Lendas

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O ensino de Lendas na sala de aula.

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Lendas

  1. 1. CONGREGAÇÃO DE SANTA DOROTÉIA DO BRASIL FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE – FAFIRE Departamento de Letras (Português & Inglês), 2015.1 Literatura Infanto Juvenil, Prof.ª Nelma Menezes Soares de Azevedo Alunos: Dhyanna Lays Ramos Neves Loame Patrício de Lacerda Matheus Barbosa de Barros Thayná Deivilla Mendes da Rocha Silva Wendell Batista dos Santos LENDAS Lenda (lat. legenda, “aquilo que deve ser lido”) é uma história de cunho fantástico, sobrenatural e aventureiro transmitida de geração em geração, usualmente pela oralidade que, concretizando-se na cultura de um povo ou comunidade, passa a existir também na forma escrita. As lendas servem para explicar a origem das coisas, os sentimentos e os relacionamentos do homem com o mundo. Por não serem comprovadas cientificamente, alguns estudiosos e folcloristas afirmam que as lendas são histórias fictícias produzidas pela cultura popular apenas com a finalidade de entretenimento. Contudo, é improvável que estas histórias sobrevivam por tanto tempo atravessando culturas sem que tenham um fundo verídico na sua origem o qual possa servir de base para a investidura do fantástico, do sobrenatural e da aventura. A princípio as lendas eram histórias de santos, mas com o tempo passou a ser uma ferramente de narrativa da cultura e da tradição em todos os povos.
  2. 2. LENDAS E MITOS SÃO A MESMA COISA? Há livros que ainda confundem. O mito (gr. mýthos, “fábulas”) é a história criada para explicar a origem do homem e do mundo, relacionando-se com uma data ou religião, por isso a existência de deidades, semideuses e heróis. Mitologia agrega o conjunto de mitos de um povo ou civilização, como a mitologia grega, nórdica, romana, escandinava, por exemplo. As lendas prestam entretenimento, mas também buscam esclarecer episódios, ainda que “os fatos históricos [sejam] deformados pela imaginação do povo ou do poeta”, como define o Mini Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (FERREIRA, 2010, p. 462). Contudo, as lendas são mais facilmente aceitas por que não são necessariamente fantásticas ou possuem deuses como são os mitos, que explicam o mundo através de narrativas simbólicas e histórias sagradas da religião local que são consideradas verdadeiras até que se extinguiram. A exemplo, “as religiões da Grécia e da Roma antigas desapareceram. As chamadas divindades do Olimpo não têm mais um só homem que as cultue, entre os vivos. Já não pertencem à teologia, mas à literatura e ao bom gosto” (BULFINCH, 2002, p. 6). As lendas, por outro lado, permanecem até os dias de hoje para além “da poesia e das belas artes” (Ibid.), fazendo parte da vivência do povo, se difundido e se transformando através da oralidade. AS LENDAS Existem dois tipos de lendas: as folclóricas e as urbanas. As lendas folclóricas constituem um conjunto de lendas que são contadas desde tempos mais remotos e, por isso, são mais populares e bastante endorsada de ficção, embora seja difícil falar em fatos comprovados quando o assunto são as lendas. As lendas urbanas são aquelas centradas em personagens que embora possam ser sobrenaturais, estão longe da representação de algum ser misterioso ou entidade, como por exemplo, o Curupira, Maria Florzinha, a mula sem cabeça, etc., presentes no folclore brasileiro. Lendas folclóricas As lendas folclóricas permanecem vivas até hoje, de modo que tais narrativas
  3. 3. passam a fazer parte de sua história. Embasando-se em acontecimentos verídicos, as pessoas transformam a história, atribuindo um tom fictício mais compreensível e aceitável para aquela região. Algumas lendas folclóricas mais conhecidas, com algumas variantes por região, são: • Maria Florzinha (ou Comadre Fulozinha): Faz se perder e espanca com cipó o cachorro e o caçador, faz tranças nas caudas e cabelos dos cavalos. Ir à caça sem oferecer algo a Maria Florzinha, principalmente numa sexta-feira garante momentos de terror no meio da mata. A narrativa de algumas regiões lembra bastante a Caipora, que, assim como a Comadre Fulozinha, gosta de fumar. A Caipora também lembra a imagem do Curupira: aparência humana, mas com o corpo coberto de pelos avermelhados. A diferença está nos pés do Curupira, que virados para trás engana o caçador que se orienta pelas pegadas na estrada. Às três entidades (ou espíritos da floresta) atribui-se poderes sobrenaturais e a audácia de um defensor da flora e da fauna. • Lobisomem (lobo + homem): A lenda do homem lobo (ou “licantropo”, do gr. lycos + anthrōpos) se origina na mitologia grega e hoje é narrada a nível mundial. Ovídio, em sua obra Metamorphoses, conta que “Licaon Principe de Arcadia nasceo de sangue dos Gigantes: elle era taõ cruel, que fazia matar a todos os que se recolhiaõ no seu Palacio; Jupiter foi disfarçado em figura de homem, e vendo que o tratou com carne humana, abrazou a caza deste tirano, e o transformou em Lobo” (SILVA, 1772, p. 06), daí a origem dos lobisomens. A psicologia trata o distúrbio psíquico conhecido como licantropia clínica. • Pisadeira: “Esta é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso... Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano... arcano... a boca do estámo... Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa" (PIRES, 1927, pp. 152, 153). Podendo ver mulher, mas nada poder fazer, pessoas de outras culturas narram a mesma experiência chamando o ser misterioso de “old hag” (bruxa velha, tradução livre), que já fora tema de filmes e inspiração para as
  4. 4. belas artes como a pintura intitulada “The Nightmare” (O pesadelo, 1781), do pintor suíço Johann Heinrich Füssli (mais conhecido como Henri Fuseli, 1741- 1825). A medicina reconhece estes relatos como experiências de paralisia do sono. • Mula Sem Cabeça: A lenda surgiu em alguma cidade do interior brasileiro, zona rural, e conta que uma mulher se relacionou romanticamente com um padre. Por causa disso, fora condenada a se transformar em um animal quadrúpede na passagem da quinta para a sexta-feira. Esta pode ter sido uma história criada sob o domínio da Igreja Católica para que as mulheres vissem os padres como santo e não como homens para que não os desejassem nem mesmo em pensamento. A Burrinha de Padre, como é chamada em algumas regiões, aparece galopando e saltando freneticamente pela cidade e no lugar de sua cabeça há fogo. Outras versões dizem que se a moça perder a virgindade antes do casamento, ela passa a se transformar neste animal monstruoso, o que pode ser entendido como um método de controle dos relacionamentos amorosos usados no passado pelas famílias tradicionais. Há a versão mais complexa de que uma rainha costumava sair à noite, até que seu marido decidiu segui-la e a encontrou comendo o corpo de uma criança em um cemitério. Ao ouvir o grito de susto do rei, a rainha se transformou numa mula sem cabeça e fugiu galopando para a mata e nunca mais voltou para a corte. • Saci Pererê: O pequeno rapaz negro de apenas uma perna talvez seja uma variação da religião afro-brasileira, do orixá Ossanha, que também possui apenas uma perna e vive nas florestas. O Saci Pererê é um personagem travesso com um gorro vermelho e cachimbo, gosta de espantar cavalos e causar transtornos domésticos, como queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas. Em algumas regiões, assim como Maria Florzinha, o Saci Pererê também assusta viajantes noturnos ou caçadores com seu assobio, faz trança nos cabelos animais e deixa-os cansados com correrias. Também anda num redemoinho de vento quase imperceptível. O primeiro escritor brasileiro a dar atenção ao personagem Saci Pererê foi Monteiro Lobato (1882-1948), que após realizar uma pesquisa com os leitores do jornal O Estado de São Paulo, publicou em 1918 seu primeiro livro intitulado “O Sacy-
  5. 5. Pererê: Resultado de um Inquérito”. Outras lendas do folclore brasileiro também conhecidas são: Boitatá, uma cobra de fogo; Iara, uma sereia que leva os homens para o fundo do rio e estes nunca mais retornam; Boto, peixe que assume forma de homem para seduzir as mulheres ribeirinhas; Negrinho do Pastoreio; e Cuca. Lendas urbanas As lendas urbanas são aquelas que se passam nas cidades e constituem uma espécie de lenda moderna, ou contemporânea. São transmitidas através da oralidade, da internet e pela imprensa, como os casos do Bebê Diabo, na década de 1970 em São Paulo, e do Chupa Cabra, na década de 1990 em todas as Américas. Algumas lendas urbanas mais conhecidas, com algumas variantes por região ou cultura, são: • Maria Sangrenta (Mundo): Ou originalmente “Bloody Mary”, Maria Sangrenta é exportada dos Estados Unidos para o Brasil como a “Loira do Banheiro”, “Bruxa do Espelho”, “Maria Degolada” ou “A Dama de Vermelho”. Maria Sangrenta possui muitas versões ao redor do mundo, mas geralmente trata- se de uma mulher sedutora que causa terror aos homens ou os matam. Certos relatos contam que uma jovem e bela mulher pede carona na estrada para ier para casa dando sempre as coordenadas que levam a um cemitério, onde diz: “É aqui que eu moro.” E desaparece derrepentemente deixando qualquer motorista arrepiado ao soar das badaladas de um sino eclesiástico. • Velho do Saco: Presente no Brasil e na Europa, trata-se de um velho que leva crianças malcriadas dentro um saco que carrega nas costas. • Jogo do copo (Mundo): Um jogo com de copo com cartas que por meio duma invocação permite fazer contato com espíritos que falam por movimentar o copo ou lapiseira sobre um tabuleiro. O jogo é similar à tábua ouija. • O Bebê Diabo: Em 11 de maio de 1975, o jornal paulista Notícias Populares
  6. 6. publicou o nascimento do bebê-diabo com o enunciado “NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO”. Descrevendo a criança com chifres e cauda, o mesmo jornal publicou edições sobre relatos de testemunhas oculares, uma procissão para expulsar o diabo da cidade, a fuga do bebê-diabo para o Nordeste e a caça ao diabo realizada por Zé do Caixão. • A mulher da estrada (Mundo): Existem relatos de uma mulher que aparece andando na estrada na mesma direção do caminhão ou outro veículo qualquer. Mesmo que esteja em alta velocidade, nenhum motorista a consegue ultrapassar até perdê-la de vista ou vê-la desaparecer instantaneamente. Pode ser uma variação da versão em que a Dama de Vermelho também pede carona. • Bonecos malditos (Mundo): São bonecos que tomam vida e aterrorizam e assassinam os seus donos e outras pessoas. Exemplos: Fofão, boneca da Xuxa e Annabelle, entre outros. • A Perna Cabeluda: “Sujeito pacato caminha pela cidade, à noite, quando então se depara com uma solitária perna gigante cheia de pelos, sem corpo que lhe sustente, que parece ter vida autônoma e se desloca aos pulos. O ser surreal dá chutes nos transeuntes – geralmente nas nádegas – e não tem preferências por gênero ou faixa etária. Desde os anos 1970, a Perna Cabeluda é temida em vários bairros de Recife e Fortaleza” (MOREIRA, 2010, pp. 53, 54). Hoje a lenda é música, bloco de carnaval e literatura de cordel. • Bruxas: No Brasil, “o médico Bernardo Pereira, em meados do século XVII, prevenia sobre o poder que tinham as bruxas de atrofiar os recém-nascidos por malefícios, pois, segundo ele, 'elas chupam o sangue dos mínimos'” (PRIORE, 2000, p. 90). E continua o médico sobre proteger os recém- nascidos da bruxaria: 'Armem-se com os antídotos da Igreja... relíquias, orações, etc. que essas são mais certas e seguras que outras para afugentar os bruxos'. Hoje sabe-se que as condições de higiene e conhecimentos sobre períodos puérperos eram praticamente ausentes naquela época. Histórias de bruxas são contadas em todo o mundo.
  7. 7. Outras lendas urbanas também contadas local e mundialmente são: a Bola de Fogo; vampirismo; almas penadas (que vagam); extraterrestres (ET); objetos voadores não identificados (OVINI); e “A emparedada da Rua Nova”, lenda urbana de Recife-PE (embora há os que creiam ser verídica) e romance do escritor recifense Carneiro Vilela (1846-1913), publicado no folheto Jornal Pequeno, entre 1909 e 1912, depois transformado em volume. POR QUE CONTARAM E AINDA CONTAM ESTAS HISTÓRIAS? A cultura brasileira nasce a partir da fusão das culturas africanas, indígenas e europeias. No Brasil Colônia muitos povos africanos e europeus de diferentes línguas e culturas trouxeram para Pindorama, como os índios chamavam o Brasil, aquilo que criam e que ensinavam para se misturar ao que os índios sabiam, tanto que muitas das lendas podem ser localizadas no mesmo ponto de origem. As lendas fazem parte da cultura do povo, seja ele das regiões interiores ou das grandes cidades do país. Para que ela se torne algo mais aceitável, sofre adaptações de acordo com a região e nunca se sabe quem contou primeiro. Assim como no mundo contemporâneo, no passado as pessoas também sentiam necessidade de respostas e explicações convincentes sobre os eventos sem explicação científica. Por isso criaram as lendas para esclarecer as forças da natureza e outros elementos desconhecidos na sua região e no mundo, bem como educar as crianças e os adultos dentro dos padrões do que se julgava ser o certo e o errado. As lendas folclóricas tinham, e ainda têm, finalidade educativa moral, como podemos ver na história do Curupira, que pune o caçador desatento ao equilíbrio da fauna e preservação da flora. Notadamente, mesmo as lendas urbanas, que constituem o “folclore contemporâneo” e costumam acontecer nas grandes cidades e serem contadas em todo o mundo, também trazem uma explicação para eventos misteriosos e servem de entretenimento para os mais ousados.
  8. 8. POR QUE ENSINAR FOLCLORE NA ESCOLA? Do inglês folk lore, folclore é a sabedoria popular ou conhecimento do povo. O objetivo do trabalho com lendas folclóricas em sala de aula é resgatar a cultura, envolvendo a brincadeira por meio de músicas, danças, parlendas, trava-línguas, teatro e fantoches, etc., permitindo a produção. Atendendo aos requisitos da série e da idade, pode-se: • Realizar a pesquisa, a leitura, a escrita e a interpretação textual: o letramento. • Identificar os elementos das lendas e as suas finalidades sociais. • Aprender e valorizar a diversidade. • Identificar manifestações culturais. • Compreender o significado das lendas. • Realizar a discussão oral. Não se pode encarar as lendas como mentiras que não devem ser recontadas, mas permitir que contem e as reinventem. Elas atravessaram civilizações e participaram na formação de várias culturas sendo moldadas pelo próprio saber popular. Estimular o raciocício acerca das lendas por meio do estudo em sala de aula proporciona ao aluno compreender a própria comunidade em que vive e refletir sobre os significados de cada lenda na região em que vive. Não basta apenas apresentar as histórias, mas é preciso utilizar-se da língua e da escrita como instrumentos de desenvolvimento social e cultural e promover a interação e a busca pelo conhecimento dentro e fora da escola.
  9. 9. REFERÊNCIAS Às narrativas populares que foram ouvidas durante esta pesquisa, adiciona-se as seguintes referências: ANDRIGHETO, Fabio. "Nasceu o diabo em São Paulo", noticiava o "NP" há 36 anos. Livraria da Folha: São Paulo, 2011. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2011/05/914349-nasceu-o-diabo- em-sao-paulo-noticiava-o-np-ha-36-anos.shtml. Acesso em: 15 de mar. 2015. BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. 26. ed. Tradução de David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. FERREIRA, Aurélio B. de H. Mini Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. 8. ed. Curitiba: Positivo, 2010. MOREIRA, N. E. P. Lendas Urbanas: atualização, persistência e "realidade" nessas narrativas multimídia. 94 f. Dissertação – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2010. PIRES, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1927. PRIORE, Mary Del (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. REGO, Jozé Antonio da Silva. Compendio das metamorphoses de Ovidio com huma sucinta e methodica explicaçam a cada fabula, para instrucçam dos meninos da escola. Lisboa: Real Mesa Censoria, 1772.

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