Últimas Palavras - Monólogo Teatral

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Últimas Palavras - Monólogo Teatral

  1. 1. ÚLTIMAS PALAVRAS
  2. 2. ÚLTIMAS PALAVRASPRODUTO: Peça Teatral Categoria Monólogo.DURAÇÃO: 3 atos de aproximadamente 8minutos cada. Atos consecutivos, seminterrupção da apresentação, divisão paraorientação de Roteiro. Tempo totalestimado: 24 minutos.CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 16 anos, contémlinguagem de apelo sexualCONTEÚDO: Ficção, Humor, as confissões ereflexões de um homem e seus amores nomundo contemporâneo.TRECHO: “Minha avó dizia que a genteaprende mais com erro dos outros do quecom os nossos. Mas eu posso confessar,sem vergonha nenhuma, que não conseguiseguir esse conselho”.AUTOR: Procópio Pinheiro, Roteirista eEstudante de Publicidade.DATA DA AUTORIA: Concluído em 9 de Junhode 2011, Itaquáquecetuba, São Paulo - SP.CONTATOS:wesleyprocopiopinheiro@hotmail.com oliversouz@hotmail.comSITE: www.procopiopinheiro.blogspot.com
  3. 3. Luz se acende.Uma placa sob o palco, escrito: ATO 1 - SERENIDADEREINALDO, personagem principal desse monólogo, entra.Está vestindo calça, camisa e sapatos.Olha para a placa, se senta numa cadeira (ou poltrona)localizada no centro do palco.Reinaldo sentado faz movimentos com os braços para baixo, comose pedisse calma.Depois com o indicador na boca, sinalizando como se pedissesilêncio.Encara a platéia, tamborilando os dedos, sereno.Então...Se levanta com tudo e dá um grito louco descomunal, num susto.Vários gritos.Pigarreia, senta-se de novo e começa a rir.Inicia diálogo:“Que coisa de louco, né? E quem não é louco? Tudo é técnica.Alguém tem que ficar pelado, alguém tem que gritar, alguém temque morrer. Sempre é assim. Sempre! Na TV, você tem 20 minutospara conquistar o espectador. No livro, são 50 páginas. Numfilme, são 10 minutos. Pro cinema e pro teatro... A coisa muda.Porque existe toda uma montagem... Você se arruma pra ir procinema ou pro teatro. Quem aqui nunca perdeu duas horas da suavida assistindo um filme ruim no cinema? Ou vendo a peça deescola da sua filha? Ela é sua filha, ela é linda, ela é... aárvore.Mas o problema de uma peça ruim ou de um filme ruim é que aspessoas não indicam para os amigos assistirem. Só para osinimigos... Espero que não tenham muitas pessoas do mal nestemomento aqui.Bom...Meu nome é Reinaldo. Tenho 30 anos. Sou brasileiro. (como sepensasse) Solteiro?
  4. 4. Eu poderia colocar isso num currículo. Mas a verdade é que eununca estou sozinho... Não que eu seja um garanhão, mulherengo,o pega-todas. Isso não existe. Apenas existem caras que temcoragem e outros que não tem. Eu tenho coragem de levar um pé nabunda... Então isso faz com que as possibilidades de eu pegaruma mulher sejam mais altas que as de um cara que não temcoragem.Esse raciocínio parece estranho... Mas não é. Coragem é tudonessa vida. Se você não luta por alguma coisa, qualquer coisaque seja, você não vence. Ser corajoso também é ser inteligente.Coragem não é teimosia. É que nem banco... Banco não emprestadinheiro pra quem não tem dinheiro. Crédito é investimento, nãoé ajuda. A ideia do empréstimo é justamente ter o dinheirodevolta. Ninguém quer realmente... te ajudar.Melhor, um humorista. Essa lei todo humorista conhece. Diz alenda que todo comediante tem que saber fazer piadas... Muitaspiadas. Mas ele só será um bom comediante se de cada 10 piadasque ele contar, uma for boa. Mas ele precisa fazer essas 10piadas. E dentre essas 10 piadas, UMA precisa ser boa. A vida éassim. Objetivos, riscos, coragem. E quando se trata de mulheras coisas não mudam. E de homens também.Não, não. Eu não sou gay. Eu... aparo o sovaco, faço a barba,uso creminho, vou na academia... Mas não sou gay. Hoje em diaesse tipo de definição através de “pistas” é impossível, pra sersincero. À não ser que o cara seja uma bicha louca. Tipo assim,todo mundo sabe que o He-man é gay. Mas e se o Conan decide seassumir? E aí, como é que fica? Onde tá a “pista” aí? Não dá prasaber. Ou melhor, não dá pra arriscar. O he-man é loirosensível, mas o Conan é um bárbaro!Não sei porque as pessoas não simplificam isso elas mesmas... Seeu fosse um viado, não teria problema nenhum em assumir isso.Quantos exemplos existem por aí? Deixa eu pensar... Tem...(tentando lembrar) Tem aquele também... Como é o nome? (desiste)Ah, mas eu sei que tem!Bom, eu sou totalmente heterossexual. É o que eu posso dizer pormim. E nessa altura do campeonato, sou do tipo pragmático. Os 30anos podem ser o auge de qualquer homem, mas ainda assim são 30anos, não importa o que o botox faça parecer. A idade tá aquidentro, na cabeça. (cutuca a testa) E, com oficialmente 30 anos,eu me sinto com a cabeça de um homem de 30 anos.Tenho dois filhos. Um casal. A Lorrane e o Guaier. Nomes bonitosné? Lorrane e Guaier... Em alguma coisa, a vaca da minhaprimeira esposa tinha que acertar. Eu amo os meus filhos... Elessão gêmeos, nasceram juntos, cada um tem 7 anos. É por isso queeu adoro eles... O que uma criança pode fazer de mal? Todacriança é burra. Crianças acreditam em papai noel, coelhinho da
  5. 5. páscoa, super-homem, mulher-maravilha. Ou seja, crianças sãoburras. E essa burrice que também chamam de inocência é o quetorna uma criança sagrada. Eu vou amar meus filhos... até os 14anos. E enquanto eu puder pagar para a minha esposa ficar comeles.É! Mulher se aposenta antes do homem porque tem tripla jornada.Ser mulher é fácil, ser esposa também pode ser fácil, mas sermãe... É o cão! E olha que eu tô dizendo isso com visão depai... Tem muito pai por aí que é mãe e pai e tem muita mãesolteira também... Mas eu prefiro ver as coisas por uma ótica emque tudo pareça ser mais fácil para... mim.Amor não sustenta casa. Foi o que a vida me ensinou. Se eu puderpedir um epitáfio no meu túmulo... Epitáfio é uma frase que elescolocam no túmulo do morto. Tipo: “Reinaldo. Amava seus filhos.”Não. Isso é muito comum. Assim: “Reinaldo. Amor não sustentacasa”. Agora sim. Quem um dia já ficou na merda com uma esposa edois filhos pra sustentar sabe do que eu tô falando...“Mas você se casou porque quis!” podem resmungar. Quero ver aquiquem nunca ficou apaixonado! Pode até não confessar, mas um dia,você já sentiu aquilo. Estar com outra pessoa. Essa baboseiratoda. Se não sentiu, vai sentir. Aí quero ver ouvir falar isso!“Mas você teve filhos porque quis!” também podem resmungar.Quero ver aqui quem nunca transou sem camisinha. Ou mulher quenunca esqueceu de tomar a pílula. Camisinha é uma droga, é umpedaço de plástico que incomoda. Tomar pílula é um pé no saco,ficar marcando dia e hora pra não bobear nenhum dia ou hora. Tômentindo? Não. Mas são sacrifícios necessários para se evitaresse tipo de coisa, eu sei. Mas quem aqui nunca deslisou? Sevocê não teve filhos nem pegou nenhuma merda sexualmentetransmissível, parabéns! Mas não venha apontar o dedo paramim...Odeio gente mal-lavada que fala de gente suja. Odeio genteperfeitinha também... Sei lá, parece que a qualquer momento,essa gente metida a perfeitinha pode surtar e sair matando àtorto e direita por aí! Gente tem que ser gente... E história,quando a gente ouve, mesmo que seja uma fofoca, é pra refletir.Não é pra dizer: “Eu acho que...”.Minha avó dizia que a gente aprende mais com erro dos outros doque com os nossos. Mas eu posso confessar, sem vergonha nenhuma,que não consegui seguir esse conselho.(fica eufórico) Viver! Viver! Viver!(acalma-se) Tem gente que acha que a vida é essa loucura toda. Eé mesmo.
  6. 6. Corrigindo a minha situação: é essa a palavra que eu buscava –livre. Solteiro dá uma ideia angustiante de solidão. Como sedependêssemos de outra pessoa para sobreviver. Meu, hoje em diaaté irmãos siameses podem se separar!Eu sou um homem livre. Não que casamento seja uma prisão. Podeser bom. Tem que ser bom, senão... Casamento é inevitável e sevocê só enxerga como ruim, então fica ruim. O que eu querodizer, na verdade... Não deu certo pra mim. Nas duas vezes queeu tentei.Então, agora, por enquanto eu só estou curtindo... Não tiveproblemas até o momento. É jogo limpo. Não prometo nada. Tenhouma grana, cuido de mim, do que eu sou... Eu gozo, a garotagoza, nós conversamos, a vida continua.Não é triste, não é pecaminoso.É consentido, é vida.Que eu posso dizer?É... hum... Legal.Legal, nos dois sentidos da palavra.Eu era um cara muito preocupado. Obsessivo demais com as coisas.Quando eu relaxei, deixa a vida me levar, é que eu encontrei afelicidade. Felicidade pra mim é esse sossego.Assim como os outros, eu não sabia o que queria da vida. Se vocêperguntar isso a seco, ninguém sabe te responder. As pessoassabem o que NÃO querem. Ninguém quer ficar doente, ninguém querter uma família chata, ninguém quer ficar desempregado. Mas issoacontece. E aí, como fica o que se QUER?O que EU quero da vida?Agora... Me divertir.Vou falar pra vocês sobre a Beatriz. A gente se conhece dostempos da escola. Ela foi a minha primeira. E se você pensar,ah, a gente nunca esquece a primeira vez, isso é verdade, porquea primeira vez é um desastre. Não existe nada de mágico. Étrabalho com a camisinha, pra acertar o buraco, pra não gozarantes de pelo menos 20 minutos, lembrar de fazer aspreliminares, sem falar que dói.Na primeira vez, homem também sente dor, à não ser que ele sejacircunsisado. Como não sou judeu nem tive fimose... Tive que mefoder como a maioria dos homens. E, fodi.Mas ainda bem que a Beatriz possibilitou outras vezes para queeu fosse praticando, aprendendo e melhorando.Mas nunca foi nada sério. Ficar, era só isso. A escola acabou,
  7. 7. nunca mais vi nenhum dos meus amigos daquele tempo, até que anosdepois eu a reencontrei. Naquela época do colégio, ela já erameio maluquete. Mas hoje ela virou uma louca total e eu...Adorei isso.Ficamos de novo. Na casa da Tia dela, pois pelo que eu entendi,a Beatriz tinha brigado com a mãe e na família, a Tia, era aúnica que ainda aguentava a doidinha.Depois de tudo, lá na cama, a Beatriz me tira um cigarro verde eacende. Começa a fumar e rir feito a louca que ela é. Tinha umcheiro de incenso aquilo, de macumba doce...Era maconha.Eu nunca me aproximei dessas coisas, eu sempre fui o certinho. Éo que dizem, do menor dos males, a maconha, pra você ir pracocaína é um salto em queda livre. Apesar de eu não conhecer umapessoa que seja viciada ao mesmo tempo em duas coisas. Pensa quemerda: às 8 horas reunião nos Alcóolicos Anônimos e às 9 noNarcóticos Anônimos.Mas então, eu nunca tinha experimentado. E então experimentei obagulho. É pra se jogar? Então vamos.E quer saber?Eu ri pra caramba. Depois me deu uma fome desgraçada... Eladisse que isso era a Larica, que maconha dá fome. E aí um mitofoi desfeito pra mim: caralho, então maconha engorda???Assaltamos a geladeira. Voltamos pro quarto e voltamos a fumar.E aí, a Tia dela chega! A Tia tinha ido pra uma vigília daIgreja, mas especialmente naquela noite, o Pastor decidiudispensar os fiéis antes das 3 da madrugada. Tia de Igreja nãopode sentir cheiro de maconha. Se a Tia expulsasse a Beatriz,quem é que ia ficar com a herança maldita? (aponta para simesmo) E naquele fumaceiro, o desespero foi total.A Beatriz disse pra eu me livrar do cheiro enquanto segurava aTia no jardim. Abri as janelas, portas, liguei o ventilador edisparei o perfume da Beatriz. Depois, quando ela voltou, elaquis me matar. Eu acabei com o perfume dela da Dior de R$400,00.Problema do cheiro resolvido, agora tinha outro. A Tia dela nãopodia saber que eu estava lá. A mulher era crente fanática, sexosó depois do casamento e para fins reprodutivos. Um marmanjocomo eu ali, estava fora de questão. Eu tive que sair corrido delá, sem camisa, pulando pela janela, agarrado no lençol.
  8. 8. Quando eu cheguei em casa, ainda bem que eu não fui parado pelapolícia, senão tinha virado um filme, eu parei e pensei: “Putz,que ridículo! Transar escondido na casa da Tia Crente fumando umbaseado?” Eu tenho 30 anos, posso pagar motel e sou viciado é emcerveja como todos os outros homens.Depois, a Beatriz me ligou. Disse que achou superdivertido.Também achei, mas isso só quando o desespero passa. Elaperguntou se eu queria mais maconha. Que ela vendia. Ela dissebem assim: ”Maconha é super do bem. E não vicia. Veja eu porexemplo: fumo desde os 14 anos.”Eu pensei: “Se isso não for vício, o que é?”Depois: “Caralho, a Beatriz virou traficante!”Deixou de ser divertido, definitivamente.Aí me veio outras lembranças da fase de colégio. Eu sempre fuiligado nessa coisa de arte, de ser artista. Mas sem os produtosda Beatriz, ok? Não fui bem sucedido nesse ramo artistíco.Eu não dormi com as pessoas certas. Ou pior, não tinha talento.Hoje eu sou contador, mas necessariamente isso não faz de mim umcara mala, chato.Daquela época, eu ainda tenho o sapateado, um pouco. Eu erafissurado naquele filme Dançando na Chuva.É a minha vida esse filme. Com a chuva, na gripe, na merda detudo, e o cara lá, sorrindo, dançando e cantando.Eu não me atrevo mais a cantar. Bom senso que veio com o tempo.Mas eu ainda tenho sonhos. (fala devagar) E eu sou aquele caraque ta lá, com a gripe, na merda de tudo, sorrindo e dançando.Pega um guarda-chuva, que estava debaixo da cadeira, entra amúsica do filme Dançando na Chuva, dá uma palhinha dos passos.Trecho da música encerra, larga o guarda-chuva no chão, sapateiano silêncio do palco.Faz uma meia mesura de agradecimento, sorri.Luz apaga.
  9. 9. Luz acende.No palco vazio, uma nova placa, substituindo a anterior, onde selê: ATO 2 – CONFLITOReinaldo então surge, entrando em passos largos, apressados.Está vestindo calça jeans, camisa esporte, tem um penteado maisleve.Inicia o diálogo, em pé:“Que desgraça! Mas tudo que acontece nessa casa é culpa minha!(tentando se acalmar enquanto fala, andando de um lado para ooutro, até tranquilizar-se) Tudo que acontece no mundo! Se oPapa pegar uma gripe, a culpa é do Reinaldo! Parece que mulhersó sabe reclamar e homem só sabe xingar! Puta que pariu! Filha-da-puta!(Expira longamente)Quem disse que xingar é coisa feia, é um tonto dos infernos!Chega uma hora que todos nós precisamos desabafar... Choro écoisa de gente fraca, de quem perdeu e não tem mais como ganhar.Ou de felicidade demais. Quem sente raiva, se impõe, ergue oqueixo, xinga mesmo! Pra mim, xingar é terapêutico. Já que hojeem dia não se pode bater em ninguém... Ou você mata e se ferra,ou você entra na justiça, espera 11 anos e se ferra. Ou então...você simplesmente xinga. (imita) “Ah, bom dia!” (respondendo asi mesmo) “Bom dia! E, antes que eu me esqueça, vai tomar nocú!” Pensei, apenas pensei.Eu...Eu sou o Reinaldo. Tenho 25 anos. Trabalho feito um condenadopra sustentar casa, esposa e dois filhos. Falam em Igualdade dosSexos, mas a maior parte das contas quem paga sou eu. Tenho odireito de reclamar? Não! Foi eu que escolhi isso pra mim,admito. É que nem trabalho... Tem gente que passa a vidareclamando do trabalho... Mas que eu saiba não estamos mais naEscravidão. Você pode simplesmente sair... Lindo, gostoso e...calmo! Mas é difícil. É o orgulho. Casamento ruim, trabalhoruim... A gente fica preso, por quê?Eu acho que eu tenho aquele defeito de mulher... De “querer”mudar as pessoas, mudar o mundo. (ri) É defeito porque ninguémmuda. Não muda porque você quer.
  10. 10. O meu casamento ou o que sobrou dele, vamos lá...A minha esposa era uma puta gostosa! Quer dizer, ela era maisbonita antes da Lorrane e do Guaier nascerem... Parto de gêmeos.Tem mulher que não se recupera da gravidez... Mas esse é delonge o menor problema da minha esposa. Pessoas magras podemengordar, pessoas gordas podem emagrecer... Aí vai do gosto decada um. Só que ela só pensa nesse negócio de ser mãe... Tudopra ela é os filhos. Caramba, mulher não goza também???Uma noite estávamos lá, no rala e rola, depois de 6 meses deseca... Uma das vantagens do casamento é você pode transar ahora que quer de graça. Mas 6 meses de seca? Nem eu sei como euaguentei! Todo homem continua no prazer solitário, mesmo depoisde casado, mas aí é uma coisa eventual. Quando eu passo a mecomportar como um adolescente sendo “casado”, alguma coisa támuito errada.Quando um homem e uma mulher deixam de fazer sexo, eles sãoamigos. Tudo bem ter mais um amigo, minha esposa, mas eu precisode alguém pra transar. Eu sou animal, nós somos animais...Comemos, respiramos, andamos, transamos. Dizer o contrário, émentira. Mentira feia.E é justamente nessa hora que as tentações aparecem... Traiçãonão é problema. Se você vai lá, dá uma pegadinha e some...Ninguém nunca vai ficar sabendo. O problema é que se rola umaprimeira vez, há muitas chances de acontecer uma segunda vez ese acontece uma segunda vez então deixa de ser traição e aí viracaso. E se vira caso vira merda.Pensa nesses caras que casam com a amante. Se quando eles seconheceram eles eram amantes, o que garante que agora, que estãocasados, ela ou ele não tenham um amante, do mesmo jeito quandose conheceram? Ninguém nunca pára pra pensar nisso. Aconteceucom o meu pai... Ele era casado e deixou o casamento para ficarcom a amante. A amante chifrou ele. Era a minha mãe.Mas meu pai a perdoou, eles ainda estão juntos e... “Traição” éum tema bastante controverso. Tem gente que não tá nem aí... Nãoligo que estejam me traindo. Desde que eu nunca descubra. Mastem caso em que o cara se faz de “desavisado”. Deram até um nomepra isso: “Corno”. Existe o homem traído e existe o corno. Ocorno além de traído é burro, porque “finge” que não sabe. Ou éburro demais pra saber.Um exemplo... um casal novo, papai e mamãe de primeira viagem,que fica sei lá... 6 meses sem transar...(pensa)Foi isso que eu pensei! A vaca tá me traindo! Ela não gosta mais
  11. 11. de mim!E ficava lá dizendo que não, não e não. Que era coisa da minhacabeça. Que o foco dela agora era a maternidade. Por um momento,eu acreditei. Estávamos lá, numa noite, doidos pra transar e jáindo no bem-bom, quando a Lorrane e o Guaier se levantaram doberço e miraram aqueles olhinhos pequenos para a cama, paranós... As crianças estavam sérias. Bebê chora ou ri, só seaprende a ficar com aquela cara de sério repreendedor naadolescência, no primeiro round pais versus filhos. Eu broxei,minha esposa broxou... Não deu.Quero ver se um dia, quando eles crescerem, eles tiverem quedormir numa república... Quero ver se eles vão encher o saco dosamigos estarem transando no mesmo cômodo! Quando se é estudanteque mora em república, motel é luxo. Eu vivi isso, por umsemestre, depois mudei de faculdade. Não faz sentido você terque se mudar para estudar. À não ser que você more no Acre etenha conseguido uma vaga para estudar em Princeton, o que nãofoi o meu caso. Economia não é o meu forte, mas o mínimo darelação custo-benefício, todo mundo entende.Então eu coloquei uma cortina. As crianças não iriam mais noslançar aquele olhar broxante maléfico, espiãezinhos-mirim! E sóiríamos parar se alguma delas chorasse... Porque quando criançachora, pai e mãe sabem que esse é o único alarme conhecido. Masnão rolou... Não foi bom. Ela estava diferente, distante, fria.Eu quero agradar, sabe? Não só ficar lá, no “Ah!”. E eu sentique... eu não estava agradando.Então... eu resolvi inovar. Disse que ia viajar à trabalho numfim de semana, mentirinha. Quando ela pensasse que eu tinha ido,eu ia voltar, sem nenhum aviso, pegar ela de jeito... Fazeraquela transa fenomenal, dos velhos tempos, que começa nagaragem, passa pela cozinha, sobe as escadas e termina noquarto, tendo como bônus um banho junto. Rapidinha extra nobanheiro. Ia ser a minha surpresa pra ela. Isso mesmo que eu iafazer. Uma surpresa. Mas, no fim das contas, quem foisurpreendido foi eu.Minha mulher estava me traindo.E é nesse momento, que minha esposa, passa a se chamar “vaca”. Avaca tava com outro cara na cama. E ela não teve nem o trabalhode dizer: “Não é nada disso que você está pensando” ou deesconder o cara no armário. Ali, na minha casa, no meu quarto,na minha cama! E onde estavam as crianças? Com a avó, querodizer, com a minha sogra. Teria a minha sogra participado desseplano maléfico de traição? Eu rezo para que não. Errar naescolha da esposa, tudo bem, falta de sorte. Mas se além de umaesposa ruim, a sogra também for uma desgraça... Eita dedo podre!
  12. 12. Rememorando, ali no flagra, o choque foi tamanho que eu, eufiquei estático. Não bati nela, não matei o cara, não fiz aqueleescândalo que os vizinhos adoram. Mandei os dois saírem. Eu nãoia sair. Tinha pagado a casa ou pelo menos a maior parte. Ela metraiu, até o momento eu tinha sido o bom mocinho. Tava com arazão.Ser corno pro homem não é fácil. É tabu. Homem não confessa quejá deu o rabo na adolescência, aquela coisa idiota do troca-troca, quando não se sabe bem o que quer. Homem não confessa quejá levou um cutucão da mulher lá atrás, mesmo que ele não sejagay, mas tenha gostado. E, de jeito nenhum, sob hipótese alguma,homem confessa que um dia foi chifrado. Homem é quem trai, homemé o safadão cafajeste, sempre foi assim. Mas eu... Eu sou aprova viva de que não.Não.Depois, mais pra frente, eu perguntei pra vaca porque ela fezisso. Porque se o homem é que ganhou a fama de garanhão, éporque ele é burro. Talvez a maioria dos homens não saiba mentirtão bem quanto uma mulher. Penso eu que não deve ser fácildescobrir que uma mulher tá pulando a cerca tão descaradamenteassim, de caso com outro. Por que a vaca foi tão burra? Na minhacasa, na minha cama, na primeira viagem que eu invento? Edepois... Se ela estava cansada de mim, não era só dizer? Se elaqueria inovar... Bom, eu poderia pensar na possibilidade defrequentarmos um Swing. Se o problema era só sexo.Mas não era sexo o problema. Segundo ela, ela amava o amante eesse amor era recíproco. Ela não me dispensou antes porque tavagrávida. Sim, os filhos eram meus, sorte ou azar. Depois que ospimpolhos nasceram, ela “pensou” que pudesse me amar, que acoisa da “família” seria mais importante. Mas então veio obaque... “Essa família” que ela tinha comigo não a fazia feliz.E quem estava atrapalhando? Eu! Olha que eu quase acreditei...Gente safada quando apronta faz parecer que a culpa é nossa,quando não é. Tipo o cara é viciado em drogas e fala que éviciado porque nasceu pobre. Mentira! Se o cara tá tão louco quetá entrando em casa de construção pra cheirar cal, quem tácheirando é ele. Ninguém tá forçando nada. Porra nenhuma. É maisfácil colocar a culpa nos outros do que assumir a merda que vocêmesmo e só você tá fazendo.Mas tem um detalhe essencial nisso tudo...O cara com quem a vacame chifrou era meu ex-cunhado. Cunhado já começa com “cu”. Meucunhado, meu cu. Carambolas! Não dá. Ex-cu, ex-cunhado... Issonão é traição. Isso é falta de lealdade, é maldade pura. Semperdão.Mas a vaca é a mãe dos meus filhos. A gente pára pra pensar nos
  13. 13. filhos e... Só rendeu um remember. Quem aqui nunca transou comum ou com uma ex na vida? Remember é o nome disso. Relembrar.Quando você sabe que o relacionamento não tem mais volta, que ésó sexo, mas vocês já transaram, então sabem o que funcionamelhor um com o outro... Então é o máximo. Eu transei com aminha esposa. Depois dela ter me traído. Ela estava com o meuex-cunhado, no fixo agora. Então de marido passei ao papel deamante de uma noite só. Não sei dizer se isso foi vingança ou...burrice.Bom, então eu fui pro meu segundo casamento. E quem errou dessavez foi eu. Tem que ter concessão, sabe, o meio-termo, senão nãofunciona. Casamento não é só sexo e dinheiro. Isso ajuda muito,lógico. Mas não se transa 24 horas por dia. E não se gastadinheiro 24 horas por dia. Então, o que fazer com as horas querestam? Cada um tem a sua vida, num casal. Até mesmo pra quandorolar a conversa, os dois terem o que contar. Imagina o infernoque devia ser nos anos 50... O marido chegava do trabalho econtava do dia: quanto produziu, o que fez, o que viu. E aesposa, que ficou o dia todo presa dentro de casa no papel dedona do lar vem falar que Sabão Omo rende mais?Isso sendo otimista, porque se a mulher saísse pra bater pernacom vizinha, aí vinha fofoca. Não existe conversa numrelacionamento desses, troca de experiências. Ou é o Sabão Omoque rende mais ou são as brigas da vizinha do 99, a Dona AvaCreidiane, com o Seu Linuailzo José.Eu não soube respeitar isso, a individualidade dessa nova mulherque apareceu na minha vida. Reclamava das roupas que ela usava,curto demais, claro demais, da família dela, o estopim foiquando eu falei das amigas dela. Eu tava inseguro... Fuiegoísta, imbecil e confesso isso quando vejo a situação agora.As últimas palavras dela pra mim foram:“Apenas o que eu posso te desejar é boa sorte, que tenha uma boavida, por mais improvável que seja... Adiós!”Chutado pela segunda vez. Pelo menos agora, por uma boa razão.Luz apaga.
  14. 14. Uma placa no centro do palco. Lê-se: ATO FINAL.REINALDO entra tranquilamente.Está vestindo tênis, bermuda, camisa com gola em V, boné.Pára em frente à placa e escreve a palavra “Sonhos”.Lê-se agora na placa, ATO FINAL: SONHOSInicia o diálogo:“Sonhos...Quais são os sonhos de um garoto de 16 anos como eu?Meu nome é Reinaldo, tenho 16 anos e ainda sou virgem. Tô no 2ªano do Ensino Médio. Não gosto dessa de-no-mi-na-ção: “EnsinoMédio”. Faz a gente parecer “mediano” e “mediano” é “medíocre”.Ou você é bom o suficiente ou não é. Preferia como antigamente,“2º grau”, aí sim tem cara de título.Hum... Meus sonhos. O primeiro deles vai se realizar hoje:perder a virgindade. Se bem que, pensando bem... Isso não éexatamente um sonho. É algo que vai acontecer na vida de todomundo. Um dia você vai transar, um dia você vai trabalhar e umdia você vai morrer, creio eu. Então vou corrigir, um dos meussonhos, é de que a minha primeira transa seja muito boa. E...vai ser!Foi tudo armado na escola. Vou falar pra vocês sobre como é quefunciona minha vida estudantil, resumidamente. Eu acordo mais oumenos às 10 horas da manhã com a minha mãe gritando pra euarrumar o meu quarto. Minha mãe nem entra no meu quarto, àsvezes isso é tão estressante...Então, depois de arrumar o qaurto, eu assisto televisão, até omeio-dia, quando sai o almoço.Na parte da tarde, eu converso com uns camaradas, entro nainternet, jogo vídeo-game, dou uns rolês, essas coisas.Semana passada deu um problema lá com o Servidor de não sei dasquantas e eu fiquei 3 dias sem conseguir entrar na Internet.(entonação séria) Isso foi de longe a pior coisa que jáaconteceu na minha vida. Mas agora já tá tudo arrumado, graças àDeus.
  15. 15. Na parte da noite, eu vou pra escola. Estudo um pouquinho e façoos esquemas. Eu faço parte do grupo dos Nerds, eu sou uminfiltrado entre os populares, mas enquanto ninguém descobrir...Posso ter o melhor que cada um desses grupos oferece.Para os populares, os melhores três anos da vida com direito àbaile de formatura pra fechar com ouro.Para os nerds, todos os games, animés japoneses e livros deaventura emprestados que você puder imaginar e um emprego quepague bem no futuro.Já o “esquema” é quando a gente arma pra ficar com uma menina.Por exemplo, o Antônio quer ficar com a Mariazinha. Aí eu chegona Mariazinha e falo: “O Antônio quer ficar com você”. Aí vai natroca de idéias. Pode rolar adicionar no Orkut, celular pra SMS,se pegou o MSN, já era então, a mina é sua. Depois, pra ficar, omelhor lugar é na saída da escola. Pode reparar... Todo mundodemora pra entrar ou pra sair. Se portão falasse... Nossa!Aí umas 11 horas, quase meia-noite, eu chego em casa. Janto,tomo um banho pra dormir, assisto o Jô Soares ou algum filme deterror. Sou viciado em filme de Terror. O Jason é o meu herói.Se tivessem me afogado na lagoa quando eu era criancinha, tambémia ficar revoltado. E ia me vingar. Mas de uns filmes pra cá, oJason perdeu a motivação. Sabe como é?Tá passando uma menina lá na lagoa, vê o Jason e fala: (imita)“Boa noite, Jason”. O cara vai lá e decepa a cabeça da menina.Aí já é intolerância, convenhamos. Mas é estranhamenteengraçado. Se você reparar, os melhores filmes de comédia domundo são os filmes de terror.Lá pras duas horas da madruga eu durmo e aí só vou acordar às10, 10 e meia, dependendo do humor da minha mãe. E começa todarotina denovo. Não é uma vida fácil.Não vejo a hora de começar a trabalhar. Todo dinheiro que agente pede, quer saber pra quê. Todo lugar que a gente vai, quersaber onde. Meu estoque de desculpas secou com o meu pai e com aminha mãe.Hoje, a transa tá confirmada na casa do Carlos. Ele só mora coma mãe, e a mãe trabalha à noite, como enfermeira. Então, casalivre. Você acha que eu vou falar: “Mãe, 20 reais é pra comprara camisinha, umas balas, fregells preto, tá ligado, e umas velasaromatizadas?”Nunca!Existe Televisão, Internet e Escola. Não preciso falar de sexo
  16. 16. com a minha mãe. Acho super bonito os filhos que tem esserelacionamento com os pais, mas da última vez que eu pergunteialguma coisa sobre sexo pros meus pais, eles disseram que amenina tava grávida.Mas peraí, que menina?Vou falar pro meu pai que sou cabaço?Os velhos piraram! Disseram que eu ia ser pai, ou que queria serpai, que eles iam ser avós, que não havia estrutura, que essajuventude tá mesmo perdida... Essa última é obrigatória.Tudo isso. E eu não havia nem transado. Isso porque eu souhomem. Imagina se a Beatriz, a menina com quem eu vou ficar,resolve abrir a boca? (imita) “Ah, mãe, hoje eu vou dar proReinaldo, vai ser a primeira vez dele”.E a mãe então responde: (imita) ”Tudo bem, minha filha, mas nãoesqueça a pílula, a camisinha e principalmente o amor, o amor ea confiança são tudo”.Du-vi-do!Mas, voltando a falar de sonhos... Eu não tenho esses sonhosidiotas que as pessoas tem... Tipo, a Paz Mundial. Mas quementira! Quem quer saber da Paz Mundial? Se você mora no Congoou no Afeganistão, aí, tudo bem. Caso contrário, você táquerendo dar uma de super-herói da Marvel.É ridículo o sistema deles... O vilão quer destruir ou dominar oplaneta. Mas me diga, pra quê? Se ser chefe de família já deveser uma merda, é o que o meu pai fala, é a forma dele me dizerpara não ter filhos, imagine administrar o planeta! E destruir aTerra então... Você só vai achar outro planeta habitável àzilhões de quilômetros passando por um portal interdimensional àoutros zilhões de quilômetros de distância... Só de falar,cansa.Então eu não vou ser mentiroso. Paz Mundial, Amor Mundial... Seeu estiver em paz comigo mesmo, já vou ter feito minha parte,sem hipocrisias. É o que eu acho. Outros sonhos que eu tenho...Olha, eu tenho o sonho de me casar. Sei que isso é sonho demulher e vocês vão zoar comigo por confessar isso, mas eu tenho.Sabe, eu lá, no altar, de terno, bonitão. Aí entra uma mulher,eu não sei exatamente quem ela é... Pode ser a Beatriz, talvez,não sei. Mas é uma mulher perfeita pra mim. É uma mulher que euamo. Que vai me ensinar muita coisa. E que eu vou ensinartambém. Eu digo que “Sim”, que quero me casar com ela e elatambém me diz “Sim”. Aí eu beijo ela, na frente de todo mundo,escracho o nosso amor e a nossa felicidade.
  17. 17. Eu também quero ser cantor. Aí, na noite de núpcias, eu voucantar pra ela. Vou ficar pelado, só com o violão no meio. Eela, na cama, deitada, me admirando, me amando. Vou tocar minhamúsica preferida. E essa música vai se tornar a nossa música.Todo casal tem uma música, todo casal tem quer TER uma música ea nossa vai ser a mais especial de todas.Toca alguma música romântica-positiva, desafinadamente.Eu ainda vou ter que melhorar um pouquinho, mas se até o MC Créualcançou o sucesso, quem dirá que daqui alguns anos eu não sejaum cantor de Jazz ou Soul? E aí, quem me diz que não?É o meu sonho. Mesmo que eu sofra, mesmo que eu seja humilhado,mesmo que não acreditem em mim... É o meu sonho. Não sei quem éessa mulher especial. Não sei se vou ser o homem especial paraessa mulher. Mas eu acredito que... as coisas podem ser simples.Que tudo pode ser fácil. Que existe amor dentro de mim. Pra serum bom homem, um bom marido e ah, meu pai vai me matar se ouvirisso, ser também um bom pai.Se tivesse que agora, escolher minhas últimas palavras, elasseriam: “Eu te amo”. De novo: “Eu te amo”. Mais uma vez: “Eu teamo”. Repito: “Eu te amo”.Eu te amo, isso é tudo.Luz apaga.Luz acende: Palco vazio, na Placa, escrito FIM.

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