Jornal A Família Católica, 22 edição. março 2015

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Jornal A Família Católica, 22 edição. março 2015

  1. 1. Transcrevemos aqui a entrevista dada pelo então Padre Faure ao blog Non Possumus, logo após sair o anúncio da Sagração. *** Um pouco de histó- ria para começar, Padre: como conhe- ceu à Tradição e a Monsenhor Lefeb- vre? Em 1968, estando na Argentina, visitei ao Arcebispo de Paraná, que me disse: “quer defender a Tradição? No Concílio, a defendi junto com um Bispo corajoso, meu ami- go, Mons. Marcel Lefebvre”. Foi a primeira vez que ouvi falar de Mons. Lefebvre. Fui procurar Mons. Lefebvre na Suíça em 1972, por ocasião da Semana Santa, e então o conheci. Onde o senhor nasceu? Por que estava vivendo na América do Sul? Eu nasci na Argélia [1943], e minha família, de- pois da Independência, adquiriu uma terra na Argentina, perto de Paraná. Minha família foi expulsa da Argélia porque o governo francês entregou o poder aos combatentes muçulmanos, que realizaram massacres espantosos durante o processo de Independência. Meus avós, pais e tios eram agricultores lá, desde 1830. Continuando com a história, como desenvolveu seu apostolado na FSSPX? Sagração Episcopal Monsenhor Jean Michael Faure SANTOS E FESTAS DO MÊS: 04– São Casemiro; 06– Santas Perpétua e Felici- dade; 07– Santo Tomás de Aquino; 09– Santa Francisca Romana; 10– Os quarenta mártires de Sebaste; 12– São Gregório Magno; 17– São Patrício; 18– São Cirilo de Jerusalém; 19– São José; 21– São Bento; 25– Festa da Anunciação; 27– Nossa Senhora das Do- res; N E S T A E D I Ç Ã O : Entrevista Padre Faure 1 a 3 Mandato Apostólico 3 Meditação da Paixão de Nosso Senhor 4,5 São José 5,6 Março/ 2015Edição 22 A Família CatólicaC A P E L A N O S S A S E N H O R A D A S A L E G R I A S E D I Ç Ã O E S P E C I A L S A G R A Ç Ã O E P I S C O P A L O mês de março deste ano foi sem dúvidas memo- rável. Como bem disse Dom Bruno, superior da União Sacerdotal Marcel Lefbvre, “nós jamais duvi- damos da generosidade de nosso bom São José, po- rém neste 19 de março de 2015, estamos especial- mente agradecidos: o pre- sente de São José é....Um bispo!” Neste feliz dia, no Mostei- ro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, Monsenhor Ri- chard Williamson sagrou bispo ao Padre Jean Micha- el Faure, dando com isso continuidade ao que Monsenhor Lefebvre chamou de “operação sobrevivência”. Nosso diretor espiritual, Dom Tomás de Aquino, superior do monastério onde ocorreu a Sagração, diz que “no fundo, o que está em jogo é o que Dom Lefebvre dizia a um jornalista: «Eu não quero ouvir no dia de meu julgamento Nosso Senhor dizer-me: Também tu contribuíste para a destruição de minha Igreja!» Nós tampouco. É por isso que damos continui- dade ao combate, e é por isso que temos neces- sidade de bispos. Esta é a razão da consagra- ção de 19 de março. Não há que buscá-la em outra parte.” Que alegria podermos ser as testemunhas oculares da promessa de Nosso Senhor: “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”! Viva ao novo bispo Monsenhor Faure! Família Cátólica “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteri- dade dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calca- nhar” Gênesis 3, 15
  2. 2. Fui ordenado por Mons. Lefebvre em 1977, em Ecône, e quinze dias depois o acompanhei em uma viagem pelo Sul dos Estados Unidos, México (onde o Governo nos impediu de entrar), Colôm- bia, Chile e Argentina. Monsenhor me encarregou de começar o apostolado nessa região. No primeiro ano, me ajudaram dois sacerdotes argentinos e, no ano seguinte, outro espanhol (da FSSPX). Criou-se, em seguida, o Distrito da América do Sul, sob minha responsabilidade, e comecei a pregar retiros até o México. Houve, no primeiro ano, por volta de 12 vocações, que se instala- ram no Priorado de Buenos Aires, que estava alojado em uma casa muito grande. Em seguida, por volta de 1980, foi construído o Seminário de La Reja (Buenos Aires), do qual Mons. Lefebvre nomeou-me diretor. Lá fiquei até 1985, quando fui nomeado Superior do Distrito do México. Então, foram construídas as igre- jas da Capital e de Guadalajara. Atendia, com os Padres Calde- rón, Anglés e Tam, diferentes localidades desse País. Depois, estive alguns anos na França. Posteriormente, fui nomeado no Seminário da Argentina como professor de História, e lá perma- neci até a expulsão de Mons. Williamson da Argentina (2009). Mons. Lefebvre confiava no senhor? Monsenhor me deu livre acesso à sua correspondência e me encarregou de certos expedientes. Tinha certa confiança em mim: em 1977, ele me perguntou, em Albano, o que pensava sobre as sagrações. Em outra oportunidade, também em 1977, me confidenciou: “eles estão esperando por mim” (o diretor de Ecône e os professores). Eles sugeriam aceitar a Missa Nova e o Concílio para conservar a Missa Tridentina. Diziam-lhe: “Agora, estamos em confronto com Roma. Se quisermos conservar a Missa (Tridentina), devemos aceitar o Concílio”. Pretendiam que Monsenhor se aposentasse em uma bela casa na Alemanha, mas ele lhes respondeu que eles eram livres para sair se assim o desejassem. E os expulsou. É verdade que Mons. Lefebvre pediu ao senhor que aceitasse ser sagrado [Bispo]? Em 1986, estando de visita em Ecône, me chamou de lado, de- pois de uma refeição, e me perguntou se eu aceitaria ser sagra- do Bispo. Conhecendo o que se seguiu, talvez eu devesse ter aceitado. Então, o senhor não aceitou? Eu lhe disse que me parecia que Mons. de Galarreta seria mais indicado. Pode resumir o que aconteceu em 2012? Naquele ano, estivemos a muito poucos passos do acordo, que fracassou no último momento, provavelmente, pelo caso William- son. O acordo fracassou por esse assunto e pela carta dos três Bispos. Ambas as coisas fizeram fracassar o acordo. Diz-se que a chave da estratégia ad intra de Monsenhor Fellay está em ter o apoio do Capítulo Geral. O senhor pode nos dizer algo sobre isso? O Capítulo Geral foi muito bem preparado por Mons. Fellay, e eles (os acordistas) alcançaram os seus objeti- vos. Ali entendi o que aconteceu com Mon- senhor Lefebvre e seus amigos no Concílio Vaticano II. Ele (Mons. Fellay) havia toma- do a decisão de uma política de aproxima- ção a Roma e ajeitou as coisas para obter o apoio geral do capítulo, expulsando a Mons. Williamson, que era o único capaz de impedir essa política. Quais, em sua opinião, devem ser as con- dições necessárias para fazer um acordo com a Roma? Mons. Lefebvre nos disse que, enquanto não houver nenhuma mudança radical em Roma, um acordo é impossível, porque essas pessoas não são leais, e não se pode pretender transformar aos superiores. É o gato que come o rato, e não o rato que come o gato. Um acordo equivaleria a entregar- se nas mãos dos modernistas; por conseguinte, deve ser rejeita- do absolutamente. É impossível. Temos que esperar que Deus intervenha. O senhor pode nos dizer o que pensa das visitas de avaliação de diversos prelados modernistas aos seminários da Fraternidade? É verdade que algumas vezes Mons. Lefebvre recebeu alguns prelados. Qual é a diferença agora? Tratava-se de visitas excepcionais [11/11/1987], durante as quais o Card. Gagnon nunca teve a oportunidade de defender o Concílio, enquanto que, agora, trata-se dos primeiros passos para a reintegração (da FSSPX) à igreja conciliar. O que acha de um eventual reconhecimento unilateral da FSSPX por parte de Roma? É uma armadilha. Entre o Capítulo de 2006 e a crise iniciada em 2012, observa-se uma mudança de atitude por parte das autoridades da FSSPX em relação a Roma. A que se deve essa a mudança? Deve-se à decisão dos superiores de reintegrar-se à igreja concili- ar. Desde 1994 ou 1995, foram realizados os contatos do GREC, que foram passos significativos no sentido da reconciliação, co- mo o havia previsto o embaixador Pérol (representante da França na Itália), que é o inventor do levantamento das excomunhões (2009) e do Motu Proprio (2007). Isso devia ter como contrapar- tida o reconhecimento do Concílio. O que faria Mons. Lefebvre na situação atual? Seguiria na linha que nos indicou depois das Sagrações [de 1988], descartando absolutamente a possibilidade de um acor- do. Se, no futuro, o senhor fosse convidado para ir a Roma para falar com o Papa, iria? O que diria? Em primeiro lugar, consultaria a todos os nossos amigos na Re- sistência. Eu iria com Mons. Williamson e outros excelentes sa- cerdotes que levam adiante o combate da Resistência com muito valor. E manteria informados a todos os nossos amigos, com toda transparência. Mons. Fellay disse que a FSSPX está de acordo com 95% do Con- cílio Vaticano II. O que o senhor acha disso? Mons. Lefebvre respondeu que todo o Concílio está invadido de um espírito subjetivista que não é católico. Francisco, sendo eficaz demolidor da Igreja e destruidor da Fé, é verdadeiro Papa? Em minha opinião, não se pode dizer que Francisco seja pior do que Paulo VI, que foi quem pôs a Igreja em outro caminho; e,
  3. 3. então, devemos conservar a atitude que foi a de Mons. Lefebvre, atitude prudencial que exclui o sedevacantismo. Mons. Lefebvre sempre se recusou a ordenar um seminarista que fosse sedeva- cantista. E essa foi a política da FSSPX até sua morte. Portanto, não nos venham com essa que Monsenhor disse isso ou aquilo. Qual é o estado de seu processo de expulsão da FSSPX? As últimas notícias foram que encontrei, no e-mail, por acaso, uma segunda admoestação. A partir de amanhã, então, a FSSPX terá novamente quatro Bispos. Deverão me expulsar rapidamen- te! Deo Gratias! Esta decisão de sagrá-lo Bispo deve ter sido muito sopesada e meditada durante muito tempo. Como Mons. Lefebvre, também o senhor, Mons. Williamson e os Sacerdotes da Resistência não quiseram ser colaboradores da destruição da Igreja. É para con- servar a Fé intacta que foram perseguidos, condenados e calunia- dos muitas vezes. Sua sagração episcopal poderá lhe acarretar uma pretensa excomunhão. Quais foram as razões principais para levar a cabo esta sagração? A razão principal é que não podemos deixar a Resistência sem Bispos. Como o disse Mons. Lefebvre, são indispensáveis Bispos católicos para a conservação da verdadeira doutrina da Fé e dos Sacramentos. Mons. Lefebvre pensou no senhor para ser sagrado Bispo, e ago- ra Mons. Williamson pôde cumprir esse desejo. Qual será a sua principal preocupação? Esforçar-me para manter a Obra de Mons. Lefebvre no caminho que ele havia traçado, não desviando nem para a direita nem para a esquerda. Onde será seu lugar de residência? Na França, onde pretendemos abrir um seminário perto dos Domi- nicanos de Avrillé. O senhor gostaria de dizer algumas palavras aos Sacerdotes e fiéis que ainda estão sob a estrutura da Fraternidade, mas que estão inquietos por causa de seu desvio liberal nos últimos anos? Que voltem a ler e meditar os textos de seu Fundador. O senhor pode nos explicar a essência de seu brasão? No centro, está o Cordeiro do Apocalipse, o Alfa e Ômega, o Cor- deiro de Deus que tira o pecado do mundo, anunciado por Isaías. Os corações recordam a Vendeia mártir da Revolução (Francesa); e a Flor-de-Lis é emblema da França católica. O lema, “ipsa cónte- ret” (Ela te esmagará) é tomado da Vulgata, Gênesis 3,15, onde Deus promete a vitória da Virgem Maria sobre o dragão. Há algo que gostaria de acrescentar? Conservemos a Fé, a Esperança e a Caridade. Não há que duvi- dar, e é preciso pedir isso a Deus e a Nossa Senhora, que nos mantenham nessas virtudes. Fonte: http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2015/03/ entrevista-exclusiva-al-rp-faure.html. Traduzido por Carla d’Amore MANDATO APOSTÓLICO Lido no início da Sagração de Monsenhor Faure Nós temos o Mandato para consagrar a partir da Igreja Roma- na, que, em sua fidelidade à Sagrada Tradição recebida desde os Apóstolos, nos ordena a transmitir fielmente essa mesma Sagra- da Tradição – a saber, o Depósito da Fé – para todos os homens em razão de seu dever de salvar suas almas. Pois, de fato, por um lado as autoridades da Igreja de Roma desde o Concílio Vaticano II até os dias de hoje são guiadas por um espírito de modernismo que mina profundamente a Sagrada Tradição, a ponto de distorcer seus próprios conceitos: Haverá um tempo em que eles não su- portarão a Sã Doutrina... afasta- rão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas, como disse São Paulo a Timóteo em sua segunda Epístola (4, 3-4). Que utili- dade teria um pedido a tais autoridades por um Mandato para consagrar um bispo que se oporá profundamente ao seu erro mais grave? E por outro lado, quanto à obtenção de tal bispo, os poucos católicos que entendem sua importância poderiam esperar, mes- mo depois do Vaticano II, que ele pudesse vir da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por Dom Marcel Lefebvre, tal co- mo os quatro outros ordenados por ele em 1988 com um Manda- to de emergência anterior. Infelizmente, quando as autoridades dessa Fraternidade mostraram, por sua contínua mudança de direção, às autoridades romanas que eles estavam tomando a mesmo rumo modernista, essa esperança se mostrou ser em vão. De onde então poderiam esses fiéis católicos obter os bispos essenciais para a sobrevivência de sua verdadeira fé? Em um mundo que faz guerra política dia após dia, sobretudo contra Deus e Sua Igreja, o perigo para a Fé parece tal que a sobrevivência desta não pode mais ser deixada na dependência de um único bispo totalmente antimodernista. A própria Igreja pede a ele que nomeie um associado, que será o Padre Jean-Michel Faure. Por esta transmissão de poder da Ordem episcopal, nenhum poder episcopal de jurisdição é assumido ou concedido, e tão logo Deus intervém para salvar Sua Igreja, que não tem mais nenhuma esperança de resgate humano, os efeitos dessa orde- nação e desse Mandato de emergência serão imediatamente colocados de volta nas mãos de um Papa que venha a ser com- pletamente católico.
  4. 4. Do suor de sangue e agonia de Jesus no horto. Contemplai como o nosso amorosíssimo Salvador, chegando ao jardim de Getsêmani, quis dar começo à sua dolorosa paixão, permitindo que os sentimentos de temor, de tédio e de tristeza viessem afligi-lo com todas as suas consequências. Começou a ter pavor e angustiar-se e entristecer-se (Mt 26,37; Mc 14,33). Começou primeiramente a sentir um grande temor da morte e das penas que teria em breve que sofrer: Começou a atemorizar-se. Mas como é isso possível? Não foi então ele que se ofereceu es- pontaneamente a sofrer tais tormentos? Foi sacrificado porque ele mesmo o quis. Não foi ele que tanto desejara o momento de sua paixão, tendo dito pouco antes: Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco? E agora como é que está tão cheio de temor de sua morte, que chega a rogar a seu Pai que dela o livre: Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice? (Mt 26,39) S. Beda, o Venerável responde: Pede se afaste o cálice para mostrar que é verdadeiramente homem (In Mc 14). Nos- so amantíssimo Senhor muito desejava morrer por nós, para com sua morte pa- tentear-nos o amor que nos tinha; mas, para que os homens não pensassem que ele tinha tomado um corpo fantástico (como o afirmaram alguns hereges) ou então por virtude de sua divindade ele tivesse morrido sem experimentar nenhu- ma dor, fez essa súplica a seu Pai, não para ser atendido, mas para nos dar a entender que morria como homem e mor- ria atormentado com um grande temor da morte e das dores que a deviam acompa- nhar. O’ Jesus amabilíssimo, quisestes tomar sobre vós a nossa timidez para nos conce- der a vossa coragem no sofrer os traba- lhos desta vida. Sede bendito para sempre por tanta piedade e amor. Que todos os corações vos amem quanto vós o desejais e mereceis. Começou a angustiar-se. Começou também a sentir um grande tédio das pe- nas que lhe estavam aparelhadas. Quando se está desgostoso, até as delícias enfastiam. Oh! Quantas angús- tias inseparáveis de tal tédio não deveria causar a Jesus o horren- do aparato que então lhe passou pela mente, de todos os tomen- tos exteriores, que deveriam martirizar horrendamente seu corpo e sua alma bendita! Apresentaram-se distintamente diante de seus olhos todas as dores que deveria sofrer, todos os escárnios que deveria receber dos judeus e dos romanos, todas as injusti- ças que lhe fariam os juízes de sua causa, e de modo particular se lhe apresentou à mente a morte dolorosíssima que teria de suportar, abandonado de todos, dos homens e de Deus, num mar de dores e de desprezos. E foi justamente isso que lhe ocasionou um desgosto tão amargo que o obrigou a pedir conforto a seu Pai eterno. Ah! Meu Jesus, eu me compadeço de vós, vos agradeço e vos amo. Apareceu-lhe então um anjo do céu que o confortou (Lc 22,43). Veio o conforto, mas este mais aumenta do que lhe alivia a dor, diz S. Beda. Sim, porque o anjo o confortou para padecer mais por amor dos homens e para glória de seu Pai. Oh! quantas angústias vos causou este vosso primeiro combate, ó meu amado Senhor! No decorrer de vossa paixão, os flagelos, os espinhos, os cravos vieram uns após outros atormentar-vos; no horto, porém, os sofri- mentos de toda a vossa paixão vos assaltam todos juntos e vos afligem ao mesmo tempo. E vós aceitastes tudo por meu amor e por meu bem. Ah! Meu Deus, quanto me penaliza não vos haver amado pelo passado e ter anteposto os meus gostos criminosos à vossa santa vontade. Detesto-os agora mais que todos os males e me arrependo de todo o coração. Jesus, perdoai-me! Começou a entristecer-se e a magoar-se. Com o temor e com o tédio, começou Jesus a sentir ao mesmo tempo uma grande me- lancolia e aflição de espírito. Mas, Senhor, não fostes vós que infundistes tão grande alegria aos vossos mártires no meio dos tormentos, que chegavam até a desprezar os sofrimentos e a morte? De S. Vicente diz S. Agostinho que falava com tanta ale- gria ao ser martirizado, que parecia ser um o que padecia e outro o que falava. Narra-se de S. Lourenço que, ardendo nas grelhas, era tão grande a consolação que sentia em sua alma, que insultava o tirano, dizendo: “Vira-me e come”. Como é que vós, ó meu Jesus, que destes tanta alegria aos vossos servos na morte, escolhestes para vós uma tristeza tão grande ao mor- rer? O’ alegria do paraíso, que alegrais o céu a e terra com o vosso júbilo, por que vos vejo agora tão aflito e tão triste, e vos ouço dizer que a tristeza que vos aflige é suficiente para dar-vos a morte? “Minha alma está triste até a morte” (Mc 14,34). Por que, meu Redentor? Ah! Já vos compreendo: não foram tanto os sofrimentos de vossa paixão, quan- to os pecados dos homens, entre estes os meus, que vos causaram então aquele grande temor da mor- te. Tanto o Verbo eterno amava seu Pai quanto odiava o pecado, do qual bem conhecia a malícia. Por isso, para tirar o pecado do mundo e para não ver mais seu amado Pai ofendido, ele veio à terra e fez-se homem e resolveu sofrer uma pai- xão e uma morte tão dolorosa. Ven- do, porém, que, apesar de todas as suas penas, ainda se comete- riam tantos pecados no mundo, esta dor, diz S. Tomás, superou toda a dor que qualquer penitente jamais sentiu por suas próprias culpas e excedeu igualmente qualquer pena que possa afligir um coração humano. E a razão é que todos os sofrimentos dos ho- mens são sempre misturados de alguma consolação; mas a dor de Jesus foi pura, sem lenitivo. Suportou a dor pura sem mistura de nenhuma consolação (Contens. 1.10,d.4,c.1). Ah, se eu vos amasse, se eu vos amasse, ó meu Jesus, vendo o quanto pade- cestes por mim, doces se me tornariam todas as dores, todos os opróbrios e os maus tratos deste mundo. Concedei-me, peço-vos, o vosso amor, para que sofra com gosto ou ao menos com paciên- cia o pouco que me é dado sofrer. Não permitais que eu morra tão ingrato a tantas finezas de vosso amor. Nas tribulações que me sobrevierem, proponho dizer sempre: Meu Jesus, abraço estes sofrimentos por vosso amor e os quero suportar para vos compra- zer. Na história lê-se que muitos penitentes, iluminados pela luz divina sobre a malícia de seus pecados, chegaram a morrer de pura dor. Que tormento, portanto, deveria suportar o coração de Jesus à vista de todos os pecados do mundo, todas as blasfê- mias, sacrilégios, desonestidades e de todos os outros crimes Santo Afonso Maria de Ligório A PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
  5. 5. cometidos pelos homens depois de sua morte, dos quais cada um vinha com sua própria malícia, à semelhança de uma fera cruel, lacerar-lhe o coração. Vendo isto, dizia então nosso aflito Senhor, agonizando no horto: E’ esta, então, ó homens, a recom- pensa que vós me dais pelo intenso amor meu? Oh! Se eu visse que vós, gratos ao meu afeto, deixaríeis de pecar e começaríeis a amar-me, com que alegria iria agora morrer por vós. Mas ver, depois de tantos sofrimentos meus, ainda tantos pecados; de- pois de tão grande amor meu, ainda tantas ingratidões, é isto justamente o que mais me aflige, me entristece até a morte e me faz suar sangue vivo: “E seu suor tornou-se em gotas de sangue que corria até à terra” (Lc22,44). No dizer do Evangelista, este suor sanguíneo foi tão copioso que primeiro molhou todas as vestes do Redentor e depois correu em abundância sobre a terra. Ah! Meu terno Jesus, eu não vejo neste horto nem flagelos nem espinhos, nem cravos que vos firam, e como é que vos vejo todo banhado em suor de sangue da cabeça aos pés? Foram os meus pecados a prensa cruel que, à força de aflições e tristezas, fez jorrar tanto sangue de vosso coração. Também eu fui então um dos vossos mais cruéis carnífices, ajudando com os meus peca- dos a atormentar-vos mais cruelmente, certo é que se eu houves- se pecado menos, menos teríeis padecido, ó meu Jesus. Quanto maior foi o meu prazer em ofender-vos, tanto maior foi a aflição que vos causei ao vosso coração magoado. E como este pensa- mento não me faz agora morrer de dor, ao compreender que paguei o amor, que testemunhastes na vossa paixão, aumentan- do vossa tristeza e vossas penas? Fui eu quem atormentou esse tão amável e amoroso coração que tanto me amou! Senhor, co- mo agora não possuo outro meio para vos consolar que arrepen- dendo-me de vos haver ofendido, aflijo-me e arrependo-me de todo o meu coração, ó meu Jesus. Dai-me uma dor tão grande que me faça chorar continuamente até o último suspiro de minha vida os desgostos que vos dei, meu Deus, meu amor, meu tudo. Prostrou-se com o rosto por terra (Mt 26,39). Vendo-se Jesus sobrecarregado com a incumbência de satisfazer pelos pecados do mundo inteiro, prostrou-se com a face em terra para suplicar pelo homem, como se se envergonhasse de levantar os olhos para o céu ao ver-se sob o peso de tantas iniquidades. Ah! Meu Redentor, eu vos vejo todo aflito e pálido por vossos sofrimentos e, numa agonia morta, rezais: Posto em agonia rezava com maior instância (LC 22,43). Dizei-me por quem orais? Não foi tanto por vós que então suplicastes, mas sim por mim, oferecendo ao Eter- no Pai vossas poderosas súplicas unidas às vossas penas, para obter-me o perdão de minhas culpas. “O qual, nos dias de sua mortalidade, oferecendo com grande clamor e com lágrimas e súplicas àquele que o podia salvar da morte, foi atendido pelo seu submisso respeito” (Heb 5,7). Ah! meu Redentor, como pu- destes amar tanto a quem tanto vos ofendeu? Como pudestes aceitar tantos sofrimentos por mim, conhecendo já então a ingra- tidão com que vos haveria de tratar? O’ meu Senhor afligido, fazei que eu participe da dor que então sentistes pelos meus pecados. Eu os detesto no presente e uno este meu arrependimento ao pesar que sentiste no horto. Ah! Meu Salvador, não olheis para meus pecados, pois não me bas- taria o inferno; olhai para os sofrimentos que suportastes por mim. O’ amor de meu Jesus, sois o meu amor e minha esperan- ça. Senhor, eu vos amo com toda a minha alma e quero amar-vos sempre. Pelos merecimentos daquela angústia e tristeza que sofrestes no horto, dai-me fervor e coragem nas empresas para vossa glória. Pelos merecimentos de vossa agonia, dai-me força para resistir a todas as tentações da carne e do inferno. Dai-me a graça de me recomendar sempre a vós e de repetir sempre com Jesus Cristo: não o que eu quero, mas sim o que vós quereis. Não se faça a minha, mas sempre a vossa divina vontade. Amém. DEUS CONSTITUI-O CHEFE DA SUA CASA Abbé Xavier Beauvais Apoiando-nos sobre o Evangelho, sobre a Teologia, sobre a Tradição e o Magistério, é possível fazer realçar os diversos as- pectos da pessoa de São José, a sua vida profunda, bem como o seu papel na História da Salvação. Os poucos dados que nós possuímos permitem-nos afirmar que ele possuía uma alma ex- cepcional, e que a sublime perfeição que a sua função requer coloca-o na vanguarda das fileiras dos padroeiros do sobrenatu- ral. São Lucas, o evangelista da infância, ensina-nos que São José é de sangue real, e que sendo originário de Belém, se instalou em Nazaré da Galiléia. Ele não vivia ainda com Maria, quando ela concebeu por virtude do Espírito Santo. Quando do nascimento de Jesus, São José será aquele que conduzirá a Bem-Aventurada sempre Virgem Maria a Belém, encontrando-se permanentemen- te a seu lado. Na Apresentação no Templo, São José é expressa- mente nomeado, mas eclipsa-se perante Jesus e Maria. Em se- guida contemplamos o grande episódio do Menino Jesus perdido e reencontrado no Templo. O evangelista coloca nos lábios da Santíssima Virgem palavras de grande alcance para a Teologia de São José: « Vê, Teu pai e eu Te procurávamos ». Apesar da resposta de Jesus sobre o seu Pai celeste, estas palavras da Virgem Maria surgem revestidas duma primordial importância. Em sequência, é o regresso a Nazaré onde Jesus se mostra perfeitamente dócil: «Era-lhes submisso», um plural muito signifi- cativo. São Mateus é ele próprio também breve, mesmo quando afirma mais que S. Lucas; como São Lucas, ele sublinha a concepção e o nascimento virginal. Mesmo se São José não é o pai real (segundo a carne) de Jesus, ele surge, nitidamente, como o chefe da Sagrada Família. É um homem justo, com uma admirável caridade para com a sua espo- sa, que ele pensa repudiar secretamente, perante o mistério inexplicável. Na adoração dos Magos é ele que o anjo previne, e é ele também que toma a iniciativa de partir para o Egito: esta mensagem é, além disso, a terceira do Novo Testamento e atesta o magnífico papel que São José possui na ordem da salvação. Pelo regresso do Egito é o mesmo enredo: a obediência pronta e sobrenatural permanece humanamente razoável, e calcula os perigos duma instalação na Judéia. Tal constitui, na sua sobrie- dade, o quadro evangélico de São José: é o de uma personagem muito real; São José era um artesão muito conhecido na cidade. Não se conservou nenhuma palavra deste grande silencioso que foi São José. Ernest Hello possui belas páginas sobre este homem silencioso, São José:« o homem do silêncio, aquele para quem a palavra dificilmente se aproxima. O Evangelho, tão só- brio de palavras, torna-se ainda mais sóbrio quando se trata de São José. Dir-se-ia que este homem envolvido em silêncio, inspi-
  6. 6. São José que tanto tem a dizer, São José não fala. Ele guarda no fundo do seu coração as grandezas que contempla. Os homens são arrastados pelo feitiço, pelo encantamento, de ninharias, mas S. José permanece em paz, mestre da sua alma, e em ple- na posse do seu silêncio nos abalos da viagem para o Egito, nesta fuga de Jesus Cristo - já perseguido. » Como escrevia Monsenhor Gay: « São José é como que um reflexo do Pai celes- te, e uma forma Divina. A paternidade de S.José com relação a Jesus constitui como que um reflexo da Paternidade eterna. » Se nós lançarmos um olhar mais teológico sobre a pessoa de São José, um concílio que teve lugar em Bordéus - um concílio provincial - definiu-o assim: “Esposo da Bem-Aventurada sempre Virgem Maria, Guarda, Pai putativo do Verbo Incarnado, revesti- do dum grande poder, São José é elevado até à ordem da União Hipostática.» Nós observamos aí, nesse quadro conceptual, toda uma síntese fundamental da Teologia de São José. É o esposo virginal de Nossa Senhora Se a Teologia Católica coloca a Santíssima Virgem muito acima de todos os outros seres humanos, e portanto de São José, este pelos seus privilégios absolutamente pessoais é o homem que mais se aproxima da santidade da Mãe de Deus, pois que ele é o seu Esposo. O Matrimônio de Nossa Senhora e São José é um verdadeiro casamento, o qual possui, além disso, características absoluta- mente únicas: ele é simultaneamente virginal e fecundo. O tor- mento de São José atesta o mistério da Maternidade Virginal. Estas duas virgindades que se entregam uma à outra, que se consagram uma à outra, constituem o matrimónio mais sublime e mais perfeito, o único possível para a Imaculada Mãe de Deus. E quando se sabe quais os privilégios que ornamentam a Virgem Maria, interrogamo-nos como o Pai celeste pôde encontrar al- guém tão puro, tão fiel, tão humilde e generoso como São José, para cumprir, lado a lado, o papel de companheiro e esposo. «O Matrimónio constitui uma realidade santa, e é necessário tratá-lo santamente» afirma o Concílio de Trento. Deus, sem dúvida alguma, quis demonstrar em Jesus e Maria um exemplo de absoluta perfeição: o amor conjugal que unia estes dois per- feitos esposos, amor ardente que se alimentava do lume celes- te, amor tranquilo e profundo na sua castidade, amor respeito- so, generoso, amor que se renovava incessantemente no amor de Jesus, o qual havia constituído a causa da sua união, e que permanecia como vínculo e como alegria. Pai virginal de Jesus Verdadeiro Esposo da Mãe de Deus, São José é portanto o pai espiritual do seu Filho Jesus. A sua castidade imaculada valeu- lhe essa sublime paternidade. Quanto mais um coração é puro, mais ele é capaz dum amor paternal e Divino. E como este con- ceito é supremamente válido para um sacerdote. Mediante o seu olhar, que a castidade havia preservado, José viu a Deus, realizando literalmente o anúncio que Nosso Senhor proclamará em breve: «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus». São José exerceu a autoridade paternal para com Jesus. Ele foi o Seu educador. Ele foi o pai putativo de quem o Filho de Deus esperava o seu pão quotidiano. Na intimidade, Jesus dizia-lhe: «Pai». E quando o Filho de Deus se denominava “Filho de David”, tal se devia ao Seu pai adoptivo; visto que Nosso Senhor possui ra o silêncio. O silêncio constitui o seu louvor, o seu gênio, a sua atmosfera. Lá, onde ele está, o silêncio reina, este silêncio onde todas as palavras estão contidas, este silêncio vivificante, refres- cante, pacificador, dessedentador... nem uma palavra sobre ele nas Escrituras». Ernest Hello no seu livro “Fisionomia dos Santos” acredita ver em « Abraão, pai de Isaac, o representante do pai putativo de Jesus, e em José, filho de Jacob, a sua imagem mais expressiva. O primeiro José guardou no Egito o pão sobrenatural. Ambos foram os homens do mistério. Ambos foram instruídos em sonhos. Ambos adivinharam as coisas escondidas. Inclinados sobre o abismo, os seus olhos divisavam através das trevas. Via- jantes noturnos, eles descobriam os seus caminhos através dos mistérios da sombra. O primeiro José viu a Lua e o Sol prostrados diante de si, o segundo José chefiou Jesus e Maria. Jesus e Maria o obedeciam. Em que abismo interior devia residir o homem que se apercebia de que Jesus e Maria lhe obedeciam, o homem a quem tais mistérios eram familiares, e a quem o silêncio revelava a profundidade do segredo do qual ele fora constituído sentinela! Quando ele talhava os pedaços de madeira, quando ele via o Menino operar sob suas ordens, os seus sentimentos penetrados por esta situação inaudita entregavam-se ao silêncio que os apro- fundava ainda mais; e do fundo da profundidade onde ele vivia com o seu trabalho, ele possuía a força de não dizer aos homens: O Filho de Deus está aqui! O seu silêncio assemelha-se a uma homenagem prestada ao inexplicável. Era a abdicação da palavra diante do insondável e diante do imenso. » Ernest Hello prossegue: é tão belo que eu não resista à tentação de vos fazer partilhar esta tão linda homenagem a São José. « O Evangelho que pronuncia tão poucas palavras, possui os séculos como comentadores. Os séculos se encarregaram de irradiar a luz sobre o segredo. São José foi ignorado durante muito tempo, mas desde Santa Teresa, particularmente encarregada de o trair, ele é muito menos desconhecido [...] O século XIX é fundamental- mente, em todos os sentidos do termo, o século da Palavra. Boa ou má, a palavra preenche a nossa atmosfera. Uma das realida- des que nos caracteriza é o ruído. Nada produz tanta algazarra como o homem moderno: ele ama o ruído, quer produzi-lo à volta dos outros, e quer, sobretudo, que os outros o produzam à sua volta. O ruído constitui a sua paixão, a sua vida, a sua atmosfera. A publicidade substitui por ele mil outras paixões, as quais mor- rem asfixiadas sob esta paixão dominante. O século XIX fala, cho- ra, grita, vangloria-se e desespera-se. Faz ostentação de tudo. Ele, século XIX, que detesta a confissão secreta, dispara a cada instante em confissões públicas, vocifera, exagera, ruge. Pois bem, será este século tumultuoso que contemplará a elevação e o desenvolvimento, nos céus da Igreja, da glória de São José. São José escolhido oficialmente como padroeiro da Igreja Universal durante o ruído da tempestade. Ele é mais conhecido, mais obje- to de orações, mais honrado, do que outrora. Pelo meio dos tro- vões e dos relâmpagos, a revelação do seu silêncio se produz insensivelmente. Até onde é que São José terá penetrado na inti- midade de Deus? Nós não o sabemos; todavia nós somos pene- trados, no âmago de todo este ruído que nos envolve, por uma imensa paz, no seio da qual flui a vida. O contraste parece incum- bido de nos fazer transparecer a grandeza escondida das coisas. Muitos afirmam que nada possuem para dizer, dissimulando sob o fracasso buliçoso da sua linguagem e a turbulência da sua vida, o nada dos seus pensamentos, bem como dos seus sentimentos.
  7. 7. um só Pai segundo o Seu Ser e a Sua ori- gem. Mas o Pai Eterno delegou uma parte das suas prerrogativas a um homem, em atenção ao Seu Filho feito Homem. Pai virginal, São José constitui a Imagem do Pai Celeste cuja geração é totalmente espiritual. Por essa razão, o papa João XXIII retomando a exposição teológica do seu predecessor Bento XIV, podia declarar:« A São José pertence uma parte singular e única na economia do mistério fundamen- tal da religião, que é a União Hipostática do Verbo de Deus com a natureza humana; a funções sem igual, tiveram assim que cor- responder virtudes incomparáveis. O título de esposo intemerato da Virgem Imacula- da, bem como a qualidade de pai de Jesus Cristo, constituem prerrogativas e pressu- põem graças que posicionam São José fora de todas as categorias. » A Tradição católica falou de São José. É entretanto verdade que por muito tempo São José esteve escondido dos homens, sem culto e sem honras: Sem dúvida tal se explica pelo quase total silêncio do Evange- lho sobre ele. Escondido durante a sua vida terrestre, ele disponibilizou todo o espaço a Jesus e Maria. Existe um texto apócrifo, o protoevangelho de São Tiago, que faz dizer a São José, no momento do seu matrimónio com a Bem-Aventurada sempre Virgem Maria, as palavras seguintes: «Eu sou ve- lho». Talvez por isto é que a imagem ofere- cida por São José é a de um velho dado por companheiro à sua jovem esposa. Parece que foi somente a partir do século XVI que se lhe conferiu a imagem dum jo- vem e forte esposo providenciado à jovem e virginal Maria Santíssima. Mas na Tradi- ção Patrística, encontramos já São Jerôni- mo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São João Crisóstomo, que defendem contra os heréticos a virgindade perpétua de São José, explicando já nesta época que São José é Pai visto ser pai nutritício do Filho de Deus e Seu educador. Na Idade Média, a Arte religiosa, refletin- do as lendas populares, faculta-nos a ima- gem dum São José calvo e barbudo, o qual conduz a Virgem Santíssima e o Menino ao Egito, segurando o burro com as rédeas. A arte da literatura dos séculos XIV e XV vão conferir uma posição sempre cada vez maior a um São José bem vivo e bem con- creto. E eis que subitamente, a devoção de al- gumas almas de escol começa a fazer atra- ir a atenção sobre São José, preparando a sua entrada na história da piedade e da liturgia. São Bernardino de Sena constitui- se como seu poeta, e como seu cantor; e pela primeira vez ele exclama: «Depois de Maria, é a José que a Santa Igreja mais deve.» Quanto a Gerson, chanceler da Uni- versidade de Paris, ele pode ser considera- do como o primeiro mestre da devoção a São José. Em 23 de Novembro de 1413, ele escreveu ao duque Jean de Berry, solici- tando-lhe que diligenciasse em solenizar a festa do santo. Gerson, que Bento XIV apeli- dava « a mais ilustre luz do seu tempo », exaltou a admirável Trindade na Terra: JE- SUS, MARIA, E JOSÉ. Em 1416, no Concílio de Constança, Gerson pronunciará um discurso que ficará célebre. Numa impressionante alocução, ele declarou aos seus ilustres auditores que queria obter, pelos méritos e interces- são de São José, que a Santa Igreja, triste- mente dividida entre três papas, fosse en- tregue a um único esposo - o papa certo e verdadeiro. Este meio parecia-lhe o único capaz de restaurar a unidade e a paz - o que veio a acontecer. Devemos notar uma curiosa coincidência, ou melhor, um gesto da Providência. Este concílio, que restaurou a unidade pontifical, (sem qualquer dúvida graças à intercessão de São José) para conseguir os seus fins, depôs Bento XIII e João XXIII; curiosamente o verdadeiro Bento XIII foi aquele que no século XVIII incluiu São José nas Ladainhas, e o verdadeiro João XXIII aquele que introduziu São José no Canon da Santa Missa. Um outro nome domina todos os outros igualmente, o de Santa Teresa de Ávila, curada miraculosamente aos 26 anos, pela intercessão de S. José. Ela converteu-se numa ardente propagadora do seu culto e da sua devoção, dedicando-lhe o seu pri- meiro convento em Ávila. À santa Teresa é necessário acrescentar o nome de S. Fran- cisco de Sales, o qual, como teólogo e dou- tor consumado que era, justificou a sua grande devoção pessoal a São José. Conta- se que no seu Breviário se encontrava uma só imagem - a de São José. Analogamente a Santa Madre Igreja, pela voz dos papas, falou de São José no decur- so dos seis últimos séculos. Sisto IV, por exemplo, respondendo sessenta anos de- pois ao apelo de Gerson, instituiu em 1480 uma solenidade especial em honra do san- to Patriarca, fixando-a em 19 de Março. Clemente XI compôs-lhe um ofício em 1714. Bento XIV colocou São José à cabeça dos mártires e dos Apóstolos nas Ladai- nhas dos santos em 1743. Pio IX respon- dendo a uma solicitação de numerosos bispos no Concílio Vaticano I proclamou-o solenemente Padroeiro da Igreja Universal em 1870. Leão XIII consagrou a encíclica “Quanquam plenies” ao seu patrocínio em 1889. São Pio X, nosso glorioso Padroeiro, aprovou as Ladainhas de São José. Pio XII fixou no primeiro dia de Maio a festa de São José operário, outorgando ao mundo dos trabalhadores o exemplo de São José que trabalhou toda a vida com suas pró- prias mãos, santificando o seu trabalho pela paciência e submissão a Deus. João XXIII, por meio dum “Motu próprio”, tomou a decisão de inserir São José no Canon da Santa Missa, colocando-o ao lado de Maria no momento mais sagrado da Sagrada Liturgia. O lugar atribuído a São José não poderá jamais debilitar a adoração a Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como a devoção de hiper- dulia a Maria, tal como a devoção a Maria não pode ser nociva à adoração devida a Nosso Senhor. O amor absoluto que perten- ce ao único Mediador entre Deus e os ho- mens, bem como a admiração única que dedicamos à Bem-Aventurada sempre Vir- gem Maria completam-se e fortificam-se reciprocamente, sem jamais se confundi- rem. Numa palavra: a Sagrada Família deve ser una e inseparável no coração do cris- tão, tal como foi em Nazaré, tal como é no Céu. E é isso, aliás, o que Nossa Senhora de Fátima confirma na derradeira aparição de Outubro, no momento em que se produziu o prodígio solar, os três pastorinhos con- templaram a Sagrada Família disposta à direita do Sol, e mais brilhante ainda, Nos- sa Senhora com seu manto azul, e à sua esquerda São José levando o Menino Je- sus, abençoando o Mundo. Nós afirmamos, pois, com a Sagrada Liturgia,« Deus consti- tuiu-o chefe da sua casa, bem como de todos os seus bens ». Fonte: Revista Semper — FSSPX Portugal Edição: Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória, ES. http:/www.nossasenhoradasalegrias.com.br Entre em contato conosco pelo e-mail: jornalafamiliacatolica@gmail.com

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