SUMÁRIO
Introdução
1. Noções de Geografia do Antigo Oriente Médio
1.1. O Crescente Fértil
1.2. A Mesopotâmia
1.3. A Palest...
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3.4. A Ruptura do Consenso
3.5. As Fontes: Seu Peso, Seu Uso
3.6. Dois Exemplos de Fontes Primárias: as Estelas de Tel D...
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7.4. Alexandria e os Judeus
7.5. O Governo dos Ptolomeus
7.6. A Administração Ptolomaica da Palestina
8. Os Selêucidas: ...
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11.2. O Sistema Sócio-Econômico da Palestina no Século I d.C.
11.2.1. As Estruturas Econômicas
11.2.2. As Relações Socia...
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A História de Israel
Períodos Arqueológicos da Palestina
Idade Período Arqueológico Anos a.C.
Idade da Pedra
Paleolítico...
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Introdução
Até meados da década de 70 do século XX, havia um razoável consenso na História de Israel. Entre
outras coisa...
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graças à confiabilidade dos textos bíblicos que detalhavam os acontecimentos desta
época.
O melhor livro para detalhada ...
8
E há pesquisadores de renome na área, como Rolf Rendtorff, exegeta alemão, professor
em Heidelberg, que já em 1993 afirm...
9
As línguas semíticas constituem um ramo da grande família das línguas afro-asiáticas,
anteriormente chamada camito-semít...
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Algumas características das línguas semíticas:
A estrutura gramatical:
grande número de guturais muito especiais, morme...
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semelhanças apenas em palavras onomatopaicas
poucos empréstimos de um grupo lingüístico para o outro.
A escrita semític...
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e populações de língua semítica. Parece que estavam na região na segunda metade do IV milênio
a.C.
As cidades mais impo...
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TEXTOS SUMÉRIOS: Cosmogonias do 30
milênio até começo do 20 milênio a.C.
TEXTOS ACÁDICOS: Cosmogonias da metade
do 20 m...
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2. Enki e Ninhursag (ou Mito do Dilmun)
3. A disputa entre o Pássaro e o Peixe
4. Enki e Ninmah
5. História Suméria do ...
15
enxada) e ocorre a difusão da civilização. Este motivo cósmico predomina entre os pastores de
Nippur, cujo deus princip...
16
Os acádios - seminômades de origem semita - criaram o florescente império de Akkad, que durou
de 2370 a 2230 a.C. aprox...
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(seguem-se mais 12 linhas, narrando as vitórias do rei).
Calcula-se que a população da Mesopotâmia, na época, estaria e...
18
O comércio era sustentado pelo governo e pelos templos. Como sempre, as matérias primas, raras
na Mesopotâmia, tinham d...
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Hoje, porém, não é mais possível sustentar esta posição, pois o que se descobriu nos últimos anos é
que os amoritas são...
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No final deste período a cidade que emergiu com maior poder foi Babilônia. Sob a III dinastia de
Ur fora governada por ...
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ele veja o seu direito, o seu coração se dilate! (...)
Que nos dias futuros, para sempre, um rei que surgir no país obs...
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[3]. Cf. Freedman, D. N. (ed.), The Anchor Bible Dictionary on CD-ROM, New York, Doubleday & Logos Research
Systems, 19...
23
Entre Mênfis e Heliópolis havia um grande cemitério, onde foram construídas as famosas
pirâmides e a esfinge. Ali, depo...
24
A história egípcia é tradicionalmente dividida em dinastias. Isto se deve a um sacerdote egípcio da
época ptolomaica, c...
25
 Nas pirâmides da V e VI dinastias foram encontrados os "Textos das Pirâmides", os escritos
religiosos mais antigos do...
26
Como na Mesopotâmia, as cosmogonias egípcias têm grande importância nas orações e rituais,
mas, ao contrário da Mesopot...
27
chamado de "Duas Terras" ou de "o Alto e o Baixo Egito", o espaço é "céu e terra", a totalidade do
que é pensado é "o e...
28
B. O deus criador
Vários deuses exercem o papel de criador no Egito: Ptah, Ra, Amon, Aton e Khnum, mas cada
cosmogonia ...
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qual brotou toda a vida. O hieróglifo para esta idéia mostra a cheia primordial com o sol nascendo
sobre ela, estilizad...
30
[6]. O que se segue é, em boa parte, um resumo de CLIFFORD, R. J., Creation Accounts in the Ancient
Near East and in th...
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Aton, gera, ou pela masturbação ou pela saliva, no cuspe, o primeiro casal divino, Shu
(atmosfera) e Tefnut (umidade?),...
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A Cosmogonia de Mênfis
Mênfis, a capital dos Reinos Antigo e Médio, era o mais importante centro urbano do Egito. Ptah,...
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Assim todos os deuses foram postos no mundo, e a Enéade foi completada. E toda a palavra de deus se manifestou
segundo ...
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transcendência.
[8]. Cf. CLIFFORD, R. J., o. c., pp. 107-110.
[9]. Pyramid Texts 246-247, sections 1652-1653 e 1655-165...
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Ta-tenen, que se formou a si próprio, enquanto Ptah. Os artelhos de seu corpo são os Oito. Aparecido enquanto Ra, na
sa...
36
Importante mesmo era a existência do faraó após a morte. Ele voa ao céu sob a forma de uma ave
(falcão, garça real, gan...
37
quarto ano de seu reinado ele combateu os Ahlamu-Arameus no Eufrates e lhes queimou seis
acampamentos no Djebel Bishri....
38
Uma necrópole supõe a existência de uma cidade. Por isso, Albanese e Dussaud prestaram atenção
à colina vizinha, chamad...
39
armas. O testemunho acerca do culto dos mortos na civilização cananéia, encontrado em Ugarit, é
de grande importância p...
40
eram mais ou menos as mesmas"[16]. As dimensões padrão são 26,5 x 19,5 cm e 26 x 22 cm. A
divisão entre as colunas é fe...
41
ILU (=EL) deus supremo, criador dos deuses e do homem
BA'LU (=BAAL)
chefe dos deuses, deus da chuva e da fertilidade,
s...
42
1.5. A Palestina
Palestina é um nome derivado de "filisteus", em hebraico pelishtim, um povo que habitava a faixa
coste...
43
km de largura. Seu limite ao norte é o rio Zered, ao sul o golfo de Aqaba. Sua capital, Sela. Outras
cidades: Teman, um...
A história do antigo israel (das origens até o ii séc. d.c.)
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Até meados da década de 70 do século XX, havia um razoável consenso na História de Israel. Entre outras coisas, o consenso dizia que a Bíblia Hebraica era guia confiável para a reconstrução da história do antigo Israel. Dos Patriarcas a Esdras, tudo era histórico. Se algum dado arqueológico não combinava com o texto bíblico, arranjava-se uma interpretação diferente que o acomodasse ao testemunho dos textos, como no caso da destruição das (inexistentes) muralhas de Jericó pelo grupo de Josué.

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A história do antigo israel (das origens até o ii séc. d.c.)

  1. 1. SUMÁRIO Introdução 1. Noções de Geografia do Antigo Oriente Médio 1.1. O Crescente Fértil 1.2. A Mesopotâmia 1.3. A Palestina e o Egito de 3000 a 1700 a.C. 1.4. A Síria e a Fenícia 1.5. A Palestina 1.5.1. A Transjordânia 1.5.2. O Vale do Jordão 1.5.3. A Região Central da Palestina 1.5.4. A Costa Mediterrânea 2. As Origens de Israel 2.1. A Teoria da Conquista 2.2. A Teoria da Instalação Pacífica 2.3. A Teoria da Revolta 2.4. A Teoria da Evolução Pacífica e Gradual 2.4.1. Retirada Pacífica 2.4.2. Nomadismo Interno 2.4.3. Transição ou Transformação Pacífica 2.4.4. Amálgama Pacífico 3. Os Governos de Saul, Davi e Salomão 3.1. Ascensão e Queda de Saul 3.2. Davi e a Criação do Estado 3.3. Salomão e a Consolidação do Estado A HISTÓRIA DO ANTIGO ISRAEL
  2. 2. 2 3.4. A Ruptura do Consenso 3.5. As Fontes: Seu Peso, Seu Uso 3.6. Dois Exemplos de Fontes Primárias: as Estelas de Tel Dan e de Merneptah 3.7. A Questão Teórica: Como Nasce Um Estado Antigo? 3.8. As Soluções de Lemche e de Finkelstein & Silberman 4. O Reino de Israel 4.1. A Rebelião Explode e Divide Israel 4.2. Israel de Jeroboão I a Jeroboão II 4.3. A Assíria Vem aí: para Israel é o Fim 5. O Reino de Judá 5.1. Os Reis de Judá 5.2. A Reforma de Ezequias e a Invasão de Senaquerib 5.3. A Reforma de Josias e o Deuteronômio 5.4. Os Últimos Dias de Judá 5.5. Por que Judá Caiu? 6. A Época Persa e as Conquistas de Alexandre 6.1. A Situação da Grécia e a Política Macedônia 6.2. As Conquistas de Alexandre Magno (356-323 a.C.) 6.3. Quem é Alexandre Magno? 6.4. A Anexação da Judéia por Alexandre 6.5. A Situação da Judéia no Momento da Anexação 7. Os Ptolomeus Governam a Palestina 7.1. Os Diádocos Lutam pela Herança de Alexandre 7.2. A Situação da Palestina de 323 a 301 a.C. 7.3. As Guerras Sírias entre Ptolomeus e Selêucidas
  3. 3. 3 7.4. Alexandria e os Judeus 7.5. O Governo dos Ptolomeus 7.6. A Administração Ptolomaica da Palestina 8. Os Selêucidas: a Helenização da Palestina 8.1. O Governo de Antíoco III, o Grande 8.2. Antíoco IV e a Proibição do Judaísmo 8.3. As Causas da Helenização 9. Os Macabeus I: a Resistência 9.1. Matatias e o Começo da Revolta 9.2. A Luta de Judas Macabeu (166-160 A.C.) 9.3. Jônatas, o Primeiro Sumo Sacerdote Macabeu (160-143 A.C.) 10. Os Macabeus II: a Independência 10.1. Simão Consegue a Independência da Judéia 10.2. João Hircano I e as Divisões Internas dos Judeus 10.3. Aristóbulo I e a Reaproximação com o Helenismo 10.4. Alexandre Janeu, o Primeiro Rei Macabeu 10.5. Salomé Alexandra e o Poder dos Fariseus 10.6. Aristóbulo II e a Intervenção de Pompeu 11. O Domínio Romano 11.1. A “Pax Romana” Chega a Jerusalém 11.1.1. Da Intervenção de Pompeu a Herodes Magno 11.1.2. Os Imperadores Romanos de 30 A.C. a 138 d.C. 11.1.3. Os Herdeiros de Herodes Magno 11.1.4. Os Prefeitos e Procuradores Romanos da Judéia 11.1.5. De Agripa II ao Fim da Judéia
  4. 4. 4 11.2. O Sistema Sócio-Econômico da Palestina no Século I d.C. 11.2.1. As Estruturas Econômicas 11.2.2. As Relações Sociais 11.3. A Organização Político-Religiosa da Palestina 11.3.1. Origem dos Grupos Político-Religiosos Judaicos 11.3.2. Os Saduceus: Partido da Situação 11.3.3. Os Fariseus: Hipócritas, mas nem Tanto 11.3.4. Os Essênios na Guerra de Vingança 11.3.4.1. A Descoberta 11.3.4.2. Os Manuscritos 11.3.4.3. Os Essênios e Qumran 11.3.4.4. A Organização da Comunidade 11.3.4.5. A Teologia dos Essênios 11.3.5. Os Zelotas na Guerra de Guerrilha 12. Bibliografia Copyright © 1999-2005 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados. http://www.airtonjo.com
  5. 5. 5 A História de Israel Períodos Arqueológicos da Palestina Idade Período Arqueológico Anos a.C. Idade da Pedra Paleolítico 2.000.000-16000 Mesolítico 16000-8300 Neolítico 8300-4000 Calcolítico 4000-3150 Idade do Bronze Bronze Antigo 3150-2200 Bronze Médio 2200-1550 Bronze Recente 1550-1200 Idade do Ferro Ferro Antigo 1200-1000 Ferro Recente 1000-586 Cartografia? Cf. Cartographic Reference Resources! Copyright © 1999-2005 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados.
  6. 6. 6 Introdução Até meados da década de 70 do século XX, havia um razoável consenso na História de Israel. Entre outras coisas, o consenso dizia que a Bíblia Hebraica era guia confiável para a reconstrução da história do antigo Israel. Dos Patriarcas a Esdras, tudo era histórico. Se algum dado arqueológico não combinava com o texto bíblico, arranjava-se uma interpretação diferente que o acomodasse ao testemunho dos textos, como no caso da destruição das (inexistentes) muralhas de Jericó pelo grupo de Josué. Exemplos? Os patriarcas eram personagens históricos, o que podia ser comprovado pelos textos mesopotâmicos de Nuzi, do século XIV a.C., em seus muitos paralelos, de estruturas sócio- econômicas a tradições legais, com Gn 12-35. E a migração dos amoritas, que ocuparam a Mesopotâmia e a Palestina no final do terceiro milênio a.C., criava as condições ideais para a entrada dos patriarcas na região da Palestina e explicava seus nomes, sua língua e sua religião. José era personagem historicamente possível, pois havia grande quantidade de evidências egípcias que testemunhava os costumes contados em Gn 37-50. Semitas poderiam ter chegado a altos postos de governo no Egito, incluindo o de grão-vizir, especialmente durante o governo dos invasores asiáticos hicsos. A escravidão dos hebreus no Egito e o êxodo não podiam ser questionados, pois textos egípcios testemunham que Ramsés II utilizou hapirus (= hebreus) na construção de fortalezas no delta do Nilo em regime de trabalho forçado. A Estela de Merneptah, faraó sucessor de Ramsés II, comprova a existência de israelitas na terra de Canaã na segunda metade do século XIII a.C., o que nos permitia fixar a data do êxodo aí por volta de 1250 a.C. A conquista da Palestina pelas 12 tribos israelitas sob o comando de Josué, como narrada no livro que leva o seu nome, contava com testemunhos arqueológicos respeitáveis, como a destruição de importantes cidades cananéias na segunda metade do século XIII a.C., embora muitos autores preferissem explicar a entrada na terra de Canaã de outro modo, como pacífica e progressiva infiltração de seminômades pastores a partir da Transjordânia. A construção e a consolidação do poderoso império davídico-salomônico eram consideradas como pontos fixos e imutáveis na historiografia israelita, constituindo marco seguro para qualquer manual de História de Israel ou de Introdução à Bíblia quanto às datas dos acontecimentos e às realizações da sociedade israelita. Os reinos separados de Israel e Judá, após a morte de Salomão, eram bem testemunhados pelos textos assírios e babilônicos, e até pela Estela de Mesha, rei do vizinho país de Moab, sendo tudo, por sua vez, muito bem detalhado nos livros dos Reis, parte da confiável Obra Histórica Deuteronomista. O exílio babilônico e a volta e reconstrução de Jerusalém durante a época persa, marcando o nascimento do judaísmo baseado no Templo e na Lei que passa a ser lida sistematicamente nas sinagogas, constituíam matéria real e sem maiores problemas,
  7. 7. 7 graças à confiabilidade dos textos bíblicos que detalhavam os acontecimentos desta época. O melhor livro para detalhada exposição e defesa deste consenso é o de John Bright, História de Israel, São Paulo, Paulus, 1978, traduzido da segunda edição inglesa de 1972. Bright pertence à escola americana de historiografia de W. F. Albright e esta sua „História de Israel‟ foi o manual mais utilizado por nós nos anos 70 e 80 do século passado. John Bright e sua História de Israel John Bright lançou uma 3a edição de sua História de Israel em 1981. Poucas mudanças foram feitas. O autor atualizou o livro quanto a algumas descobertas arqueológicas e mostrou-se mais prudente nas afirmações sobre a historicidade de certos acontecimentos e personagens bíblicos. Mas manteve, basicamente, as posições da 2a edição. Diz o autor, no Prefácio da 3a edição, que, em muitos pontos onde anteriormente havia certo consenso, hoje há um verdadeiro caos de opiniões conflitantes. E cita, como exemplo, a questão das origens de Israel e a data e a historicidade dos patriarcas. Cf. BRIGHT, J., A History of Israel, Philadelphia, Westminster Press, 1981. Uma 4a edição do livro foi lançada, após a sua morte em 1995, com uma Introdução e um Apêndice de William P. Brown, no ano 2000, pela Westminster John Knox Press. A tradução brasileira desta 4a edição foi publicada pela Paulus no final de 2003, como a 7a edição, revista e ampliada a partir da 4a edição original. Bright foi, até a sua morte, Professor de Hebraico e de Interpretação do Antigo Testamento no Union Theological Seminary, Richmond, Virginia, USA. Uma resenha da 'História de Israel' de Bright, focalizando especialmente a 4a edição, feita por Ludovico Garmus, pode ser lida na revista Estudos Bíblicos n. 69, Petrópolis, Vozes, 2001, pp. 90-93. É preciso lembrar, porém, que a historiografia alemã, desde W. de Wette, em 1806-7, passando por Julius Wellhausen, em 1894, até Martin Noth, em 1950, não participava integralmente deste consenso, negando, por exemplo, a historicidade dos patriarcas. Mas, a „História de Israel‟ está mudando. O consenso foi rompido. A paráfrase racionalista do texto bíblico que constituía a base dos manuais de „História de Israel‟ não é mais aceita. A seqüência patriarcas, José do Egito, escravidão, êxodo, conquista da terra, confederação tribal, império davídico-salomônico, divisão entre norte e sul, exílio e volta para a terra está despedaçada. O uso dos textos bíblicos como fonte para a „História de Israel‟ é questionado por muitos. A arqueologia ampliou suas perspectivas e falar de „arqueologia bíblica‟ hoje é proibido: existe uma „arqueologia da Palestina‟, ou uma „arqueologia da Síria/Palestina‟ ou mesmo uma „arqueologia do Levante‟. O uso de métodos literários sofisticados para explicar os textos bíblicos, afasta-nos cada vez mais do gênero histórico, e as „estórias bíblicas‟ são abordadas com outros olhares. A „tradição‟ herdada dos antepassados e transmitida oralmente até à época da escrita dos textos freqüentemente não consegue provar sua existência. A construção de uma „História de Israel‟ feita somente a partir da arqueologia e dos testemunhos escritos extrabíblicos é uma proposta cada vez mais tentadora. Uma „História de Israel‟, que dispense o pressuposto teológico de Israel como „povo escolhido‟ ou „povo de Deus‟ que sempre a sustentou. Uma „História de Israel e dos Povos Vizinhos‟, melhor, uma „História da Síria/Palestina‟ ou uma „História do Levante‟ parece ser o programa para os próximos anos.
  8. 8. 8 E há pesquisadores de renome na área, como Rolf Rendtorff, exegeta alemão, professor em Heidelberg, que já em 1993 afirmava em artigo na revista Biblical Interpretation 1, pp. 34-53, que os problemas da interpretação do Pentateuco estão intimamente ligados aos problemas mais amplos da reconstrução da história de Israel e da história de sua religião. A História de Israel que você acompanhará nas páginas seguintes procura levar em consideração tudo o que foi dito até aqui, que, como o leitor verá, é parte de um artigo publicado nesta mesma página. Mas, como era de se esperar, ainda não existe consenso sobre muitos dos temas tratados. Por isso, o texto seguirá um esquema moderado: mostrará perspectivas já assentadas e também informará o leitor sobre os novos questionamentos. Além disso, e exatamente por isso, é altamente recomendável que o interessado leia, além do texto da História de Israel, outros textos que complementarão o que está sendo tratado aqui. Todos estão neste mesmo site. E oferecem bibliografia atualizada, especialmente em inglês, sobre os novos paradigmas. 1. Noções de Geografia do Antigo Oriente Médio 1.1. O Crescente Fértil Se partirmos do Golfo Pérsico e traçarmos uma meia-lua, passando pelas nascentes dos rios Tigre e Eufrates, colocando a outra ponta na foz do Nilo, no Egito, teremos uma região bastante fértil, onde se desenrolaram os acontecimentos narrados na Bíblia. É a chamada "meia-lua fértil" ou "Crescente Fértil", dentro do qual está também a Palestina. Esta faixa de terra é regada por importantes rios, que condicionavam a vida do oriental antigo. Foram os rios que determinaram o estabelecimento da agricultura, da sedentarização e das rotas comerciais por onde passavam as caravanas que iam desde a Mesopotâmia até o Egito ou a Arábia. A região é habitada pela raça branca, especialmente semitas e hamitas. No seu conjunto, a raça branca é constituída pelos: semitas (acádios, amoritas, hebreus, árabes, cananeus, fenícios etc) hamitas (que habitavam o Egito, a Abissínia e o Magrebe - Marrocos, Argélia e Tunísia atuais) indo-europeus (eslavos, gregos, itálicos, celtas, iranianos etc) fineses.
  9. 9. 9 As línguas semíticas constituem um ramo da grande família das línguas afro-asiáticas, anteriormente chamada camito-semítica. A família afro-asiática compreende seis ramos: semítico, egípcio, berbere, cuxita, homótico e chádico. A família das línguas semíticas é bem antiga, documentada desde a metade do terceiro milênio a.C. com o acádico e o eblaíta, até os dias atuais com o árabe, o amárico e o hebraico. Nos três quadros a seguir pode-se ver um panorama simplificado das principais línguas semíticas1[1].
  10. 10. 10 Algumas características das línguas semíticas: A estrutura gramatical: grande número de guturais muito especiais, mormente na vocalização raízes ternárias verbos com apenas dois tempos dois gêneros casos oblíquos, pronomes possessivos e objeto pronominal do verbo são anexados como sufixos ausência de nomes e verbos compostos pequeno número de partículas e predominância da coordenação sobre a subordinação. O vocabulário semítico: quase nenhum contato com o indo-europeu
  11. 11. 11 semelhanças apenas em palavras onomatopaicas poucos empréstimos de um grupo lingüístico para o outro. A escrita semítica: consonantal da direita para a esquerda exceções: escritas da esquerda para a direita são o sabeu, o etíope e o cuneiforme. 2[1]. Cf. Freedman, D. N. (ed.), The Anchor Bible Dictionary, New York, Doubleday & Logos Research Systems, 1992, 1997, verbete Languages. 1.2. A Mesopotâmia A planície situada nos vales dos rios Tigre e Eufrates é chamada comumente de Mesopotâmia, nome que vem do grego e significa (terra) entre rios, notadamente o Tigre e o Eufrates. A Bíblia chama a esta terra de paddan aram ou aram naharayim (Síria dos dois rios). A Mesopotâmia foi berço de civilizações antiqüíssimas e importantes, como os sumérios, os acádios, os assírios e os babilônios. Os sumérios construíram a sua civilização na Baixa Mesopotâmia entre os anos de 2800 e 2370 a.C., mais ou menos. As escavações feitas em Uruk revelaram o uso da escrita cuneiforme (sinais em forma de cunha) desde o início do III milênio. Foram os sumérios os inventores da escrita. O chefe da cidade suméria tem o título de En (= senhor), de conotação religiosa. Ele dirige o culto, nas cenas gravadas nos cilindros. As únicas construções oficiais são os templos: as cidades eram dirigidas por senhores eclesiásticos, auxiliados por "anciãos", que formavam uma assembléia. O culto era celebrado para Inanna (a futura Ishtar), deusa da fecundidade e do amor, e para An, deus do céu. O templo era um centro econômico: possuía terras, onde cultivavam-se a cevada e o trigo. Também a horticultura, a vinha e a palmeira eram conhecidas. Usavam arados. Criavam principalmente carneiros e cabras e, mais raros, bois. Aparece o asno e o porco, assim como um carro de 4 rodas e o barco. Há, no trabalho dos templos, marceneiros, ferreiros, ourives e ceramistas. O metal mais citado é o cobre. Também já conheciam a prata e o ouro. Havia mercadores e um comércio privado. É impossível saber quando chegaram os sumérios à Baixa Mesopotâmia. Mas, pelo menos pode-se perceber que eles se misturaram às antigas culturas populares locais, talvez subários
  12. 12. 12 e populações de língua semítica. Parece que estavam na região na segunda metade do IV milênio a.C. As cidades mais importantes eram: Adab, Zabalam, Umma, Bad-Tibira, Lagash, Akshak, Kish, Nippur, Shurupak, Uruk e Ur. Permaneceram sempre isoladas, na forma de cidades-estado. Cada uma possuía ao seu redor um cinturão de aldeias e eram separadas por pântanos e desertos, característicos da região. Avançando um pouco mais no tempo e pesquisando outros lugares além de Uruk, os especialistas descobriram que as cidades organizavam-se ao redor dos templos e palácios reais. No palácio vivia o rei, que era apenas um administrador do Estado, pertencente, na verdade, ao deus. Lugal (rei) era o seu título ou Ensi (chefe das cidades, governador, vice-rei), que indicava um poder menor do que o primeiro. O rei era sacerdote (mantinha os santuários), era juiz supremo, chefe militar e administrador dos canais de irrigação. Sua residência era mais uma fortaleza do que um palácio. Suas tropas chegavam a uma média de 600 a 700 homens, reforçados, na guerra, por camponeses. Além de uma infantaria armada de lanças, abrigada por grandes escudos e capacetes, havia carros de guerra com 4 rodas compactas, puxados por quadrigas de burros. Não se sabe quando se formou a monarquia suméria; mas era uma monarquia militar, que entrou em luta com os chefes religiosos pelo controle interno das cidades e com as outras cidades em massacres periódicos. Contudo não permaneceram unificadas por muito tempo. Foi a função guerreira que fez surgir a realeza. Esta fase de guerras constantes, a partir de 2800 a.C., mais ou menos, início da idade clássica sumeriana, levou à construção de grandes muralhas nas cidades. Uruk tinha muralhas de 9,5 km de extensão, com mais de 900 torres semicirculares, cobrindo uma superfície de 5 km2 . Lagash e Umma foram duas das cidades que mais dominaram suas vizinhas. Já a cidade de Nippur parecia ser uma espécie de território neutro, centro de uma anfictionia ou confederação. Os templos podiam ter várias formas, mas a disposição interna era a mesma em qualquer lugar. As estátuas não são muito bonitas, são toscas demais. Revelam-nos o vestuário da época: o mais usado era o Kaunakés, espécie de saia com longas franjas estilizadas, em forma de lingüetas. Na literatura produziam-se textos sapienciais, hínicos, épicos e mitológicos. A religião tem predominância naturista: os cultos da fertilidade estavam em primeiro plano. No ritual exerciam funções importantes a grã-sacerdotisa e o rei, simbolizando o casamento sagrado entre um deus (Dumuzi?) e uma deusa (Inanna). Em meados do III milênio, porém, deu-se uma transposição da temática naturista para a cósmica (os deuses passam a figurar elementos do cosmos), embora a primeira permanecesse. Uma classificação possível para as cosmogonias mesopotâmicas pode ser a seguinte, baseada na cronologia e no gênero:
  13. 13. 13 TEXTOS SUMÉRIOS: Cosmogonias do 30 milênio até começo do 20 milênio a.C. TEXTOS ACÁDICOS: Cosmogonias da metade do 20 milênio até o 10 milênio a.C. Listas de deuses: 3 textos Cosmogonias menores: 1. SLT 122-124 1. Encantamentos: 3 textos 2. TCL XV 10 = lista De Genouillac 2. Textos Namburbi 3. Lista do deus An = Anum 3. Fundações ou refundações de Templos: 4 textos 4. Disputas entre criaturas:  Disputa entre dois insetos  Disputa entre o Tamarindo e a Palmeira  Disputa entre o Boi e o Cavalo 5. Prólogos ao Grande Tratado Astrológico: 2 textos 6. VAT 17019 Textos narrativos de Nippur - motivo cósmico: 6 textos Cosmogonias antológicas 1. Gilgamesh, Enkidu e o Inferno Atrahasis 2. Casamento de An e Ki em meio à tempestade Enuma elish 3. A disputa entre a Árvore e o Junco 4. NBC 11108 5. Hino ao Templo de Eridu 6. Louvor à Enxada Textos narrativos de Eridu - motivo ctônico: 5 textos A Teogonia Dunnu 1. Enki e a Ordem do Mundo
  14. 14. 14 2. Enki e Ninhursag (ou Mito do Dilmun) 3. A disputa entre o Pássaro e o Peixe 4. Enki e Ninmah 5. História Suméria do Dilúvio Um único texto: KAR 4 * Abreviações: SLT: CHIERA, E., Sumerian Lexical Texts from the Temple School of Nippur, Chicago, Chicago University Press, 1929. TCL: Textes cunéiformes - Musée du Louvre, Paris. De Genouillac: DE Genouillac, H., Grande Liste de noms divins sumériens, RA 20 (1923), pp. 86-106. DE Genouillac, H., Liste alphabétique des dieux sumériens, RA 25 (1928), pp. 137-139. NBC: Nies Babylonian Collection, Yale University. VAT: Vorderasiatische Abteilung Tontafeln - Coleção de tabuinhas cuneiformes do Museu de Berlim. KAR: EBELING, E. (ed.), Keilschrifttexte aus Assur religiösen Inhalts, Wissenschaftliche Veröffentlichnungen der deutschen Orientgesellschaft XXVIII, XXXIV, Leipzig, 1919,1923. O sumeriologista Jan van Dijk, em um artigo de 1964, foi quem classificou os textos sumérios segundo os sistemas ou motivos "cósmicos" e "ctônicos"[2]. O motivo cósmico é baseado na percepção de que céu e terra não são entidades separadas, mas interdependentes. A interdependência era explicada por uma cosmogonia: o universo aparece através de um casamento cósmico no qual o Céu (An) fertiliza a Terra (Ki) e de sua união nascem deuses, seres humanos e vegetação. O cenário do motivo cósmico é o seguinte: há um período anterior à criação (ou mundo embrionário), há um dia de criação que inclui a criação de seres humanos através da emersio (= emergência do homem, ao modo das plantas, da terra aberta pela
  15. 15. 15 enxada) e ocorre a difusão da civilização. Este motivo cósmico predomina entre os pastores de Nippur, cujo deus principal é Enlil, onde a chuva é fundamental para a sua sobrevivência. Enlil é importante neste tipo de cosmogonia por ser o primogênito, e, portanto, por ter separado o céu da terra. O motivo ctônico predomina em Eridu, cujo deus é Enki (associado com as águas), entre agricultores que dependem dos canais de irrigação para sobreviver. Segundo este motivo o deus Ea dá vida à terra através da sua inundação ou inseminação com as águas subterrâneas que flui pelos rios e canais. Os seres humanos são criados por formatio: Ea forma o homem da argila oferecida pela terra. Mapa Cronológico do Antigo Oriente Médio I Período Arqueológico Mesolítico Neolítico Calcolítico Bronze Antigo Mesopotâmia do Norte Hassuna Ubaid Gawra Nínive 5 Samarra Uruk Acádios Halaf III dinastia de Ur Mesopotâmia do Sul Ubaid Uruk Dinástico inicial Acádios III dinastia de Ur Síria/Palestina Natuf Halaf Colônias de Uruk Influências do Egito Ubaid Ebla Invasões amoritas Irã/Golfo Pérsico Influências da Mesopotâmia Influências de Uruk Proto-Elamita Cerâmica de Ubaid Elamita antigo Dilmun Anatólia Chatal Huyuk Túmulos de Alaca Huyuk Desenvolvimento cultural e técnico Caça e coleta Pequenos grupos Agricultura Cão doméstico Adobes Tecido Arado Irrigação Botes Tijolos cozidos Templos Cerâmica Louça Cobre fundido Selos Povoados Asno Trenós Roda Arquitetura monumental Cidades com muralhas Vasos de metal, ouro, prata, chumbo Escrita Selos cilíndricos Cidades Camelos (no Irã) Palácios Machados e adagas de metal Bronze estanhado Cavalos Zigurates Escrita cuneiforme evoluída Cidades-estados Impérios
  16. 16. 16 Os acádios - seminômades de origem semita - criaram o florescente império de Akkad, que durou de 2370 a 2230 a.C. aproximadamente. Os acádios já estavam há muito tempo na região da Alta Mesopotâmia. Estes grupos seminômades semitas foram progressivamente ocupando a região sem que se possa falar de uma verdadeira invasão. O império foi fundado pelo famoso Sargão de Akkad. Sua história é lendária e paradigmática: filho de pai desconhecido, sua mãe, uma sacerdotisa de pequena aldeia do médio Eufrates, colocou-o em um cesto, no rio. Recolhido por um horticultor, acabou copeiro do rei de Kish. Fundou Agade - até hoje não foi encontrado o seu sítio, mas se supõe que esteja nas vizinhanças de Kish - e em 2370 a.C. atacou e venceu o mais forte rei sumério, Lugal-zagesi, de Umma. Após a Suméria, dominou o Elam, Mari, a Síria do norte e chegou até o Tauro. A lenda de Sargão foi recuperada em duas cópias neo-assírias incompletas e em um fragmento neo- babilônico: "Sargão, o poderoso rei, rei de Akkad, eu sou. Minha mãe era uma suma sacerdotisa , meu pai eu não conheci. Os irmãos de meu pai amavam as colinas. Minha cidade é Azupiranu, que está situada nas margens do Eufrates. Minha mãe, a suma sacerdotisa, concebeu-me, em segredo ela me deu à luz. Ela colocou-me em um cesto de juncos, com betume ela selou a tampa. Ela colocou-me no rio que não me submergiu. O rio levou-me a Akki, o tirador de água. Akki, o tirador de água, ergueu-me ao mergulhar seu balde. Akki, o tirador de água, tomou-me como seu filho e criou-me. Akki, o tirador de água, colocou-me como seu jardineiro. Enquanto eu era um jardineiro, Ishtar concedeu-me seu amor. E durante quatro e (...) anos eu exerci a realeza. O povo cabeça preta eu dirigi, eu governei; Altas montanhas com machados de bronze eu conquistei. As cordilheiras superiores eu escalei. As cordilheiras inferiores eu atravessei. A terra do mar três vezes eu girei. Dilmun minha mão capturou"...
  17. 17. 17 (seguem-se mais 12 linhas, narrando as vitórias do rei). Calcula-se que a população da Mesopotâmia, na época, estaria em torno de 750 mil habitantes, enquanto as cidades deveriam ter de 10 a 15 mil habitantes, não mais. Akkad diminuiu o poder econômico dos templos, transferindo grande parte das propriedades rurais para a família real e para os funcionários da corte. A organização da produção permaneceu a mesma. As cidades continuavam a crescer e o comércio avançou bastante, chegando à Mesopotâmia produtos da Arábia Meridional e da Índia. O importante é observarmos que, pela primeira vez, as cidades mesopotâmicas submetiam-se a um governo centralizado e organizado: fundara-se um Estado e às várias províncias era aplicada uma política comum. O exército evoluiu, para sustentar esta política. Arqueiros abriam brechas nas falanges e soldados armados de achas e lanças dizimavam-nas. Os efetivos aumentavam: Sargão teria usado na campanha síria 5.400 homens; Rimush, seu filho e sucessor, teria matado 17 mil elamitas e aprisionado 4 mil. O título real tornou-se mais abrangente: de rei de uma cidade, Sargão e sucessores passaram a "rei das quatro regiões". A religião e a arte sumérias foram assimiladas. Numerosas divindades semíticas encontraram suas equivalentes sumérias, e nas artes Akkad não passou de simples aprendiz da Suméria. Os gútios (2230-2116 a.C.) eram bárbaros vindos das montanhas do Zagros. Então Akkad passou por um período de anarquia e destruição. Reinaram os gútios cerca de 120 anos, com 21 reis. Com o tempo, porém, vários deles deixaram-se assimilar pela cultura do país ocupado. Não conseguiram impor seu domínio sobre o império que se desmantelou. Até que Utu-Hegal (2116-2110 a.C.), rei de Uruk, decidiu eliminá-los. O que foi feito com facilidade. Vamos falar agora da III dinastia de Ur (2111-2003 a.C.). Foi Ur-Nammu (2111- 2094 a.C.), governador de Ur, quem acabou recebendo o governo do país, unificando-o todo e adquirindo o título de "rei da Suméria e de Akkad". Seu império era tão extenso quanto o de Akkad. Restaurou as cidades destruídas, suas muralhas e templos, abriu canais, desenvolvendo a agricultura e o comércio. Promulgou um código de leis, o mais antigo que conhecemos. O Estado dominou a atividade econômica de maneira bastante abrangente. Os templos eram sustentados por ele, e os reis faziam às divindades oferendas mensais. Em Ur, por exemplo, consistiam tais oferendas de animais para o sacrifício, cereais, farinha, cerveja, frutos e combustíveis. O templo não dominava mais, como antigamente, o setor econômico. Mas uma estreita ligação subsistia entre o Palácio e o Templo. As oficinas têxteis, ao redor das cidades, usavam mão de obra feminina, contando com considerável número de tecelões, controlados por uma administração rigidamente hierarquizada e organizada.
  18. 18. 18 O comércio era sustentado pelo governo e pelos templos. Como sempre, as matérias primas, raras na Mesopotâmia, tinham de ser importadas. As avaliações se faziam em cevada, embora a prata já começasse a ser o meio de pagamento. A sociedade dividia os homens em livres e escravos. Os livres estavam subdivididos ainda em duas categorias, sendo o mashda (em acádico, mushkenum) um cidadão com menos direitos do que os mais abastados. Além disso, havia os eren (= tropa), pessoas reduzidas à servidão, embora não fossem escravos. Os escravos dividiam-se em estrangeiros, prisioneiros de guerra, sem nenhum direito, os namra; e em nacionais, pessoas vendidas por dívida, os Ir ou Gemé, mais criados do que escravos, possuindo personalidade jurídica. Passemos ao período que se segue à queda de Ur III, que vai de 2003 a 1792 a.C. Com a queda de Ur III assume o poder o governo de Isin. Mas não consegue mais dominar toda a Mesopotâmia e sob o reinado de Lipit-Ishtar (1934-1924 a.C.) o caos se estabeleceu na Mesopotâmia, retalhada em pequenos Estados lutando entre si pela hegemonia. [2]. Cf. CLIFFORD, R. J., Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible, Washington, The Catholic Biblical Association of America, 1994, pp. 15-16. Cf. o artigo de VAN DIJK, J., Le motif cosmique dans la pensée sumérienne, em Acta Orientalia 28/1-2 (1964), pp. 1-59. Na luta entre os vários grupos observamos que a maioria deles ostenta nome amoritas, conseqüência de grandes migrações que foram uma das causas da queda de Ur. Esta entrada em cena dos amoritas (ou amorreus) assinala um fato fundamental na história da época. Em sumério são chamados de MAR.TU, em acádico AMURRU, significando "ocidentais" ou "povo do oeste", chamados também de semitas do oeste. A caracterização dos amoritas é feita em uma epopéia da época que, descrevendo o mito do casamento do seu deus Amurru, diz: "É um homem que desenterra trufas [espécie de cogumelo comestível] no sopé das montanhas, que não sabe dobrar os joelhos para cultivar a terra, que come carne crua, que não tem casa durante a vida, e não é sepultado após a morte". Durante muito tempo existiu certo consenso entre os especialistas, baseados em sátiras como esta dos sumérios, citada acima, e em uma visão romântica do nomadismo, típica do século XIX, de que os amoritas eram nômades que invadiram a Mesopotâmia e também a Palestina vindos do deserto siro-arábico.
  19. 19. 19 Hoje, porém, não é mais possível sustentar esta posição, pois o que se descobriu nos últimos anos é que os amoritas são sedentários do norte da Mesopotâmia, vivendo da agricultura e da criação de gado. Isto é testemunhado pelas centenas de povoados espalhados do Eufrates até os vales dos rios Khabur e Balikh e datados pelos arqueólogos como existentes desde o Calcolítico. O crescimento populacional dos amoritas deve ter provocado a ampliação de seus territórios e a ocupação de várias cidades da região mesopotâmica. Além do que, muitas das mudanças ocorridas em todo o Antigo Oriente Médio que eram atribuídas a invasões mal documentadas de povos, podem ser explicadas, hoje, mais cientificamente, pelas mudanças climáticas na região, sujeita a períodos de secas prolongadas e devastadoras[3]. É assim que se chega à luta pela hegemonia na Baixa Mesopotâmia, onde a disputa era entre as dinastias de Isin e Larsa, enquanto na Alta Mesopotâmia a luta se dava entre Assur e Mari, também governadas por amoritas. Mapa Cronológico do Antigo Oriente Médio II[4] Período Arqueológico Bronze Médio Bronze Recente Ferro Antigo Ferro Recente Mesopotâmia do Norte Assírio antigo Assírio médio Assírio médio Assírio recente Shamsi-Adad Mitani Cartas de Mari Mesopotâmia do Sul Isin Larsa Cassita Domínio assírio Babilônico antigo Babilônico médio Babilônico médio Síria/Palestina Influências do Egito Domínio egípcio Israel Israel Hicsos Cartas de Tell el- Amarna Povos do mar Estados fenícios Israelitas Estados arameus e neo-hititas Irã/Golfo Pérsico Elamita antigo Elamita médio Medos Godin III Tribos iranianas Invasões de Urartu Dilmun Invasões assírias Anatólia Comércio da antiga Assíria Hitita Urartu Hitita antigo Frígios Frígios Frígios Lídios Desenvolvimento cultural e técnico Carros Rodas com raios Alfabeto primitivo Camelos Galinhas Vidro Cerâmica vidrada Ferro fundido Cavalaria Algodão Moedas Latão Aramaico
  20. 20. 20 No final deste período a cidade que emergiu com maior poder foi Babilônia. Sob a III dinastia de Ur fora governada por um ensi e progressivamente seu poder cresceu, tornando-se um principado independente e controlando algumas cidades vizinhas. Em 1792 Hammurabi (1792-1750 a.C.) subiu ao trono de Babilônia. Consolidou sua posição frente aos vizinhos da Baixa Mesopotâmia e em seguida estendeu seu domínio a Mari, aos elamitas, assírios e gútios. No 31º ano de seu reinado Hammurabi já era senhor da Suméria e de Akkad. As terras na Babilônia pertenciam ao Estado, aos templos e a particulares. As terras do Estado eram exploradas por arrendatários, colonos, homens de corvéia e funcionários do Estado que recebiam glebas em troca de serviços prestados. O comércio era dominado pelos tamkarum, espécie de mercadores itinerantes e corretores, que agiam em nome do Estado, mas acumulando também fortunas particulares. O Estado intervinha em todos os setores da economia, determinando preços, contratos de trabalho, salários etc. Na Mesopotâmia governada pelos babilônios da época de Hammurabi temos populações que, na sua maioria, falam línguas semíticas, como o assírio, o babilônio e os idiomas semitas do noroeste. No campo viviam agricultores sedentários e nômades. Nas cidades, pequenos artesãos e comerciantes. As regiões intermediárias eram habitadas também pelos amoritas, além de haver grupos hurritas. Hammurabi desenvolveu uma legislação que ficou famosa através de seu conhecido código. Através dele podemos conhecer a estrutura social da época. Três classes compunham a sociedade: os ricos (awilum), o povo (mushkenum) e os escravos. Além disso havia os prisioneiros de guerra (asiru) e os deportados, categorias estas sem nenhum estatuto jurídico e que viviam a verdadeira escravidão. O casamento era monogâmico, mas existia o concubinato, especialmente quando a esposa era estéril. E interessante é observar que a mulher casada tinha certa autonomia, pois podia exercer diversas profissões, demandar em juízo e até assumir cargos públicos. (Estas são) as sentenças de justiça, que Hammurabi, o rei forte, estabeleceu e que fez o país tomar um caminho seguro e uma direção boa. Eu (sou) Hammurabi, o rei perfeito. Para com os cabeças-pretas, que Enlil me deu de presente e dos quais Marduk me deu o pastoreio, não fui negligente, nem deixei cair os braços; eu lhes procurei sempre lugares de paz, resolvi dificuldades graves, fiz-lhes aparecer a luz. Com a arma poderosa que Zababa e Ishtar me outorgaram, com a sabedoria que Ea me destinou, com a habilidade que Marduk me deu, aniquilei os inimigos em cima e embaixo, acabei com as lutas, promovi o bem-estar do país (...). Para que o forte não oprima o fraco, para fazer justiça ao órfão e à viúva, para proclamar o direito do país em Babel, a cidade cuja cabeça An e Enlil levantaram, na Esagila, o templo cujos fundamentos são tão firmes como o céu e a terra, para proclamar as leis do país, para fazer direito aos oprimidos, escrevi minhas preciosas palavras em minha estela e coloquei-a diante de minha estátua de rei da justiça (...). Que o homem oprimido, que está implicado em um processo, venha diante da minha estátua de rei da justiça, leia, atentamente, minha estela escrita e ouça minhas palavras preciosas. Que minha estela resolva sua questão,
  21. 21. 21 ele veja o seu direito, o seu coração se dilate! (...) Que nos dias futuros, para sempre, um rei que surgir no país observe as palavras de justiça que escrevi em minha estela, que ele não mude a lei do país que eu promulguei, as sentenças do país que eu decidi, que ele não altere os meus estatutos! (Trecho do Epílogo do Código de Hammurabi na tradução de EMANUEL BOUZON, O Código de Hammurabi. Introdução, tradução do texto cuneiforme e comentários, 4a edição totalmente revista e melhorada, Petrópolis, Vozes, 1987, pp. 222-223). A literatura e as artes alcançaram grande esplendor na época de Hammurabi. Havia muitas escolas de escribas ao redor de palácios e templos. A cultura suméria foi organizada e preservada, a história começou a se desenvolver sob a forma de listas reais e a literatura religiosa cresceu enormemente. 1.3. A Palestina e o Egito de 3000 a 1700 a.C. Começaremos a falar da Palestina na Idade do Bronze Antigo (3200-2050 a.C.), quando houve um notável progresso na vida urbana, na indústria (sobretudo na cerâmica) e um aumento geral da população, provável resultado da sedentarização de grupos novos que se estabeleciam na região. Muitas das cidades que conhecemos através da história bíblica já existiam, como Jericó, Meguido, Bet-Shan, Gezer, Ai, Laquish. No centro e no norte da Palestina é que se situa a maior parte destas cidades, sendo mais rarefeita a população no sul. A agricultura era a atividade básica. Cultivavam, nesta época, o trigo, a cevada, lentilhas, favas. Havia também a cultura da oliveira e da amendoeira. A vinha teria sido ali introduzida nesta época. O comércio funcionava em direção à Síria do norte e do Egito. Os utensílios de pedra dominavam ainda, embora já se começasse a fabricação de armas de cobre. Na Síria, a cidade de Biblos conheceu um progresso semelhante e a influência egípcia tornou-se marcante graças ao comércio marítimo. Podemos chamar convencionalmente estes povos de cananeus. Sua língua era um semítico do noroeste, provavelmente a ascendente do cananeu falado nos tempos israelitas, do qual o hebraico bíblico é uma derivação. Por volta de 2300 a.C. esta civilização sofreu forte decadência. Até a década de 70 do século XX se acreditava que povos teriam invadido, a partir do norte, seu território e as cidades teriam sido destruídas, algumas bem violentamente. O mesmo aconteceu na Síria. O curioso é que se observa que seus novos habitantes não reconstruíram imediatamente as cidades: ou acamparam sobre as ruínas, ou viveram em cavernas e quando reconstruíram as casas estas eram bastante modestas, e isto depois de alguns séculos de ocupação. Só por volta de 1900 a.C. é que há sinais de nova vida urbana. Dizia-se que possivelmente eram estes povos os mesmos amoritas ou semitas do oeste que invadiram também a Mesopotâmia. Hoje se reconhece que as mudanças ocorridas então se devem muito mais a mudanças climáticas do que a qualquer entrada de povos na região. A Palestina conheceu a sua fase antiga mais próspera entre os anos de 1800 e 1550 a.C. Cidades populosas e bem guarnecidas, cercadas por poderosas muralhas floresceram, tais como Hazor, Taanak, Meguido, Siquém, Jericó, Jerusalém, Bet-Shemesh, Gezer, Tell Beit Mirsim, Tell el- Duweir, Tell el-Farah do sul etc. Já a Transjordânia não teve civilização sedentária até cerca de 1300 a.C. e o Negueb até o século X a.C.
  22. 22. 22 [3]. Cf. Freedman, D. N. (ed.), The Anchor Bible Dictionary on CD-ROM, New York, Doubleday & Logos Research Systems, 1992, 1997, verbete Amorites; THOMPSON, T. L., The Mythic Past. Biblical Archaeology and the Myth of Israel, New York, Basic Books, 1999, pp. 101-225. [4]. Cf. ROAF, M., Mesopotâmia e o Antigo Médio Oriente I, Coleção Grandes Impérios e Civilizações, Madrid, Edições del Prado, 1996, pp. 6-7. Falemos do Egito. Este foi habitado desde o V milênio a.C. por brancos do grupo lingüístico hamita com mistura de semitas e negros. A cultura de aldeia mais antiga que conhecemos é a de Fayum, do período neolítico, situada entre 4440 e 4150 a.C. A vida no Egito era organizada na total dependência do Nilo e de suas cheias. O vale fértil do Nilo tem a largura de 5 a 25 km. O leito do rio varia de 460 a 500 metros. As águas do Nilo sobem de 5 a 7 metros, na inundação. Pico da enchente: setembro. O Nilo tem 6500 km de extensão, dos quais cerca de 2500 km dentro do Egito. O nome do país, Egito, vem do grego Aigyptos, derivado do egípcio het-ka-ptah, "casa de Ptah", um dos nomes da cidade de Mênfis. Os egípcios chamavam seu país de km.t (leia-se khemi), "terra negra", por causa da cor do solo. O Egito, assim como a Mesopotâmia, se divide em Alto e Baixo Egito. Originariamente eram dois reinos separados, unidos em seguida sob um mesmo poder e governo. Os faraós usavam uma coroa dupla, para significar os dois reinos. Vamos percorrer o Nilo desde o sul (Alto Egito). Seguindo o Nilo numa extensão de 1000 km desde o delta, encontraremos Elefantina, uma ilha sobre o rio, sede de uma colônia militar israelita, fundada no século V a.C. Cerca de 160 km para o norte está Tebas (Luxor ou Karnak), com templos magníficos, capital do Egito de 1570 a 1345 a.C. Ainda 320 km rio abaixo, encontramos Akhetaton (atualmente Tell el-Amarna) que foi capital do Egito sob o faraó Akhenaton. Já próximo ao delta, a 150 km do mar está Mênfis, a mais antiga capital do Egito, construída antes do ano 3000 a.C. Um pouco mais ao norte está On (ou Heliópolis).
  23. 23. 23 Entre Mênfis e Heliópolis havia um grande cemitério, onde foram construídas as famosas pirâmides e a esfinge. Ali, depois da invasão muçulmana, foi construída a cidade do Cairo, a atual capital do Egito. Sobre as pirâmides, uma curiosidade apenas: as três grandes pirâmides, de Quéops, Quéfren e Miquerinos foram construídas entre os anos 2700 e 2500 a.C. A Grande Pirâmide, a de Quéops, tem 147 metros de altura, uma base quadrada de 217 metros e foi construída com cerca de dois milhões e trezentos mil blocos de pedra lavrada, pesando cada uma cerca de duas toneladas e meia. A noroeste do delta, Alexandre Magno mandou construir Alexandria em 331 a.C., cidade que se tornou célebre porto e grande centro cultural.Vivia ali importante colônia judaica. No delta está Avaris (Tânis, Zoan), capital do Egito sob os hicsos, um povo asiático que invadiu o país em 1670 a.C. e o dominou durante um século. A agricultura, atividade básica do país, era regulada pelos três típicos períodos egípcios: a inundação (julho-outubro), a semeadura (novembro- fevereiro) e a colheita (março-junho). A irrigação era fundamental: faziam-se tanques ao longo do rio, através de um sistema de diques construídos em ângulo reto em relação ao Nilo. Canais de tamanhos e extensões variáveis levavam as águas das cheias a alguns quilômetros de seu leito, fertilizando as terras cultiváveis. As sementes eram lançadas na terra quando ainda havia a lama das enchentes. Em seguida, faziam passar sobre os campos o gado miúdo e, às vezes, com a ajuda de arados e enxadas, estas eram cobertas pela terra. Os egípcios cultivavam cereais como o trigo, a cevada, o linho. Praticavam a horticultura, plantando especialmente o alho, a cebola, pepino, alface etc. As árvores frutíferas, a videira e outras plantas também eram conhecidas. O azeite de oliva era importado. O gado compunha-se de bovinos, asininos, eqüinos, caprinos, ovinos e suínos. Criados especialmente nas regiões pantanosas do delta. Criavam também aves, como gansos, patos e pombos. Praticava-se a pesca, importante na alimentação. A mão-de-obra básica era a camponesa. Homens livres que viviam em aldeias espalhadas ao longo do Nilo. Mas na entressafra eram eles que trabalhavam, em regime obrigatório, nas grandes obras estatais, como a construção de túmulos, palácios e templos. Os escravos existiam, mas não constituíam a mão-de-obra dominante. As terras pertenciam, na sua maioria, ao Estado, aos templos, a grandes proprietários da nobreza e, em menor proporção, aos pequenos proprietários que nela trabalhavam. Um dos traços mais visíveis da economia egípcia antiga era o estatismo faraônico. O controle da vida econômica passava na sua quase totalidade pelo rei, seus funcionários e templos. Este rígido controle da economia colocava nas mãos do Estado a quase totalidade do excedente econômico, que, obviamente, era distribuído segundo a lógica das classes dominantes: quem ficava com a maior parte eram as aristocracias sacerdotal, burocrática e militar.
  24. 24. 24 A história egípcia é tradicionalmente dividida em dinastias. Isto se deve a um sacerdote egípcio da época ptolomaica, chamado Maneton que escreveu uma História do Egito, hoje perdida, mas cujos fragmentos foram transmitidos por outros autores. Em particular, temos as listas das casas reais egípcias ou dinastias. Maneton "deve ter utilizado os arquivos dos templos de sua época. Apesar dos erros contidos em suas listas, e outros devidos a sucessivos copistas, e embora saibamos que houve dinastias paralelas (em épocas de divisão política), efêmeras ou mesmo inexistentes, o contexto cronológico habitualmente seguido para a História egípcia continua usando o quadro defeituoso, mas segundo parece, insubstituível, de tais dinastias. Engloba-as , porém, em divisões mais vastas: Reino Antigo, Reino Médio, Reino Novo e Época Tardia, sendo tais fases básicas separadas entre si por três 'períodos intermediários', épocas de anarquia, descentralização do poder, declínio econômico, ásperas lutas sociais e políticas e mesmo fases de domínio estrangeiro. Apesar dos progressos constatáveis na cronologia da História do Egito antigo, às vezes com base em fatos astronômicos datáveis, muita incerteza subsiste em quase todas as datas anteriores a 664. A margem de erro no início da História dinástica é de até 150 anos; as datas do Reino Médio são em geral bastante seguras; quanto ao período que se estende do início do Reino Novo a 664, o erro possível é de uma década aproximadamente"[5]. Períodos da História Egípcia Períodos Dinastias Datas a.C. Duração Unificação Protodinástico 3100-2920 180 anos Dinástico Primitivo I-III 2920-2575 345 anos Reino Antigo IV-VIII 2575-2134 441 anos 10 Período Intermediário IX-X 2134-2040 94 anos Reino Médio XI-XIV 2040-1640 400 anos 20 Período Intermediário XV-XVII 1640-1550 90 anos Reino Novo XVIII-XX 1550-1070 480 anos 30 Período Intermediário XXI-XXIV 1070-712 358 anos Época Tardia XXV-XXX 712-332 380 anos Alguns fatos importantes da história egípcia:  A unificação do Alto e Baixo Egito se deu a partir do sul e provavelmente o primeiro faraó - título egípcio que significa "a grande casa"; aliás o título completo do faraó era composto de 5 nomes, sendo este apenas o quinto - foi um certo Narmer. Ele já usava a dupla coroa: branca do Alto Egito e vermelha do Baixo Egito.  Foi durante o período dinástico primitivo que se estabeleceu a forma definitiva da escrita hieroglífica. A mais antiga pirâmide (Pirâmide dos Degraus) foi construída por Zoser, fundador da III dinastia. Mênfis, provavelmente, foi a primeira capital egípcia.  A IV dinastia construiu as monumentais pirâmides de Quéops (Khufu), Quéfren (Khafra) e Miquerinos (Menkaura). Foi a época do florescimento clássico do Egito.
  25. 25. 25  Nas pirâmides da V e VI dinastias foram encontrados os "Textos das Pirâmides", os escritos religiosos mais antigos do Egito.  O primeiro período intermediário é um período de depressão e confusão: o poder passava progressivamente das mãos do faraó para as mãos da nobreza provincial hereditária. Houve uma tumultuada revolução social. O interesse pela justiça social está refletido no famoso escrito "O camponês eloqüente" e o pessimismo aparece em "O diálogo de misantropo com a sua alma".  Foi Mentuhotep, príncipe tebano da XI dinastia, que, por volta de 2040 a.C., reunificou o império. Capital: Tebas. A XII dinastia transferiu-a para Mênfis, inaugurando um dos períodos mais estáveis do Egito: houve desenvolvimento agrícola, literário, científico, político ("democratização" de certas prerrogativas reais, como: a vida futura não é mais um privilégio do faraó apenas, mas os nobres devidamente sepultados podem tê-la).  Durante o segundo período intermediário houve novo declínio do poder, por pressão da nobreza feudal e de estrangeiros. Os hicsos conquistam o Egito em 1670 a.C. e o dominam durante um século. Capital hicsa: Avaris.  A XVIII dinastia, comandada por Amósis, expulsa os hicsos e transforma o Egito na maior potência mundial. A capital volta para Tebas. Tutmósis III foi quem levou o Egito ao auge do poder, estendendo seu domínio até o Eufrates. Amenófis IV (= Akhenaton) declarou Aton (= o disco solar) o deus principal e construiu uma nova capital Akhetaton (= o horizonte do disco solar). Entrou em choque com os poderosos sacerdotes de Amon. Seu genro e sucessor Tutankhaton restaurou o antigo culto, levou a capital para Tebas novamente e mudou seu próprio nome para Tutankhamon.  Ramsés II, o suposto faraó do êxodo de Israel, era da XIX dinastia, período do reino novo. Seu filho Merneptah cita Israel numa estela, por volta de 1220 a.C.: é a primeira menção extra-bíblica deste povo. Diz o texto: "Os príncipes estão prostrados dizendo: paz. Entre os Nove Arcos nenhum levanta a cabeça. Tehenu [ Líbia] está devastado; o Hatti está em paz. Canaã está privada de toda a sua maldade; Ascalon esta deportada; Gazer foi tomada; Yanoam está como se não existisse mais; Israel está aniquilado e não tem mais descendência. O Haru [Canaã] está em viuvez diante do Egito".  Durante a XX dinastia o Egito é invadido pelos "povos do mar", dos quais fazem parte os filisteus. [5]. CARDOSO, C. F. S., O Egito antigo, São Paulo, Brasiliense, 1982. Os especialistas seguem cronologias variadas. Só para mencionar duas das mais cotadas, Ciro Flamarion S. Cardoso, que acabei de citar, usa a de BAINES, J. & MÁLEK, J., Atlas of Ancient Egypt, Oxford, Phaidon, 1980 (em português: BAINES, J. & MÁLEK, J., O Mundo Egípcio. Deuses, Templos e Faraós, 2 vols., Madrid, Edições del Prado, 1996, Coleção Grandes Impérios e Civilizações), enquanto outros preferem a de GARDINER, A., Egypt of the Pharaohs, London, Oxford University Press, 1974.
  26. 26. 26 Como na Mesopotâmia, as cosmogonias egípcias têm grande importância nas orações e rituais, mas, ao contrário da Mesopotâmia, exercem papel fundamental também nas especulações filosóficas (obviamente todas religiosas). Não há no Egito um interesse na criação em si mesma e também não existe uma versão canônica, mas múltiplas cosmogonias convivendo paralelamente[6]. Vamos, olhar os elementos comuns às várias cosmogonias egípcias, que são cinco:  O período anterior à criação  O deus criador  A colina primordial  Os modos de manifestação do deus criador  O processo de criação A. O período anterior à criação Há dois modos de caracterizar o período anterior à criação: o modo negativo e o modo afirmativo. O modo negativo usa uma forma verbal negativa especial: n sdmt.f . No contexto da criação ele pode ser traduzido como "quando X ainda não tinha..." ou "antes que X existisse". Um exemplo: a frase "antes que o céu existisse, antes que a terra existisse" freqüentemente introduz uma série de entidades não existentes, como "antes que os homens existissem, antes que os deuses nascessem, antes que a morte existisse" etc. Especialmente significante entre as caracterizações negativas do período anterior à criação do mundo é a frase "antes que houvesse duas coisas", porque no pensamento egípcio antes da criação havia uma unidade, que não podia ser dividida em dois ou em vários. "Duas coisas" ou "milhões" exprimem ambos a diversidade do existente, que não existe na inexistência, una e indiferenciada. O deus criador faz a mediação entre o inexistente e o existente e os separa. Ele é o uno original que emerge do inexistente e marca o "começo" do processo de existência pela diferenciação de si mesmo na pluralidade do que existe e nos muitos deuses. Para se referir à unidade no reino do existente os egípcios usam a forma dual, contrapondo dois conceitos complementares: o Egito é
  27. 27. 27 chamado de "Duas Terras" ou de "o Alto e o Baixo Egito", o espaço é "céu e terra", a totalidade do que é pensado é "o existente e o inexistente" O modo positivo imagina o tempo anterior à criação como composto de águas sem limites (personificado como Nun), como a cheia primordial, a escuridão total. Estas imagens são derivadas da experiência de quem vive às margens do Nilo: onde a cheia do Nilo não alcançava havia o deserto estéril e silencioso. Quando a inundação anual baixava, ela deixava para trás pequenas colinas fervilhando de vida. Estas colinas, assim como rãs, lótus e ovos acompanhando nova vida deixada pelo rio , ocorrem freqüentemente como imagens de criação. Mas o inexistente não é transformado no existente e eliminado. Ele é eterno e nunca se transforma no existente. Os elementos anteriores à criação, como a cheia primordial, a escuridão, o inerte e a negação, permanecem no mundo criado de dois modos:  O primeiro modo é como o limite final, como o que está além das fronteiras, o lugar fora do limitado mundo do ser, como aparece no capítulo 175 do Livro dos Mortos onde no mundo subterrâneo - muito próximo ao inexistente - diz o recém-chegado: "Que espécie de terra é esta a que cheguei? Não tem água, não tem ar; é profundeza inescrutável, tão negra quanto a noite mais negra e nela vagueiam os homens desamparados"[7].  O segundo modo é como presença no mundo cotidiano, como nas águas de um dique, na cheia anual quando a terra torna-se Nun e a noite torna todos os rostos irreconhecíveis, extinguindo todas as formas. O encontro com o inexistente tem dois lados, um hostil e outro regenerador:  Um hostil, quando os poderes que invadem a criação são nocivos e devem ser expulsos. Um exemplo de tais elementos primordiais da inexistência é um epíteto de Ramsés II como "aquele que fez inexistentes terras estrangeiras hostis". Outro exemplo é a confissão negativa de pecados do morto que está no capítulo 125 dos Livro dos Mortos a qual inclui a frase "não conheço o inexistente", testemunhando que não ultrapassou o limite da ordem criada.  O lado regenerador do inexistente é ilustrado pela jornada noturna do sol através do oceano primordial, que o purifica e o capacita para renovar a terra. Ou com a cheia anual do Nilo, que reativa a cheia primordial e traz vida nova e fertilidade quando as águas baixam. O mesmo aspecto rejuvenescedor se manifesta no preparo para a morte - mumificação, sepultamento e oferendas colocadas na tumba - que apela para o inexistente facilitar a entrada do morto na vida do outro mundo. Enfim: o inexistente, no Egito, significa, negativamente, geralmente o que é indiferenciado, desarticulado, ilimitado; positivamente, a totalidade do que é possível, o absoluto, o definitivo. Comparado com o inexistente, o existente é claramente definido e marcado por limites e discriminações.
  28. 28. 28 B. O deus criador Vários deuses exercem o papel de criador no Egito: Ptah, Ra, Amon, Aton e Khnum, mas cada cosmogonia tem apenas um deus criador. O deus primordial, pouco importa qual seja, é, no começo, único e, com a criação e a diversificação, torna-se muitos. O epíteto "o uno que fez de si mesmo milhões", é aplicado ao deus criador a partir do Reino Novo. O mundo criado tem sua origem na diferenciação do uno ou pela separação de elementos unidos anteriormente. Terra e céu, antes unidos, são separados por Shu; a luz emerge das trevas, a terra das águas primordiais. Portanto, o deus criador é sempre o uno e a criação é uma autogeração. A expressão "deus criou os deuses" aparece freqüentemente nos primeiros períodos. Nos textos mais recentes a raça humana aparece ao lado dos deuses, como por exemplo, "ele que criou tudo o que existe, que fez homens e criou deuses", ou "trazendo a humanidade à existência, formando os deuses e criando tudo o que existe". Um trecho do Texto dos Sarcófagos diz: "Eu conduzi os deuses à existência com minha fragrância emanando do deus; homens são das lágrimas de meu olho". A palavra "humanidade" rmt e "lágrimas" rmit são semelhantes. O deus Ra aparece em quase todos os relatos de criação, embora seu papel varie bastante de um para outro, desde a função de criador até a função de sustentação do criado cada dia pelo calor dos seus raios (ou seja, do sol). Para a atividade criadora de Ra é geralmente usada a palavra hpr. Dependendo do contexto, ela significa "nascer", "vir à existência", "existir", 'tornar-se", "ser transformado", "manifestar-se em". Significando ao mesmo tempo existência e transformação, ela escreve não uma criação a partir do nada, mas a concretização de uma entidade existindo virtualmente em Nun. Ptah cria por sua ação como deus de escultores e artesãos. Ele cria, segundo a Teologia de Mênfis, de acordo com um plano feito em seu coração e realizado por sua palavra. Khnum, do mesmo modo, cria através de sua atividade, moldando os indivíduos e as coisas como um oleiro. Amon, cujo nome, "O Oculto", sugere transcendência, faz parte da cosmogonia de Hermópolis, tornando-se importante com a consolidação do Reino Novo. Cada sistema tem suas nuances próprias. Mênfis enfatiza o aspecto ctônico sobre o solar. Ptah de Mênfis leva o epíteto da colina primordial, Ta-tenen, que significa "a terra que surge". Na tradição de Heliópolis, por outro lado, o sol (sob os nomes de Ra-Aton-Khepri ou Ra-Harakhti) é o mais antigo demiurgo, e a deuses de outros santuários, como Amon e Khnum são atribuídas características divinas. O deus criador é sempre autogerado dentro de Nun. E do único deus criador sai a hierarquia de deuses. Mesmo a Enéade, os nove deuses que encarnam os elementos do cosmos, é uma manifestação do deus criador que se desdobra por três gerações de deuses. Aton gera os casais divinos Shu e Tefnut, Geb e Nut e os deuses Osíris, Ísis, Seth e Néftis. C. A Colina Primordial A partir da experiência da vida nova que nascia no vale do Nilo quando as águas da cheia baixavam, os egípcios desenvolveram a idéia de uma colina primordial (em alemão: Urhügel) da
  29. 29. 29 qual brotou toda a vida. O hieróglifo para esta idéia mostra a cheia primordial com o sol nascendo sobre ela, estilizado como uma colina, freqüentemente com degraus. A colina tem papel importante nas mais importantes cosmogonias egípcias. Em Heliópolis, Aton aparece como a colina primordial, que era às vezes chamada benben. Em Mênfis, o deus ctônico Ta-tenen, "a terra que emerge", foi amalgamado com Ptah a partir do Reino Novo. Em Hermópolis, a Ogdóade (os oito deuses) era colocada na "ilha das chamas", a colina explodindo com a vida. Outros santuários, igualmente, localizavam a colina primordial dentro de seus recintos. Associados à colina primordial estavam o templo e o trono. A criação era renovada a cada dia no templo, que assim se tornava a colina primordial. O rei, por outro lado, representando o deus na terra, doador de vida através de suas atividades, faz o papel de criador "in parvo". Assim como o criador, ele subia a colina primordial estilizada. O pedestal, geralmente com degraus, do trono, funcionava como a colina primordial. Assim, cada vez que o rei se assentava nele, especialmente na entronização, ele repetia a criação simbolicamente. D. Os modos de manifestação do deus criador Nun e a colina primordial eram anteriores à criação e passivos, enquanto que o criador aparece sob várias formas. Se a vida era pensada como uma explosão de vitalidade, então imagens biológicas era usadas: um ovo que se partia ou uma flor de lótus abrindo de manhã e fechando à noite. Serpentes também eram manifestações do poder criador: talvez pensassem a terra como encarnada em um réptil. Outra imagem era a do ganso sagrado que quebrava o ovo cósmico. Segundo os egiptólogos, todas as imagens de manifestação do deus criador se reportam a dois modelos básicos: Ptah, o deus da terra que se impõe sobre o elemento líquido e dele tira coisas inanimadas e animadas ou o deus Ra-Aton, o sol, cujo brilho é condição necessária para toda a criação (cabendo aqui também a ejaculação de seu pênis ou o brilho de seu olhar que dissipa as trevas). E. O processo de criação Há três maneiras para se criar:  Uma era a geração do casal divino Shu e Tefnut com o sêmen do criador, ejaculado pela masturbação ou, em algumas variantes, por sua saliva. Uma idéia semelhante é a que faz o jogo de palavras entre raça humana, rmt, que surge das lágrimas do deus criador, rmit.  Uma segunda maneira era a criação pela palavra. Ptah concebeu em seu coração as coisas que ele quis criar e lhes deu existência através de sua língua. Entretanto, não se deve acentuar a distinção entre a criação por meios físicos (esperma) ou por ordens do deus (palavra), pois os egípcios interpretavam o físico como símbolo do espiritual: o esperma e as mãos de Aton (na masturbação) eram os dentes e os lábios de Ptah (na criação pela palavra).  A terceira maneira era a atividade do artesão que construía e embelezava a sua obra. Assim, o deus Khnum, o deus artesão, o deus-oleiro, era o artista que moldava os seres humanos e os colocava como crianças no útero de suas mães.
  30. 30. 30 [6]. O que se segue é, em boa parte, um resumo de CLIFFORD, R. J., Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible, pp. 99-116. [7]. Cf. BUDGE, E. A. W., O Livro Egípcio dos Mortos, São Paulo, Editora Pensamento, 1985, p. 463. As cosmogonias mais importantes são as de Heliópolis, a de Mênfis e a de Hermópolis. Durante o Reino Antigo (22575-2134 a.C.), com sua capital Mênfis, o deus criador Ptah tem o predomínio. Mas durante a quinta dinastia o sacerdócio de Heliópolis, ao norte de Mênfis, aumentou seu poder, e o deus Aton, passa a ser o principal deus criador, gerando a Ogdóade, os oito deuses primordiais. Durante o Reino Novo (1550-1070 a.C.), com sua capital em Tebas, no Médio Egito, o deus Amon, torna-se o mais importante criador segundo a teologia de Hermópolis. Estas cosmogonias mais relevantes foram preservadas nos Textos das Pirâmides (2400-2200 a.C.), nos Textos dos Sarcófagos (2200-2000 a.C.) e no Livro dos Mortos (após 1500 a.C.). A Cosmogonia de Heliópolis Heliópolis, "cidade do sol" em grego, a bíblica On, ao sul da moderna Cairo, era o centro do culto ao deus sol Ra. Já no Reino Antigo Ra era conhecido como criador. Seu nome era freqüentemente unido ao de outros deuses criadores, como, por exemplo, Amon-Ra ou Ra-Aton. Isto não significa que os dois deuses misturem suas identidades, mas sim que Ra é reconhecido no outro deus, como se Ra "habitasse" a divindade. Amon-Ra indica, assim, que Amon está em Ra sem se perder em Ra. Ele permanece ele mesmo, com a possibilidade de aparecer separadamente ou em outras combinações[8]. Ra era o criador do céu e da terra por ser o deus sol que dá luz e calor aos seres humanos, aos animais e às plantas. Por isso ele era o deus das estações e seu aniversário caía no Dia do Ano Novo. Entretanto, ele não exerce o papel principal na cosmogonia de Heliópolis. Este papel é de Aton e da Enéade (= os nove deuses).
  31. 31. 31 Aton, gera, ou pela masturbação ou pela saliva, no cuspe, o primeiro casal divino, Shu (atmosfera) e Tefnut (umidade?), que geram, por sua vez, Geb (a terra) e Nut (o firmamento), que são então separados um do outro por Shu. Nascem em seguida Osíris e Ísis, Néftis e Seth , completando, assim a Grande Enéade. Somente os primeiros cinco deuses são cósmicos. O famoso santuário de Heliópolis, hwt bnbn , literalmente "Palácio do topo do obelisco", também chamado de "Casa da Fênix" é o local do culto a Aton. O símbolo de Aton é a pedra benben (bnbn), simbolizando igualmente a Colina Primordial. Um dos Textos das Pirâmides diz o seguinte: "Atum-Khoprer, you became high on the height, you rose up as on the bnbn-stone in the Mansion of the 'Phoenix' in On, you spat out Shu, you expectorated Tefenet, and you set your arms about them as the arms of a ka-symbol, that your essence might be in them. O Atum, set your arms about the King, about this construction, and about this pyramid as the arms of a ka-symbol, that the king's essence may be in it, enduring for ever... O you Great Ennead which is in On, (namely) Atum, Shu, Tefenet, Geb, Nut, Osiris, Isis, Seth, and Nephthys; O you children of Atum, extend his goodwill (?) from you toward Atum, that he may protect this King, the he may protect this pyramid of the King and protect this construction of his from all the gods and form all the dead and prevent anything from happening evilly against it for ever"[9]. O texto abaixo, do Livro dos Mortos, esclarece a relação de Aton com Nun. O primeiro parágrafo descreve o criador, Ra-Aton. O segundo parágrafo sugere que havia outro deus ao lado de Nun no começo, transmitindo a tradição de que Ra veio à existência por si mesmo e atribui a criação a Nun e Ra, resolvendo o problema da inércia de Nun. O terceiro parágrafo identifica os oito deuses, a Ogdóade, como aspectos de Ra, ou seja, partes de seu corpo: "Eu era Aton quando eu estava sozinho no Nun: eu sou Ra em sua (primeira) aparição, quando começou a governar o que ele criou. Quem é ele? Este "Ra, quando ele começou a governar o que ele criou" significa que ele começou a aparecer como um rei, como alguém que existia antes que as colinas de Shu aparecessem, quando ele estava sobre a colina que está em Hermópolis. "Eu sou o grande deus que veio à existência por si mesmo". Quem é ele? "O grande deus que veio à existência por si mesmo" é a água. Ele é Nun, o pai dos deuses. Outra versão: ele é Ra. "Eu sou aquele que criou seus nomes, o Senhor da Enéade". Quem é ele? Ele é Ra, que criou os nomes das partes de seu corpo. Assim vieram à vida estes deuses que seguem suas pegadas"[10].
  32. 32. 32 A Cosmogonia de Mênfis Mênfis, a capital dos Reinos Antigo e Médio, era o mais importante centro urbano do Egito. Ptah, assim como Amon em Tebas, era importante porque era o deus de uma capital. Com toda a probabilidade ele foi primeiro considerado criador em virtude de ser o artesão divino - os gregos o identificavam com Hefesto. Somente mais tarde a criação através da palavra ou da atividade sexual lhe foi atribuída. A partir do século XIII a.C. ele foi associado e até mesmo identificado com o deus menfita Ta-tenen, a Colina Primordial. A criação em Mênfis era concebida como uma atividade artística, mas do que um processo natural como se pensava em Heliópolis. Sendo Ptah o padroeiro dos escultores, é natural que seu processo criativo combine o "material" com o "imaterial", assim como um escultor "imprime" sua imagem mental na pedra, transformando- a numa estátua. "A criação é inteiramente explicada por um processo psicológico: a dialética do coração, pensamento e vontade, e da língua, palavra eficaz"[11]. Teologia Menfita Este texto foi encontrado na pedra Shabaka, nome do faraó etíope da 25a dinastia, que a mandou gravar no final do século VIII a.C. É uma cópia de um manuscrito mais antigo, descoberto em péssimo estado de conservação. Provavelmente o texto remonta ao Antigo Império. A pedra Shabaka está hoje no British Museum. II Aquele que se manifestou no coração, aquele que se manifestou com a língua, sob a aparência de Aton, esse é Ptah, o muito importante, que deu a vida a todos os deuses e as seus kas por este coração e por esta língua, através dos quais Horus e Tot tornaram-se Ptah. III Ora, acontece que o coração e a língua têm poder sobre todos os (outros) membros, pelo fato de um estar no corpo, o outro , na boca de todos os deuses, de todos os homens, de todos os animais, de todos os répteis de tudo quanto é animado, um concebendo o outro, decretando tudo quanto quer o primeiro. IV Sua Enéade está diante dele, sendo os dentes e os lábios, isto é, a semente e as mãos de Aton. Com efeito, a Enéade manifestou-se como sua semente e seus dedos. Mas a Enéade é, com efeito, os dentes e os lábios nesta boca que pronuncia o nome de todas as coisas, da qual Shu e Tefnut saíram e que pôs no mundo a Enéade. V Os olhos vêem, os ouvidos ouvem, o nariz respira. Eles formam o coração. É ele que transmite todo conhecimento, é a língua que repete o que o coração pensou. VI
  33. 33. 33 Assim todos os deuses foram postos no mundo, e a Enéade foi completada. E toda a palavra de deus se manifestou segundo o que o coração concebia e a língua ordenava. Assim são criados os kas e são determinados Hemsut, que produzem todo alimento e dão incremento a esta palavra. Quanto àquele que faz o de que gostamos, a vida lhe é certamente concedida, se ele for pacífico. Mas àquele que faz o que detestamos, a morte lhe é destinada, pois é perturbador. VII Assim foram criados todos os trabalhos e a arte, a atividade das mãos, o caminhar das pernas, o funcionamento de cada membro, segundo a ordem que o coração concebeu e que se exprimiu pela língua, e é executada em todas as coisas. VIII Portanto, denomina-se Ptah 'o autor de tudo que fez os deuses existirem'. Porque foi ele, Ta-tenen, foi ele que pôs os deuses no mundo, dos quais todas as coisas provêm, alimento e nutrição, oferendas divinas, tudo é maior do que a dos outros deuses. Assim Ptah ficou satisfeito, após tudo ter feito, ter feito toda palavra de deus. IX Ele pôs os deuses no mundo, ele construiu cidades, orientou suas oferendas, cuidou de seus santuários, formou seus corpos visíveis segundo o desejo deles. Assim, os deuses entraram em seus corpos visíveis, em toda espécie de planta, toda espécie de pedra, toda espécie de argila, em todas as coisas que crescem sobre seu relevo e através das quais podem manifestar-se. X Assim, todos os deuses reuniam-se com ele, assim como seus kas, satisfeitos e reunidos no senhor dos Dois Países. A Cosmogonia de Hermópolis Hermópolis, no Médio Egito, foi assim chamada pelos gregos que identificaram o deus principal da cidade, Tot com o seus deus Hermes. Tot não faz parte da doutrina da criação da cidade. O nome egípcio da cidade é Hmnw , “a cidade dos oito [deuses primevos]”, sublinhando a Ogdóade, que tem o papel principal nesta cosmogonia. A Ogdóade consiste de quatro casais de deuses: Nun e sua esposa Naunet (águas primordiais), Huh e Hauhet (dilúvio), Kuk e Kauket (escuridão) e Amon e Amaunet (dinamismo oculto). Os machos eram representados com cabeças de sapo e as fêmeas com cabeças de serpente. As deusas não têm existência independente e nenhum casal, a não ser Amon e Amaunet, tinha um culto. A Ogdóade representa as condições existentes antes da criação, estando presentes na primeira aparição do sol. O ovo, do qual nasceram todas as coisas, é importante na cosmogonia de Hermópolis, e o sol, na sua primeira aparição como uma criança saindo de um lótus. Especialmente no Reino Novo, Amon aparece como o deus primordial, princípio gerador e governante de tudo o que existe. Seu nome, derivado do verbo inm, “ocultar”, sugere
  34. 34. 34 transcendência. [8]. Cf. CLIFFORD, R. J., o. c., pp. 107-110. [9]. Pyramid Texts 246-247, sections 1652-1653 e 1655-1656. Tradução de R. O. FAULKNER, The Ancient Egyptian Pyramid Texts, Oxford, Clarendon, 1969, em CLIFFORD, R. J., o. c., p. 108. [10]. Cf. CLIFFORD, R. J., o. c., p. 109; AA.VV., A Criação e o Dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo, São Paulo, Paulus, 1990, pp. 100-101. [11]. AA.VV., A Criação e o Dilúvio..., p. 104. A tradução do texto também está nesta obra, nas pp. 104- 105. Papiro Leiden O Papiro Leiden I 350 é do século XIII a.C. e teve 22 de seus 26 capítulos preservados. “Trata-se de longo texto disposto, primitivamente, em 30 estrofes numeradas 1, 2, 3... até 9; depois 10, 20, 30... até 90; depois 100, 200, 300 ... até 900. Este modo de apresentar permite associações de idéias e jogos de palavras com os nomes dos algarismos egípcios (...). A originalidade deste texto (...) consiste no esforço feito para pensar a relação entre a multiplicidade das formas divinas e a absoluta unidade do demiurgo. O autor resolve a dificuldade identificando a unidade com a face oculta da divindade (Amon quer dizer escondido) e atribuindo a multiplicidade às manifestações ad extra de deus. O hino termina com um elogia a Tebas, a cidade santa que inspirará outras composições”[12]. Capítulo 80 Os oito foram teu primeiro avatar, até que tu os completasses, mas permanecendo tu mesmo. Teu corpo era misterioso entre os grandes. Tu te escondeste, enquanto Amon ia à frente dos deuses. Tu te transformaste em Ta-tenen, a fim de pôr no mundo os deuses primordiais em teu primeiro período primordial. Tua beleza ergueu-se enquanto Touro-de-sua-mãe. Tu te afastaste, enquanto habitante do céu onde habitas, enquanto Ra. Voltaste ao país, enquanto aquele que gera os filhos, para dar herdeiros perfeitos a teus filhos. Começaste a ser, quando ainda não havia seres. A terra não estava sem ti, quando da Primeira Vez. Todos os deuses vieram à vida, após tu... Capítulo 90 A Enéade está reunida em tua carne. Cada deus é imagem tua, unida a teu corpo. Tu emergiste primeiro, começaste a origem. Amon que esconde seu nome diante dos deuses. O grande ancião, mais velho do que estes aqui,
  35. 35. 35 Ta-tenen, que se formou a si próprio, enquanto Ptah. Os artelhos de seu corpo são os Oito. Aparecido enquanto Ra, na saída de Nun. Ele renova sua juventude. Foi ele que cuspiu (...) Shu e Tefnut, associados a seu poder e aparecidos sobre seu trono, segundo o desejo de seu coração. Ele reinava sobre tudo o que existe com sua (força?). Ele assumia a realeza desde sempre até a eternidade. Senhor Absoluto. Sua aparência refulgiu por ocasião da Primeira Vez e tudo o que existe foi marcado com seu prestígio. Ele faz ressoar sua voz tanto quanto o Grande Cacarejador no lugar que ele criara enquanto estava só. Ele começou a falar no meio do silêncio. Abre os olhos e lhes permite ver. Começa a gritar, enquanto a terra repousa em silêncio. Seu ulular corta o espaço sem que outro lá esteja. Dá nascimento aos seres, ele os faz viver. Permite a cada homem conhecer o caminho a seguir. Seus corações revivem, quando o vêem. Os espíritos gloriosos lhe pertencem. Capítulo 100 Amon, o primeiro a vir à vida, por ocasião da Primeira Vez. Nascido antes de todos e de quem ninguém conhece a forma. Nenhum deus nasceu com ele, nenhum outro deus estava com ele, para poder divulgar sua aparência. Não tinha mãe para lhe dar o nome. Não tinha um pai para gerá-lo e dizer “sou eu”. Ele que formou seu próprio ovo, poder de nascimento misterioso, criador de sua beleza. Deus realmente divino que nasceu de si próprio; todos os deuses nasceram depois que ele começou a ser. Capítulo 200 Deus das transformações misteriosas, de aparência fulgurante, deus que faz maravilhas, de formas numerosas. Todos os deuses o louvam, para se valorizarem, graças à sua beleza, tão divino é. O próprio Ra está unido a seu corpo. Ele é o Grande em Heliópolis, também chamado Ta-tenen. Amon saiu de Nun para conduzir a humanidade. Os Oito são um outro dos seus avatares. Deus primordial, gerando deuses primordiais, que pôs Ra no mundo. Ele mesmo se completou, enquanto Aton, não fazendo senão um só carne com ele . Ele é o Senhor universal que fez começar tudo o que existe. É seu ba, assim dizem, que está no céu. É ele que está no Duat, o primeiro do Oriente, seu ba está no céu, seu corpo no Ocidente. Sua estátua está em Heliópolis do Sul [Hermonthis], valorizando sua manifestação. Amon é único, ele que se escondeu dos outros, que se dissimulou diante dos deuses, de tal forma que não se conhece seu ser. Ele está mais distante do que o céu, mais profundo do que a Duat. Nenhum deus conhece sua verdadeira forma. Sua figura não foi desenvolvida nos livros. Ninguém ministra ensinamentos sérios a seu respeito, valoroso demais para ser conhecido. Ficamos estarrecidos, quando se pronuncia seu nome misterioso, quer o saibamos, quer não. Não existe um deus que saiba invocá-lo. Poderoso, ocultando seu nome, de tal modo é ele misterioso. Importante é a teologia da realeza. A realeza existe desde o começo do mundo. O deus criador é o primeiro rei e é ele quem transmite o poder ao seu filho, o primeiro faraó. A realeza é uma instituição divina e os atos do faraó são divinos. O faraó é a encarnação da ma'at (= verdade), que significa "a boa ordem", "o direito", "a justiça". É o oposto do caos, pertence à ordem original. Assim é o faraó quem assegura a estabilidade do Estado e do Cosmos, garantindo a continuidade da vida no Egito e no mundo inteiro. O culto era função do faraó, que o delegava aos sacerdotes. Os ritos reproduziam, direta ou indiretamente, a criação original e procuravam defender a estabilidade das coisas. Os templos eram, na sua arquitetura e decoração, representações simbólicas do universo. A vida depois da morte ocupava importante lugar no pensamento teológico e religioso egípcio. A morada dos mortos era subterrânea, segundo algumas tradições, ou estelar, segundo outras. Após a morte, o ka (= uma espécie de "duplo" da pessoa) ia viver na eternidade das estrelas. O céu era a deusa-mãe e a morte era, portanto, um renascimento (sideral). Depois de morto, renascido cosmicamente, o homem era amamentado pela deusa-mãe, representada sob a forma de uma vaca.
  36. 36. 36 Importante mesmo era a existência do faraó após a morte. Ele voa ao céu sob a forma de uma ave (falcão, garça real, ganso selvagem), ou sob a forma de um escaravelho ou de um gafanhoto. Ou ainda: em certos casos ele sobe aos céus por uma escada. Após passar pelos complexos rituais dos mortos na morada celeste (há um tribunal que julga o faraó e há ritos de purificação), o faraó é recebido pelo deus sol e então se anuncia a todo o mundo sua vitória sobre a morte. Sua vida no céu é um prolongamento da vida terrena. Por isso a preservação do corpo através da mumificação é fundamental no Egito: garante o renascimento no além túmulo. Falemos agora, para terminar, do mito de Osíris, porque ele é muito importante para compreendermos a divinização do faraó e do poder do Estado. Osíris era um rei lendário, vigoroso e justo, que governava o Egito. Mas foi assassinado por seu irmão Seth. Mesmo assim, Ísis, sua esposa, consegue ser fecundada por Osíris morto, e dá à luz, escondida nos papiros do delta do Nilo, a Horus (o falcão). Horus, quando adulto, ataca Seth. Seth arranca-lhe um olho, mas é Horus quem vence a luta. Com seu olho recuperado e oferecido a Osíris, este retorna à vida. Seth é condenado pelos deuses a carregar a própria vítima: com efeito ele é transformado na barca que transporta Osíris sobre o Nilo. Então, Horus é coroado rei. Assim, Osíris (= o faraó morto) vai garantir, daqui para a frente, a fertilidade vegetal e animal do reino, dirigido por seu filho Horus (= o faraó que assume o poder). A ordem está assegurada... [12]. Tradução de AA.VV., A Criação e o Dilúvio..., pp. 101-103. 1.4. A Síria e a Fenícia De novo, em um salto, vamos ao norte da Palestina, porque estes dois países também nos interessam. Para falar da Síria, com sua capital Damasco, temos que falar dos arameus. Dizia-se, até pouco atrás, que estes eram nômades semitas que a partir do deserto siro-arábico invadiram a Alta Mesopotâmia, a Anatólia (Ásia Menor) e a Síria. Mas hoje não temos mais tanta certeza disso, por isso seria melhor não falar mais dos arameus desta maneira. Certo é que nunca houve uma união política aramaica, sendo a Síria a sede de vários reinos arameus. A primeira menção segura dos documentos antigos sobre os arameus data do ano 1110 a.C., mais ou menos, e está em textos cuneiformes do reinado do assírio Tiglat-Pileser I (1115-1077 a.C.). No
  37. 37. 37 quarto ano de seu reinado ele combateu os Ahlamu-Arameus no Eufrates e lhes queimou seis acampamentos no Djebel Bishri. Eis o comunicado real:"Marchei contra os ahlamu-arameus, inimigos do deus Assur, meu senhor. Em um só dia realizei uma incursão desde as proximidades da terra de Suhi até Carquemish da terra de Hatti. Infligi-lhes baixas e trouxe prisioneiros, bens e gado sem conta". E ainda:"Por vinte e oito vezes, à razão de duas por ano, cruzei o Eufrates em perseguição aos ahlamu-arameus. Da cidade de Tadmor (Palmira) da terra de Amurru, da cidade de Anat da terra de Suhi, até a cidade de Rapigu da terra de Karduniash (Babilônia), sua derrota foi por mim consumada"[13]. Com o tempo, os termos ahlamu e arameu tornaram-se sinônimos, mas é possível que fossem dois grupos diversos, aparentados, contudo. O reino de Aram-Damasco era pequeno, mas depois que Davi conquistou todos os outros, segundo os textos bíblicos, Damasco se impôs como principal, dominando todo o território sírio. Foi aniquilado pelos assírios, um pouco antes de Israel do norte. A província síria destacou-se depois, sob o domínio romano. A Fenícia, a faixa costeira ao norte de Israel e ao lado da Síria, era muito fértil. Seu nome vem da púrpura que era extraída ali de certas conchas. Em fenício-hebraico, "púrpura" se dizia canaan e em grego foinix, donde "Fenícia". Líbano, seu nome atual, é devido à cadeia de montanhas assim chamada e significa "o branco", por causa da neve no pico dos montes. Começando pelo sul da Fenícia, encontramos a cidade de Tiro, existente desde o III milênio a.C., construída metade sobre uma ilha, metade no continente. Por isso resistiu maravilhosamente a terríveis assédios assírios e babilônicos. Foi tomada por Alexandre Magno após sete meses de cerco. Tiro era famosa por seu comércio e suas naves. Foi quase sempre aliada de Israel. Sídon, habitada por cananeus, foi famosa por causa de seus navegantes. Os assírios conquistaram- na, mas foi cidade livre sob os romanos. Concorrente de Tiro no comércio e navegação. Ainda: Ugarit (Ras Shamra), habitada por cananeus. É importante por causa de sua grande literatura, relacionada com a literatura bíblica e sua língua, parente da hebraica. As escavações aí realizadas enriqueceram muito os estudos bíblicos nos últimos tempos. Foi destruída pelos filisteus. A descoberta Em março de 1928, um lavrador alauíta, arando sua propriedade a cerca de 12 km ao norte de Latakia, antiga Laodicea ad mare, remove uma pedra na qual seu arado bate e encontra os restos de uma tumba antiga. Colocado a par da descoberta, o Serviço de Antigüidades da Síria e do Líbano, na época sob mandato francês, encarrega um especialista, M. L. Albanese, que imediatamente notifica a presença de uma necrópole e identifica a tumba como sendo do tipo micênico, datável aí pelos séculos XIII ou XII a.C.[14].
  38. 38. 38 Uma necrópole supõe a existência de uma cidade. Por isso, Albanese e Dussaud prestaram atenção à colina vizinha, chamada Ras Shamra, de uns 20 metros de altitude, que tinha toda a aparência de ser um tell arqueológico, ou seja, um acúmulo de ruínas antigas, e que podia corresponder à cidade procurada. Um ano mais tarde, no dia 2 de abril de 1929, sob o comando de Claude F. A. Schaeffer, começaram as escavações, primeiro da necrópole, e logo em seguida, no dia 8 de maio, no tell, que tem um extensão de uns 25 hectares e se encontra a cerca de 800 metros da costa. Ao norte se vê o Jebel Aqra', "monte pelado", ou Monte Zafon (o monte Casius, dos romanos) que separa a região dos alauítas do vale e da desembocadura do rio Orontes. Poucos dias mais tarde, foram feitas as primeiras descobertas: tabuinhas de argila escritas em caracteres cuneiformes, objetos de bronze e de pedra... Foi o começo de uma série de descobertas numa escavação que se prolonga até os nossos dias. De 1929 a 1980 foram realizadas 40 campanhas arqueológicas no local, empreendimento só suspenso durante II Guerra Mundial. E as pesquisas ainda continuam. Os 5 níveis arqueológicos Os arqueólogos classificaram a seqüência estratigráfica em 5 níveis: 10 : 1500 - 1100 a.C. 20 : 2100 - 1500 a.C. 30 : 3000 - 2100 a.C. 40 : 4000 - 3000 a.C. 50 : ? - 4000 a.C. O nível 3 (3000-2100 a.C.) apresenta em suas camadas superiores cerâmica cananéia. Isto é interessante, porque, embora do ponto de vista geográfico Ugarit não se encontre em Canaã, do ponto de vista cultural e étnico esta é uma cidade cananéia. Esta época manifesta contato ou influência da cultura contemporânea da Baixa Mesopotâmia. O nível 2 (2100-1500 a.C.) nos indica uma cultura tipicamente semita na cidade: cerâmica e templos são de tipo cananeu. Mas há influências estrangeiras, vindas do Egito, da Mesopotâmia e da região do mar Egeu. A invasão dos hicsos não modificou substancialmente esta cultura, que continuou sendo semítica e cananéia. Chama a atenção, neste nível, toda uma necrópole com cerâmica cananéia. Tumbas familiares são feitas debaixo das casas, e guardam muitos utensílios e
  39. 39. 39 armas. O testemunho acerca do culto dos mortos na civilização cananéia, encontrado em Ugarit, é de grande importância para se entender a reação israelita ao tema presente na Bíblia Hebraica. O nível 1 (1500-1100 a.C.) mostra indícios de grande prosperidade no seu começo, refletidos nas construções amplas e nas tumbas da necrópole de Mina' al-bayda'. Construiu-se neste época um bairro marítimo. O estilo da cerâmica encontrada nas tumbas é ródio-cipriota. Um violento incêndio destruiu esta prosperidade, incêndio mencionado em uma das cartas de Tell el-Amarna, e verificado no tell por uma camada de cinzas que divide este nível em duas partes. A reconstrução foi esplêndida e dominada pela arte de estilo micênico. A ruína desta civilização, e com ela a da cidade, ocorre no começo da época do ferro, como conseqüência de um processo de decomposição social interna coincidente com a passagem dos "povos do mar". Os vestígios de ocupação posterior são de menor importância. A identificação da cidade A identificação do nome do local não foi difícil, pois os textos descobertos sugeriram imediatamente que se tratava de Ugarit (ú-ga-ri-it), já conhecida por referências da literatura egípcia e mesopotâmica, sobretudo pelas Cartas de Tell el-Amarna, onde se encontram algumas provenientes da própria Ugarit. Entre os textos encontrados aparece o nome da cidade. Os textos ugaríticos Os textos foram encontrados todos no primeiro nível, pertencendo, portanto, à última fase da cidade. Estavam principalmente na "Biblioteca" anexada ao templo de Baal e no "Palácio Real" ou "Grande Palácio", que possuía diversas dependências para arquivos. As tabuinhas estão redigidas em sete sistemas diferentes de escrita, correspondente a sete línguas diferentes: em hieróglifos egípcios, em hitita hieroglífico e cuneiforme, em acádico, em hurrita, em micênico linear e cipriota e em ugarítico. Os textos que nos interessam estão em ugarítico, um sistema cuneiforme alfabético, que foi decifrado em poucos meses por H. Bauer, E. Dhorme e Ch. Virolleaud. Nesta língua, que é uma forma do cananeu, foram encontrados cerca de 1300 textos O Ciclo de Baal O Ciclo de Baal (ou Ba'lu)[15] apresenta algumas dificuldades especiais dentro da literatura ugarítica: não é fácil determinar se temos um mito único, com rigorosa unidade de composição, ou se temos um ciclo que engloba diversas composições literárias, com tema e tramas próprios ou se estamos lidando com versões diferentes de um mesmo mito. Apesar do mesmo tom e da mesma concepção mitológica, da coerência e continuidade entre os diversos episódios que compõem o mito total, podemos estar falando de diferentes redações de um mesmo "mitema" ou de "mitemas diferentes". Isto sem contar que, também em Ugarit, há uma "história da tradição e da redação" dos textos, história essa que é dificílima de ser feita... Outra dificuldade é o número e a ordem das tabuinhas. G. del Olmo Lete, em Mitos y Leyendas de Canaán, exclui os fragmentos que por suas características externas, materiais ou epigráficas não podem constituir unidade editorial com os demais. Diz o autor: "Nos restam assim seis tabuinhas que podem representar uma versão ou redação unitária do ciclo mencionado. Delas, quatro (1.1,3,5,6) possuíam originalmente seis colunas de texto, três de cada lado (...). Suas dimensões
  40. 40. 40 eram mais ou menos as mesmas"[16]. As dimensões padrão são 26,5 x 19,5 cm e 26 x 22 cm. A divisão entre as colunas é feita por uma linha dupla profundamente marcada. O número de linhas conservadas por coluna oscila entre 62 e 65. A exceção fica por conta da tabuinha 4, que tem oito colunas e da tabuinha 2 que tem somente quatro colunas. Como é comum nas tabuinhas cuneiformes, a terceira coluna continua diretamente, ultrapassando a borda inferior, no verso. De modo que, a tabuinha não deve ser virada como uma página de um livro, mas de cima para baixo. Assim, enquanto as colunas do anverso estão dispostas da esquerda para a direita, as do reverso estão dispostas da direita para a esquerda, de modo que a correspondência anverso/reverso das colunas é a seguinte: 1/6, 2/5 e 3/4. A escrita ugarítica caminha da esquerda para a direita, segundo o uso da epigrafia cuneiforme. E o mais interessante no Ciclo de Baal é que as seis tabuinhas têm a mesma "caligrafia", ou seja, foram escritas pelo mesmo escriba que se identifica como Ilimilku em 1.6 e 1.16, junto com o nome do Sumo Sacerdote, Attanu-Purlianni, para quem trabalhou e que deve ter ditado o texto, e a quem deveremos considerar como o autor, redator ou, quem sabe, apenas o transmissor desta versão tradicional do mito de Baal e o nome do rei, Niqmaddu, que governou Ugarit de 1370 a 1335 a.C. KTU 1.6 VI diz, no seu final: El escriba fue Ilimilku, shubbani, discípulo de Attanu-Purlianni, Sumo Sacerdote, Pastor Máximo, Inspector de Niqmaddu, Rey de Ugarit Señor Formidable, Provisor de nuestro sustento. As tabuinhas do Ciclo de Baal foram encontradas todas nas campanhas arqueológicas de 1930, 1931 e 1933 e estão hoje no Museu do Louvre (1.1,2,5,6), Paris, e no Museu de Aleppo (1,3,4), Síria. Assim, as seis tabuinhas trazem um ciclo mitológico, composto de três mitos ou composições autônomas que giram cada uma em torno de um mitema particular: Luta entre Ba'lu e Yammu (1.1- 2), O palácio de Ba'lu (1,3-4) e a Luta entre Ba'lu e Môtu (1.5-6). O universo mitológico de Ugarit Entre os muitos deuses que constituem o panteão de Ugarit, apenas uns dez ou doze são ativos em sua literatura, enquanto alguns outros que ali aparecem têm um papel muito impreciso. Destacam- se:
  41. 41. 41 ILU (=EL) deus supremo, criador dos deuses e do homem BA'LU (=BAAL) chefe dos deuses, deus da chuva e da fertilidade, senhor da terra YAMMU (=YAM) deus do mar KÔTHARU (=KOSHAR-WAHASIS) deus artesão 'ATHTARU (='ATHTAR) deus do deserto 'ANATU (= 'ANAT) deusa do amor, da guerra e da fertilidade - esposa de Baal ATIRATU (= 'ASHERAH) esposa de El, deusa mãe MÔTU (= MÔT) deus da morte e da esterilidade 'ATHTARTU (= ASTARTÉ) esposa de Baal, deusa da guerra e da caça SHAPSHU deusa sol Abreviações usadas no texto CTA: A. Herdner, Corpus des tablettes en cunéiformes alphabétiques découvertes à Ras Shamra-Ugarit de 1929 a 1939, Paris, 1963. KTU: M. Dietrich - O. Loretz - J. Sanmartín, Die keilalphabetische Texte aus Ugarit. Einschliesslich der keilalphabetischen Texte ausserhalb Ugarits. Teil I Transcription, Neukirchen-Vluyn, Neukirchener Verlag, 1976. UT: C. H. GORDON, Ugaritic Textbook, Roma, Pontifical Biblical Institute, 1965. [13]. Cf. PRITCHARD, J. B. (ed.), Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (ANET), Princeton, Princeton University Press, 19693 , 274- 275. Cf. também DONNER, H., História de Israel e dos povos vizinhos. Volume 1: Dos primórdios até a formação do Estado, São Leopoldo, Sinodal/Vozes, 1997, pp. 48-49. [14]. Cf. DEL OLMO LETE, G., Mitos y Leyendas de Canaan según la Tradición de Ugarit, Madrid, Institución San Jerónimo & Ediciones Cristiandad, 1981, pp. 23-31; FREEDMAN, D. N. (ed.), The Anchor Bible Dictionary on CD-ROM, New York, Doubleday & Logos Research Systems, 1992, 1997, verbete Ugarit. [15]. G. del Olmo Lete adotou em sua obra a forma original semita na transcrição do nomes próprios, diferente da convencional que aparece na Bíblia Hebraica. Assim é que Baal é Ba'lu, El é Ilu e assim por diante. Cf., para o que se segue, DEL OLMO LETE, G., o. c., pp. 81-97. [16]. DEL OLMO LETE, o. c., p. 87. Para a ordem das tabuinhas, cf. a p. 83 da mesma obra, onde são apresentadas as opções de 17 especialistas. Para a posição de G. del Olmo Lete, cf. as pp. 88-89. Para outra hipótese, cf. CLIFFORD, R. J., Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible, p. 121.
  42. 42. 42 1.5. A Palestina Palestina é um nome derivado de "filisteus", em hebraico pelishtim, um povo que habitava a faixa costeira situada entre o Egito e a Fenícia. Os filisteus são de origem egéia, talvez de Creta. Faziam parte dos "povos do mar", que após 1175 a.C., mais ou menos, tentaram invadir o Egito, mas foram vencidos pelo faraó Ramsés III e passaram a viver naquela parte da Palestina. Canaã, ou terra de Canaã, é outro nome da região usado para designar esta terra, nome proveniente de seus antigos habitantes, os cananeus. Sob os hebreus, passou a ser chamada de terra de Israel, e mais tarde Judá ou Judéia, que era apenas uma parte de seu território. A superfície da Palestina é de 16.000 km2 , sem a Transjordânia. Contando com a Transjordânia, que nem sempre pertenceu a Israel, são 25.000 km2 de território. A superfície da Bélgica, mais ou menos. Do Mediterrâneo ao Jordão, no norte, são cerca de 48 km de largura e na altura do mar Morto são cerca de 80 km. O comprimento é de 250 km de Dan a Bersheba, ou de 320 km de Dan a Cades- Barnea, incluindo o deserto do Negueb nesta última, que não era propriamente território de Israel. Israel é uma zona subtropical, com chuvas de novembro a março e seca de abril a outubro. A temperatura vai de -2 a 45 graus Celsius, variando também segundo os lugares graças à topografia. Cai neve em Jerusalém e Jericó é muito quente. Tel-Aviv, Haifa e Tiberíades são quentes e úmidas. A população foi estimada por W. F. Albright e R. de Vaux, dois renomados biblistas e arqueólogos, em 800 mil habitantes, no período de Davi e Salomão, considerado até meados da década de 70 do século XX como o mais florescente da história de Israel. Mas hoje nem sabemos se houve um monarquia unida, quanto mais um Império davídico-salomômico. Por isso, é melhor não projetarmos a população para este período. Para a época do NT calcula-se: 500 mil habitantes na Palestina e 4 milhões no exterior (diáspora). Samaria, quando foi destruída pelos assírios em 722 a.C., teria cerca de 30 mil habitantes e a Jerusalém do tempo de Jesus também não passava de 25 a 30 mil habitantes fixos. A configuração geográfica é a seguinte: há duas cadeias de montanhas que percorrem a Palestina de norte a sul e são: a continuação do Líbano, Cisjordânia, e a continuação do Antilíbano, a Transjordânia. Entre estas duas cadeias está o vale do Jordão, numa depressão de 390 metros abaixo do nível do mar que vai do lago de Hule, ao norte, até o mar Morto, ao sul. Assim, podemos descrever a Palestina, quanto ao relevo em quatro faixas verticais, norte-sul: a Transjordânia, o vale jordânico, a Cisjordânia e a costa mediterrânea. 1.5.1. A Transjordânia As montanhas da Transjordânia são altas e apresentam profundas gargantas, por onde correm os afluentes ocidentais do Jordão. Do sul para o norte, os afluentes são: Zered, Arnon, Jabbok e Yarmuk. Na Transjordânia estavam antigamente os seguintes países ou regiões: Edom, Moab, Ammon, Galaad e Bashan. Edom é o país ocupado por um povo semita do deserto siro-arábico aí por volta de 1300 a.C. O país está ao sul do mar Morto, em um planalto de 1600 metros de altitude, 110 km de comprimento e 25
  43. 43. 43 km de largura. Seu limite ao norte é o rio Zered, ao sul o golfo de Aqaba. Sua capital, Sela. Outras cidades: Teman, uma fortaleza perto de Sela; Bosrah e Tofel, ao norte. A Bíblia costuma unir Teman e Bosrah para designar todo o país de Edom. Moab está situado entre os vales do Zered e do Arnon, porém levava freqüentemente sua fronteira ao norte do Arnon. Seu território principal está situado em um planalto de 1200 metros de altitude. As cidades do ano 3000 a.C. foram destruídas e abandonadas. Aí por volta de 1300 a.C. o país foi novamente ocupado por semitas nômades e pastores. Sua capital era Kir-hareseth (Kir, Kir-heres), a moderna Kerak. Outras cidades: Aroer, Dibon, Medeba e Heshbon. Cerca de oito km a oeste de Medeba está o monte Nebo (para a tradição sacerdotal) ou Pisgah (para a tradição eloísta) de onde Moisés teria contemplado a terra de Canaã e morrido. No tempo do NT, a sudoeste do monte Nebo estava a fortaleza de Maqueronte, onde Herodes Antipas mandou matar João Batista. Moab e Israel nunca foram amigos. A tribo de Rubens tentou se estabelecer na parte norte de seu território, mas foi expulsa. Sob Davi e Salomão, Moab foi submetida, mas se libertou logo após a divisão de 931 a.C. Antes de Israel adotar a monarquia como forma de governo, Moab já o fizera. Seu deus principal era Kemosh, ao qual eles ofereciam sacrifícios humanos. Sua língua se assemelha bastante ao hebraico. Ammon era uma tribo aramaica que se estabeleceu na região superior do Jabbok. Sua capital era Rabbath-Ammon, a atual Amman, capital da Jordânia. Parece que se estabeleceram aí em 1300 a.C., mais ou menos. Os limites de seu território não são bem definidos, e Ammon foi o mais fraco dos reinos transjordânicos. Esteve freqüentemente submetido a Israel, de quem sempre foi inimigo. Cultuavam os amonitas o deu Moloc (ou Melek), e sacrificavam-lhe crianças. Sua língua se assemelha ao aramaico. Galaad (ou Gilead) está também na região do Jabbok. Esta região foi conquistada pelos israelitas e habitada pelas tribos de Gad e Manassés. Seu território tem uns 60 km de norte a sul por 40 km leste-oeste e é bastante fértil. Chove bem e era coberta antigamente por densos bosques. Famoso era seu bálsamo e abundantes suas vinhas. Suas cidades principais: Penuel, Mahanaim, Succoth, Jabesh-Galaad, Ramoth-Galaad. No tempo do NT: Gerasa, Gadara, Pella. Bashan (ou Hauran) é uma região ao norte do Galaad, formada por férteis planícies, boas para o cultivo do trigo e À

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