Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Peça Teatral
Gênero: Drama
“BOA SORTE, IDIOTA”
10 de setembro de 2011
Argumento...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
SINOPSE:
“A comédia dos costumes, o amor da sedução, o horror da tragédia,
o si...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Personagens Principais:
Carlinha, mãe de Isis, dona da República Boa Sorte, sof...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
CENÁRIO DOS ACONTECIMENTOS: República Estudantil Boa Sorte
(uma mesa de refeiçõ...
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três… dois…
(atira e o revólver falha. Solta um palavrão, lentamente mira
denov...
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(envergonhados) ISIS: WELLINGTON:
Mãe! Dona Carlinha!
CARLINHA:
Gente, nós esta...
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(emburrado)
Outro?
CARLINHA:
Sim, sim! Eu tenho contato com toda a liga atlétic...
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superficial, fique com este pensamento: “Quem acredita sempre
alcança”.
WELLIGN...
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ISIS:
É.
RAPAZ ATLÉTICO:
Você estuda na Universidade também?
ISIS:
É.
RAPAZ ATL...
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prostitutas não beijam na boca por causa disso? Prostituta nunca
beija um clien...
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O que???
CARLINHA:
Tudo errado!
ISIS:
Você tava nos ouvindo? Não sei porque eu ...
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CARLINHA:
E?
ISIS:
Nós moramos na mesma casa.
CARLINHA:
E?
ISIS:
Nessa casa tam...
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CARLINHA:
(entra com a roupa, um pouco molhada)
O nome disso é trovão, criatura...
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ISIS:
(levemente encantada)
Você se chama Guaier? É isso? Que nome lindo!
CARLI...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
(irônico) Como você está simpática, Isis!
CARLINHA:
Ai, não liga não… Guaier. G...
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ISIS:
(refletindo)
Destino ou acaso… Qual a diferença entre um e outro?
CARLINH...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Luz vai acender sobre Guaier e Isis, na mesa. Irá alternar a ação
entre os dois...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
simplesmente preferem não acreditar. As pessoas não têm mais esse
tipo de fé. S...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Sério? Você sabe tanto assim sobre vampiros?
GUAIER:
Você não acha que estamos ...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
número de desculpas que eu inventei para fazê-lo sair na varanda e
ele sempre t...
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ISIS:
Ai, se a minha mãe te pega aqui…
GUAIER:
O que? Ela vai dar umas dicas de...
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GUAIER:
Mas vocês moram na mesma casa…!
ISIS:
É que pelo computador a gente tem...
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ISIS:
Você é muito prepotente, isso sim. E… Eu nunca saí com um cara
antes. Ass...
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ISIS:
Essa é a minha primeira vez… Vou ter que te avisar, pra ir com
calma.
GUA...
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GUAIER:
Você já me viu voando? Você já me viu sugando alguém?
ISIS:
A sua histó...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Levanta-se animada, sai do ambiente.
Wellington seguido de Carlinha entram logo...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
WELLIGNTON:
Mas eu tô falando muito sério!
CARLINHA:
Peraí, a Isis pensa que o ...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Eu amo a Isis de verdade! Esse Guaier é um vampiro sim, tá sugando
a mente dela...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
GUAIER:
(entrando em seguida, só de cueca)
Podemos dizer que sim.
ISIS:
Hummm…
...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
GUAIER:
(segura-a pelo pescoço, com raiva)
E se eu só quiser o seu sangue? E se...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
imortalidade… Ela não é ganhada, ela é concedida. Você tem que
beber do meu san...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Mas… e se eu ainda puder despertar o que resta a ela de humano? O
amor cega mui...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Caralho, morrer é morrer! Buuuuum!
WELLINGTON:
Não, não, não! Era minha última ...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
(grita)
Eu não sou a porra de um vampiro! Era só um jogo!
CARLINHA:
(grita tamb...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
VOZ DE GUAIER:
Pára com isso!
SOM DE GIZ ARRANHANDO LOUSA. OFF.
SOM DE RESPIRAÇ...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Os pais de Isis foram vítimas de Dona Carlinha. Isis cresceu e se
tornou uma gó...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Ai, ai… A cidade fica de férias e o pouco de gente que fica só
sabe mesmo é faz...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
é por enquanto. Os quartos já estão disponíveis para locação. Eu
quero essa Rep...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
DONA CARLINHA:
A minha filha, a Isis, ela pensou que esse cara com quem ela tav...
Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota”
Ainda bem, porque senão teríamos que parar tudo que estamos
fazendo para eu pod...
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  1. 1. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Peça Teatral Gênero: Drama “BOA SORTE, IDIOTA” 10 de setembro de 2011 Argumento e Roteiro: Procópio Pinheiro Procópio Pinheiro
  2. 2. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” SINOPSE: “A comédia dos costumes, o amor da sedução, o horror da tragédia, o silêncio da verdade” Guaier é um rapaz estranhamente sedutor e misterioso. Sua chegada à República Boa Sorte vai mudar definitivamente a vida daqueles que ali vivem: desde Carlinha, dona da pensão que tenta transformar a filha, a recatada Isis numa mulher mais liberal; à própria Isis, que se vê pela primeira vez mais do que apaixonada, mas fascinada por este homem até o despertar dos ciúmes de Wellington, antigo residente da casa, que dá inicio à formação de uma teoria envolvendo vampirismo e aparências. SINOPSE COMERCIAL: Você acredita que vampiros existem? Isis acredita que sim. Ela é uma garota gótica, introspectiva e virgem que mora com a mãe na República Estudantil Boa Sorte. Para Isis, vampiros são seres encantadores, mágicos e imortais. O destino vai fazê-la cruzar caminho com um desses seres da noite. Só que a realidade vai se mostrar feia, muito mais terrível e sanguinária do que a doce imaginação alimenta. Procópio Pinheiro
  3. 3. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Personagens Principais: Carlinha, mãe de Isis, dona da República Boa Sorte, sofre com o complexo da meia idade, não se aceita quarentona, não gosta nem de ser chamada de mãe, usa maquiagem forte, é cômica, descolada. Isis, a filha única de Carla, a nerd gótica, virgem, introspectiva, esperançosa. Wellington, residente mais velho da República, platônicamente apaixonado por Isis, faz a linha “nerd mais moderno”, seria um exemplo da nova ordem “geek”. Guaier, um rapaz sedutor e misterioso: de tez pálida, magro, veste-se de com tons escuros, roupas coladas ao corpo definido, um sorriso enviesado no rosto, vai morar na República durante a época de férias da cidade universitária. Participações: Rapaz Atlético Procópio Pinheiro
  4. 4. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” CENÁRIO DOS ACONTECIMENTOS: República Estudantil Boa Sorte (uma mesa de refeições, cadeiras, um sofá…) Silêncio. Cenário vazio, escuro. Então o som de passos. Respiração ofegante. Os passos aceleram-se. VOZ DE WELLINGTON: Isis! Isis! Não faça isso! Novamente silêncio. Luz acende. No centro do palco, está Isis. Isis é a encarnação do desespero: a maquiagem borrada por lágrimas, o vestido solto pendendo revelando o sutiã, o revólver na mão, um sorriso de escárnio no rosto: ISIS: (alisando o revólver com carinho) Eu preciso tanto morrer! Preciso tanto… Só assim eu vou alcançar a vida… (aponta a arma para a platéia, nervosa) Não é o que dizem? O que os poetas diziam? A morte é o êxtase da vida! Mas se viver é morrer… cada segundo, nessa vida sem graça, nessa vida de rotina, nessa vida de acordar e dormir… E de repente tudo acaba e chamam isso de morte? (volta a apontar a arma para si) Não! Isso é vida! Vida! Aberração é ter medo do desconhecido em vez de sentir verdadeira fascinação… Eu não vejo um monstro, eu vejo um anjo! Como isso é gostoso… O metal gelado, o cheiro da pólvora… É vida o que me espera. É transformação! Eu não vou morrer… Eu vou viver, viver pra sempre! (enfia o cano do revólver dentro da boca) Que delícia! Eu posso sentir o sangue circulando dentro de mim… Novo, mutante, heróico! Eu não vou morrer… eu vou renascer… três… dois… um… (vai apertar o gatilho, faz cara de agonia, tira o revólver da boca, vai chorar…) Mas por que eu preciso mesmo fazer isso? Por quê? (volta a apontar o revólver para si, lentamente, aflitante) Porque é preciso… (enfia o revólver dentro da goela, chorando) Procópio Pinheiro
  5. 5. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” três… dois… (atira e o revólver falha. Solta um palavrão, lentamente mira denovo dentro da própria boca, aperta os olhos, fechando-os…) Luz se apaga de repente, som impactante de TIRO. Tempo. Luz se acende. Som de cacarejar de galo, típico do amanhecer. Dona Carlinha arrumando a mesa da República para o café da manhã. CARLINHA: Crianças, quando vocês vão vir? O café vai esfriar! VOZ DE ISIS: Já tô indo, mãe! CARLINHA: Mãe é uma ova! Eu me mato para manter essa formosura e você quer me chamar de mãe? WELLINGTON (entra): E você pode tratar eu e a Isis como “crianças” é? CARLINHA: Wellington, não nego que a Isis é minha filha. Minha filhinha do coração. Mas a nomenclatura de mãe nunca me caiu bem. Olha pra mim… Diz se eu não sou gostosa… WELLINGTON (sentando-se para o café): Eu ganho desconto do aluguel se disser que sim? CARLINHA: Não! ISIS (entra, senta-se): Ai, mãe… você me envergonha! CARLINHA: Dona Carlinha, já disse! Aliás, quem me envergonha é você… Onde já se viu? Uma moça tão bonita como você ter passado a noite de sábado aqui, em casa! E você também Wellington… Um nerd e uma filha frouxa… Em vez de República da Boa Sorte, vou ter que mudar o nome daqui para “Recanto dos Virgens”. Procópio Pinheiro
  6. 6. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” (envergonhados) ISIS: WELLINGTON: Mãe! Dona Carlinha! CARLINHA: Gente, nós estamos numa cidade universitária, gente jovem, descolada, festas! ISIS e WELLINGTON: Nós estamos de férias! CARLINHA: (bate na mesa) Credo! Vocês são gêmeos pra falar assim ao mesmo tempo, crê em Deus-pai! Que estejamos de férias… Não estamos mortos, né mesmo? Eu sou uma mãe liberal, sou uma mulher moderna e qual é mesmo o meu ditado? Os dois ficam calados. CARLINHA: Vocês não vão falar mesmo qual é o meu ditado? Fazem uma careta… WELLINGTON: ISIS: Beleza é imortal! CARLINHA: Olha só que bunitinho, irmãos gêmeos mesmo! Wellington, por acaso o seu pai não esteve na Festa do Pode-tudo em 1971? (ri) Tranquilinha, Isis, você é mesmo minha filha única, The One, tirando uns dois abortinhos que eu fiz antes… Tá bom, piadinha sem graça. Mas voltando ao assunto principal… Beleza, juventude… Pode ser pra sempre, vocês sabiam? Quando você estiver preparada, filha, eu te conto tudo! WELLIGTON: Ah, eu sei, Dona Carlinha… O mesmo esquema do Retrato de Dorian Gray, não é? Quantos anos a senhora têm? Duzentos? CARLINHA: Quantos anos eu pareço ter, isso é o que importa! E na minha análise, vocês dois não estão nada bem! Aliás, mesmo com a cidade vazia por causa das férias, filhinha do meu coração, eu te arranjei um encontro para o fim da tarde de hoje! Eu não tô morta! WELLINGTON: Procópio Pinheiro
  7. 7. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” (emburrado) Outro? CARLINHA: Sim, sim! Eu tenho contato com toda a liga atlética, você sabe… (olhando para Wellington) Não são somente os fracassados que ficam na cidade universitária durante as férias… WELLINGTON: Eu não pedi para os meus pais ficarem de férias também! CARLINHA: Nem os seus pais gostam de você! (ri) Ai, Wellington, desculpa. Você é um garoto muito… muito… (tentando encontrar a palavra) Muito bonzinho! ISIS: Bonzinho? WELLINGTON: (para Isis) O que você acha de um rapaz muito bonzinho? CARLINHA: Tsc, (interrompe a resposta de Isis) Filha… não vai me envergonhar dessa vez! Esse cara que eu arranjei é super gatinho! Já te disse que ele é da Liga Atlética? ISIS: Mãe… Eu não quero mais saber desses encontros! Pelo amor! Como se eu precisasse desesperadamente de um homem, de alguém para suprir MINHAS necessidades… Quero dizer, eu me sinto bem assim como estou. CARLINHA: (imitando) “Eu me sinto bem como estou”. (ri) Essa é a resposta perfeita de uma encalhada! Qual é a próxima? (imita) “Estou solteira por opção”? WELLINGTON: Nossa, Dona Carlinha, às vezes a senhora é tão superficial… CARLINHA: Não estou dizendo que devam se casar. Se bem que casamento é muito importante… Estamos no século 21, mas um bom casamento é moda desde o século 15! Mas isso, isso eu não posso impôr. Nem quero! Isis, coloca dentro dessa sua cabecinha. Isso também vale pra você, Wellington. A vida foi feita pra gente se divertir. Simplesmente isso. (como se fosse um bordão) Beleza é imortal! (pausa) E para você, (Wellington) não ficar dizendo que sou Procópio Pinheiro
  8. 8. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” superficial, fique com este pensamento: “Quem acredita sempre alcança”. WELLIGNTON: Pensamento? Isso é de uma música do Renato Russo! ISIS: A-i, meu-De-us, depois dessa, eu vou voltar pro meu quarto! (sai) WELLINGTON: Isis… (vai atrás dela) CARLINHA: Não esquece o encontro! Quero você linda, simpática, esfuziante, filhinha! Vai pegar o gatinho! Miau, miau! ISIS: (ouve-se ela gritar) A-i, meu-De-us!!! Carlinha sai da mesa. Barulho de TIC TAC de Relógio. Entra o RAPAZ ATLÉTICO e se senta. Isis chega, toda desanimada, braços soltos. Desaba sobre a cadeira. RAPAZ ATLÉTICO: (sempre animado) Tudo bem? ISIS: (sempre desanimada) É. RAPAZ ATLÉTICO: Você se chama Isis não é? Que nome lindo! ISIS: É. RAPAZ ATLÉTICO: Você mora aqui na República né? Procópio Pinheiro
  9. 9. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: É. RAPAZ ATLÉTICO: Você estuda na Universidade também? ISIS: É. RAPAZ ATLÉTICO: Você só sabe falar “É”? ISIS: É. RAPAZ ATLÉTICO: (ri rapidamente) Eu sou da liga atlética! E você? ISIS: Olha, você quer mesmo prosseguir com isso? RAPAZ ATLÉTICO: Você não queria um encontro? Poxa, não me humilha né? Dona Carlinha é super gente boa! ISIS: É, porque ela não é SUA mãe! RAPAZ ATLÉTICO: Ah, então vamos transar logo, já que você prefere simplificar! ISIS: Eu não disse nada sobre sexo ou simplificação! RAPAZ ATLÉTICO: E então? ISIS: Eu estudo Língua Portuguesa. Adoro poesia e cultura gótica. Quero um namorado e não uma transa de uma noite só. Eu fico pensando… Não se pode banalizar as coisas dessa forma. E a magia? As pessoas esquecem a magia! Do poder de um olhar… (Isis olha para ele de uma forma que ela pensa ser sensual mas que nos soa de algum modo estranho) Sabe? Esse tipo de coisa. O beijo, por exemplo. Moças e rapazes beijam-se como se beijo fosse aperto de mão… Mas não é. O beijo vem da alma, o beijo é a coisa mais íntima do ser. Você sabia que Procópio Pinheiro
  10. 10. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” prostitutas não beijam na boca por causa disso? Prostituta nunca beija um cliente, beija somente o seu amor, o seu homem. RAPAZ ATLÉTICO: Que legal saber isso! Eu achava que elas não beijavam na boca por causa da herpes… Ficam paralisados. SOM de TIC TAC do relógio. Voltam a se movimentar. ISIS: (gesticulando bastante, agora quem está desanimado é o Rapaz) Tudo isso é o Amor, é o Amar! RAPAZ ATLÉTICO: Mas você não acha que não deve rolar nem mesmo um test-drive? Do que adianta tanto amor, se não rola… uma paixão mais física? ISIS: Imagina comigo. Pensa! Um piano suave ao fundo, numa noite escura, nós dois sobre uma lápide num cemitério, no silêncio da solidão, refletindo o valor da vida e da morte, ali, só temos um ao outro… E então? Não é lindo? Rapaz atlético olha com total estranheza para Isis. ISIS: Você quer anotar o meu e-mail, aí podemos continuar conversando pelo MSN! Rapaz atlético olha com total estranheza para Isis. ISIS: E podemos trocar poemas! E conversar sobre o nosso interior espectral, sobre o significado da vida, sobre a filosofia do amor e aí quem sabe, nessa envoltura, possamos começar a nos relacionar, com maior embasamento e seriedade… RAPAZ ATLÉTICO: É. Pode ser. Mas agora… é que já deu a minha hora. Sabe, nós da Liga Atlética não paramos nunca. Eu não sei se príncipes encantados ainda existem por aí, mas boa sorte pra você. Eu vou ser sincero. Comigo, sexo primeiro. Amor, depois, quem sabe. (se levanta e sai) ISIS: (depois que ele sai) Procópio Pinheiro
  11. 11. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” O que??? CARLINHA: Tudo errado! ISIS: Você tava nos ouvindo? Não sei porque eu NÃO me sinto surpreendida! Levar fora de um cara que eu nem estava afim! Isso é mesmo o fundo do poço! CARLINHA: Eu tô tentando ajudar você, filha! Mas fica aí com essa cabecinha de menina virgem! ISIS: Mas eu sou virgem mesmo! CARLINHA: (ri) Que mentira! ISIS: Não, não é não. CARLINHA: (séria) É, sim. Você tem 20 anos. Você NÃO pode ser virgem. Aprenda pelo menos a mentir. ISIS: Você é ridícula, mãe! CARLINHA: Eu só queria que você fosse mais esperta, um pouco mais gingada… ISIS: Eu não sou você! CARLINHA: Mas você PRECISA ser. Senão… Como é que eu vou poder… Poder… ISIS: Me fazer? Isso que você quer dizer? Eu sou o seu Projeto que deu errado? CARLINHA: Não é isso. Todo mundo… Precisa se relacionar. Beleza é imortal! Veja o Wellington. Vocês se parecem tanto… ISIS: Ah, não… Pára! O Wellington é meu amigo. Procópio Pinheiro
  12. 12. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” CARLINHA: E? ISIS: Nós moramos na mesma casa. CARLINHA: E? ISIS: Nessa casa também mora a minha mãe, por mais que ela implique com o fato de chamá-la de mãe, diga-se de passagem. CARLINHA: E? ISIS: Ele não gosta de mim também. CARLINHA: Ele é um rapaz muito bonzinho… ISIS: De um jeito bastante previsível. O melhor amigo. SOM de CHUVA. ISIS: (dramatiza repentinamente) O céu… O céu está chorando… CARLINHA: Não, filha, o nome disso é chuva! Ai, a minha roupa no varal! Wellington!! (saindo) Me ajuda a tirar a roupa do varão!! VOZ DE WELLINGTON (saindo de um lado do palco): Tô indo! ISIS: (senta-se, refletindo) O céu está chorando… a dor da nossa alma… corações partidos… onde estará o meu princípe? O homem misterioso, sensível e bonito com o qual tanto sonho? Que me salvará? Que me amará como nenhum outro? SOM de TROVÃO. ISIS: A explosão de nossas almas… Procópio Pinheiro
  13. 13. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” CARLINHA: (entra com a roupa, um pouco molhada) O nome disso é trovão, criatura! Deixa um pegar em cima da sua cabeça pra você ver sua alma explodir! Wellington, o resto das roupas… traz logo pra dentro! VOZ DE WELLINGTON (saindo do lado oposto do palco): Tô indo! ISIS: Mãe, você tem que ser mais sensível! CARLINHA: (fala meiga) Mas eu sou sensível… (grita) Wellington, caralho, anda logo com essas roupas! Isis abaixa a cabeça. Entra GUAIER, sensual, com a camiseta branca molhada da chuva. CARLINHA: Nossa, Wellington, é isso o que acontece com você quando você toma um banho d'água? GUAIER: Wellington? Wellington entra com as roupas. WELLINGTON: Tô aqui! Wellington, Carlinha e Isis olham para o rapaz ao mesmo tempo e perguntam: QUEM É VOCÊ? GUAIER: (dá uma pausa, sorri) A porta estava aberta, começou a chover… Eu estava procurando um quarto. Vi uma placa lá fora de que há um quarto vago aqui. CARLINHA: Toda a cidade está vaga. Época de férias. GUAIER: Eu também estaria na casa dos meus pais se não fosse pelo trabalho. Eu me banco sozinho, sabe? Até esqueci de me apresentar… Boa-noite. Meu nome é Guaier. Procópio Pinheiro
  14. 14. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: (levemente encantada) Você se chama Guaier? É isso? Que nome lindo! CARLINHA: Minha filha Isis e o outro residente, Wellington. Eu sou a Dona. Meu nome é Carlinha. Mas antes que possamos prosseguir… GUAIER: (tira notas de dinheiro) Acho que isso deve ser suficiente… CARLINHA: (conta, guarda as notas no peito) Eu não ia exatamente te cobrar agora. Mas, bom, bem… Seja bem- vindo à República Boa Sorte. Temos algumas regras aqui. Como já disse, eu sou mãe daquela ali, a Isis, mas nem por isso ela me chama de “Mãe”. Ou seja, se nem a minha filha pode me chamar de mãe, você NÃO VAI PODER me chamar de “Tia”, “Senhora” ou o que eu consideraria uma declaração de guerra: me chamar de “Véia” ou “Coroa”. GUAIER: A senhora… Você parece tão jovem… CARLINHA: Começou bem. No máximo, admito “Dona Carlinha”. Temos outras regras aqui: nada de drogas, sexo pelos corredores, sexo selvagem ou sexo à três, horários extraordinários devem ser avisados… GUAIER: Então, eu trabalho e estudo à noite. CARLINHA: Suas malas? Suas coisas, onde estão? GUAIER: Humm… lá fora. Mas não é tanta coisa. CARLINHA: Temos um ditado aqui também. Beleza é imortal! GUAIER: Imortalidade… Eis um assunto que me interessa… ISIS: você se interessa por coisas sobrenaturais? É isso? Que legal! WELLINGTON: Procópio Pinheiro
  15. 15. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” (irônico) Como você está simpática, Isis! CARLINHA: Ai, não liga não… Guaier. Guaier. É um nome bonito mesmo. Deixa eu te levar até o quarto… O Wellington pega suas coisas. Precisamos conversar mais. Sobre a rotina aqui da República, as outras regras da casa… Todo o blá-blá-blá. GUAIER: Ok. Será um prazer. Guaier sorrí e a acompanha, saindo do recinto. WELLINGTON: Eu não acredito nisso! Que cara estranho! ISIS: Não tem nada de estranho… WELLINGTON: …Peraí, não vai me dizer que você… Você rejeitou todos os caras que a sua mãe te arranjou, os mais populares desse campus e ficou encantadinha com esse cara-pálida??? ISIS: Pera aí digo eu! Eu não estou “encantadinha” por ele… Também não rejeitei ninguém… Sabe o que dizem? Química! Igual quando eu te conheci… Eu gostei de você logo de cara, não foi Wellington? WELLINGTON: Mas é diferente! ISIS: Diferente como? WELLINGTON: Ué, diferente! ISIS: Vai logo lá fora buscar as coisas do rapaz… WELLINGTON: Agora sou capacho! ISIS: Por favor. Wellington sai. Procópio Pinheiro
  16. 16. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: (refletindo) Destino ou acaso… Qual a diferença entre um e outro? CARLINHA: (voltando) Destino é quando você se ferra. Acaso é quando você dá sorte. ISIS: Manhê! (pausa) Mãe, eu acho que o Wellington não gostou do Guaier… CARLINHA: Como assim? O rapaz nem sentou a bunda na cama! Não deu tempo nem de gostar nem de desgostar… (boceja) Ai, tô cansada. Você e o Wellington dêem assistência ao rapaz. Já se socializam… Meio pálido ele, não? ISIS: Que nem você! CARLINHA: Honey, eu uso base, dã! Dá alguma coisa pra esse rapaz comer, antes que eu me esqueça… (SOM de Chuva) E essa chuva… Noite longa… ISIS: Noites longas… Carlinha sai. Isis a acompanha. ISIS: (chamando) Gauier! Luz apaga. Trecho curto de TECLAS DE PIANO, toque lento, pausado. Luz acende, Wellington sentado sobre o sofá, soturno. WELLINGTON: Eu não quero parecer louco. Nada disso! Sabe aquele ditado? “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”? É isso o que está acontecendo, eu acho. Esse rapaz, o novo hóspede. Pele pálida, hábitos noturnos, com gana de misterioso e sedutor… Guaier! Chega a soar clichê, mas… Procópio Pinheiro
  17. 17. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Luz vai acender sobre Guaier e Isis, na mesa. Irá alternar a ação entre os dois e Wellington. A cada troca de foco (Wellington/ Isis e Guaier) um trecho bem curto de piano (como já citado no início deste trecho) ISIS: Você acredita em vampiros? Guaier sorri. GUAIER: Que pergunta descabida… ISIS: Mas não foi você mesmo que disse que se interessa pela imortalidade? GUAIER: Talvez eu tenha me expressado mal… Não é só ser imortal. É o sobrenatural, essa “magia” do que está entre os céus e a terra. Você falou sobre “vampiros”, é isso? Muita gente discute esse tipo de coisa. Vampiros podem ter sentimentos humanos? Vampiros, um dia já foram mesmo humanos, ou já nasceram assim? Há alguma coisa de espiritual no vampirismo ou seriam apenas seres contaminados com alguma doença, vítimas de alguma estranha mutação? Mas se nós partimos do pressuposto de que vampiros NÃO existem, fica difícil estabelecer qualquer tipo de padrão. Isso se formos falar de apenas uma espécie conhecida do Reino Fantástico. Se falássemos de elfos, duendes, lobisomens, fadas… Quantas espécies e subespécies existem, quais suas características… É um trabalho sem fim que pode ser totalmente infrutífero. ISIS: Ou não. Se essas criaturas realmente existirem, se realmente tivermos contato com elas… O que há de inútil em descrevê-las, não seria incrível revelar ao mundo que elas existem? GUAIER: Mas o mundo, as pessoas, sabem que essas criaturas fantásticas existem. ISIS: Eu tô falando em PROVAR que esses seres fantásticos existam… GUAIER: É o X da questão. As pessoas conhecem, sabem, já ouviram falar, talvez tenham até mesmo VISTO um ser desse tipo, mas elas Procópio Pinheiro
  18. 18. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” simplesmente preferem não acreditar. As pessoas não têm mais esse tipo de fé. Se um vampiro fosse descoberto hoje, ele perderia toda sua magia. Cientificamente seria provado que o vampiro é, sei lá, uma variação carnívora da espécie humana, que tal? Por mais que a ciência traga explicações e categorias, um mundo sem essa fé se torna seco demais. Não podemos viver sem a dúvida, sem o drama, sem a loucura! PASSA para Wellington. WELLINGTON: Eu ouvia isso. Eu ouvia o que eles falavam! E isso não é conversa de gente normal. Eu não estou falando da Isis… Eu, eu… Eu gosto da Isis! Eu falo desse rapaz, o Guaier. Ele é estranho sim! Muito estranho! Ele tá seduzindo a Isis, descaradamente. Mas o pior é que… eu sinto que ela está se deixando seduzir. Ela está acreditando no que ele diz. Nessa amizade, nessa química, nessa troca de idéias despudoradas! O problema é que eu penso que o que ele diz, aquilo em que ela está acreditando, que isso é verdade. Que esses seres fantásticos ou malditos existem. E que estamos lidando com um deles debaixo de nosso próprio teto…! PASSA PARA ISIS E GUAIER. ISIS: Para você, como um vampiro seria? GUAIER: Os vampiros são suas criaturas fantásticas preferidas? (ela faz que sim com a cabeça) Vampiros não são humanos, mas se parecem com humanos. Até porque um dia já foram humanos. Eles, elas… São bonitos, sedutores, charmosos… Algo que a própria transformação incutiu neles. Para que vampiros sobrevivam, eles precisam caçar humanos, precisam de sangue humano. Então deve haver mais humanos que vampiros. Por isso os vampiros precisam também ser discretos. Vampiros não podem ser espafalhatosos, isso seria suicídio. Como criaturas da noite, eles têm sensibilidade a luz, olhos e pele mais claros, um aspecto pálido mesmo… Que mais que eu posso dizer? ISIS: Você é um verdadeiro especialista. GUAIER: Não, não. Estou sendo bastante superficial, diria. ISIS: Procópio Pinheiro
  19. 19. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Sério? Você sabe tanto assim sobre vampiros? GUAIER: Você não acha que estamos falando demais sobre isso? ISIS: Qual o problema? Não é saudável? Não é… Seguro? GUAIER: (pausa) Você tem muitas idéias na cabeça. ISIS: Guaier, eu acredito. GUAIER: Acredita em quê? ISIS: Esses seres fantásticos existem. Vampiros, existem. GUAIER: (sorri) Você não tem medo? (ela sorri) Acho que foi por isso que nos demos tão bem. Aliás, por que alguém não se daria bem com você? Olha, eu gosto disso. De pessoas que têm esse tipo de fé. PASSA PARA WELLINGTON. PIANO TOCANDO ACELERADAMENTE, ACOMPANHANDO SEU DIÁLOGO DESESPERADO. WELLINGTON: Eu realmente resolvi pesquisar, ir a fundo. Foi assim que começou. “E se ele é mesmo um vampiro?” Sei lá, isso podia ser apenas um jogo sexual. Dele com a Isis. As pessoas gostam de fantasiar. Mas até quando, ele “vai” fantasiar? Isto é, se ele estiver mesmo fantasiando? Eu descobri que o Guaier não tem fome. Ele não come mais que um prato de comida, raso, para um dia todo! Ele não come porque precisa, mas para manter o disfarce. Vampiros não têm esse tipo de fome. Eu fiz vários testes. Deixei torta, bolo na geladeira, churrasco… Tudo à noite, no horário em que ele está ativo e ele nem beliscou! Nem mesmo um anoréxico resistiria a uma torta de limão ou uma lingüiça assada dando sopa no meio da noite! Aliás, falando em sopa, teve uma noite que ele se recusou a comer uma sopa com alho… Reclamar de cebola pode ser até comum, mas do alho? Bastante clichê ainda, eu sei, mas sugestivo. Outra coisa: a aversão ao dia. Isso sim é totalmente anormal. Não é porque ele trabalhe ou estude à noite. Eu observei. Até hoje, eu nunca o vi sair debaixo da luz do sol. E não dá pra imaginar o Procópio Pinheiro
  20. 20. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” número de desculpas que eu inventei para fazê-lo sair na varanda e ele sempre teve uma excelente desculpa para não sair do quarto. Aliás, ele modificou a fechadura do quarto. A porta e as janelas não abrem. Somente ele consegue abrí-las. Por quê? Medo de que alguém exponha o quarto dele ao sol com ele dentro! E então? Tá certo que eu ainda não vi ele matar ninguém, eu ainda não vi ele voando por aí e eu ainda não consegui colocar esse cara debaixo do sol pra ver se ele torra… Mas será que eu vou precisar mesmo chegar a esse ponto? Eu não sei o que fazer. Porque eu não tenho certeza. Mas eu sinto. Eu SINTO que tem alguma coisa de muito errada com esse cara, com essa história… E é a Isis quem está mais próxima dele! Eu tento indiretas, o Guaier já me pegou bisbilhotando as coisas dele no quarto dele e não sei de onde tirei a história de que tinha esquecido uns papéis lá, quando ele ainda não morava aqui. Quer dizer, não sei se ele acreditou. Sem falar outras vezes que eu o segui, ele percebeu e me despistou. Não sei se ele percebeu que era EU que o estava seguindo. Mas eu TENHO que fazer alguma coisa à mais e rápido! Se não realmente vão pensar que estou ficando louco e isso, eu não vou admitir! Levanta-se, sai. OFF. Luz apaga. SOM de teclas. SONS típicos de MSN: janelas sendo abertas, usuários chamando atenção… No escuro, Isis em frente ao computador, seu rosto iluminado pela tela. Ela está teclando, concentrada, de repente pára e ri de maneira muito estranha (hihihihi) com algo que escreveu ou viu na tela. GUAIER: (surge de repente atrás dela) Posso saber do que você tá rindo? ISIS: Que susto, Guaier! Como você entrou aqui? Ei, esse é o meu quarto, nenhum homem jamais entrou aqui! GUAIER: (ele ri) Você é tão estranhamente engraçada às vezes… Eu entrei entrando… Procópio Pinheiro
  21. 21. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: Ai, se a minha mãe te pega aqui… GUAIER: O que? Ela vai dar umas dicas de sexo pra gente? ISIS: (extremamente séria) Não gostei disso. Que você falou da minha mãe. Não teve graça nenhuma. GUAIER: Desculpa. ISIS: A minha mãe é meio louquinha… GUAIER: De perto, ninguém é normal. Todo mundo tem um louco preso dentro de si. Eu acho que você nunca soltou a louca que existe dentro de você… O seu monstrinho. Como é? Safada, preguiçosa, aventureira…? ISIS: Não sei do que você tá falando… GUAIER: Ah, sabe sim. O louco que existe dentro de mim… Ele gosta de fazer joguinhos, de se arriscar, como se a vida fosse uma espécie de filme de ação… O problema é que as coisas nunca chegam num clímax. Como se eu sempre estivesse esperando alguma coisa acontecer. ISIS: (tecla mais um pouco, muda de assunto) Eu tô conversando com o Wellington. GUAIER: Wellington não é aquele rapaz estranho que também vive aqui? ISIS: É. GUAIER: E por que você está falando com ele pelo computador? Ele não tá “aqui”??? ISIS: Na verdade, ele tá no quarto ao lado.(Guaier faz uma expressão de “quem não entendeu”) É que eu e o Wellington nos falamos mais através do computador do que pessoalmente… Procópio Pinheiro
  22. 22. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” GUAIER: Mas vocês moram na mesma casa…! ISIS: É que pelo computador a gente tem uma liberdade maior para se expressar, ué. GUAIER: Isso quando você não conhece a pessoa direito… Aí dá uma abertura. Mas isso jamais vai superar o olho no olho. Olha pra mim… (ela continua olhando para a tela) Olha pra mim, por favor… (ela se vira e olha pra ele, está tensa) Conversar assim é muito melhor. Esse Wellington é um estranhão… E nem precisa analisar muito pra chegar a essa conclusão! ISIS: Engraçado, ele diz o mesmo sobre você. GUAIER: E você, me acha estranho? É só isso o que importa pra mim. ISIS: (pensa) Não. Mas, afinal de contas, o que você quer comigo? GUAIER: Conversar. Eu não posso simplesmente conversar com você? (Isis ignora-o, voltando a teclar) Isis… (ela não olha pra ele) Isis… Ok. Você venceu. Eu quero sair com você. Ela abruptamente pára de escrever, fica travada, tensa. GUAIER: Isis, você quer sair comigo agora? Pra gente se divertir um pouco? Pra você me mostrar quem você é por dentro, de verdade? ISIS: (seca) Por que? GUAIER: Por que o quê? ISIS: Ah, eu sabia! Foi a minha mãe que armou isso! GUAIER: Eu nem falo com a sua mãe… Se a sua mãe soubesse, você acha que eu entraria aqui de surdina? Procópio Pinheiro
  23. 23. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: Você é muito prepotente, isso sim. E… Eu nunca saí com um cara antes. Assim. Todas as outras vezes, sempre foi a minha mãe que me arranjava aqueles encontros tenebrosos… Se bem, que no fundo, no fundo… Eu queria que pelo menos um deles tivesse dado certo… GUAIER: Ninguém arranja nada pra ninguém. Por isso não deu certo. Sua mãe, sua mãe. Você, você. VOCÊ (toca o indicador entre os peitos dela, sem malícia, em tom decisivo) quer sair comigo? ISIS: (ela demora pra responder, sorri) Sim…! GUAIER: Então vamos sair. Relaxa. Ninguém vai te comer. A não ser que você queira! ISIS: (ela dá um tapinha nele) Seu idiota! GUAIER: (Ri) Let's go! Eles saem, a tela do computador ligada. Entra Wellington, senta-se em frente ao computador, começa a teclar. WELLINGTON: (falando enquanto escreve) Isis, você tá online? Você já foi dormir? Hoje na televisão vai passar o seu filme preferido. “Entrevista com o Vampiro”, da Anne rice. Saca? Você tá aí? Isis? Isis? Isis? (faz uma expressão de quase triste) Também vou dormir. Tchau. Sai. O computador desliga sozinho. LUZ AZULADA sobre uma cama. Guaier e Isis entram de mãos dadas. Ela se senta. Ele fica de pé, tira a camisa. Procópio Pinheiro
  24. 24. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” ISIS: Essa é a minha primeira vez… Vou ter que te avisar, pra ir com calma. GUAIER: (sorri, aproximando-se) Você tá falando sério? Você… tá pronta pra isso? Quero dizer, nós ainda… ISIS: Nós ainda…? GUAIER: Nós ainda não estamos “sério”. ISIS: Quando as coisas estão boas, não existe tempo. Nem cedo, nem tarde. Eu não quero pensar agora. GUAIER: Não é a minha primeira vez com sexo, mas vai ser a minha primeira vez com… você. ISIS: Eu só quero saber uma coisa… Você tá sendo verdadeiro comigo? GUAIER: O que é a verdade se não uma versão totalmente sem graça da mentira? ISIS: Eu não quero que você me responda com filosofias. GUAIER: O que é a verdade se não uma versão totalmente sem graça da mentira? ISIS: Verdade, mentira, verdade, mentira… Eu não quero pensar, já te falei. Só quero SENTIR. Essa é a verdadeira eu. Sem esquemas, sem métodos, a pura magia… Eu sei que você é um vampiro de verdade. GUAIER: (ri) Você dá ouvidos demais pro que o Wellington fala. ISIS: Não é o que o Wellington fala. Ele é um idiota, na maioria das vezes. É como você age, se comporta… Tudo em você me faz acreditar que você é um vampiro. Procópio Pinheiro
  25. 25. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” GUAIER: Você já me viu voando? Você já me viu sugando alguém? ISIS: A sua história. Você não tem família. Você não trabalha aonde diz que trabalha. Ninguém te conhece por aqui. Você é um andarilho, um errante. Você não anda sob a luz do sol. Você não come. Você sabe demais sobre algumas coisas da vida e não pára de me surpreender. Você lê meus pensamentos. Você seduz. GUAIER: Essa então é a sua fantasia? A sua primeira vez com um vampiro? Uau! Então a sua primeira vez vai ser especial. ISIS: Mais importante do que especial, SE-XU-AL. Isis pula nele e lhe dá um beijo tremendo, de língua, agarra com força, intensa, quase deixa Guaier sem ar. GUAIER: Nossa! Como você aprendeu isso? ISIS: A internet e os livros também ensinam dessas coisas ou você não conhece o pornô? Ele sorri. A beija levemente. GUAIER: Bom, então é a minha vez de dizer: vamos com calma. ISIS: Eu te amo. Trilha sonora: som de aquecimento vocal. Beijam-se, mordem-se, caem sobre a cama, entrelaçam-se, rolam, luz apaga, trilha sonora chega ao OFF. Som de galo cantando. Iluminação normal sobre a cama. Isis na cama, dormindo. Acorda, olha para o lado, somente ela está na cama. ISIS: (ri, pensando alto) Ele me deixou aqui sozinha. Agora eu poderia chamá-lo de canalha. Mas ele tem uma excelente desculpa. Ele nunca vai poder ver o sol nascer ao meu lado. Eu… eu transei com um vampiro! Procópio Pinheiro
  26. 26. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Levanta-se animada, sai do ambiente. Wellington seguido de Carlinha entram logo em seguida. WELLINGTON: Eles vieram pra cá! Eles estavam aqui! Eu posso sentir o cheiro dela! CARLINHA: E o que tem demais se eles vieram pra cá? WELLINGTON: Eles transaram Dona Carla! Isso tá ficando muito sério! CARLINHA: E desde quando uma transa virou casamento? E aliás, se for, qual é o problema? Minha filha já é mulher feita. WELLINGTON: É da mesma Isis que estamos falando? É da sua filha que estamos falando, é claro que você tem que se preocupar! É a sua menininha! CARLINHA: Minha menininha? A Isis não é lá uma das mulheres mais espertas que essa terra já viu, mas por que eu não posso dar um voto de confiança pra ela, hein? Tudo isso para quê? WELLIGNTON: Tudo bem, ela nunca engravidaria dele mesmo. Vampiros não podem ter filhos. E eu acho que uma vez que sejam imortais, também não devam ser portadores de doenças sexualmente transmissíveis. CARLINHA: Hã? WELLINGTON: É isso mesmo, pronto, falei! Agora a senhora vai me entender. Eu sei que isso pode soar como loucura, mas não é. Eu ainda não tenho provas definitivas, mas estou me aproximando muito disso. Foi assim que eu consegui chegar até aqui. CARLINHA: Se você quer que eu tenha uma conversa com a Isis sobre relacionamentos, é exatamente isso que eu farei. Don’t worry. Aliás, eu sempre fiz. Ela que sempre se esquivou vivendo no mundinho dela. Mas… vampiros? Foi uma piada sem graça. Vamos embora. Procópio Pinheiro
  27. 27. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” WELLIGNTON: Mas eu tô falando muito sério! CARLINHA: Peraí, a Isis pensa que o Guaier é um vampiro, é isso? WELLIGNTON: A Isis é o brinquedinho dele. É o que eu tô dizendo. Ele não é quem a gente pensa que ele é. No começo, eu pensei que fosse paranóia minha. Que o Guaier estivesse brincando comigo. Mas não. Eu tracei um mapa. Eu posso te mostrar. Pessoas desapareceram por aqui. Você vai me dizer: “Pessoas se mudam, esta é uma cidade universitária, ninguém fica aqui, blá-blá-blá”. Mas isso é só aparente. Houve relatos de ataques, de coisas estranhas, aqui nas proximidades e ninguém se importa. Eu posso mostrar pra você! Carlinha fica extremamente séria, então sorri e começa levemente a rir, até explodir num ataque de rolar no chão. CARLINHA: Vampiros! Vampiros! Ha-ha-ha! WELLINGTON: Eu tô falando sério! CARLINHA: (ainda rindo) Essa foi a pior história que já contaram pra mim! Não era mais fácil você dizer que o Guaier usa drogas? Agora… um vampiro? U-hu, eu vou sugar o sangue da Isis! Eu sei muito bem o que os dois andam sugando um do outro, hahahaha, ai meu Deus, eu não aguento! Ah, eu não aguento! Ai, minha barriga, ai minha barriga… WELLINGTON: Ninguém acredita em mim! Ninguém! (e começa a chorar) CARLINHA: (fica séria) Wellington… WELLIGNTON: Eu tenho que fazer alguma coisa… Mas eu não sei se eu tenho coragem de matar um vampiro… Eu não sei, eu não consigo nem matar uma barata… CARLINHA: Pára com isso, Wellington! Ninguém vai matar ninguém! WELLINGTON: Procópio Pinheiro
  28. 28. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Eu amo a Isis de verdade! Esse Guaier é um vampiro sim, tá sugando a mente dela, tudo o que ela tem de bom! CARLINHA: Queridinho… Eu estou tentando desencalhar minha filha há meses e você, nem aí! O que foi que você fez pra demonstrar esse amor todo? Você fica trancando no seu quarto em frente ao computador ou ainda pior, andando por aí inventando, espionando os outros… Relatos de desaparecimento, indícios de evidências, você realmente quase me assustou! Eu tive que rir pra não chorar! WELLINGTON: E os hábitos noturnos? E a pele pálida? (Carlinha o recrimina com um olhar baixo) E…? Tá bom, eu vou parar! CARLINHA: Olha, você precisa me ouvir. Você não tem coragem nem mesmo de encarar o Guaier. Essa é a sua desculpa pra não bater peito com ele. Você se esconde. E o Guaier, o que ele tem haver com isso? Quem tem que gostar ou desgostar de você é a Isis. E o que você tá fazendo? A mesma coisa. Você tá com medo. Você não tá usando a cabeça. Você não age. Você só fala. Um ato, só uma ação, vale por mil palavras. É isso que você precisa fazer. (se aproxima e o beija na boca, ele fica completamente estonteado) Vai ser o nosso segredo. (depois de alguns segundos, ele ainda estonteado, ela começa a apertar as bochechas dele) Quem é o bebê chorão, hein? Quem é que tá com ciuminho? Quem tem medo do escuro? WELLINGTON: Ai, me deixa! Você é louca! (e sai) CARLINHA: (pensando alto) Essas crianças… Tão inseguras de tudo. Até parece. Um vampiro debaixo do meu teto e eu não ia perceber? Isto é, como se vampiros assim desse jeito existissem! É cada uma! Esse povo tá assistindo Crepúsculo demais!(levanta, cantando) É bom para o moral, é bom para o moral, a minha beleza é imortal… (saindo) Luz apaga. Luz avermelhada acende-se sobre a cama. Isis corre e senta-se sobre a cama. ISIS: Então, esse é o nosso ninho de amor. Procópio Pinheiro
  29. 29. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” GUAIER: (entrando em seguida, só de cueca) Podemos dizer que sim. ISIS: Hummm… (ela tira a própria camisa) GUAIER: Você tá tão mais soltinha… Você me acha safadão também? Você quer que eu puxe seu cabelo assim? (puxa o cabelo dela por trás, beijando-a levemente no pescoço) Você quer que eu fale palavrões no seu ouvido? Hein, vadia, puta, cachorra gostosa… É isso o que você quer? ISIS: (ela ri) Eu quero que você me transforme. GUAIER: (afasta-se dela) Você não sabe o que tá falando… ISIS: Eu sei. Eu sempre soube. Eu te disse que sabia. GUAIER: (rindo) Você acha mesmo? ISIS: Eu não sou boba. Eu… não sou mais uma menininha. Graças a você. Eu quero que você termine o que começou. A minha transformação. Ou era só um joguinho para pegar a virgem retardada? GUAIER: Nossa, como você está direta! ISIS: Um vampiro tem que ser mau… GUAIER: (volta a segurá-la) Deixa disso, vamo curtir… ISIS: (ela é que se solta dele agora) Não! Procópio Pinheiro
  30. 30. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” GUAIER: (segura-a pelo pescoço, com raiva) E se eu só quiser o seu sangue? E se eu só quiser a sua morte? (então ele a solta e os dois começam a rir) Tudo bem, eu posso ser um vampiro, se você quiser. ISIS: E qual é a verdade nisso tudo? GUAIER: Vampiros são maus. Muito, muito maus. ISIS: Hoje, você vai ser mau comigo? GUAIER: Eu acho que você quer ver sangue… Guaier vai até uma CAIXA DE PAPELÃO e de lá tira um adorável coelhinho branco. ISIS: Que bonitinho… GUAIER: Sabe, é mesmo. Mas a natureza é má, igual as pessoas, igual aos vampiros. Não tem muita diferença. Se você consegue controlar a maldade que existe dentro de você. Ou se é a maldade que te faz imortal. A guerra é contada apenas pelos vencedores (segura carinhosamente o coelho, encarando-o face a face). Apaga luz sobre eles, acende sobre WELLINGTON. WELLIGTON: Eu tinha razão! Tinha sim! Ele não era só louco! Mas… Ela QUER isso! Não… Ela não pode estar cega assim… (faz uma expressão de decepção com o olhar vidrado) Volta a se acender sobre Guaier, que está terminando de se alimentar do coelhinho, todo sujo de sangue, sorriso de escárnio, som de guinchos. ISIS: (refletindo sobre o que se passa) É encantador. É vida. Morte… é vida. Por que você não faz isso comigo? GUAIER: Não é assim que a transformação acontece. Isso é canabalismo. A Procópio Pinheiro
  31. 31. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” imortalidade… Ela não é ganhada, ela é concedida. Você tem que beber do meu sangue. E então… morrer. Aí, você renasce. Morta. Vampira. Má. ISIS: Então… deixe eu beber um pouco do seu sangue precioso! GUAIER: Mas você quer tudo tão rápido! Você vai ter coragem de morrer depois de beber o meu sangue? ISIS: Se eu vou renascer, não é morrer! GUAIER: Não vai querer ver o sol uma última vez? Ver os humanos como humanos uma última vez? É um caminho sem volta e sem fim. Esses animaizinhos aqui são um petisco… Você vai ter coragem de caçar PESSOAS? ISIS: (voltando a beijá-lo) Se for o meu instinto… Eu quero viver essa aventura. Eu quero viver pela primeira vez na minha vida. Eu não me importo de beber do seu sangue. Eu não me importo de morrer… Eu mesma quero atirar em mim, renascer de um tiro na cara… Imortal. Não me importo que algumas pessoas que cruzem o meu caminho se dêem mal. Na natureza, vence o mais forte, não necessariamente o mais justo. Olha pra mim! Não é nenhuma revelação. Ninguém pode dizer que nunca esperava isso de mim. Eu sempre fui assim. Eu só precisava ser despertada. E depois que o monstro que existe em nós acorda, ele não pára jamais. É por isso que eu te amo. Eu quero isso agora! Eu quero tudo rápido! Eu quero tudo assim, louco! Eu sou assim! Eu! (começa a morder o pulso dele) Me dê seu sangue… Vamos, vamos! Luz apaga-se sobre eles. Acende-se novamente sobre… WELLINGTON: Eu fiquei paralisado. Simplesmente parado. Em choque. Em momentos assim, as pessoas reagem ou não reagem. Eu não reagi. Tudo desmoronou… Eu não esperava isso da Isis. É aquela velha moral do mundo: ninguém é inocente. As pessoas jogam os jogos que elas mesmas querem. Ninguem é inocente. Todo o meu amor, a minha amizade… Ela era um pequeno monstro. Não vou julgá-la. Nem posso. Quem aqui não tem um monstro dentro de si? Que controlamos cada dia, cada instante? O que vou dizer? “Não seja imortal”. Se é tudo o que nós procuramos! Viver todas as transformações, todas as memórias, todos os desejos, sem prazo de validade! Uma fantasia mórbida ainda que seja… Não é isso o que todos nós procuramos? Procópio Pinheiro
  32. 32. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Mas… e se eu ainda puder despertar o que resta a ela de humano? O amor cega muito mais que o ódio. Ela bebeu o sangue dele. E agora, vai morrer em casa… Com o revólver da mãe. Ela mesma quer fazer isso. Ela tem coragem. E o Guaier, estará lá. Se divertindo com tudo isso, como foi desde o início. E eu também vou. Se ainda restar algo de humano nela, se esse monstro que foi despertado puder dormir denovo, como acontece com cada um de nós, a cada dia que se passa… Wellington sai. Som de batimentos cardíacos. Luz se apaga. Luz se acende imediatamente com o som do tiro. Wellington desesperado, Guaier rindo. GUAIER: Ela estourou mesmo os miolos! WELLINGTON: (grita) O que você fez? O que você fez? (sacudindo Guaier) GUAIER: Eu não fiz nada! Nós estávamos apenas nos divertindo! Era uma brincadeira… Um jogo sexual, você sabe o que é isso, viadinho? (ele se aproxima para dar um selinho em Wellington, que o repulsa com um empurrão) WELLINGTON: Seu desgraçado! GUAIER: Ela pegou um revólver de verdade e estourou os miolos! E tudo isso por causa de um coelho! Vai lá ver, ela virou xuriço! Ela mesma se explodiu, hahahaha! WELLINGTON: O Coelho? O quê? Você enloqueceu? Ela vai virar uma vampira, para sempre! GUAIER: Hahahaha! Vampiros não existem. Ela se foi, ela morreu. Ela se matou. Ela, ela pensou que ia ser imortal. Que morrer é renascer. Procópio Pinheiro
  33. 33. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Caralho, morrer é morrer! Buuuuum! WELLINGTON: Não, não, não! Era minha última chance! Eu ia reagir, eu ia agir, eu ia dizer que eu a amava, que você é mesmo um louco, um doente, que eu sou o melhor pra ela, não, não… (começa a chorar). Wellington sai do palco, como se fosse ver Isis morta e grita desesperadamente: “Meu Deus, meu Deus!” Guaier com o mesmo tom de troça. VOZ DE WELLIGTON: O que é isso? Não! Não! Nãooooooooo! (som de baque) GUAIER: Uma cena muito forte para o menino. Ele desmaiou, eu acho. (e ri) Dona Carlinha entra, pálida, vampiresca, suja de sangue. GUAIER: Carlinha, a puta velha? CARLINHA: Você. GUAIER: O Wellington desmaiou com a sua aparência? CARLINHA: Esse não é um bom momento para falar da minha aparência. Minha beleza… Beleza é imortal. Agora, esse sangue todo… GUAIER: A sua filha explodiu os miolos. CARLINHA: Pois é. A minha única, estranha e adorável filha. Graças a você ela não morreu virgem. Mas também graças a você, ela não está mais aqui. GUAIER: Eu não fiz nada. CARLINHA: Peraí, você acha que só o Wellington estava de olho em você? O vampirinho? GUAIER: Procópio Pinheiro
  34. 34. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” (grita) Eu não sou a porra de um vampiro! Era só um jogo! CARLINHA: (grita também) Eu sei que você não é um vampiro, porque um vampiro reconhece outro! SOM DE ESTÁTICA PROSSEGUE. GUAIER CAI NO CHÃO. GUAIER: (agora, começa a aparentar medo) Você também tá brincando? Cadê o Wellington? Cadê o Wellington? O que você fez com o Wellington? (segurando a cabeça, como se doesse) O que você tá fazendo? CARLINHA: O que você fez com a minha filha, seu desgraçado? Seu psicopatinha maldito! GUAIER: (dores internas aumentam) Era só um jogo! CARLINHA: Ela acreditou em você! Todos acreditaram em você! Você sente dor agora? Você é capaz de sentir alguma coisa verdadeira agora? GUAIER: Ela se matou porque quis! CARLINHA: E você riu, você fez deboche! Eu vou te mostrar o que um vampiro de verdade faz… E não tem nada haver com imortalidade, renascimentou ou magia… Eu vou te mostrar o que é a maldade! O que é beijar a face da morte! GUAIER: (segurando a cabeça) Pára com isso, por favor! CARLINHA: O que foi que você disse? GUAIER: Pára com isso! CARLINHA: Era só isso que você precisava dizer pra minha filha! Off. Luz apaga. Procópio Pinheiro
  35. 35. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” VOZ DE GUAIER: Pára com isso! SOM DE GIZ ARRANHANDO LOUSA. OFF. SOM DE RESPIRAÇÃO OFEGANTE, PASSOS. Uma lanterna acesa, apontando do palco. Apaga. Acende novamente, apontando a luz de cima para baixo, revelando o rosto de Wellington, suado, ofegante, como se estivesse vindo de uma corrida. WELLINGTON: Eu não morri! Eu não morri! (acalma-se) Eu… não… morri… Se eu contasse pra alguém, ninguém acreditaria… Eu… eu não estava totalmente errado… O mapa que eu montei. Com os desaparecimentos na região… Não era o Guaier, o responsável pelos desaparecimentos. Era a Dona Carlinha! Eu não sei porque ela me deixou escapar vivo. Não foi bondade. Eu vi o que ela fez com o Guaier. Não foi nada bonito. Aliás, foi bem parecido com o que ela fez com os verdadeiros pais da Isis. É, isso mesmo! A Isis não era filha de verdade da Dona Carlinha… Som de reação de platéia, do tipo: “oh!” Eu tava meio que desmaia, meio que não desmaia, com a Isis morta ao meu lado. E alguns fragmentos surgiram, depois. A Dona Carlinha havia sugado um casal de estudantes, naquela época, uns 20 anos atrás. Só não contava com o choro de um bebezinho que veio do quarto. SOM DE CHORO DE CRIANÇA. Era o filho do casal. A Dona Carlinha pensou: “O que fazer com essa criança?” A fome já tinha passado, os pais da criança estavam mortos. Foi quando Carlinha decidiu ser mãe. Pegou Isis para si e fundou a República de estudantes. Por que ela pegou uma criança para criar como filha? Sinceramente, eu não tenho essa resposta. Procópio Pinheiro
  36. 36. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Os pais de Isis foram vítimas de Dona Carlinha. Isis cresceu e se tornou uma gótica, virgem, nerd-burra. Burra do mesmo jeito que eu fui! Se Dona Carlinha um dia iria se revelar vampira para a filha, é uma coisa que eu também não posso dizer com certeza se iria acontecer ou não. Se era mesmo projeto de Dona Carlinha fazer de sua “filha” Isis uma sanguessuga. E então, Isis se apaixona por um cara – o Guaier - que ela acha ser um vampiro. Que faz ela e a mim acreditar nisso. Caralho, ele matou um coelhinho! Por que eu não enfiei logo uma estaca no peito dele pra saber se ele era mesmo vampiro, ao invés de toda aquela divagação? Eu não reagi, simples assim! Porque eu sou, meus caros, além de um nerd-burro um bunda-mole! Isso mesmo: um bunda-mole! Não declarei meu amor por Isis, não declarei meu ódio por Guaier, não declarei nem minha surpresa para a Dona Carlinha… Eu fugi da cidade universitária. Ninguém sabe onde eu estou. Mas, também, quem acreditaria em mim? Pensando bem, eu estou seguro. Ninguém acreditará em mim. Eu desapareci, o Guaier “desapareceu” e a Isis também “sumiu”. Milhares de pessoas “desaparecem”. Mas, pelo menos, (respira fundo) eu não… morri (e sorri). Uma garota que deu um tiro na cabeça porque precisava “morrer” para “renascer”. Se o sangue de um vampiro é maldito, ele é o suficiente para te infectar. Você não precisa “morrer” para “renascer” com gripe. É a mesma lógica. Esquece essa porra de filosofia! Eu não acredito mais em lendas ou clichês. Dona Carlinha andava sobre o sol, ria, comia muito, fazia muito sexo, ia ao banheiro, tudo normal. E Dona Carlinha não era uma de nós. APAGA A LANTERNA. LUZ SE ACENDE SOBRE O CENÁRIO DA SALA DA REPÚBLICA ESTUDANTIL BOA SORTE VAZIA. DONA CARLINHA (entrando): Se aconchegue, meu bem! (senta-se) RAPAZ ATLÉTICO (senta-se ao lado dela): Eu percebi que a casa ficou fechada uns dias… DONA CARLINHA: Procópio Pinheiro
  37. 37. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Ai, ai… A cidade fica de férias e o pouco de gente que fica só sabe mesmo é fazer fofoca. Mas as aulas voltaram, a cidade enche de gente, gente que vem, gente que vai, jovens, saudáveis, lindos, perdidinhos pelo mundo. RAPAZ ATLÉTICO: Mas o que aconteceu? DONA CARLINHA: (alisando sugestivamente o pescoço dele) Ah, a Isis sabe? Eu esperava tanto dessa menina. Eu criei ela sozinha. Sem pai, sem sogra, só eu, o mundo, e essa cidadela de estudantes. Uma menina tão burra! E azarada também… O primeiro cara pelo qual ela se apaixona era um autêntico filho-da-puta… Todos nós temos que mentir um pouquinho, para elevar a nossa moral. Faz parte da nossa sobrevivência. Nós não podemos revelar para os outros o que nós somos de verdade, não totalmente. Você nem transou com ela, né? RAPAZ ATLÉTICO: Ela não quis! DONA CARLINHA: Pois é… Estou decepcionada com a Isis. Mas fazer o quê? A vida continua. RAPAZ ATLÉTICO: Ela foi embora? DONA CARLINHA: Digamos que sim. (pensa) Sim. Foram embora. E deixaram a casa uma zona. Fiquei três dias limpando isso aqui. RAPAZ ATLÉTICO: Teve festa aqui e ninguém da Liga Atlética foi convidada? Nem eu??? DONA CARLINHA: Muita sujeira. Jogaram “vinho” no chão. No chão da minha República. A Isis foi embora com o rapaz, o Guaier. Um novo hóspede que surgiu nesse meio tempo. Nem me disse adeus. E o Wellington… seguiu o caminho dele também. Foi embora. RAPAZ ATLÉTICO: Então só estamos eu e… você aqui, certo? DONA CARLINHA: Corretissímo. (beija o pescoço dele e dá uma alisadinha) Mas isso Procópio Pinheiro
  38. 38. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” é por enquanto. Os quartos já estão disponíveis para locação. Eu quero essa República cheia. Quero dinheiro na minha mão também. Como você acha que eu mantenho essa “beleza imortal”? (ele sorri) Quantos anos você acha que eu tenho? RAPAZ ATLÉTICO: Ah, sei lá. 35? DONA CARLINHA: 35? Ah, não. Minha idade original é 32. RAPAZ ATLÉTICO: Desculpa. DONA CARLINHA: Eu não ando me alimentando bem. Por isso. Esses problemas… Minha filhinha me deixa. O Wellington com medo de mim. Por isso ele foi embora. (gesticula com as mãos) Desmaiou, acordou, foi-se embora. RAPAZ ATLÉTICO: Por que alguém ficaria com medo de você? DONA CARLINHA: Porque… (pensa) Eu beijei o Wellington, beijei ele! RAPAZ ATLÉTICO: Ele era viado, é? DONA CARLINHA: O Wellington era um rapaz muito bonzinho. Talvez eu ensinasse a ele o que iria ensinar a minha filha Isis. Tem tanta coisa para se saber desse mundo. O poder está ao alcance de todos. Eu uso o poder para me manter assim, jovem, vibrante, numa boa. É assim que eu gosto de viver. É assim que eu estou feliz, entende? Deus nos manda para esse mundo como idiotas que nós somos. E apenas o que Deus pode nos desejar é: “Boa Sorte!” Tudo tem seu preço. Ter o poder tem o seu preço. RAPAZ ATLÉTICO: O poder de seduzir? (tira a camisa e começa a beijá-la) DONA CARLINHA: Isso é inerente em nós. Mas tem outros detalhes… Como ela pôde pensar que ele era um vampiro? RAPAZ ATLÉTICO: (pára de beijá-la) Vampiro? Como assim? Do que você tá falando? Procópio Pinheiro
  39. 39. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” DONA CARLINHA: A minha filha, a Isis, ela pensou que esse cara com quem ela tava, era um vampiro. E ele não se chamava Vlad ou Lestat, era Guaier. Guaier, guaier, guaier. RAPAZ ATLÉTICO: (ri e segura) Desculpa. Nossa, a sua filha é bem estranha… DONA CARLINHA: Não fala assim dela. Não se fala mal dos mortos. RAPAZ ATLÉTICO: Ôpa, desculpa! Peraí, a sua filha… morreu? DONA CARLINHA: É, ela se matou. Por causa desse namorado dela, que se dizia vampiro. Ela foi embora, eu não disse? Mas, para sempre. Forever and ever. RAPAZ ATLÉTICO: Como isso aconteceu? Foi aqui? Nossa, deve ter sido uma barra pra você… DONA CARLINHA: Já passei por tanta coisa pior. Sou vivida. Sou velha. Bem, muito mais velha do que aparento. Às vezes também sou enganada. Não via nada demais nesse Guaier, além do fato dele ser bonitinho, mesmo que de um modo meio misterioso. Sabe, aquelas caras e bocas misteriosas? (empina o queixo para baixo, imitando) “Ai, como eu sou misterioso e irresistível, blábláblá”. Hum! O mundo está cheio de rapazes assim bonitinhos, como você. Pessoas vem, pessoas vão, assim é que é a vida. RAPAZ ATLÉTICO: Então vamos aproveitar o agora e transar muuuuuuito! (ergue-a, beijando-a) DONA CARLINHA: Calma, calma, calma. Você disse que eu tava com cara de 35. RAPAZ ATLÉTICO: Não, agora você tá com cara de 32. Não, três ponto um (31). Experiente, mas não o suficiente. Essa noite eu não quero só aprender coisas de amor. Também quero ensinar umas sacanagens pra você, Do-na Carlinha do meu coração! DONA CARLINHA: Procópio Pinheiro
  40. 40. Peça Teatral – Drama - “Boa Sorte, Idiota” Ainda bem, porque senão teríamos que parar tudo que estamos fazendo para eu poder me alimentar adequadamente. Você… você acredita em vampiros? RAPAZ ATLÉTICO: Ah, mas que conversinha! Eu acredito em qualquer coisa que você quiser, mas depois da gente transar, que tal? Vamos estrear esse sofá? (joga-a no sofá) DONA CARLINHA: Eu já transei muitas e muitas vezes aqui… RAPAZ ATLÉTICO: A sua filha… ela morreu aqui? Dona Carlinha olha furtivamente para ele, agora séria. Se aproxima e morde seu pescoço. Imagem congela. Som de grito de HOMEM. Luz vermelha sobre eles. Vai se apagando aos poucos, até a total escuridão. SOM DE ESTÁTICA. FIM. Procópio Pinheiro

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