1     Gilles DeleuzeDIFERENÇA E REPETIÇÃO        Tradução       Luiz Orlandi     Roberto Machado
2                                      SUMÁRIOGLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO________________________________________________ 7PRÓLO...
3    Lógica e ontologia da diferença segundo Leibniz: a vice-dicção (continuidade e indiscerníveis)_______ 55    De como a...
4    Primeiro postulado: o princípio da Cogitatio natura universalis _______________________________130    Segundo postula...
5    Os dinamismos ou dramas ____________________________________________________________206    Universalidade da dramatiz...
6A repetição, o idêntico e o negativo _____________________________________________________271As duas repetições__________...
7GLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO
8                                   PRÓLOGO       Os pontos fracos de um livro são freqüentemente a contrapartida de inten...
9disfarça e se desloca um "diferencial". Estas duas direções de pesquisa juntaram-seespontaneamente, pois, em todas as oca...
10singularidades são pré-individuais: o esplendor do "SE". Daí o aspecto de ficção científicaque deriva necessariamente de...
11                                     INTRODUÇÃO                          REPETIÇÃO E DIFERENÇARepetição e generalidade: ...
12amoroso da repetição. (É verdade que a repetição concerne também à cabeça, masprecisamente porque ela é seu terror ou se...
13       Todavia, do ponto de vista da própria experimentação científica, parece difícil negarqualquer relação da repetiçã...
14tédio. O Bem, ao contrário, nos daria a possibilidade da repetição, do sucesso da repetiçãoe da espiritualidade da repet...
15quanto nesta ascensão, como se a existência se retomasse e se "reiterasse" em si mesmadesde que já não seja coagida pela...
16de lei, reintroduzir o eterno retorno como lei da natureza? Em que se fundamentariaNietzsche, conhecedor dos gregos, ao ...
17repetição, é pela repetição que o Esquecimento se torna uma potência positiva e oinconsciente, um inconsciente superior ...
18Filosofia, um incrível equivalente do teatro, fundando, desta maneira, este teatro do futuroe, ao mesmo tempo, uma nova ...
19multiplicando as máscaras superpostas, inscrevendo a onipresença de Dioniso nestasuperposição, colocando aí o infinito d...
20seu bufão)5? Kierkegaard nos propõe um teatro da fé; e o que ele opõe ao movimentológico é o movimento espiritual, o mov...
21princípio dos indiscerníveis, há uma coisa e apenas uma por conceito. O conjunto destesprincípios forma a exposição da d...
22natureza, difere do bloqueio lógico: ele forma uma verdadeira repetição na existência emvez de constituir uma ordem de s...
23diferença conceitual indefinidamente continuada. Ela exprime uma potência própria doexistente, uma obstinação do existen...
24consciência se tem de recordá-lo  recorde, elabore a recordação para não repetir8. Aconsciência de si, na recognição, a...
25conceito ou da representação, isto nada muda em cada um destes casos. No primeiro caso,há repetição porque o conceito no...
26de morte como uma tendência a retornar ao estado de uma matéria inanimada, o quemantém o modelo de uma repetição totalme...
27a forma de um objeto idêntico ou semelhante. Eros e Tânatos distinguem-se no seguinte:Eros deve ser repetido, só pode se...
Deleuze, gilles. diferença e repetição
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Deleuze, gilles. diferença e repetição

  1. 1. 1 Gilles DeleuzeDIFERENÇA E REPETIÇÃO Tradução Luiz Orlandi Roberto Machado
  2. 2. 2 SUMÁRIOGLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO________________________________________________ 7PRÓLOGO ________________________________________________________________ 8INTRODUÇÃO ___________________________________________________________ 11 REPETIÇÃO E DIFERENÇA ___________________________________________________11 Repetição e generalidade: primeira distinção, do ponto de vista das condutas _____________________ 11 As duas ordens da generalidade: semelhança e igualdade _____________________________________ 11 Segunda distinção, do ponto de vista da lei ________________________________________________ 12 Repetição, lei da natureza e lei moral_____________________________________________________ 13 Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy__________________ 15 O verdadeiro movimento, o teatro e a representação _________________________________________ 17 Repetição e generalidade: terceira distinção, do ponto de vista do conceito _______________________ 20 A compreensão do conceito e o fenômeno do "bloqueio"______________________________________ 21 Os três casos de "bloqueio natural" e a repetição: conceitos nominais, conceitos da natureza, conceitos da liberdade_________________________________________________________________ 21 A repetição não se explica pela identidade do conceito; nem mesmo por uma condição apenas negativa____________________________________________________________________________ 24 As funções do "instinto de morte": a repetição em sua relação com a diferença e como sendo aquilo que exige um princípio positivo. (Exemplo dos conceitos da liberdade) __________________________ 25 As duas repetições: por identidade do conceito e condição negativa, por diferença e excesso na Idéia. (Exemplos dos conceitos naturais e nominais)______________________________________________28 O nu e o travestido na repetição _________________________________________________________ 31 Diferença conceitual e diferença sem conceito______________________________________________34 Mas o conceito da diferença (Idéia) não se reduz a uma diferença conceitual, assim como a essência positiva da repetição não se reduz a uma diferença sem conceito _______________________________ 35Capítulo I ________________________________________________________________ 36 A DIFERENÇA EM SI MESMA _________________________________________________36 A diferença e o fundo obscuro __________________________________________________________ 36 É preciso representar a diferença? os quatro aspectos da representação (quádrupla raiz)_____________ 39 o momento feliz, a diferença, o grande e o pequeno _________________________________________ 39 Diferença conceitual: a maior e a melhor__________________________________________________ 40 A lógica da diferença segundo Aristóteles e a confusão do conceito da diferença com a diferença conceitual __________________________________________________________________________ 41 Diferença específica e diferença genérica__________________________________________________ 42 Os quatro aspectos ou a subordinação da diferença: identidade do conceito, analogia do juízo, oposição dos predicados, semelhança do percebido __________________________________________ 42 A diferença e a representação orgânica ___________________________________________________ 43 Univocidade e diferença _______________________________________________________________ 45 Os dois tipos de distribuição ____________________________________________________________ 45 Impossibilidade de reconciliar a univocidade e a analogia ____________________________________ 47 Os momentos do unívoco: Duns Scot, Espinosa, Nietzsche____________________________________ 48 A repetição no eterno retorno define a univocidade do ser ____________________________________ 50 A diferença e a representação orgíaca (o infinitamente grande e o infinitamente pequeno)___________ 51 O fundamento como razão _____________________________________________________________ 52 Lógica e ontologia da diferença segundo Hegel: a contradição _________________________________ 53
  3. 3. 3 Lógica e ontologia da diferença segundo Leibniz: a vice-dicção (continuidade e indiscerníveis)_______ 55 De como a representação orgíaca ou infinita da diferença não escapa aos quatro aspectos precedentes __________________________________________________________________________________ 57 A diferença, a afirmação e a negação _____________________________________________________ 58 A ilusão do negativo __________________________________________________________________ 61 A eliminação do negativo e o eterno retorno _______________________________________________ 62 Lógica e ontologia da diferença segundo Platão_____________________________________________ 67 As figuras do método da divisão: os pretendentes, a prova-fundamento, as questões-problemas, o (não)-ser e o estatuto do negativo ________________________________________________________ 67 O que é decisivo no problema da diferença: o simulacro, a resistência do simulacro ________________ 73Capítulo II _______________________________________________________________ 76 A REPETIÇÃO PARA SI MESMA _______________________________________________76 A repetição: alguma coisa mudou________________________________________________________ 76 Primeira síntese do tempo: o presente vivo ________________________________________________ 76 Habitus, síntese passiva, contração, contemplação___________________________________________ 78 O problema do hábito _________________________________________________________________ 79 Segunda síntese do tempo: o passado puro_________________________________________________ 84 A Memória, o passado puro e a representação dos presentes___________________________________ 85 Os quatro paradoxos do passado_________________________________________________________ 86 A repetição no hábito e na memória______________________________________________________ 87 Repetição material e espiritual __________________________________________________________ 89 Cogito cartesiano e cogito kantiano ______________________________________________________ 90 O indeterminado, a determinação, o determinável___________________________________________ 90 O Eu rachado, o eu passivo e a forma vazia do tempo________________________________________ 91 insuficiência da memória: a terceira síntese do tempo________________________________________ 93 Forma, ordem, conjunto e série do tempo _________________________________________________ 94 A repetição na terceira síntese: sua condição por deficiência, seu agente de metamorfose, seu caráter incondicionado ______________________________________________________________________ 94 O trágico e o cômico, a história, a fé, do ponto de vista da repetição no eterno retorno ______________97 A repetição e o inconsciente: "Para além do princípio de prazer" _______________________________ 99 A primeira síntese e a ligação: Habitus __________________________________________________100 Segunda síntese: os objetos virtuais e o passado ___________________________________________102 Eros e Mnemósina __________________________________________________________________105 Repetição, deslocamento e disfarce: a diferença____________________________________________106 Conseqüências para a natureza do inconsciente: inconsciente serial, diferencial e questionante ______108 Em direção à terceira síntese ou ao terceiro "para além": o eu narcísico, o instinto de morte e a forma vazia do tempo ________________________________________________________________111 Instinto de morte, oposição e repetição material ___________________________________________113 Instinto de morte e repetição no eterno retorno ____________________________________________114 Semelhança e diferença ______________________________________________________________117 Que é um sistema? __________________________________________________________________119 O precursor sombrio e o "diferenciante" _________________________________________________120 O sistema literário___________________________________________________________________121 O fantasma ou simulacro e as três figuras do idêntico em relação à diferença ____________________124 A verdadeira motivação do platonismo está no problema do simulacro _________________________126 Simulacro e repetição no eterno retorno__________________________________________________127Capítulo III______________________________________________________________ 129 A IMAGEM DO PENSAMENTO _______________________________________________129 O problema dos pressupostos em Filosofia________________________________________________129
  4. 4. 4 Primeiro postulado: o princípio da Cogitatio natura universalis _______________________________130 Segundo postulado: o ideal do senso comum ______________________________________________132 O pensamento e a doxa _______________________________________________________________132 Terceiro postulado: o modelo da recognição ______________________________________________133 Ambigüidade da Crítica kantiana_______________________________________________________135 Quarto postulado: o elemento da representação ____________________________________________137 Teoria diferencial das faculdades _______________________________________________________137 O uso discordante das faculdades: violência e limite de cada uma _____________________________138 Ambigüidade do platonismo___________________________________________________________140 Pensar: sua gênese no pensamento ______________________________________________________142 Quinto postulado: o "negativo" do erro __________________________________________________146 Problema da besteira _________________________________________________________________148 Sexto postulado: o privilégio da designação_______________________________________________150 Sentido e proposição _________________________________________________________________151 Os paradoxos do sentido ______________________________________________________________151 Sentido e problema __________________________________________________________________153 Sétimo postulado: a modalidade das soluções _____________________________________________154 A ilusão das soluções na doutrina da verdade _____________________________________________156 Importância ontológica e epistemológica da categoria de problema ____________________________158 Oitavo postulado: o resultado do saber ___________________________________________________160 Que significa "aprender"?_____________________________________________________________160 Recapitulação dos postulados como obstáculos para uma filosofia da diferença e da repetição _______162Capítulo IV ______________________________________________________________ 163 SÍNTESE IDEAL DA DIFERENÇA _____________________________________________163 A Idéia como instância problemática ____________________________________________________163 Indeterminado, determinável e determinação: a diferença____________________________________164 A diferencial _______________________________________________________________________165 A quantitabilidade e o princípio de determinabilidade ______________________________________165 A qualitabilidade e o princípio de determinação recíproca ___________________________________166 A potencialidade e o princípio de determinação completa (a forma serial)_______________________168 Inutilidade do infinitamente pequeno no cálculo diferencial __________________________________170 Diferencial e problemático ____________________________________________________________172 Teoria dos problemas: dialética e ciência_________________________________________________173 Idéia e multiplicidade ________________________________________________________________176 As estruturas: seus critérios, os tipos de Idéias_____________________________________________177 Procedimento da vice-dicção: o singular e o regular, o relevante e o ordinário ___________________182 A Idéia e a teoria diferencial das faculdades ______________________________________________183 Problema e questão __________________________________________________________________186 Os imperativos e o jogo_______________________________________________________________188 A Idéia e a repetição _________________________________________________________________191 A repetição, o relevante e o ordinário____________________________________________________192 A ilusão do negativo _________________________________________________________________193 Diferença, negação e oposição _________________________________________________________194 Gênese do negativo __________________________________________________________________196 Idéia e virtualidade __________________________________________________________________199 A realidade do virtual: ens omni modo... _________________________________________________199 Diferençação e diferenciação; as duas metades do objeto ____________________________________199 Os dois aspectos de cada metade _______________________________________________________200 A distinção do virtual e do possível _____________________________________________________201 O inconsciente diferencial; o distinto-obscuro _____________________________________________203 A diferenciação como processo de atualização da Idéia______________________________________204
  5. 5. 5 Os dinamismos ou dramas ____________________________________________________________206 Universalidade da dramatização________________________________________________________208 ç A noção complexa de diferen ação _____________________________________________209 ciCapítulo V_______________________________________________________________ 211 SÍNTESE ASSIMÉTRICA DO SENSÍVEL _______________________________________211 A diferença e o diverso _______________________________________________________________211 Diferença e intensidade_______________________________________________________________212 A anulação da diferença ______________________________________________________________212 Bom senso e senso comum ____________________________________________________________213 A diferença e o paradoxo _____________________________________________________________215 Intensidade, qualidade, extensão: a ilusão da anulação ______________________________________216 A profundidade ou spatium ___________________________________________________________218 Primeira característica da intensidade: o desigual em si _____________________________________220 Papel do desigual no número __________________________________________________________221 Segunda característica: afirmar a diferença _______________________________________________222 A ilusão do negativo _________________________________________________________________223 O ser do sensível ____________________________________________________________________225 Terceira característica: a implicação ____________________________________________________226 Diferença de natureza e diferença de grau ________________________________________________227 A energia e o eterno retorno ___________________________________________________________229 A repetição no eterno retorno não é qualitativa nem extensiva, mas intensiva ____________________229 Intensidade e diferencial______________________________________________________________234 Papel da individuação na atualização da Idéia _____________________________________________235 Individuação e diferenciação __________________________________________________________235 A individuação é intensiva ____________________________________________________________236 Diferença individual e diferença individuante _____________________________________________238 "Perplicação", "implicação", "explicação" ________________________________________________240 Evolução dos sistemas________________________________________________________________243 Os centros de envolvimento ___________________________________________________________244 Fatores individuantes, Eu [Je] e Eu [Moi] ________________________________________________245 Natureza e função de outrem nos sistemas psíquicos ________________________________________247CONCLUSÃO ___________________________________________________________ 250 DIFERENÇA E REPETIÇÃO __________________________________________________250 Crítica da representação ______________________________________________________________250 Inutilidade da alternativa finito-infinito__________________________________________________251 Identidade, semelhança, oposição e analogia: como elas traem a diferença (as quatro ilusões) , ______252 Mas como elas também traem a repetição ________________________________________________257 O fundamento como razão: seus três sentidos _____________________________________________259 Do fundamento ao sem-fundo__________________________________________________________260 individuações impessoais e singularidades pré-individuais ___________________________________263 O simulacro________________________________________________________________________264 Teoria das Idéias e dos problemas ______________________________________________________265 Outrem ___________________________________________________________________________267 Os dois tipos de jogo: suas características ________________________________________________268 Crítica das categorias ________________________________________________________________270
  6. 6. 6A repetição, o idêntico e o negativo _____________________________________________________271As duas repetições___________________________________________________________________272Patologia e arte, estereotipia e refrão: a arte como lugar de coexistência de todas as repetições ______275Em direção a uma terceira repetição, ontológica ___________________________________________277A forma do tempo e as três repetições ___________________________________________________278Força seletiva da terceira: o eterno retorno e Nietzsche (os simulacros) _________________________280O que não retorna ___________________________________________________________________282Os três sentidos do Mesmo: a ontologia, a ilusão e o erro ____________________________________284Analogia do ser e representação, univocidade do ser e repetição_______________________________286
  7. 7. 7GLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO
  8. 8. 8 PRÓLOGO Os pontos fracos de um livro são freqüentemente a contrapartida de intenções vaziasque não soubemos realizar. Neste sentido, uma declaração de intenção dá testemunho deuma real modéstia em relação ao livro ideal. É freqüentemente dito que os prefáciosdevem ser lidos apenas no fim e que as conclusões, inversamente, devem ser lidas noinício. Isto é verdadeiro a respeito de nosso livro, de modo que a leitura de sua conclusãopoderia tornar inútil a leitura do resto. O assunto aqui tratado está manifestamente no ar, podendo-se ressaltar como seussinais: a orientação cada vez mais acentuada de Heidegger na direção de uma filosofia daDiferença ontológica; o exercício do estruturalismo, fundado numa distribuição decaracteres diferenciais num espaço de coexistência; a arte do romance contemporâneo,que gira em torno da diferença e da repetição não só em sua mais abstrata reflexão comotambém em suas técnicas efetivas; a descoberta, em todos os domínios, de uma potênciaprópria de repetição, potência que também seria a do inconsciente, da linguagem, da arte.Todos estes sinais podem ser atribuídos a um anti-hegelianismo generalizado: a diferença ea repetição tomaram o lugar do idêntico e do negativo, da identidade e da contradição,pois a diferença só implica o negativo e se deixa levar até a contradição na medida em quese continua a subordiná-la ao idêntico. O primado da identidade, seja qual for a maneirapela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamento modernonasce da falência da representação, assim como da perda das identidades, e da descobertade todas as forças que agem sob a representação do idêntico. O mundo moderno é o dossimulacros. Nele, o homem não sobrevive a Deus, nem a identidade do sujeito sobrevive àidentidade da substância. Todas as identidades são apenas simuladas, produzidas como um"efeito" óptico por um jogo mais profundo, que é o da diferença e da repetição. Queremospensar a diferença em si mesma e a relação do diferente com o diferente,independentemente das formas da representação que as conduzem ao Mesmo e as fazempassar pelo negativo. Nossa vida moderna é tal que, encontrando-nos diante das repetições maismecânicas, mais estereotipadas, fora de nós e em nós, não cessamos de extrair delaspequenas diferenças, variantes e modificações. Inversamente, repetições secretas,disfarçadas e ocultas, animadas pelo deslocamento perpétuo de uma diferença, restituemem nós e fora de nós repetições nuas, mecânicas e estereotipadas. No simulacro, arepetição já incide sobre repetições e a diferença já incide sobre diferenças. São repetiçõesque se repetem e é o diferenciante que se diferencia. A tarefa da vida é fazer com quecoexistam todas as repetições num espaço em que se distribui a diferença. Há duasdireções de pesquisa na origem deste livro: uma concerne ao conceito de diferença semnegação, precisamente porque a diferença, não sendo subordinada ao idêntico, não iria ou"não teria de ir" até a oposição e a contradição; a outra concerne a um conceito derepetição tal que as repetições físicas, mecânicas ou nuas (repetição do Mesmo)encontrariam sua razão nas estruturas mais profundas de uma repetição oculta, em que se
  9. 9. 9disfarça e se desloca um "diferencial". Estas duas direções de pesquisa juntaram-seespontaneamente, pois, em todas as ocasiões, estes conceitos de uma diferença pura e deuma repetição complexa pareciam reunir-se e confundir-se. À divergência e aodescentramento perpétuos da diferença correspondem rigorosamente um deslocamento eum disfarce na repetição. Há muitos perigos em invocar diferenças puras, liberadas do idêntico, tornadasindependentes do negativo. O maior perigo é cair nas representações da bela-alma: apenasdiferenças, conciliáveis e federáveis, longe das lutas sangrentas. A bela-alma diz: somosdiferentes, mas não opostos... E a noção de problema, que veremos estar ligada à noçãode diferença, também parece nutrir os estados de uma bela-alma: só contam os problemase as questões... Todavia, acreditamos que, quando os problemas atingem o grau depositividade que lhes é próprio e quando a diferença torna-se objeto de uma afirmaçãocorrespondente, eles liberam uma potência de agressão e de seleção que destrói a bela-alma, destituindo-a de sua própria identidade e alquebrando sua boa vontade. Oproblemático e o diferencial determinam lutas ou destruições em relação às quais as donegativo não passam de aparência e os votos da bela-alma não passam igualmente demistificações na aparência. Não é próprio do simulacro ser uma cópia, mas reverter todasas cópias, revertendo também os modelos: todo pensamento torna-se uma agressão. Um livro de Filosofia deve ser, por um lado, um tipo muito particular de romancepolicial e, por outro, uma espécie de ficção científica. Por romance policial, queremosdizer que os conceitos devem intervir, com uma zona de presença, para resolver umasituação local. Modificam-se com os problemas. Têm esferas de influência em que, comoveremos, se exercem em relação a "dramas" e por meio de uma certa "crueldade". Devemter uma coerência entre si, mas tal coerência não deve vir deles. Devem receber suacoerência de outro lugar. É este o segredo do empirismo. De modo algum é o empirismo uma reação contraos conceitos, nem um simples apelo à experiência vivida. Ao contrário, ele empreende amais louca criação de conceitos, uma criação jamais vista e maior que todas aquelas deque se ouviu falar. O empirismo é o misticismo do conceito e seu matematismo. Mas,precisamente, ele trata o conceito como o objeto de um encontro, como um aqui-agora,ou melhor, como um Erewhon de onde saem, inesgotáveis, os "aqui" e os "agora" semprenovos, diversamente distribuídos. Só o empirista pode dizer: os conceitos são as própriascoisas, mas as coisas em estado livre e selvagem, para além dos "predicadosantropológicos". Eu faço, refaço e desfaço meus conceitos a partir de um horizontemovente, de um centro sempre descentrado, de uma periferia sempre deslocada que osrepete e os diferencia. Cabe à Filosofia moderna sobrepujar a alternativa temporal-intemporal, histórico-eterno, particular-universal. Graças a Nietzsche, descobrimos ointempestivo como sendo mais profundo que o tempo e a eternidade: a Filosofia não éFilosofia da História, nem Filosofia do eterno, mas intempestiva, sempre e sóintempestiva, isto é, "contra este tempo, a favor, espero, de um tempo que virá". Graças aSamuel Butler, descobrimos o Erewhon como aquilo que significa, ao mesmo tempo, o"parte alguma" originário  e o "aqui-agora" deslocado, disfarçado, modificado, semprerecriado. Nem particularidades empíricas nem universal abstrato: Cogito para um eudissolvido. Acreditamos num mundo em que as individuações são impessoais e em que as
  10. 10. 10singularidades são pré-individuais: o esplendor do "SE". Daí o aspecto de ficção científicaque deriva necessariamente desse Erewhon. O que este livro deveria apresentar, portanto,é o acesso a uma coerência que já não é a nossa, a do homem, nem a de Deus nem a domundo. Neste sentido, deveria ser um livro apocalíptico (o terceiro tempo na série dotempo). Ficção científica também no sentido em que os pontos fracos se revelam. Aoescrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemosmal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos naextremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossaignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados aescrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-laimpossível. Talvez tenhamos aí, entre a escrita e a ignorância, uma relação ainda maisameaçadora que a relação geralmente apontada entre a escrita e a morte, entre a escrita eo silêncio. Falamos, pois, de ciência, mas de uma maneira que, infelizmente, sentimos nãoser científica. Aproxima-se o tempo em que já não será possível escrever um livro de Filosofiacomo há muito tempo se faz: "Ah! O velho estilo..." A pesquisa de novos meios deexpressão filosófica foi inaugurada por Nietzsche e deve prosseguir, hoje, relacionada àrenovação de outras artes, como, por exemplo, o teatro ou o cinema. A este respeito,podemos, desde já, levantar a questão da utilização da História da Filosofia. Parece-nosque a História da Filosofia deve desempenhar um papel bastante análogo ao da colagemnuma pintura. A História da Filosofia é a reprodução da própria Filosofia. Seria precisoque a resenha em História da Filosofia atuasse como um verdadeiro duplo e quecomportasse a modificação máxima própria do duplo. (imagina-se um Hegelfilosoficamente barbudo, um Marx filosoficamente glabro, do mesmo modo que umaGioconda bigoduda). Seria preciso expor um livro real da Filosofia passada como se setratasse de um livro imaginário e fingido. Sabe-se que Borges se sobressai na resenha delivros imaginários. Mas ele vai mais longe quando considera um livro real, o Don Quixote,por exemplo, como se fosse um livro imaginário, ele próprio reproduzido por um autorimaginário, Pierre Ménard, que ele, por sua vez, considera como real. Então, a mais exatarepetição, a mais rigorosa repetição, tem, como correlato, o máximo de diferença ("otexto de Cervantes e o de Ménard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quaseinfinitamente mais rico..."). As resenhas de História da Filosofia devem representar umaespécie de desaceleração, de congelamento ou de imobilização do texto: não só do textoao qual eles se relacionam, mas também do texto no qual eles se inserem. Deste modo,elas têm uma existência dupla e comportam, como duplo ideal, a pura repetição do textoantigo e do texto atual um no outro. Eis por que, para nos aproximarmos desta duplaexistência, tivemos algumas vezes de integrar notas históricas em nosso próprio texto.
  11. 11. 11 INTRODUÇÃO REPETIÇÃO E DIFERENÇARepetição e generalidade: primeira distinção, do ponto de vista das condutas A repetição não é a generalidade. De várias maneiras deve a repetição serdistinguida da generalidade. Toda fórmula que implique sua confusão é deplorável, comoquando dizemos que duas coisas se assemelham como duas gotas dágua ou quandoidentificamos "só há ciência do geral" e "só há ciência do que se repete". Entre a repetiçãoe a semelhança, mesmo extrema, a diferença é de natureza.As duas ordens da generalidade: semelhança e igualdade A generalidade apresenta duas grandes ordens: a ordem qualitativa das semelhançase a ordem quantitativa das equivalências. Os ciclos e as igualdades são seus símbolos.Mas, de toda maneira, a generalidade exprime um ponto de vista segundo o qual um termopode ser trocado por outro, substituído por outro. A troca ou a substituição dosparticulares define nossa conduta em correspondência com a generalidade. Eis por que osempiristas não se enganam ao apresentar a idéia geral como uma idéia em si mesmaparticular, à condição de a ela acrescentar um sentimento de poder substituí-la porqualquer outra idéia particular que se lhe assemelhe sob a relação de uma palavra. Nós, aocontrário, vemos bem que a repetição só é uma conduta necessária e fundada apenas emrelação ao que não pode ser substituído. Como conduta e como ponto de vista, arepetição concerne a uma singularidade não trocável, insubstituível. Os reflexos, os ecos,os duplos, as almas não são do domínio da semelhança ou da equivalência; e assim comonão há substituição possível entre os verdadeiros gêmeos, também não há possibilidade dese trocar de alma. Se a troca é o critério da generalidade, o roubo e o dom são os critériosda repetição. Há, pois, uma diferença econômica entre as duas. Repetir é comportar-se, mas em relação a algo único ou singular, algo que não temsemelhante ou equivalente. Como conduta externa, esta repetição talvez seja o eco de umavibração mais secreta, de uma repetição interior e mais profunda no singular que a anima.A festa não tem outro paradoxo aparente: repetir um "irrecomeçável". Não acrescentaruma segunda e uma terceira vez à primeira, mas elevar a primeira vez à "enésima"potência. Sob esta relação da potência, a repetição se reverte, interiorizando-se. Como dizPéguy, não é a festa da Federação que comemora ou representa a tomada da Bastilha; é atomada da Bastilha que festeja e repete de antemão todas as Federações; ou, ainda, é aprimeira ninféia de Monet que repete todas as outras1. Opõe-se, pois, a generalidade,como generalidade do particular, e a repetição, como universalidade do singular. Repete-se uma obra de arte como singularidade sem conceito, e não é por acaso que um poemadeve ser aprendido de cor. A cabeça é o órgão das trocas, mas o coração é o órgão1 Cf. Charles PÉGUY, Clio, 1917 (N.R.F., 33ª éd.), p. 45,p 114.
  12. 12. 12amoroso da repetição. (É verdade que a repetição concerne também à cabeça, masprecisamente porque ela é seu terror ou seu paradoxo.) Pius Servien distinguia, comjusteza, duas linguagens: a linguagem das ciências, dominada pelo símbolo da igualdade,onde cada termo pode ser substituído por outros, e a linguagem lírica, em que cada termo,insubstituível, só pode ser repetido2. Pode-se sempre "representar" a repetição como umasemelhança extrema ou uma equivalência perfeita. Mas passar gradativamente de umacoisa a outra não impede que haja diferença de natureza entre as duas coisas.Segunda distinção, do ponto de vista da lei Por outro lado, a generalidade é da ordem das leis. Mas a lei só determina asemelhança dos sujeitos que estão a ela submetidos e sua equivalência aos termos que eladesigna. Em vez de fundar a repetição, a lei mostra antes de tudo como a repetiçãopermaneceria impossível para puros sujeitos da lei  os particulares. Ela os condena amudar. Forma vazia da diferença, forma invariável da variação, a lei constrange seussujeitos a só ilustrá-la à custa de suas próprias mudanças. Sem dúvida, há constantes assimcomo variáveis nos termos designados pela lei; e há permanências na natureza,perseveranças, assim como fluxos e variações. Mas uma perseverança não faz umarepetição. As constantes de uma lei, por sua vez, são variáveis de uma lei mais geral, algoassim como os mais duros rochedos tornando-se matérias moles e fluídas na escalageológica de um milhão de anos. A cada nível, é com relação a grandes objetospermanentes na natureza que um sujeito da lei experimenta sua própria impotência emrepetir e descobre que essa impotência já está compreendida no objeto, refletida no objetopermanente, onde ele vê sua condenação. A lei reúne a mudança das águas à permanênciado rio. Élie Faure dizia de Watteau: "Ele colocou o que há de mais passageiro naquilo quenosso olhar encontra de mais durável, o espaço e os grandes bosques". É o método doséculo XVIII. Em La Nouvelle Héloise, Wolmar fez disto um sistema: a impossibilidadeda repetição, a mudança como condição geral a que a lei da Natureza parece condenartodas as criaturas particulares, era apreendida em relação a termos fixos (eles próprios,sem dúvida, sendo variáveis em relação a outras permanências, em. função de outras leismais gerais). Tal é o sentido do bosquete, da gruta, do objeto "sagrado". Saint-Preuxaprende que não pode repetir, não só em razão de suas mudanças e das de Julie, mas emrazão das grandes permanências da natureza, permanências que adquirem um valorsimbólico e não deixam de exclui-lo de uma verdadeira repetição. Se a repetição épossível, é por ser mais da ordem do milagre que da lei. Ela é contra a lei: contra a formasemelhante e o conteúdo equivalente da lei. Se a repetição pode ser encontrada, mesmo nanatureza, é em nome de uma potência que se afirma contra a lei, que trabalha sob as leis,talvez superior às leis. Se a repetição existe, ela exprime, ao mesmo tempo, umasingularidade contra o geral, uma universalidade contra o particular, um relevante contra oordinário, uma instantaneidade contra a variação, uma eternidade contra a permanência.Sob todos os aspectos, a repetição é a transgressão. Ela põe a lei em questão, denunciaseu caráter nominal ou geral em proveito de uma realidade mais profunda e mais artística.2 Pius SERVIEN, Principes d’esthétique (Boivin, 1935), pp. 3-5; Science et poésie (Flammarion, 1947),pp. 44-47.
  13. 13. 13 Todavia, do ponto de vista da própria experimentação científica, parece difícil negarqualquer relação da repetição com a lei. Devemos perguntar, porém, em que condições aexperimentação assegura uma repetição. Os fenômenos da natureza produzem-se ao arlivre, toda inferência sendo possível em vastos ciclos de semelhança: é neste sentido quetudo reage sobre tudo e que tudo se assemelha a tudo (semelhança do diverso consigomesmo). Mas a experimentação constitui meios relativamente fechados, em que definimosum fenômeno em função de um pequeno número de fatores selecionados (dois, nomínimo, o espaço e o tempo, por exemplo, para o movimento de um corpo em geral novazio). Assim, não há por que interrogar-se sobre a aplicação da matemática à Física: aFísica é imediatamente Matemática, sendo que os fatores retidos ou os meios fechadosconstituem, do mesmo modo, sistemas de coordenadas geométricas. Nestas condições, ofenômeno aparece necessariamente como igual a uma certa correlação quantitativa entrefatores selecionados. Trata-se, pois, na experimentação, de substituir uma ordem degeneralidade por outra: uma ordem de igualdade por uma ordem de semelhança.Semelhanças são desfeitas para se descobrir uma igualdade que permita identificar umfenômeno nas condições particulares da experimentação. A repetição só aparece, aqui, napassagem de uma ordem de generalidade a outra, aflorando por ocasião desta passagem egraças a ela. Tudo se passa como se a repetição despontasse num instante, entre as duasgeneralidades, sob duas generalidades. Mas, ainda aí, corre-se o risco de tomar comosendo uma diferença de grau o que difere por natureza, pois a generalidade só representa esupõe uma repetição hipotética: se as mesmas circunstâncias são dadas, então... Estafórmula significa: em totalidades semelhantes, poder-se-á sempre reter e selecionar fatoresidênticos que representam o ser-igual do fenômeno. Assim procedendo, não nos damosconta, porém, daquilo que instaura a repetição, nem daquilo que há de categórico ou é dedireito na repetição (o que é de direito é "n" vezes como potência de uma só vez, sem quehaja necessidade de se passar por uma segunda, por uma terceira vez). Em sua essência, arepetição remete a uma potência singular que difere por natureza da generalidade, mesmoquando ela, para aparecer, se aproveita da passagem artificial de uma ordem geral a outra.Repetição, lei da natureza e lei moral O erro "estóico" é esperar a repetição da lei da natureza. O sábio deve converter-seem virtuoso; o sonho de encontrar uma lei que torne possível a repetição passa para o ladoda lei moral. Sempre uma tarefa a ser recomeçada, uma fidelidade a ser retomada numavida cotidiana que se confunde com a reafirmação do Dever. Büchner faz Danton dizer:"É muito fastidioso vestir, inicialmente, uma camisa, depois, uma calça, e, à noite, ir parao leito e dele sair pela manhã, e colocar sempre um pé diante do outro. Há muito poucaesperança de que isso venha a mudar. É muito triste que milhões de pessoas tenham feitoassim, que outros milhões venham a fazê-lo depois de nós e que, ainda por cima, sejamosconstituídos por duas metades que fazem, ambas, a mesma coisa, de modo que tudo seproduza duas vezes". Mas de que serviria a lei moral se ela não santificasse a reiteração e,sobretudo, se ela não a tornasse possível, dando-nos um poder legislativo, do qual nosexclui a lei da natureza? Acontece que o moralista apresenta as categorias do Bem e doMal sob as seguintes espécies: toda vez que tentamos repetir segundo a natureza, comoseres da natureza (repetição de um prazer, de um passado, de uma paixão), lançamo-nosnuma tentativa demoníaco, desde já maldita, que só tem como saída o desespero ou o
  14. 14. 14tédio. O Bem, ao contrário, nos daria a possibilidade da repetição, do sucesso da repetiçãoe da espiritualidade da repetição, porque dependeria de uma lei que já não seria a danatureza, mas a do dever, da qual só seríamos sujeitos se fossemos legisladores, comoseres morais. O que Kant chama de a mais alta prova, o que é senão a prova depensamento que deve determinar o que pode ser reproduzido de direito, isto é, o que podeser repetido sem contradição sob a forma da lei moral? O homem do dever inventou uma"prova" da repetição, determinou o que podia ser repetido do ponto de vista do direito.Ele estima, pois, ter vencido o demoníaco e o fastidioso, ao mesmo tempo. Como um ecodas preocupações de Danton, como uma resposta a essas preocupações, não há moralismoaté neste surpreendente suporte para meias que Kant confeccionou para si, neste aparelhode repetição que seus biógrafos descrevem com tanta precisão, assim como na fixidez deseus passeios cotidianos (moralismo, no sentido em que a negligência na toalete e a faltade exercício fazem parte das condutas cuja máxima não pode, sem contradição, serpensada como lei universal, nem ser, portanto, objeto de uma repetição de direito)? Mas é esta a ambigüidade da consciência: ela só pode pensar-se, colocando a leimoral como exterior, superior, indiferente à lei da natureza, mas ela só pode pensar aaplicação da lei moral, restaurando nela própria a imagem e o modelo da lei da natureza.Deste modo, a lei moral, em vez de nos dar uma verdadeira repetição, deixa-nos ainda nageneralidade. Desta vez, a generalidade já não é a da natureza, mas a do hábito comosegunda natureza. É inútil invocar a existência de hábitos imorais, de maus hábitos; o queé essencialmente moral, o que em a forma do bem, é a forma do hábito ou, como diziaBergson, o hábito de adquirir hábitos (o todo da obrigação). Ora, neste todo ou nestageneralidade do hábito reencontramos as duas grandes ordens: a ordem das semelhanças,na conformidade variável dos elementos da ação em relação a um modelo suposto,enquanto o hábito não foi adquirido; a ordem das equivalências, com a igualdade deelementos da ação em situações diversas, desde que o hábito tenha sido adquirido. De talmodo que o hábito nunca forma uma verdadeira repetição: ora é a ação que muda e seaperfeiçoa, permanecendo constante uma intenção; ora a ação permanece igual em meio aintenções e contextos diferentes. Ainda aí, se a repetição é possível, ela só aparece entreduas generalidades, sob estas duas generalidades, a de aperfeiçoamento e a de integração,pronta para revertê-las, dando testemunho de outra potência. Se a repetição é possível, ela o é tanto contra a lei moral quanto contra a lei danatureza. São conhecidas duas maneiras de reverter a lei imoral: seja por uma ascensãoaos princípios, contestando-se, então, a ordem da lei como secundária, derivada,emprestada, "geral", denunciando-se na lei um princípio de segunda mão que desvia umaforça ou usurpa uma potência originais; seja, ao contrário, e neste caso a lei é aindamelhor revertida, por uma descida às conseqüências e uma submissão minuciosa demais,de modo que, à força de esposar a lei, uma alma falsamente submissa chega a alterá-la e agozar os prazeres que se julgava proibidos. Vemos bem isto em todas as demonstraçõespor absurdo, nas abstenções por excesso de zelo, mas também em alguns comportamentosmasoquistas de escárnio por submissão. A primeira maneira de reverter a lei é irônica, aironia aí aparecendo como arte dos princípios, da ascensão aos princípios e da reversãodos princípios. A segunda é o humor, que é uma arte das conseqüências e das descidas,das suspensões e das quedas. Significa isso que a repetição surge tanto nesta suspensão
  15. 15. 15quanto nesta ascensão, como se a existência se retomasse e se "reiterasse" em si mesmadesde que já não seja coagida pelas leis? A repetição pertence ao humor e à ironia, sendopor natureza transgressão, exceção, e manifestando sempre uma singularidade contra osparticulares submetidos à lei, um universal contra as generalidades que estabelecem a lei.Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy Há uma força comum a Kierkegaard e a Nietzsche. (Seria preciso aí incluir Péguypara se formar o tríptico do pastor, do anticristo e do católico. Cada um dos três, a suamaneira, faz da repetição não só uma potência própria da linguagem e do pensamento, umpathos e uma patologia superior, mas também a categoria fundamental da Filosofia dofuturo. A cada um deles corresponde um Testamento e também um Teatro, umaconcepção de teatro e um personagem eminente nesse teatro, como herói da repetição: Jó-Abraão, Dioniso-Zaratustra, Joana dArc-Clio.) O que os separa é considerável, manifesto,bem conhecido. Mas nada apagará este prodigioso encontro em torno de um pensamentoda repetição: eles opõem a repetição a todas as formas da generalidade. E eles não tomama palavra "repetição" de maneira metafórica; ao contrário, têm uma certa maneira detomá-la ao pé da letra e de introduzi-la no estilo. Pode-se, deve-se, inicialmente, enumeraras principais proposições que marcam a coincidência entre eles: 1ª Fazer da própria repetição algo novo; ligá-la a uma prova, a uma seleção, a umaprova seletiva; colocá-la como objeto supremo da vontade e da liberdade. Kierkegaardprecisa: não tirar da repetição algo novo, não lhe transvasar algo novo, pois só acontemplação, o espírito que contempla de fora, "transvasa". Trata-se, ao contrário, deagir, de fazer da repetição como tal uma novidade, isto é, uma liberdade e uma tarefa daliberdade. E Nietzsche: liberar a vontade de tudo o que a encadeia, fazendo da repetição opróprio objeto do querer. Sem dúvida, a repetição é já o que encadeia; mas, se se morrepor causa da repetição, é também ela que salva e cura, e cura, primeiramente, da outrarepetição. Há, portanto, na repetição, ao mesmo tempo, todo o jogo místico da perdição eda salvação, todo o jogo teatral da morte e da vida, todo o jogo positivo da doença e dasaúde (cf. Zaratustra doente e Zaratustra convalescente, graças a uma mesma potência,que é a da repetição no eterno retorno). 2ª Assim sendo, opor a repetição às leis da Natureza. Kierkegaard declara que demodo algum ele fala da repetição na natureza, dos ciclos ou das estações, das trocas e dasigualdades. Ainda mais: se a repetição concerne ao mais interior da vontade, é porquetudo muda em torno da vontade, em conformidade com a lei da natureza. Segundo a lei danatureza, a repetição é impossível. Eis por que Kierkegaard condena, sob o nome derepetição estética, todo esforço para obter a repetição das leis da natureza, não só como oepicurista, mas mesmo como o estóico que se identifica com o princípio que legisla.Talvez se diga que a situação não é tão clara em Nietzsche. Todavia, as declarações deNietzsche são formais. Se ele descobre a repetição na Physis, é porque, na própria Physis,ele descobre algo superior ao reino das leis: uma vontade querendo a si própria através detodas as mudanças, uma potência contra a lei, um interior da terra que se opõe às leis dasuperfície. Nietzsche opõe "sua" hipótese à hipótese cíclica. Ele concebe a repetição noeterno retorno como Ser, mas opõe este ser a toda forma legal, tanto ao ser-semelhantequanto ao ser-igual. E como poderia o pensador, que levou mais longe a crítica da noção
  16. 16. 16de lei, reintroduzir o eterno retorno como lei da natureza? Em que se fundamentariaNietzsche, conhecedor dos gregos, ao estimar seu próprio pensamento como prodigioso enovo, se ele se contentasse em formular esta insipidez natural, esta generalidade danatureza, tão conhecida pelos Antigos? Por duas vezes, Zaratustra corrige as másinterpretações do eterno retorno: com cólera, contra seu demônio ("Espírito degravidade... não simplifiques demasiado as coisas!"); com doçura, contra seus animais ("Òtravessos, ó repetidores... já fizestes disto um refrão! "). O refrão é o eterno retorno comociclo ou circulação, como ser-semelhante e como ser-igual, em suma, como certeza animalnatural e como lei sensível da própria natureza. 3ª Opor a repetição à lei moral, fazer dela a suspensão da Ética, o pensamento dopara além do bem e do mal. A repetição aparece como o logos do solitário, do singular, ologos do "pensador privado". Em Kierkegaard e em Nietzsche desenvolve-se a oposiçãoentre o pensador privado, o pensador-cometa, portador da repetição, e o professorpúblico, doutor da lei, cujo discurso de segunda mão procede por mediação e tem comofonte moralizante a generalidade dos conceitos (cf. Kierkegaard contra Hegel, Nietzschecontra Kant e Hegel, e, deste ponto de vista, Péguy contra a Sorbonne). Jó é acontestação infinita e Abraão é a resignação infinita, mas os dois são uma mesma coisa. Jópõe em questão a lei, de maneira irônica, recusa todas as explicações de segunda mão,destitui o geral para atingir o mais singular como princípio, como universal. Abraão sesubmete humoristicamente à lei, mas, nesta submissão, reencontra, precisamente, asingularidade do filho único que a lei ordenava sacrificar. Tal como a entendeKierkegaard, a repetição é o correlato transcendente, comum à contestação e à resignaçãocomo intenções psíquicas. (E os dois aspectos podem ser reencontrados nodesdobramento de Péguy: Joana dArc e Gervaise.) No fulgurante ateísmo de Nietzsche, oódio à lei e o amor jati, a agressividade e o consentimento são a dupla face de Zaratustra,tirada da Bíblia e contra ela voltada. De uma certa maneira ainda, vê-se Zaratustrarivalizar com Kant, com a prova da repetição na lei moral. O eterno retorno diz: O quequiseres, queira-o de tal maneira que também queiras seu eterno retorno. Há aí um"formalismo" que reverte Kant em seu próprio terreno, uma prova que vai mais longe,pois, em vez de relacionar a repetição com uma suposta lei moral, parece fazer da própriarepetição a única forma de uma lei para além da moral. Na realidade, porém, a coisa émais complicada. A forma da repetição no eterno retorno é a forma brutal do imediato, douniversal e do singular reunidos, que destrona toda lei geral, dissolve as mediações, fazperecer os particulares submetidos à lei. Há um além e um aquém da lei que se unem noeterno retorno, como a ironia e o humor negro de Zaratustra. 4ª Opor a repetição não só às generalidades do hábito mas às particularidades damemória. Com efeito, talvez o hábito chegue a "tirar" algo novo de uma repetiçãocontemplada de fora. No hábito, só agimos com a condição de que haja em nós umpequeno Eu que contempla: é ele que extrai o novo, isto é, o geral, da pseudo-repetiçãodos casos particulares. A memória talvez reencontre os particulares dissolvidos nageneralidade. Pouco importam estes movimentos psicológicos; em Nietzsche eKierkegaard, eles se apagam diante da repetição considerada como a dupla condenação dohábito e da memória. É neste sentido que a repetição é o pensamento do futuro: ela seopõe à antiga categoria da reminiscência e à moderna categoria do habitus. É na
  17. 17. 17repetição, é pela repetição que o Esquecimento se torna uma potência positiva e oinconsciente, um inconsciente superior positivo (por exemplo, o esquecimento, comoforça, faz parte integrante da experiência vivida do eterno retorno). Tudo se resume àpotência. Quando Kierkegaard fala da repetição como segunda potência da consciência,"segunda" não significa uma segunda vez, mas o infinito que se diz de uma só vez, aeternidade que se diz de um instante, o inconsciente que se diz da consciência, a potência"n". E quando Nietzsche apresenta o eterno retorno como a expressão imediata davontade de potência, de modo algum vontade de potência significa "querer a potência",mas, ao contrário: seja o que se queira, elevar o que se quer à "enésima" potência, isto é,extrair sua forma superior graças à operação seletiva do pensamento no eterno retorno,graças à singularidade da repetição no próprio eterno retorno. Forma superior de tudo oque é, eis a identidade imediata do eterno retorno e do super-homem3.O verdadeiro movimento, o teatro e a representação Não sugerimos qualquer semelhança entre o Dioniso de Nietzsche e o Deus deKierkegaard. Ao contrário, supomos, acreditamos que a diferença seja intransponível.Mas, por isso mesmo, de onde vem a coincidência sobre o tema da repetição, sobre esteobjetivo fundamental, mesmo que este objetivo seja concebido de maneira diversa?Kierkegaard e Nietzsche estão entre os que trazem à Filosofia novos meios de expressão.A propósito deles, fala-se de bom grado em ultrapassamento da Filosofia. Ora, o que estáem questão em toda a sua obra é o movimento. O que eles criticam em Hegel é apermanência no falso movimento, no movimento lógico abstrato, isto é, na "mediação".Eles querem colocar a metafísica em movimento, em atividade querem fazê-la passar aoato e aos atos imediatos. Não lhes basta, pois, propor uma nova representação domovimento; a representação já é mediação. Ao contrário, trata-se de produzir, na obra,um movimento capaz de comover o espírito fora de toda representação; trata-se de fazerdo próprio movimento uma obra, sem interposição; de substituir representações mediataspor signos diretos; de inventar vibrações, rotações, giros, gravitações, danças ou saltosque atinjam diretamente o espírito. Esta é uma idéia de homem de teatro, uma idéia deencenador - avançado para seu tempo. É neste sentido que alguma coisa decompletamente novo começa com Kierkegaard e Nietzsche. Eles já não refletem sobre oteatro à maneira hegeliana. Nem mesmo fazem um teatro filosófico. Eles inventam, na3 Na comparação que precede, os textos aos quais nos referimos estão entre os mais conhecidos deNietzsche e Kierkegaard. Quanto a KIERKEGAARD, trata-se de: La répétition (trad. et éd. TISSEAU);passagens do Journal (1V, B 117, publicados em apêndice à tradução TISSEAU); Crainte et tremblement;a nota muito importante do Concept dangoisse (trad. FERLOV et GATEAU, N.R.F., pp. 26-28). E sobrea critica da memória, cf. Miettes philosophiques e Etapes sur le chemin de la vie.  Quanto aNIETZSCHE, Zaratustra (sobretudo 11, "Da redenção"; e as duas grandes passagens do livro 111, "Davisão e do enigma" e "O convalescente", um concernente a Zaratustra doente e discutindo com seudemônio e o outro concernente a Zaratustra convalescente discutindo com seus animais) ; mas também Asnotas de 1881-1882 (onde Nietzsche opõe explicitamente "sua" hipótese à hipótese cíclica e critica todasas noções de semelhança, de igualdade, de equilíbrio e de identidade. Cf. volonté de puissance, trad.BIANQUIS, N.R.F., t. 1, pp. 295-301).  Quanto a PÉGUY, enfim, reportar-se essencialmente a JeannedArc e a Clio.
  18. 18. 18Filosofia, um incrível equivalente do teatro, fundando, desta maneira, este teatro do futuroe, ao mesmo tempo, uma nova Filosofia. Dir-se-á, pelo menos do ponto de vista do teatro,que não houve realização; nem Copenhague, por volta de 1840, e a profissão de pastor,nem Bayreuth e a ruptura com Wagner eram condições favoráveis. Uma coisa é certa,porém: quando Kierkegaard fala do teatro antigo e do drama moderno, já se mudou deelemento, não mais se está no elemento da reflexão. Descobre-se um pensador que vive oproblema das máscaras, que experimenta este vazio interior próprio da máscara e queprocura supri-lo, preenchê-lo, mediante o "absolutamente diferente", isto é, introduzindonele toda a diferença do finito e do infinito e criando, assim, a idéia de um teatro do humore da fé. Quando Kierkegaard explica que o cavaleiro da fé assemelha-se a um burguêsendomingado, a ponto de com ele confundir-se, é preciso tomar esta indicação filosóficacomo uma observação de encenador indicando como deve o papel de cavaleiro da fé serdesempenhado. E quando ele comenta Jó ou Abraão, quando imagina variantes do contoAgnès et le Triton, o modo não engana, é um modo de cenário. Em Abraão e em Jóressoa, inclusive, a música de Mozart, tratando-se de "saltar" ao som desta música. "Olhosomente os movimentos", eis uma frase de encenador, que suscita o mais elevadoproblema teatral, o problema de um movimento que viesse atingir diretamente a alma eque fosse o movimento da alma4. Tratando-se de Nietzsche, isto acontece com mais forte razão. O Nascimento daTragédia não é uma reflexão sobre o teatro antigo, mas a fundação prática de um teatrodo futuro, a abertura de uma via pela qual Nietzsche crê ser ainda possível conduzirWagner. E a ruptura com Wagner não é um problema de teoria nem tampouco de música;ela concentre ao papel respectivo do texto, da história, do ruído, da música, da luz, dacanção, da dança e do cenário neste teatro sonhado por Nietzsche. Zaratustra retoma asduas tentativas dramáticas sobre Empédocles. E se Bizet é melhor que Wagner, ele o é doponto de vista do teatro e para as danças de Zaratustra. O que Nietzsche critica emWagner é ter revertido e desnaturado o "movimento": ter-nos feito patinhar e nadar, umteatro náutico, em vez de andar e dançar. Zaratustra é inteiramente concebido na Filosofia,mas também para a cena. Tudo é aí sonorizado, visualizado, posto em movimento, emandamento e em dança. E como ler esse livro sem procurar o som exato do grito dohomem superior? Como ler o prólogo sem colocar em cena o funâmbulo que abre toda ahistória? Em certos momentos, é uma ópera bufa sobre coisas terríveis; e não é por acasoque Nietzsche fala do cômico do super-homem. Recorde-se a canção de Ariadne postanos lábios do velho Encantador. Duas máscaras estão aqui superpostas: a de uma jovem,quase uma Korê, que vem aplicar-se sobre uma máscara de velho repugnante. O ator devedesempenhar o papel de um velho em vias de desempenhar o papel da Korê. Trata-se,também aí, para Nietzsche, de preencher o vazio interior da máscara num espaço cênico:4 Cf. KIERKEGAARD, Crainte et tremblement (trad. TISSEAU, Aubier, pp. 52-67), sobre a natureza domovimento real, que é "repetição" e não mediação e que se opõe ao falso movimento lógico abstrato deHegel; cf. as observações do Journal em apêndice à Répétition, trad. éd. TISSEAU. - Encontra-se tambémem PÉGUY uma crítica profunda do "movimento lógico". Este é denunciado por Péguy como pseudo-movimento, conservador, acumulador e capitalizador: cf. Clio, N.R.F., pp. 45 sq. Esta critica está próximada crítica kierkegaardiana.
  19. 19. 19multiplicando as máscaras superpostas, inscrevendo a onipresença de Dioniso nestasuperposição, colocando aí o infinito do movimento real como a diferença absoluta narepetição do eterno retorno. Quando Nietzsche diz que o super-homem se assemelha maisa Borgia que a Parsifal, quando sugere que o super-homem participa, ao mesmo tempo, daordem dos jesuítas e do corpo de oficiais prussianos, ainda aí só se pode compreenderestes textos se forem tomados pelo que são, observações de encenador indicando como osuper-homem deve ser "desempenhado". O teatro é o movimento real e extrai o movimento real de todas as artes que utiliza.Eis o que nos é dito: este movimento, a essência e a interioridade do movimento, é arepetição, não a oposição, não a mediação. Hegel é denunciado como aquele que propõeum movimento do conceito abstrato em vez do movimento da Physis e da Psiquê. Hegelsubstitui a verdadeira relação do singular e do universal na Idéia pela relação abstrata doparticular com o conceito em geral. Ele permanece, pois, no elemento refletido da"representação", na simples generalidade. Ele representa conceitos em vez de dramatizarIdéias: faz um falso teatro, um falso drama, um falso movimento. É preciso ver comoHegel trai e desnatura o imediato para fundar sua dialética sobre esta incompreensão epara introduzir a mediação num movimento que é apenas o movimento de seu própriopensamento e das generalidades deste pensamento. As sucessões especulativas substituemas coexistências; as oposições vêm recobrir e ocultar as repetições. Quando, ao contrário,se diz que o movimento é a repetição e que é este nosso verdadeiro teatro, não se estáfalando do esforço do ator que "ensaia repetidas vezes" enquanto a peça ainda não estápronta. Pensa-se no espaço cênico, no vazio deste espaço, na maneira como ele épreenchido, determinado por signos e máscaras através dos quais o ator desempenha umpapel que desempenha outros papéis; pensa-se como a repetição se tece de um pontorelevante a um outro, compreendendo em si as diferenças. (Quando Marx também criticao falso movimento abstrato ou a mediação dos hegelianos, ele próprio é levado a umaidéia essencialmente "teatral", idéia que ele mais indica que desenvolve: na medida em quea história é um teatro, a repetição, o trágico e o cômico na repetição formam umacondição do movimento sob a qual os "atores" ou os "heróis" produzem na história algoefetivamente novo.) O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como omovimento opõe-se ao conceito e à representação que o relaciona ao conceito. No teatroda repetição, experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, semintermediário, agem sobre o espírito, unindo-o diretamente à natureza e à história;experimentamos uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram antesdos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes dospersonagens  todo o aparelho da repetição como "potência terrível". Torna-se fácil, então, falar das diferenças entre Kierkegaard e Nietzsche. Mesmoesta questão, porém, não deve ser colocada ao nível especulativo de uma natureza últimado Deus de Abraão ou do Dioniso de Zaratustra. Trata-se sobretudo de saber o que querdizer "estabelecer o movimento" ou repetir, obter a repetição. Trata-se de saltar, comoacredita Kierkegaard? Ou de dançar, como pensa Nietzsche, que não gosta que seconfunda dançar com saltar (somente salta o símio de Zaratustra, seu demônio, seu anão,
  20. 20. 20seu bufão)5? Kierkegaard nos propõe um teatro da fé; e o que ele opõe ao movimentológico é o movimento espiritual, o movimento da fé. Ele também pode nos convidar aultrapassar toda repetição estética, a ultrapassar a ironia e mesmo o humor, sabendo, comsofrimento, que nos propõe a imagem estética, irônica e humorística, de um talultrapassamento. Em Nietzsche, o que se tem é um teatro da descrença, do movimentocomo Physis, é já um teatro da crueldade. O humor e a ironia são aí inultrapassáveis,operando no fundo da natureza. E o que seria o eterno retorno, se esquecêssemos que eleé um movimento vertiginoso, que ele é dotado de uma força capaz de selecionar, capaz deexpulsar assim como de criar, de destruir assim como de produzir, e não de fazer retornaro Mesmo em geral? A grande idéia de Nietzsche é fundar a repetição no eterno retorno,ao mesmo tempo, sobre a morte de Deus e sobre a dissolução do Eu. Mas, no teatro da fé,a aliança é totalmente distinta; Kierkegaard sonha com uma aliança entre um Deus e umeu reencontrados. Diferenças de todo tipo se encadeiam: está o movimento na esfera doespírito ou nas entranhas da terra, terra que não conhece nem Deus nem eu? Onde seencontrará ele melhor protegido contra as generalidades, contra as mediações? Na medidaem que está acima das leis da natureza, é sobrenatural a repetição? Ou ela é o maisnatural, vontade da Natureza em si mesma e querendo a si mesma como Physis, dado quea natureza é por ela mesma superior a seus próprios reinas e a suas próprias leis? Em suacondenação da repetição "estética", Kierkegaard não misturou todo tipo de coisas: umapseudo-repetição, que se atribuiria às leis gerais da natureza, uma verdadeira repetição naprópria natureza; uma repetição das paixões de um modo patológico, uma repetição naarte e na obra de arte? Nenhum destes problemas podemos resolver agora; foi-nossuficiente encontrar a confirmação teatral de uma diferença irredutível entre a generalidadee a repetição.Repetição e generalidade: terceira distinção, do ponto de vista do conceito Assim, repetição e generalidade opõem-se do ponto de vista da conduta e do pontode vista da lei. Mas é necessário precisar uma terceira oposição, agora do ponto de vistado conceito ou da representação. Coloquemos uma questão quid juris: de direito, oconceito pode ser o de uma coisa particular existente, tendo, então, uma compreensãoinfinita. A compreensão infinita é o correlato de uma extensão = 1. Importa muito que esteinfinito da compreensão seja posto como atual, não como virtual ou simplesmenteindefinido. É sob esta condição que os predicados, como momentos do conceito, seconservam e têm um efeito no sujeito a que são atribuídos. Assim, a compreensão infinitatorna possível a rememoração e a recognição, a memória e a consciência de si (mesmoquando- estás duas faculdades não são infinitas). Chama-se representação a relação entreo conceito e seu objeto, tal como se encontra efetuada nesta memória e nesta consciênciade si. Pode-se tirar daí os princípios de um leibnizianismo vulgarizado. De acordo com umprincípio de diferença, toda determinação é conceitual em última instância ou fazatualmente parte da compreensão de um conceito. De acordo com um princípio de razãosuficiente, há sempre um conceito por cada coisa particular. De acordo com a recíproca,5 Cf. NIETZSCHE, Zaratustra, liv. III. "Das velhas e novas tábuas", § 4: " Mas só o bufão pensa: pode-setambém saltar acima do homem".
  21. 21. 21princípio dos indiscerníveis, há uma coisa e apenas uma por conceito. O conjunto destesprincípios forma a exposição da diferença como diferença conceitual ou odesenvolvimento da representação como mediação.A compreensão do conceito e o fenômeno do "bloqueio" Mas um conceito pode sempre ser bloqueado ao nível de cada uma de suasdeterminações, de cada um dos predicados que ele compreende. O próprio do predicadocomo determinação é permanecer fixo no conceito, ao mesmo tempo em que se tornaoutro na coisa (animal se torna outro em homem e em cavalo, humanidade se toma outraem Pedro e Paulo). Isto mostra por que a compreensão do conceito é infinita: tomando-seoutro na coisa, o predicado é como o objeto de um outro predicado no conceito. Mas istotambém mostra por que cada determinação permanece geral ou define uma semelhança,enquanto fixada no conceito e convindo de direito a uma infinidade de coisas. Portanto, oconceito é aqui constituído de tal modo que sua compreensão vai ao infinito em seu usoreal, mas é sempre passível, em seu uso lógico, de um bloqueio artificial. Toda limitaçãológica da compreensão do conceito dota-o de uma extensão superior a 1, de direitoinfinita; dota-o, pois, de uma generalidade tal que nenhum indivíduo existente podecorresponder-lhe hic et nunc (regra da relação inversa da compreensão e da extensão).Assim, como diferença no conceito, o princípio de diferença não se opõe à apreensão dassemelhanças, mas, ao contrário, deixa-lhe o maior espaço de jogo possível. Já a questão"que diferença há?" pode, do ponto de vista do jogo de adivinhações, transformar-se em:que semelhança há? Mas, sobretudo nas classificações, a determinação das espéciesimplica e supõe uma avaliação contínua das semelhanças. Sem dúvida, a semelhança não éuma identidade parcial; mas isto é assim somente porque o predicado no conceito, emvirtude de seu tornar-se-outro na coisa, não é uma parte desta coisa.Os três casos de "bloqueio natural" e a repetição: conceitos nominais, conceitos danatureza, conceitos da liberdade Gostaríamos de marcar a diferença entre este tipo de bloqueio artificial e um tipototalmente distinto, que se deve chamar de bloqueio natural do conceito. Um remete àsimples lógica, mas o outro remete a uma lógica transcendental ou a uma dialética daexistência. Suponhamos, com efeito, que um conceito, tomado num momentodeterminado em que sua compreensão é finita, seja forçado a assinalar um lugar no espaçoe no tempo, isto é, uma existência correspondendo normalmente à extensão = 1. Dir-se-ia,então, que um gênero, uma espécie, passa à existência hic et nunc sem aumento decompreensão. Há dilaceração entre esta extensão = 1, imposta ao conceito, e a extensão =∞, exigida em princípio por sua fraca compreensão. O resultado será uma "extensãodiscreta", isto é, um pulular de indivíduos absolutamente idênticos quanto ao conceito eparticipando da mesma singularidade na existência (paradoxo dos duplos ou dos gêmeos)6.Este fenômeno da extensão discreta implica um bloqueio natural do conceito, que, por sua6 A fórmula e o fenômeno da extensão discreta são bem destacados por Michel Tournier em um texto a serpublicado.
  22. 22. 22natureza, difere do bloqueio lógico: ele forma uma verdadeira repetição na existência emvez de constituir uma ordem de semelhança no pensamento. Há uma grande diferençaentre a generalidade, que sempre designa uma potência lógica do conceito, e a repetição,que testemunha a impotência ou o limite real do conceito. A repetição é o fato puro de umconceito com compreensão finita, forçado a passar como tal à existência: conhecemosexemplos de tal passagem? O átomo epicurista seria um destes exemplos; indivíduolocalizado no espaço, ele não deixa de ter uma compreensão pobre que se recupera emextensão discreta, a tal ponto que existe uma infinidade de átomos de mesma forma emesmo tamanho. Mas pode-se duvidar da existência do átomo epicurista. Emcompensação, não se pode duvidar da existência das palavras, que, de certa maneira, sãoátomos lingüísticos. A palavra possui uma compreensão necessariamente finita, pois, pornatureza, ela é objeto de uma definição apenas nominal. Dispomos aí de uma razão pelaqual a compreensão do conceito não pode ir ao infinito: só se define uma palavra por meiode um número finito de palavras. Todavia, a fala e a escrita, das quais a palavra éinseparável, dão a esta uma existência hic et nunc; o gênero, portanto, passa à existênciaenquanto tal; e, ainda aí, a extensão se recobra em dispersão, em discreção, sob o signo deuma repetição que forma a potência real da linguagem na fala e na escrita. A questão é a seguinte: há outros bloqueios naturais, além da extensão discreta ouda compreensão finita? Suponhamos um conceito com compreensão indefinida(virtualmente infinita). Por mais longe que se vá nessa compreensão, poder-se-á semprepensar que um tal conceito subsume objetos perfeitamente idênticos. Contrariamente aoque se passa no infinito atual, onde, de direito, o conceito basta para distinguir seu objetode qualquer outro objeto, encontramo-nos agora diante de um caso em que o conceitopode levar adiante sua compreensão, indefinidamente, subsumindo sempre umapluralidade de objetos, pluralidade ela própria indefinida. Ainda aí o conceito é o Mesmo -indefinidamente o mesmo - para objetos distintos. Devemos, então, reconhecer aexistência de diferenças não conceituais entre estes objetos. Kant foi quem melhor marcoua correlação entre conceitos, dotados de uma especificação somente indefinida, edeterminações não conceituais, puramente espaço-temporais ou oposicionais (paradoxodos objetos simétricos)7. Mas, precisamente, estas determinações são apenas figuras darepetição: o espaço e o tempo são, eles próprios, meios repetitivos; e a oposição real nãoé um máximo de diferença, mas um mínimo de repetição, uma repetição reduzida a dois,ecoando e retornando sobre si mesma, uma repetição que encontrou o meio de se definir.A repetição aparece, pois, como a diferença sem conceito, a diferença que se subtrai à7 Em Kant, há uma especificação infinita do conceito; mas, como este infinito é apenas virtual(indefinido), não se pode tirar daí nenhum argumento favorável à posição de um princípio dosindiscerníveis.  Para LEIBNIZ, ao contrário, é muito importante que a compreensão do conceito de umexistente (possível ou real) seja atualmente infinita: Leibniz afirma isto claramente em Da Liberdade ("sóDeus vê, não certamente o fim da resolução, fim que não tem lugar..."). Quando Leibniz emprega apalavra "virtualmente", para caracterizar a inerência do predicado no caso das verdades de fato (porexemplo, Discurso de metafísica, § 8), virtual deve ser entendido não como o contrário de atual, mascomo significando "envolvido", "implicado", "impresso", o que de modo algum exclui a atualidade. Emsentido estrito, a noção de virtual é invocada por Leibniz, mas só a propósito de uma espécie de verdadesnecessárias (proposições não-recíprocas): cf. Da Liberdade.
  23. 23. 23diferença conceitual indefinidamente continuada. Ela exprime uma potência própria doexistente, uma obstinação do existente na intuição, que resiste a toda especificação peloconceito, por mais longe que se leve esta especificação. Por mais longe que se vá noconceito, diz Kant, poder-se-á sempre repetir, isto é, fazer-lhe corresponder váriosobjetos, ao menos dois, um à esquerda e um à direita, um para o mais e um para o menos,um para o positivo e um para o negativo. Compreende-se melhor uma tal situação se se considera que os conceitos comcompreensão indefinida são os conceitos da Natureza. Sob este aspecto, eles estão sempreem outra coisa: não estão na natureza, mas no espírito que a contempla ou que a observa eque a representa a si próprio. Eis por que se diz que a Natureza é conceito alienado,espírito alienado, oposto a si mesmo. A tais conceitos, correspondem objetos que sãodesprovidos de memória, isto é, que não possuem e não recolhem em si seus própriosmomentos. Pergunta-se por que a Natureza repete: porque, responde-se, ela é partes extrapartes, mens momentanea. A novidade, então, encontra-se do lado do espírito que serepresenta: é porque o espírito tem uma memória ou porque adquire hábitos que ele écapaz de formar conceitos em geral, de tirar algo de novo, de transvasar algo de novo àrepetição que ele contempla. Os conceitos com compreensão finita são os conceitos nominais; os conceitos comcompreensão indefinida, mas sem memória, são os conceitos da Natureza. Ora, estes doiscasos ainda não esgotam os exemplos de bloqueio natural. Seja uma noção individual ouuma representação particular com compreensão infinita, dotada de memória, mas semconsciência de si. A representação compreensiva é em si, a lembrança aí está, abarcandotoda a particularidade de um ato, de uma cena, de um acontecimento, de um ser. Mas oque falta, para uma razão natural determinada, é o para-si da consciência, é a recognição.O que falta à memória é a rememoração ou, antes, a elaboração. Entre a representação e oEu♦, a consciência estabelece uma relação muito mais profunda que a que aparece naexpressão "tenho uma representação"; ela relaciona a representação ao Eu como a umalivre faculdade que não se deixa encerrar em nenhum de seus produtos, mas para quemcada produto já está pensado e reconhecido como passado, ocasião de uma mudançadeterminada no sentido íntimo. Quando falta a consciência do saber ou a elaboração dalembrança, o saber, tal como é em si, não vai além da repetição de seu objeto: ele édesempenhado, isto é, repetido, posto em ato, em vez de ser conhecido. A repetiçãoaparece aqui como o inconsciente do livre conceito, do saber ou da lembrança, oinconsciente da representação. Coube a Freud ter assinalado a razão natural de talbloqueio: o recalque, a resistência, que faz da própria repetição uma verdadeira "coerção",uma "compulsão". Eis aí, por tanto, um terceiro caso de bloqueio que desta vez concerneaos conceitos da liberdade. Pode se destacar também, do ponto de vista de certofreudismo, o princípio da relação inversa entre repetição e consciência, repetição erememoração, repetição e recognição (paradoxo das "sepulturas" ou dos objetosenterrados): repete-se tanto mais o passado quanto menos é ele recordado, quanto menos♦ Grifaremos o eu todas as vezes em que "je" for empregado, no original, como substantivo, paradistinguir da tradução de "moi" por eu. (N. dos T.)
  24. 24. 24consciência se tem de recordá-lo  recorde, elabore a recordação para não repetir8. Aconsciência de si, na recognição, aparece como a faculdade do futuro ou a função dofuturo, a função do novo. Não é verdade que os únicos mortos que retornam são aquelesque foram muito rápido e muito profundamente enterrados, sem que lhes tenham sidoprestadas as devidas exéquias, e que o remorso testemunha menos um excesso dememória que uma impotência ou um malogro na elaboração de uma lembrança? Há um trágico e um cômico na repetição. A repetição aparece sempre duas vezes,uma vez no destino trágico, outra no caráter cômico. No teatro, o herói repeteprecisamente porque está separado de um saber essencial infinito. Este saber está nele,mergulhado nele, age nele, mas age como coisa oculta, como representação bloqueada. Adiferença entre o cômico e o trágico diz respeito a dois elementos: a natureza do saberrecalcado, ora saber natural imediato, simples dado do senso comum, ora terrível saberesotérico; por conseguinte, tem-se também a maneira pela qual o personagem é excluídodesse saber, a maneira pela qual "ele não sabe que sabe". O problema prático consiste, emgeral, no seguinte: o saber não sabido deve ser representado como banhando toda a cena,impregnando todos os elementos da peça, compreendendo em si todas as potências danatureza e do espírito; ao mesmo tempo, porém, o herói não pode representar tal saberpara si próprio, devendo, ao contrário, colocá-lo em ato, desempenhá-lo, repeti-lo. Devefazer isto até o momento agudo que Aristóteles chamava de "reconhecimento", momentoem que a repetição e a representação se misturam, se defrontam, sem, contudo, haverconfusão entre estes dois níveis, um refletindo-se no outro, nutrindo-se do outro, sendo osaber, então, reconhecido como o mesmo, seja enquanto representado na cena, sejaenquanto repetido pelo ator.A repetição não se explica pela identidade do conceito; nem mesmo por uma condiçãoapenas negativa O discreto, o alienado, o recalcado são os três casos de bloqueio natural,correspondendo aos conceitos nominais, aos conceitos da natureza e aos conceitos daliberdade. Mas, em todos estes casos, para se dar conta da repetição, invoca-se a forma doidêntico no conceito, a forma do Mesmo na representação: a repetição se diz de elementosque são realmente distintos e que, todavia, têm, estritamente, o mesmo conceito. Arepetição aparece, pois, como uma diferença, mas uma diferença absolutamente semconceito e, neste sentido, uma diferença indiferente. As palavras "realmente","estritamente", "absolutamente" são consideradas como palavras que remetem aofenômeno do bloqueio natural, por oposição ao bloqueio lógico que só determina umageneralidade. Mas um grave inconveniente compromete toda esta tentativa. Enquantoinvocamos a identidade absoluta do conceito para objetos distintos, sugerimos apenas umaexplicação negativa e por deficiência. Que esta deficiência seja fundada na natureza do8 FREUD, Remémoration, répétition et élaboration, 1914 (trad. BERMAN, De la techniquepsychanalytique, Presses Universitaires de France).  Nesta via de uma interpretação negativa darepetição psíquica (repetimos porque nos enganamos, porque não elaboramos a recordação, porque nãotemos consciência, porque não temos instintos), ninguém foi mais longe, e com mais rigor, que FerdinandALQUIÉ, Le désir déternité (1943, Presses Universitaires de France), chap. II-IV.
  25. 25. 25conceito ou da representação, isto nada muda em cada um destes casos. No primeiro caso,há repetição porque o conceito nominal tem naturalmente uma compreensão finita. Nosegundo caso, há repetição porque o conceito da natureza é naturalmente sem memória, éalienado, está fora de si. No terceiro caso, há repetição porque o conceito da liberdadepermanece inconsciente, a lembrança e a representação permanecem recalcadas. Em todosestes casos, aquilo que repete só o faz à força de não "compreender", de não se lembrar,de não sabei- ou de não ter consciência. Em toda parte, é a insuficiência do conceito e deseus concomitantes representativos (memória e consciência de si, rememoração erecognição) que é tida como capaz de dar conta da repetição. É esta, pois, a deficiência detodo argumento fundado na forma da identidade no conceito: estes argumentos só nos dãouma definição nominal e uma explicação negativa da repetição. Sem dúvida, pode-se opora identidade formal, que corresponde ao simples bloqueio lógico, e a identidade real (oMesmo), tal como aparece no bloqueio natural. Mas o próprio bloqueio natural temnecessidade de uma força positiva supraconceitual capaz de explicá-lo e de, ao mesmotempo, explicar a repetição.As funções do "instinto de morte": a repetição em sua relação com a diferença e comosendo aquilo que exige um princípio positivo. (Exemplo dos conceitos da liberdade) Retornemos ao exemplo da Psicanálise: repete-se porque se recalca... Freud nuncase satisfez com tal esquema negativo, em que se explica a repetição pela amnésia. Éverdade que, desde o início, o recalque designa uma potência positiva. Mas é do princípiode prazer ou do princípio de realidade que ele extrai esta positividade: positividade apenasderivada e de oposição. A grande virada do freudismo aparece em Além do princípio deprazer: o instinto de morte é descoberto não em relação com as tendências destrutivas,não em relação com a agressividade, mas em função de uma consideração direta dosfenômenos de repetição. Curiosamente, o instinto de morte vale como princípio positivooriginário para a repetição, aí estando seu domínio e seu sentido. Ele desempenha o papelde um princípio transcendental, ao passo que o princípio de prazer é tão-somentepsicológico. Eis por que ele é antes de tudo silencioso (não dado na experiência), ao passoque o princípio de prazer é ruidoso. A primeira questão seria, portanto, a seguinte: comoo tema da morte, que parece reunir o que existe de mais negativo na vida psicológica,pode ser em si o mais positivo, transcendentalmente positivo, a ponto de afirmar arepetição? Como pode ser ele relacionado a um instinto primordial? Mas uma segundaquestão recorta imediatamente essa primeira. Sob que forma é a repetição afirmada eprescrita pelo instinto de morte? No mais profundo, trata-se da relação entre a repetição eos disfarces. Os disfarces no trabalho do sonho ou do sintoma  a condensação, odeslocamento, a dramatização  vêm recobrir, atenuando-a, uma repetição bruta e nua(como repetição do Mesmo)? Desde a primeira teoria do recalque, Freud indicava umaoutra via: Dora só elabora seu próprio papel e só repete seu amor pelo pai através deoutros papéis desempenhados por outros e qustatado quando ele atribui a fixação ao Isso; o disfarce é então compreendido naperspectiva de uma simples oposição de forças, a repetição disfarçada sendo o fruto de umcompromisso secundário entre forças opostas do Eu e do Isso. Mesmo em para além doprincípio de prazer, a forma de uma repetição nua subsiste, pois Freud interpreta o instinto
  26. 26. 26de morte como uma tendência a retornar ao estado de uma matéria inanimada, o quemantém o modelo de uma repetição totalmente física ou material. A morte nada tem a ver com um modelo material. Ao contrário, basta compreendero instinto de morte em sua relação com as máscaras e os travestimentos. A repetição éverdadeiramente o que se disfarça ao se constituir e o que só se constitui ao se disfarçar.Ela não está sob as máscaras, mas se forma de uma máscara a outra, como de um pontorelevante a outro, com e nas variantes. As máscaras nada recobrem, salvo outrasmáscaras. Não há primeiro termo que seja repetido; e mesmo nosso amor de infância pormamãe repete outros amores adultos por outras mulheres, mais ou menos como o herói daRecherche desempenha novamente com sua mãe a paixão de Swann por Odette. Portanto,nada há de repetido que possa ser isolado ou abstraído da repetição em que ele se forma eem que, porém, ele também se oculta. Não há repetição nua que possa ser abstraída ouinferida do próprio disfarce. A mesma coisa é disfarçante e disfarçada. Um momentodecisivo da Psicanálise foi aquele em que Freud renunciou em alguns pontos à hipótese deacontecimentos reais da infância que seriam como que termos últimos disfarçados, parasubstituí-los pela potência do fantasma que mergulha no instinto de morte, onde tudo já émáscara e ainda disfarce. Em suma, a repetição é simbólica na sua essência; o símbolo, osimulacro, é a letra da própria repetição. Pelo disfarce e pela ordem do símbolo, adiferença é compreendida na repetição. É por isso que as variantes não vêm de fora, nãoexprimem um compromisso secundário entre uma instância recalcante e uma instânciarecalcada, e não devem ser compreendidas a partir das formas ainda negativas daoposição, da conversão ou da reversão. As variantes exprimem antes de tudo mecanismosdiferenciais que são da essência e da gênese do que se repete. Seria preciso até mesmoreverter as relações do "nu" e do "vestido" na repetição. Seja uma repetição nua (comorepetição do Mesmo), um cerimonial obsessivo, por exemplo, ou uma estereotipiaesquizofrênica: o que há de mecânico na repetição, o elemento de ação aparentementerepetido, serve de cobertura para uma repetição mais profunda que se desenrola numaoutra dimensão, verticalidade secreta em que os papéis e as máscaras se alimentam noinstinto de morte. Teatro do terror, dizia Binswanger a propósito da esquizofrenia. O"nunca visto" não é aí o contrário do "já visto", significando, ambos, a mesma coisa esendo cada um vivido no outro. Sylvie, de Nerval, já nos introduzia nesse teatro, eGradiva, tão próxima de uma inspiração nervaliana, mostra-nos o herói que vive arepetição como tal e, ao mesmo tempo, aquilo que se repete como sempre disfarçado narepetição. Na análise da obsessão, o aparecimento do tema da morte coincide com omomento em que o obsessivo dispõe de todos os personagens de seu drama e os reúnenuma repetição cujo "cerimonial" é apenas o envoltório exterior. Em toda parte, amáscara, o travestimento, o vestido é a verdade do nu. É a máscara o verdadeiro sujeitoda repetição. É porque a repetição difere por natureza da representação que o repetidonão pode ser representado, mas deve sempre ser significado, mascarado por aquilo que osignifica, ele próprio mascarando aquilo que ele significa. Não repito porque recalco. Recalco porque repito, esqueço porque repito. Recalcoporque, primeiramente, não posso viver certas coisas ou certas experiências a não ser aomodo da repetição. Sou determinado a recalcar aquilo que me impediria de vivê-las dessemodo, isto é, a representação, a representação que mediatiza o vivido ao relacioná-lo com
  27. 27. 27a forma de um objeto idêntico ou semelhante. Eros e Tânatos distinguem-se no seguinte:Eros deve ser repetido, só pode ser vivido na repetição; mas Tânatos (como princípiotranscendental) é o que dá a repetição a Eros, o que submete Eros à repetição. Somenteeste ponto de vista é capaz de nos fazer avançar nos problemas obscuros da origem dorecalque, de sua natureza, de suas causas e dos termos exatos sobre os quais ele incide.Com efeito, quando Freud, para além do recalque "propriamente dito", que incide sobrerepresentações, mostra a necessidade de se supor um recalque originário concernente, emprimeiro lugar, às apresentações puras ou à maneira como as pulsões são necessariamentevividas, acreditamos que ele se aproxima ao máximo de uma razão positiva interna darepetição, razão que lhe parecerá mais tarde determinável no instinto de morte e que deveexplicar o bloqueio da representação no recalque propriamente dito, em vez de serexplicado por ele. É por isso que a lei de uma relação inversa repetição-rememoração épouco satisfatória sob todos os aspectos, na medida em que faz a repetição depender dorecalque. Freud assinalava, desde o início, que, para deixar de repetir, não basta lembrar-seabstratamente (sem afeto), nem formar um conceito em geral, nem mesmo se representar,em toda sua particularidade, o acontecimento recalcado: é preciso procurar a lembrançaonde ela se encontrava, instalar-se de pronto no passado para operar a junção viva entre osaber e a resistência, entre a representação e o bloqueio. Não se cura, pois, por simplesanamnese, como tampouco se está doente por amnésia. Neste caso, como em outros, atomada de consciência é pouca coisa. A operação, de outro modo teatral e dramática, pelaqual se cura e pela qual também se deixa de curar, tem um nome: transferência. Ora, atransferência é ainda repetição, é antes de tudo repetição9. Se a repetição nos tornadoentes, é também ela que nos cura; se ela nos aprisiona e nos destrói, é ainda ela que nosliberta, dando, nos dois casos, o testemunho de sua potência "demoníaca". Toda cura éuma viagem ao fundo da repetição. Sem dúvida, na transferência há algo de análogo aoque se encontra na experimentação científica, pois supõe-se que o doente deva repetir oconjunto de seu distúrbio em condições artificiais privilegiadas, tomando a pessoa doanalista como "objeto". Mas, na transferência, a repetição tem menos a função deidentificar acontecimentos, pessoas e paixões do que de autenticar papéis, selecionarmáscaras. A transferência não é uma experiência, mas um princípio que funda toda aexperiência analítica. Por natureza, os próprios papéis são eróticos, mas a prova dospapéis apela para este mais elevado princípio, para este juiz mais profundo que é o instintode morte. Com efeito, a reflexão sobre a transferência foi um motivo determinante para adescoberta de um "para-além". É neste sentido que a repetição constitui, por si mesma, ojogo seletivo de nossa doença e de nossa saúde, de nossa perdição e de nossa salvação.9 FREUD invoca a transferência precisamente para colocar em questão sua lei global da relação inversa.Cf. Au-delà du príncipe de plaisir (trad. s. JANKÉLÉVITCH, Payot, pp. 24-25): lembrança e reprodução,rememoração e repetição opõem-se em princípio, mas é preciso praticamente se resignar com o fato deque o doente revive na cura certos elementos recalcados; "a relação que se estabelece, assim, entre areprodução e a lembrança varia de um caso para outro". - Aqueles que mais profundamente insistiram noaspecto terapêutico e liberatório da repetição, tal como esta aparece na transferência, foram FERENCZI eRANK, em Entwicklungziele der Psychoanalyse (Neue Arbeiten zur ärtzlichen Psychoanalyse, Vienne,1924).

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