Abbi glines saga existence 01 - existence (rev. pl)

2.502 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação, Tecnologia
0 comentários
2 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
2.502
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
4
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
27
Comentários
0
Gostaram
2
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Abbi glines saga existence 01 - existence (rev. pl)

  1. 1. ~1~
  2. 2. Existence Abbi Glinnes O que acontece quando você é perseguida pela morte? ~2~
  3. 3. Disponibilização: Soryu Tradução: Carla Revisão Inicial: Gabi F. Gisleine S, Vivian de Amesbury, Lanaii, Márcia Antonio, Ana Mayara Revisão Final: Silvia Helena Leitura Final e Formatação: Estephanie ~3~
  4. 4. Sinopse O que acontece quando você é perseguida pela morte? Apaixona-se por ela, é obvio. Pagan Moore não foge dela, ao contrário, apaixona-se. Aos dezessete anos de idade, ela já tinha visto muitas almas na sua vida. Uma vez que se percebeu que os estranhos que via caminhar através das paredes não eram visíveis para qualquer pessoa, começou a ignorá-los. Se não lhes permitia saber que podia vê-los, deixavam-na em paz. Até que saiu de seu carro no primeiro dia de escola e viu um rapaz incrivelmente sexy descansando sobre uma mesa de piquenique, olhando-a com um sorriso divertido no rosto. O problema é que ela sabia que ele estava morto. Ele simplesmente não desapareceu quando ela o ignorou, mas fez algo que nenhum dos outros fez. Falou com ela. Pagan está fascinada por essa alma. O que ela não sabe é que o momento de sua morte se aproxima e o espírito perversamente formoso pelo qual está se apaixonando não é uma alma absolutamente. Ele é a morte e está a ponto de romper todas as regras. ~4~
  5. 5. ~5~
  6. 6. Aviso “A tradução em tela foi efetivada pelo Grupo Pégasus Lançamentos de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição integral da obra literária física ou em formato e-book. O grupo tem como meta a seleção, tradução e disponibilização apenas de livros sem previsão de publicação no Brasil, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto”. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupo, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download dos livros cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor e usuário fica ciente de que o download da presente obra destina-se tão somente ao uso pessoal e privado, e que deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social e, bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho de tradução do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor e usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderá individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo o grupo citado no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998." ~6~
  7. 7. ~7~
  8. 8. Capitulo Um Não olhe e ele vai embora. Eu falava comigo mesma, enquanto caminhava para meu armário. Tive que fazer uma enorme força de vontade para não olhar por cima do meu ombro. Não apenas o alertaria, podia ver que era inútil, também seria estúpido. Os corredores já se encontravam cheios de estudantes. Embora, se ele tivesse me seguido dentro da escola, eu o teria visto com bastante facilidade através da multidão de pessoas. Eles se destacavam como sempre o faziam, sem mover-se e observando. —Agh! Viu Leif? Quero dizer, honestamente, ele pode ficar mais quente? Oh sim, ele pode. —Miranda Wouters, minha melhor amiga, desde a escola primária, gritou, enquanto me agarrava pelo braço. —Não, eu não o vi. O treinamento de futebol deve ter coincidido com ele. —Respondi-lhe com um sorriso forçado. Não poderia importar-me menos quão quente Leif Montgomery se via. Miranda entreabriu os olhos e abriu o armário junto do meu. — Sério, Pagan, não entendo como pode ser tão imune a uma pessoa tão intensamente sexy. Obtive um sorriso genuíno e deslizei minha bolsa por cima do ombro. —Sexy? Por favor, me diga que você não disse sexy. Miranda encolheu os ombros. —Não sou um poço sem fundo de palavras descritivas, como você. Atrevi-me a lançar um olhar por cima do ombro. Os corredores se encontravam cheios de gente normal, gente que viva. Falavam, riam, e liam seus horários. Tudo era muito real. Deixei escapar um suspiro de alívio. Este era o primeiro dia de meu último ano. Queria me divertir. ~8~
  9. 9. —Então, qual aula você tem em primeiro lugar? —Perguntei, relaxando pela primeira vez, desde que vi o rapaz morto do lado de fora, apoiando-se tranquilamente sobre uma mesa para o almoço e me olhando diretamente. —Tenho Álgebra II, argh! Desfrutei tanto de Geometria o ano passado. Odiei Álgebra desde o primeiro ano e já posso sentir as vibrações negativas saindo de mim. O estilo dramático que Miranda tinha para a vida em geral nunca deixava de me fazer rir. —Eu tenho Literatura Inglesa. —Bem, todos nós sabemos que você adora. Oh, olha, olha, olha lá está ele. —Miranda sussurrou em voz baixa, enquanto balançava a cabeça na direção de onde Leif falava com outros jogadores de futebol. — Eu odeio não ser capaz de passear e desfrutar de Sua Alteza com você, mas esta é minha parada. Miranda olhou para mim, revirou os grandes olhos castanhos, e fez uma saudação antes de fazer seu caminho para Leif. As salas vazias eram lugares que usualmente evitava a todo custo. Considerando o fato de que o sinal não soaria nos próximos cinco minutos, esta sala, sem dúvida, permaneceria vazia pelos próximos quatro minutos. Se tivesse ficado no corredor, teria sido arrastada por Miranda onde Leif estava rodeado de seus escassos escolhidos. Eu sabia, sem dúvida, que ele não tinha interesse em conversar com Miranda. Estávamos na escola com Leif desde que tínhamos onze anos. Desde que tinha se mudado de algum lugar ao norte da cidade costeira de Breeze, na Florida e nunca reconheceu qualquer um de nós. Não que eu me importasse. Ele não era meu tipo. Fui até a mesa mais próxima à janela e coloquei minha mochila no chão. Um movimento, com o canto dos olhos, fez que os pelos dos meus braços se arrepiassem. Sabia que não deveria ficar na sala vazia. Mas já estava ~9~
  10. 10. ali agora e sair correndo apenas iria piorar. Virei-me para enfrentara mesma alma que vi lá fora, sentado em uma cadeira no fundo da sala com seus pés apoiados sobre a mesa em frente a ele e os braços cruzados casualmente sobre o peito. Como ele sabia que eu podia vê-lo? Não dei nenhuma indicação. Normalmente, os fantasmas precisavam de uma pequena pista minha para perceber que não era tão cega como o resto do mundo. Alguma coisa era diferente com este. Olhei para baixo e comecei a me virar. Talvez devesse ir até Miranda e a equipe de hóquei que estava no corredor. Se agisse como se o tivesse visto e caminhasse de volta para o corredor, então ele poderia pensar que cometeu um engano e flutuaria ou caminharia através de uma parede ou algo assim. —Realmente não quer se juntar à tão inútil companhia, verdade? — Uma fria e suave voz rompeu o silêncio. Agarrei a cadeira de plástico a meu lado, com tanta força, que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Lutei para engolir um choro, quase um grito, que se formou no fundo da minha garganta. Devo ignorá-lo? Devo responder? Alertá-lo que seu palpite estava certo e poderia não terminar bem. Mas ignorar tudo isto seria impossível. Ele podia falar. As almas nunca antes falaram comigo. No momento em que percebi que eles apareciam com frequência em minha casa vagando pelos corredores e não eram visíveis a qualquer um, comecei a ignorá-los. Ver pessoas mortas não era uma coisa nova para mim, mas eles falarem comigo era definitivamente algo novo e totalmente diferente. — Eu imaginei que tivesse mais coragem. Vai me decepcionar também? —Seu tom se suavizou. Havia um toque familiar em sua voz agora. — Você pode falar. —Disse, olhando-o diretamente. Precisava que soubesse que não me sentia assustada. Lutei antes com almas errantes, gostava de deixar claro que elas não eram a minha vida. Elas não me assustavam, mas preferia ignorá-las, desse modo partiriam. Se alguma vez pensassem que ~10~
  11. 11. poderia vê-las, iriam ficar atrás de mim. Ele continuou me observando com uma expressão divertida em seu rosto. Pude notar que seu sorriso torcido deixava ver uma covinha, que não parecia se encaixar com sua atitude fria e arrogante. Tanto quanto sua presença me incomodava, não podia deixar de admitir que esta alma poderia ser rotulada como ridiculamente lindo. —Sim, eu falo. Estava esperando que eu fosse mudo? Apoiei o quadril contra a mesa. —Sim, você é o primeiro que conversa comigo. Ele franziu a testa. —O primeiro? Parecia genuinamente surpreso de não ser a primeira pessoa morta que podia ver. Ele era, sem dúvida, a alma mais original que já vi. Ignorar uma alma que podia falar que seria difícil. No entanto, eu precisava, para superar sua habilidade e me livrar dele. Conversar com amigos invisíveis poderia dificultar minha vida social. Acabaria parecendo uma garota louca que falava sozinha. —Pagan Moore, este deve ser meu dia de sorte. —Ao escutar meu nome, virei-me para ver Wyatt Tucker entrar na sala. Forcei um sorriso como se não estivesse falado para uma sala vazia. —Acredito que é. — Inclinei minha cabeça para trás, para encontrar seus olhos. —Continua crescendo, não é? —Parece que não consigo parar. — Ele piscou, e, em seguida, pendurou uma de suas longas pernas sobre a cadeira em frente a minha antes de sentar-se. — O que você fez neste verão? Não te vi muito. Arrisquei uma olhada para trás em direção à alma, para encontrar uma cadeira vazia. Uma mistura de alívio e decepção tomou conta de mim. Querer fazer mais perguntas não era exatamente uma boa idéia, mas não podia evitar. ~11~
  12. 12. Queria lhe perguntar muitas coisas, como. Por que você está me seguindo? Ou Por que eu posso vê-lo? Que sempre permaneciam mudas. Muitas vezes desapareciam quando começava a fazer perguntas. Voltando minha atenção para Wyatt, forcei um sorriso antes de responder. —Estava na Carolina do Norte durante todo o verão, no haras de minha tia. Wyatt se recostou na cadeira e balançou a cabeça. —Simplesmente não entendo por que ficou fora todo verão, quando vivemos em uma das mais belas praias do mundo. Para mim não Foi realmente uma escolha, mas não queria explicar o motivo para Wyatt ou a qualquer outra pessoa. Mais estudantes começaram a entrar na sala, seguidos por nosso professor de Literatura Inglesa, o Sr. Brown. —Wyatt. Como você está?— Justin Gregory gritou, enquanto se dirigia para nós. Deixou cair sua bolsa sobre a mesa em frente à Wyatt. Por agora, a atenção de Wyatt não se dirigia para mim, graças à interrupção de Justin. Quando me virei para frente da classe, meus olhos se voltaram a encontrar a alma. Apoiado contra a parede diretamente em diagonal à minha mesa estava olhando para mim. Olhei para ele; parecia encontrar minha óbvia antipatia divertida. Sua covinha apareceu e odiei o fato de achá-lo sexy. Ele não era humano, bem, não mais. Tive que me esforçar para desviar o olhar dele e concentrar minha atenção no quadro onde o Sr. Brown escrevia nossa tarefa. Sempre ignorei essas almas brincalhonas antes e elas tinham desaparecido. Eu apenas tinha que superar o fato de que esta podia falar comigo. Se não o ignorasse estaria encrencada, com ele me perseguindo. — Detesto, quero dizer, odeio realmente. —Queixava-se Miranda, enquanto deixava cair à bandeja do almoço na mesa com um forte estrondo. — Se tiver que me sentar em álgebra e química durante toda a manhã, pelo ~12~
  13. 13. menos poderia haver uma pequena recompensa para a vista em uma de minhas aulas. Mas nãoooooo! Tenho a Gretchen com seus incessantes espirros e o Craig com seus problemas de gases. Engasguei com meu sanduíche e agarrei minha garrafa de água para tomar um gole rápido, e poder engolir a comida. Uma vez que me senti segura de que não iria me afogar até a morte, olhei para o rosto preocupado de Miranda. — Você tem que dizer essas coisas quando tenho a boca cheia de comida? —Perguntei. Ela encolheu os ombros. — Desculpe, apenas disse, isso é tudo. Não é minha intenção que se esqueça de mastigar a comida. —‘ Ela estendeu a mão e apertou meu braço. — Aí vai sua perfeição agora. Acha que vai sair outra vez com há Kendra este ano? Quero dizer, eles realmente tiveram uma má separação no ano passado com todo o engano e essas coisas. Certamente superou. Dei outra mordida no meu sanduíche, sem querer responder sua pergunta. Não me importava com quem saísse Leif Montgomery, mas sim, estava mais que segura de que voltaria com Kendra. Pareciam ser O Casal de Ouro. Todos sabiam disso e esperava que acontecesse. Os de seu tipo sempre procuravam outros à altura de seu nome. —Coloca a língua para dentro da boca, Miranda. Parece como um cão que está morrendo de sede. —Wyatt se sentou na nossa frente, soltando uma risada de sua própria piada, enquanto Miranda fazia uma careta para ele. — Eu não tenho minha língua de fora, muito obrigada. Wyatt piscou para mim e encolheu os ombros. —Parecia que sim. O que você acha Pagan, ela estava babando ou o que? ~13~
  14. 14. Dei outra mordida no meu sanduíche, sem querer responder sua pergunta. Não queria estar no meio disto. Wyatt começou a rir quando mostrei minha boca cheia. Miranda me deu uma cotovelada de lado. —Não fique do seu lado. Ele sozinho já é malvado. Com um longo gole de água engoli minha comida, e logo olhei fixamente para Miranda. —Vocês podem discutir tudo o que quiserem, mas eu não vou ficar no meio. Desde que decidiram levar isto um passo além da amizade no ano passado e tudo veio abaixo, tudo o que querem fazer é trocarem golpes baixos um com o outro. Não é minha briga. Deixem-me em paz. — Rapidamente dei outra mordida no meu sanduíche, assim não podia falar mais nada. Quando ambos percebessem que eram loucos um pelo outro e que não conseguiam superar a ruptura, tornariam minha vida mais fácil. Mas então, seria a única solteira, uma vez mais. Meu namorado, Jay Potts, mudouse faz meses e não tinha falado com ele, mesmo antes de ver minha tia neste verão. —Não se trata disso! Não poderia me importar menos que ele não conseguia manter a língua fora da garganta de Katie quando eu não estava olhando. —Disse Miranda com irritação. —Não tinha minha língua na garganta de ninguém, exceto a sua, Miranda, mas você não acredita e estou cansado de me defender. —Wyatt se levantou e pegou sua bandeja de comida intacta antes de sair. — Imbecil. —Murmurou, olhando como ele trocava de mesa. Odiava vê-los assim. Nós três tínhamos sido amigos desde a terceira série. Naquele tempo, Wyatt era todo braços e pernas. Agora, elevava-se por cima de todos com um corpo comprido e musculoso. Miranda não foi imune a suas repentinas qualidades no ano passado. Agora, não o suportava. ~14~
  15. 15. —Escute Miranda, estava pensando, talvez se vocês dois conversassem sobre o que aconteceu sem você o acusando, as coisas poderiam dar certo. — Eu tinha tentado isso antes e ela sempre me ignorou. Com certeza, ela começou a balançar a cabeça fazendo com que seus cachos castanhos saltassem para frente e para trás. — Eu sei o que aconteceu, Pagan, e não quero conversar sobre isso com ele. É um grande mentiroso, um traidor. —Deu uma mordida violenta em sua maçã Granny Smith e continuou olhando em direção a Wyatt. — Olhe para ele, agindo como se encaixasse mais naquela mesa. Quero dizer, realmente, quem ele pensa que é? Segui seu olhar. Wyatt estava recostado em uma cadeira, rindo de algo que outro jogador de basquete dizia. Todos pareciam satisfeitos por ter Wyatt em sua presença. Normalmente, ele sentava-se conosco. Este ano as coisas seriam diferentes. Suspirei, desejando não ter que ser eu a pessoa que falasse o óbvio para Miranda. —Ele é o único cara na escola que tem olheiros universitários assistindo seus jogos de basquete. Isso é quem ele é. Leif pode ser o peixe grande no campo de futebol, mas não vejo nenhum olheiro universitário chamando à sua porta. Pode ficar zangada com Wyatt, mas ele pertence àquela mesa mais que ninguém. Miranda voltou seu olhar para mim e imediatamente transformouse em uma careta. —Bom, ele pode ir à universidade com uma bolsa de basquete e enganar todas as líderes de torcida, então. Devo lhes advertir. —Sua voz adquiriu um tom de derrota enquanto ficava de pé e se dirigia para as latas de lixo. Olhei-a, desejando poder encontrar uma maneira de consertar isto entre eles. ~15~
  16. 16. Alguém se sentou a meu lado na cadeira que Miranda estava. Virei-me na minha cadeira, esperando ver a alma. Imagine minha surpresa quando não era a alma indesejada, mas sim o atleta arrogante. ~16~
  17. 17. Capitulo Dois —Olá, Pagan, o Sr. Yorkley disse que eu precisava falar com você. —O som da voz de Leif conseguiu me tirar do estado de choque em que estava. Se o senhor Yorkley o enviou, era sinal de que ele precisava de algum tipo de ajuda acadêmica. No entanto, não me sentia com vontade de ajudá-lo, nem tinha a intenção de deixar tudo mais fácil. Consegui expressar um Por quê? E esperei em silêncio. Leif pigarreou e esfregou as mãos sobre os joelhos de sua calça jeans, como se estivesse realmente nervoso. —É bem... —Ele começou.— Quero dizer, isso é, preciso de ajuda para falar em público. Não sou bom nisso e o Sr. Yorkley me disse que deveria falar com você, para me ajudar. — Ele olhava para frente enquanto falava. Nem sequer olhou pra mim. Realmente eu não gostava deste tipo. Finalmente, voltou seu olhar em minha direção. Eu tinha certeza que ele usava esta expressão lastimosamente esperançosa com todas as mulheres, a fim de obter o que queria. Meu estômago me traiu e estremeceu, afetado por seus suplicantes olhos azul bebê. Odiava que ele pudesse fazer meu corpo reagir a ele em tudo, de outra forma que não fosse para vomitar, é claro. —Este é o primeiro dia de aula. Como já pode precisar de ajuda? — Perguntei-lhe com uma voz que esperava soasse irritada. Não era uma menina boba que podia comover-se com alguns movimentos de seus longos cílios, mesmo que meu corpo não parecesse concordar. Certamente, estava imaginando o leve rubor em suas bochechas. — Hum, sim, eu sei, mas eu, bem, isso é, o Sr. Yorkley e eu sabemos, mas vou me esforçar. —Disse um pouco na defensiva. Leif sempre foi um bom aluno. Esteve em algumas aulas com ele. — Por que vocês pensam que tem que se esforçar? É evidente que não tem medo de falar na frente de toda a classe. ~17~
  18. 18. Ele balançou a cabeça e olhou para frente novamente. —Não, não é assim. —Esperei, mas não disse mais nada. Era interessante, fiquei intrigada. —Na verdade, só não entendo por que precisa da minha ajuda. É realmente simples. Você escreve os discursos sobre os temas atribuídos, e, em seguida os expõe verbalmente. Simples, básico, sem rodeios ou equações difíceis. Ele voltou seu olhar para mim com um sorriso triste. —Não é tão fácil para mim. —Fez uma pausa e agiu como se quisesse dizer mais, então balançou a cabeça e levantou-se. —Não se preocupe, esqueça que eu pedi. Eu o vi passar pela mesa de seu fã clube e sair pelas portas duplas. Por um momento, senti uma pontada de culpa, por ter sido tão dura com ele. Veio me pedir ajuda e eu basicamente acabei tirando sarro dele. Peguei minha bandeja, com raiva de mim mesma por ter agido como uma idiota. Idiota era parte de sua descrição, não minha. Minha mochila caiu sobre a mesada cozinha com um baque, anunciando meu retorno. Fui até a geladeira. O suco de laranja que eu fiz no dia anterior, tão arduamente, soava bem. —Pagan, querida, é você? —A voz de minha mãe veio do corredor. Estava sentada na mesa de seu escritório com uma grande xícara de café, escrevendo em seu computador. Não tinha que vê-la para saber isto. Minha mãe é escritora. Vive atrás de seu computador. —Sim. —Respondi. Antes que pudesse me servir um copo de suco de laranja, o som de seus chinelos, contra o piso de madeira me surpreendeu. Foi um estranho acontecimento. Ela não se afastava de seus escritos quando eu retornava para casa da escola. Normalmente, era perto do horário do jantar, que ela me honrava com sua presença. ~18~
  19. 19. —Bem, estou feliz que veio direto para casa. Preciso falar com você, e, em seguida me arrumar. —Fez um gesto para sua camiseta folgada e velha de Los Atlanta Braves1. —Vou jantar com Roger, mas não se preocupe, vou deixar dinheiro para você pedir uma pizza. — Puxou uma Cadeira para sentarse e seu rosto amável ficou sério. Não era um bom sinal. Esta seriedade era do tipo grave, reconhecia, mas raramente o experimentava. —O que? —Perguntei enquanto colocava meu copo sobre a mesa. Ela esticou as costas enquanto limpava a garganta. O olhar sério que lançou, do tipo Estou Decepcionada com você,apareceu, mudando sua expressão facial. Rapidamente quebrei a cabeça, tentando pensar em algo que poderia ter feito para incomodá-la, mas nada me veio à mente. —Recebi uma chamada do Sr. Yorkley, bem no meio do capítulo quinze. —Oh, ela sabia sobre Leif. —O senhor Yorkley? —Perguntei, fingindo que não sabia do que se tratava. Mamãe assentiu com a cabeça e jogou a cabeça para o lado como se estivesse me observando para ver se acreditava que realmente não tinha idéia de por que meu professor poderia ligar. Sua cabeça inclinada sempre me deixava nervosa. Preparei-me. Estava a ponto de contar e dizer que mudei de idéia. Fui uma idiota, mas em minha defesa não era como se tivesse feito algum mal. Zombava do rei governante, não de uma pessoa com baixa autoestima. —Pelo que parece, há um rapaz que tem uma dificuldade de aprendizagem e lhe disseram que te buscasse para tutoria. Até onde sei você se inscreveu para dar aulas este ano, por créditos extras. Minha pergunta é Pagan, por que não ajudar a um estudante em sua escola que luta com um problema tão sério como a dislexia? O moço, conforme me disseram, tem a oportunidade de ganhar uma bolsa por suas habilidades atléticas, mas seu problema requer receber ajuda extra em certas aulas. Necessita alguém que lhe 1 Os Atlanta Braves é a equipe de beisebol de Atlanta. ~19~
  20. 20. ajude a colocar seus discursos em um papel. Isso não parece pedir muito. Disse que queria ser tutora este ano. Explique-me por que escolheu lhe dizer que não a este moço e, já te digo que é bom que sua explicação seja realmente boa. — Ela inclinou-se para trás e cruzou os braços sobre o peito, em sua postura de Estou esperando. Leif sofria de dislexia? Isto era uma brincadeira? Eu fui à escola com ele a maior parte da minha vida. Garotas, incluindo Miranda, sabiam tudo sobre ele. Eca! Miranda, até mesmo me contou exatamente onde era sua marca de nascimento. Não me importava. Como poderia Leif Montgomery ter dislexia e ninguém saber? Lembrei-me de Leif me pedir ajuda no refeitório hoje e a forma como me comportei. A revelação de que Leif tinha algo parecido com dislexia e mesmo assim dava um jeito para ter tão boas notas me incomodou. Eu não sei por que, exatamente, mas o fez. Eu gostava de pensar nele como um atleta. Alguém que conseguiu sua popularidade da noite para o dia. Agora tudo o que podia pensar era a maneira como ele me olhou, quando veio me pedir ajuda. Um nó se formou na boca de meu estômago. Eu olhei para minha mãe e balancei a cabeça lentamente. —Não tinha idéia que ele tinha uma dificuldade de aprendizagem. Sempre é tão arrogante e seguro de si. Surpreendeu-me que se aproximasse em busca de ajuda e imediatamente me perguntei por que, ele, de todas as pessoas, necessitaria ajuda. Mamãe se inclinou para frente na mesa e seu cenho franzido aliviou-se um pouco. —Bem, pode ajudá-lo. Criei uma garota mais compreensiva que isso. Eu balancei a cabeça e estendi a mão para minha mochila. — Eu sei, sinto muito. Vou corrigir isso. ~20~
  21. 21. Parecia mais calma. —Eu não gosto de receber ligações da escola sobre você. Especialmente quando estou escrevendo uma intensa cena de assassinato. Sorri e coloquei o copo na lava-louça antes de virar-me para ela. —Desculpe, mas vou tentar me lembrar. Hum, assim, é o segundo encontro com este Roger? Ela corou. —Sim e parece que somos capazes de conversar por horas. Adoro sua forma de pensar e ele viajou por todo mundo. Minha mente sempre está girando quando fala de lugares e coisas que nunca vi. —Encolheu os ombros. — Você me conhece, sempre estou pensando na história por trás de tudo. Levantei minhas sobrancelhas e me aproximei dela. —E ele é sexy. Ela riu o que não era um som normal para minha mãe. —Oh, agora não é por isso que eu gosto dele. É sua forma de pensar e sua conversa. Eu ri alto. —Claro que é mãe, continue dizendo essa mentira. — Tudo bem é muito atraente. —Mãe, ele é sexy e sabe disso. É verdade, é velho, mas ainda assim é sexy. —Não é velho. Tem minha idade. —Exatamente. Olhei sua intenção de parecer magoada antes te desistir e começar a rir. —Bem, sou velha. Seu dinheiro estará na mesa quando tiver fome para pedir uma pizza. Ficar em casa sozinha não era algo que eu gostava. Quando estou sozinha via almas vagando sem rumo, o que me incomodava. Especialmente desde que realmente conversei com uma hoje. ~21~
  22. 22. Era mais fácil ficar lembrando que eles eram inofensivos enquanto estavam silenciosos. Agora, estava um pouco assustada. Depois que fechei a porta do meu quarto, peguei o celular do meu bolso e liguei para Miranda. — Deixe-me ver se entendi bem. —Miranda sentou-se no sofá com um pedaço de pizza na mão e uma lata de refrigerante entre as pernas, me olhando. – Leif deixa-me-tão-quente-que-preciso-me-refrescar Montgomery pediu que o ajudasse com seu discurso e você recusou? Está tão louca como acredito que está? Quero dizer, de verdade Pagan, pensei que a loucura que tantas vezes vejo em você, era apenas superficial, e, no fundo, você tinha algum senso comum. Joguei um pedaço de pizza no prato na minha frente, por causa da frustração. — Vou arrumar isto amanhã. Não é como se tivesse assaltado um banco. Deixa de fazer um grande problema disto. Eu sei que estava errada. Ele realmente precisava de ajuda e eu me inscrevi para tutoria. Se quiser o crédito extra, tenho que ajudar qualquer um que o Sr. Yorkley me enviar. Miranda revirou os olhos. — Oh, Deus me perdoe, enviou para você o homem mais quente do Estado! Quero dizer, pelo amor de Deus, o que você tem? Era impossível não encontrar diversão no seu drama. Miranda nunca deixou de me fazer sorrir com as pequenas coisas, transformando tudo em um grande cenário dramático. — Eu cometi um erro ao não oferecer minha ajuda. Acho que meu preconceito contra os atletas se interpuseram. Mas, não vou ajudar porque você acha que é quente. Só estou ajudando por que ele realmente precisa e me inscrevi para isso. Miranda revirou os olhos e ficou imóvel, segurando a pizza no ar entre o prato e a boca. ~22~
  23. 23. —Espera... ele vai vir a sua casa? Porque, se for assim, quero estar aqui também. Assim ele me nota e percebe que está perdidamente apaixonado por mim, e logo podemos sair durante toda a escola secundária e depois da graduação nos poderíamos nos casar e eu serei a mãe de seus filhos. A soda escapou da minha boca e cobriu meu prato ainda com pizza. — O que? —Sorri encolhendo os ombros antes de morder um pedaço de sua pizza livre de refrigerante. —Para começar, é necessário terminar a universidade antes de sequer pensar em casar-se e ter filhos. E não, ele não vai vir aqui. Inclusive se viesse, não iria deixá-la vir depois desse comentário absurdo. A última coisa que quero fazer é arrumar algo entre minha amiga e um cara que está fantasiando sobre casar-se e ter filhos, recém saídos do ensino médio. Miranda suspirou com a derrota e fez beicinho, zangada, era boa com isso. —Não é divertida, Pagan, não tem graça absolutamente. Peguei outro pedaço de pizza da caixa de papelão que eu tinha colocado na mesa de café. —Sério? Então por que me mantém por perto? —Perguntei. —Porque te amo! —Também te amo! Miranda levantou-se. —Odeio deixar todo o aconchego quente desta conversa, mas tenho que fazer xixi. Ela levantou-sedo sofá e seguiu pelo corredor em direção ao banheiro. Sempre aguentava até o último minuto. Estava acostumada a pensar que mudaria à medida que fosse crescendo, mas não o fez. Quando decidia que precisava ir ao banheiro sempre era uma correria louca. —Interessante a amiga que tem aí. É realmente muito divertida. ~23~
  24. 24. A pizza que levava a minha boca caiu das mãos no meu colo. Reprimi um grito em minha garganta. Fiquei surpresa, mas reconheci a profunda voz com sotaque sulista. A alma falante sentou-se em uma de minhas cadeiras. Simplesmente genial. O menino morto, realmente sexy e ainda arrepiante-porque-posso-falar deve ter me seguido até em casa. — Por que está aqui? —Falei em voz baixa, desejando que me deixasse em paz de uma vez e fosse vagar pela terra ou a outro lugar. A intensidade de seu olhar firme fez com que meu pulso acelerasse nervoso, ou talvez uma melhor descrição fosse... me deu medo. — Eu não posso te dizer isso. Ainda não é o momento. Mas, posso assegurar-lhe que por enquanto não vou a nenhum lugar. Depois de uma olhada rápida para ver se Miranda voltava, olhei para ele. — Por quê? Se ignorar os problemas das almas elas sempre se vão. Franzindo a testa, ele se inclinou para frente e me observou cuidadosamente. —O que quer dizer com problemas de almas? Não me sentia muito segura sentada, olhando para cima, então, tirei a pizza do meu colo e fiquei de pé para poder estar à altura de seus olhos. — Você não é especial. Estive vendo fantasmas, almas, espíritos ou o que sejam por toda a minha vida. Almas estão por toda parte. Na minha casa, na rua, nas lojas, nas casas dos outros, posso vê-los. Eu simplesmente os ignoro e eles vão embora. Ele lentamente se levantou e deu um passo em minha direção. Sua altura era intimidante, mas sua proximidade me fez querer retroceder, inclusive se fosse mais baixo. — Você pode ver as almas? — Eu posso te ver, não posso? Ele balançou a cabeça lentamente. ~24~
  25. 25. —Sim, mas eu sou diferente. Você deveria me ver. É mais fácil dessa maneira. Mas às outras... não se supõe que as veja. A porta do banheiro se abriu com um clique. Girei minha cabeça para ver Miranda voltando com um sorriso no rosto. — Você estava falando sozinha? Encolhi os ombros e forcei um sorriso. —Hum, sim. Ela riu e voltou a sentar-se no sofá. Eu respirei fundo, e, em seguida olhei para a alma que retornou à mesma cadeira de vime branca da cozinha, e me observava. A única maneira de poder terminar esta conversa e conseguir que fosse embora seria... Enviando Miranda para casa dela. Falar com uma alma que ela não podia ver, não iria muito bem. Minha capacidade de ver as almas não era algo que tivesse compartilhado com ela e não tinha intenção de começar agora. A alma parecia estar me esperando para tomar uma decisão. A idéia de ficar sozinha com ele me assustou. Tudo bem que era sexy, mas era um morto e tinha me seguido até em casa. Arrepiante não era suficiente para começar a descrevê-lo. Fazer com que Miranda me deixasse, não era um de meus planos para esta noite. Pus um pouco de distancia entre a alma e eu caminhando para o sofá para me sentar junto da Miranda. — Quer ver The Vampire Diaries2? Tenho os dois últimos episódios gravados. —Perguntei, com a esperança de que ele entendesse a indireta e desaparecesse. — Oh! Sim, eu perdi na semana passada. Peguei o controle remoto, selecionando os programas gravados em minha lista de DVD e com um clique começou a passar. Tinha que deixar de pensar no tipo morto dentro de casa. Depois de pelo menos dez minutos de 2 The Vampire Diaries é uma série de televisão americana de gênero dramático, criada pelo Kevin Williamson e apoiada na saga de L. J. Smith. ~25~
  26. 26. ouvira Miranda suspirar por Damon e queixar-se de Elena, segurei minha respiração e arrisquei um olhar em sua direção. A cadeira onde esteve sentado agora estava vazia. Deixei escapar um suspiro de alívio. Durante toda a manhã fiquei repetindo exatamente o que iria dizer para Leif. Não me sentia segura sobre lhe dizer que sabia a respeito de sua dislexia, ou se deveria apenas dizer-lhe que poderia começar tão logo estivesse pronto e pular a explicação. Eu também me preparei para ele me dizer que já não precisava da minha ajuda. Se já tivesse conseguido outro tutor então toda esta confusão teria acabado. Não seria obrigada a ajudar alguém de quem eu não gostava, mas seria um problema para meu crédito extra. De qualquer forma, perderia nesta situação. Isto também não era algo que queria fazer com Miranda a meu lado, batendo os cílios e rindo quando ele falasse. O tempo seria de extrema importância. Depois da aula de Química, esperei no corredor ele sair da única aula que compartilhávamos este semestre. Felizmente, ele saiu sozinho. — Hum, Leif, eu poderia falar com você um minuto? —Perguntei assim que saiu pela porta. Olhou para mim e franziu a testa imediatamente. Parecia estar pensando seriamente em afastar-se e me ignorar quando, em vez disso, deu meia volta e caminhou para mim parando justo em minha frente. Apoiado contra a parede cruzou os braços diante de seu peito e esperou. Tive a sensação de que não seria fácil. — É a respeito de ontem, sinto muito, fui muito grosseira com o assunto de te ajudar. Candidatei-me para dar aulas pelos créditos extras e não deveria ter te tratado daquela maneira. — Eu parei e hesitei, esperando que ele dissesse alguma coisa. Ele não se mexeu, ou mesmo agiu como se fosse responder. Respirei fundo e me lembrei de que a culpa era minha. —Se ainda quiser que seja sua tutora, eu adoraria te ajudar. Conclui não muito feliz, mas parecia a coisa certa a dizer. Seu olhar silencioso começou a me deixar nervosa. Parecia aborrecido. Eu pratiquei ~26~
  27. 27. todo meu autocontrole para não me zangar com ele e ir embora. Lembrei-me exatamente o quanto fui grosseira com ele ontem e consegui esperar pacientemente por sua resposta. Ele endireitou-se e olhou pelo corredor por cima de meu ombro, como se na realidade não estivesse considerando o que disse. Justo quando pensei que não queria minha ajuda, concentrou sua expressão aborrecida em mim e perguntou. —Você está se oferecendo por causa do Sr. Yorkley? Ele pediu que fizesse isto? Pensei nas palavras de minha mãe e me perguntei se ela não insistisse que fizesse o correto, estaria lhe oferecendo agora minha ajuda? Este popular, talentoso, e adorado rapaz revelou seu segredo. Eu não gostava. Inferno, eu não o conhecia, mas por alguma razão queria ajudá-lo. —Estou aqui porque quero estar. Errei e, sinceramente, nem sequer te conheço o suficientemente bem para formar uma opinião, aliás, acho que nem gosto de você. Estou oferecendo minha ajuda porque precisa e porque me candidatei para isso. E por isso estou aqui. Parecia estar pensando no que disse por um momento e logo um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. —Assim... Você não gosta verdade? Endireitei minha coluna ficando mais reta e aproximei os livros mais a meu peito em atitude defensiva. Surpreendentemente, era algo difícil ser a destinatária de um de seus encantadores sorrisos. Sobre tudo depois de acabar de admitir que não gostava dele. Por que tinha que ser tão frustrantemente lindo? Balançou levemente a cabeça e riu entre dentes. —Bom, acho que temos que trabalhar para mudar sua opinião. — Acomodou sua mochila mais acima, sobre o ombro e lançou mais um sorriso. — Verei você mais tarde. ~27~
  28. 28. Partiu me deixando um pouco nervosa. Lutei contra a urgência de dar a volta e vê-lo se afasta. Um lento som de aplausos surpreendeu-me e dei meia volta para me encontrar com a alma apoiada nos armários com esse maldito sorriso torto. —Impressionante. Uma mulher com coragem suficiente para admitir que pode estar errada, pedir desculpas e se oferece para corrigir a situação. Pus os olhos em branco e suspirei, sabendo que o corredor não se encontrava completamente vazio, assim que a resposta não seria possível. —Afaste-se de mim. —Falei de qualquer forma, antes de me voltar e caminhar em direção à cafeteria. ~28~
  29. 29. Capitulo Três Estava de pé em minha sala, frustrada por perder o controle da situação em meu encontro com Leif. Fui à biblioteca preparada para cumprir com nossa tutoria programada e inclusive fiz uma nota no livro da mão que o Sr. Yorkley deu a todos os tutores. Encontrava-me no problema de criar um programa para usar com Leif, fazendo notas dos dias e horas de nossas sessões. Escrevi instruções para ele, sobre o que levar e como tomar notas nas aulas. Tudo parecia tão simples e seco. Mesmo assim, nada saiu como eu planejava. Não levei em consideração que estudar com Leif no último período seria impossível dado que todos os jogadores de futebol americano deviam ir para o campo no último período. Tampouco pensei nos treinos da tarde e no trabalho na loja de surfe de seu tio ao entardecer. O timbre soou antes que pudesse ficar mais frustrada por que nada estava como eu tinha planejado. Não pude mudar minha cara irritada enquanto abria a porta. Leif me deu um sorriso sincero. —Realmente eu sinto muito. Sinto-me mal por ter que trabalhar de acordo a minha agenda. Sei que sete já é tarde e bom, sinto muito. A indignação que estava sentindo por ter que trabalhar ao redor de Leif, evaporou-se. Parecia sincero e um pouco nervoso. Esta não era a forma que eu esperava que ele agisse. Onde estava sua arrogância? Sempre era tão amável? Certamente não. O tipo saiu com a perversa bruxa da costa sulina por dois anos. Dei um passo atrás para deixá-lo entrar. —Está bem. Entre e vamos para a mesa, vou pegar algo para beber. Você gosta de cerveja sem álcool? —Perguntei, caminhando para a geladeira, assim não teria que olhar para ele. —Isso é genial, obrigado. Tomei meu tempo, pegando as garrafas da geladeira e as abrindo antes de caminhar de volta para a mesa da cozinha. Esta seria a primeira vez ~29~
  30. 30. que conversava realmente com Leif além das breves conversas de ontem e hoje. —Trouxe o programa de aula e tudo o que se espera neste curso. Tenho uma semana antes que o primeiro discurso seja feito e precisa ser sobre algo que me sinta entusiasmado. Muito bem. Era uma tutora. Podia fazer isto. Ele era só outro estudante que precisava da minha ajuda. —Assim, precisamos decidir um tema apaixonado. —Riu entre dentes e levantei os olhos para ele. — O que? —Perguntei quando vi sua expressão divertida. —O que me apaixona? Rodei meus olhos e sustentei o programa de estudos. —Já sabe um assunto com o qual se sinta forte. Como seu propósito ou base. Assentiu com sua risada divertida ainda em seu lugar. —Apaixonar, eu gosto disso. Pensemos em algo que me apaixona. Isto não deveria ser difícil. Algum tema relacionado com o futebol americano ou problemas no esporte tinha que estar dando voltas em sua cabeça. Estiquei a mão para abrir o notebook. — Tem alguma idéia? —Perguntei. Aparentava estar muito compenetrado em seu pensamento. Surpreendeu-me um pouco. Quão compenetrado poderia ficar em se tratando de futebol americano? —A importância da adoção. Comecei a escrever sua resposta enquanto suas palavras lentamente se afundaram em minha cabeça. Adoção? Queria escrever sobre adoção? —Muito bem. —Repliquei me perguntando se iria me explicar com detalhes por que queria discutir isto. Estive completamente de acordo ~30~
  31. 31. com ele, mas, como podia o Sr. Popular ser apaixonado sobre um tema tão importante? Estudava a caneta em sua mão e a deslizava para trás e para frente entre seus dedos. Podia dizer que decidia como me explicar por que queria falar sobre adoção. Assim que me preparei para manter minha boca fechada e esperar. Finalmente me olhou. —Fui adotado depois de viver em lares de acolhida por cinco anos. Já não tinha esperança de pertencer a uma família, no momento em que fiz nove anos porque a maioria das pessoas querem bebês. Mas tive uma oportunidade com a qual a maioria dos órfãos de nove anos apenas sonham. Se ele simplesmente me tivesse falado em um fluido chinês não teria ficado mais surpresa. Adotado? Leif Montgomery? Sério? —Oh, uau, não tinha idéia. Eu, uh, posso ver por que este seria um tema importante para você. —Quando eu disse que não conhecia Leif Montgomery, não percebi quão precisas eram minhas palavras. O rapaz em um lar de acolhida sem pais e uma dificuldade de aprendizagem não pareciam se encaixar com o tipo que caminhava pelos corredores do Harbor High como um rei. As coisas a respeito de Leif que me desagradavam agora pareciam lucros impressionantes. Era possível que o tivesse etiquetado incorretamente? Os atletas superficiais não superavam a adversidade nem obtinham as coisas que Leif conseguiu. Tinha-o catalogado, sem sequer conhecê-lo. O fato de que as garotas ficavam loucas por ele e que cada rapaz queria ser ele, não o faziam um idiota. A única idiota e preconceituosa mulher era eu. —Escutou a parte onde sou adotado, verdade? —Sua voz interrompeu meus pensamentos e o olhei confusa. Um sorriso saiu de seus lábios. — Ficou muito perturbada. Pensei que provavelmente perdeu o final feliz. —Sinto muito. É só, bom, não esperava isso. Surpreendeu-me um pouco. ~31~
  32. 32. Inclinou-se para trás em sua cadeira. —Parece-me que tem muitas idéias ao meu respeito. Pelo que vejo pensou muito em alguém pelo qual diz que não gosta muito. Meu rosto se esquentou e sabia que ruborizava. —Quem sabe, Pagan? Provavelmente gostará de mim antes que termine isto. Levou três noites consecutivas de tutoria para ter seu discurso preparado. Também levou só três noites para perceber que realmente eu gostava do senhor estrela de Habor High. Leif Montgomery não era nada parecido com o que eu sempre pensei dele. Ainda me sentia culpada pelo estereótipo que desenhei em minha cabeça. Entretanto, embora estivéssemos passando duas horas juntos a cada entardecer, nada mudou na escola. Apesar de Leif sorrir e assentir quando cruzávamos no corredor, não tínhamos a fácil amizade que parecíamos ter durante as tutorias, à vida diária na escola. —K, assim queeeee, aqui está à coisa, Wyatt e eu estivemos conversando um pouco e ele me pediu para ir ao Baile de Boas vindas. Isso significa que terá que procurar um par e vir também. Sei que planejamos ir ao cinema essa noite, mas bommmmm... Miranda bateu seu cílios para mim através da mesa. —Estou feliz de que Wyatt e você voltaram. Odiava que estivessem brigados. —Eu também. Era ruim, verdade?— Interveio Wyatt, enquanto se sentava ao lado de Miranda. Ela se inclinou sobre ele e de repente, senti-me um pouco deixada de lado. —E Pagan precisa de um par para o baile. Não podemos ir sem ela. — Disse Miranda sorrindo para Wyatt. —Eu tenho certeza de que Pagan pode conseguir um par se quiser um. —Mordeu seu hambúrguer. Sabia que tentava fazer o possível para frear as idéias de Miranda. Dei para ele um sorriso agradecido. ~32~
  33. 33. —Realmente não há ninguém com quem quero ir. —Isto era uma mentira e sabia. Obriguei-me a não olhar para a mesa de Leif porque se fizesse isso me delataria imediatamente. Wyatt, entretanto, olhou para a mesa de Leif e logo para mim com um sorriso zombeteiro. Por sorte, Miranda se perdeu na sua sutil insinuação e Wyatt decidiu não verbalizar seus pensamentos. Miranda, inteirando-se de meu interesse por Leif, era a última coisa que necessitava. —Mas não será divertido sem você. —Miranda fez um bico. Tomei outro gole do meu chá. Não queria discutir com ela sobre isto. — Vamos, Pagan, foram seis meses desde que Jay se foi. Sentimos saudades também, mas ele se mudou. Precisa ter encontros novamente. Era a primeira vez que a menção de meu antigo namorado não me deixava triste. Tinha começado a sair com ele em meu nono ano e ele era um aluno do décimo primeiro ano. Depois da graduação do ano passado em Maio ele foi para a Universidade e seus pais se mudaram para outro estado. Ambos concordamos que uma relação à distância seria muito difícil e rompemos. No princípio, fiquei perdida. Tinha assumido que deveria ter o coração partido. Não demorou muito tempo para perceber que sentia saudades da comodidade da nossa relação. No fundo, tínhamos sido apenas muito bons amigos. Nós gostávamos das mesmas coisas e nos preocupávamos com o mesmo. —Não é por Jay. Não conheço ninguém que me interesse. O sorriso de Wyatt ficou maior enquanto ele dava outra mordida em seu hambúrguer. Se ele não fosse cuidadoso eu estrangularia esse sorriso tolo. Miranda fez uma careta de desagrado. —É uma lástima que passe cada noite com Leif Montgomery e que nem sequer goste dele. Simplesmente não te entendo. Wyatt levantou as sobrancelhas para ela e franziu o cenho. —O que está dizendo, Miranda? Ela franziu os lábios e tentou parecer séria. ~33~
  34. 34. —Oh, chega, Wyatt, sabe que te amo. —Ele se agachou e lhe deu um beijo nos lábios antes de retornar à sua comida. Ela voltou sua atenção para mim, com um sorriso tolo no rosto e eu quis rir. — Só estou dizendo que se pudesse ver além de seu desagrado por ele, seria uma grande oportunidade. Pensei por um minuto a respeito de continuar deixando acreditar que realmente eu não gostava de Leif. De algum jeito me parecia injusto com ele. Ele não merecia meu desgosto e não deveria deixar que os outros acreditassem que eu não gostava dele. —Não me desagrada Leif. Não é como eu pensava. Errei a respeito dele. Entretanto, tampouco estou quente por ele. —Olhei para minha bandeja com um pouco de medo de que Miranda pudesse ler nas entre linhas, mas, em troca, parecia um cervo acuado pelos faróis. Seu olhar não estava em mim, seu olhar se concentrava em algo ou alguém atrás de mim. —Bom, fico feliz de saber que não está quente por mim. Uma preocupação a menos em minha mente. Fechei meus olhos com força, esperando só ter imaginado a voz de Leif. Seu ombro roçou o meu enquanto se sentava a meu lado e lentamente abri os olhos para ver um muito divertido Wyatt, me olhando. Esclareci a garganta e forcei um sorriso que não sentia, antes de dar a volta para olhar para Leif. —Olá. —Ele me disse simplesmente e começou a rir, empurrando meu ombro com seu braço. —Relaxa Pagan, está tudo bem. Entendo que odiava minhas vísceras e agora teve a revelação dos deuses de que não sou tão mau depois de tudo. É genial. —Resisti à vontade de suspirar de alívio. —Assim, o que te traz para as mesas da classe baixa? —Perguntou Wyatt, sorrindo com seu próprio humor. Leif o olhou e levantou uma sobrancelha com surpresa. ~34~
  35. 35. —Oh, esta dizendo que esta mesa é da classe baixa? Não tinha nem idéia. Tem o atleta estrela que esta sendo procurado pelas universidades. — Apontou para Wyatt. — Sua namorada. —Apontou para Miranda. — A rainha do Baile de Boas vindas do ano passado. —Disse, voltando-se para mim. Rodei meus olhos. —Isso foi só por meu encontro e sabe disso. —Não, não sei. Sabia que ruborizava e o odiava. Meu olhar se encontrou com o de Miranda e percebi que absorvia cada palavra. Isto não era bom. Não ia sentir saudades das minhas bochechas rosadas. —O que é que você precisa? —Perguntei, tentando não parecer grosseira. Sorriu como se pudesse ler minha mente. —Queria dizer que obtive A em meu discurso. —Isso é maravilhoso. É um discurso muito bom. Pôs algumas grandes idéias nele. —Sim, mas não poderia fazer sem sua ajuda. Sorri e olhei para minha comida. Não contei a ninguém, incluindo Miranda, a respeito da dislexia de Leif ou sua adoção. Essas não eram minhas histórias para contar. —Vai ao jogo desta noite? —Perguntou e o olhei surpresa pela pergunta. —Um, não, provavelmente não. —Franziu o cenho e logo assentiu com a cabeça e se levantou. —Bom obrigado novamente te vejo na segunda-feira, então. —Está bem. Boa sorte esta noite. —Respondi. Tinha ferido seus sentimentos pelo fato de não ir ao jogo? Girei-me novamente na minha cadeira e Wyatt negou com a cabeça. ~35~
  36. 36. —O que? —Perguntei. —O pobre tipo não está acostumado a ser derrubado. —Disse e tomou um gole de seu leite. —Derrubado? —Perguntei confusa. Colocou a caixa de leite novamente em sua bandeja e me olhou com uma expressão séria, uma expressão estranha de ser ver no rosto de Wyatt. —Queria que você fosse ao jogo e você disse que não. — Franzi o cenho, tentando recordar se me pediu que fosse. Tenho certeza de que ele me perguntou se eu tinha planos de ir. Não me pediu que fosse. —Não, não pediu. Wyatt começou a rir e balançou a cabeça. —Sair com Jay te arruinou. Na maioria das vezes a gente não sai com alguém exatamente igual a nós. Mas você se entendia com Jay, porque, como você, ele era direto e sério. Nem todos os rapazes, não, a maioria dos rapazes, não são assim. —Assentiu com a cabeça na direção de onde Leif conversava com Kendra. — Estava te convidando, confie em mim. —Wyatt se afastou e olhei novamente para Leif. Kendra girava seu comprido cabelo loiro ao redor de um dedo enquanto sorria para ele. Fazia apenas uma semana, que eu pensava que ele merecia alguém tão superficial e formosa. Agora, conhecia-o melhor. Olhou em minha direção e me surpreendeu olhando para ele. Seus olhos pareciam dizer algo que eu não entendia, mas antes que pudesse entender eles mudaram e adquiriram uma expressão normal. Voltou sua atenção para Kendra. Confusa e um pouco chateada, agarrei minha bandeja e comecei a me levantar. Comecei a dizer para Miranda que a veria mais tarde, quando percebi que me olhava com a boca levemente aberta. ~36~
  37. 37. —O que? —Perguntei um pouco na defensiva, porque sabia, pela expressão em sua cara, que ela descobriu. —Você... gosta... dele. — Disse lentamente, como um sussurro. Rodei os olhos e comecei a rir. —Não de tudo. —Agarrei minha bandeja e me dirigi ao lixo, longe dos olhos de Miranda. *** —As garotas da sua idade, normalmente, não saem e fazem coisas no fim de semana? —Desta vez não fui capaz de segurar o grito de susto que saiu da minha boca. Por sorte minha mãe não estava em casa para me ouvir. Dei a volta para encontrar a alma falante sentada na minha cama, me olhando. —Poderia POR FAVOR, deixar de aparecer do nada e me assustar. Que maldição! E o que está fazendo no meu quarto? Vá embora! —Amassei a camisa que estava a ponto de pendurar no armário. Isto começava a ficar chato. Tinha que deixar de me seguir. Uma de suas escuras sobrancelhas se levantou. —Normalmente não é tão irritável. Grunhindo em voz alta, me aproximei da minha janela, abri e logo me virei para ele. —Voe para longe, por favor. Saia do meu quarto. Eu poderia estar nua! Uma risada profunda causou um calor estranho no meu corpo. Parecia com enjôo. —Quer que eu voe para longe? Que linda. Não queria ser linda, mas parecia que já não podia continuar zangada. Uma estranha letargia se apoderou de mim. Sua risada tinha causado este calor relaxante em meu corpo? ~37~
  38. 38. —Não, não exatamente, mas tenho a capacidade de controlar a ansiedade ou o pânico. Minha risada não teve nada a ver com isso. Acaba de ler meus pensamentos ou eu disse isso em voz alta? Parecia me achar divertida, se o sorriso em seu rosto fosse alguma indicação. Outra razão pela qual deveria ficar furiosa com ele. Estúpido tipo morto falante. —Se vale de algo, sinto muito ter te assustado. Não era minha intenção, mas, se tivesse aparecido na sua frente, de pé dentro do seu armário, isso teria sido menos aterrorizante? Pensei nele aparecendo na minha frente e uma pequena risada escapou de meus lábios. Tinha razão. Provavelmente eu teria desmaiado. Mas poderia ter batido na porta ou algo assim. Espera, fantasmas podem bater na porta ou algo assim? Ou seus punhos transpassam tudo? —Vejo seu ponto. —Respondi e comecei a fechar a janela, logo decidi não fechar. Eu me sentia mais segura com a janela aberta. — Por que está aqui? —Perguntei. —Por que está aqui? —Respondeu. O tipo queria responder minhas perguntas com outras perguntas? —Vivo aqui. Encolheu os ombros. —Sim, mas é jovem. Tem amigos. É fim de semana. Sei que estão fora, passeando e bem, por que está aqui? Genial, agora a alma falante quer ser intrometida. —Não estou com humor para sair. —Devido ao jogador de futebol? O que sabia ele sobre Leif? Aproximei-me e me sentei na cadeira de felpo que mantinha em um canto do meu quarto para leitura. Ao que parece, iria ter que conversar com o menino para conseguir que ele fosse embora. ~38~
  39. 39. —Na realidade não, principalmente é porque não quero ser a terceira na roda de Miranda e Wyatt. —Mas ela continua chamando e te convidando para sair com eles. Para mim parece que te quer ao redor. Como sabia que ela tinha me chamado? Sentei-me com as costas reta e coloquei os pés debaixo de mim, tentando entender o porquê do seu intrometimento, mas não pude. —Você está me observando? —Perguntei, estudando sua expressão em busca de qualquer sinal de mentira. Ele me dedicou um sorriso malicioso, colocou as mãos na nuca e se inclinou para trás. —Durante semanas, Pagan, durante semanas. Semanas? Abri minha boca e logo a fechei sem saber o que dizer. Será que ele me viu nua? Realmente quero saber se ele viu? Como ele tinha se escondido de mim? Permanecia no meu quarto enquanto eu dormia? Balancei a cabeça, tentando esclarecer perguntas correndo em minha mente. —Verei você mais tarde. Sua mãe está em casa. —Levantei bruscamente o olhar de minhas mãos, que estive retorcendo em meu colo com nervosismo, mas minha cama estava vazia. —PAGAN! Venha me ajudar a entrar com as compras! —Mamãe chamou da parte inferior das escadas. Suspirei e fiquei de pé, olhando para trás, uma vez mais, para minha cama vazia, antes de correr escada abaixo para ajudá-la a descarregar o carro. *** O sono não veio fácil o resto do fim de semana. Inclusive tinha dormido com a porta aberta e a luz no armário aceso. Era ridículo que ele me ~39~
  40. 40. fizesse temer à escuridão. Os círculos escuros debaixo de meus olhos foram impossíveis de cobrir por completo esta manhã. Com minha bolsa de livros em meu ombro, andei pelo corredor cheio. Passei por Leif e ele assentiu com a cabeça educadamente. As outras vezes que o tinha visto, ele nem sequer se deu ao trabalho de olhar para mim. Por que sua falta de atenção me fez querer voltar para casa e me esconder na cama, não sei. Mas, talvez só quisesse ir para a cama porque o sexy tipo morto tirou meu sono e me sentia exausta. —Não olhe para ele na próxima vez. Vai deixá-lo louco. —O sotaque familiar não me assustou. Era quase como se o esperasse. Apesar de que esteve frustrantemente ausente desde que disse no sábado a tarde, que vinha me observando durante semanas. É obvio, não havia maneira de que eu pudesse responder neste momento e ele sabia. Voltei e me dirigi ao meu armário. — Está tentando se fazer de duro. Demonstra o infantil que é, mas posso ver que está te incomodando. —Não estou incomodada. —Disse entre dentes quando abri meu armário. —Sim, está. Há uma pequena ruga entre suas sobrancelhas que aparece e morde seu lábio inferior quando algo te incomoda. Sabia que não tinha necessidade de olhar para ele, mas não pude evitar. Virei à cabeça e o enxerguei através do meu cabelo. Apoiado contra o armário junto ao meu, com os braços cruzados sobre o peito, me observando. Ninguém nunca prestou suficiente atenção em mim para saber através da minha expressão quando me sentia incomodada ou chateada. Era extremamente íntimo. —Está perdendo a exibição pública de afeto, no corredor, entre seus dois amigos. É possível que eles precisem de um copo de água gelada jogada sobre eles. —Mordi o lábio para não rir. Não tinha necessidade de dar à volta para saber do que ele falava. Miranda e Wyatt podiam ser um pouco asquerosos, nojentos e bastante grudentos às vezes. ~40~
  41. 41. —Assim está melhor. Eu gosto quando sorri. Se jogador de futebol continuar fazendo você franzir o cenho, vou tomar o assunto em minhas próprias mãos. —Abri a boca para protestar, mas ele se foi. *** Lancei um olhar para o relógio. Leif chegaria a qualquer momento. Minha mãe saiu há meia hora, para outro encontro com Roger. Passei um tempo sozinha caminhando pela casa procurando a alma da qual parecia que não podia me desfazer. Não estava segura de onde esperava encontrá-lo. Na realidade não parecia ser o tipo de rapaz que se sentava e não fazia nada. Se ele estivesse ali, estaria tentando me dizer o que fazer ou me fazendo perguntas que não eram assunto seu? Mas o busquei de qualquer forma. Queria conversar sobre o comentário que fez mais cedo. A campainha interrompeu minha busca e me dirigi à sala para abrir a porta. —Olá. —Dei um passo atrás e deixei entrar Leif. Ignorei-o resto do dia. Não tinha certeza se isso foi bom, mas decidi que não queria que Leif pensasse que me importava se falava comigo ou não. —Olá. —Respondeu e entrou. Levei-o até a mesa da cozinha e esperei que colocasse seus livros nela. —Sexo seguro. —anunciou. Fiquei imóvel e o olhei fixamente, insegura sem saber se escutei corretamente. Seu rosto sério se rompeu em um sorriso e logo começou a rir. —Queria pudesse ver sua cara. —Disse através de seus ataques de risada. —Disse sexo seguro, então? —Perguntei, tentando entender o que era tão engraçado. Ele era quem falava de sexo. Ele assentiu com a cabeça e levantou seu papel. —O tema para o discurso desta semana. ~41~
  42. 42. Ri fracamente. —Está bem, bom, isso foi uma maneira de anunciar. — Respondi, enquanto caminhava para a geladeira, buscar as bebidas. —Espero que esteja informada sobre o tema, porque não tenho nem idéia. — O que?—Chiei em resposta Ele riu novamente e fiquei ali, esperando que se controlasse. —Sinto muito. —Disse. — É que fica tão bonitinha quando se surpreende. Fiquei tensa ao ouvir a palavra bonitinha e desejei que ele não tivesse falado. Com a esperança de que não notasse minha reação, respirei profundamente e rezei em silêncio para que meus olhos não me traíssem quando dei a volta. Não era como se quisesse que Leif me visse diferente, mas não queria exatamente que pensasse que eu era bonitinha. Talvez atraente ou bonita inclusive, mas não bonitinha. Embora, ele se referindo a mim como bonitinha, ajudou a me recordar onde estávamos. Qualquer idéia delirante que pude ter tido de nós sendo algo mais que amigos, se dissipou. —Acredito que ter a experiência real não é necessário. Supõe-se que seja basicamente a respeito de suas crenças sobre o tema ou a importância do mesmo. —Não me atrevi a olhá-lo nos olhos. Estendeu o braço e levantou meu queixo assim não teria outra opção. —Está envergonhada. —Virei os olhos e ele sorriu. — Isso é bonitinho. Urgh! Voltamos para mim, sendo bonitinha. Olhei-o de volta. —Por favor, deixa de dizer que sou bonitinha. É uma espécie de insulto. Ele franziu o cenho enquanto deixava cair à mão do meu queixo. — Como isso é um insulto? ~42~
  43. 43. Encolhi os ombros, sem querer falar sobre isso e desejando ter mantido a boca fechada. —Simplesmente é. Ninguém quer ser bonitinho. Os cachorrinhos são bonitinhos. —Alcancei seu caderno, mantive os olhos no papel e li sobre o tema ou ao menos tentei atuar como se estivesse lendo sobre ele. —Bom definitivamente você não é um cachorrinho. —disse com um sorriso. —Bom isso é algo pelo menos. —Precisávamos mudar de assunto e eu tinha que aprender a controlar minha língua. — Muito bem, então, quais são as três principais razões pelas quais você acredita que o sexo seguro é um tema importante? —Talvez agora conseguisse mudar o assunto sobre eu ser bonitinha. Ele não respondeu e o olhei nos olhos. Olhava-me com uma expressão séria. —Não tem certeza? Ele não respondeu. —Um bem, o que acontece com um adolescente? Esse é um bom ponto. Ninguém precisa tornar-se pai enquanto ainda é uma criança. Uma vez mais, ele não respondeu assim eu escrevi. —Seus sentimentos estão feridos. — Disse em voz baixa. Fiquei imóvel, mas mantive os olhos no papel. — Não foi minha intenção dizer algo para ferir seus sentimentos. —Continuou. Queria negar, mas percebi que aceitar suas desculpas e seguir adiante seria a melhor maneira de consertar isto. —Está bem. Vamos trabalhar em seu discurso. Ficou olhando o papel. —O fato de ser adolescente é sem dúvida uma das razões. — Esteve de acordo. —Está bem, e sobre DSTS? —Sugeri, escrevendo enquanto falava. —Essa é outra boa. Comecei a escrever, mas ele se esticou e pegou o caderno. ~43~
  44. 44. Assustada, balancei a cabeça para ver o que ele estava fazendo. Ele me deu um sorriso de desculpa. —Sinto muito, mas não podia pensar em outra maneira de chamar sua atenção. Insegura de como responder, sentei-me em silêncio e esperei que terminasse. —Não é só bonitinha. Sim, faz caras bonitinhas e faz coisas bonitinhas, mas não é só bonita. —Escutá-lo explicar fez eu me sentir estúpida por dizer algo a respeito. —Está bem. —Consegui balbuciar. Deslizou o caderno de volta para mim. —Agora, vamos ver... E o uso de uma camisinha tira o prazer, deveríamos falar disso? Engasguei com meu refresco e comecei a tossir incontrolavelmente enquanto Leif me dava palmadas nas costas. Uma vez que consegui me controlar, levantei os olhos e o peguei segurando um sorriso. —Uma vez mais, faz um montão de coisas bonitinhas, mas não é só bonita. ~44~
  45. 45. Capitulo Quatro Leif não apareceu na noite anterior para terminar seu discurso e deveria vir hoje. Não vir não era comum nele. Quanto mais tarde ficava, sem um telefonema dele, mais furiosa eu me tornava. No final, terminei o discurso por minha conta e o imprimi. No fundo, acreditava que teria uma boa desculpa e deixar que ele tivesse uma nota ruim pareceu cruel. Coloquei a mão em minha bolsa para pegar seu discurso enquanto caminhava pelo corredor. Só esperava que quando o encontrasse e lhe entregasse o documento, tivesse uma desculpa legítima para a última noite. Tinha que admitir a mim mesma que precisava que ele tivesse uma desculpa, realmente boa, não estava sendo fácil. Permitir-me preocupar muito com Leif Montgomery. —Ei garota, O que acontece? Senti sua falta. —Miranda deslizou seu braço ao redor da minha cintura e apoiou a cabeça em meu ombro. Sentia falta dela também. No ano passado, quando Wyatt e ela estavam saindo, e eu estava com Jay. Não tinha me sentido isolada dos meus amigos porque nos convertemos em casais. Comigo estando solteira e os dois sendo um casal, nos tornamos um trio e não podia evitar me sentir como a terceira na roda. —Também sinto saudades. Temos que sair juntas uma noite. Talvez uma noite de garotas. —Sugeri, enquanto procurava Leif através da multidão de estudantes que se acumulavam no corredor. —Isso soa maravilhoso! Vamos planejar para uma noite deste fim de semana. —Fez uma pausa e franziu o cenho. — Ou talvez na próxima semana? —O gesto característico era prova suficiente de que odiava me contar que estava ocupada. Encolhi os ombros e esbocei um sorriso forçado. —Não se preocupe. Quando tiver tempo. —Olhei pelo corredor e desta vez consegui uma visão de Leif em seu armário. Suas costas para o ~45~
  46. 46. corredor cheio de gente. Voltei-me novamente para Miranda. — Tenho que entregar isso para Leif. Encontramo-nos no almoço. A multidão parecia diluir-se quando cheguei ao final dos armários. Uma vez que abri passo entre o último grupo de estudantes que se interpunham entre nós, notei Kendra apoiada em seu armário, sorrindo para ele. Pensei em dar a volta, porque não queria lhe entregar nada diante dela, quando recordei que iria precisar no primeiro período. Reduzi a velocidade e parei bem atrás dele. Quando me aproximei para lhe tocar o ombro, Kendra se esticou e passou seus dedos pelo cabelo de Leif. Era repugnante de ver. Ele é um bom rapaz e ela era pura maldade. —Tem certeza que ontem a noite não foi uma grande coisa? Eu não gostaria de estragar as coisas entre sua namorada e você. —Sussurrou ela. —Sabe que ela não é minha namorada, Kendra. Deixe de chamá-la assim. Começará rumores. —Sua voz soava como se tivesse incomodado. A idéia de que alguém pudesse pensar que ele gostava de mim era tão repulsiva para ele? Um nó doentio se formou em meu estômago e comecei a me virar para sair antes que me notasse. —Você passa muito tempo na casa dela e ela sempre está te olhando. —Ela é minha tutora e não fica me olhando. Você está sendo paranóica quando não tem razão para ser. Fechei minha mão vazia em um punho pensando em todas as vezes que ele me enganou, me fazendo acreditar que era um bom tipo. Era tão mau e calculador como Kendra. Será que era adotado ou isso foi uma grande mentira elaborada para conseguir que eu sentisse pena por ele? De fato, tinha me convencido de que eu era estúpida por pensar mal dele, me fez acreditar que ele poderia ser um bom cara para uma potencial relação. Pensei que na próxima vez que viesse a minha mesa no almoço e me perguntasse sobre seu jogo eu iria dizer que sim e veria se Wyatt tinha razão. ~46~
  47. 47. —Tem certeza que não é sua namorada? Porque parece que te está espreitando. —Kendra ronronou. Virei novamente odiando o calor que sentia em minhas bochechas. Minha cara estava provavelmente vermelha brilhante. —Oh, ei, Pagan. Ia te procurar e explicar o porquê de ontem à noite. —Assenti com a cabeça, sem querer discutir isto depois de tudo o que ouvi e lhe entreguei o papel. —Pensei que poderia precisar disto. Ficou olhando o papel em minha mão antes de alcançar e pegar. Girei-me para me afastar. —Espera, iria te ligar ontem de noite. Simplesmente fiquei preso. Obrigado. —Disse levantando o papel. Kendra passou um braço dentro do dele e sorriu docemente. —Isso não é verdade, Leif, nunca te prendi. —Logo lançou seu olhar para mim e me deu um sorriso de triunfo. Enquanto eu tinha me sentado até tarde terminando seu discurso, ele estava com Kendra. Quão estúpida posso ser? Perdi meu tempo escrevendo um discurso para alguém que acreditava que precisava da minha ajuda, todo este tempo pensando que era um bom sujeito; que poderia, provavelmente, gostar de verdade. Talvez eu não o tivesse julgado tão injustamente antes. Talvez Leif Montgomery se ajustasse perfeitamente à descrição que tinha dele todos estes anos. Doeu saber que o rapaz que tinha construído, era uma ilusão. Que tinha feito o ridículo papel, por permanecer acordada e escrevendo o discurso para ele. Fez eu me tornar uma de suas groupies apaixonadas. Agarrei-me a esse pensamento para conseguir abrir meu armário e encontrar os livros que necessitava para a primeira aula através de minha nuvem de ira. Parei, fechei os olhos e respirei fundo. Acabava de aprender uma lição e não tinha que esquecê-la. Duas lágrimas escaparam e rapidamente as sequei antes de fechar a porta do meu armário. Agora me fez chorar. Perfeito. ~47~
  48. 48. —Pagan. Merda! Foi atrás de mim. Não podia deixar que me visse chorando. Humilhação não seria uma palavra forte o suficiente para descrever o que sentiria se Leif soubesse que derramei uma lágrima por isso. Obriguei-me a colocar uma expressão indiferente em meu rosto e dei a volta. —Sim? Parecia chateado. Desejei poder me convencer de sua sinceridade. —Olhe, a respeito de ontem à noite, realmente eu sinto muito. Não esperava que terminasse o discurso para mim. Foi errado e receberia a nota ruim. Deveria ter ligado, mas... Neguei com a cabeça para pará-lo. —Não é grande coisa. Entretanto, a partir de agora poderia, por favor, me fazer saber adiantado quando não será capaz de chegar à hora combinada? Agora, se me desculpa. —Dei um passo ao redor dele e me dirigi à aula. —Pagan, espere, por favor. Parei e considerei lhe dizer que fosse para o inferno, mas decidi não dizer antes de me voltar para ele. —O que? —Eu ia, mas Kendra me ligou. Neguei com a cabeça. —Não me importa. Só avise da próxima vez, por favor. —Dei volta e fui para a aula, mas quando cheguei, não deixei de caminhar. Entrar em uma sala de aula tarde, com os olhos de todos em mim, não me parecia possível nesse momento. Abri a porta principal da escola e saí. Normalmente não ficava assim por qualquer pessoa. Hoje cometi o engano de deixar isso acontecer e me queimei. Só queria ir para casa. Podia cuidar do meu orgulho ferido, sozinha. ~48~
  49. 49. —Não vá. Ele não vale à pena. —A voz profunda e familiar soava como se estivesse suplicando. Caminhava ao meu lado. Seu rosto tenso e o sorriso zombeteiro que me acostumei, não estavam presentes. —Não quero ficar. Estou zangada e só quero ir. —Por favor, Pagan, não entre em seu carro. Volta para dentro. Esqueça o rapaz estúpido e desfrute do resto de seu dia. Não permita que algo que esse idiota fez te deixe assim. Parei e o olhei. —Por que você se importa? É o novo monitor do corredor e não recebi a nota de aviso? Seu cenho se aprofundou; os olhos azuis se tornando um azul gelo como se um fogo estivesse por traz deles. —Estou te pedindo que volte para a escola. —Por quê? Passou sua mão por seu cabelo escuro e sedoso e grunhiu com frustração. —Tem que questionar tudo? Não pode escutar, por uma vez? Isso foi tudo. Tive mais que suficiente para um dia. Em primeiro lugar, Leif demonstra que é um imbecil do grau A e logo, a alma que não pode me deixar sozinha, decide zangar-se comigo. —Vou embora daqui. Não pode me deter. Não tenho que te escutar. Se não tem uma boa desculpa, então não há razão para que fique. — Girei sobre a ponta de meus pés e saí para meu carro. Os garotos eram chatos, vivos ou mortos, não parecia importar. Rapidamente entrei no carro e me concentrei em sair do estacionamento da escola. Não queria que ninguém me visse e me parasse antes que pudesse sair dali. Não podia acreditar que na realidade derramei uma lágrima por isso. O pranto não era meu tipo. Deve ter sido a humilhação. Não ~49~
  50. 50. estou acostumada a isso e obviamente, não sabia como lidar com essa situação. Ajustei o espelho retrovisor para ver se estava tão mal como temia no caso da minha mãe sair de sua toca de escrever, quando eu chegasse em casa. Se meu rímel escorreu, minha mãe perceberia. Não seria capaz de ocultar a frustração. Os sorrisos falsos não são um dos meus talentos. Suspirando, voltei a olhar a estrada. A tentativa de arrumar minha cara sem a ajuda de água e sabão era uma causa perdida. O sinal de pare onde eu parei um milhão de vezes me surpreendeu. Não estava prestando atenção, e esqueci de ir mais devagar. Era muito tarde para frear. Olhei por cima bem a tempo para ver um caminhão que vinha diretamente para mim e em uma fração de segundo, a razão me golpeou, não seria capaz de parar a tempo. Tudo ficou negro, as rodas chiando, a buzina e só silêncio. Uma sensação de dar voltas e uma aguda dor atravessou meu corpo. Tentei gritar para pedir ajuda, mas não saiu nada. Comecei a me sufocar. Algo pesado pressionava meu peito e não podia respirar. Ofeguei e estirei a mão na escuridão em busca de ajuda. Estava ficando sem ar e não conseguia tirar o peso do meu peito. Lutei para abrir meus olhos, mas a escuridão me manteve aí. O calor se estendeu em mim, enquanto agarrava algo na escuridão. Fiquei imóvel, sem saber o que tinha encontrado quando me percebi que podia respirar novamente. As luzes reacenderam repentinamente e o mundo ficou brilhantemente e cego. Não podia abrir os olhos pela dor. Alguém me levou a uma curta distância e logo senti o chão frio em minhas costas. As mãos, anormalmente cálidas, me embalando desapareceram. Tentei protestar. Não queria que meu salvador me deixasse, mas não pude encontrar minha voz. Tentei me levantar e uma dor intensa se apoderou de meu corpo. O mundo ficou em silêncio. Um som impressionantemente doce se reproduziu na escuridão. Voltei à cabeça para encontrar a fonte da música. Meu pescoço estava rígido e ~50~
  51. 51. minha cabeça começou a pulsar tão forte que entorpeceu o som da melodia que eu estava tentando encontrar. Deixei de me mover e mantive os olhos fechados, esperando que a dor parasse. —Ela esta acordada. — Disse uma voz na escuridão. Reconheci-a e em vez de temer, o som me tranquilizou. A música começou a tocar novamente e percebi que era um suave acorde de um violão. Um zumbido se uniu e fiquei quieta, escutando na escuridão, contente de que a música enchesse o vazio, me assegurando que não estava sozinha. Precisando vê-lo, abri os olhos e percebi que as luzes estavam apagadas. Permaneci imóvel enquanto meus olhos se acostumavam à escuridão do lugar. Não era minha casa. A máquina do meu lado e a agulha no braço eram as únicas pistas que necessitava. Estava em um quarto de hospital. O violão deixou de tocar. Com medo de virar a cabeça outra vez, cuidadosamente movi meu corpo em seu lugar. A alma estava sentada um canto no escuro, me olhando. —O que está fazendo? —Consegui perguntar em um sussurro rouco. Ele sorriu, levantou-se e se aproximou de mim. —Bom, pensei que seria evidente. —Levantou o violão em suas mãos. Esta alma não só podia falar, mas sim também tocava instrumentos musicais. Queria lhe perguntar mais, mas minha garganta doía muito. Sentou-se em uma cadeira que alguém colocou ao lado de minha cama. —Provavelmente não deva falar. Esteve em um acidente de trânsito e sofreu uma concussão cerebral grave, junto com uma costela quebrada. Além disso, tem uns cortes feios. Lembrei-me do sinal de pare e do caminhão vindo a mim com muita velocidade. Sabia que seria incapaz de frear a tempo. ~51~
  52. 52. —Usava o cinto de segurança, o caminhão bateu na parte traseira do seu carro e você capotou varias vezes. Minha mãe sabia? Ela estava desesperada? Quanto tempo tinha se passado? E por que era uma alma a única pessoa comigo? Lancei um olhar à máquina, onde meus cabos estavam conectados e se lia corretamente, então estava viva. O repentino medo ante a perspectiva de que poderia estar morta passou e devolvi o olhar a esses intensos olhos azuis escuros. —Mamãe? —Consegui perguntar através de minha garganta seca. A alma sorriu. —Acaba de sair para tomar um café, faz uns momentos. Espero que retorne muito em breve. Mamãe estava aqui e voltaria para me ver em poucos minutos. Sentia-me como uma menina, com medo da escuridão. As lágrimas apareceram em meus olhos ao olhar para a porta, esperando que se abrisse para revelá-la. Uma mulher com cabelo castanho curto e encaracolado entrou, sem usar a porta. Observei-a e me sorriu, mas olhou além da alma no quarto. Uma vez, quando tinha dez anos, estive internada no hospital por uma pneumonia e percebi que almas errantes perdidas encontravam-se em abundância dentro dos hospitais. Esta parou em frente a umas flores que não tinha notado antes, junto à janela. Parecia estar as cheirando e deu um suave puxão ao punhado de margaridas amarelas. Lancei uma olhada à alma estava sentada do meu lado. Parecia que me estudava com atenção. —Você a vê verdade? —Perguntou e assenti. Olhei à senhora enquanto ela olhava para mim uma vez mais, antes de retornar através da parede. — Sempre as viu? Assenti e sorri pela forma em que se referia às almas, como se ele não fosse uma delas. Levantei as sobrancelhas e o olhei com atenção. —Você é uma delas. — Disse em um sussurro. ~52~
  53. 53. —Sim, suponho que para você seja dessa maneira. Entretanto, há uma diferença entre as almas e eu. Franzi o cenho. —O que? —Sabia que ele podia falar comigo e as almas nunca falavam comigo, mas continuava sendo uma alma sem corpo. —Não posso te dizer o que sou. Já quebrei regras suficientes. — Estudou a máquina junto a mim em vez de enfrentar meu olhar. A porta do meu quarto se abriu e minha mãe entrou. Seus olhos se encontraram com meus e ela ficou sem fôlego antes de correr para mim. —Pagan, está acordada! Oh, carinho, sinto não estar aqui quando despertou. Você estava completamente sozinha e confusa em um escuro quarto de hospital. Lancei um olhar por traz dela e vi a alma, de pé ali, com um sorriso sexy que parecia sempre estar em seus lábios perfeitos. —Eu precisava de um pouco de café e logo corri para comprar esta revista. —Disse, segurando uma bolsa de plástico verde. — Vamos chamar a enfermeira. Apenas fique quietinha. Você esta machucada, mas ficará bem. — Seus olhos se encheram de lágrimas e ela colocou a mão cobrindo a boca. Sinto muito. — Disse, me olhando, com olhos ainda chorosos. — É que não consigo deixar de pensar em como seu carro teria te esmagado por completo se não tivesse sido jogada do banco do condutor. Sempre disse para usar o cinto de segurança e o fato de que não me escutou te salvou a vida. —Deixou escapar um soluço pequeno e sorriu como se desculpando—. Oh, bebê, estou tão contente por ter aberto os olhos. Sorri para ela tentando esconder minha confusão. —Está tudo bem. —Sussurrei. Agachou e me beijou na testa. ~53~
  54. 54. —Volto em seguida. Preciso achar uma enfermeira. Estavam esperando você acordar. Dirigiu-se para a porta e olhei para a alma parada no canto com o violão na mão. Parecia tão estranho vê-lo segurando um violão. As pessoas não viam um violão flutuando no ar? Mamãe nem percebeu, mas ela não olhou para nada além de mim. —O cinto de segurança. —Sussurrei através dos meus lábios secos. Eu estava usando cinto de segurança. Sempre usava. Ele inclusive disse que foi uma boa coisa. Por que minha mãe acreditava que eu não estava usando e que não usar salvou a minha vida? Deu um passo adiante, me olhando de perto. A expressão em seu rosto dizia que não sabia como me responder. Antes que pudesse responder, a porta se abriu novamente e ele voltou para o canto. Uma enfermeira entrou animada com minha mãe atrás. A resposta a minha pergunta teria que esperar. A alma foi embora antes da enfermeira terminar comigo e não tinha retornado. Na segunda vez que acordei, rapidamente registrei ao redor do quarto, com a esperança de que ele tivesse retornado, mas minha mãe já trabalhava em seu notebook em um canto. Olhou para mim e sorriu. —Bom dia! —O temor que tinha visto em seus olhos na noite anterior se foi... agora que eu tinha despertado e a enfermeira garantiu que me recuperaria bem, parecia menos tensa e mais como minha mãe novamente Sorri. —Bom dia. —Minha garganta estava um pouco melhor graças a todos os cubos de gelo que comi. Estiquei-me para pegar meu copo de água e mamãe se levantou rapidamente. —Não se mova. Sua costela quebrada vai fazer com que precise ficar quieta por um tempo. —Colocou o canudinho em meus lábios e tomei pequenos goles de água fria. Passou pela minha garganta maravilhosamente. — Miranda já ligou esta manhã e eu contei que despertou ontem de noite. ~54~
  55. 55. Está vindo para cá, com Wyatt. — Mamãe fez uma pausa e olhou para a porta—. E Leif Montgomery esteve na sala de espera toda a noite. Inclusive dormiu ali. Eu contei que você tinha acordado e disse para ele ir para casa, pois você não podia receber visitas, mas ficou. As enfermeiras se sentiram mal por ele e lhe deram um travesseiro e mantas. —Ficou quieta, como se não soubesse o porquê dele permanecer toda a noite em uma sala de espera. As lembranças de sua falta na nossa sessão de estudo, devido à Kendra, ressurgiram. Já não me sentia triste ou decepcionada. As lágrimas que eu tinha derramado por ele foram inúteis. Mamãe mordeu o lábio inferior. —Ele me disse que foi culpa dele você ter saído chateada da escola. Não te perguntei por que não estava na escola ou o que aconteceu, porque não queria te incomodar. —Parou de falar e me observou, esperando que eu dissesse algo. O que poderia dizer? Realmente não queria ver Leif. Queria me matar por ter quase atuado como uma garota tola apaixonada. —Ele esteve aqui à noite toda? —Perguntei, querendo ter certeza de que entendi corretamente. Ela assentiu com a cabeça. —Esteve aqui desde que soube do seu acidente. Veio com Miranda e Wyatt, mas não quis ir embora com eles. —Bom, um, se quiser entrar, então está bem. Mamãe parecia aliviada. Imaginei que estava preocupada com o que dizer ao pobre rapaz, que esperou toda a noite em uma incômoda sala de espera, que eu não queria vê-lo. Correu para a porta e ouvi a Miranda sussurrar algo enquanto passavam. Não havia dúvidas de que falavam sobre se eu queria ou não que Leif me visse. Miranda entrou e colocou as mãos nos quadris e me deu um grande sorriso alegre. ~55~
  56. 56. —Olhe você completamente acordada esta até bonita. —Disse se aproximando de mim e sentando-se na cadeira junto à cama. Agarrou minha mão e vi o brilho em seus olhos enquanto lutava com as lágrimas. Apertei sua mão e sua valentia se rompeu. Deixou escapar um soluço, enquanto as lágrimas começaram a correr por seu rosto. Olhei para Wyatt, que estava atrás dela me observando. Encolheu os ombros e me deu o que podia dizer que era um sorriso forçado. Miranda se engasgou com um soluço. —Sinto muito. Falei que não iria chorar. Realmente tinha trabalhado para estar brilhante e alegre, mas continuo me lembrando do seu carro e escutando as palavras Foi levada com urgência ao hospital, inconsciente uma e outra vez na minha cabeça. — Limpou o rosto molhado e sorriu através de suas lágrimas. —Estou tão contente que esteja bem. Ontem foi o pior dia da minha vida. —Levou nossas mãos unidas para sua boca e as beijou. —Eu sei. — Murmurei simplesmente. Porque sabia. Se tivesse sido ela, nesta cama, em vez de mim, eu estaria aterrorizada. —Irônico não? O dia que decide romper as regras, faltar à escola e não usar o cinto de segurança, o qual é estranho já que é uma nazista do cinto de segurança, tudo explode na sua cara. —Nos deixa com vontade de seguir sempre pelo caminho correto não? —Perguntou Wyatt com um sorriso em seu rosto. Sorri porque rir não me faria mal e Miranda rodou os olhos, mas um sorriso apareceu no cantinho da sua boca. —Sim, suponho que sim. —Queria esclarecer o fato de que estava usando meu cinto de segurança, mas não podia explicar algo que não entendia, assim mantive minha boca fechada. Bateram na porta e Miranda me olhou, mordendo o lábio inferior com nervosismo. Desceu a voz até um sussurro. ~56~
  57. 57. — Ele não foi embora desde que chegou aqui ontem conosco perdeu até a aula de futebol. Vi como Leif caminhava dentro do quarto. Seus olhos se encontraram com meus e parou antes de entrar muito no quarto. Não tinha certeza do que falar para ele ou o que, possivelmente, poderia ele me dizer. Era um rapaz que ajudei e que dormiu na sala de espera toda a noite, porque agiu de forma errada comigo me deixando esperar por ele para nossa sessão de estudos. Era evidente que estava nervoso e sabia que a presença de Wyatt e de Miranda não ajudava precisamente. Eu não tinha intenção de dizer a todos que meu acidente foi sua culpa. Não acreditava nisso. Sabia que eu tinha causado o acidente. Deixá-lo fora do gancho seria bastante fácil. Entretanto, com meus dois melhores amigos no quarto seria estranho. Não queria que me deixassem, porque com eles ali me sentia mais segura. Olhei para Leif e pude ver em seus olhos que queria falar comigo sem público, mas eu não iria pedir que saíssem. O pensamento dele dormindo na sala de espera, toda a noite, porque se sentia culpado, parecia injusto. Precisava aliviar sua consciência para que pudesse ir para casa. Olhei para a Miranda e o Wyatt. —Poderiam nos dar um minuto? Miranda fulminou Leif com o olhar e assentiu com a cabeça. Vi como ficou de pé. Olhar para Leif não era algo novo para Miranda, mas fulminá-lo com o olhar, sim. Depois de ter retificado a situação com Leif teria que esclarecer algumas coisas com meus amigos também. Uma vez que a porta fechou atrás deles, olhei para ele com atenção. —Ontem, eu... deus. — Passou a mão pelo cabelo loiro e desordenado e fechou os olhos. — Está aqui por mim. Sei que foi porque ficou chateada. Pude ver em seus olhos, mas não sabia como fazer para que ~57~
  58. 58. falasse comigo. —Parou e me olhou. — Não posso expressar quanto eu sinto muito. Neguei com a cabeça. —Isto não foi sua culpa. Tomei uma decisão estúpida. —Não, foi minha culpa. Pude ver as lágrimas em seus olhos, Pagan, e isso me matou, mas não pude encontrar as palavras adequadas. Quis me explicar, mas não fiz um bom trabalho. Não podia deixar que assumisse a culpa por minha estupidez. —Deixe de se culpar. Devo admitir que agi estupidamente porque não apareceu ou ligou. Deixei que o fato de que estivesse com Kendra me incomodasse e isso foi uma tolice. Não sei por que deixei que me incomodasse assim. Chorar por um cara não é algo que faço. O fato de lutar por conter as lágrimas me confundiu e fui embora. Estendeu a mão e tocou brandamente uma das duas dúzias de rosas de cor rosa que se encontrava em uma mesa junto à janela. —Foi porque te machuquei. Isso faz com que seja minha culpa. — Respondeu com simplicidade. Não queria que se machucasse por isso. —Leif, sou sua tutora. Nem sequer somos amigos. Pode perder uma sessão e se esquecer de me ligar e eu não deveria deixar que isso me incomodasse. Tenho visto mais em nossa relação do que deveria. Você nunca insinuou que somos mais que companheiros de estudo. Não falamos na escola, não vemos um a outro, exceto em minha casa, quando estamos trabalhando. Isto foi minha culpa. Deixe de se culpar e volta para casa. — Falei isso com o máximo de suavidade em minha voz, para que não soasse grosseiro. Franziu o cenho e se aproximou do lado de minha cama. —Você acha que só te vejo como minha tutora? —Perguntou. Assenti com a cabeça, sem saber o significado. Ele me deu um sorriso triste. —Isso é minha culpa também. Nunca tive dificuldade para deixar uma garota que me interessa saber disso... Até agora. —Não tendo certeza do que ele queria dizer, ~58~
  59. 59. permaneci em silêncio. Ele se sentou na cadeira que Miranda deixou vaga ao lado da cama. —Sabia que você não gostava de mim quando não quis ser minha tutora. Não fazia diferença esclarecer nada nesse dia, quando disse que não queria porque não gostava do meu jeito. Sempre soube que não gostava, mas queria que fosse minha tutora. Queria que fosse a única, a saber, o meu segredo. Nunca esperei que a garota que me olhava com desprezo fosse ser tão divertida. Chegou como uma surpresa descobrir que a garota que eu observava desde nosso primeiro ano na escola secundária resultou ser tão bela por dentro como o era no exterior. Surpreendeu-me e não tomou muito tempo para que eu entendesse. —Um triste sorriso apareceu em seus lábios. — Entretanto, na escola você ainda parecia tão intocável como sempre, assim mantive distância. Tentei falar contigo e inclusive tive a idéia de te convidar para sair, mas sua falta de interesse me assustou. Não queria fazer com que nossas noites juntos fossem incômodas, assim não pedi nada mais. Durante todo o dia eu só esperava pelas nossas sessões pelo nosso momento e não queria estragar isso. Desceu o olhar para suas mãos, que estavam fechadas em um punho em seu colo. —Então, Kendra ligou e começou a chorar, dizendo que precisava falar com alguém e eu era a única pessoa de confiança. Eu disse que tinha um compromisso, mas ela gritou mais forte e me implorou. Concordei em passar por sua casa. Ela está lutando com alguns problemas em sua vida pessoal que eu já sabia e ela precisava que alguém a escutasse. Quando percebi que não seria capaz de deixá-la, quis te ligar, mas não podia fazer diante dela e te explicar. Portanto, eu não o fiz. Resolvi que ficaria sem nota. Não tinha idéia de que você se importaria. — Olhou-me com uma expressão de dor em seu rosto. — Enganei-me e nunca me senti tão zangado comigo mesmo. —Ficou ~59~
  60. 60. de pé, com as mãos nos bolsos de seus jeans, com um olhar de derrota em seu rosto. Sorri. —Por favor, não se zangue consigo mesmo. Não te culpo por nada. — Queria dizer algo mais, mas não pude. Olhou-me um momento antes de assentir. —Existe a possibilidade de que não tenha arruinado completamente tudo entre nós? —Perguntou. —O que acha que pode ter arruinado? Ainda sou sua tutora, se isso for ao que se refere. Riu em voz baixa e brandamente segurou minha mão. —Estou muito feliz por continuar sendo minha tutora, mas não é a isso que me refiro. Tinha medo antes, de arruinar as coisas, mas não acredito que possa arruinar nada mais do que já fiz. —Voltou a sentar-se na cadeira a meu lado e me olhou com esses olhos azuis de bebê, emoldurados em cílios tão grossos, que ficava até difícil não suspirar. —Não quero que seja somente minha tutora. Quero que seja a garota que procuro nos corredores todas as manhãs e a que eu guardo uma cadeira ao meu lado na cafeteria. Quero que seja a que me espera quando saio da quadra de esportes em meus jogos. Quero que seja a que me faz levantar o telefone para te ligar, só para me fazer sorrir. —Seus olhos me olhavam. Leif Montgomery parecia realmente nervoso. Ele esperava que dissesse algo. Pude ver a pergunta em seus olhos. Leif queria levar isto a um nível que eu tinha pensado que queria antes, assim por que era tão difícil aceitar agora? O medo piscou em seus olhos e me arrumei para assentir com a cabeça. Já tinha aceitado que as coisas mudariam entre nós, mas no fundo algo não estava bem. ~60~
  61. 61. Capítulo Cinco Fiquei no hospital durante uma semana inteira. Cada noite dormia com uma música suave de violão. Quando despertava no meio da noite, nunca era um quarto de hospital vazio, pois a escura e misteriosa alma sempre estava lá. Ele sentava nas sombras e tocava uma canção de ninar que decidi que me pertencia. Cada dia, Leif vinha imediatamente depois de sua prática de futebol com a comida que eu tinha pedido escondida dentro de sua jaqueta de couro. Trabalhávamos em sua tarefa, e logo víamos televisão e comíamos o que levava. Estar com Leif me fazia sorrir. Amava cada momento que passávamos juntos. Entretanto, na noite quando a alma se sentava no meu quarto e tocava para mim, a música parecia encher os lugares solitários. Tinha uma necessidade pela alma que não entendia. Meu desejo por ele me assustava e me fascinava. Em minha última noite no hospital sua voz se uniu ao som do violão. Ele deu letra a minha canção de ninar: A vida que percorro unindo as mãos Faz-me tomar coisas que não entendo. Caminho este escuro mundo desconhecido Que têm por verdadeiro, esquecendo o que conheci uma vez, Até você. A vida que percorro eternamente era tudo o que sabia Nada mais me retinha aqui nesta terra, Até você. Sinto a dor de cada coração que tomo Sinto o desejo de amar tudo o que cheguei a odiar. A escuridão me abraça, mas a luz ainda desenha minha alma vazia. O vazio com o qual estava acostumado a usar a dor, para encher o buraco Não me controla já não me chama. ~61~
  62. 62. Graças a você. À medida que minhas pálpebras caíam, e o sonho tomava conta de mim, meu coração sofria pela dor em suas palavras. Eram palavras que sabia que significavam mais para ele, do que eu compreendia. A canção com a qual ele preencheu minhas noites era muito mais profunda que tudo o que conheci. Miranda correu para mim no momento em que Leif abriu a porta da frente da escola e a manteve enquanto eu caminhava ao interior. A emoção em seu rosto fez com que seus olhos marrons brilhassem. Sorri, esperando que me explicasse à causa de seu alegre comportamento em uma manhã de segunda-feira. Minha volta à escola não causaria esta resposta. Parou e olhou para Leif. Ele esclareceu garganta. —Um, verei você em uns minutos. — Desculpando-se com um sorriso ele se dirigiu para meu armário para levar meus livros. —Está bem, ele se foi. Agora, me diga o que tem de tão bom esta manhã. Entrelaçou seu braço com o meu e se aproximou de meu ouvido. —Dank Walker está aqui. Como, em nossa escola. Como, inscrito em nossa escola. Pode acreditar? Quero dizer, sei que ele foi para uma escola secundária em Mobile, Alabama, até o ano passado quando sua banda conseguiu um hit e começou a tocar em todos os Estados Unidos em lugar de apenas no sudoeste. Agh! Pode acreditar que está aqui! Em nossa escola? Suponho que tinha que voltar para a escola secundária, nosso pequeno e pitoresco povo costeiro é preferível a algum lugar do Alabama. Mas mesmo assim, não posso acreditar nisso. Não pude evitar sorrir diante da emoção de Miranda, inclusive embora não tinha idéia de quem era Dank Walker. Nunca ouvi falar dele ou de sua banda antes. Segui a vertiginosa expressão de Miranda, quando meus olhos se encontraram com a alma. Ontem à noite tinha combatido o sono ~62~
  63. 63. para ver se aparecia em meu quarto e cantava para eu dormir. Mas ele não apareceu. Vê-lo agora me fez querer dar um suspiro de alívio. A idéia de que podia não voltar a vê-lo outra vez, tinha me assustado. Sorri para ele sabendo que deveria atuar como se ele não estivesse ali, mas não podia. Em algum lugar do caminho cheguei a confiar em sua presença. Seus olhos azuis escuro estavam satisfeitos e menos encantados do que recordava. Queria caminhar para ele e dizer algo, mas não podia nesta sala cheia de gente. Ele assentiu com a cabeça como que respondendo a uma pergunta, mas seus olhos não deixaram os meus. Um sorriso tenso se formou em seu rosto, substituindo o sorriso de satisfação que eu tinha recebido. Então, como se tivesse em câmera lenta, dirigiu sua atenção à garota loira, a seu lado, sustentando uma revista e uma caneta para que ele pegasse. Observei, parecia que estava perdida em um estranho sonho, quando ele sorriu e assentiu com a cabeça para ouvir as palavras da garota. Ele assinou a revista que ela empurrou em suas mãos e a devolveu. Ouvi Miranda dizendo algo a meu lado, mas soava como se estivesse a quilômetros de distância. Algo não estava bem. Dei um passo para ele, incapaz de olhar para outro lado. Sorriu para mim novamente, com seu sexy sorriso torto que produzia uma perfeita covinha. De repente, seu sorriso parecia de desculpa enquanto, uma vez mais, voltava-se para mim e tomava algo das mãos de outra garota e assinava. Fiquei imóvel, tentando processar o que meus olhos viam. —Está bem, Pagan, tem que parar com isso. Leif está vindo e se nota que está olhando para Dank Walker como se quisesse devorá-lo, vai ser um problema. Tirei os olhos da alma e olhei para minha amiga. —O que? — Consegui dizer através das perguntas pululando em minha cabeça. Miranda sorriu e negou com a cabeça. ~63~
  64. 64. —Por Deus, garota, está pior que eu. Pelo menos eu não fiquei em choque quando o vi no escritório mais cedo. É obvio, ele não parecia realmente preocupado por sua reação. O que é uma boa coisa, considerando que pode parecer um pouco louca. Neguei com a cabeça sem compreender. —O que? —Perguntei de novo. —Descobri a grande noticia. —Disse Leif, atrás de mim, e eu sabia que tinha que dar a volta para olhá-lo, mas, justo agora, não podia. Todo mundo podia ver a alma. Nada fazia sentido. Fechei os olhos e respirei fundo e depois os abri para notar que Miranda me olhava, com uma expressão divertida em seu rosto. —Você o vê? —Perguntei em um sussurro. Seu olhar piscou com cautela, onde sabia que Leif estava de pé, e logo se lançou para onde se encontrava a alma. Uma vez que seus olhos voltaram para meus, assentiu lentamente com a cabeça. —Um, sim, mas de que "ele" está falando? —Perguntou em um sussurro. Olhei rapidamente para o lugar onde a alma ainda estava falando com os estudantes e assinando coisas. Miranda se aproximou do meu ouvido. — Esse é Dank Walker, todo mundo o vê. Tomou alguns medicamentos para a dor esta manhã? Porque está agindo de maneira estranha. Dank Walker. A alma, minha alma era Dank Walker o roqueiro? Uma mão pousou em meu ombro e me voltei pouco a pouco para enfrentar Leif. Seu preocupado cenho franzido era idêntico ao de Miranda. Neguei com a cabeça para me limpar e forcei um sorriso. —Mamãe me fez tomar alguns dos meus remédios esta manhã e acredito que estão jogando com minha cabeça. —Menti, me aferrando à desculpa que Miranda me deu. Leif sorriu e deslizou seu braço protetor ao redor de meus ombros. ~64~
  65. 65. —Ah, bom, eu cuidarei de você. Vamos, vamos para sua primeira aula. Já tenho seus livros. —Caminhei ao lado de Leif, aliviada, mas ainda decepcionada. De não estar caminhando ao lado da alma. Fiquei esperando para ver se despertava dessa sensação de sonho estranho e escutava a alma tocando brandamente no meu quarto. Cheguei a Literatura Inglesa antes de perceber que Leif estava me guiando à mesma. Ele deu a volta para olhar para mim de frente. —Se precisar de mim, me mande uma mensagem de texto e estarei aqui em um segundo, certo? —Assenti com a cabeça e me deu um beijo rápido antes de ir me deixando na porta da minha sala. Entrei, lutando contra a necessidade de voltar atrás e ver a multidão de pessoas ao redor da alma, a quem chamavam Dank Walker. Sentei-me na primeira carteira e comecei a abrir meu livro, quando um quente comichão percorreu meu corpo. Assustada, olhei para cima. Dank se dirigia para mim. Atrevi a me olhar aos outros da aula. Todos os olhos estavam nele. As garotas riam e sussurravam. Isto tinha que ser algum tipo de sonho de loucos. Ele se sentou atrás de mim e lutei contra o impulso de tremer pela cálida sensação que só dele estar perto estava me causando. Isto não tinha ocorrido antes. —Não acredito que nos conhecemos. Sou Dank Walker. —Seu familiar e suave sotaque não soava como se estivesse sonhando. Girei-me para olhar para ele. Se tivesse tomado calmantes esta manhã estaria convencida de que estava delirando. Não havia desculpa para esta alucinação. —Não entendo. —Falei simplesmente. Um sorriso de desculpa saiu de seus carnudos lábios. Eram seus lábios mais cheios agora que eram de carne e osso? —Eu sei, e sinto muito. Seria muito eu pedir que me detalhasse isso? Se isto era real, então seria muito bom se pudesse me explicar como, de repente, ele podia ser visto ~65~

×