos pela barbavasta e mal delineada que me deixava com um aspecto envelhecido.Imaginava-me oculto pela área coberta de meu rosto, supondo que um bombarbear poderia me auxiliar a encontrar quem eu procurava. As lembranças da noite anterior vinham-me em forma de alguns flashesde memória que não me davam certeza de nada; recordava-me vagamente deuma briga, sem imaginar os motivos que a causaram, enquanto uma latejanteelevação em minha cabeça a confirmava. Cansado de tentar juntar os fragmentos de lembranças do que ocorrera etambém os pedaços de espelho que estavam pelo chão, inseguro, saí doquarto e caminhei por um sombrio corredor decorado com rabiscos obscenos epalavras de baixo calão. Desci alguns degraus da escadaria que dava para ohall da espelunca onde, atrás do balcão da recepção, uma senhora obesalutava para se manter acordada e para sustentar nos lábios o cigarro cujabrasa se aproximava do filtro. Perguntei-lhe o que havia ocorrido e como euteria chegado ao hotel. Sem me olhar nos olhos, pediu-me que fosse à casa deMárcia. Causou-lhe graça e, pelo discreto sorriso, até satisfação, quando eudisse não saber quem era tal pessoa: — Parece que bateram forte mesmo nessa sua cabeça dura. Vire aprimeira à esquerda e chame por ela na casa verde da esquina — disse semdar mais detalhes sobre quem era a pessoa a quem eu devia procurar. Logo, eu batia à porta de uma casa simples onde uma jovem me recebeude modo hostil. No pescoço, evidenciavam-se hematomas de uma recenteagressão, o que fez com que, em um breve flash, eu me lembrasse de tê-laagarrado e empurrado contra a parede, fazendo com que batesse a cabeçacontra o espelho do quarto, partindo-o ao meio e estilhaçando a parte que caiuno chão. — Fui eu quem fez isso em seu pescoço? — perguntei, não querendocrer no que me mostrou a rápida visão que tive ao vê-la. Queria não terperguntado, mas nem aquela informação poderia ser descartada por quemestava prestes a recomeçar uma vida que parecia ainda não ter sido vivida. — Só lhe ajudei porque você estava tão bêbado que eu já imaginava quehoje nem se lembraria o que tinha acontecido. E foi esta a paga que eu tive. Dapróxima vez deixarei que te matem. Saia da porta e entre logo! — Senhora, eu queria me desculpar e saber o que me levou a agredi-la.
  3. 3. — Senhora? Desculpar-se? Deixe-me ver sua cabeça — disse com umsorriso irônico que se desfez repentinamente ao examinar-me. — Está muitoinchado, acho melhor você ir ao médico. Não está falando coisa com coisa. — Agora não. Gostaria de saber o porquê de eu ter-lhe agredido e o queeu posso fazer para lhe compensar. — Já que está tão cavalheiro, cuide do Jorginho. A babá virá mais tardehoje — completou e, antes de sair, entregou-me uma carteira. Não haviadinheiro nem documentos, apenas a foto de uma menina com aparênciaindígena, junto a um papel onde estava escrito um número de telefone. Apesar de eu não ter dado muita importância ao menino, anteriormenteeu já havia notado o filho de Márcia sentado no tapete da sala, jogando vídeogame. Sentei-me ao lado do garoto imaginando que ele pudesse dar-mealguma pista sobre mim. A mãe me dissera havia pouco, assim mesmoperguntei-lhe seu nome, apenas para iniciar a conversa: Jorge — respondeusem tirar os olhos da tevê. — Posso jogar com você? — Pode. — Só tem um problema: você terá que ensinar o tio a jogar. — Você não é meu tio, é meu pai — respondeu o menino para o meuespanto e o rapto do ar que me cercava. Caminhei até a porta para merecuperar do mal súbito e, quando me senti melhor, retornei para rever meurecém-nascido de aproximadamente sete anos. Sim, era meu filho! Agora quedissera, eu podia notar as semelhanças nas cores dos olhos, cabelos e tambémnos traços do rosto delicado, que se assemelhava ao que eu supunha haverdebaixo da minha grosseira barba. Talvez sua mãe fosse minha esposa e, nanoite anterior, teria ido buscar-me naquela espelunca, causando-me irritação elevando-me a agredi-la. Em minhas suposições, algumas peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar, ainda que eu nem imaginasse o quão horrívelseria a imagem que elas formariam. Abri mão do jogo e fiquei contemplando Jorginho que dedicava menosatenção a mim do que à criatura que, se bem entendi, ele deveria eliminar comum laser que destruía tudo que atingia. Pensei em me apresentar a ele, masdesisti, imaginando o quão lunático eu poderia parecer e, além do mais, comoeu me apresentaria? A única referência que eu tinha de mim mesmo era a deser pai do pequeno caçador de monstros. Inerte à situação, dirigi-me novamente à porta para buscar mais um poucodo oxigênio que parecia não se manter estável dentro da sala. Fiqueiencostado ao batente da porta de entrada por onde, logo, uma senhoracarrancuda passou por mim sem me cumprimentar. Apesar da cara de poucosamigos, supus ser a babá. Como eu poderia saber? — Obrigada por ter ficado com o Jorginho — disse ela, cheirando omenino, buscando nele algum odor diferente. — Ele ainda usa fraldas? — perguntei, estranhando aquele ato. — Não. Estou verificando se você não lhe deu bebida alcoólica, como naúltima vez em que ficou com ele. — Eu fiz isso? — perguntei incrédulo. — Fez sim, deu-lhe vinho até que ele não conseguisse ficar em pé.Talvez não se lembre porque você também não conseguia.
  4. 4. — Eu não me lembro de nada nem de ninguém, quem eu sou, ondemoro... Sequer sabia que tinha um filho — lamuriei, na esperança de teralguma informação que me fosse útil e também para me esquivar da culpa daprecoce bebedeira entre pai e filho. — Não tem só este. Apesar de você nunca ter assumido o Jorge, ele e amãe têm mais sorte do que sua filha e esposa que têm que conviver com você— disse a babá, que, sem demonstrar nenhum interesse por meusesquecimentos, ainda farejava odores etílicos no menino. — Por favor, diga-me onde eu moro e como faço para chegar até minhacasa — pedi envergonhado, em tom de súplica. Ouvi atentamente as orientações e parti em direção ao cais para pegaruma pequena embarcação rumo à ilha onde eu morava com minha esposa efilha, ambas ainda desconhecidas para mim que, sem sucesso, tentavaencontrar um elo entre minhas personalidades: a anterior à confusão no bar e aatual, que me dava a sensação de acabar de ser parido ou, se não fosse paratanto drama, no mínimo a impressão de ser um estrangeiro a pisar em novasterras. No cais, ao me dar conta de que eu não tinha como pagar pelapassagem, pedi ao garoto que recolhia o dinheiro para que me deixasseatravessar até a ilha, dando-lhe a palavra de que voltaria para acertar o valordevido. “Palavra de não sei quem!”, pensei achando graça na desgraça. — O senhor nunca precisou pagar passagem, Capitão. Pode subir nobarco — respondeu-me com ar respeitoso e, arisco, deu um rápido passo paratrás quando estiquei a mão para lhe agradecer. Voltou-se desconfiado e, atentoaos meus movimentos, apertou-a. Algumas pessoas que fariam a travessia deitadas em redes, quando eupassava, levantavam-se para me oferecer seus lugares. Eu os agradeci,recusei e acomodei-me em um nada confortável assento de madeira e, antesde partirmos, ainda pude ouvir o menino que me liberara de pagar pela viagemnegar o embarque a um casal cuja mulher estava gestante. — Não pode embarcar mais ninguém! Já esqueceram do acidente? —gritava o menino muito irritado com a insistência do casal que embarcariasomente no dia seguinte, visto que era a última viagem do dia. Pensei em ceder meu lugar, mas era tarde. O barco-gaiola já começava ase afastar da margem rumo à ilha para onde eu logo aportaria todas minhasdúvidas, receios e, principalmente, a ansiedade em conhecer minha esposa efilha que, além de prolongar a viagem pelas águas mansas, fazia-me desperdiçarum espetáculo que somente dias depois eu notei: à distância uma sequência depequenas ilhas faziam com que o sol se alternasse entre crepúsculos ealvoradas, brincado de se esconder e reaparecer em suas laterais, como umartista que volta repetidas vezes ao palco para receber aplausos. Até que, porfim, uma ilha maior, exatamente aquela para onde rumava a embarcação, deupor finalizado o espetáculo do astro. A noite desabou em minutos e minhainsegurança aumentava na velocidade da escuridão. Eu tentava controlar otremor das mãos que suavam e espalhavam uma sensação terrível para todomeu corpo. Sentia-me expelido do útero através de um corredor sombrio de
  5. 5. paredes rabiscadas, com a quase certeza de que, ao contrário de um recém-nascido, eu não seria bem recebido. Ao chegar na única, mas extensa rua da ilha, seguindo a orientação dababá, sem dificuldades, encontrei a casa de bonita fachada onde, segundo ela,eu residia. Olhei-a por alguns instantes procurando algo com que eu pudesseme identificar, mas nada! Nem o enorme cachorro que surgiu latindoamigavelmente não me era familiar. Bati palmas, e a escuridão não me permitiuver com precisão o rosto da mulher que saiu da casa para abrir o portão, e quevoltou rapidamente para dentro sem nada dizer. Sem se aproximar, o DogueAlemão ficou a me rodear. Chamei-o, e o gigante veio arrastando a barriga nochão, num misto de submissão e medo. Parou a pouco mais de um metro demim e, quando bati suaves palmas incentivando a se aproximar um poucomais, ele, desengonçado e apavorado, correu para o fundo do quintal e de lánão saiu tão cedo. A mulher que me recebeu ao portão era minha esposa, e seu evidentedescaso superava a curiosidade em saber o porquê de eu bater palmas diantede minha própria casa, fazendo-a dar de ombros e voltar para a cozinha paracontinuar o preparo do jantar. Entrei na casa procurando por minha filha quenão estava na sala que avizinhava a cozinha. — Olá! — disse eu sem saber como começar um diálogo com a estranhacom quem eu era casado. Não obtive resposta, ficando encostado à porta dacozinha, o que pareceu ter-lhe deixado irritada. — Vá tomar um banho para jantarmos. Você está sujo e cheirando mal. — Não quer saber por onde andei? — perguntei-lhe admirando suabeleza que nem mesmo a nada agradável feição do momento era capaz deesconder com o franzir de sobrancelhas e um olhar tão duro que, se falasse,diria-me palavras piores do que as da babá e, sem que eu imaginasse o porquêde merecê-las, já me sentia merecedor. O nariz era em formato nobre, longo earrebitado e dele desciam lábios em contorno de arco, que a mim nadaproferiam senão flechas, que por mais que doessem, surtiam o mesmo efeitodas de um cupido, enquanto eu, flechado e hipnotizado, via-os se moveremsem ouvir o que diziam. O porquê era óbvio: eles não diziam nada. O que euvia eram novos flashes e estes não costumam vir acompanhados de som. — Não — respondeu breve e friamente a pergunta que eu mal lembravade ter feito. — Eu preciso conversar com você — disse-lhe saindo de meu transe,sem saber por onde começar. — Deixemos para depois. Tenho que terminar o jantar. A Rita está parachegar da escola. — Onde fica o banheiro e onde eu posso pegar roupas limpas? — Nos mesmos lugares em que sempre estiveram; você nunca bebeu aponto de não se lembrar onde ficam suas gavetas e o banheiro. — Eu não estou bêbado. Realmente não me lembro de nada desta casa.Eu poderia até jurar que hoje é a primeira vez que estou lhe vendo — disse-lhelamentando não me lembrar de nossos momentos, acreditando que algunstenham sido felizes.
  6. 6. — O que aconteceu? — perguntou preocupada, constatando que eu nãocheirava a álcool e, em uma atitude descabida de pudor, fechou rapidamentesua blusa, diminuindo o generoso decote que a ajudava a amenizar o calor queenfrentava à beira do fogão. — Não sei ao certo o que houve. Acho que me envolvi em uma briga.Alguém bateu em minha cabeça e, desde então, eu não me recordo de nadanem de ninguém. — Sente-se na cadeira, deixe-me ver. Onde foi que bateram? Não hánenhum inchaço. O inchaço havia cedido, mas ainda estava muito dolorido no ponto emque tentei colocar suas mãos. Espantada, ela as retirou rapidamente evitandoque eu as segurasse. — Não parece estar machucado. Deixe-me pegar suas roupas — dissevisivelmente perturbada com a situação. Logo retornou e levou-me ao banheiro no andar superior da casa. Apósum demorado banho, que parece ter-me rejuvenescido uma década, desci àsala de jantar livre da barba que me desagradou ainda mais quando a vi noespelho grande e limpo do banheiro. Minha face lisa causou um novo e maiorespanto nela e em minha filha que chegara da escola havia pouco. A ciência de ter uma filha fez com que não se repetisse o susto nem o malsúbito daquele mesmo dia, quando conheci o Jorge. O menino foi umasurpresa, um supetão que, ao contrário do que ocorreu com Rita, não me deraalgumas horas de antecipação para me acostumar com a ideia. O choque e aansiedade deram lugar à emoção em ver a menina pela “primeira vez”. Saiu àmãe, linda igual; à mesa, perguntei-lhe a idade, mas ela não respondeu;perguntei-lhe em que série estava e também não obtive resposta. — Renato, vamos jantar. Depois nós conversaremos — disse a mãe,poupando a menina de minha chateação. Enfim, eu descobrira meu nome e estranho era o fato de eu não o terperguntado a ninguém. Gostei e achei-o bastante apropriado à situação;sugeria o renascimento e me agradava mais do que ser chamado por apelido ecarregar uma patente que eu supunha não ter, e de fato não a tinha. Durante todo o jantar eu olhava para Rita que evitava olhar-me demaneira deliberada, apesar da novidade de me ver sem a barba. Soube depoisque era a primeira vez que ela me via assim. Era a minha primeira também e,contrariando minha expectativa, não me encontrei sob a barba. Mais de umavez flagrei-a olhando-me com a cara voltada para a comida e os olhossemicobertos pelas sobrancelhas. Olhar de quem não queria ser notada e que,ligeiro, se voltava ao prato quando descoberto. Entramos em um jogo que alevou a esboçar um sorriso e não voltar a olhar para mim enquanto estivemos àmesa. Após o jantar, enquanto Rita cuidava de seus deveres escolares, sua mãechamou-me até a varanda para conversarmos. — Ela é linda, tem seus traços — disse à Elizabeth, que reagiu comindiferença ao elogio. — Muito mesmo, mas já viu e ouviu coisas que não devia e, como vocêdeve ter notado, ela tem muito medo de você. — Eu já bati na menina?
  7. 7. — Não, mas não sei se já não o teria feito se, por algumas vezes, eu nãoo impedisse. Você costuma chegar embriagado em casa e, para evitarproblemas, eu deixo o jantar pronto e a levo para meu quarto, onde temospassado nossas noites há anos. Hoje foi uma exceção. — Por que você ainda não pediu o divórcio? — Por medo. Você ameaçava a mim, a menina e até meu pai queincentivava a separação. Agora preciso adiantar as coisas para amanhã, achoque você não se lembra, mas sou professora e tenho que preparar provas. Desejei-lhe boa noite e permaneci na varanda vendo-a forrar o sofá ondeeu imaginava que deveria dormir. Não me apressei em entrar, aproveitando ofrescor da noite para aventar a situação que o calor sufocante do dia pareceutornar ainda mais confusa. Momentaneamente eu desisti da busca por maisinformações. Todas que obtive desanimaram-me de perguntar mais sobre mim.Nada de positivo me era dito sobre meu passado que, até aquele instante, sóhavia me dado motivos para me envergonhar. Da mureta da varanda eu conseguia ver o gigante encolhido em um doscantos do portão a me olhar. Desci os degraus que delimitavam a casa doquintal gramado e chamei-o. Novamente ele se aproximou arrastando a barrigana grama. Quando bem próximo, evitei fazer qualquer movimento brusco quepudesse afugentá-lo, como bater palmas ou coisas do gênero. Lentamenteinclinei-me e passei suavemente a mão sobre sua cabeçorra. Foi o que bastoupara que saltasse, jogando muitos dos seus mais de sessenta quilos sobremeus ombros. Não esperando por aquela atitude, tampouco a carga do bruscoabraço, desabei de costas no gramado. Enfim, uma recepção amigável. Nãome apressei em escapar das lambidas que me percorriam do queixo até atesta. Brinquei com o animal que parecia tão carente quanto eu. Ainda deitado,pude ver que Elizabeth observava-me pela janela da sala e, ao perceber queeu a vira, de imediato fechou a cortina. Livrei-me do brincalhão que, saltitante,me rodeava enquanto eu caminhava apressado rumo à sala, na esperança depoder conversar um pouco mais com Elizabeth. Quando entrei na casa, ela jáhavia subido para seu quarto e deixado em cima do sofá-cama, esticado parameu sono, um pijama azul que, ao vesti-lo, pareceu-me bem confortável.Soube depois, por ela mesma, que eu o ganhara na ocasião do dia dos pais;eu o detestava e nunca o havia usado antes daquela noite. Após este, creioque ela tenha me imposto uma grande quantidade de outros testes que, pornão desconfiar, eu nem podia imaginá-los. Quase todos eram gentilezas. Quesujeito infeliz era eu que não era dado a aceitar e nem a fazer agrados?Poucas destas provas foram-me reveladas para que ela pudesse ter certeza deque eu não a enganava. Semanas depois, ela disse que, por um determinadoperíodo, o Capitão fez-se de arrependido de seus erros e, por um tempo,enganou-a para que não precisasse violentá-la, conforme vinha fazendo. Apósconseguir o que queria ele voltou a maltratá-la. Para ela, foi tão dolorosoquanto um estupro. Digo-lhes que olhei para o sofá como um caixão de onde eu poderialevantar-me tal qual um cataléptico, trazendo de volta à vida um famigeradoindivíduo. A ansiedade causada pela vontade de conhecer melhor meus filhos,esposa e me retratar com pessoas, que eu imaginava não serem poucas,contribuíram para retardar em alguns poucos minutos meu sono. Lutava para
  8. 8. não dormir e assegurar minha permanência na vida que me parecia perfeita,com tudo que um homem poderia desejar, e esta vida eu não estava disposto aentregar a quem dava tão pouco por ela. O cansaço que senti ao deitar me fez imaginar que eu devia ter dormidobem pouco na noite anterior e, embora excitado com tantas novidades, emdado instante, o sono pesou sobre mim e, sem resistências minhas, dominou-me mesmo eu estando desejoso em permanecer acordado. Sonhos estranhos sucederam-se uns aos outros, e normal que assimfossem, pois eram sonhos de outro homem, cheios de acontecimentos epessoas do mundo do Capitão. Sonhei com cartas de baralho, prostitutas,brigas e, destoando completamente do que devia ser bem peculiar ao euantigo, vi uma menina com traços indígena e olhar triste, quase de piedade; eraa mesma da fotografia em minha carteira. No sonho, eu a abraçava comvolúpia. Despertei antes que a gigantesca onda de lama que vinha em nossadireção nos cobrisse. Acordei grato por ainda não ser quem eu era antes. Nãoconseguia me lembrar de nada além do dia anterior e lhes confesso que aquilome aliviava. Já era dia e, sozinha à mesa, Elizabeth tomava seu café. Rita já havia idopara a escola; uma monitora ia diariamente à ilha para buscar apenas duascrianças de manhã e devolvê-las à tarde; uma era Rita. Sobre a outra, nãotardarei em lhes falar. Desatento ao cabelo emaranhado, lavei o rosto e escovei os dentes,rápido o suficiente para acompanhar Elizabeth no final de seu desjejum. Elarespondeu com pouco entusiasmo ao bom dia que lhe desejei e, sem tirar osolhos do noticiário, perguntou-me se eu havia melhorado. — Nunca me sentitão bem em minha vida — respondi sorrindo sem imaginar que, ao contrário demim, ela não limitava minha existência a menos de vinte e quatro horas. Mas adureza de seu semblante limitou o tempo de duração de meu sorriso, que sedesfez de imediato quando ela me olhou por sobre o jornal. — Ainda não se lembra de nada? — Não, e me sinto bem assim. Quero começar tudo de novo, ter de voltatudo que, não sei como e nem por que, eu perdi. Desconfiada, ela repousou o jornal sobre a mesa e, sem nada dizer,analisou-me com olhar frio e ao mesmo tempo curioso. Atrás dela, umaarredondada e colorida janela emoldurava seu rosto em um iluminado vitral,semelhante aos das catedrais, pelo qual o sol transpassava. Formou-se emminha mente uma fotografia que, depois daquela manhã, surgia-me quasesempre que nela eu pensava. A imagem da santa bela e desconfiada tornar-se-ia presente em meus breves dias. Eu começava a me acostumar com os olharesde desconfiança. Vários iguais foram-me lançados naquele meu primeiro dia quenão podia ser intitulado como atípico, pois assim seriam todos os próximos. Unsaté mais que outros, apresentando-me sucessões de acontecimentos esentimentos inéditos, quase sempre desagradáveis. Quem me dera ser criançapara poder assimilar, sem sustos e em tão pouco tempo, tantas novidades equedas!
  9. 9. Elizabeth pediu-me para que eu ficasse em casa naquele dia. Imagineique a recomendação dava-me algum crédito; a preocupação inesperada deElizabeth trouxe-me conforto em meio à frieza com que eu vinha sendo tratadopelas poucas pessoas com quem eu havia conversado até então. Sentia-mecomo meu cachorro, tão carente que, se nenhum pudor ou temor eu tivesse,poderia saltar sobre quem me desse um pouco de atenção. Ela anotou otelefone da escola onde lecionava para que eu ligasse, caso me sentisse mal, efoi para o trabalho. Resolvi não sair nem mesmo para caminhar pela rua onde eu morava.Olhei algumas fotografias de um álbum que estava na estante onde, emalgumas poucas, eu aparecia com cara de quem não queria participardaqueles momentos, tampouco registrá-los. Minha expressão nas fotosreforçava a impressão de um homem embrutecido, polido em lixa grossa,zangado com tudo que a vida lhe reservara sem reservas. Quanto maispessoas havia nas fotos, mais carrancudo nelas eu aparecia. Eu nãoreconhecia ninguém que eu ainda não tivesse visto nas últimas horas, no casominha esposa e filha. Rita era a referência que me dava uma imprecisa noçãocronológica das fotografias. Nenhuma parecia ser muito recente a julgar pelotamanho da menina na foto que eu presumia ser a mais atual. Interessaram-me as mais antigas e nelas eu procurava a mim mesmo, mas só o fantasmaestava presente, sempre com a mesma fisionomia assustadora. Havia fotos deRita ainda bebê. Olhei para elas por alguns instantes tentando resgatarlembranças pelas quais eu lamentava minha amnésia. Fechava os olhos e,apertando-os, esforçava-me para recordar daqueles momentos, mas nada mevinha, nenhum breve lampejo. Tive a certeza de que, enquanto eu existisse,eles estariam definitivamente perdidos, tanto os que eu não fazia questão delembrar, quanto os que me furtavam os supostos prazeres de um pai defamília. Estes sentimentos só poderiam ser recompostos pelo Capitão que,neles, parecia não ter tido nenhuma alegria. Deixei o álbum e voltei minhaatenção para os livros da estante que separava, em suas divisórias, quatrotipos diferentes de literatura: filosofia, antropologia, auto-ajuda e infantil.Imaginei que os de auto-ajuda fossem os meus, devido ao conturbado estilode vida que eu parecia levar. Os de filosofia seriam mais úteis, mascertamente o Capitão não podia entender a elevação de tais pensamentos e,assim como os de antropologia, eles deviam pertencer à Elizabeth. Não foitarefa difícil imaginar de quem seriam os infantis. Soube depois a quempertenciam os livros de cada segmento e acertei meus palpites. Ciente deminhas limitações intelectuais, Elizabeth tentava me humanizar comprandovários livros de auto-ajuda, repletos de mensagens e ensinamentos de fácilassimilação, mas de aplicação prática duvidosa, pois eu continuava sendo orude Capitão, mesmo após ter lido alguns deles. Soube que depois de lerquatro ou cinco, decidi não ler mais nenhum dos que Elizabeth vinhacomprando com frequência. Neste ponto não discordo do Capitão: casoestivesse disposto, a partir da primeira leitura ele teria mudado. Não seria umasequência de leituras enfadonhas que iriam melhorá-lo, se ele não seempenhasse para isto. Os livros eram diferentes na abordagem, mas iguais nofracasso de seus propósitos.
  10. 10. No quintal, a luz do sol oferecia em abundância a clareza que nos livrosme faltava disposição para procurar. Brinquei com o cachorrão que euesquecera de perguntar o nome. A brincadeira não se prolongou devido aocansaço que o bicho me causava. Segurá-lo, sem me deixar estatelar no chão,era algo que exigia excelente preparo físico e, definitivamente, eu não o tinha.Olhares curiosos de pessoas que quase paravam ao me ver brincardescontraído como um garoto, também contribuíram para o encerramento dabrincadeira. Voltei para a sala e, sem saber o que fazer, fui ver televisão. O antigofilme Tempos Modernos, estava sendo exibido. Lembrei que eu já o haviaassistido. Mais uma vez fiquei intrigado com fato de lembrar de algumas coisase não de outras mais significantes para mim: eu sabia a raça de meu cachorro,mas não conseguia me lembrar de seu nome; nas várias fotos do álbum defamília, com exceção de Elizabeth e Rita, eu não sabia quem eram as pessoasque nelas estavam, mas pude reconhecer alguns lugares que eu ainda nãohavia estado ou visto recentemente. O filme sugeria como seria o trabalho nofuturo, o que me levou a dar conta de que eu ainda não sabia em quetrabalhava. Tendo dois filhos, eu havia de ter alguma ocupação para podermantê-los. Fiquei preocupado com a possibilidade de ser demitido por estarfaltando ao trabalho. Voltei a ver o álbum, procurando por alguma evidênciaque pudesse me esclarecer qual era minha ocupação. Observando maisatentamente, reparei que, em duas fotos, eu aparecia ao timão de umaembarcação semelhante a que me trouxera até a ilha. Talvez fosse a mesma.Nos detalhes das fotos, consegui ter a certeza de que a chalana estava emmovimento no momento em que fui fotografado em seu comando. Agora aalcunha fazia-me sentido: eu era o Capitão daquela embarcação. Junto ao telefone da escola, Elizabeth também deixou dinheiro. O valorparecia suficiente para saldar a dívida de meu transporte e para um novopasseio na embarcação. Deixei um bilhete e fui até o pequeno cais. Sendo queoutro garoto recolhia o valor das passagens, decidi entregar o dinheiro quandoeu chegasse à cidade. Esperei por quase uma hora pela chegada daembarcação e, logo que ela aportou, entrei para assegurar um lugar próximoao timão. Queria constatar se havia alguma familiaridade entre mim e o velholeme e, no momento em que me aproximei dele, soube que, de fato, eu sabiacomo manejá-lo. Sim, eu era o Capitão. Na dúvida se eu ainda exercia o ofício,perguntei ao jovem que chegou de seu rápido descanso para retomar suaatividade. — Bom dia! O senhor trabalha para alguma empresa ou é o proprietário? — Trabalho para o Pedrão desde que ele comprou a tartaruga do senhor— respondeu o rapaz com a feição que me dava a dica de que ele também nãoentendia o porquê da pergunta. Eu era o dono da “tartaruga”. Era assim que a chamavam. Por tê-lavendido, eu não sabia se o Capitão gostava dela, mas senti vontade deconduzi-la até a cidade. Talvez somente pela necessidade que eu sentia defazer algo de útil. Acomodei-me em uma das redes e, na calmaria das águas, pude apreciaras belezas desperdiçadas pelas incertezas e pela escuridão da viagemanterior. Eu identificava e podia nomear cada bicho que via pelo caminho. Vi
  11. 11. várias aves durante o trajeto e conhecia a espécie de todas elas. Cheguei aimaginar que eu pudesse ser um biólogo, mas quando um menino gritou a umoutro menor — Olha, um socó-dorminhoco! —, meus conhecimentos emrelação às espécies pareceram-me comuns a qualquer um que ali estava. Emcerto instante, achei que já havíamos chegado; muitos passageirosgesticulavam e alguns gritavam para outras pessoas. Na verdade, nemhavíamos nos afastado da ilha, apenas a tínhamos contornado. Levantei-me darede e aproximei-me da beira da barca. Vi que as saudações eram para osribeirinhos que caçavam caranguejos no mangue. Vendo que acenavam devolta, supus serem aqueles gestos uma saudação costumeira aos queexecutavam o penoso trabalho. Também acenei, mas no mesmo instante ostrabalhadores encerraram as saudações e, com exceção de uma menina,voltaram aos seus afazeres. Chamou-me a atenção a menina que permaneceuolhando para a chalana; parecia-me familiar. A proximidade entre a barca e omangue permitiu-me notar que ela me observava e, antes que odistanciamento me fizesse perdê-la de vista, como que não querendo sernotada, ela fez um discreto aceno. Ela era a menina com quem eu haviasonhado; a menina da foto. Apesar da curiosidade, evitei fazer perguntas aospassageiros, que pareciam pouco à vontade com a minha presença. Após contornar parte da ilha, a chalana seguiu em linha reta até a cidade.A viagem pareceu um pouco demorada ao meu estômago que havia horas quenão recebia nada além do café que tomei, ainda muito cedo. A cidade surgiu como um pequeno ponto que foi crescendo no horizonteplano e, quando não pôde agigantar-se mais, desci da embarcação. Encontreio garoto com quem quitei meu pequeno débito e, além da passagem de voltacom saída programada para dali a duas horas, comprei alguns salgados queele mantinha em uma caixa de isopor para vendê-los aos passageiros e,tentado a visitar Jorginho, fiz meu almoço tardio. Aquela era uma situação que,mesmo não sabendo como, eu gostaria de resolver rapidamente, mas a calmase fazia imprescindível, devido ao Capitão manter um relacionamento aindamais conturbado com Márcia e Jorge do que mantinha com Elizabeth e Rita. Ainsegurança em relação à recente briga também colaborou para que euaguardasse o tempo que ainda faltava para o retorno à ilha sentado à beira daplataforma de madeira do cais, onde encontrei no buliçoso desassossego daságuas um momentâneo sossego. Muitos dos passageiros iam à cidade pararesolver rápidas pendências. Grande parte dos que vieram comigo foramchegando para, também, embarcar naquela mesma viagem de volta. Aexemplo da vinda, e diferente do que ocorreu no dia anterior, a chalana nãoencheu, possibilitando-me novamente escolher onde viajar. Desta vez,propositalmente, escolhi uma rede que, devido ao ângulo em que o sol seencontrava, seus raios me atingiria durante quase todo o tempo que levaria avolta. A fim de reduzir a diferença nas tonalidades de meu rosto bicolor,coloquei um lenço na parte superior deixando descoberta a pálida região ondeexistia uma densa barba. O sol castigava-me e, a certa altura, tive que meabrigar em local coberto. Entre tantas e mais importantes que eu tinha pararesolver, aquela era uma questão que não valeria insolação. Quando nos aproximamos da beira do mangue na viagem que, sem oincômodo da fome, pareceu-me mais curta, fiquei em local estratégico da
  12. 12. embarcação, podendo ver os trabalhadores sem que eu fosse visto comexatidão suficiente para ser reconhecido por eles. Os acenos se repetiramenquanto alguns avisos e recados, não sigilosos, eram passados aos gritos porpessoas que tinham amizade ou parentesco com os enlameados ribeirinhos.Minha atenção focou-se na menina que parecia procurar alguém naembarcação. Posicionei-me um pouco mais atrás da coluna de madeira que meocultava e, sem chegar a nenhuma conclusão, fiquei olhando para ela até ocontorno da ilha levar-me a perdê-la de vista. Ao aportar, mesmo ela pedindo para que eu não fizesse aquilo, ajudeiuma cadeirante que tentava subir o alto degrau da plataforma de madeira quecompunha o pequeno cais. Ajudei-a contra sua vontade crendo que erasomente por orgulho que ela me pedia para deixá-la. Ao terminar a boa ação,fui bruscamente empurrado por um rapaz que, se não fosse seguro por umoutro mais forte, teria me agredido ainda mais. A dor que senti ao bater ascostas na quina da plataforma não me permitiu assimilar o que o agressor tãoferozmente me dizia. Ameaças foram feitas e, dada à fúria do rapaz que nemera robusto, procurei não perguntar a razão da explosiva atitude. Para recuperar-me da dor e evitar problemas, permaneci sentado poralgum tempo enquanto a cadeirante e os dois rapazes se afastaram. O maiordiscutia com o mais jovem que, em idade, não era muito mais que umadolescente. Um outro rapaz, que passava por ali, estendeu-me a mão eajudou-me a levantar. Antes que eu pudesse agradecê-lo, virou-se e,apressado, subiu a rua da ilha. Chameio-o, mas o rapaz sequer olhou pra trás. As dores nas costas fizeram-me caminhar com lentidão, o que mepermitiu observar com mais atenção a rua sem comércio e simples emmoradias, a maioria de madeira. As duas melhores casas eram a minha e umaoutra localizada bem próxima ao cais. Eu não sabia se a ilha tinha algumadministrador. Era muito pequena para ter um prefeito, mas, se tivesse,certamente a casa grande pertenceria a ele. Minha chegada em casa foi festejada pelo cão, a quem eu só pudededicar atenção para que ele não saltasse sobre mim e agravasse as doresque eu sentia. Elizabeth já havia chegado e dava aula a uma garota deaproximadamente oito anos. Procurei falar o menos possível e ser discreto. Asduas pareciam incomodadas com minha presença. Não havia remédio; euestava com muitas dores e não tinha para onde ir; logo, teriam que tolerarminha presença. Subi as escadas e me deitei sobre o grosso tapete do quartode Rita, onde cochilei e acordei, já quase sem a dor que me incomodava. Duashoras se passaram e Elizabeth adiantava o preparo do jantar. Recolhi asroupas que estavam secas no varal e a toalha que utilizei no banho anterior.Após banhar-me, ofereci-me para ajudar Elizabeth. Como ela estava somenteadiantando o cozimento de alguns legumes, dispensou minha ajuda e mechamou à sala para conversarmos. Pediu-me para desligar a tevê e me fezrecomendações: — Gostaria que você não ficasse em casa quando eu estiver dando aulasparticulares. Sem questionar o porquê do pedido, concordei e perguntei quantosalunos ela tinha, quais os dias e horários de suas aulas particulares.
  13. 13. — Tenho apenas esta e não posso perdê-la. Ela vem duas vezes porsemana, estuda três horas a cada dia de reforço. Além das aulas da escola,estas são as únicas horas que eu leciono. — Você já teve mais alunos? — Não, o povo daqui não tem condições para pagar o valor das aulas,mesmo não sendo muito caro. É gente humilde que mal ganha para sealimentar. O pai desta aluna tem como pagar e concordou que ela fizessereforço, desde que você não estivesse em casa durante as aulas. Como vocênunca estava eu aceitei e, até agora, não tenho tido problemas em relação aisto. — E continuará não tendo — respondi, contendo minha curiosidade emrelação à imposição do pai da menina. — Quero voltar a trabalhar o quantoantes. Eu tenho um trabalho? — perguntei receoso de não tê-lo. — Você tem ganhado seu dinheiro com jogo, exploração e outrasatividades que não me dizia e que eu nem me atrevia a perguntar. Gastavaquase tudo o que ganhava na rua, em coisas que eu também não sabia... Vocêsabe que tem um outro filho com uma moça da cidade? A pergunta me derrubou de modo mais brusco que o empurrão do rapazdo cais. Eu esperava que ela não soubesse e, assim sendo, eu teria aoportunidade de contar-lhe, buscando alguma forma que lhe causasse menosira. Quem sabe ela não me isentaria da culpa, atribuindo-a ao Capitão. — Sim, descobri ontem, antes de vir para cá. Nem sei como aconteceu... — Você fez sexo com a mãe dele! — interrompeu-me de maneira dura,porém sem elevar a voz. Eu queria argumentar, mas, ainda que eu soubesseem quais circunstâncias a traição ocorreu, não havia argumentos e tudo seresumia na frase objetiva e acusatória de Elizabeth, que se levantou e voltoupara seus afazeres culinários. Na mesa, fiquei me remoendo em remorso poralgo que eu podia jurar não ter culpa, mesmo sabendo tê-la. Após o jantar, as duas se recolheram ao quarto de Elizabeth, que a únicacoisa que me disse antes de se deitar foi — O mangue... — quando lheperguntei o que eu explorava. Deitei-me um pouco mais cedo e, antes dedormir, pensei ter desvendado o mistério da garota da foto, imaginando quetrabalhávamos juntos. Tentei lembrar mais detalhes do sonho, mas logo desisti,evitando perder o sono para tentar decifrar seus detalhes. No dia seguinte, quando as duas se levantaram, eu já estava pronto paracapturar crustáceos: camisa velha de mangas longas, chapéu de palha, botas,luvas de borracha e um balde que deixei reservado na varanda compunhammeu uniforme e ferramental. Elizabeth, achando tudo muito estranho,perguntou-me o que eu ia fazer; riu quando eu disse que encheria o balde decaranguejos. Não tentou impedir-me e, por mais de uma vez, flagrei-a rindo.Ignorei-a, despedi-me de Rita que me ignorou e fui à caça. Por não conhecercaminho mais curto, perdi muito tempo contornando parte da ilha para chegarao mangue, que já estava cheio de trabalhadores que pareciam estar diante deum fantasma quando me viram perdendo minhas botas no atoleiro. Puxei-as eatirei-as longe da parte mais úmida, para pegá-las mais tarde. “Esta era arazão dos risos de Elizabeth”, pensei. Tentando agarrar o solo com os pés
  14. 14. como se fossem mãos, caminhei descalço por entre os ribeirinhos que seafastavam quando eu passava. Queria acreditar que abriam caminho emrespeito aos méritos de alguém importante, mas os feitos do Capitão faziam-me crer que eu os repelia. Escolhi um local próximo à água para deixar o balde e começar meutrabalho. Mas a verdade é que eu não fazia a mínima ideia de como executá-lo.Ao contrário do que aconteceu quando me aproximei do timão da chalana, nãohouve nenhuma familiarização com aquela atividade. Mesmo assim, eu tinhaque tentar. Lembrei do sorriso de Elizabeth e sabia que não podia voltar paracasa de mãos vazias. Tentando ficar indiferente à lama que cobria meus pésaté os tornozelos e tornava quase impossível o meu caminhar, decidi partirpara a caçada e, buscando alguma dica de como começar, olhei para os lados.Todos tinham se colocado num raio de distância de pelo menos dez metros demim. Alguns disfarçavam quando percebiam que eu os olhava. Outros, nãoconseguiam voltar ao trabalho com a minha presença ali. Vi um caranguejo queandava próximo de mim e que imergiu rapidamente num buraco na lamaquando me aproximei. Fiz menção de afundar o braço e arrancar o bicho, maslembrei das luvas de borracha que estavam dentro do balde e que eu pegarasem a permissão de Elizabeth, considerando que meu trabalho era maisimportante do que seus afazeres domésticos. Para ter uma referência, finqueium pedaço de madeira ao lado do buraco onde o fujão imergiu e fui até o baldeapanhar as luvas. Voltei afoito, caminhando com dificuldades pelo lamaçal emque as raízes da vegetação impunham um sem número de obstáculos; enfiei amão o mais profundo que pude, vasculhei um pouco aquelas profundidades enão senti nada de diferente na consistência da lama. Tentei o puxar o braço devolta à superfície e senti minha mão presa. Muita força foi necessária paraconseguir livrá-la da aderência causada entre a lama e a luva que se perdeu nosolo, na profundidade do comprimento de meu braço. Encontrei outro motivopara os risos de Elizabeth: no mangue, os trabalhadores usavam proteções depano que iam dos pulsos até os ombros, ao invés de luvas de borracha paralimpeza doméstica. Avistei outro caranguejo que também imergiu quando meaproximei. Sem frescuras, enfiei o braço desprotegido o mais rápido e profundoque pude. Apalpei-o e, com os movimentos limitados pela lama, tentei agarrá-lo. Senti um impacto terrível que quase me fez deixar a mão no atoleiro,tamanha foi a força com que a puxei. Consegui pegar minha presa. Naverdade, foi somente a presa do caranguejo que eu peguei. Ela se partiu dobicho quando eu a puxei bruscamente. Eu é que fora pego. Tirei-a com cuidadotemendo até que tivesse fraturado o dedo. Olhei ao redor, alguns riamdiscretamente. Não me importei e, amenizada a dor, fui à caça de outro que,distraído, não teve tempo de se afundar muito e novamente eu fui fisgado, sóque, desta vez, a menos de um palmo da superfície. Era um bem maior eparecia que arrancar-me-ia o dedo. Espanquei-o com o pedaço de pau e aindaassim ele custava a largar-me. Desesperado, eu batia na besta para quesoltasse meu polegar. Bati tanto e tão forte que acabei decepando a garra domalvado. Joguei-o morto no balde e cuidei de livrar o dedo que ainda estavapreso. A menina com quem eu havia sonhado veio em meu socorro e,rapidamente, conseguiu me soltar. Agradeci e descobri o motivo dos risos queagora não eram somente de Elizabeth, mas de todos que estavam ali: eu não
  15. 15. sabia como pegar caranguejos. Minha função no mangue certamente era outraque não aquela. Perguntei à garota qual era: — O padrinho vende os caranguejos para o seu Pedro revender nacidade. — Este Pedro é o mesmo que comprou a chalana? — É sim... Então, é verdade o que estão falando por aí que o padrinhoanda desmemoriado? — Infelizmente, ou felizmente eu não consigo me lembrar de nada, nemde ter-lhe batizado. — Mas não é padrinho de batismo. É assim que o senhor gosta de serchamado pelas meninas do mangue. O padrinho então não se lembra dapromessa? — Qual promessa? — De me levar para trabalhar na cidade. — Não, não sei que promessa é essa. Para qual cidade eu ia levar você? — Não sei não... O senhor já levou muita menina daqui, mas só dealgumas a gente soube para onde. — As meninas têm feito contato com as famílias? — Algumas têm, mas a maioria se perdeu no mundo. — Qual o trabalho delas na cidade? — Muita gente diz que elas vão para ser quengas, mas os pais dizem queelas estão fazendo serviço de moça direita em casas de família. Estremeci com a resposta e temi que o tratamento “padrinho” poderia serum substituto para cafetão. Ansiava que o Capitão estivesse, de fato,colocando as moças para trabalharem em casas de famílias e que, se algumasestivessem se prostituindo, o estariam fazendo por vontade própria. Se istoestivesse ocorrendo, não isentaria minha culpa por levá-las ainda crianças paraa cidade e, lá, deixá-las ao dissabor da sorte, mas eu procuraria no livre arbítrioa suavização de uma situação inconcebível e a fuga da vergonha de ser umtraficante de meninas. — Como eu faço para saber onde elas estão? — O seu Pedro vem aqui todas as tardes pra comprar do padrinho oscaranguejos que a gente pega. É ele quem leva para a cidade as meninas queo padrinho indica. Jéssica ensinou-me como localizar os caranguejos e apanhá-los sem serpego por eles e, apesar da dor intensa nos dedos já pinçados pelos bichos, eutentei fazer conforme ela me ensinou. Deu certo uma, duas, três e várias outrasvezes. Consegui uma quantidade que em nada devia à capturada pelosexperientes ribeirinhos. A cada um que eu pegava, Jéssica, trabalhandopróximo a mim, aplaudia-me com palminhas rápidas, pouco expansivas e quenão emitiam som algum. Eu, encabulado por saber que não somente ela meobservava, apenas sorria e voltava minhas atenções para a próxima captura.As dores nos dedos continuavam e os arranhões nos braços se multiplicavamdevido à falta de proteção, mas eu não queria ir embora sem conhecer o talPedro, de quem eu já havia ouvido falar mais de uma vez e que devia ter laçosestreitos com o Capitão. A certa altura, senti-me muito cansado e o passar das horas lembraram-me de um esquecimento que poderia interromper minha, até então, bem
  16. 16. sucedida caça: eu não levei nada para comer no almoço. Os ribeirasperceberam e, alguns deles, creio que por pena, dividiram parte de sua comidacomigo, pagando pelo entretenimento que eu lhes proporcionei no início dasatividades daquele dia. Jéssica quis ceder-me parte de seu almoço chegando aseparar, em outra vasilha, mais da metade para mim. Eu recusei, até porque aquantidade que os adultos me ofereceram já era mais do que eu conseguiriacomer. O pessoal do mangue talvez tivesse motivos para me odiar, pois, peloque eu entendi, eu levava suas filhas para longe e ainda era atravessador doatravessador na venda dos caranguejos. Não era coerente que eu oscomprasse dos ribeirinhos sendo que quem os revendia ia pessoalmentebuscá-los no mangue, no entanto, sem que eu pedisse, juntaram-se para queeu tivesse um almoço, evitando que eu precisasse interromper meu trabalho. Algumas horas após o almoço, quando eu quase não tinha mais forçaspara continuar no extenuante trabalho, vi Pedro chegar próximo ao manguezal,onde o solo ainda não engolia os pés de quem o pisava, acompanhado decinco garotos que o ajudavam a levar a carga, que era carregada a pé até achalana, pois na ilha não havia carros, tampouco balsas capazes de transportá-los. Os ribeirinhos dirigiram-se até mim trazendo-me a quantidade decaranguejos capturados durante o dia todo. Pedi-lhes para que fossem comigoaté Pedro, que não era como eu imaginava. Era rapaz ainda jovem e bemapessoado. Tinha correção no falar e sotaque de quem não pertencia ao local. Causou-lhe espanto ver-me com o corpo coberto de lama e brincou: — Brigou com quem hoje? A pergunta deu-me a entender o óbvio: que alguma vez já havia brigadocom alguém dali. Ignorei-a e fui aos negócios. Em outra situação eu poderia terme apresentado, mas não queria que ele desconfiasse que não estivessefalando com seu companheiro de tramoias. — Pode pagar ao pessoal o equivalente ao que você pagaria a mim. — Você não vai querer tirar o seu? — perguntou Pedro, incrédulo. — Hoje só vou querer receber por esta quantidade, disse entregando-lheos caranguejos presos em um saco de estopa emprestado. Disse-lhe quantoshavia no saco, omitindo que eu mesmo os pegara. Pedro pagou-me semverificar a quantidade informada e pagou aos ribeirinhos o quanto cada umtinha a receber, enquanto, atento, eu contava os caranguejos e o quanto erapago a cada um deles. Até pensei em dividir o valor que recebi entre o pessoal,mas pensei em minha família e ponderei que eu também tinha que ganhar meudinheiro. Vocês hão de concordar comigo que não seria daquela maneira queeu iria me redimir dos anos de exploração do Capitão em relação ao trabalhodaquela gente, e concordo com quem possa estar pensando que algo tinha queser feito para que tamanho mal fosse reparado. Ao final do acerto, Pedro pediu-me para que fosse até sua casa aindanaquele dia para conversarmos e tomarmos uísque. Combinei que passariamais tarde. Antes teria que tomar algo mais necessário: um banho. Os garotos amarravam os caranguejos uns aos outros e, numemaranhado difícil de decifrar, eles eram levados até o cais para a travessia.Pedro se despediu e reforçou-me o convite. A jornada estava encerrada.Recolhi o balde que de nada me serviu e coloquei nele as encharcadas botasde borracha que também de nada serviam para a lida no mangue.
  17. 17. Acompanhei os ribeiras por uma trilha e, em pouco tempo de caminhada,saímos na rua onde todos nós morávamos. Não era necessário fazer todo ocontorno pelas encostas da ilha para chegar ao mangue. Os ribeirinhos não conversavam comigo e poucos foram os queresponderam às minhas despedidas antes de entrarem em suas casas muitosimples. Jéssica morava na mais simples delas. — O padrinho vai trabalhar no manguezal amanhã também? — Vou Jéssica, obrigado por ter me ajudado hoje. Acho que me saí bem,não foi? Ela respondeu batendo suas palminhas sem som e entrou junto com seuspais na esburacada casinha de madeira. Alguns poucos trabalhadorescontinuaram descendo comigo e logo eu estava sozinho. Os ribeirinhosmoravam quase todos na parte alta da rua. Imaginei que as casas da partebaixa fossem mais valorizadas. Só depois de algum tempo entendi que haviauma intensa interação entre o mangue e o pessoal que nele trabalhava que osfaziam permanecer próximos ao lamaçal, mesmo quando não estavamtrabalhando. Engana-se quem imagina que num lugar como aquele, onde édesempenhado um árduo e mal remunerado trabalho exista, por parte detodos, desgostos, lamúrias ou queixas. Havia uma atração tão forte entre omangue e os ribeiras mais antigos, que dava vida a uma crença mais antigaainda: se os ribeirinhos deixassem de ir até o mangue, este se estenderia atéeles, transformando toda a ilha em manguezal. Os mais velhos contam que, hámuito tempo, morreu no mangue, de ataque cardíaco, um trabalhador muitoquerido entre seus companheiros e, em sinal de luto, estes ficaram umasemana sem ir ao local. Quando retornaram às atividades, o mangue haviaavançado cinquenta metros em direção às casas dos trabalhadores, dandoorigem ao mito do mangue vivo. O mesmo não ocorria com os mais jovens queachavam o trabalho muito sacrificante e de baixa remuneração...

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