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2Albertina RodriguesFel e Mel no Cáliceda VidaDedicoAo meu filho, a toda sua geração; à humanidade a todas as gerações rum...
3SumárioPáginas............................................................................................CapaDedicoSumár...
4Dezembro 1946 – meus irmãos...................................................191Março de 1947 – Retorno do Convento........
5Politizava-me............................................................................295Movimento Estudantil – 1968.....
6Alcalá de Henares.......................................................................391Encontro com o mundo do passad...
7TRANSFORMAÇÕESE assim tudo começou!...Quando não se começa, nada termina. Estamos terminando, soubemoscomeçar ou apenas e...
8vendada, no frio, na fome, na sede... envergada pelo peso da ignorância, pelacovardia de nunca ter sido eu mesma de verda...
9querendo matar, gritando “vitória” para nosso país! Segurando uma bandeirade trapo colorido enquanto corpos tombavam em m...
10Respondiam, naquele vozeio infantil estridente numa única voz:-Sim, o Papa é infalível. Nem sabiam o que estavam dizendo...
11pedacinhos estraçalhado.Como já sabem! Foi dado a todos o “livre arbítrio”. Está nas mãos de vocêsa escolha entre o céu ...
12puros que glorificaram o nome do “Senhor” serão salvos; recuperando, comoprêmio, um novo céu e uma nova Terra. Até lá, o...
13esperança, paz e religiosidade em gargalhadas ensurdeciam-me!Transformando-se em máscaras que me arrastavam enquanto, ge...
14Nos templos... estonteava-me as encenações de mãos! As reviravoltas,dadas por um homem onde um armado paramento rabaneav...
15barítonos, na transparência vocálica dos cantos Gregorianos com suas vozesem estalactites, em nós, em tudo, penetrando!D...
16grande momento final do “aprender a aprender”, tornando-se pó.Os fatos, em vigorosa firmeza, ensinando-me a começar, for...
17E a grande causa!Todos desviados do verdadeiro bem que já traz em si, pelos secularessacripantas e sua caterva de forret...
18fritadas; conseguiram fazer de todos inúteis amedrontados ambiciososxepeiros!Mentes que horripilaram! E horripilam!Escon...
19receberam o Poder de transmitir aos seus clientes e sócios, as ordens do“Supremo oculto e divino Chefão Imperialista”; o...
20e julgamentos uns contra os outros.Institucionalizados no “bem”, em verdade eles precisam é do mal; é o seugrande negóci...
21as guerras, os santos, os pastores, os...O negócio acabou a Empresa faliu!Desabou do pedestal o Deus escondido; tornando...
22sonhos, tidos ao dormir , explodindo, desintegrando-se pelo infinito!...Desfazendo-me o inconsciente:Vidrinhos de crista...
23também era uma bunda... Estranhos amigos nos sonhos que se evaporavam...Quanta alucinação!... Mas minha vida na Terra nã...
24Abruptamente, numa instantaneidade do momento, sem a consciência dacontagem de tempo, dimensões comprimidas que me embau...
25baixo. Foi minha forma inconsciente de protesto....Breve silêncio!... Por que não podia ver-lhe o rosto? Será que não ti...
26rápido completei: Mas não justifica!Senti tremê-lo, tinha captado minhas ondas.Queria tanto vê-lo!... Será que ainda tin...
27passar por mim como um cadáver? Por que não escancarastes tuas portasdescobrindo na vida meu segredo e entrarias vivo na...
28E a voz continuava:“E cada vez dividem mais, em suas invenções:Deuses para a idolatria, ideais para as vísceras, ideolog...
29pecadores ou santos, espírito superior ou inferior, de luz ou das trevas.Na economia, todas as noites dividem, aumentand...
30um mundo dinâmico ao qual queria dominar. O que importava era “Eu”, dando“decretos” para a natureza e não as leis dela p...
31insensibilidades, não percebem.Faz tudo nascer, sendo cada coisa, única, insubstituível!Faz gelar o gelo, queimar o fogo...
32desprendida das coisas prendendo-nos “ao que foi” – passado -, semeando oque será – futuro – ao passarmos pelo tempo cro...
33- O pensamento, criando problemas, sem se dar conta de que foi ele oinventor/causador de todo este caos: divisões, desej...
34IMPOSSÍVEL.Como dar visões fixas a um mundo onde nada é fixo, onde tudo que existecontém tudo de todas as coisas em form...
35precisando ser vistas e por si mesma extinguirem-se.-Sim, não disse e não dizem:Amigo! A cura está nas ruas, nos bares, ...
36medo instala-se; sendo a base do desejo. Paraplégica! A satisfação andasempre carregada por sua inseparável irmã gêmea, ...
37Vestida do novo..., acostei-me nos últimos raios dourados do Sol se pondo.Descerrando a cortina do dia chegou a noite; d...
38variedades, próprias a cada corpo a cada substância!Dá as ferramentas dos movimentos, guiando os obstáculos!... No equil...
39Inteligência!... Origem das origens! É a própria causa de tudo que vaiexistindo... que vai se extinguindo... nada se per...
40espumas que, ao esvoaçarem, acariciavam-me... volatilizando-se no nada.Foi quando... uma faísca saída das entranhas da s...
41tomavam formas em seus movimentos numa rapidez incalculável! Impossívelde serem seguidos. Tudo se movia tão solto! Peral...
42branco – útero nascente das flores. Sua chama era a própria fonte dafecundação onde brotava todo macho e toda fêmea. De ...
43crianças.Arrebatou-me um arco enorme colorido e fui subindo... por suas costas,engatinhava... Brincando com as nuances d...
44desnudando-se o dia por uma estrada que se abria adormecida nas sombras.Despertando a todos, em clarão de luzes, melodia...
45de ÁRIES enquanto, passavam revoltas as grandes marés de Março,transbordando-se em ressacas pelas praias que iriam me ba...
46PRIMEIRA PARTECASA MATERNAMagnitude da vidaPrimeiro amor nascendo do ventre maternoPrimeira Infância
47Uma casinha querida guardada para sempre no meu coração. Tenhovontade de desenhá-la, concretizá-la com lápis de cores, m...
48personagens através de castigos, repreensões, prêmios ou conselhos,obrigando-me a jamais esquecê-los. O ego de cada um f...
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida
Fel e mel no cálice da vida
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Fel e mel no cálice da vida

  1. 1. 1
  2. 2. 2Albertina RodriguesFel e Mel no Cáliceda VidaDedicoAo meu filho, a toda sua geração; à humanidade a todas as gerações rumo ao despertarexplodindo-se em luz!Soltem-se as mãos!Livres! Flutuando no espaço do tempo chegaremos ao imensurável onde nosaguarda nosso Pai recebendo de volta em sua casa seus filhos pródigos - ahumanidade despejada de suas crenças, de todo “bem” e de todo “mal”. E, outravez, em direção a outros mundos, moldados pelas energias que se condensamem múltiplas formas,seremos arremessados ad-infinitum, pela sabedoria do Aprender-Vivendo,Nascendo-Ensinando-Morrendo.
  3. 3. 3SumárioPáginas............................................................................................CapaDedicoSumárioTransformações.....................................................................07Primeira ParteCasa materna – primeira infância..........................................44Novo lar..................................................................................49Tias.........................................................................................51Quarto de dormir.....................................................................59E o tempo foi passando...........................................................66A ceia.......................................................................................69Os domingos – domésticos.....................................................70Primeiro contato com o mundo...............................................73Colégio Interno........................................................................76“N....mesmo dia”.......................................................................82O ser no opróbio.......................................................................96Os sábados no Convento..........................................................97Os domingos no Convento......................................................100Minhas primeiras férias............................................................116Retorno ao Convento...............................................................123Férias de Dezembro ................................................................130As férias continuam..................................................................140Sou um contrabando – as férias que não tive...........................162Florífera natureza.......................................................................167Abandono...................................................................................172Ah! Destruidores.........................................................................175Jesus Cristo nunca existiu..- la Sagese......................................180Mornava-me em beatificações....................................................187
  4. 4. 4Dezembro 1946 – meus irmãos...................................................191Março de 1947 – Retorno do Convento.......................................194Minha mãe – o Mar......................................................................196Dezembro 1947 – Veraneio em Camaçari...................................1971940 – Ínfima pecadora................................................................200Dezembro de 1950 – Prelúdio da Adolescência...........................203O quarto de mamãe......................................................................204Camaçari.......................................................................................205Março de 1951 – Prelúdio do Amor..............................................207Primeiro beijo................................................................................209Agosto de 1951 – Fuga do Convento...........................................210Menina-moça................................................................................213Internato Sacramentinas..............................................................218“Ou eu ou ela”..............................................................................219Internato Colégio São José.........................................................220SEGUNDA PARTEEncontro dos mutilados...............................................................222Instituto Feminino da Bahia.........................................................225Entre o céu e o Inferno................................................................227Noivado.......................................................................................234A grande paixão..........................................................................2361958- Casamento........................................................................238Vida Conjugal..............................................................................240Escândalo....................................................................................248Desquite – Retaliação de uma criança .......................................255As Artes.......................................................................................263Sonhos desfeitos.........................................................................266Luta por meu filho – Tuberculose................................................267TERCEIRA PARTE1964 – Golpe Militar....................................................................273Mudanças radicais.......................................................................278Rio de Janeiro..............................................................................282Novo lar- Nova vida.....................................................................286Pensionato “Mon Rêve”...............................................................291Escola Nacional de Belas Artes..................................................294
  5. 5. 5Politizava-me............................................................................295Movimento Estudantil – 1968...................................................297A Revolta..................................................................................300Missa de sétimo dia..................................................................302Maio de 1968............................................................................304Célebre mês de Junho..............................................................306Sexta Feira sangrenta e a passeata dos cem mil.....................310Crise Nelson, crises e crises.....................................................315Império do terror........................................................................317Radicalização............................................................................318Razões, sentimentos.......Onde tudo ficou?...............................322Frende de Libertação Nacional..................................................323Novos rumos – Nova História.....................................................324Minha primeira ação...................................................................328Ironia do destino.........................................................................331Dias felizes.................................................................................332Abril de 1970 – Sítio de Tinguá – Prisão – torturas....................334Doi Codi......................................................................................335Nova fase no Doi Codi................................................................338Hospital Central do Exército........................................................341Hospital Torres Homem..............................................................344Brasil Tricampeão (Liberdade condicional).................................347Retorno ao pensionato................................................................348QUARTA PARTEExílio............................................................................................357Chile – Cordilheira dos Andes.....................................................358Espanha – Madrid – Chegada.....................................................365O princípio...................................................................................366O meio.........................................................................................368Turismos e Fim............................................................................370QUINTA PARTECarabanchel................................................................................380Convívio......................................................................................381Irreversível Revolução – O Despertar.........................................385Primeiro contato com o mundo dos condicionados...................;388
  6. 6. 6Alcalá de Henares.......................................................................391Encontro com o mundo do passado............................................405Paris – Revolucionando os revolucionários.................................407O imensurável..............................................................................412Internada no Hospício..................................................................414Suiça............................................................................................417Paris – 1974................................................................................421Morte do meu querido irmão.......................................................423Última despedida.........................................................................425Foyer des‟etudiant de Paris.........................................................426Formentera..................................................................................430SEXTA PARTETransatlântico Marconi – Ilhas Canárias – Tenerife....................436Total desconhecido......................................................................440Las Palmas...................................................................................445Rumo aos Caribes – Martinica.....................................................446SÉTIMA PARTEBrasil – Belém do Pará................................................................454Primeiros conflitos.......................................................................455Alagoinhas – A chegada – A família............................................456Encontro com meu filho...............................................................460Prisão..........................................................................................460Primeiras impressões..................................................................466São Sebastião do Passé.............................................................468Reviravoltas – Drama social........................................................472Outra vez Alagoinhas..................................................................473Desviando águas poluídas..........................................................474Medo à liberdade.........................................................................477Porto Seguro...............................................................................479Maus tratos.................................................................................480Últimos dias de minha mãe e o seu Despertar..........................482OITAVA PARTETeatro..........................................................................................489NONA PARTECruel Realidade..........................................................................495
  7. 7. 7TRANSFORMAÇÕESE assim tudo começou!...Quando não se começa, nada termina. Estamos terminando, soubemoscomeçar ou apenas estamos continuando? Grande pergunta a ser feita.Mas continuando o quê?E vejo cada morto, desde que o tempo é tempo, com o dedo em riste,furando a terra, atravessando seus túmulos, emergindo das águas, dizendo:“Não morri, estou aqui. Continuem-me! Vinguem-me! Glorifiquem-me!Endeusem meus pensamentos, citem meus exemplos, sigam minhas leis: soua eterna posteridade!”.Cristo com Moisés, Platão com Hitler, Ruy Barbosa com Mussolini, Sócratescom Barrabás, Gandhi com Stalin, Dr. Osvaldo Cruz com João ninguém, Mariacom Messalina, Santo Antônio com Cleópatra, meu vizinho daqui com o de láda Rússia, do homem da caverna ao mais recente morto neste instante. Qualdeles errou, qual deles acertou?E assim caminha a humanidade!... Na balança dos pesos do “bem e domal”.E eu com estes pensamentos, vestida de tempo, atravessando osmomentos neblinei-me no espaço.Lá embaixo velavam meu corpo. Beijos frios... Adeus!...As estações passando, iam me despindo, desfazendo-me os outonos.Jogada ao relento, tornando-me caveira, na imensidão do nada nosolhávamos!... Enquanto na Terra, em pó transformava-me, aprendendo aaprender, no espaço ia diluindo-me, aprendendo a começar. Nas dimensõesque atravessava quanto mais se aprofundavam, mais só havia “Eu” - umpontinho perdido no espaço, matéria a desintegrar-se. E foi aí que a dorexplodiu! Lançando-me no tormento indizível da pior de todas as dores; na dordo “Eu”. Era eu mesma, a própria dor.Sozinha, pela primeira vez sem nada para me segurar, encostar-me, fugir...Fugir!?Como fugir de mim mesma? Numa abissal escuridão, no calabouço do meuinferno estava acorrentada: em farrapos, embolorada pelo tempo, amordaçada,
  8. 8. 8vendada, no frio, na fome, na sede... envergada pelo peso da ignorância, pelacovardia de nunca ter sido eu mesma de verdade.Porém meus ouvidos ainda podiam escutar!Pouco a pouco, um som vindo de longe mais forte tornava-se à medida queo reconhecia. Era a memória do latido do meu cão, arrancando-me da inércia,da profunda apatia do sono mortal.A rudez dos meus sentimentos petrificados foi rachando-se... ,desmoronando o abrigo psíquico no qual me escondia e a Verdade, dos meusescombros saindo, foi espatifando cada elo das cadeias que me prendiam,jogando-me no vazio... na essência da natureza do Nada.Com as vendas do passado caindo dos olhos, pesadas bolhas contendo amemória dos meus atos, incrustadas pelo tempo no meu ser, foramdespregando-se dos seus refúgios; saindo dos mais ocultos rincões, numafúria, chocavam-se! Para refletir-se frente ao espelho cristalino da veridicidade.Meus olhos ao se abrirem as bolhas pipocavam! Jorrando substâncias quese transformavam em cenas vivas, passando como um filme aos olhos daconsciência.Por que somente o “mal” revelava-se? Só fiz o bem, isto não sou eu! E, emlegendas, do meu centro vinham as respostas:“Escondia-te atrás das máscaras do “bem”, feitas de papelão pintadas aguache confeccionadas pelos homens. Fantasiava-te em filantropias, dogmas,virtudes, crenças, escravizando-se aos interesses dos teus líderes: pastores,sacerdotes, filósofos, políticos, os modistas sociais que dirigiam tuas ambições.Agora, caído os disfarces, desnuda-se na tela os efeitos em seus semelhantesdos teus atos nas causas e defesas do “bem”.Cenas em contradições, estilhaçando antagonismos, apresentavam-secruéis por toda atmosfera daquele astro azul onde meus ossos jaziam. Vi meucorpo... Meus olhos cerrados, minha boca entreaberta... Não! Não podia tersaudades. Fugir outra vez nos meus sentimentalismos?Minhas emotividades foram sensações do meu egoísmo, onde até os peloseriçavam ao cantar o “Hino” no orgulho do meu patriotismo. E vejo milhões decorpos desfigurados! Filhos chorando, contorcendo-se de dor abraçados à mãemorta; crianças, sem destino, abandonadas pelos escombros; velhos sem forçaarrastando-se, recebendo balas perdidas; jovens bonitos querendo viver e eu
  9. 9. 9querendo matar, gritando “vitória” para nosso país! Segurando uma bandeirade trapo colorido enquanto corpos tombavam em morticínios pelas causas domeu “bem”.“Não matarás!” Todos rezam em seus templos - é uma das máscaras do“bem”. E lá estou eu: contrita, ajoelhada, rezando o “Pai nosso que está nocéu...” pedindo a esmola de “um pão de cada dia...” Que miséria!... E eu tinhaquantos pães quisesse à minha mesa. Na “Ave Maria...”, pedia que orasse “pornós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”.Quanta hipocrisia! Ao voltar para casa, ia escrever panfletos nacionalistas,coçando a barriga, torcendo a boca no riso que saía do meu cinismo. Ainda,saboreando a hóstia recebida pelas mãos do Venerando Paroquial pensava:“Onde metestes estas mãos, Sr. Reverendo?” Agora vejo! E que vontade tinhade beber daquele vinho que somente o padre bebia! Quanta vergonha, farinhade trigo com sangria era o corpo e sangue de Cristo.E “não matarás” ensinava às crianças: decorem os “dez mandamentos” deMoisés para não tirarem zero na sabatina oral da prova final e passarem deano.Crente de mim mesma, seguidora das mais altas normas morais,teatralizava-me em virtudes, honradez e bons costumes. Eu era um exemplo aser imitado.E como tilintava minha língua contra os não virtuosos, irreverentes às leis de“Deus” e às dos homens, os que rejeitavam colocar as máscaras do “bem” emsuas caras. Os únicos a quem peço desculpas. Perdão?! Não sou mais umcentro personalizado necessitado dos dúbios arrependimentos – outra máscaraacabando de cair.Martelam-me os ecos autoritários da minha própria voz saída daquelescérebros, já adultos, a quem doutrinei quando eram crianças: obedeçam,honrem, respeitem e jamais contestem aos superiores: seus pais, aos maisvelhos, aos soberanos e a toda autoridade religiosa. Tributem especial sujeiçãoaos valores morais da sociedade, eles farão de vocês homens de bem;venerem ao Papa, Supremo representante de “Deus” aqui na Terra; a todos osanjos e santos do “céu”... E perguntava:-O Papa é infalível?
  10. 10. 10Respondiam, naquele vozeio infantil estridente numa única voz:-Sim, o Papa é infalível. Nem sabiam o que estavam dizendo.-Leiam a Bíblia! E cuidado com a “Besta”, o Anticristo vem aí. OApocalipse!...E ia plantando em suas mentes as sementes do temor.Vozeava:-A Justiça se faz pelas mãos dos grandes homens, somente “eles” têm opoder de dar segurança ao povo. Aqueles que se desviam dos seus domíniossó encontrarão a decadência e estarão marginalizados, condenados! Portanto,crianças, seja um bom cordeiro. Não se desgarrando do rebanho, nãoencontrarão o satanás “que vive de rodear a Terra e passear por ela”, catandoalmas perdidas para aumentar o seu reinado que, um dia, lutará contra oexército de “Deus”: o “Onipotente”, “Onipresente”, o que tudo vê e tudo sabe;com seu olho secreto, em todas as partes, vigia tudo.- Crianças, vocês não querem alistar-se nas fileiras do Exército do grandeSenhor Deus?Em uma só voz respondiam:- Sim. Queremos!- Então, tenham a maior das virtudes: o temor a Deus! E não receberão ocastigo de sua ira. Coitados dos que estão caindo no abismo da morte! Semsalvação, arderão no fogo eterno; os que se rebelam, os hereges, osdescrentes, os fornicadores - infiéis impuros sem castidade, os concupiscentes- masturbadores imorais contra a natureza.Mil vezes cortem suas mãos, mas não toquem no órgão da vergonha; elenão lhe pertence e terão que dar conta pelo por pelo ao Criador. Apenas, ao selavarem, é permitido tocá-lo, de leve. Somente com a benção doRepresentante do “Senhor” aqui na Terra, através do Santo Sacramento doMatrimônio, este santuário poderá ser aberto, tocado, convivido e a chave seráentregue ao dono, seu esposo.Portanto, meninas, não desonrem a “sagrada família”, falsificando a chavedo seu santuário para ser entregue a mãos ímpias! Sorrateiras, pelas sombrasem direção a atos espúrios, conspurcam-se na alcova amaldiçoada pelo“Senhor” nosso Deus no adultério dos corpos imundos, arrancando o chifre doDiabo para pôr em seus maridos.O erro no homem é um defeito, mas na mulher é um cristal quebrado em
  11. 11. 11pedacinhos estraçalhado.Como já sabem! Foi dado a todos o “livre arbítrio”. Está nas mãos de vocêsa escolha entre o céu ou o inferno, o prêmio ou o castigo, o bem ou o mal. E,para bem saber escolher em seus arbítrios, sigam à risca os mandamentos queo “Senhor dos Exércitos” entregou a seu servo Moisés.Fechem os olhos, finjam não ver o brilho do ouro e da prata. Anestesiem-secontra a sedução das taças de cristais que tilintam reluzindo vinho escarlate,embriagando os sentidos. Cortinas de fino linho retorcido caindo sobreimponentes tapetes em desenhos orientais, pisados, apenas, por elegantessapatos. Lácteas colunas de mármore com seus rosáceos adornos; formasdóricas na arquitetura das mansões dos ricos... Tudo isto nos enganam, natentação do invejar, do ter, possuir, roubar. Deixe-os em paz! Que ACUMULEMO QUANTO QUISER! Deus sabe o que faz.Portanto, sejam simples, na humilde abnegada resignação dos desígniosdivinos; na renúncia dos prazeres terrestres, alcançarão, no paraíso celestial,os coroados em glória; na obediência, ganharão as honras, bênçãos e louvoresdivinos. É ela, a obediência, a coluna vertebral do bem enquanto que, nadesobediência, origem do mal, todas as desgraças acumulam-se!Estropiados, andarão! Renegados por todos os que não querem secontaminar com a insensatez de atos ilícitos, repetindo o pecado dos nossosprimeiros pais que, juntando-se ao inimigo, furtaram o que o Criador disseraque não lhes pertencia: o fruto do “conhecimento do bem e do mal”, coisa quesó a Deus pertence.E não se esqueçam da caridade das esmolas. “Quem dá aos pobresempresta a Deus”. Em verdade, vocês estão capitalizando; aplicando aqui naTerra o que receberão em riquezas lá no céu. Preocupem-se, SIM, em cobraraos seus pais o pagamento dos dízimos e subirá mais um degrau rumo aoSenhor, Deus de Moisés.Numa impetuosa imponência de palavras de terror, agitava aquelas mentesainda em formação:- Cuidem-se! Satanás tentou aos santos, privilegiados escolhidos pela graça domerecimento, quanto mais a vocês! Degradados filhos de Eva, almas fracas,herdeiros da imperfeição e da morte. Seus pais imperfeitos não poderiamproduzir filhos perfeitos e a iniquidade triunfará até o grande dia onde só os
  12. 12. 12puros que glorificaram o nome do “Senhor” serão salvos; recuperando, comoprêmio, um novo céu e uma nova Terra. Até lá, orem e velem!E terminava o discurso assim:A Santa Madre Igreja é quem vela por seus bens, quem salva a alma dosinfiéis pela redenção da Santa Confissão através das penitências epagamentos de indulgências, portanto, se não tiverem para quem deixar seusbens, não esqueçam de sua protetora a Santa Madre Igreja. Amém!E todos contritos, rezavam a Ave Maria e até o Credo.***Credo em Cruz, conjurada que fui! Quanta improbidade eu proferi! Quantaslutulentas imagens verbalizei, em invenções esquizofrênicas, manipulando“verdades” que brotavam da minha ignorância em consonância com os“mestres”, ignorantes do passado.Todos, sucumbimos no próprio garrote das nossas usuras, enlouquecidospelas ambições!Enfermada na doença mental das crenças, alastrei a epidemia daobediência: vírus que atravessa os tempos sem ter vacina ou antídoto que aextermine.Impingi em células vivas a descrença da verdadeira vida no aviltamento desi mesmo. Nem os impertérritos escapavam da intoxicação do terror que, emsugestões fecais, eu espalhava. Fiz de outros cérebros meu depósito de lixo.* * *A última bolha, pipocando transformou-me em fogo! Labaredas em línguasde fogo, formando imagens desordenadas, por mim passavam agitando carasmonstruosas! Bocas disformes trocadas de lugar misturavam-se a olhos que,saltando de suas órbitas, em brasa, fixavam-me!Quanto ódio a me olhar!Cérebros abertos escarravam-me todo o veneno das propagandasreligiosas, dos dogmas e crenças que os forcei a beber. Palavras de boasações, fé, bondade, caridade, família, deveres, normas e obrigações;
  13. 13. 13esperança, paz e religiosidade em gargalhadas ensurdeciam-me!Transformando-se em máscaras que me arrastavam enquanto, gemendo,açoitavam-me na pior das torturas, numa cruciante angústia do que se chama“dor na alma”.Vozes, vozes... Muitas vozes infantis gritavam - as das crianças a quemdoutrinei.- Não passastes de um fumeiro de ideias, amontoando fuligens!- Considerava-se salva!... Há!...Há!... Há!...-Em tuas grandiosas catequeses do “bem” desconhecestes a existência;teus semelhantes, companheiros de vida: homens, animais, vegetais, água, ar,vento, pedra...A vergonha foi gelando-me... Pelo horário terrestre, ignoro por quantotempo, meses ou anos, permaneci na estatelada apatia do meu próprio horror.Esvaeci na mais longa invernia...* * *Um clarão deslizando... foi removendo meu cinéreo invólucro enquanto,minha consciência despertando via o curare das palavras, em chorrilhos,despejando-se da minha comua:Palavras soltas, saídas das fendas do assoalho apodrecido do meu Ser,saltavam como pulgas, desfilando numa estéril interminável repetição:obedecer, obedecer, obedecer... Fé, fé, fé... Paraíso, paraíso, paraíso... Glória,glória, glória... Céu, céu, céu... Recompensa, recompensa, recompensa...Deus, Deus, Deus... Ira, ira, ira... Pecado, pecado, pecado... Castigo, castigo,castigo... Punição, punição, punição... Inferno, inferno, inferno... Fogo, fogo,fogo... Creio, creio, creio... Eu creio, eu creio, eu creio...Estas insistências irritantes, impregnadas no âmago de cadapensamento, propulsando a estrutura psicológica na busca de uma certeza desegurança, numa miscelânea contraditória de bens e males que, em códigos esignificados formavam o medo, agarrando-se em desespero aos pés daambição de um prêmio, de um ouro, de um paraíso, motivavam a dependênciado CRER NAS CRENÇAS; assim, automatizava-me pela falta de atenção, nasdrogas dos rituais.
  14. 14. 14Nos templos... estonteava-me as encenações de mãos! As reviravoltas,dadas por um homem onde um armado paramento rabaneava, mostrando seusbordados! Aquele pedaço de pano rendado, linho branco em névoa, indo evindo no esfregamento de um cálice no qual um vinho era despejado e bebidopor uma boca que dizia falar de Deus, saber sobre ele, conhecê-lo!...O abrir e fechar de um pequeno armário, brilhando lá dentro o ouro de umcálice em forma de sol, contendo frágeis hóstias a serem devoradas por bocassedentas! Em fila, de olhos apertados, língua esticada insalivada de gula,recebíamos das mãos sagradas do ministro do culto divino este “pão ázimo”!Engolindo, sem mastigar - não podíamos cometer o sacrilégio de morder ocorpo de um homem assassinado por estes mesmos sacerdotes no outrora.De joelhos, aglomerados em filas, corpos entortavam-se, esgueirando suasmiradas em direção aos trajes dos vizinhos numa mistura de reza com moda!Aspirando incenso, misturado aos primeiros gases intestinais do dia fazendo-nos lembrar de que ainda éramos carne!Faustosas imagens esculturadas, de mãos, bocas e olhos lânguidos...esmagando-nos, subjugava tanta santidade! Forçando-nos a adorá-las, adeslizar os pensamentos de volta ao seu passado. Na inveja, tambémdesejávamos que este fosse o nosso futuro: sobre um altar, esculpida embarro, pedra ou mármore, venerada!Uma atmosfera sem ar sufocava-nos, junto ao silêncio dos mortos queparecia morar naquelas grossas paredes marmorizadas, com enormes colunaspontiagudas em formas lanceoladas, retorcendo-se em forma de chamas,furando as alturas num encontro secreto com o “Redentor”! Retornando... ascolunas abrindo-se em abóbadas, a luz solar atravessava os vitrais a tudocolorindo...amarelando, esverdeando, avermelhando, com seus desenhos,provocando encantos! Ao descerem, espalhavam mistérios sobre as sombrasque se alargavam, envolvendo-nos em mais silêncio e enigmas impenetráveisà razão.Velas, em castiçais prateados, tremulavam aos olhos, realçando aspenumbras! Flores, em suas brancuras, armadas em arco, exalavambalsâmicos perfumes que enfeitiçavam ao fundir-se na alvura das rendas dealmofada das toalhas caindo em suaves pregas, hipnotizando!Sons vibravam! Fazendo-nos levitar. Era o lirismo másculo dos tenores e
  15. 15. 15barítonos, na transparência vocálica dos cantos Gregorianos com suas vozesem estalactites, em nós, em tudo, penetrando!Detalhes saltitavam em nossas distrações: desenhos arabescados empastilhas gregas, anjos bastante nutridos, carregando nas costas os santos...Tudo banhado a ouro, animando as ambições.Azulejos significativos, em azul e branco, revestiam a base da talhadaConcha Batismal à espera das cerimônias, dos choros salgados das crianças.Pinturas em afresco, com traços perfeitos, mostravam o mundo no “céu dasvirgens”. Logo abaixo, um purgatório; onde mãos aflitas, implorando socorropareciam abandonadas.Tudo era eternidade! Esperança do eterno que aumentava ao repicar dossinos!Apenas as grandiosas portas da entrada - todas em jacarandá - tocadas pormãos sem história e por pés hipócritas que as atravessavam, pareciam estarno presente; não fazendo parte do inebriado dos rituais.Drogas, drogas e drogados todos saíamos, sob o efeito dos sermõesinjetados de mais ópio do “bem”.Oh! Quanta esperança, quanta promessa!Glória! Glória!...Oh, glória!O que é a glória?!E em mais entendimentos a consciência iluminava-se!Não é a glória, um querendo estar por cima do outro, disputando o trono dainveja do orgulho e do ódio para ser coroado de todo poder?Rastejar-se para “Deus” que nem um réptil! Deixando seus visgos por cimados homens, seguidos por fiéis que, catando migalhas, estrábicos osaplaudem! Capitosos de, também ganhar glórias no céu?Todos, no mongolismo iluminados pela salvação, na esperança de um diasentarem por cima de Cristo “à direita do Pai”. Milhões e milhões, em pilha,num malabarismo para não caírem! Jamais à esquerda, é subversão celestial.***A compreensão juntou-se aos meus ossos na Terra que se esfarelavam, no
  16. 16. 16grande momento final do “aprender a aprender”, tornando-se pó.Os fatos, em vigorosa firmeza, ensinando-me a começar, foram limpando adelicada membrana que envolvia o mutável liquido transparente da minhamemória; arrancando as vestes que escondiam os corpos dos homens;rasgando os véus que encobriam suas faces, destecelando os entrelaçadosfios enredados pela hipocrisia, engodos, ilusões, crenças e mitologias.Tudo desnudado..., vi a beleza de cada ser em toda sua ingênita verdadeiraglória! Experimentei o que sente uma rocha quando as águas querem furá-la;eram as lágrimas! Conheci a fonte onde emana a compaixão; transbordava...derramando-se por todos os homens, banhando-os na doçura que pelaprimeira vez senti.Veloz, levando a piedade do meu corpo transformado em pó sem nunca teramado, percorria a tudo conhecendo o que não conhecia; escutando de todasas bocas o que nunca tinha escutado; vendo o que nunca tinha visto; sentindoo que nunca tinha sentido.À medida que os venenos iam transformando-se em antídotos, liberavamuma força, impulsionando do meu centro a revolta adormecida; esta, rasgandoos finos tecidos enganosos que lhe cobriam, foi extirpando as submissões,dizimando as ambições, cremando os medos, revoltando-se consigo mesmapor nunca ter se revoltado.O mundo era aquele, todos ébrios, em narcose, chocando-se desregulados?Sedentos, desconhecendo suas sedes; famintos, desconhecendo suas fomes?E a causa... A causa?Suavizando-se em ondas a revolta ia transformando-se... Neblinava-se numimenso oceano, levando-me ao desconhecido, enquanto ia lendo, em cadadobra, na quebra de suas ondas, todas as verdades:Ricos ou pobres, brancos ou pretos, crentes ou descrentes; papas,sacerdotes, pastores ou prostitutos; reis, presidentes ou mendigos; casados ousolteiros, crianças, jovens ou velhos; fiéis ou infiéis... TODOS estão pisados porTODOS! Pelo temor do menos e menos contraídos na dor que provoca prazerna luta do mais e mais. Devotados a inutilidades, fantasiados de sabedoria,esgrimem-se em opiniões nas guerras das competições do “Eu Sei”: quem temou quem não tem a razão das “verdades”? Perdendo-se nas análises, efeitosde suas causas.
  17. 17. 17E a grande causa!Todos desviados do verdadeiro bem que já traz em si, pelos secularessacripantas e sua caterva de forretas a mais caturra da espécie humana.Catacegos! Com suas cataduras de cordeiro, mascarando a inópia de suasvidas, organizaram o desespero à busca do “bem”. E até os mais cultosigualam-se aos sáfaros, apanhados neste engano.Pregadores do dever! Secularizando o mal através de suas inexoráveisideologias do “bem”, só fizeram criar salseiros em multidões de sandeus.Vestidos de pomposas urutus zurzem com palanfrórios, em loquaz astúcia,os dislates pestíferos das catequeses; entenebrecendo dessecam as energiasdos homens, tornando-os vesanos.Infaustos entupigaitados!Não vêm que estão a pregar doutrinas a mortos que se empilharão comocadáveres, fazendo mais pó sobre o pó de milhões de gerações de outrasvítimas?Massacraram seus físicos, seus psíquicos, suas mentes, suas liberdades,suas inteligências, seus sentimentos, seus verdadeiros livres-arbítrios!Aviltados, ultrajados, injuriados, renegados, queimados vivos, torturados,apedrejados!Suas casas incendiadas, suas culturas destruídas, suas cidades usurpadas!O negro só teria “alma” se fosse escravo!Dos nativos brancos, amarelos ou índios, humilhados, supliciados,exterminados, expatriados!Senhores!!! Seus templos e seus palácios foram feitos do ouro e da pratapilhados, erigidos por escravos que caíam açoitados.Truões!!! Com a máscara de um Deus castigador, cheio de fricotes - porqualquer coisa entrando em fúria, precisando tomar o calmante da “obediência”dos seus “criados” para aplainar suas sanhas -, entenebreceram a atmosferado planeta tornando-o inóspito.Na plenipotência dos seus atos, com suas insolentes espúrias leis, normas,mandamentos e fábulas, em invenções psicodélicas de um céu onde só temanjinho, o dia todo um olhando para a cara do outro rindo, na eterna felicidade;e um inferno, onde um homem escuro de rabo e chifrudo, com um tridente,espeta as almas desobedientes, jogando-as no fogo eterno para serem
  18. 18. 18fritadas; conseguiram fazer de todos inúteis amedrontados ambiciososxepeiros!Mentes que horripilaram! E horripilam!Esconsos em suas pocilgas meditam deitados em salsugens, as “excelsas”glórias que darão o “Poder” e os prazeres que farão a tirania estrebuchar suascarnes.Déspotas! Empedrando os corações, enlouqueceram a natureza original dohomem. Dia virá em que todos vocês sentarão no banco dos réus por crimescontra a Humanidade. E os que já se foram para o além, terão seus nomesapagados da História.Não foi “Deus”. Vocês! Inventaram esse Deus, projetando-se a si mesmo:General Senhor de todos os Exércitos; valentão, sem nobreza, ciumento,mesquinho e vingativo.A usura, o despeito, o ódio, a insegurança, a maldade - feridas pustulentasnos corações -, as frustrações densamente obumbradas em suas ignomínias,fizeram vocês “criarem” um universo particular por cima da criação Real.Cobrindo a todos com pesados cobertores de ferros pontiagudos forradosde “néctares”, chupando biquinhos, impediram que o psíquico do Homemcorrespondesse ao seu estado físico: de pé, não mais andando de quatro.Todos envoltos em pesadas auréolas de fumaça carbônica do adustoasfalto, sufocados no olor do breu com piche, sem um espaço sequer pararespirar, estão impedidos de enxergarem, se conhecerem. Que pena! Senão,vocês seriam desmascarados!Fizeram do homem um ícone, “feito à imagem e semelhança de Deus”;parece, mas não é, provocando angústias de um vazio... Como fantasmas,carregam submissa a cruz do “pecado” que é arrojada a seus pés,“salvadores”! Aonde vão se penitenciar e adorar, seus... suas....”A última onda vinha arrastando-se... parecendo não querer ser lida. Porém,de repente, num majestoso impulso a revolta a se despedir enlaçou-me namais clara de todas as leituras:“Você foi sócia da mais poderosa e vetusta empresa comercial de almascom o nome fantasia “Deus”! Regida por leis, escritas pelos privilegiadosempresários na sagrada Escritura dos seus Estatutos; estes “Iluminados”
  19. 19. 19receberam o Poder de transmitir aos seus clientes e sócios, as ordens do“Supremo oculto e divino Chefão Imperialista”; outorgados em plenos poderespara fazerem e dizerem o que quiserem abençoados pela infalibilidade! Equando erram mais infalíveis ficam”.As ondas da revolta, em calmaria horizontando-se... iam desfazendo-me daignorância:“Você perdeu sua vida, comprando e vendendo “ações” que lhebeatificavam! Em seu testamento abandonou seus familiares que hoje penampor algumas necessidades, deixando dinheiro, joias, terras, mansões para osempresários desta “Firma”, em troca de ganhar muito mais, chegando ao “céu”no encontro com o CHEFÃO.Participou de um mercado sujo de sutis roubos, guerras, usurpações,salmodiando com fragrâncias, rezas e velas suas corrupções. Você foiconsumida pela sofisticada propaganda do medo e da ambição.A eternidade junto aos belos anjinhos cheios de frescor, convidativos aextasiadas felicidades, circulava todos os seus pensamentos, esmagando seusnatos desejos considerados por seus gerentes como impuros. Num jogo decontradições, os mesmos desejos, os proibidos, só poderiam ser realizados nocéu; mas para isto, teria que se vestir, todos os dias, com a roupagem da fé,castidade e obediência.Os primeiros Chefes Empresariais arrancaram seus próprios pais do“paraíso do Éden”, castigando-os com a sentença “Viverão do seu suor”. Mas,eles mesmos, como filhos, só viveram e os atuais chefes ainda vivem namordomia sem uma gota de suor derramada: comer, tomar vinho, doutrinar,rezar, contar as nicas, dormir. Acordar, rezar, doutrinar, comer, tomar vinho,contar as nicas, dormir.Explorada através da dependência da palavra “Deus” ficou obcecada pelaculpa do “pecado original”. No anfiteatro dos templos foi dessecada igual a umcadáver. Nos horrores das cantarolantes rezas, cheirando a velas derretidas,sujavam seu psíquico. Nesta barafunda de abstrações, “intelecto-espiritualizadas”, somente poucos encontram o caminho da saída e se salvam!Mas terão que se cuidar, para não serem crucificados.E todos pensam iguais! A base do pensamento é comandada por essesEmpresários; controlam, através dos tempos, as consciências, em suas críticas
  20. 20. 20e julgamentos uns contra os outros.Institucionalizados no “bem”, em verdade eles precisam é do mal; é o seugrande negócio. Sem o mal o que seria deles? É a “mola mestra” que osmantém no “Poder”.Precisam de sofredores, da dor, da fome e da miséria para salvar as “almas”dos beatos lacrimosos, dos estúpidos arrependidos.Criando o conflito entre o obedecer e o desobedecer, o crer e o não crer, ocerto e o errado, o aceitar e o rejeitar, Deus ou o Diabo, o que sentem deverdade e o que têm que dizer na mentira, em sofismas sentimentalizam ossentimentos, formando os delinquentes, os apáticos, neuróticos, egocêntricosdepressivos, doentes mentais, fanáticos religiosos, falsos revolucionários e atéterroristas; neste estado de falácia, debatem-se nas paredes de suas prisões,gritando, matando, morrendo pela palavra-ideia: Deus, paz, liberdade,fraternidade, saúde, dinheiro... , estes prisioneiros, quando querem ser livres,sua liberdade é a libertinagem; e disso os Empresários precisam para aplicarmais “leis virtuosas” para contê-los, perpetuando-se no poder.Impedem nas mais variadas formas que o homem se conheça e acabe comsuas dores porque isto seria o fim do seu negócio que sobrevive doaniquilamento alheio. O homem feliz não precisa de guias, Papas, filósofos,pastores, mestres ou gurus, para quê? Aí perderiam seus tronos, banquetes erituais.Seriam desnudadas as mulheres! As que se escondem cobertas da cabeçaaos pés com uma aliança no dedo, fechando o “harém” das esposas de Cristo.Seria o fim dos que se flagelam na loucura da ambição, fervendo suascarnes na castidade.Os hospícios teriam de ser esvaziados para dar lugar aos queenlouqueceriam!O que será dos seus empregos e profissões quando todas as máscarascaírem e os homens forem felizes?A estupidez derramando-se dos “vasos de misericórdia”, expondo ao tempotodas suas hipocrisias... será devorada pelos corvos porque a terra não vaiconsegui engoli-la.Quando os homens quebrarem suas correntes...Quando não mais seguirem as sombras de outros homens... Onde ficarão
  21. 21. 21as guerras, os santos, os pastores, os...O negócio acabou a Empresa faliu!Desabou do pedestal o Deus escondido; tornando-se caco, espalhou-se aovento levando as máscaras. E o homem é feliz!Comendo todos do “fruto da árvore da vida”, tombou o último Empresárioque, fantasiado de anjo Gabriel, com sua própria espada fez haraquiri.E o homem tornou-se para sempre, LIVRE!”Um grito saído de mim furou o silêncio que se fez na imensidão do passado,no alivio do pesadelo que findara!... Sacudindo-me o remorso, não de terroubado ou matado a um só individuo; foi a toda Humanidade, a todas asraças, a todos os animais, a todas as árvores, a tudo! Universal. Com minhaspalavras, meus gestos, meu movimento total.Adorei a mim mesma, projetando imagens que se cristalizavam na adoraçãode um Deus made in home.Tinha medo de não CRER* * *Silêncio!... Só havia o silêncio, ensurdecedor silêncio vivo.Foi quando as memórias, acumuladas de todos os momentos não vividos,tal qual uma bola de chumbo num vácuo, voltaram a pesar dentro de mim.“Dentro de mim” (!?), também não existe. É o pensamento, aindanecessitando pensar, querendo existir.Memórias... Memórias de quê? O que existiria ainda como passado?Instantânea resposta de um etéreo mundo, amalgamando-me ia libertandoas energias que completavam as voltas dos instantes não vividos que tinhamme paralisado, curando as cicatrizes impressas nas lembranças tornadasangústias.Livre! Na correnteza da ventura abandonei-me...; navegando sobre pétalasnuveadas que fluíam do infinito misturei-me ao espelhante incolor do oceanocósmico, refletindo-me em todas as nuances de cores.Pelas nebulosas, espalhei-me!... Rolando pelas areias estrelares iadepositando em cada praia do meu tempo todos os sonhos-desejos quando naTerra vivi.Pipocava-me em pedacinhos! Vendo as imagens das memórias dos
  22. 22. 22sonhos, tidos ao dormir , explodindo, desintegrando-se pelo infinito!...Desfazendo-me o inconsciente:Vidrinhos de cristais, da mais remota Antiguidade, com seus bordados emrelevo... Cabeças e dedinhos partidos das estatuetas em biscuit... Jarras emopalina com seu colorido, rosa, amarelo... Laços de veludo, esfiapando-se emfranjas, pendurados em botões dourados do casaco de um príncipe que diluía-se em sombras, transformando-se num gato que latia em vez de miar...Livros, virando celulóide dirigiam um carro... e, atrás lá ia eu com umaBíblia na mão, transformando-se num sapo sendo engolido por uma enormecobra negra querendo me pegar... Vacas e bois, todos malhados, faziamginástica chifrando-me enquanto tentavam fechar uma porta que nunca sefechava.Como sombra, na sensação de um prazer angustiante, eu circulava por umcastelo à procura de uma escadaria misteriosa e proibida; ao encontrá-la, fuidescendo, descendo sem fim... de repente, uma enorme porta abriu-se e saíem outro país. Pelas ruas perdia-me indo ao encontro de minha casa quenunca a encontrava, ao mesmo tempo prédios seculares para o alto seesticavam, excitando meu orgulho.Arrastando-me..., tentava subir por uma enorme ladeira feita de lençóisbrancos, fugindo de um mar verde escuro que dava medo... Paredes queatravessava enquanto um trem passava querendo me esmagar, ao mesmotempo já estava no meio de outro cruzamento de trilhos... e tudo era noite.Passando outro trem levava-me sobre um amontoado de ferros velhos quepelos trilhos voavam, deixando-me em uma cidade da qual fugindo queriavoltar...Ruas estreitas... com casas de barro transformando-se em uma Igrejagótica, abrindo-se num túmulo ressuscitava um ente querido... Abismos que sefechavam e se abriam em montanhas esquisitas que me puxavam... Umacadeira que saía andando enquanto um macaco pulava em cima querendomamar...Um homem estático, todo coberto com um pano branco, vendo-se, apenas,seu pênis virando cabide com uma toalha de banho pendurada, movendo-se,querendo se transumanar... Uma banda feita de nádegas, tocando cada umaum instrumento, dançavam numa verdadeira algazarra e no meio delas, eu
  23. 23. 23também era uma bunda... Estranhos amigos nos sonhos que se evaporavam...Quanta alucinação!... Mas minha vida na Terra não foi apenas isto?O mundo que considerava fora da consciência, foi visto nas retilíneas dasminhas noites e dias que se arrastaram no pedaço de tempo chamado “minhavida”. Agora, em pedacinhos, via em cada detalhe dos fragmentos arelatividade das aparências de tudo o que os olhos nos mostram e a menteanalisa.E em mais claridades rebrilhavam as percepções, conscientizando aconsciência das memórias.E tudo é vitupério! Delírio das verdades vituperianas!Seria tudo aquilo, os meus sonhos, a serem analisados no sofá de umpsicanalista?Oh! Zarros da fama, títulos, nome, poder, prestigio! “Imortais” queimpediram de abalar suas estruturas, de deixar cair a podridão! Todosbichados, corroídos... , assim mesmo mumificavam-se, jazendo nos sarcófagosdos cérebros humanos.Quem seria mais insano o analisador ou eu, a analisada? E aqueles sonhosestavam separados de mim e do mundo psicológico em que vivi; não era tudoum único bloco num amontoado de destampatórios?Ia ser analisada “ad infinitum” e nunca ia me descobrir. E o analista, elepróprio, era quem mais precisava se analisar.Catedratizaram como útil, a inutilidade dos sonhos, em Universidades, livrose compêndios. Que loucura é essa que descontrola os sábios, profissionaislibadores da estultícia nos hospícios dos homens?Pedantizam uma determinada classe social que, na finura de uma eleganteignorância diz: “Estou sendo analisado”, isto é; futucado com uma colher depau para ver se retira lá do fundo algum traumazinho infantil que o fazfricoteiro. E... depois de alguns anos de análise...(porque leva é tempo!Enquanto isso o bolso do psicanalista...), sai vangloriado, estufado, debiquinho... com voz intelectualizada dizendo: “Eu sou analisado” a dizer: “eu meconheço, vocês não se conhecem”. Sentindo-se estranhamente superior.Por que o pobre não senta nesse divã? Seria até engraçado um pobreconhecendo-se; entrando no “sub” mundo do “id” ia sair um “sujeito” cheio de“objetividades” subjetivas ou... “subjetivas” objetividades!
  24. 24. 24Abruptamente, numa instantaneidade do momento, sem a consciência dacontagem de tempo, dimensões comprimidas que me embaulavam emcamadas nos desfazíamos... Descortinado o infinito, enxerguei o vazio emmetamorfoses de espaços.Desta infinitude... uma densa nuvem de pontinhos dourados em riscosgeométricos, num calidoscópio de formas e cores aproximava-se! Extasiadana admiração do inédito, fui imersa por essências vaporosas de gelo emanadasem beleza das feições ocultas de um homem.Uma mão para mim estendeu-se!... Realçavam cumprimentos, em suavescantos, de regozijo máximo por este nosso encontro. Sintonizando-nos,comungávamos numa protofonia de perguntas e respostas, em ondastelepáticas, cruzando o espaço, mais rápida do que a luz.Parecia querer desabafar... Gotinhas de gelo liquefaziam-se enquantoexpressava-se:- A solitude da morte esvaziou minha verve astúcia!Queria furar a bolsa de valores dos homens, enxertando meus novosvalores, apenas mais os esgalhei!Queria resolver as neuroses e mais neuróticos os deixei!Fiz falsas curas; mutilava seus psíquicos, impedindo-lhes a percepção pelosanestésicos das minhas conclusões.Fiz deles a minha segurança; em verdade, eram eles os meus “analistas”:os utilizava para enxergar os meus conflitos.Fiz “uma seita isolada e hostil contra todos aqueles que não aceitassem meucredo científico”, confirmo as palavras de um dos meus colegas, em seu livro,ao citar-me.Em busca de um conforto psicológico, interpretava, explicava, traduzia,criava técnicas, doutrinas, teorias, filosofias, fazendo do inconsciente dohomem um cabaré de “picolinas”. Para mim eram todos incestuosos e osenquadrava, interpretando seus sonhos, numa jaula erótica através dos meussímbolos. E foi daí que nasceu minha fama na moral científica, esfregando ocaráter do homem entre suas pernas onde só havia sexo: coito, pênis e vagina;edipismos e electrismos.Se as religiões desviavam o olhar de todos para o alto, eu o desviei para
  25. 25. 25baixo. Foi minha forma inconsciente de protesto....Breve silêncio!... Por que não podia ver-lhe o rosto? Será que não tinha sóera luz, nuvens, ou... O que eu era, o que éramos!?Ainda sob as ondas que emitiam sua voz telepática, olhei para a verdosaimensidão... Não compreendi!Querendo descobrir, tímida em perguntar... foi despertando a consciênciano “dar-se conta”: não mais dependências psicológicas em respostas alheiasao aprender vivendo.Que belo sorriso coloriu aqueles vapores!... Tinha captado minhas ondas.Numa desembaraçada comunhão, continuou seu desabafo:- Tomei como verdade absoluta o meu irrebatível realismo. Quanto maisanalisava menos compreendia; pelas noites desfalecia em minhas trevas,sonhando as imagens frustradas do dia. Desperto, produzia divisões entre oobservador e a coisa observada; neste abismo construí uma ponte, mas eraimaginária... E o observador mais míope ficava.Sem conhecer-me, perceber minhas ambições, como teria valor o quepensava, investigava ou inventava?Queria conhecer o inconsciente alheio através das minhas análises. Commeu intelectualismo sufocava cada vez mais a possibilidade de, realmente seconhecerem. Fechando os caminhos à realidade, batia a porta na cara daverdade. Não se pode ver um fato, trazendo ao presente todas as lembrançasatravés de símbolos, ideias ou palavras.Intelectualizei o inconsciente do homem.Intelectualizei os sonhos.Intelectualizei o intelecto.Coloquei-os dependentes e mais os acorrentei na escravidão da estruturasocial.·.Tornei-os antipáticos; para cada movimento, cada atitude, cada reação,cada falha do pensamento dei um nome, uma explicação....Que estranho! Os vapores avermelharam-se... Revoltava-se consigomesmo.E lembrei o que por algumas vezes na Terra escutei: “Freud explica!” -
  26. 26. 26rápido completei: Mas não justifica!Senti tremê-lo, tinha captado minhas ondas.Queria tanto vê-lo!... Será que ainda tinha barba e bigode? Não tinhacoragem de perguntar. Apenas éramos essências vaporosas? Mas daquelasmãos saíram sons musicados... E certa musicalidade nos envolve... sutil...Queria fazer-lhe certas perguntas, mas ainda havia resquícios do respeito edistância que tributava às autoridades científicas.Tão rápido como pensei mais rápido percebi: para ser eliminado qualquerfalso tem que ser vivido! Mesmo que seja por segundos, em cada detalhe. Eem mais lucidez a consciência expandia-se.Apagam as luzes que brilham nas mentes para serem iluminadas peloscandeeiros dos “grandes pensadores”: filósofos, profetas, cientistas... Terãoque ser endeusados e só recitar o que eles disseram.Os seguidores, orgulhosos, preparando-se para serem doutores, mestres,catedráticos, escrevem Teses e Tratados... sempre por cima do que outrospensaram e, quando “criam”..., é sempre com base em “alguém” que disse.Vedado o direito de contestá-los; tornando-se, também os “donos daverdade”: “sábios” montados em mulas, arrastando os “bestas oligofrênicos”que só podem olhar para frente. È perigoso olhar para os lados, poderãodescobrir alguma coisa e..., realmente sabendo, pegar o chicote e açoitar osábio, desmontando-o da mula que terá de correr para o arrastão das “bestas”não passar por cima.Incomodava-me certa curiosidade... Como teria sido o momento ápice dotérmino da vida condensada deste homem que na Terra foi tão complexo esabido; ao seu principio-destruição-transformação, agora tão sábio e simples?De imediato a resposta veio dinâmica, embora seus gases acinzentassem.- A morte recebeu-me, chorando... na solidão!Não que ela fosse a solidão, é que só chegamos a ela num estadodesolado. Ela nos quer vivos! Mergulhados na cultura das entranhas dopresente, mas queremos continuar... As memórias, coisas mortas, não queremterminar e a morte é a destruição! Não tem hora nem dia é um ladrão e nosrouba da vida.A morte para mim dizia:“Por que fugias, procurando a imortalidade, remédio para o terror, tendo que
  27. 27. 27passar por mim como um cadáver? Por que não escancarastes tuas portasdescobrindo na vida meu segredo e entrarias vivo na minha casa? Estásacaverado, dogmas e crenças apodreceram tua vontade, tua coragem de secontradizer, de ser você mesmo de verdade”.-Estava cada vez mais rígido, gelando-me... gelando-me... Em suplício,sendo sugado, atravessava horrorizado um túnel parecendo ser de vidro.Sentindo cada vez mais frio... mais petrificado enquanto a consciênciaincandescendo queimava-me! Igual a uma geleia em brasa como as lavas deum vulcão. Cada vez mais fraco, desfalecendo, gemia.E sempre vinha uma resposta da morte:“É a memória que te queima! Enquanto ela existir não poderás compreendernada. Estás bloqueado na imaculada face da tua ignorância; pois vocês, “blefematerial”! Hipnotizam-se..., narcotizam-se com palavras, na ânsia de“sabedorias”. Na infantilidade dos teus sentimentos, a tudo bloqueiam.Desviados do coração, apenas refletem no espelho impuro suas dores”.- Como navalhas, espetadas doloridas rasgavam-me!... Eram os conflitosremovendo-se em confusão. E aquela permanência sempre meacompanhando, respondia! Foi quando percebi nunca ter estado só, nuncaabandonado. O pior dos homens está sendo atendido por algo... que nãosabemos vivê-lo! Não nos conhecendo, não o conheceremos.Pela primeira vez, sentindo a compaixão de alguém por mim... ; conheci abondade, escutando a morte:“E tudo tão simples!... Do óbvio, que é o próprio necessário, nasce a belezada ideia-ação, e num milagre matérias são moldadas pelas mãos sagradas doshomens. São vocês os escultores, doutores, engenheiros da natureza, e omestre é o Amor. Mas... passou um eclipse, cegando a todos, a ignorância,entre o intelecto e o coração; confundindo criação com invenção isolou a ideia,separando da ação; ficando todos perdidos, na ideação - nem ideia e nemação. Nestas miragens nasceu o tempo e com ele a confusão, dando origemao espaço donde surgiram suas civilizações!”.-A cada frase, pedaços de carne desprendiam-se dos ossos, emaranhando-me por imagens que se chocavam, obrigando-me a encarar o Real; únicarealidade, sempre presente, sem nunca ter-lhe dada atenção por estar perdidopelas ilusões inventadas pela mente humana.Emborcava-me dando voltas, caindo... Vendo tudo a se dividir.
  28. 28. 28E a voz continuava:“E cada vez dividem mais, em suas invenções:Deuses para a idolatria, ideais para as vísceras, ideologias para a cabeça,emoções para o coração, explorando o simples prazer do animal que aindaestá no homem. E o mais serio e vulgar: criou outro homem dentro do própriohomem, com olhos, ouvidos, cabeça de monstro. Podes chamar, a “Besta””-Um arrepio fez-me timbrar!... E mais espetadas como raios betuminosos,rígidos como arame, rasgando as vísceras... perfuravam-me! Batalhava com omedo.Mais grave a voz manifestou-se:“És tu mesmo o próprio medo fabricado pelos pensamentos que, tomando adireção do mundo inventou siglas, siglas, ideais, ideias, ideologias; sufocando atodos que matam e morrem por letras e significados em busca de seguranças.Perdidos!... Tudo se complicou, aumentando as divisões: As raças empreconceitos, as nações em potências, o trabalho em posições determinandoclasses, as artes em títulos e por aí vai...Conseguiram dividir os fatos em opiniões. Palavras em sensações: boas oumás, feias ou bonitas. Dotes naturais em profissões rígidas: quem cuida dofígado não cuida do baço, quem varre casa não é Ministro.Comportamentos divididos: o bom e o mau ladrão ou assassino conformeposição estratégica no social. E todos, mestres ou discípulos, são controladosatravés do samba do premio ou castigo; conforme os interesses descem ocassete ou premia com medalhas... também divididas em ouro, prata... E todosfazem o que o monstrinho mais gosta: irritar-se por estarem divididos; brigarpor divisões; amedrontar-se porque dividiram aí se firmam nas armas. Esteatrito lhe dá mais energia: é um fantasma, um ser imortal, ninguém o atinge...Não existe!E os controladores das divisões são os seus mestres organizados emdepartamentos: político, religioso, econômico... No político, conforme o partidoe o lugar apenas mudam de nome; falam sobre tudo, menos sobre a UNIÃOque pode desmantelar todas as divisões. E as sigla dividem-se em subsiglas.No departamento religioso, um dia um homem falou sobre um “Deus”;pronto! Instalou-se a divisão: católicos, protestantes... e os ministrospastorizados Papa, Bispo e até sacristão dividindo os espectadores em
  29. 29. 29pecadores ou santos, espírito superior ou inferior, de luz ou das trevas.Na economia, todas as noites dividem, aumentando o valor, diminuindo oproduto no dia. E a divisão entra na casa da multiplicação dos pães de um emmil para não morrerem de fome.As contradições em conflitos que, ao máximo tornam-se antagônicas e é oinferno!... Amigo e inimigo, resultando nas guerras tão conhecidas. E asguerras também dividem: nação contra nação, irmão contra irmão.Este é o homem que se estraçalhou em milhões nos braços da ilusão entrea ideia e a ação. É normal que não se conheçam e procurem um psicanalista;este, também está preparado para dividir em análises as lembranças de suasvidas”.-Exausto! Também estava sendo dividido pelas formigas e morotós,espalhando-me em pedaços sobre a terra. Foi quando, um rápido lampejo depercepção começou a abrir as comportas da minha consciência.E a voz ordenou-me!“Escutes ao teu planeta! Todos estão cantando:” Eu, tu ele, nós, vós, eles.Je, tu, il, nous, vous, ils. I am, you are... E com estas letrinhas, um estámatando o outro, pisando, acusando em termos gramaticais, é a Besta! Ohomem irracional”.-Num estrondo, querendo lascar as pedras do meu túmulo, a voz urrou:“Verbalização! Fantasma que atravessa os tempos, sacrificando emholocaustos uma parte dos homens enquanto a outra, adorando, bebe osangue das vítimas que se derrama sobre os altares”.- A voz!... Cessou de se manifestar.O tempo à espera do seu retorno foram séculos doridos de monotonia.Sabia que voltaria!... Sentia sua compaixão!E se não retornasse?...Neste espaço-tempo indefinido, fui percebendo ter sempre vivido numestado permanente de dependências. Eu era um amontoado de ideias, que semantinha, separando-se das coisas num astucioso artifício. Utilizava para isto,pessoas, ideias e até objetos, na ostentação do meu “Eu”.A isto tinha reduzido a minha vida: mero observador estático, observando a
  30. 30. 30um mundo dinâmico ao qual queria dominar. O que importava era “Eu”, dando“decretos” para a natureza e não as leis dela para mim onde tudo pulsa,entrelaçando-se.Enquanto percebia este fato; uma aquosa interminável sombra, de umalaranjado escuro em formas estranhas, ia saindo pelo meu umbigo que emgelatina desfazia-se. Era o falso homem - centro criador de imagensimaginadas. Pelo processo das crenças foi sendo formado, moldado..., atravésdas lendas e estórias lidas e escutadas, desde a mais tenra idade,sentimentalizando-me na ânsia de uma realidade.Mais aliviado fui chegando ao meu fundo; rolava..., escorregando porlíquidos gomosos - eram os nervos e neurônios, o resto que de mim sobrousendo devorado pelos vermes, limpando as matérias putrefatas. Eu era umcarvalho abrindo-se ao meio onde NADA MAIS EXISTE, REDUZINDO-ME ANADA.Foi neste sentir, reduzindo-me a nada, que um filete da consciênciacomeçou a ter luz própria; arrebentando o cadeado da prisão mental libertousua totalidade.E o raio de luz da primeira manhã do meu despertar, atravessando a pedrado túmulo agasalhou-me em seu lençol, esquentando-me da longa noite de frio.Enrolado em suave tépido fui saindo do leito sagrado da dor.Sorrisos despetalavam-se em auroras!... Cintilando meus olhos, despertouuma voz... Minha verdadeira voz, tomando as dimensões inomináveis daextensão: E A VERDADE, O QUE É A VERDADE? Com toda a força dassedes não saciadas queria beber. Beber de um só gole, tudo que tinha perdido.A feiura do meu intelecto fez-me ignorante do verdadeiro saber, impedindo asoberania da beleza.Suave... , cinzelando-me em sua paz meditativa, numa paixão poética aVOZ foi retornando do silêncio...Em bem-aventuranças transcendia a escutá-la! Entoando minha primeiracanção: a da humildade.O som de sua voz em estrelas a tudo incandescia!“A verdade não pode ser tocada, nem chamada, nem implorada.Apresenta-se quando quer, é uma menina livre! Está entre as coisas animadasou inanimadas onde há um espaço psicológico e vocês, em suas
  31. 31. 31insensibilidades, não percebem.Faz tudo nascer, sendo cada coisa, única, insubstituível!Faz gelar o gelo, queimar o fogo, sacudir o vento!Dá nascença ao nascer das águas!... Enchendo as fontes que se derramam,descendo pelas montanhas, correndo vales, esbaldando-se pelos campos emrios de água.Aventureira!... Abrindo caminhos, embrenha-se nas matas, devastandoterras, banhando cidades.Avista outras águas!... Correndo ao seu encontro, joga-se em seus braços,deixando-se carregar!Temperadas no sal da nova água, junta-se aos oceanos, carregandopesados barcos!Enfrentando tempestades... mistura-se ao vento, evaporando-se no ar...Transformada em nuvem, no encontro com suas irmãs mostrando-lhe o sol,passeiam em pares!Conhecendo a lua, sorri com meiguice, admirando as estrelas enquanto anoite passa.O dia amanhece!... Refrescando-se... penteia seus cabelos raios do sol quenasce.Vestindo-se de gases, do branco em rendas bordadas, alonga-se faceira éhora do trabalho!Ciosa do tempo equilibra a Terra, regando as plantas em chuvas que caem...Um broto aparece... Crescendo a alface, é levada ao mercado e compradapelo homem que de nada sabe. Na mesa do dono, cortada em pedaços, brilhaescondida em forma de gota que morre nascendo... de volta à sua casa ondedeu nascença ao nascer das águas!”- Enquanto escutava, libertando-me do túmulo, na unidade a Voz esculpia-me!... Musicando-me... em desenhos coloria-me numa nova roupagem,ensinando-me a não continuar, a não querer saber o “por quê” de nada.Começava a aprender a viver “NO QUE É”. Em cada mais minúsculopontinho, ultrapassava a morte, no simplesmente SER, diluindo-me pelo infinitode uma brilhante matéria negra permeando-se por tudo.Companheiro! É tudo uma questão da mente que se escraviza na magia
  32. 32. 32desprendida das coisas prendendo-nos “ao que foi” – passado -, semeando oque será – futuro – ao passarmos pelo tempo cronológico dos minutos e dashoras nesta grande viajem da vida, num desejo de repetição, cegando-nos parao “QUE É”, o verdadeiro “presente”; este insondável e indecifrável instanteonde contem, na unidade, todas as coisas, nascendo, morrendo num estado desempre NOVO, sem tempo nem espaço.A sensação dada pelo atrito das energias das memórias, na perenecontinuação do que foi, é o que chamam de prazer e uma “imagem”centralizada, estática, foi se formando desde a mais tenra idade, cognominadade “Eu” (o pensador, o observador, o experimentador... com todas suasvivências e sensações físicas, psicológicas, neurológicas).No engano deste “Eu” vive nossa humanidade, com a mente torturada peloconflito da dualidade entre o aceitar ou rejeitar, o bem e o mal... perdendo suanatural segurança em equilíbrio com todas as coisas onde nada se sobrepõe anada.E as portas se abriram para a entrada do MAU: crenças, ideologias,religiões, tradições nacionalismos, resultando em guerras, injustiças, lutas declasses, explorados e exploradores, escravos e senhores... O resultado é omedo e a dor que a tudo acompanha, deixando sérias cicatrizes.Das dores querem se livrar sem abandonar o prazer e mais emaranhadosficam nas redes do tempo/espaço psicológico, pois dor, medo, prazer sãoinseparáveis, fortalecendo assim, as abstratas imagens, pelo esforço mentalem concretizar desejos, as quais chamam de ideais - este “esforço” é a própria“esperança” (espaço de espera onde tudo acontece - a vida não vai parar parasatisfazer os caprichos da mente em seu desejo de “vir a ser” atrás dafelicidade, realização, domínio, gloria, poder. E nos aniquilamos, derrubadospelo Real movimento da vida que ignora nossos calendários e fusos horários)Ao movimento das memórias ou do passado deram o nome de “pensamento”que foi endeusado pelos homens, em sua ignorância de não se conhecer; e foidada autoridade a esta entidade fictícia - sem nervos, sem sangue ousentimentos; frio, insensível, contraditório, tirânico e cruel, sendo esta suaprópria característica – o poder de dirigir o mundo e a vida do homem, dosanimais e da natureza tornou-se um inferno; há séculos, vivendo emmonstruosas sociedades utópicas, dirigidas por fantasmas.
  33. 33. 33- O pensamento, criando problemas, sem se dar conta de que foi ele oinventor/causador de todo este caos: divisões, desejos, ilusões, medo, guerras,dores, fome, miséria..., o criador de todo bem e todo mal sendo ele o únicopecado do mundo, na pretensão quer resolver o que ele ocasionou e mais caosvai espalhando através de ideologias, novos sistemas, leis, reformas etc. e etc.Por desconhecer que vivemos no Real, no Perfeito, apenas consegue deixaro Ser em estado de conflitos; em confusão, inimizando-se uns com os outros -entre amigos, famílias e nações -, distanciando-se cada vez mais do verdadeiropela ilusão de um “Eu”, também criado por ele: o “pensador”.Somente pela percepção de nós mesmos, num só golpe de vista, tudo éextinto e só fica o que somos de verdade AMOR, SILÊNCIO, CRIAÇÂO..... Escutava-o com fervor! Aprendendo do seu aprender.Mas tinha tanto o que dizer... tanto o que perguntar, tanto o que...Sua agudeza em captar ondas, era admirável! Já ia respondendo atémesmo as que ainda seriam por mim elaboradas.E numa atmosfera de solene seriedade foi respondendo-me!-Sim. O psicanalista ou todo aquele que “lida” com a “psique”, pode serconsiderado uma polícia psicológica da sociedade. Seu papel é ajudar os quese desviam da “normalidade”, trazendo-os de volta ao social. Não os deixamsufocar em suas próprias crises. É perigoso! Poderão ver os reais problemas.Analistas e analisados são dois fujões, têm medo de se enfrentarem; verque o “externo” quer a todos problemáticos. Sem o problema os poderososserão inutilizados, pois não mais haverá dependências de mestres, guias,pastores, analistas, para quê? Livres, não lhes farão falta a “segurançapsicológica” dada por aqueles que, provocando a confusão, estabelecem a“ordem” através de suas leis, doutrinas... para terem o “Poder” nas mãos.-Sim, não disse e não dizem:Amigo, sua totalidade só pode ser conhecida por você, conhecendo-se a simesmo; e, para isto, não precisa de nós, de nenhum especialista, de nenhumlivro, nem instrutor ou guia, de nenhuma autoridade que vão lhe cegar aindamais. O mais inteligente ou sábio dos homens não pode tocar, analisar,intrometer-se nas dimensões psicológicas de nenhum homem. É este o
  34. 34. 34IMPOSSÍVEL.Como dar visões fixas a um mundo onde nada é fixo, onde tudo que existecontém tudo de todas as coisas em formas de energias fecundadas pelo tempono ventre do espaço; portanto, como analisar, explicar, concluir, interpretardetalhes, escanteando a totalidade?-Sim, não disse e não dizem:Que as sugestões que vêm da mente, em suas camadas mais profundas,são rechaçadas pelo processo de “educação” do mundo “externo”, fazendo detodos autorrepressores. No momento em que estas sugestões não foremimpedidas, onde ficará o mundo dos sacerdotes que fizeram do homem um sermedroso? Dos intelectuais que fizeram do homem um ser ignorante e oconhecimento de si mesmo virou uma utópica filosofia? Dos políticos quefizeram do homem um ser grosseiro, medíocre, vulgar?Envenenaram as energias do homem, tornando-os inertes, angustiados,torturados, fragmentados; chicoteados pelo medo são acariciados pelaambição.-Sim, não disse e não dizem:Que já nascemos matriculados numa grande Escola de Teatro ondeaprendemos a dramatizar e a bem interpretar a maravilhosa peça teatral “Eu”.É uma tragicomédia, rica em suas variedades de enredos. Só ganham fama osbons atores; os figurantes ficam na ralé dos bastidores, porém imprescindívelpara o êxito do trabalho teatral – sem eles, o bom ator que sobressai nãoexistiria.Dou risada de mim mesmo. Não tive o senso do ridículo! E era este “Eu”que pretendia e meus discípulos pretendem analisar. Sem palavras.-Sim, não disse e não dizem:Que o homem, para se curar, terá que jogar ao lixo esta peça teatral “Eu”;despersonalizar-se, abandonando a obediência psicológica com toda suadramatização do “bem e do mal”.- Sim, não disse e não dizem:Companheiro, - em vez de chamar de cliente - todos nós estamos namesma situação, hipnotizados! Sobrecarregados por violentas correntespsicológicas tornadas inconscientes pelos acúmulos de memórias seculares,
  35. 35. 35precisando ser vistas e por si mesma extinguirem-se.-Sim, não disse e não dizem:Amigo! A cura está nas ruas, nos bares, nos transportes coletivos, nasfamílias, nas escolas, em todas as partes. Nos ares dos ricos, na inércia damiséria; no parlapatear dos políticos, nos templos, nos prostíbulos. É passandopela lama que nos limpamos, e não dela fugindo para nos banharmos embanheiras com sais aromáticos, praias saudáveis ou perfumes exóticos.Olhe o sofrimento alheio, o problema dele é o seu. Não existe o meu e o seuproblema; só há o problema, inerente a todos os homens. Por dentro, sãotodos: ambiciosos, invejosos, maledicentes, orgulhosos, autopenalizados. E, écom toda esta carga que andam, arrastando-se à procura da felicidade.-Sim, não disse e não dizem:Olha! Fomos educados na rigidez de desejos, através das “sugestões”impostas pelas propagandas comerciais, religiosas, políticas, sociais.Classificaram, organizaram, intelectualizaram, espiritualizaram os desejos.Atingiram o centro nevrológico do homem onde as vísceras fervem nocaldeirão dos pensamentos, deformando os sentimentos, as emoções, oshumores, os prazeres. Tudo dominado são facilmente pescados através dasinfluências, em todas as formas e nuances; sendo destrinchados pelos dentesdos dominadores em seus banquetes ou até, na simples mesa de um amigo.É a dualidade, lenha incendiada que alimenta a chama do conflito. Passamsuas vidas dirigidas por um pêndulo entre o bom e o ruim, o gostar e odesgostar, realização ou frustração que resulta em assassinatos, guerras,suicídios... Esperança ou desespero em ganhos ou derrotas; do positivo ounegativo supersticioso; do certo ou errado - sendo que, o certo só é aplicável acoisas técnicas, por exemplo: Não deixar que o planeta desintegre-se porcausa de um erro atômico.O HOMEM NÃO ERRA NEM ACERTA, O HOMEM APRENDE.O “Eu” e o “não Eu”, onde todos são réus e vítimas, em acusações,julgamentos e defesas. Do foi ou não foi, fez ou não fez, nos lares, nostribunais, nas escolas, entre os casais, os amigos ou desconhecidos. E emtudo isso, a satisfação torna-se uma exigência paranoica, permanente. E...sendo, a satisfação um estado indefinido onde segurar o vento é mais fácil! O
  36. 36. 36medo instala-se; sendo a base do desejo. Paraplégica! A satisfação andasempre carregada por sua inseparável irmã gêmea, a insatisfação.São esses opostos que mantém toda a estrutura psicológica do “Poder” dasInstituições religiosas, políticas, sociais, no coletivo ou individual.-Sim, não disse e não dizemSó há desejos. A vida é uma série interminável de desejos. Não podem sergerenciados. Não se suicide, matando o desejo. O conflito surge, justamente,no esforço para torná-lo rígido, único, obediente. Ao fazer escolha, entra aconfusão; e um desejo briga com o outro, e o outro com o outro, e o outro como outro...Portanto, companheiro, vivendo todos os desejos os conflitos deixarão deexistir e a lucidez será seu estado permanente, ao dormir ou em vigília. Avontade acalmada, tudo tomará seu rumo certo.-Sim, responderei a esta última perguntaPor que eu era obstinado pelo caráter anal?Mas já não era isto o sintoma do prelúdio do meu câncer no reto?Isto! Eu não soube explicar!... Majestoso! O belo embalava-nos na comunhão do desabafo, nos braçosda realidade.Os gases foram diluindo-se... e pude ver sua face:Seus olhos... eram a imensidão de estrelas inflamadas numa cançãogenesíaca! Seus lábios... um sorriso esculpido na imortalidade!Em cortejo, as alegrias iam depositando coroas de flores no tempo do nossopassado.Assim como surgiu, se foi... em calidoscópio... Fechando suas cores eformas, sumindo... num único ponto. Perdendo-se... no imensurável!Aprendia... como aprendia!Banhada pelo frescor da purgação foi-se abrindo meu mais profundotúmulo, ressuscitando sonhos e anelos onde jaziam enterrados pelos homensenquanto mãos silenciosas teciam-me em fios azuis translúcidos, do noveloque se desenrolava do infinito incomensurável mundo da escuridão.
  37. 37. 37Vestida do novo..., acostei-me nos últimos raios dourados do Sol se pondo.Descerrando a cortina do dia chegou a noite; diluindo-me em seus trajes,em seu colo carregou-me! Levando-me por cada raio prata que se desprendiada lua explicava-me o porquê das coisas, tornando-me criança.A aurora surgindo, foi despertando a inocência dos meus novos primeirospassos e a brisa que dançava, traquinando aqui e ali com os orvalhos,enlaçando-me, arrebatou-me! E num festival de movimentos malabarísticos,ensinando-me a arte de voar... arremessou-me pelos confins.Num vácuo flutuava... num vazio ...em todas as direções; num oceano decores que moviam-se em ondas fluidas, perfumando-me num banho acetinadodo aroma que se derramava da serena unidade da criação.Com asas próprias voava... , invulnerável ao tempo e ao espaço, orientadapela bússola do Atemporal que sempre residiu em mim num pacote de séculosmais leve que o segundo.Entre substâncias da existência, transformava-me!... No fresco nascer doexistir na morte, no seio do Nada.Nada!... Berço, origem intangível da criação! Vive obumbrado no maisdesconhecido da escuridão onde as luzes, o brilho, os esplendores não lhe sãonecessários.Simples... É a própria fonte da energia onde fecunda o ser da luz. É o seupróprio fim, ilimitado em direções, profundezas e dimensões; sendo este oinatingível principio.Dá movimento!... Sem continuidade, aos novos movimentos em suasespontaneidades!Dá visão!... Onde todos se miram, espelhando-se nas águas cristalinas dosespelhos viventes, tornados visíveis pela materialização no milagre dacondensação da energia.Dá olfato!... O mais perfeito e infalível guia, entre todos os guias.Dá sabor!... No refinamento da abundância de alimentos oferecidos pelanatureza a cada espécie, a cada coisa!Dá sensibilidade!... Na diversificação dos toques em suas infinitas
  38. 38. 38variedades, próprias a cada corpo a cada substância!Dá as ferramentas dos movimentos, guiando os obstáculos!... No equilíbrioe cálculos perfeitos, entre as distâncias, tempo, pesos e saltos!Dá sensualidade!... Dança da libido, compondo melodias que seexteriorizam em movimentos apaixonados na harmonia da sedução!.Envolvendo-se em musselinas... orlam a margem dos encontros, jorrandosuavidades em sensuais alongamentos, tocando os acordes... prenúncio daprocriação. E... um beijo prolongado nas substâncias surge o milagre! Um filho.Dá lucidez!... Na correnteza das aventuras livra-se das emboscadas, emperfeitos dribles que encantam!... Perdendo-se para si no encontro lúcido deum no outro, na transparência dos fatos ri para as ilusões que vãocarbonizando-se por onde ela passa.Inefável!... Na mudez de sua sabedoria vai inerindo em cada ser, naefervescência do silêncio, as sementes da liberdade e da inteligência.Do vazio deste NADA!... Tempestades de bem-aventuranças a tudovivificava! Fulgurando em cores musicadas espalhavam-se!... Colorindo asdimensões do invisível, iam dando nascença ao núcleo de cada coisa,desabrochando no seio das aparências em infinitesimais infinitas partículas,afirmando a verdade do existir.Confundia-me com aquela multidão que oscilavam cadentes empantomimas; estendendo-se em cadeias de sóis, cantavam sinfonias aoilimitado num único movimento rítmico. Cada uma, dona de natureza congênitanuma perfeita organização congênere, aprendia a socialização em seusconjuntos, respirando perfumes que exalavam do hálito da existência.Da Ribalta! O incomensurável Atemporal, alimentando a todos noimpenetrável insólito mistério do Nada, olhava a todos os tempos, num sótempo.Em cada partícula, sentia seu sorriso afagando-me! No majestoso da luzque mantém a tudo em equilíbrio; em vibrações, emitia ondas que setransmutavam em fragmentos de matéria, numa troca eterna... onde tudo fazmorrer e nascer sem continuidade.Renovavam-me o psíquico!... Estava sendo criada. Pelo infinito incolornascia..., flutuando nesta última camada do meu infindo onde só havia a inataconsciência da Inteligência Atemporal.
  39. 39. 39Inteligência!... Origem das origens! É a própria causa de tudo que vaiexistindo... que vai se extinguindo... nada se perdendo, em eternas mutações.É ela mesma, a energia que se condensa em movimentos, cores,substâncias, órgãos, roupagens, água, ar, minerais, terra, fogo, gelo...; levandocada coisa detalhes de sua especial personalidade que, no conjunto de Tudo,forma um único caráter; seja a de um galho de planta em suas ramificações, ado desenho de vales e montanhas.É tão pequenina!...É tão enorme!... Cheia de afeto, plena de sentimento, decandura, meiguice e compaixão... gentil, cata e dinâmica!... É o tecido da flor, aqualidade das folhas, o sabor das frutas, a dureza da pedra; é o ouro, a prata, odiamante. É a mais rica, mais abundante, desprendida e simples.É a brisa, é o orvalho, são as ondas do mar; é o brejo, o caranguejo e oleão; é o homem; é o cavalo; é o cão.É o desconhecido que vai se conhecendo... ficando para trás nasce amemória e com ela o tempo. Está sempre aprendendo, nada sabe - sendo esteo seu maior segredo: sempre nova fresca..., deixando nas aparências amanifestação viva de si mesma.É tão inteligente... a inteligência! Só ela escuta os corações, lê as mentes, ecega aos curiosos do Universo; os que querem chegar ao “principio da vida”sem olhar para ela, com o castigo do tempo (em cada século, apenas umdetalhezinho de alguma coisa da imensidão, “descobrem!”). Está sempre adizer: “Podem chegar ao principio das coisas passíveis de medida; sejam elasmicros ou macros. Mas não chegarão a MIM! Não passo pelas mentes, meucaminho é outro: é o das delicias; o do grande amor!”.* * *Do incognoscível, uma precipitação em cristais despejou-se!...Mergulhando-me num lago transparente de espumas brancas argênteas. Nestaquietude quedei-me... admirando as estrelinhas embevecidas em prateado quesaltitavam refletindo o dourado furta cor do charme da Beleza. Era ali amorada da Paz.Meu azul translúcido coloria em fosforescência ao diáfano daquele lago de
  40. 40. 40espumas que, ao esvoaçarem, acariciavam-me... volatilizando-se no nada.Foi quando... uma faísca saída das entranhas da suma de todas as energiasem flecha transpassou-me!... Arrancando-me da placidez em que imergir,dividia-me em milhões de outras partículas que iam se organizando num novosistema universal; transformando-me no vivo que se move, se substancia...,enchendo-me do calor do poder da emancipação.Em mutações deslizava... irreversível ao despertar de outros mundos.Errante..., viajava entre nuvens de poeira que corriam céleres ao meu encontrona alegria da inocência de brincar, pela lei universal da espontaneidade, semnos chocar.Mais e mais!...Abria-me em avelutínea florada, filigranando-me... de criançaà tenra idade.* * *O espaço, em cetim grafite, como tecido formando brocados, recurvava-se!... Em suas dobras divertia-me fazendo ondas que coleavam; correndo, iamdeixando um rastro policromo onde deslizava, brincando de escorregar.Na última recurva, num impulso final, as ondas caindo em cascatasformavam cortinasque se escancaravam... enquanto em efeito “dominó” deletavam-se em novasextensões.Vomitada por um sopro, em redemoinho subia... Rompendo o hímen do novoespaço, despertei na zero hora do mundo materializado do invisível.Um choque escandalizado extasiou-me! O mais grandioso espetáculodesfraldou-se num deslumbramento!...Forças tempestivas abalaram-me no fascínio do esplendor do OPÍPARO!Despejada! Uma silenciosa atração imantava-me com o poder do encanto;via tudo ao mesmo tempo. Eu era um diamante lapidado, não havia frente,lado, costas, acima ou abaixo.Ao fragor das ondulações, rumo ao indefinido do existir, partículas vindasdos rios do além viajavam imponentes, em ascensão, espargindo-se pelocosmo.Além dos Universos, também vinham voláteis substâncias... Incendiando-se,
  41. 41. 41tomavam formas em seus movimentos numa rapidez incalculável! Impossívelde serem seguidos. Tudo se movia tão solto! Peralta, dinâmico, dando aimpressão de estático.Um show de pontinhos, em crisólitos, gotejava do vazio, cantando na solidãoa canção do silêncio!... Esses pontos luminosos e iluminados gravitavam numasolidariedade... Modelando, florescia a vastidão... Mimoseando, modulavam-naem consciência uníssona, mas de cunho próprio em suas desigualdades demovimentos, posições, cores, formas e brilhos.Que esplendor!...Universos formavam-se, milhões!... E tudo se multiplicava,nascendo, deflagrando-se... e... Desconhecia-me!... Tudo se desconhece. Vidapara a vida!Presenciava a materialização. De qualquer coisa, nasciam as coisas.Cada partícula, formada da plenitude, entregava-se à formação do óbvionecessário; em conjuntos, em famílias, porém autônomas, independentes elivres. Levava em suas entranhas um “arquivo vivo” onde estava armazenada aHistória do seu principio, e um espaço em branco para as que viriam - causas-efeitos das experiências de suas vidas: “guia”, para o porvir de outros seres abrotarem de si.Um enxame de partículas, num pisca-pisca, arrodearam-me! Brincando deesconde-esconde com as ondas de energia foram levando-me..., num equilíbrioáureo, para mais perto daqueles pontos que se agigantavam! Fazendo graça,iam enganando-me de “ser”ou “não ser”; ora, era matéria; ora, era energia.Fascinada! Ensinavam-me a olhar o movimento daqueles corpos, espelhosde luzes explodindo em fogo, que extasiavam!... Num pluridimensional, emquadrantes abriam-se! Num ritmo trêmulo balouçavam-se num ir e vir, emmúltiplas posições que não se repetiam, jamais retornando ao passado.Fantástico!... Na harmonia da desigualdade, era uma orquestra que bailavanuma velocidade onde o principio e o fim não existiam; sem fronteiras entreespaços e astros, riquezas inomináveis de vidas pululavam!... Fervendo numimpulso apoteótico de: sempre, mais vida. Só há vida.Absorveu-me um calor beatificante!... Polinizavam-me! Eflúvios emabundância extravasavam dos pólens que, em chuva, despencavam do fogo
  42. 42. 42branco – útero nascente das flores. Sua chama era a própria fonte dafecundação onde brotava todo macho e toda fêmea. De suas alvas labaredas,caíam, em enxurradas, derrames de flores num encontro transcendental! Traziacada uma os elementos químicos que, um dia, iriam transformar-me emsangue.Transfigurava-me!...Das mais adentradas longitudes tudo estava sendo criado. O próximoinstante ainda não existe. Tudo vai existindo... na imensidão insondável...,eterno único presente.Uma força a sugar-me, foi deslizando por superfícies que se torciam...Maleável, era repuxada por redemoinhos, encaracolando-me em luminânciasque se despejavam sobre um Celso mar cromático de cristais hexagonais. Emflocos gasosos de profundezas coloridas, rumorejando em imensidõesfosfóricas, arredondava-me!... No encontro com todas as coisas, num únicobeijo, num abraço. Bocas, olhos, narizes, sementes, grãos de areia, tudo... ase encontrar... a se bolear.!...Nesta excelsitude, um sopro em rajadas auríferas lançou-me sobrecachoeiras de gases atmosféricos que, em camadas azulavam-se enquantoorbitavam, debruando-se de verde-azul sobre as águas.E um céu anil celestial destampou-se! Abrindo seus braços à filha de volta àsua casa. Flamante! Num toque acelerado, despida de tudo, por suasentranhas que se abriam, caminhava... numa tela em branco a ser pintada.Resvalando pelos fios dos raios que do oxigênio esfiapavam... esboçavatraços, chamuscando em ondas de platina por onde passava.Queimava-me a brancura das nuvens em neve! Era a fertilidade sorrindo osmeus sonhos que se aproximava..., brincando entre alvirrosadas esponjas,fazendo desenhos ao se evaporarem das águas.Seu gosto gelado refrescava-me!... Sentada a olhá-las... abstraía-meperdida no ocaso... Adentrando-me na privacidade de sua exuberância... eramninhos a me abrigarem.A calmaria envolveu-me!... Abandonei-me em seus braços: “fizessem demim o que quisessem não me pertenço. Eu sou sua, vida. Sou a Terra”.Um carinho penetrando-me... de alguém a viver esperando por mim, emdesejos de súplica chamava-me! Para o mundo dos ruídos, das vozes das
  43. 43. 43crianças.Arrebatou-me um arco enorme colorido e fui subindo... por suas costas,engatinhava... Brincando com as nuances de suas cores, escorreguei..., dandoa volta ao mundo pelo arco-íris e mais perto fui chegando deste alguém.O vento passando transportou-me acima das montanhas; sibilando emprosas, conversava com o tempo segredos que viriam! Soprando as densasbrumas, sacudiu uma exuberância verde que, balançando-se em tapetes seestendiam!Festejando em hosanas!... Mãos florestais para o alto aclamavam, dandoboas vindas à chegada de sua nova irmã terra.A Natureza ativa, de avental, vassoura e esfregona; limpando sua casa,escutava o uivo do vento e pensava: “O que trará ele em suas asas?”.“Hum!... mais uma que chega! Terei que cuidar!” Confabulando, iadelineando nos ângulos dos Vértices o croqui do meu destino.E, num rodopio, jogando-me a outros tempos, num impetuoso cascudodespediu-se de mim o vento.* * *Perdida por tantas folhas que me beijavam, numa efusão de clorofila sentiafremente a pulsação do desejo no ventre dos meus pais.E um calor tropical verdejava no vale... abrindo-se entre as folhagens,mostrando o Sol brincando de roda, limpando o dourado que ia deixando aomarcar as horas.Vestida de negro surgiu a noite!... Passeava faceira ornada de jóias!Ostentando uma gema, iluminava as águas, jorrando pratas pela escuridão,inspirando as estrelas que escreviam versos no meu coração.Desfilando... ia sumindo a noite pela madrugada, deixando entrelaçados noleito hinário das venturas corpos em delicias fecundando-se!Momento culminante!...A brisa despertou a manhã, cantando junto aos pássaros que, algazarrandosuas sementes esvoaçavam suas plumas.Despreocupada, charmosa e elegante, desabotoando seu chambre ia
  44. 44. 44desnudando-se o dia por uma estrada que se abria adormecida nas sombras.Despertando a todos, em clarão de luzes, melodiando, derramava-se... em dó,si, lá, sol, pelas matas, desertos, pelos mares, campos e montanhas.Em pergaminhos abrindo-se!... O sol, dançando primeira valsa sobre osfolhames dos pomares, em jatos, salpicando seus raios sobre as ramagens,rabiscava em verde ouro, bordando lantejoulas nas rendas dos vinhedos que,em folhedos se esgarçavam!Pincelando suas formas sobre cascalho sépia escuro, arbustosespreguiçavam-se, acordando montes perolados de areia que, aindaensombrados pelos recantos, estavam mergulhados em devaneios.Avançava!...Com visão ampla de tudo que me cercava... planície, montes, evales!...Das arvores! Suas galhas em gala, em cumprimentos campestres,debruçavam-se sobre a estrada, reverenciando ao nobre cortejo que passava:borboletas amarelinhas,pequenas e ariscas, voluteando corriam entre as pernas das maiores maissérias e marrons.Chuvas faiscantes de insetos e besourinhos, em corrupios amostravam-se!Bulindo com as sombras, beliscavam as flores que em matizes se abriam.Pássaros, cantando hinos, distribuindo liberdade, disparados em revoadabrincavam!Do perfume do alecrim que as abelhas zumbindo, em ziguezagueexalavam!...Em carícias, sapecas e sensuais, viviam suas vidas, esquecendo suasformas que refletiam... fazendo sombras sobre os areais, troncos e folhagens.E caminhava!...Vozes e vozes cochichadas magnetizadas chamavam-me!Águas... Águas, muitas águas, rompendo a terra entre as raízes me perdi!...Vagas agitadas, gorjeando trinados líricos, em nuances de violinos ao infinitopor suas ondas estendi-me!... De volta ao grave, em soprano, respondiam emcoro, cantando as águas.Suspensa em melodias, fui levada pelas canções à solidão de uma rochacurveteada pelas águas. Insinuando-me entre os minerais, abriguei-me numaconcha abandonada sobre a madrepérola de um molusco à espera da chegada
  45. 45. 45de ÁRIES enquanto, passavam revoltas as grandes marés de Março,transbordando-se em ressacas pelas praias que iriam me banhar.Jogada pela distância, aparou-me o espaço entregando-me ao tempo! E fuidepositada naquele leito onde seria germinada.Em frenesi tremiam!... Seus beijos eram meus lábios a se formarem. Emsuas salivas sensualizava-me!... Entre os dois banhava-me o suor da volúpiaque escorria...Em escala musical notas iam surgindo... tocadas pelos corpos numainterpretação triunfal dos sentimentos. Em linguagem natural dos órgãos, namais profunda inspiração da vida explodimos no acme do orgasmo!Em energias orgásticas flutuei!... Invadindo minha nova casa, alimentadapelo leite operário.E fui feita, gerada, parida da MATÉRIA. Nascendo de dentro de tudo... noóvulo... da Mãe TERRA.O tempo não existia!... Apenas, lembrança de ter brincado com meusdedinhos e as últimas palavras do vento, rugindo, espalhando poeira no caos,misturando as raças dizia: “Escute minha voz, não somos nada! Olhe ostempos que passam!”.Chorando os “ais” da Humanidade, lá se foi o vento!... Carregando todas aslembranças do meu além.
  46. 46. 46PRIMEIRA PARTECASA MATERNAMagnitude da vidaPrimeiro amor nascendo do ventre maternoPrimeira Infância
  47. 47. 47Uma casinha querida guardada para sempre no meu coração. Tenhovontade de desenhá-la, concretizá-la com lápis de cores, mas...Tinha uma porta e duas janelas, em estilo colonial, assim era sua fachada,simples, inesquecível!Lembro-me das gotas de chuva escorrendo pelos vidros da janela, ficava acontemplá-las... até desaparecerem uma a uma. Que maravilha eu sinto aorelembrá-las!... É uma sensação de vácuo ao descermos uma montanha russa.Se hoje sinto isto, imagino naquele momento vivo que ficou para sempre naminha felicidade!Elas sim... é a minha eterna modernidade, sempre contemporâneas; eescrever sobre elas que ficaram para sempre minhas!... Onde estarão?Evaporaram-se, outra vez retornaram em água ou...Brincava na calçada; pelas paredes... parece de um amarelo... ou era azul?Devem ter ficado muitas marcas de dedinhos... se pudesse ter gravado parasempre! Se todos pudéssemos ver como foram nossas mãozinhas... e, agoraolhar para elas... cheias de injustiças, traições ou de muitos carinhos!...Aquela rua... Hoje me parece um mundo de fadas: Santo Antônio daMouraria, o número não sei; bem em frente ao Quartel General onde um jovemtodo de verde, em sua guarita, até hoje me faz sonhar. E o rataplã plã plã... dosom da corneta, anunciando a alvorada!...E a casa da vizinha!... Sempre pra lá eu fugia. De sobrado, com puxada emferro trabalhada em cada janela-porta! Sei que ela era jovem e minha amiga;porém feições, corpo, nome, personalidade, essas coisas não existiam. Só ficamesmo, em nós; o gosto, o afeto pela permissão de brincarmos com suascoisas, batom e esmalte de unhas sem ser escondido.Uma vaga lembrança, mas muito presente em forma de sentimento; a domeu irmãozinho correndo por aquela rua dourada; até que, um dia quebrou obraço (parece que quebrou, não sei... esqueci de perguntar-lhe, já faleceu).Não guardei lembrança do fisionômico das pessoas; somente a partir dosquatro anos de idade as fisionomias foram tomando forma, personalizando os
  48. 48. 48personagens através de castigos, repreensões, prêmios ou conselhos,obrigando-me a jamais esquecê-los. O ego de cada um foi sendo memorizado,por usurpar como autoridade o trono no palácio da minha mente e eu, no meupalatino, humildemente sentava-me aos seus pés e ainda agradecia.Os adultos, crianças que foram deformadas, projetando em nós seus medosnos obstinam a eles nos identificar; instalando-se assim, o princípio dosproblemas sociais que são carregados como fardos, multiplicando-se emtoneladas, até à sepultura.Vivia plenamente! Submergida naquela imensidão dourada, permeando-sepor tudo..., enlevava-me com todas as coisas num único infinito. É esteindefinível, cinzelando-se em nossa alma infantil que nos faz dizer e o poetaescrever: “Que saudade tenho da aurora da minha vida. Da minha infânciaquerida que os anos não trazem mais”.Mas trazem sim. Os sabiás sempre cantarão! Vivemos mergulhados noparaíso de ouro caído do Sol. Somos o próprio, somos uma estrela.Tenho vontade de dizer, vejo-me: eu era uma princesinha de cabelosdourados, encaracolados, de olhos azuis, sempre rindo. Aquele vestidinhobranco... Que simpático!Tinha um bolsinho... até hoje me dá uma sensação!... E sorrio ao lembrar doscontos infantis: dos vales e castelos... do lobo mau do ChapeuzinhoVermelho... das migalhas de pão de João e Maria...das mentiras de Pinóquio...do feijão de ouro da árvore de João...Minha mãe, é ela a quem vejo. Não sei por que, algo escurece... A memóriaapagou-se!Ah! Sim. Um corredor; parece sempre escuro, tenho medo! Uma salinha dejantar... Lembro da mesa e da posição do armário de louças, bem no fundo àesquerda. Nesta sala, do lado direito, duas portas: a que dava de frente para ocorredor ia sair num pátio - devo ter brincado muito neste recinto descoberto,não lembro de que houvesse quintal. A outra porta dava para a cozinha ondetinha uma janelinha baixa, dando para este pátio e o sanitário em piso decimento.Três memórias estão nítidas, como se neste momento tudo estivesseacontecendo:A primeira; a de uma cobra que apareceu, e vejo minha mãe correndo aflita,

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