Richard Matheson Eu Sou A Lenda

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Richard Matheson Eu Sou A Lenda

  1. 1. Richard Matheson Título original: I Am Legend Tradução e Revisão: Jean Steeler © 1954 by Richard Matheson ISBN: 958-16-0201-1
  2. 2. I - Janeiro de 1976 Capítulo 1 Naqueles dias nublados, Robert Neville não sabia com certeza quando se poria o sol, e às vezes eles já ocupavam as ruas antes de que ele retornasse. Durante toda sua vida, a hora do crepúsculo estava relacionada com o aspecto do céu, e geralmente, preferia não se afastar muito. Passeava ao redor da casa, sob uma luz cinzenta e débil, com um cigarro na boca e um fio de fumaça por cima do ombro. Comprovou que as janelas não tinham nenhuma madeira solta. Os ataques mais violentos deixavam tábuas quebradas ou meio arrancadas, e devia remendá-las. Odiava esta tarefa. Hoje felizmente, só faltava uma tábua. Quando esteve no pátio revisou a estufa e o reservatório. Às vezes os ferros que cobriam o depósito se afrouxavam e os encanamentos estavam retorcidos ou rotos. Às vezes, na estufa, as pedras que eles jogavam por cima do muro quebravam os vidros e tinha que trocá-los. Mas o depósito e a estufa estavam intactos nesta ocasião. Retornou a casa. Quando abriu a porta da rua, apareceu no espelho uma imagem de si mesmo, absolutamente distorcida. Fazia um mês que tinha pendurado ali aquele espelho rachado. Ao cabo de poucos dias, algumas partes caíam no alpendre. Pode cair inteiro, pensou. Não tinha idéia de pendurar ali outro maldito espelho; não valia a pena. Em troca, havia posto algumas cabeças de alho. Dariam melhor resultado. Cruzou lentamente a sala, perdida no mais absoluto silêncio, virou pelo escuro corredor da esquerda, e entrou no dormitório. Em outro tempo, a casa havia estado abarrotada de adornos, mas agora tudo era completamente funcional. Como a cama e a escrivaninha ocupavam muito pouco espaço, tinha convertido uma parede em depósito. Na prateleira podia-se encontrar um serrote, um torno e uma pedra de esmeril. E na parede, um mostruário completo de ferramentas. Neville agarrou o martelo e encontrou, no meio da desordem de uma caixa, uns tantos pregos. Tornou a sair, e fixou rapidamente a tábua que se danificou, cravando os pregos restantes na próxima porta caída. Permaneceu ali durante um momento, de pé no jardim, contemplando a rua larga e silenciosa. Era um homem alto, tinha trinta e seis anos e sua descendência era inglesa e alemã. Em seu rosto, nada chamava especialmente a atenção, exceto a boca, larga e firme, e os brilhantes olhos azuis, que observavam agora as ruínas das casas vizinhas. Tinha-as queimado para evitar que se aproximassem pelos telhados. Passados alguns minutos, respirou fundo e voltou a entrar. Jogou o martelo sobre o sofá da entrada, acendeu outro cigarro e tomou a xícara-de-café da manhã. Pouco depois entrou na cozinha a contra gosto. Devia desfazer-se do lixo acumulado na lixeira. Devia também queimar os pratos e copos de papel, e tirar o pó dos móveis, e lavar a pia e a banheira, e trocar os lençóis e a capa do travesseiro. Mas vivia sozinho, e essas coisas podiam esperar. Ao meio-dia, Neville estava na estufa recolhendo cabeças de alho. No princípio, seu estômago não podia suportar o aroma de alho. Agora o tinha impregnado nas roupas, e às vezes pensava que até na pele, e quase não o notava. Quando lhe pareceu que tinha o suficiente, voltou para casa e os colocou na pia da cozinha. Acionou o interruptor da parede. A luz vacilou uns instantes antes de brilhar normalmente. Neville deixou escapar um estalo de desgosto entre as mandíbulas apertadas. Outra vez o gerador. Teria que repassar o maldito manual e verificar os cabos.
  3. 3. E se a reparação era muito complicada, deveria comprar um novo gerador. Sentou-se, mal-humorado, em um tamborete junto a pia da cozinha e tirou uma faca. Primeiro, foi separando os pequenos dentes rosados entre si, logo os cortou pela metade. O acre e penetrante aroma inundou a cozinha. Pôs em funcionamento o aparelho de ar condicionado e a atmosfera ficou bastante limpa. Logo, com uma agulha, fez um buraco em cada metade dos dentes e os atravessou com um arame até formar uns vinte e cinco colares. No princípio pendurava estes colares nos vidros, mas a pedrada o teria obrigado a tapar todos os vidros com madeira cruzada. Finalmente teria substituído estas madeiras pelas tábuas, como se a casa tivesse se convertido em um lúgubre sepulcro; mas teria posto fim à aquela chuva de pedras e vidros quebrados que entrava todas as noites nas casas. E uma vez instalados os três aparelhos de ar-condicionado, pôde-se respirar melhor. Um homem pode acostumar-se a tudo. Quando teve os colares terminados, saiu e os cravou nas tábuas das janelas, e retirou logo os velhos porque já tinham perdido quase todo o aroma. Realizava este trabalho duas vezes por semana. Não teria outra forma de defender-se melhor que esta, no momento. Defender-se?, pensava freqüentemente. Para quê? Durante a tarde, passou o tempo fazendo estacas. Com a ajuda do torno reduzia as toras de madeira em estacas de vinte centímetros. Em seguida, lhes afiava a ponta na pedra de esmeril. Era um trabalho cansativo e monótono, e a serragem flutuava no ar com seu morno aroma e lhe penetrava nos poros e nos pulmões, e lhe provocava tosse. Mas as estacas nunca eram suficientes, independentemente de quantas fizesse. E os toras escasseavam-se cada vez mais. Logo teria que usar pranchas. Pensou, irritado, que isso seria o cúmulo. Tudo era muito deprimente e devia pensar em mudar-se. Mas como, se não podia dedicar nem um minuto a pensar? Enquanto torneava, o alto-falante do dormitório deixava chegar o som da Terceira, a Sétima e a Nona de Beethoven. Com a música enchia o terrível vazio do tempo. A partir das quatro da tarde começou a contemplar o relógio de parede. Trabalhava em silêncio, com os lábios apertando o cigarro, os olhos cravados na furadeira que varava a madeira semeando o chão de um pó esbranquiçado. Quatro e quinze. Quatro e meia. Cinco para as cinco. Só faltava uma hora e os asquerosos bastardos rodeariam a casa. Logo que o sol se pusesse, apareceriam. Deteve-se diante da enorme geladeira para escolher seu jantar. Os olhos indecisos passearam pelas carnes, os vegetais congelados, os pães e os bolos, as frutas e cremes. Tirou ao fim duas costelas de carneiro, umas ervilhas e uma garrafa de suco de tomate. Em seguida, empurrou a porta com o cotovelo para fechá-la e se aproximou das latas de conserva que se empilhavam até o teto. Tomou um copo de suco de tomate e saiu do cômodo. Em outro tempo Kathy dormia ali. Agora era o refúgio de seu estômago. Cruzou a sala. O mural que tampava a parede do fundo mostrava um escarpado, com um formoso oceano verde e azul. As ondas se rompiam contra umas rochas negras. Muito acima, no céu azul, as gaivotas estavam suspensas no ar, e à direita uma árvore torta pendurava-se sobre o abismo e os ramos escuros ficavam recortados contra o céu. Neville entrou na cozinha e deixou cair os mantimentos sobre a mesa, com os olhos fixos no relógio. Cinco e quarenta. Faltava pouco.
  4. 4. Pôs um pouco de água em uma panela e a esperou que fervesse. Em seguida tirou a carne do gelo e a colocou na churrasqueira. Quando a água estava no ponto, colocou as ervilhas na panela. O mau funcionamento do gerador, sem dúvida, era devido à cozinha elétrica. Na mesa cortou duas fatias de pão e se serviu um copo de suco de tomate. ficou olhando o ponteiro dos segundos que girava lentamente na esfera do relógio. Depois de beber o suco de tomate foi até a porta e saiu ao alpendre. Deu uns passos mais, atravessou a grama e chegou à calçada. O céu estava se enegrecendo e soprava um vento frio. Olhou ao longo da rua. Chegariam a qualquer momento. Oh, na verdade, não eram piores que aquelas malditas tormentas de areia. Encolheu-se de ombros, atravessou o jardim e tornou a entrar na casa. Fechou a porta com chave e colocou a tranca em seu lugar correspondente. Retornou à cozinha, virou às costelas de carneiro e apagou a chama aonde ferviam as ervilhas. Estava servindo o jantar quando se deteve para olhar o relógio. Hoje tinham chegado às seis e vinte e cinco. Ben Cortman gritava: —Saia, Neville! Neville se sentou e começou a comer, suspirando. Depois de jantar, na sala, tratou de ler. Preparou um uísque com soda e tinha-o na mão enquanto folheava um texto de fisiologia. Do alto-falante instalado na porta do vestíbulo chegava, a grande volume, uma obra de Shoenberg. Não soa bastante alto, pensou. Ainda os ouvia lá fora. Ouvia seus murmúrios e seus passos, seus gritos, seus grunhidos e suas brigas. De vez em quando, uma pedra ou um tijolo golpeavam a casa. Às vezes ladrava um cão. E todos se reuniam ali para o mesmo. Fechou os olhos por um instante. Logo acendeu um cigarro com resignação e deixou que a fumaça lhe enchesse os pulmões. Se tivesse tempo isolaria a casa e evitaria os ruídos. Tudo seria melhor se não tivesse que escutá-los. Ainda depois de seis meses lhe destroçavam os nervos. Já nem sequer os olhava. Á princípio teria aberto um buraco na porta para espioná- los. Mas um dia, as mulheres se deram conta e lhe incitavam a sair da casa com gestos obscenos. Deixou o livro e cravou os olhos no tapete, escutando a música do Verklärte Nacht. Podia colocar tampões nos ouvidos e não ouviria os ruídos da rua; mas então tão pouco ouviria a música, e não queria ficar encerrado em uma carapaça. Voltou a fechar os olhos. A presença das mulheres complicava as coisas, pensou; as mulheres, como bonecas lascivas na noite. Esperavam lhe provocar e fazer com que se decidisse a sair. Estremeceu-se. Todas as noites acontecia o mesmo: Começava a ler e a escutar música. Em seguida pensava em isolar a casa, e finalmente pensava nas mulheres. De novo aquele calor insuportável nas vísceras. Conhecia muito bem aquela sensação e lhe enfurecia não poder dominá-la. O calor era cada vez mais forte, até que tinha que se conformar e passear pela sala com os punhos apertados. Então acendia o projetor e via um filme, ou comia muito, ou bebia muito, ou aumentava o volume da música até machucar os ouvidos. Sentiu que o estômago lhe retorcia como um arame. Pegou o livro e tentou ler, concentrando-se em cada palavra. Mas um segundo depois o livro estava outra vez sobre seus joelhos. Olhou para a biblioteca. Aquela sabedoria não acalmaria nunca seu fogo; séculos e séculos de palavras não podiam satisfazer aquele desejo imperativo e irracional. Sentiu-se doente, humilhado. Tinham-lhe terminado todas as possibilidades. Tinham-no obrigado ao celibato, e devia assumi-lo.
  5. 5. Estendeu a mão, aumentou o volume da música e tratou de ler uma página inteira sem deter-se. Leu algo sobre corpúsculos sangüíneos que atravessam membranas, e pálidas linfas e nódulos linfáticos, e linfócitos e fagócitos... quot;...para terminar no ombro esquerdo, perto do tórax, em uma das veias largas do sistema circulatório...quot; Fechou o livro de um golpe só. Por que não lhe deixavam tranqüilo? Acreditavam que seria de todos? Eram tão estúpidos? Por que vinham todas as noites? Depois de cinco meses podiam ter desistido e tentar a sorte em outro lugar. Foi até o bar e se serviu de outro copo. Enquanto voltava para seu lugar ouviu que umas pedras rolavam pelo telhado e caíam entre os arbustos do fundo da casa. Além disso, do ruído das pedras, ouviam-se os acostumados gritos de Ben Cortman: —Saia, Neville! Algum dia agarrarei a esse bastardo, pensou enquanto bebia de um gole o amargo líquido. Algum dia o encontrarei e lhe cravarei uma estaca, bem no meio do seu maldito peito. Amanhã. Amanhã isolaria a casa. Não queria pensar mais nas mulheres. Se a isolasse possivelmente deixaria de pensar nelas.A música cessou e Neville tirou os discos do prato e os guardou em suas capas. Agora os sons da rua lhe chegavam claramente. Apanhou um disco qualquer, pôs no toca-disco e aumentou o volume. O ano da praga, de Roger Leie, encheu-lhe os ouvidos. Os violinos chiavam e gemiam; os tambores soavam como os batimentos de um coração agonizante; as flautas tocavam uma estranha melodia átona. Tirou, furioso, o disco, e o quebrou em seu joelho direito. Fazia tempo que desejava fazê-lo. Caminhou logo rigidamente até a cozinha e jogou os pedaços no balde de lixo. Ali permaneceu um momento, na escuridão, com os olhos fechados e apertando os dentes, tampando os ouvidos com os punhos. Me deixem só, me deixem sozinho, me deixem sozinho! Era inútil. Não podia vencê-los de noite. Era inútil tentá-lo; a noite lhes pertencia. Estava comportando-se como um estúpido. Faria melhor ver um filme, mas não, não tinha vontade de instalar o projetor. Iria em seguida à cama com tampões nos ouvidos. Ao fim e ao cabo, assim terminavam todas as suas noites. Rapidamente, tratando de não pensar em nada, entrou no dormitório e se despiu. Colocou as calças do pijama e foi ao banheiro. Nunca usava camisa para dormir. Tinha se acostumado no Panamá, durante a guerra. Olhou-se no espelho enquanto se lavava. Contemplou o peito largo e peludo e a tatuagem que lhe tinham feito no Panamá, uma noite. Durante uma bebedeira. Que estúpido era nessa época, pensou. Bom, possivelmente aquela cruz adornada teria dado-lhe sorte. Escovou os dentes cuidadosamente. Agora era seu próprio dentista. Muitas coisas podiam ir-se ao diabo, mas sua saúde era muito importante. Por que não deixo também o álcool?, pensou. Por que não acabo com aquele inferno? Antes de ir-se à cama percorreu a casa, apagando as luzes. Contemplou o mural durante uns minutos e tratou de pensar que era realmente o oceano. Mas como poderia concentrar-se com todos aqueles chiados e gritos noturnos? Apagou a luz da sala e entrou no dormitório. Uma careta de desgosto se desenhou em sua cara. A serragem cobria os lençóis. Sacudiu-os com a mão pensando que devia separar o armazém do dormitório. Seria melhor fazer isto, seria melhor fazer aquilo, pensou cansado. Teria tanto que fazer. Nunca resolveria o verdadeiro problema.
  6. 6. Colocou os tampões nos ouvidos e se afundou no silêncio. Apagou a luz e deslizou-se entre os lençóis. Eram um pouco mais das dez. Que mais dá pra fazer?, pensou, me levantarei mais cedo. Estendido na cama, respirou profundamente na escuridão, esperando que lhe viesse o sono. Mas o silêncio não era uma grande ajuda. Ainda os tinha gravados; homens de caras brancas que se arrastavam pela rua, procurando incessantemente como chegar até ele. Alguns, possivelmente de cócoras, espreitando como cães, chiavam os dentes e se balançavam para frente e para trás, para frente e para trás. E as mulheres... Mas ia pensar outra vez nelas? Deitou-se de barriga para baixo proferindo uma maldição e apertou a cabeça contra o travesseiro. Assim ficou durante um momento, respirando pesadamente, retorcendo-se. Todas as noites pronunciava mentalmente o mesmo desejo: Que chegue a manhã. Deus, faz que chegue a manhã! Sonhou com Virginia e gritou durante o sono e os dedos lhe cravaram na colcha como garras. Capítulo 2 O despertador soou às cinco e meia. Neville estirou o braço intumescido e o parou. Procurou os cigarros, acendeu um, e se sentou à fumar na cama. Ao cabo de um momento levantou-se, cruzou a sala e espionou pelo buraco. Lá fora, na grama, as obscuras figuras se erguiam como guardiões. Enquanto olhava, algumas começaram a afastar-se, e se ouviam murmúrios de descontentamento. Outra noite chegava ao seu fim. Voltou para dormitório, acendeu a luz e começou a vestir-se. Enquanto colocava a camisa ouviu o grito de Ben Cortman: —Saia, Neville! E isso foi tudo. Em seguida se afastariam, mais fracos do que antes. Possivelmente tinham-se atacado entre eles, o que ocorria freqüentemente. Nada os unia. Obedeciam a só uma necessidade. Uma vez vestido, Neville se sentou na cama e escreveu a lista dos recados do dia: Torno no Sears. Água. Gerador. Madeira. (?). Rotina. Terminou rapidamente o café da manhã: um copo de suco de laranja, uma torrada e duas xícaras de café. Não podia acostumar-se a comer com tranqüilidade. Jogou o copo e o prato de papel no balde de lixo e escovou os dentes. Conservava esse hábito, e isso lhe consolou. Quando chegou à porta, elevou os olhos. O céu estava claro, quase sem nuvens. Hoje podia sair. Fantástico. No chão do alpendre tropeçou com alguns pedaços do espelho. Bom, continuavam quebrando-os. Limparia-os logo. Havia um corpo sem vida na calçada e outro entre as ruínas da casa vizinha. Ambas eram mulheres. Eram quase sempre mulheres as vítimas. Abriu a porta da garagem e tirou de marcha-ré sua caminhonete Willys. Descem em seguida e abriu a porta traseira. Colocou umas luvas grossas e se aproximou da mulher da calçada. Enquanto arrastava os corpos pela grama e os colocava em uma lona, pensou que à luz do dia, não eram absolutamente atrativas. Não tinha nenhuma gota de sangue nelas; tinham a cor de peixes. Fechou o porta-malas.
  7. 7. Percorreu o jardim recolhendo em um saco todos os tijolos e pedras que lhe tinham jogado. Levou-o ao carro e tirou as luvas. Em seguida entrou novamente na casa, lavou as mãos e preparou umas bolachas e uma garrafa térmica de café quente. Entrou no dormitório e recolheu o feixe de estacas. O carregou ao ombro, pegou um martelo da parede e tornou a sair. Essa manhã não trataria de encontrar Ben Cortman. Teria outras coisas que fazer. Durante um instante recordou sua intenção de isolar a casa. Bom, ao diabo com isso. Faria-o outro dia, possivelmente algum dia que estivesse nublado. Meteu-se na caminhonete e releu sua lista. O torno era imprescindível. Mas antes devia livrar-se dos corpos. Pôs o motor em marcha e retrocedeu rapidamente para a Boulevard Compton. Dali se dirigiu ao leste. As casas se elevavam a ambos os lados da rua, silenciosas e vazias; os carros estavam estacionados ao longo das calçadas. Baixou a vista um momento e examinou o indicador de combustível. Ainda tinha meio tanque, mas seria bom parar na avenida Western e enchê-lo. No momento, não teria motivo para utilizar a gasolina armazenada na garagem. Entrou no silencioso posto de gasolina. Aproximou uma lata e com a mangueira, começou a encher o tanque até que este transbordou e o líquido se esparramou pelo cimento. Revisou o óleo, a água, a bateria e os pneus. Tudo estava em ordem. Assim sucedia quase sempre, porque cuidava muito do carro. Se lhe danificasse alguma vez e não pudesse retornar antes do crepúsculo... Bom, não teria motivo para preocupar-se. Se isso ocorresse, seria o fim. Continuou pela Boulevard Compton até deixar para atrás o posto de gasolina e as outras ruas mortas. Não se via ninguém. Mas Neville sabia onde estavam. O fogo ainda ardia. Quando chegou mais perto colocou as luvas, a máscara de gás e ficou olhando a escura coluna de fumaça que oscilava sobre a terra. Todo o campo, desde junho de 1975, era um grande poço. Parou o carro e desceu rapidamente em um salto, ansioso por terminar o quanto antes. Abriu a porta traseira, tirou um dos corpos e o arrastou até a borda do poço. Ali levantou-o e lhe deu um empurrão. O corpo caiu rodando até o fundo cinzento e fumegante. Retornou á caminhonete ofegando, apesar da máscara de gás. Empurrou o outro corpo ao poço e jogou o saco de tijolos e pedras, e se afastou dali a toda pressa. Quando estava afastado um quilômetro, tirou a máscara e as luvas e as jogou atrás. Abriu a janela e ficou a respirar a baforadas o ar frio. Tirou um frasco do porta-luvas e tomou um comprido gole de uísque. Em seguida acendeu um cigarro e aspirou profundamente a fumaça. Ocasionalmente, devia ir todos os dias ao poço, durante várias semanas, e sempre se sentia doente. Em algum lugar, lá em baixo, estava Kathy. Á caminho de Inglewood parou em um mercado em busca de água mineral. Quando entrou no silencioso armazém sentiu de repente o fétido aroma dos mantimentos putrefatos. Empurrou rapidamente o carrinho ao longo das silenciosas e poeirentas prateleiras. Por fim encontrou as garrafas de água. No fundo, uma porta se abria a uns poucos degraus. Colocou as garrafas no carrinho e subiu. O proprietário do mercado deveria estar no andar de acima. Eram dois. No vestíbulo, recostada em um sofá, havia uma mulher de uns trinta anos, vestida em um roupão vermelho. Respirava lentamente, tinha os olhos fechados e as mãos cruzadas sobre o estômago.
  8. 8. Neville procurou o martelo e a estaca. Sempre era difícil cravar-lhe quando estavam vivos, especialmente às mulheres. De novo sentiu aquela urgência insensata que lhe endurecia os músculos. A mulher não proferiu som algum, exceto um rouco grunhido. Enquanto entrava no quarto, Neville ouviu algo similar a um ruído de água. Bom, o que outra coisa podia fazer?, perguntou-se. Não sabia ainda que tinha se equivocado. Parou na entrada da casa, olhando fixamente a cama, com o peito agitado e respirando com dificuldade. Logo, obedecendo a um impulso, aproximou-se e olhou a a menina. Por que todas recordavam Kathy?, pensou, tirando a segunda estaca com mãos trêmulas. Seguiu seu caminho, e enquanto se aproximava lentamente da Sears tratou de esquecer, pensando no efeito das estacas. Cruzou, preocupado, a deserta avenida. Só se ouvia o apagado grunhido de seu motor. Parecia incrível que agora, depois de cinco meses, começasse a preocupar-se. E como sabia que sempre acertava no coração? Tinha que ser no coração, teria dito o doutor Busch. Entretanto, ele, Neville, não tinha conhecimentos de anatomia. Franziu o cenho. Era irritante ter atuado em todo esse odioso processo sem ter certeza uma só vez. Sacudiu a cabeça. Devo pensar atentamente em tudo isto, ordenar as perguntas antes de me responder. Tenho que fazer as coisas de um modo científico. Sim, sim, sim, pensou, sombras do velho Fritz. Neville estava em desacordo com seu pai, e havia lutado contra seu pensamento mecânico e lógico. O velho Fritz tinha morrido, negando violentamente a existência dos vampiros, até o último instante. Encontrou o torno na Sears. Carregou-o na caminhonete e em seguida rastreou o edifício. Viu cinco no porão, escondidos em lugares escuros, e achou um em uma geladeira. Quando viu o homem metido ali, nesse ataúde de porcelana, não pôde conter a risada. Mais tarde se deu conta de que só um mundo sem humor justificava essa risada. Por volta das duas, parou e almoçou. Tudo parecia ter sabor a alho. Era surpreendente o efeito do alho. O aroma devia afastá-los, mas por que? Havia muitos pontos obscuros: que não saíssem de dia, que não suportassem o alho, que os matassem definitivamente com as estacas, que temessem as cruzes e que evitassem os espelhos. Segundo a lenda, eram invisíveis nos espelhos ou se transformavam em morcegos. Mas a ciência e a realidade tinham conseguido vencer aquelas superstições. Do mesmo modo, era disparatado acreditar que se transformavam em lobos. Sem dúvida alguma, existiam cães vampiros; os havia visto e ouvido fora da casa, de noite. Mas só eram cães. Neville apertou os lábios. Esquece-os, disse-se a si mesmo; não está preparado ainda. Algum dia poderá entender tudo isto, mas agora não. Há questões mais urgentes á resolver. Depois do almoço, foi de casa em casa e utilizou todas as estacas.Quarenta e sete.
  9. 9. Capítulo 3 «A força do vampiro reside em que ninguém acredita nele». Obrigado, doutor Van Helsing, pensou Neville deixando a um lado seu exemplar de “Drácula”. Ficou com os olhos fixos na biblioteca, escutando o segundo concerto para piano de Brahms, com um copo de uísque na mão direita e um cigarro na esquerda. Em efeito. O livro era um compêndio de superstições e convencionalismos simples mas essa linha dizia a verdade. Ninguém havia acreditado neles, e como se podia lutar contra algo inverossímil? Assim havia sido. Algo obscuro e noturno havia se cruzado nas sombras medievais. Algo impossível e inconsistente, algo que só existia em feitos e idéias, nas páginas da literatura fantástica. Os vampiros pertenciam à outra época, como os romances de Summers ou os melodramas de Stoker. Eram apenas umas linhas na Enciclopédia Britânica ou possivelmente material para escritores ou filmes de média qualidade. Uma débil lenda que havia se transmitido de séculos em séculos. Bom, pois agora tinha certeza. Tomou um gole de uísque e fechou os olhos, deixando descer o líquido gelado pela garganta até esquentar-lhe o estômago. Era certo, pensou, mas ninguém tinha conseguido averiguá-lo. Oh, sabiam que existia algo, mas de maneira nenhuma podia ser isso. Isso era algo imaginário, uma mera superstição, não havia nada semelhante na vida real. E antes de que a ciência tivesse destruído a lenda, a lenda devoraria a ciência e todo o resto. Esse dia não havia procurado madeira. Não tinha revisado o gerador. Não havia recolhido os pedaços de espelho quebrados. Nem sequer tinha jantado; não tinha apetite. Acontecia freqüentemente. Não podia fazer aquilo e comer logo despreocupadamente. Nem ainda depois de cinco meses. Pensou nos meninos que havia visto aquela tarde e tomou sua bebida. Piscou e as paredes da casa dançaram um pouco diante dele. Está embebedando-se homem, disse a si mesmo. E o que importa?, replicou. Tinha alguém, mais direito? Lançou o livro ao outro extremo do quarto. Adeus, Van Helsing, Mina, Jonathan, e você, Conde de olhos sanguinolentos. Ficções, extrapolações estúpidas de um tema sombrio. Tossiu engasgando-se. Lá fora, Ben Cortman o convidava a sair uma noite mais. Espera aí, Benny, não vá, pensou. Espera que eu ponho o smoking. Espera, Benny... Bom, por que não?, perguntava-se. Por que não sair agora? Só assim poderia livrar-se definitivamente deles. Convertendo-se em um deles. Riu entre dentes. Era muito simples. levantou-se e se aproximou cambaleando-se ao bar. Por que não? Por que sofrer tanto, quando que com apenas o abrir uma porta e descer uns degraus se solucionaria tudo em seguida? Havia, é obvio, uma ínfima possibilidade de que existissem outros como ele em alguma parte, tentando sobreviver, esperando poder encontrar algum dia a gente de sua espécie. Mas como podia encontrá-los, se viviam a mais de um dia de viagem? Encolhendo-se de ombros, encheu de novo o copo com uísque. Qual era sua atividade, fazia meses, desde então? Pôr colares de alho nas janelas, colocar redes na estufa, queimar os corpos, tirar as pedras e, pouco a pouco, ir reduzindo aquela multidão. Por que enganar-se a si mesmo? Nunca havia encontrado a ninguém mais. Deixou-se cair pesadamente no sofá. Aqui estou, acomodadíssimo, acossado por um regimento de sedentos de sangue que só aspiram a beber livremente o meu. Tomem um gole, cavalheiros, este é realmente por minha conta. Uma careta de ódio apareceu em seu rosto. Bastardos! Matarei-os a todos antes de ceder! Apertou com força a mão direita e o copo quebrou-se em pedaços.
  10. 10. Baixou os olhos e olhou aturdidamente os vidros no chão, o resto ainda seguia em sua mão, e o sangue diluído em uísque gotejava lentamente. Gostariam de vê-la?, perguntou-se. Levantou-se, furioso, de um salto, e quase abriu a porta. Seria bom lhes esfregar a cara com a mão e ouvi-los uivar. Fechou em seguida os olhos, sacudindo-se. Se controle, amigo, pensou. Vai enfaixar essa mão condenada. Entrou no banheiro dando uns tropeções e lavou cuidadosamente a mão, estremecendo- se quando a tintura de iodo entrava na ferida. Enfaixou-se em seguida torpemente. Respirava com dificuldade e o suor lhe banhava a testa. Desejava um cigarro. Voltou para a sala, trocou Brahms por Bernstein e acendeu um cigarro. O que farei se um dia me faltam os pregos para os ataúdes?, perguntou-se observando a lenta coluna de fumaça azul. Bom, seria difícil que isso ocorresse. Tinha mil caixas no armário da Kathy... Na despensa, corrigiu-se, a despensa, a despensa. O quarto da Kathy... Olhou com olhos apagados o mural enquanto a idade da ansiedade lhe invadia os ouvidos. Idade da ansiedade, meditou. Acreditava-se ansioso, Lenny. Lenny e Benny, vocês dois deviam se conhecer. “— Compositor, apresento-lhe ao cadáver!”. “— Mamãe, quando for maior, quero ser um vampiro como papai!”. “— Oh, meu querido, quot;Deusquot; te abençoe, claro que chegará a sê-lo!” O uísque derramou-se do copo. Fez uma careta de dor e trocou de mão a garrafa. Sentou-se e bebeu. Apuremos o gasto fio da sobriedade, pensou. Arrastemos a esmiuçada visão da realidade o quanto antes. O ódio. O quarto começou a girar sobre si mesmo e o chão se ondulou sob a cadeira. Uma agradável neblina cobriu todas as coisas. Neville olhou o copo, os discos. Repousou a cabeça, primeiro a um lado e depois ao outro. Lá fora eles rondavam, rosnavam e esperavam que saísse. Pobres vampiros, pensou, pobres criaturas, tão abandonadas, passeando-se frente a minha casa como gatinhos sedentos. Teve uma idéia. Ergueu o indicador, que aparecia tremer diante de seus olhos. Amigos, me aproximarei de vós para discutir sobre os vampiros. Um representante da minoria sempre o houve. Mas vou esboçar concretamente as bases de minha tese: os vampiros são vítimas de um preconceito. A explicação do dito preconceito é esta: Os despreza porque os teme; portanto... Neville seguiu bebendo. Uma vez, nas noites da Idade Média, os vampiros tinham sido muito poderosos e enormemente temidos. Os considerava um anátema, e ainda o eram. A sociedade os perseguia sem descanso. Mas são suas necessidades mais detestáveis que as de outros animais e inclusive as de alguns homens? Realmente, reflita, é tão mau o vampiro? Afinal de contas, só bebem sangue. Por que então esse profundo ódio, essa condenação eterna? Por que o vampiro não era livre de escolher sua moradia? Por que devia estar sempre oculto? Por que exterminá-los? Ah, lhe dá conta? O desamparado inocente terminará convertendo-se em um animal açoitado. O vampiro carece de meios próprios para subsistir, não pode educar-se. Negam-lhe o direito de voto. Não é estranho que levam uma existência noturna e depredadora. Neville deixou escapar um grunhido. Claro, com certeza, mas não permitiria que minha irmã se casasse com um deles. Era um beco sem saída, pensou, encolhendo-se de ombros.
  11. 11. A música cessou. A agulha seguiu patinando sobre os sulcos negros. Neville sentiu que um frio lhe subia pelas pernas. Isso lhe acontecia quando bebia muito. A gente deixa de saborear as delícias da bebida. Já não há consolo no álcool. O desmoronamento se adianta à sorte. O quarto estava voltando para seu lugar original. Os sons da rua aturdiam-lhe de novo. —Saia, Neville! Fez-lhe um nó na garganta e exalou um rouco suspiro. Saia. As mulheres esperavam ali, com os vestidos abertos ou nuas. Sua pele espera meu toque, seus lábios esperam... meu sangue, meu sangue! Como se não tratasse de sua própria mão, Neville olhou o punho pálido que se elevava lenta e trêmulamente, para cair logo sobre sua perna. A dor lhe fez aspirar o ar rarefeito. Por toda parte se cheirava a alho. Na roupa, nos móveis e na comida, e até no uísque. Sirva-me um pouco de alho com soda, por favor! A piada morreu rapidamente. Levantou-se e começou a andar. O que farei agora? Cairei na rotina de todas as noites? Ler, beber, pensar em isolar a casa, pensar nas mulheres. As mulheres, nuas, ofegantes e sedentas de sangue, desdobravam diante dele os corpos quentes. Não, não eram quentes. Um gemido trêmulo lhe subiu pelo peito e pela garganta. O que esperavam aqueles malditos? Supunham que ia sucumbir e entregar-me? Possivelmente estavam certos. Já estava levantando a tranca da porta. Moças, umedeçam seus lábios que vou agora mesmo. Lá fora, ouviram o ruído da tranca e um alarido de antecipação encheu a noite. Neville girou sobre si mesmo, retrocedeu e golpeou com os punhos a parede com tal força que afundou o gesso e machucou a pele. Depois de um momento conseguiu recuperar a calma. Colocou a tranca na porta e se dirigiu ao dormitório. Deixou-se cair na cama, de costas, gemendo. A mão esquerda golpeou uma vez, fracamente, o travesseiro da cama. Meu deus!, pensou. Até quando, até quando? Capítulo 4 Neville não pensou em pôr o despertador e o alarme não soou aquela manhã. Dormiu toda a noite com a perna solta, o corpo imóvel, como que forjado em ferro. Quando por fim abriu os olhos. Eram dez horas. Mexeu-se com um murmúrio de desgosto, tirando as pernas para fora da cama. Pulsavam-lhe as têmporas como se o cérebro quisesse sair do crânio. Fantástico, pensou, isto é da bebedeira de ontem à noite. Não necessitava mais averiguações. Levantou, e queixando-se, foi se arrastando até o banheiro, encharcou a cara e a cabeça em água bem fria. Não é suficiente, protestou, não. Sinto-me realmente mal. O homem que se refletia no espelho era fraco, barbudo, e aparentava mais de quarenta anos. Amor, seu mágico encanto alcança a todos os homens. Estas palavras ininteligíveis lhe golpearam no cérebro como lençóis molhados no vento. Cruzou lentamente o vestíbulo e desobstruiu a porta da rua. Uma maldição saiu de seus lábios quando viu outra mulher estendida na calçada. Sentiu que a raiva lhe invadia o corpo, mas isso aumentou os batimentos do coração no crânio e se controlou. Estou doente, pensou. O céu era de um cinza plúmbeo. Bem!, disse. Outro dia encerrado nesta covinha! Deu uma portada com raiva, mas em seguida se arrependeu, gemendo. O som do golpe havia entrado em seu cérebro. Lá fora ouviu cair os últimos restos do espelho. Apertou os lábios fazendo uma débil careta.
  12. 12. As duas xícaras de café só pioraram as coisas ainda mais. Deixou a xícara e retornou ao vestíbulo. Ao diabo contudo, pensou. Voltarei a me embebedar. Mas o álcool lhe tinha sabor de terebintina. Visivelmente contrariado, jogou o copo contra a parede e ficou contemplando como o líquido molhava o tapete. Demônios, vou ficar sem copos. A idéia o enfureceu. Afundou-se no sofá e ficou ali sacudindo a cabeça com ingenuidade. Era inútil; sentia-se vencido. Os escuros bastardos o tinham vencido. De novo lhe atacava aquela inquietante sensação. Sentia como se seu corpo se expandisse e que a casa se contraía sobre ele, e que em qualquer momento a armação voaria em pedaços; madeiras, gesso e tijolos. Levantou-se e se dirigiu rapidamente para a porta. Parou na grama, respirando profundamente o ar úmido, de costas para casa. Mas as outras casas não eram menos desagradáveis, e também as odiava, assim como o pavimento e as calçadas e os jardins e toda a rua. E de repente se deu conta de que devia sair dali. Estivesse nublado ou não, devia sair imediatamente. Fechou a porta da rua, tirou o cadeado da garagem e ergueu a pesada porta. Não se entreteve em baixá-la. Voltarei logo, pensou. Será só um momento. Tirou rapidamente a caminhonete dando marcha-ré até a rua. Deu volta e apertou o acelerador, entrando na Boulevard Compton. Não tinha rumo algum. Dobrou a esquina a uns sessenta quilômetros por hora e antes de cruzar a próxima travessa já corria a mais de noventa. O carro saltava para frente. A perna tensa de Neville apertava o acelerador no fundo. As mãos eram de gelo no volante. Pelo Boulevard vazio e morto alcançou os cento e vinte quilômetros por hora: um impressionante rugido quebrava aquela opressiva quietude. O mato do cemitério havia crescido tão rápido que já se dobrava sobre si mesmo, estalando sob os pesados sapatos de Neville. Não se ouvia mais som além dos seus passos e o desafortunado canto dos pássaros. Em um tempo acreditei que cantavam porque tudo estava bem no mundo, refletiu Neville. Equivoquei-me. Cantam porque são débeis mentais. Tinha percorrido dez quilômetros antes de descobrir aonde se dirigia. Era estranho como se havia escondido. Em princípio só estava doente e deprimido e precisava sair da casa. Não se havia dado conta de que ia visitar Virginia. Mas tinha vindo diretamente e a toda velocidade. Havia parado a caminhonete junto à calçada, cruzando a pé a enferrujada porta, e agora caminhava entre aquele mato crescido. Quando havia sido a última visita? Fazia um mês pelo menos. Poderia ter trazido algumas flores, mas até chegar à grade não compreendeu o que estava fazendo. Apertou os lábios ao sentir de novo a persistente dor. Por que Kathy não estava descansando também ali? Como teria se deixado dominar por aqueles estúpidos, seguindo suas regras? Se pelo menos estivesse ali junto a sua mãe... Tenso, aproximou-se da cripta. A porta de ferro estava entreaberta. Oh, não terão se atrevido, pensou. Pôs-se a correr entre o mato úmido. Se a houverem tocado queimarei a cidade, anunciou. Juro-o, queimarei a cidade até seus alicerces. Abriu bruscamente a porta e o ferro golpeou com um som oco e ressonante a parede de mármore. Deu uma rápida olhada na lápide e no ataúde. Tranqüilizou-se, suspirando com alívio. Ainda seguia intacta. Em seguida viu o homem. Estava jogado em um canto da cripta, com o corpo dobrado sobre o chão. Furioso, Neville correu para o corpo, e agarrando-o pela camisa, sacudiu-o, arrastou-o pelo chão e o jogou violentamente fora da cripta. O corpo rodou sobre si mesmo, ficando de cara ao céu. Neville voltou para a cripta, ofegante. Com os olhos fechados, colocou as mãos sobre o ataúde.
  13. 13. Estou aqui, pensou. Voltei. Recordei-me. Atirou as flores que havia trazido na última visita e tirou as folhas que o vento teria arrastado até a cripta. Em seguida se sentou junto ao ataúde e apoiou a testa no frio metal. Era como sentir a carícia das suaves mãos do silêncio. Poderia morrer agora, pensou, assim, docemente, sem prantos nem tremores. Se pudesse estar com ela... Se tivesse a certeza de que estaria com ela... Fechou lentamente as mãos e deixou cair a cabeça. Virginia. Leve-me contigo. Uma lágrima cristalina se deslizou sobre suas mãos imóveis. Não sabia quanto tempo havia transcorrido desde que chegou ali. Ao fim, pensou, até a dor mais profunda se abranda, o desespero mais intenso cede. A maldição do carrasco: o prisioneiro se acostuma á sua pena. Colocou-se de pé. Ainda vivo, refletiu; meu coração pulsa insensatamente; o sangue corre por inércia; ossos e músculos funcionam sem motivo. Deu um último olhar à tampa do ataúde, e ao fim se voltou com um suspiro e deixou a cripta fechando a porta silenciosamente. Havia esquecido ao homem e quase tropeçou nele. desviou-se murmurando uma maldição e afastou-se do corpo. De repente, virou-o com brutalidade. Como podia ser? Olhou, incrédulo, o corpo do homem. Estava morto, realmente morto. A mudança tinha sido imediata, parecia como se levasse vários dias morto. Sentiu-se subitamente excitado. Algo havia matado ao vampiro, algo brutalmente eficaz. Nem estacas, nem alhos, e entretanto... De repente compreendeu. Claro, a luz do dia! Durante cinco meses tinha visto que não saíam durante o dia, mas não se lhe havia ocorrido perguntar o porquê! Fechou os olhos assombrado de sua própria estupidez. Tinham que ser os raios do sol; os raios infravermelhos e ultravioletas. Mas por que? Nada sabia sobre os efeitos da luz solar no corpo humano. E, além disso, aquele homem havia sido realmente um vampiro, um cadáver vivente. Teria a luz o mesmo efeito sobre os que ainda estavam vivos? Pela primeira vez em meses se sentia excitado. Correu à caminhonete. Quando esteve no interior do veículo pensou se não seria melhor levar o cadáver. Quem sabe atrairia os outros, que poderiam invadir a cripta? Não, não se atreveriam a aproximar-se do ataúde; estava selado com alho. Além disso, o sangue do homem agora estava morto... Com certeza, os raios do sol modificavam de algum modo o sangue dos vampiros! Era possível, então, que tudo guardasse relação com o sangue? O alho, as cruzes, o espelho, a estaca, a luz do dia, e inclusive a terra em que alguns dormiam? Não compreendia a razão, e entretanto... Teria muito por ler, muito por investigar. Havia pensado nisso á algum tempo, mas ultimamente não havia se dedicado a isso. Agora esta idéia lhe dava novas forças. Colocou em marcha o carro e se dirigiu rua acima, entrando em um bairro de residências, e parou diante da casa mais próxima. Dirigiu-se até a porta, mas a encontrou fechada com chave. Com um sussurro de impaciência tentou o mesmo na casa vizinha. A porta estava aberta aqui e Neville cruzou o vestíbulo a toda pressa e subiu atapetados degraus de dois em dois. Encontrou à mulher no dormitório. Sem vacilar, agarrou-a pelos pulsos. O corpo golpeou contra o chão e ouviu-se um fraco gemido. Neville a arrastou escada abaixo. Quando atravessavam o vestíbulo, a mulher começou a mover-se. Suas mãos apertaram os pulsos de Neville e o corpo se retorceu sobre o tapete. Não abriu os olhos, mas ofegava e rosnava tentando liberar-se.
  14. 14. De repente cravou suas unhas escuras na carne de Neville, que se afastou e proferindo uma maldição a agarrou pelos cabelos. Habitualmente, tivesse-lhe parecido quase intolerável fazer estas coisas; aquelas pessoas tinham sido como ele. Mas agora se sentia animado por um novo ardor, o ardor experimental. Ainda assim, quando chegaram à rua se estremeceu ao ouvir o entrecortado grito de horror da mulher. Apoiou-a na calçada. A mulher agitava as mãos; estirava os lábios manchados de vermelho. Neville a olhava tensamente. Sentiu que algo lhe sufocava. Bom, sofre, é verdade; mas é um vampiro e se pudesse, me mataria com prazer. Terei que ver deste modo, o único modo. Mordendo os lábios ficou ali, até que a viu morrer. A mulher deixou de agitar-se, deixou de rosnar, e suas mãos foram abrindo-se lentamente como casulos brancos sobre o cimento. Neville escutou-lhe o coração. Não pulsava. A carne começava a esfriar-se. Esboçou um débil sorriso, subiu no carro e se afastou dali. Depois de tanto tempo, descobria um método mais eficaz. Não necessitaria mais estacas. De repente, lhe cortou o fôlego. Como podia saber se a mulher estava morta? Como podia averiguá-lo antes do crepúsculo? A raiva o dominava de novo, uma raiva impaciente. Todas as perguntas pareciam anular as possíveis respostas. Parou a caminhonete em um supermercado e se sentou para beber um suco de tomate. Como iria saber? Não podia ficar com a mulher até que anoitecesse. Podia levá-la a sua casa. Estava irritado consigo mesmo. Hoje não conseguiria acertar uma resposta. Agora tinha que retroceder o caminho e encontrar o cadáver, e não se lembrava onde estava a casa exatamente. Ligou o motor jogando um olhar ao seu relógio. Três horas. Tinha tempo. Pisou no acelerador e a caminhonete começou a correr. Demorou meia hora aproximadamente para encontrar a casa. A mulher continuava na calçada, tal como a havia deixado. Neville colocou as luvas, abriu as portas da caminhonete, aproximou-se da mulher e meteu-a na caixa. Depois tirou as luvas. Levantou o pulso. Olhou o relógio. Só eram três horas. Tinha tempo... Três! Sacudiu o relógio e o aproximou do ouvido, com o coração nas mãos. O relógio tinha parado. Capítulo 5 Neville girou a chave de ignição com dedos trêmulos. As mãos apertavam rigidamente o volante, e dando meia volta, apontou para o jardim. Que estúpido havia sido! Pelo menos teria demorado uma hora para chegar ao cemitério. Tinha permanecido na cripta durante horas. Logo, a viagem em busca daquela mulher, e a viagem ao supermercado, e depois de novo em busca da mulher. Quanto tempo havia passado? Idiota! Sentiu gelar as veias ao imaginá-los lhe esperando diante da casa. Oh, Meu Deus, e a porta da garagem tinha ficado aberta! A gasolina, os equipamentos, o gerador! Com um gemido entrecortado pisou fundo no acelerador e a caminhonete pôs-se a correr. O ponteiro do velocímetro oscilou, e saltou dos noventa até os cem, e em seguida até os cento e vinte. O que ocorreria se já estavam esperando-o? Como poderia entrar em casa?
  15. 15. Tratou de acalmar-se. Não podia se desesperar agora. Tinha que entrar. Não há por que preocupar-se, entrará, disse a si mesmo. Mas não lhe ocorria o método para isso. Passou a mão nervosamente pelo cabelo. Fantástico, fantástico, pensou. Passar por tudo isto para seguir vivo, e no dia pior planejado, não volta a tempo. Merecia qualquer castigo por ter esquecido dar corda no relógio. E eles se encarregariam gostosamente de castigá-lo. As silenciosas ruas desfilavam rapidamente. Neville olhava de vez em quando as portas das casas. Começava a escurecer aparentemente, mas sem dúvida era sua imaginação. Não podia ser tão tarde. Acabava de passar a esquina da Western e Compton quando um homem saiu correndo de um edifício e gritou. A Neville lhe gelou o sangue. O grito do homem ficou ressonando no ar. Não podia ir mais depressa. Em qualquer momento arrebentariam os pneus, ou se romperia o eixo da direção, e o carro iria estatelar-se contra qualquer casa. Tremiam-lhe os lábios. Fechou a boca com força. As mãos lhe intumesciam no volante. Teve que reduzir a velocidade ao chegar à esquina da rua Silvestre. Pelo retrovisor, viu um homem que saía de uma casa e corria atrás dele. Os pneus chiaram ao dobrar a esquina. Neville afogou um grito. Estavam todos lhe esperando em frente à casa. Sentiu um nó de terror na garganta. Não queria morrer. Podia havê-lo imaginado. Mas não queria morrer. Pelo menos, não deste modo. Tinham ouvido o rugir do motor e as caras brancas foram se voltando para ele. Alguns saíram correndo da garagem. Neville apertou com fúria as mandíbulas. Que forma tão estúpida de morrer! Vinham ao seu encontro, cruzando a rua. Neville compreendeu de repente, que não podia parar. Apertou o acelerador, e um instante depois a caminhonete ia-os atropelando, derrubando-os como se fossem pinos de boliche. Sentiu tremer o chassi com o impacto. Os rostos brancos passaram diante da janela com gritos dilaceradores. Deixou-os atrás, e viu pelo espelho retrovisor como corriam, perseguindo-o. Teve uma idéia. De repente, diminuiu a velocidade até quarenta e em seguida trinta quilômetros por hora. Virou a cabeça. As caras de um branco cinzento estavam cada vez mais perto, com os olhos cravados no carro e nele. De repente, girou-se sobressaltado. Alguém havia grunhido muito perto. Olhou pela janela e viu o rosto enlouquecido de Ben Cortman junto ao carro. Apertou rapidamente o pedal do acelerador, mas o outro pé escorregou sobre a embreagem. A caminhonete morreu. Um suor frio lhe banhou a testa. Inclinou-se sobre a chave de ignição. A mão de Ben Cortman lhe cravou no ombro. Neville proferiu uma maldição e afastou aquela mão branca. —Neville! Neville! Ben Cortman o alcançou de novo, com suas frias garras de gelo. Neville conseguiu livrar-se outra vez e seguiu girando a chave. Atrás se ouviam os gritos excitados dos que se aproximavam. Por fim, o motor arrancou no instante em que as unhas de Ben Cortman se cravavam na bochecha de Neville. —Neville! A dor lhe fez fechar a mão, e o punho rígido se dirigiu para o rosto de Cortman. Cortman caiu de costas contra o chão e o carro se afastou rapidamente. Outro tinha subido na parte traseira da caminhonete. Durante uns instantes Neville viu o rosto cinzento, apertado contra a janela. Dirigiu-se para a esquina e virou bruscamente; o homem foi jogado para fora e se colocou a correr tropeçando pela grama, com os braços levantados, indo chocar-se violentamente na frente de uma casa.
  16. 16. Neville se sentia intumescido e frio. O coração lhe saltava no peito. O sangue lhe descia pela bochecha. Passou sua mão trêmula pelo rosto. Virou na esquina, à direita. Foi até a rua Haas e dobrou de novo à direita. O que aconteceria se cruzavam os terrenos baldios e bloqueavam a rua? Viu-os lhe seguir, como uma manada de lobos, e reduziu um pouco a velocidade, para voltar a acelerar imediatamente. Contava com que todos lhe seguissem. Suspeitariam o que tramava? A caminhonete alcançou rapidamente a outra esquina. Neville virou a oitenta por hora, chegou à rua Silvestre e dobrou outra vez à direita. Aproximou-se da calçada e abriu a porta. Enquanto descia do carro, alguns gritos aproximavam-se pela esquina. Tentaria fechar a garagem. Do contrário, podiam destruir o gerador; não tinham tido tempo ainda. Correu pela calçada. —Neville! Deteve-se bruscamente. Cortman saiu dentre as sombras da garagem e se chocou contra ele, quase derrubando-o. Sentiu suas mãos frias e fortes lhe apertando o pescoço e um hálito fétido que lhe banhava o rosto. Neville retrocedeu tropeçando para a calçada. A boca branca e fungosa lhe buscou a garganta. Neville levantou bruscamente o punho direito e o deixou cair com toda sua força sobre o peito de Cortman. Ouviu-se um som surdo. Um homem apareceu pela esquina, correndo e gritando. Neville agarrou violentamente Cortman pelos sujos e largos cabelos e o arrastou pela calçada até o carro. A cabeça de Cortman golpeou o estribo. Não tinha tempo para ocupar-se da garagem. Neville subiu rapidamente os degraus do alpendre e parou de repente. Meu Deus, as chaves! Sentiu que lhe faltava o fôlego. Inspirou e pôs-se a correr para o carro. Cortman se aproximou grunhindo afônicamente. Neville lhe golpeou a cara com o joelho, e Cortman caiu de novo contra a calçada. As chaves estavam no porta-luvas. Quando Neville saiu da caminhonete, um deles saltou para ele. Retrocedeu apoiando-se no assento, e o homem, tropeçando com suas pernas, rodou pesadamente pela calçada. Neville deu um salto, cruzou a grama, e alcançou o alpendre. Estacou-se para procurar a chave e outro homem subiu atrás dele. O impacto jogou Neville contra a casa. Outra vez aquele fôlego fétido e a boca entreaberta sobre seu pescoço. Afundou o joelho no ventre do homem e em seguida, apoiando-se contra a parede, empurrou-o bruscamente com o pé. O homem, dobrado sobre si mesmo, caiu em cima do outro que se aproximava pela grama. Neville abriu a porta, entrou, e se voltou para fechá-la, quando um braço alcançou-o passando pela abertura. Neville apertou com todas suas forças até ouvir quebrar os ossos. Em seguida abriu, jogou o braço quebrado e fechou com uma portada. Colocou a tranca com mãos trêmulas. Apoiado na parede, foi escorregando lentamente para o chão e se inclinou de costas. Ficou ali na escuridão, com o peito agitado e os braços e as pernas estendidos e insensíveis. Lá fora, ouviam-se gritos furiosos e golpes violentos. Pedras e tijolos choveram sobre a casa. Ao cabo de um momento Neville se dirigiu ao bar. Parte do uísque se derramou sobre o tapete. Bebeu apoiando o corpo no móvel, com um nó lhe apertando a garganta e os lábios trêmulos. Sentiu descer o calor do líquido até o estômago e se sentiu reconfortado. Respirou devagar. Lá fora se ouviu um estrondo.
  17. 17. Neville correu a espionar pelo buraco. Pedras e tijolos quebravam o pára-brisa da caminhonete, derrubada no meio da rua, e alguns homens providos de paus golpeavam o motor com todas suas forças. Neville sentiu fúria nas veias, uma corrente como um ácido lhe percorreu todo o corpo. De repente se lembrou do gerador e tratou de acender o abajur. Não havia luz. Correu até a cozinha. O refrigerador não funcionava. Foi de uma casa a outra. Todos os mantimentos se danificariam. A casa era uma casa morta. —Basta! —gritou em um ímpeto de cólera. Revirou as roupas da cômoda com impaciência até que as mãos se encontraram com as armas. Cruzou a sala e tirou a tranca da porta deixando-a cair ao chão. Os de fora o ouviram e começaram a uivar. Já saio, bastardos!, gritou Neville em sua mente. Abriu a porta repentinamente e disparou contra o primeiro na cara. O homem rodopiou e caiu do alpendre à grama, aonde duas mulheres com os vestidos rasgados receberam-no em seus braços. Neville viu como os corpos se retorciam com as balas e ouviu gritos dilaceradores. Disparou até esgotar as balas. Logo, seguiu dali ao alpendre, golpeando-os cegamente com as culatras das armas, e observando aterrorizado como voltavam para ele quão mesmos havia ferido. E quando lhe arrebataram as pistolas, recorreu aos punhos e aos cotovelos, e afastou-os á cabeçadas e chutes. Só quando sentiu aquela intensa dor no ombro se deu conta do que estava fazendo. Afastando de um lado a duas mulheres, chegou até a porta. O braço de um homem lhe rodeou o pescoço. Neville se dobrou para frente jogando o homem por cima de sua cabeça. Antes que o alcançassem outra vez, fechou a porta em seguida e trancou. Apoiando-se contra a parede de pé na fria escuridão da casa, Neville voltou a escutar os gritos dos vampiros. Quase sem forças golpeou o gesso da parede; as lágrimas lhe corriam pelas barbudas bochechas; a mão machucada lhe doía intensamente. Tudo estava perdido, tudo. —Virginia —soluçou como um menino perdido e assustado—. Virginia. Virginia. II - Março de 1976 Capítulo 6 A casa, ao fim, era confortável outra vez. Ainda mais que antes em realidade, pois, depois de três dias de trabalho tinha conseguido isolar as paredes. Agora podiam gritar e uivar a seu gosto. Era um descanso não ter que ouvir novamente Ben Cortman. Havia-lhe levado tempo e trabalho. Em primeiro lugar teve que procurar uma nova caminhonete. Não tinha sido tarefa fácil. Teve que ir até a Santa Mónica. Não conhecia outra concessionária Willys, nunca tinha dirigido outras marcas e não era momento para experimentos. Como não podia ir andando até Santa Mónica, procurou outro carro pelos arredores. Mas a maior parte não funcionava, por um motivo ou outro; a bateria descarregada, a bomba de óleo rachada, falta de gasolina, pneus murchos. Por fim, a um quilômetro de sua casa, encontrou um carro em bom estado e correu a Santa Mónica em busca de outra caminhonete. Colocou-lhe uma bateria nova, encheu o tanque de gasolina, carregou algumas latas e voltou para a casa. Chegou uma hora antes do anoitecer.
  18. 18. Por sorte não tinham quebrado o gerador. Aparentemente, os vampiros não conheciam sua importância. Neville só havia encontrado um cabo partido e as marcas de algumas pauladas. Arrumou-o em seguida, durante a manhã seguinte ao ataque, evitando assim que a comida se danificasse. Alegrou-se realmente, pois agora que faltava eletricidade no bairro, seria impossível conseguir mantimentos congelados. Depois, havia arrumado a garagem tirando restos de lâmpadas, fusíveis, cabos, reposições de motor e uma caixa de sementes que tinha guardado ali fazia anos. A máquina de lavar roupa não funcionava e a havia trocado. Mas tudo isto não tinha sido difícil. Em compensação, havia custado tornar a encher as latas de gasolina. Nisto se superaram a si mesmos, pensou com irritação enquanto limpava o combustível derramado no chão. No interior da casa tinha arrumado o gesso da parede e, como novo estímulo, havia trocado o mural, dando assim uma aparência distinta à sala. Pôs entusiasmo em seu trabalho, uma vez começado. Era algo no que se ocupar, algo no que consumir os restos de raiva. Desse modo quebrava a monotonia das tarefas diárias; o traslado dos cadáveres, as reparações do exterior, os colares de alho. Nesses dias bebia pouco; tratava de não provar o uísque durante o dia, e de que os drinques noturnos fossem simplesmente para acompanhá-lo nos momentos de descanso e não um suicídio camuflado. Teve mais apetite e aumentou dois quilos. Até dormiu profundamente nestas noites, e sem pesadelos. Durante um dia ou dois pensou na idéia de mudar-se para um luxuoso apartamento de algum hotel, mas a abandonou ao considerar todo o trabalho que seria necessário para acondicioná-lo. Não, já estava bem em sua casa. Agora, sentado no vestíbulo, escutava Júpiter, de Mozart, e pensava sobre como e onde começaria sua investigação. Conhecia alguns detalhes, mas eram só pequenos sinais em um terreno desconhecido. Sem dúvida alguma, a resposta residia em outra parte. Possivelmente em algum feito familiar, não considerado devidamente e sem relação aparente com o resto. Mas o que? Recostado na cadeira, com um copo na mão direita, observava o mural. Era uma paisagem canadense: bosques profundos, estáticos e misteriosos, de sombras verdes, onde reinava o profundo silêncio da natureza indomável. Neville cravou pensativamente seu olhar nas sombras verdes do mural. Aquela noite, fazia tempo, havia desatado uma tormenta de areia. O vento tinha sacudido a casa, penetrando pelas frestas, e até pelos poros do gesso, cobrindo o chão e os móveis com uma fina capa de pó que repousava sobre a cama e se metia nos olhos e sob as unhas. Neville havia passado meia noite acordado, tratando de ouvir a pesada respiração de Virginia, mas só lhe chegava o estrondo da tormenta. Durante um momento, suspenso entre o sonho e a vigília, havia chegado a sentir como se rodas gigantescas triturassem a casa e umas terríveis superfícies abrasivas corroessem seu esqueleto. Não chegava a acostumar-se às tormentas de areia, não suportava aquele som sibilante dos redemoinhos. Quando começavam, quase não podia dormir, e ao dia seguinte ia à fábrica com um grande cansaço no corpo e na mente. E agora, além disso, a preocupação por Virginia. Às quatro da manhã despertou e percebeu que a tormenta havia cessado. O som do silêncio lhe assobiava nos ouvidos. Enquanto se movia para acomodar o retorcido pijama, deu-se conta de que Virginia estava acordada. Deitada de barriga para cima, olhava o teto baixo. —O que houve? —perguntou-lhe sonolento. Virginia não respondeu. —Querida... A mulher se voltou para ele. —Nada —disse—, dorme.
  19. 19. —Como você está? —Igual. —Ah. Neville a olhou um momento. —Bom —disse ao fim, e virando-se, tratou de dormir. O despertador soou às seis e meia. Quase sempre Virginia desligava-o, e em algumas ocasiões Neville, estirando o braço por cima do corpo imóvel de sua mulher. Virginia seguia de barriga para cima, olhando ao teto. —O que houve? —perguntou Neville preocupado. Virginia o olhou e sacudiu a cabeça. —Não sei —disse—, não posso dormir. —Porquê? A mulher se encolheu de ombros. —Sente-se fraca ainda? —perguntou Neville. Sua mulher tentou sentar-se e não pôde. —Trate de não se mover. —Neville lhe aproximou uma mão à testa—. Parece que não tem febre —lhe disse. —Não me encontro mal —disse Virginia—. Só... cansada. —Está muito pálida. —Já sei. Pareço um fantasma. —Não se levante. Virginia havia se levantado. —Não vou morrer disto —disse—. Vamos, se vista. —Não se levante, se não se sente bem, querida. Virginia deu-lhe uma palmada no ombro e sorriu. —Passará logo. Vá se aprontar. Neville estava barbeando-se quando ouviu os passos da Virginia arrastando os chinelos. Abriu a porta e a viu cruzar a sala muito devagar, vestida com um roupão e cambaleando-se ligeiramente. Neville tornou a fechar a porta sacudindo a cabeça. Não deveria levantar-se. O pó também cobria a bacia. Tinha pó por toda parte. Neville teve que improvisar uma capa sobre a cama da Kathy. A lona estava pendurada da parede, junto ao travesseiro da cama, e duas madeiras a sustentavam no chão. A areia havia impregnado o sabão e Neville não pode barbear-se bem. Mas já era tarde, e não podia perder mais tempo. lavou a cara, pegou uma toalha limpa do armário do corredor e se secou. Antes de voltar para sua casa, olhou no quarto de Kathy. Dormia ainda. A cabecinha loira descansava relaxada sobre o travesseiro. O sonho havia colorido suas bochechas. Neville passou um dedo pela lona e ficou cinza de pó. Sacudiu a cabeça aborrecido e saiu do quarto. —Se estas condenadas tormentas de areia terminassem de uma vez —disse ao entrar na cozinha, uns minutos depois—. Me parece que... Calou-se. Habitualmente Virginia estava de pé junto à cozinha, fritando uns ovos, ou preparando umas torradas, ou fazendo café. Hoje estava sentada na mesa sem fazer nada. Sobre o fogão fervia o café, somente. —Querida, se você não se encontrar bem, volte para a cama —lhe disse Neville—. Eu me ocuparei do café da manhã. —Não, deixe-me —disse Virginia—. Só estava descansando. Sinto muito. Em seguida lhe prepararei uns ovos. —Descanse —replicou Neville—. Não sou um inútil. Aproximou-se da geladeira e a abriu. —Eu gostaria de saber o que eu tenho —disse Virginia—. A metade dos vizinhos tem o mesmo e você diz que na fábrica, a maior parte do pessoal está de licença.
  20. 20. —Possivelmente se trate de algum vírus. —Não sei. —Entre as tormentas, os mosquitos e as enfermidades, a vida vai tornando-se difícil — disse Neville servindo-se suco de laranja de uma garrafa—. É algo diabólico. No suco de laranja havia uma bolinha preta. —Não entendo como entram no refrigerador —comentou Neville. —Não me sirva , Bob —disse Virginia. —Não quer um pouco? —Não. —Te faria bem. —Não, obrigado, querido —disse a mulher, tratando de sorrir. Neville tornou a garrafa a seu lugar e sentou-se frente a ela com o copo na mão. —Não lhe dói nada? —perguntou—. A cabeça? Ou algo? Virginia negou com um gesto. —Se eu soubesse o que tenho... —disse. —Chame hoje mesmo o doutor Busch. —Farei-o —disse Virginia erguendo-se. Neville lhe acariciou a mão. —Não, não, querida, não se mova. —Mas não há motivo para estar assim. Parecia zangada. Sempre foi assim Desde que Neville a conheceu. A enfermidade a irritava, de algum modo lhe parecia como um insulto. —Vamos —Disse Neville levantando—. Ajudarei-lhe a voltar para a cama. —Não, ficarei aqui com você. Me deitarei quando Kathy sair para a escola. —Bom. Não precisa de nada? —Não. —Um pouco de café, talvez? Virginia negou com a cabeça. —Vai adoecer seriamente se não comer. —Não tenho apetite. Neville terminou sua laranjada e se voltou para fritar uns ovos. Quebrou as cascas na borda da frigideira, e jogou gemas e claras na manteiga derretida. Tirou logo o pão de uma gaveta e voltou para a mesa. —Me dê. Colocarei-o na torradeira —disse Virginia—. Termine você... Oh Deus. —O que houve? A mulher sacudiu fracamente uma mão diante do seu rosto. —Um mosquito —disse com uma careta. Neville se aproximou e esmagou ao mosquito entre as palmas das mãos. —Mosquitos —disse Virginia—. Moscas. Moscas de areia. —Entramos na era dos insetos —disse Neville. —Eu não gosto delas —continuou Virginia. Trazem pestes. Teremos que pôr também uma mosquiteira na cama da Kathy. —Sim, sim —disse Neville voltando para a cozinha e movendo a frigideira para que os ovos não grudassem—. Já tinha pensado nisso. —Não acredito que esse inseticida sirva —disse Virginia. —Não? —Não. —Deus, dizem que é um dos melhores. Neville colocou os ovos em um prato. —Realmente não quer café? —perguntou. —Não, obrigada. Neville se sentou e sua mulher aproximou-lhe a torrada com manteiga.
  21. 21. —Espero que não estejamos criando uma raça de super-insetos —disse Neville. —Lembra-se aqueles gafanhotos gigantes que encontraram no Colorado? —Sim. —Possivelmente os insetos são... Como os chamam? Mutantes. —O que quer dizer? —Oh, significa que... mudam. Evoluem saltando fases intermediárias, e chegam a desenvolver-se como nunca o fariam se não fosse por... Silêncio. —Os bombardeios? —perguntou a mulher. —Pode ser. —Bom, pelo menos provocam as tormentas. E possivelmente outras coisas. Virginia suspirou cansada e sacudiu a cabeça. —E dizem que ganhamos a guerra —disse. —Quem ganhou? —Os mosquitos ganharam. Neville sorriu fracamente. —Parece que tem razão —disse. Calaram-se um momento. Só se ouvia o garfo de Neville no prato e o da xícara no pires. —Levantou-se ontem à noite para ver a Kathy? —perguntou por fim a mulher. —Acabo de vê-la agora. Estava dormindo. —Bom. Virginia olhou Neville atentamente. —Estive pensando, Bob —disse—. Possivelmente deveríamos enviá-la ao Leste, para a casa da sua mãe, até que melhore. Pode ser contagioso. —Possivelmente sim —disse Neville, duvidando—. Mas se for contagioso, na casa da minha mãe ela não estará melhor. —Tem certeza? —perguntou Virginia. Parecia preocupada. Neville se encolheu de ombros. —Não sei, querida. Penso que aqui ela está a salvo. Se as coisas piorarem no bairro, ela deixará de ir à escola. Virginia começou a dizer algo, mas em seguida se deteve. —Bom —disse. Neville olhou seu relógio. —É melhor que você vá. Virginia assentiu com a cabeça e Neville terminou rapidamente seu desjejum. Estava a ponto de tomar o café quando Virginia lhe perguntou se tinham o jornal do dia anterior. —Está na sala —disse Neville. —Algo novo? —Não, o de sempre. Invadiu todo o país, um pouco em cada lugar. Não descobriam ainda de que vírus se trata. Virginia mordeu seu lábio inferior. —Ninguém sabe nada? —Duvido. Se alguém soubesse suponho que já diriam. —Mas devem ter alguma idéia. —Todos têm idéias, mas... —O que dizem? Neville se encolheu de ombros. —Fazem todo tipo de comentários, começando pela guerra bacteriológica. —Pode ser? —Guerra bacteriológica? —Sim. —A guerra terminou —disse Neville.
  22. 22. —Bob —disse Virginia de repente—. Você acha que deve ir trabalhar? Neville sorriu. —Que outra coisa posso fazer? —perguntou—. Temos que comer. —Eu já sei, mas... Neville, estirando-se sobre a mesa, pegou a mão de sua mulher. Estava gelada. —Tudo se resolverá, querida —disse. —Mando a Kathy à escola? —Sim, não se preocupe. Enquanto as escolas estiverem abertas, não há motivo para deixá-la em casa. Não está doente. —Mas os outros meninos... —Acredito que é o melhor para ela —disse Neville. Virginia deixou escapar um som entrecortado. Em seguida disse: —Bom, se você acha... —Não quer nada antes que eu vá? —perguntou Neville. Virginia sacudiu a cabeça. —Não saia hoje —disse-lhe Neville—, e fique deitada. —Assim o farei —disse ela—. Quando a Kathy se for. Neville lhe apertou a mão. Lá fora soou uma buzina. Neville terminou o café em um gole e foi ao banheiro escovar os dentes. Em seguida pegou a jaqueta do armário e a colocou. —Até mais tarde, querida —disse a Virginia beijando-a—. Fique tranqüila. —Até mais tarde —disse ela—. Tome cuidado. Neville cruzou o jardim. Sentiu entre os dentes o pó do ar. Podia cheirá-lo e dava-lhe coceira no nariz. —Bom dia —disse quando entrou no carro. —Bom dia —respondeu Ben Cortman. Capítulo 7 «Destilado do Allium estivum, gênero de liliáceas no que estão compreendidos o alho, o alho-poró, a cebola e a cebolinha. É de cor pálida e aroma penetrante, e contém vários súlfures. Composição: Água, 64,6%; Proteínas, 6.8%; Gordura,0.1%; Hidratos de Carbono, 26.3%; Fibras, 0.8%; Cinza, 1.4%». Isso era. Neville ficou olhando o dente de alho, rosado e flexível, na palma da mão. Durante sete meses havia fabricado várias centenas de colares e os pendurava fora da casa. Era o momento de descobrir por que afastava os vampiros. Deixou o dente na borda da pia. Alhos-poró, cebolas, sementes de cebola. Seriam tão efetivos como o alho? Se fosse assim, sentiria-se realmente tolo. Tinha percorrido quilômetros em busca de alhos e em vez disso, por toda parte, só encontrava cebolas. Amassou o dente até conseguir uma massa polpuda e cheirou o fluido acre no fio da lâmina. Muito bem, e então? Não havia nada revelador no passado, exceto conversas e apontamentos sobre insetos e vírus. O passado só trazia a dor da lembrança. Cada palavra que recordava era como a ponta de uma faca que se cravava na carne; uma velha ferida que se abria outra vez. Devia aceitar o presente tal como era, deixando a um lado o passado. Mas só o álcool conseguia apagar momentaneamente aquela profunda tristeza. Sacudiu a cabeça. Bom, maldita seja, disse a si mesmo, mova-se. Olhou novamente o texto: A água. Podia ser? Não, era ridículo. Todas as coisas tinham água. Proteínas? Não era isso. Gordura? Não. Hidratos de carbono? Tão pouco. Fibra? Não. Cinzas? Não. O que era então?
  23. 23. «O aroma e sabor que caracterizam ao alho se devem a um óleo essencial que corresponde a 0.2% do peso, e que consiste fundamentalmente em sulfureto de alho e em isoticianato de alho». Possivelmente era esta a resposta. «O sulfureto de alho pode obter-se a partir de esquentar óleo de mostarda e sulfureto de potássio até uma temperatura de cem graus». Neville recostou-se na poltrona da sala bufando contrariado. E onde diabos encontrarei óleo de mostarda ou sulfureto de potássio? E os elementos químicos? Começou a andar, mas deu de nariz contra o chão. Levantou-se e se encaminhou para o bar. Mas, enquanto se servia um copo, afastou bruscamente a garrafa. Não, não pensava ir às cegas até que a velhice ou um acidente terminassem com ele. Encontraria a resposta ou deixaria tudo, inclusive a vida. Olhou o relógio. Dez e vinte da manhã. Tinha tempo. Foi resolutamente até o corredor e consultou a Lista Telefônica. Tinha um lugar em Inglewood. Quatro horas mais tarde levantava a cabeça da mesa de trabalho, com o pescoço duro. Olhou o líquido na agulha hipodérmica: sulfureto de alho. Pela primeira vez sentia que desde o começo de seu forçado isolamento havia conseguido algo. Excitado, correu ao carro e foi mais à frente da área já limpa e assinalada com giz. Era provável que alguns novos vampiros se ocultaram ali. Mas não tinha tempo para buscá-los. Aproximou o carro à calçada, entrou em uma casa e se dirigiu ao dormitório. Uma moça jazia na cama, com um fio de sangue na boca. Neville virou de costas a mulher e lhe levantou a camisola para lhe injetar o sulfureto de alho. Em seguida virou-a outra vez e deu um passo para trás. Durante meia hora ficou ali, olhando-a. Não ocorreu nada. Nada disto tem sentido, argumentou mentalmente. Se pendurar alhos ao redor da casa, os vampiros não se aproximam. E o alho se caracteriza por esse óleo que lhe injetei. E entretanto não aconteceu nada. Maldição, não aconteceu nada! Atirou a seringa ao chão e estremecendo de raiva e frustração voltou para seu refúgio. Antes que começasse a escurecer instalou uma armação de madeira na grama e pendurou ali umas réstias de cebolas. Passou a noite insone. Pela manhã foi olhar a armação de madeira. Outro símbolo: a cruz. Tinha uma dourada na mão que brilhava a luz da manhã. Isto também afastava os vampiros. Por que? Tinha que existir uma resposta lógica, algo que pudesse aceitar sem cair na superstição? Só podia sabê-lo de um modo. Tirou a mulher da cama, sem reparar que sempre experimentava com mulheres. Não lhe preocupava admitir que a observação fosse válida. Era o primeiro vampiro com que havia tropeçado, nada mais. É certo que tinha um homem no vestíbulo, mas não ia violar a mulher. Embora às vezes se surpreendia a si mesmo. A consciência de outro tempo havia se transformado em uma molesta companhia. Levou-a a sua casa, e durante a tarde não ficou com ela. Esteve na garagem revisando a caminhonete. Por fim chegou a misericordiosa noite. Neville fechou a garagem, entrou na casa e trancou a porta. Em seguida serviu-se um copo de uísque e se sentou na poltrona, frente à mulher. Do teto, justo sobre a sua cara, pendia uma cruz. Por volta das seis e meia a mulher abriu os olhos de repente, como que acordada com uma obrigação determinada e não despertou preguiçosamente, mas sim com movimentos claros e precisos.
  24. 24. Logo que viu a cruz, afastou os olhos, com um rouco grunhido, agitando-se na cadeira. —Por que lhe assusta? —perguntou Neville, sobressaltando-se diante do som da sua própria voz. A mulher olhou Neville. Brilharam-lhe os olhos e a língua lambeu os lábios como se não formasse parte da boca. O corpo lhe contraía tentando aproximar-se dele. Proferiu um grunhido gutural. Parece um cão quando defende seu osso, pensou Neville estremecendo-se. —A cruz —perguntou nervosamente—. por que lhe tem medo? A mulher tentou livrar-se de suas amarras, as mãos na borda da cadeira. Não falava, só respirava ofegando. —A cruz! —gritou Neville furiosamente. Colocou-se de pé. O copo caiu e se derramou sobre o tapete. Pegou a cruz com dedos rígidos e a aproximou-lhe da cara. A mulher afastou a cabeça com um surdo grito de horror e retorceu-se na cadeira. —Olhe-a! —uivou Neville. O terror paralisava a mulher. O olhar extraviado passeava pelo quarto; olhos grandes e brancos com pupilas negras como a fuligem. Neville lhe tocou o ombro mas em seguida retirou a mão, ensangüentada, com os dentes marcados. Sentiu um nó no estômago. Rapidamente, esbofeteou-a até lhe tombar a cabeça. Minutos mais tarde arremessava o corpo à rua e fechava a porta imediatamente. Permaneceu um momento apoiado na porta, respirando pesadamente. Apesar do isolamento das paredes, ouviu-os uivar como chacais, disputando os restos. Pouco depois foi ao banheiro e limpou as feridas com álcool, escarnecendo-se com a dor. Capítulo 8 Neville se agachou e pegou um punhado de terra. Deixou-a escapar por entre os dedos, desfazendo os negros torrões. Quantos, perguntava-se, dormem na terra, como diz a lenda? Alguns. Então, que percentagem da lenda era realidade? Com os olhos fechados, soltou lentamente a terra escura. Existia alguma resposta? Se pelo menos tivesse a certeza dos que dormiam na terra, tinham retornado da morte, poderia elaborar alguma teoria. Mas não sabia. Outro problema insolúvel. Como o que se tinha deparado na noite anterior. Como reagiria um vampiro maometano diante da visão de uma cruz? Surpreendeu-se ao ouvir sua própria risada: um rouco latido na manhã silenciosa. Meu Deus, pensou, faz tempo que não rio. Já tinha esquecido. Recordava a tosse de um cão doente. Bom, isso é o que sou agora, ao fim e ao cabo: Um cão muito doente. Houve um princípio de tormenta por volta das quatro da manhã, e as lembranças voltaram para sua memória. Virginia, Kathy, aqueles horríveis dias. Tratou de distrair-se. Era perigoso. Pensar no passado era terminar bebendo. Embora não se explicava por quê havia sobrevivido. Provavelmente, pensou, não há um motivo concreto. Estou muito aturdido para acabar com tudo. Bom... Juntou as mãos como se por fim tivesse decidido algo. O que faria agora? Olhou ao redor como se acontecesse algo interessante na rua silenciosa. Muito bem, decidiu impulsivamente, verei se o truque da água dá resultado.
  25. 25. Escondeu uma mangueira em uma sarjeta e levou-a assim até uma mesa de madeira. A água passava pela mesa, passava por outro buraco a uma segunda mangueira, e chegava ao subsolo. Quando finalizou a tarefa, entrou e tomou uma ducha. Em seguida se barbeou e tirou a atadura da mão. A ferida havia cicatrizado bem. Mas isto não lhe tirava o sono. O tempo tinha demonstrado que estava imunizado. Às seis e vinte se instalou na sala, frente ao buraco. No momento se espreguiçava; doíam-lhe todos os músculos. Serviu-se um uísque. Quando se aproximou do buraco, Ben Cortman já cruzava a grama. —Saia, Neville —rosnou Neville, e Cortman, como se lhe ouvisse, devolveu-lhe as mesmas palavras em um grito. Neville continuou ali, imóvel, observando Cortman. Em geral, não havia mudado muito de aspecto. Tinha o cabelo ainda preto, seguia sendo corpulento e com o rosto pálido. Mas agora levava barba e um grosso bigode. Esta era a diferença fundamental. Antes, quando lhe esperava para irem juntos à fábrica, Ben estava sempre perfeitamente barbeado e cheirava a colônia. Parecia estranho vê-lo agora: um Ben completamente desconhecido. Em outro tempo tinha conversado com aquele homem, ido com ele ao trabalho, comentando as partidas de beisebol ou os assuntos políticos, e depois da enfermidade e de como estavam Virginia e Kathy, de como estava Freda Cortman, e... Neville sacudiu a cabeça. Era inútil seguir com isso. O passado estava tão longe como o verdadeiro Cortman. Sacudiu novamente a cabeça. O mundo está no avesso, pensou. Os mortos caminham pelas ruas, e isso não me surpreende. O retorno dos cadáveres se converteu em algo cotidiano. Com que rapidez se aceita o incrível, se você o vê com freqüência! Tragou um pouco de uísque e tratou de pensar a quem se parecia Cortman. Durante um tempo esteve convencido de que Cortman recordava alguém, mas não sabia a quem. Encolheu-se de ombros. Que importância tinha isso? Deixou o copo no chão e foi à cozinha para abrir a torneira da água. Quando voltou a vigiar pelo buraco viu outro homem e uma mulher na grama. Nunca falavam entre si. Davam voltas e voltas, infatigavelmente, como se tratassem de lobos, sem cruzar jamais um olhar, os olhos famintos cravados na casa e na presa que havia dentro. De repente Cortman viu a água que corria pela mesa e ficou olhando-a. Depois de um momento levantou a cara e sorriu mostrando os dentes. Neville ficou rígido. Cortman saltava de um lado ao outro da mesa. Neville sentiu um nó na garganta. O bastardo sabia! Caminhou depressa até o dormitório e tremendo pegou as pistolas da gaveta da cômoda. Cortman estava pisoteando as bordas da mesa quando a bala o feriu no ombro direito. Retrocedeu cambaleando e caiu no cimento, com as pernas para cima. Neville voltou a disparar e a bala deu contra a calçada a uns centímetros de seu corpo. Cortman se levantou grunhindo e a terceira bala lhe alcançou o peito. Neville, com a fumaça acre da pistola ainda no ambiente, tornou a olhar. A mulher apareceu então diante de Cortman e começou a levantar a saia. Neville fechou o buraco. Não queria ver isso. Havia bastado um segundo para sentir aquela dor ardente em seu interior. Ao cabo de um momento voltou a olhar e Cortman estava passeando, chamando-o. E, sob a luz da lua, de repente recordou a quem se parecia Cortman.
  26. 26. Meu Deus, era como Oliver Hardy!. Dos dois curtas-metragens que tinha passado em seu projetor. Cortman era o eco morto do grande cômico. Um pouco mais magro, somente. Até o bigode era igual. Oliver Hardy caindo de costas sob o impacto das balas. Oliver Hardy voltando sempre por outra ração, não importava o que ocorresse. Furado pelas balas, cravado por facas, esmagado por automóveis, chocando-se contra paredes, afundando no mar, passando por chaminés. E voltando sempre, paciente e arroxeado. Isso era Ben Cortman. Um maligno e detestável Oliver Hardy aporreado e resistente. Meu Deus! Não podia parar de rir. Mais que a vontade de rir, isso era um alívio, uma saída. As lágrimas lhe rodavam pelas bochechas. Com as sacudidas o copo se derramou e o líquido molhou-lhe de acima a abaixo, lhe provocando ainda mais risada. O copo por fim caiu no tapete, e Neville também, retorcendo-se com espasmos de incontida diversão. A risada incessante encheu a sala. Mais tarde foi o pranto. Introduziu a estaca no estômago, no ombro. No pescoço com uma só martelada. Nos braços e pernas, e sempre acontecia o mesmo: a carne branca ficava coberta pelo sangue vermelho. Acreditava ter encontrado a solução. Tinha que sangrá-los: uma hemorragia. Mas logo, quando encontrou a mulher na casinha branca e verde, e lhe cravou a estaca, a decomposição foi tão rápida que teve que fugir, e já não pôde provar o seu café da manhã. Quando se recuperou, e se atreveu a voltar, só encontrou sobre a colcha uma linha de algo parecido com sal e pimenta, uma linha tão larga como o corpo. Nunca tinha visto nada parecido. Abalado pela cena, saiu devagarzinho da casa e se sentou no carro durante uma hora, bebendo até esvaziar a garrafa. Mas nem sequer o álcool podia apagar aquela impressão. Havia sido tudo tão rápido... A martelada ainda lhe soava nos ouvidos, e a mulher já não era mais que uma linha. Recordou um bate-papo com um negro, na fábrica. O homem conhecia o assunto e havia falado de mausoléus e de gente metida em caixões herméticos, onde se conservavam com a mesma aparência de sempre. —Mas deixe entrar um pouco de ar —tinha dito o negro—, e Bum!, transformam- se em uma linha de sal e pimenta. Assim fácil. —E o negro fazia estalar os dedos. A mulher, pois, estava á muito tempo morta. Possivelmente, lhe ocorreu, era um dos vampiros originários da praga. Só Deus sabia quanto tempo tinha escapado da morte. Neville se sentiu muito deprimido, e nesse dia, e nos seguintes, não fez nada. Ficou em casa, bebendo e tratando de esquecer, e deixou que os corpos se empilhassem no mato, e na frente da casa, sem se importar. Durante vários dias, sentado na poltrona, com o copo na mão, pensou em sua mulher. E não importava a quantidade de álcool ingerida. Continuava pensando em sua mulher. Via- se a si mesmo entrando na cripta, levantando a tampa do ataúde. Pensou que algo estava destruindo-se nele. Sentia-se tão paralisado, tão sereno e tão frio. Só isso ficaria dela? Capítulo 9 Pela manhã. Uma ensolarada quietude amenizada pelo canto dos pássaros. Nem um pouco de brisa que movesse os pequenos casulos ao redor das casas, os arbustos ou as cercas de folhas escuras. Uma silenciosa nuvem de calor suspenso sobre o ambiente. O coração de Virginia havia parado.
  27. 27. Neville olhava aquele pálido rosto, e acariciava timidamente os dedos de sua mulher. Sentado à borda da cama, imóvel, tinha ficado insensível como um bloco de carne e ossos. Não piscava, e respirava tão lentamente que parecia morta. Algo lhe havia passado pela mente. Do instante em que deixou de pulsar o coração de Virginia sentiu a cabeça como se fosse de pedra. A calcificação tinha começado pelo cérebro, alastrando-se logo ás suas extremidades. Lentamente, com os membros afrouxados, havia-se afundado na cama. E agora não entendia como agüentava sentado ali, como o desespero não o jogava ao chão. Mas não podia ficar prostrado. Mãos tenazes continham o tempo. Tudo havia parado. A vida e o mundo tinham parado, junto com Virginia. Passaram-se assim trinta minutos, depois quarenta. Logo, pouco a pouco, como se estivesse fazendo um descobrimento, sentiu que o corpo lhe tremia. Não era um tremor localizado, um nervo aqui, um músculo lá. Tremia todo o corpo, convulsivamente, como um saco de nervos impossível de dominar. E sua mente, o que se tinha salvado da sua mente, soube, que isso era sua reação. Permaneceu assim durante mais de uma hora, com o olhar fixo no rosto de Virginia. Em seguida, de repente, algo lhe sacudiu o peito, e aquilo terminou. Neville se levantou da cama e saiu da casa. Ao servir o uísque derramou a metade na pia. Bebeu o resto de um gole. Apoiou-se contra a parede. Tornou a encher o copo com mãos trêmulas e bebeu compulsivamente. É só um sonho, disse. Foi como se uma voz pronunciasse as palavras em seu interior. —Virginia... Voltou a cabeça a ambos os lados. Seus olhos examinavam a cozinha como se tivesse que descobrir algo, como se procurasse uma saída naquela casa de horror. Apertou as mãos nervosas, uma contra a outra. As formas dançavam diante de seus olhos. Sentiu que uma náusea lhe subia pela garganta e separou as mãos com força. —Virginia. Deu um passo à frente e tropeçou. Escapou-lhe um grito. Sentiu uma forte dor no joelho direito que logo se estendeu á toda a perna. Arrastou-se cambaleando até a sala. Ficou ali como um sobrevivente de um terremoto, com os olhos cravados na porta do quarto, voltando a presenciar aquela cena. O incêndio com suas ferozes chamas vermelhas e amarelas, e a densa coluna de fumaça que subia para o céu. O corpo de Kathy em seus braços. E um homem que, aproximando-se, arrebatava Kathy e a levava como se fosse uma boneca de trapos. E ele ali, de pé, suportando aqueles golpes de terror. De repente saltou para frente com um grito rouco: —Kathy! Uns braços o contiveram, uns homens com máscaras e avental. Levaram-no arrastado; seus pés deixaram os rastros na areia. Em seguida, sentiu aquela dor na mandíbula, e a escuridão das nuvens noturnas anularam o dia. O licor que lhe descia pela garganta, a tosse, o ofego, e logo o carro de Ben Cortman, e ele sentado ao volante, rigidamente, enquanto se afastavam. A intensa fumaça cobria o céu como o negro fantasma do desespero terrestre. Recordou e fechou os olhos. —Não. Não permitiria que jogassem ali Virginia. Não, ainda que isso lhe custasse a vida. Chegou à porta e saiu ao alpendre. Cruzou a grama seca e amarelada e caminhou em direção à casa de Ben Cortman. O resplendor do sol lhe cegava. Caminhava com os braços pendurados ao longo do corpo.
  28. 28. A melodia tocava quot;Que seco estouquot;. Neville sentiu desejo de quebrá-la. Lembrou-se de que Ben havia instalado as campainhas pensando que seria gracioso. Esperou rígido diante da porta, sentindo ainda o pulso na cabeça. Não importa o que diga a lei, não importa que desobedecê-la signifique morrer, não a jogarei ali! Golpeou a porta com o punho. —Ben! Silêncio. As cortinas brancas pendiam imóveis nas janelas da frente. Podia-se ver o sofá vermelho e o abajur de pé com sua tela de franjas. Neville piscou. Que dia era? Havia esquecido, havia perdido a noção do tempo. Deixou cair a cabeça sobre o peito. Uma fúria de impaciência lhe invadia o corpo. —Ben! Golpeou a porta de novo com os punhos. Maldição!, onde se meteu Ben? Apertou o interfone com o dedo muito rígido e a campainha voltou a tocar a canção repetidamente: «Que seco estou, que seco estou, que seco estou...» Ofegando empurrou com força a porta, que se abriu devagar. Estava sem tranca. Neville entrou no vestíbulo silencioso. —Ben —exclamou—. Ben, preciso do seu carro. Ele e sua mulher estavam no dormitório, deitados na cama de casal, silenciosos e imóveis em seu estado de coma diurno. Ben, de pijama; Freda, em uma camisola de seda. Ficou um momento olhando-os. No pescoço branco da Freda havia algumas feridas, com umas crostas de sangue. Neville olhou Ben. Não mostrava feridas. Ouviu uma voz interior que dizia: Oxalá despertasse deste pesadelo. Sacudiu a cabeça. Não, não era possível despertar. Encontrou as chaves do carro no escritório. Pegou-as e abandonou a silenciosa casa. Seria a última vez que os via mortos. O motor roncou pesadamente, e Neville deixou-o esquentar alguns minutos enquanto esperava sentado ao volante com os olhos fixos no poeirento pára-brisa. Uma mosca de corpo redondo voava ao redor de sua cabeça no quente e fechado interior do carro. Neville olhou a tapeçaria, de cor verde, sentindo no corpo os tremores do motor. Ao fim colocou o carro em marcha e saiu à rua. A casa estava fresca e em silêncio. Neville pisou suavemente o tapete, e em seguida seus passos ressoaram na sala. Deteve-se na soleira da porta e contemplou Virginia. Estava deitada de costas, com as mãos estendidas para os lados, os dedos brancos ligeiramente fechados. Parecia dormir. Neville voltou para a sala. O que podia fazer? Uma coisa ou outra. Tudo era igual. De qualquer modo, a vida deixava de ter sentido. Parou diante da janela com os olhos perdidos na rua banhada pelo sol. Para que fui procurar o carro, então?, perguntou-se. Não posso queimá-la. Não quero. E que outra coisa é possível? Não há serviços fúnebres. Todos, sem exceção, devem ser levados ao fogo em seguida. Não havia outro sistema, a primeira vista, de evitar o contágio. Só as chamas podiam destruir as bactérias. Neville sabia. Sabia que assim era a lei. Mas quantos a cumpriam? Quantos maridos jogavam ali a suas mulheres? Quantos pais incineravam a seus filhos? Quantos filhos mandavam seus pais para aquela imensa fogueira? Não, embora não existisse mais nada a fazer, não queimaria a sua mulher. Passou uma hora, e Neville se decidiu ao fim. Procurou agulha e fio. Costurou a manta até que só deixou aparecer o rosto de Virginia. Em seguida, com dedos trêmulos e um nó no estômago, costurou a manta sobre a boca. Sobre o nariz e sobre os olhos. Logo foi à cozinha e tomou outro gole de uísque.
  29. 29. Voltou para dormitório cambaleando-se. Durante um bom momento ficou ali respirando pesadamente. Em seguida se inclinou e pegou-a em seus braços. —Vamos, neném —murmurou. As palavras pareceram afrouxá-lo todo. Sentiu que estremecia, e que as lágrimas caiam-lhe lentamente pelas bochechas. Atravessou a sala com o corpo nos braços e saiu à rua. Colocou-a no assento de atrás e subiu no carro. Suspirou profundamente e procurou a chave de partida. O carro correu alguns metros de marcha-ré e parou. Neville desceu e foi à garagem para procurar uma pá. Sentiu que as forças lhe abandonavam. Cruzava a rua lentamente. Neville deixou a pá na parte traseira e entrou no carro. —Espere! Foi um grito seco. O homem começou a correr, mas se deteve em seguida, ofegando. Neville esperou em silêncio até que o homem estivesse mais perto. —Você poderia... levar... a minha mãe? —disse o homem. —Eu... eu... A mente de Neville estava bloqueada. Pensou que começaria a chorar de novo, mas se conteve, recompondo-se —Não vou para... lá —disse. O homem o olhou sem entender. —Mas sua... —Não vou á fornalha, eu disse! —explodiu Neville, e girou a chave de partida. —Mas sua mulher —disse o homem—. Sua esposa está... Neville pisou na embreagem. —Por favor... —suplicou o homem. —Não vou lá! —respondeu Neville sem olhá-lo. —Mas é a lei! —gritou o homem, furioso. O carro retrocedeu rapidamente e Neville virou para a Boulevard Compton. Enquanto se afastava viu o homem de pé na calçada. Não, não vou jogar Virginia no fogo, disse a si mentalmente. As ruas tinham ficado desertas. Dobrou à esquerda e se encaminhou para o leste. Não podia ir aos cemitérios porque estavam fechados e vigiados. Os homens que tinham tentado enterrar a seus familiares tinham morrido a tiros. Virou à direita na rua seguinte, e logo depois de novo à direita, entrando em uma rua tranqüila que ladeava um terreno baldio. Aos cinqüenta metros desligou o motor e deixou que o carro seguisse em silêncio o resto do percurso. Ninguém o viu descarregar o vulto e entrar com ele no terreno coberto de mato. Tão pouco alguém o viu quando depositava o corpo no chão e se inclinava, desaparecendo entre o matagal. Cavou lentamente, cravando a pá na terra mole. O sol brilhante esquentava a pequena clareira e o ar era morno. O suor lhe corria em linhas pela cara. Sentiu o aroma úmido e penetrante da terra removida. Por fim terminou a fossa. Deixou a pá a um lado e se ajoelhou. Havia temido tanto este momento. Mas não podia perder mais tempo. Se o descobrissem, averiguariam o que fazia. Não importava a morte, mas não estava disposto que a queimassem. Apertou as mandíbulas. Não. Suavemente, meteu-a na fossa, cuidando com que a cabeça não batesse contra o chão. Colocou-se em pé e olhou por um momento o corpo envolto na manta. Pela última vez, pensou. Acabou-lhe as palavras, nunca mais meu amor... Onze maravilhosos anos enterrados em um buraco. Começou a tremer. Não, disse-se a si mesmo, não tenho tempo para isso.
  30. 30. Umas lágrimas intermináveis ofuscaram o mundo e Neville jogou a terra cálida sobre o corpo imóvel. Vestido e deitado na cama olhava o teto. Estava meio bêbado e na escuridão brilhavam os vaga-lumes. Estendeu o braço direito sem olhar. A mão esbarrou na garrafa e os dedos reagiram muito tarde. Continuou deitado na escuridão da noite escutando como o uísque saía em ondas da garrafa e se derramava pelo chão. Voltou a cabeça sobre o travesseiro e olhou a hora. Eram duas da manhã. Tinha passado dois dias desde que a enterrou. Dois olhos que olhavam o relógio, dois ouvidos que escutavam o zumbido elétrico, dois lábios apertados, duas mãos sobre a cama. Sacudiu a cabeça para elucidar-se, mas o mundo inteiro parecia organizar-se de repente em um sistema de pares: duas pessoas mortas, duas janelas, duas escrivaninhas, dois tapetes, dois corações que... Aspirou profundamente o ar noturno, reteve-o uns instantes, e em seguida expirou relaxando o corpo. Dois dias, duas mãos, dois olhos, duas pernas, dois pés... Baixou as pernas da cama e ficou sentado. Colocou-se de pé no atoleiro de uísque e sentiu que lhe empapavam as meias. Um vento muito frio golpeava os vidros. No meio da escuridão perguntou a si mesmo: O que fica ao fim de tudo? Levantou-se cansadamente e entrou aos tropeções no banheiro, deixando rastros úmidos. lavou o rosto e procurou uma toalha. O que fica? O que...? Caminhou rigidamente na fria escuridão. Alguém estava abrindo a porta de rua. Sentiu um calafrio que lhe correu pela espinha. É Ben, disse. Veio pelas chaves do carro. A toalha caiu no chão. Uns punhos golpearam a porta, fracamente, como se estivessem tocando a madeira. Neville se dirigiu lentamente para a sala, o coração lhe golpeou o peito. O débil punho continuava golpeando a porta. O que está acontecendo?, pensou Neville. A porta não está trancada!.Pela janela aberta entrava um ar gelado. —Quem...? —perguntou incapaz de abrir. Tropeçou, deu um passo para trás, virou-se e apoiou de costas na porta, respirando ofegante. Não ocorreu nada. Neville se conteve. Em seguida sentiu que parou de respirar. Alguém se movia lá fora, murmurando. Neville cruzou os braços sobre o peito e em seguida, de repente, abriu a porta de um puxão e os raios da lua iluminaram a soleira. Nem sequer gritou. Ficou ali, cravado no chão, olhando-a inexpressivamente. —Rob...ert —disse Virginia. Capítulo 10 O departamento de ciências estava no segundo andar. Os passos de Neville soaram a oco nos degraus de mármore da Biblioteca Pública de Los Angeles. Era 7 de abril de 1976. Havia-o ocorrido, depois de passar vários dias perdido em bebedeiras, desgostos e investigações inconcretas, que estava perdendo tempo. Era incontestável que os experimentos isolados não levavam a nenhuma parte. Se havia alguma solução racional ao problema (e devia acreditar que sim) não a encontraria desse modo. Em seu novo e ordenado programa, tinha decidido estudar o sangue. O primeiro passo era, pois, procurar alguns livros sobre o tema.
  31. 31. Na biblioteca, o silêncio era total. Lá fora se ouvia às vezes o canto dos pássaros, e mesmo que estes se calassem, parecia continuar ouvindo alguma espécie de canto. Era inexplicável, mas o silêncio parecia mais fúnebre lá dentro do que fora. Especialmente aqui, neste enorme edifício de pedra cinza que abrigava toda a literatura de um mundo morto. Possivelmente, pensou, estou rodeado meramente por muros psicológicos. Mas isto não era grande coisa. Não havia psiquiatras para tratar neurose sem fundamento e alucinações auditivas. O último homem do mundo estava absolutamente encarcerado em suas ilusões. Neville entrou no departamento de ciências. Era um quarto de teto alto, com amplos vitrôs. Perto da porta se elevava o escritório onde em outro tempo ficavam registrados os livros. Neville se deteve ali um momento, passeando o olhar pela silenciosa sala, sacudindo lentamente a cabeça. Muitos livros, pensou: Testemunho da inteligência de um planeta, Migalhas de mentes fúteis, Mescla de sistemas inúteis para impedir a morte do homem. Aproximou-se das estantes da esquerda e seus sapatos golpearam os escuros ladrilhos. Olhou as placas que classificavam os livros das prateleiras. Astronomia, leu, livros sobre o céu. Passou longe. Não lhe interessava já o céu. Aquela antiga curiosidade tinha morrido junto com as outras. Física, Química, Engenharia. Seguiu adiante e entrou na seção que ocupava seu interesse. Parou e levantou os olhos. No teto havia duas fileiras de luzes apagadas, e estava dividido em grandes quadrados profundos, decorados com mosaicos indianos, aparentava. A luz do dia entrava pelas janelas poeirentas, e umas bolinhas cinzas ficavam suspensas nos raios de sol. Observou as largas mesas de madeira e as fileiras de cadeiras. Tudo estava em seu lugar. No último dia, pensou, alguma bibliotecária solteirona tinha percorrido a sala colocando as cadeiras no lugar correspondente, com uma laboriosa precisão. Imaginou a mulher que tinha morrido solitária para voltar, possivelmente, condenada a terríveis vagabundagens, e sacudiu a cabeça. Basta, disse, não há tempo para divagações românticas. Passou diante de outros livros, até que chegou a Medicina. Esta era a seção que lhe interessava. Olhou os títulos e encontrou livros sobre higiene, fisiologia (geral e especial), terapêutica. Um pouco mais à frente, Virologia. Tirou cinco obras de fisiologia geral e vários livros que tratavam temas relacionados com o sangue e os deixou sobre uma mesa. Interessavam-lhe também alguns textos sobre a bacteriologia? Durante um momento olhou indeciso os títulos. Ao fim se encolheu de ombros. Bom, no que se diferenciavam? Tirou várias obras á esmo e as acrescentou ao montão. Tinha nove livros, suficientes para começar. Podia retornar em qualquer momento. Quando saía da sala olhou o relógio sobre a porta. Os ponteiros vermelhos do relógio pararam às sete e vinte e cinco. Neville se perguntou em que dia haviam parado. Meu Deus, que importância tem agora tudo isto? disse com desprezo. Aquela nostálgica preocupação pelo passado cada vez lhe irritava mais. Era uma debilidade, sabia, uma debilidade que não devia permitir-se. Entretanto, de quando em quando, surpreendia-se meditando amplamente sobre algum aspecto do passado recente. De dentro, tão pouco pôde abrir as portas grandes. Estavam bem fechadas com chave. Teve que sair pela janela pequena, deixando cair os livros na calçada, um a um. Levou em seguida os livros ao carro. Enquanto ligava o motor viu que tinha estacionado em local proibido, junto a uma calçada pintada de vermelho. Olhou acima e abaixo da rua. —Polícia! —tirou o chapéu gritando—. Ei, polícia! Riu durante um quilômetro, surpreso de que aquilo lhe parecesse tão divertido.

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