A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR: MULTIRREFERENCIALIDADE,                          IMPLICAÇÃO E ESCUTA CLÍNICA              ...
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A atuação do psicólogo escolar multirreferencialidade, implicação e escuta clínica

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A atuação do psicólogo escolar multirreferencialidade, implicação e escuta clínica

  1. 1. A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR: MULTIRREFERENCIALIDADE, IMPLICAÇÃO E ESCUTA CLÍNICA * João Batista MartinsRESUMO. Este artigo discute a noção de clínica no contexto da psicologia escolar. Na medida em que nós sugerimos comometodologia de pesquisa e de intervenção para o psicólogo escolar a observação participante, entendemos que tal discussãotambém se refere a questões epistemológicas - uma vez que a produção de conhecimento se dá na ordem da implicação, poisé construção intersubjetiva. Além disso, considerando a complexidade do cotidiano escolar, apresentamos a abordagemmultirreferencial e a escuta clínica como perspectivas para a compreensão dos fenômenos que ali se desenrolam.Palavras-chave: psicologia escolar, multirreferencialidade, escuta clínica. THE PERFORMANCE OF A SCHOOL PSYCHOLOGIST: MULTI-REFERENTIALITY, IMPLICATIONS AND CLINIC LISTENINGABSTRACT. This article discusses the notion of clinic in the school psychology context. As we suggest the participantobservation as research methodology and of intervention for the school psychologist, we understand that such discussion alsorefers to epistemological questions - once the knowledge production occurs in the order of implication, because it is anintersubjective production. Besides, considering the complexity of the school quotidian, we present the multi-referentialapproach and clinic listening as perspectives for the understanding of the phenomena that are developed in the school context.Key words: school psychology, multi-referential approach, clinic listening. Em minha prática docente é comum discutir com um número maior de psicólogos passou a fazer partemeus alunos sobre o campo da Psicologia Escolar, e a das escolas públicas, questões que dizem respeito aopergunta mais freqüente que me é colocada diz seu papel tornaram-se importantes, e, segundo ele,respeito à postura e ao papel do psicólogo no contexto determinar qual o papel do psicólogo escolar ajudariaescolar. De certa forma, o que os alunos me solicitam a esclarecer vários problemas que atualmente nãoexpressa a necessidade de estabelecermos uma podem ser focalizados.diferença entre os campos de atuação profissional do Para Reger, o psicólogo atuaria como clínico nopsicólogo, quais sejam: psicologia clínica, psicologia contexto escolar quando baseia sua intervenção numorganizacional e a psicologia escolar. modelo médico. “Seu interesse gira em torno da saúde Esta discussão é muito antiga no contexto da e da doença mental e do diagnóstico e cura depsicologia. No que diz respeito à identidade do problemas de comportamento.” (Reger, 1989, p. 13).psicólogo escolar, geralmente ela passa pela superação Para ele há um modelo mais apropriado para odo modelo médico (o que nos remeteria para os profissional que deseja atuar no contexto escolar, qualfundamentos da psicologia clínica), que estabelece seja, assumir um papel de educador. Nesse sentido,seus parâmetros em torno da dicotomia saúde x seu objetivo seria o de “ajudar a aumentar a qualidadedoença, normal x anormal, enfatizando-se o papel de e a eficiência do processo educacional através daeducador que este profissional pode assumir quando aplicação dos conhecimentos psicológicos (...) Ele estáatua no contexto da escola. nas escolas para ajudar a planejar programas É esta posição que encontramos num texto de educacionais para as crianças” (p.13).Roger Reger intitulado Psicólogo escolar: educador Reger (1989) também afirma que, além de umou clínico? De acordo com esse autor, à medida que profissional,* Departamento de Psicologia Social e Institucional – Universidade Estadual de Londrina. Doutor em Educação pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCarPsicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  2. 2. 40 Martins (...) o psicólogo escolar é um cientista, um um desmembramento da área clínica, gerando uma engenheiro educacional ou projetista de visão de psicologia escolar clínica. planos educacionais que usa das mais Segundo a autora, os psicólogos escolares têm modernas metodologias e técnicas. À medida feito um trabalho clínico dentro da escola, usando que busca utilizar o sistema educacional tão efetivamente quanto possível para cada testes variados, como de QI, de personalidade, e criança ou grupos de crianças, tem muito em elaborando diagnósticos e orientações detalhadas, ou comum com o administrador educacional e então, oferecendo psicoterapia para os alunos com o professor. Assim como os outros considerados como portadores de distúrbios educadores, ele daria mais ênfase ao emocionais, de conduta, e até mesmo de crescimento e desenvolvimento da criança do psicomotricidade. Tal atitude pode acarretar em uma que à ‘patologia’. Mas diferencia-se do série de problemas, como o risco de discriminar e administrador e do professor conforme visa à estigmatizar os alunos que se beneficiam desta forma aplicação mais consistente do método de serviço. O sigilo pode não ser mantido pelos científico na resolução e problemas educacionais e psicológicos. (p. 14) próprios alunos, uma vez que a escola é uma organização onde a privacidade é restrita etc. Ainda segundo o autor, o psicólogo escolar seria Sob a perspectiva da “psicologia escolar clínica”,um elo entre o mundo acadêmico e o sistema escolar. o trabalho do psicólogo tem como papel evitarO psicólogo escolar serve, no modelo clínico, como desajustes ou desadaptações do aluno. Estes, por suaelo entre várias agências de saúde mental e o sistema vez, são equacionados em termos de saúde x doença, oescolar. Enquanto agente de ligação entre o mundo que, na escola, é retraduzido como problemas deacadêmico e o sistema escolar, o psicólogo escolar ajustamento e adaptação. A escola, como instituição, éestá interessado em metodologias científicas e tomada como adequada, cumpridora dos objetivosresultados de pesquisas, geralmente obtidos no ideais que foram propostos.ambiente acadêmico. De certa forma, sob a perspectiva acima, os Enquanto profissional vinculado ao campo problemas que surgem no contexto escolar sãoeducacional, traduziria estas metodologias e resultados centrados nos alunos, e investe-se o psicólogo de umem ação nas escolas. Fazendo isso, poderia atender a caráter de onipotência, e seu papel acaba sendo tratardois objetivos: ajudar a superar o descompasso entre estes ‘alunos-problema’, devolvendo-os à sala de aulaeducação e aplicação de resultados de pesquisa e ‘bem-adaptados’. Isso leva, freqüentemente, a umaencorajar atividades de pesquisa nas escolas, servindo atitude de ambivalência e resistência por parte da instituição escolar, que muitas vezes dificulta ou atécomo elemento de ligação para os acadêmicos que mesmo impede a continuidade dos serviços dequeiram fazer contato com indivíduos que falem a sua psicologia.linguagem nas escolas. Como educador comprometido A alternativa mais adequada para a intervenção docom a identidade acadêmica, pode também tentar psicólogo no contexto escolar sugerida por Andalóensinar a outros profissionais no sistema escolar, (1984) é aquela em que, sem excluir as contribuiçõesfornecendo condições de aprendizagem para os que da psicologia clínica e acadêmica, o profissionalpodem tomar as melhores decisões referentes a assuma o papel de agente de mudanças dentro daprogramas educacionais. “O psicólogo escolar instituição escolar. Ele atuaria como um elementoexperiente poderia exercer com facilidade os papéis de centralizador de reflexões e conscientizador dosconsultor, orientador, professor e pesquisador.” papéis representados pelos vários grupos que(Reger, 1989, p.15) compõem tal instituição. Ou seja, em vez de abordar Uma outra caracterização do trabalho do os problemas escolares centrando seu olhar sobre ospsicólogo escolar é proposta por Carmem S. de A. alunos, o psicólogo atuaria sobre as relações que seAndaló, que, em 1984, publicou um texto intitulado O estabelecem neste contexto, levando em consideraçãopapel do psicólogo escolar, onde discute a inserção o meio social em que estas relações estão inseridas e odesse profissional no âmbito da escola. Para ela, a tipo de clientela que atende, assim como os grupospsicologia escolar é considerada uma área secundária que a compõem. Ele atuaria, portanto, sobre ada psicologia, que não requer muito preparo nem instituição escolar1.experiência profissional. Dentro da escola, o psicólogo Nossa experiência no atendimento às demandasé pouco valorizado ou mesmo considerado das escolas no contexto da cidade de Londrina, nodispensável, pois inexistem serviços dessa natureza.Tal perspectiva talvez seja proveniente do fato de quea área escolar foi caracterizada historicamente como 1 Mais detalhes sobre essa perspectiva, ver Andaló, 1993.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  3. 3. Atuação do psicólogo escolar 41entanto, tem demonstrado que as coisas não são tão diversas ordens (conscientes e/ou inconscientes), queclaras assim. Apesar das mudanças ocorridas no o implicam,o capturam e estão presentes em seucontexto das teorias psicológicas e educacionais, as campo de trabalho, vínculos estes que devem serexpectativas sociais acerca do trabalho do psicólogo reconhecidos. Nesse sentido, o trabalho do psicólogona escola ainda esbarram no modelo médico. Uma se inscreve na ordem da intersubjetividade, do vivido,pesquisa realizada em 1994, junto às escolas que da experiência, o que nos leva a reconsiderar a questãorecebem atendimento da Área de Psicologia Escolar da clínica no âmbito da psicologia escolar enquantodo Departamento de Psicologia Social e uma escuta clínica, caracterizando o trabalho doInstitucional/UEL, revelou que as solicitações de psicólogo como uma espécie de acompanhamento dostrabalho feitas por estas instituições estavam fenômenos que emergem no cotidiano escolar. Taisdiretamente relacionadas ao "modelo médico" referido dimensões serão ampliadas e discutidas nas sessõesanteriormente - esperava-se que as crianças com que se seguem.dificuldades fossem tratadas fora do contexto escolare, após “a cura”, fossem novamente inseridas nas salasde aula (Costa, Kumata & Siqueira, 1994). MULTIRREFERENCIALIDADE E IMPLICAÇÃO Machado e cols. (1993), numa investigação sobrea relação do psicólogo escolar com outros Em 1996 (Martins, 1996) indicava que oprofissionais em escolas (públicas e particulares) da psicólogo, ao tomar o cotidiano escolar como o espaçocidade de Ribeirão Preto, nos mostram que a função para sua intervenção, utilizando-se da metodologia damais exercida por estes profissionais no contexto observação participante, teria acesso às váriasescolar é a de mantenedor da disciplina escolar - dimensões da instituição – a sua históriaentendida como uma “ação de suspensão de alunos documentada e a sua história não-documentada,quando necessário, conversa com pais tendo em vista conforme nos diz Ezpeleta e Rockwell (1986) – o ditoa adaptação escolar dos alunos às normas da e o não-dito na perspectiva da análise institucionalinstituição.” (p. 51). (Lourau, 1995. Martins, 2000). O mesmo autor apontava ainda que, ao intervir no Tais fatos revelam a dificuldade da inserção do cotidiano, o psicólogo propiciaria situações onde aspsicólogo no contexto escolar sob novas perspectivas - práticas sociais teriam condições de serperspectivas que superem o modelo médico. No ressignificadas, assim como a percepção acerca da suaentanto, entendemos que a tentativa de Reger (1989) atuação. A estruturação do trabalho deveria, portanto,em atribuir a priori uma série de papéis ao psicólogo envolver o coletivo escolar, assegurando eescolar não avança na superação destas dificuldades, proporcionando a participação democrática de todosuma vez que o lugar ocupado por esse profissional na os segmentos que vivenciam a escola.instituição escolar se estrutura em função do contexto Tal fato, por sua vez, nos leva a compreender ae do cotidiano institucional. escola como um campo propício para a emergência Já a perspectiva desenhada por Andaló (1984, das contradições socioculturais e econômicas que1993) – uma inserção profissional que tenha como marcam nossa sociedade, e nossa intervenção podeperspectiva a instituição – se revela mais promissora. propiciar a expressão destas contradições através daEm que pese às expectativas sociais atribuídas ao organização dos diversos segmentos (estudantes, pais,psicólogo escolar, este deve compreender os fatores professores, etc.) que participam de seu cotidiano. Talsociais e institucionais que possibilitaram a possibilidade de trabalho permite uma reflexão acercaemergência das representações a respeito de seu dos objetivos da escola, seus procedimentos, seustrabalho – seja no contexto escolar, seja no contexto métodos de avaliação, e um redirecionamento de suassocial em que está inserido – pois será no âmbito das práticas – assegurando-se assim o processo derelações que estabelece no interior da instituição democratização da escola.escolar que terá condições de proporcionar novas Como podemos observar, ao considerar estasalternativas para seu trabalho. dimensões acerca da instituição escolar, o “olhar” do É no âmbito desta perspectiva – a institucional – psicólogo se amplia: multirreferencializa-se e seque apresentamos a abordagem multirreferencial como complexifica2. Isto significa, por sua vez, reconheceruma possibilidade analítica e de intervenção para este que o fenômeno educativo e seus desdobramentosprofissional, uma vez que ela assegura a complexidadedo contexto escolar. Além disso, tal abordagem colocaquestões epistemológicas e metodológicas, uma vez 2 A idéia de complexidade aqui referida está vinculada à obraque psicólogo escolar se vê às voltas com vínculos de de Edgard Morin. Mais detalhes ver Morin, 1996a e 1996b.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  4. 4. 42 Martinspsicológicos se dão em várias dimensões - a dos estabelecido con ella. Es dicer, conforma unsujeitos, a dos grupos, a da organização, a da nuevo campo del qual, a la vez que formainstituição e a da sociedade - e que a psicologia – parte, se distancia, efectuando lo que se ha lhamado una "disociación instrumental": esexclusivamente – não dá conta de explicitar todas as objeto que participa de la situación y porsuas nuanças. ende la condiciona y, al mismo tiempo, Destarte, para compreendermos um pouco sujeto que se auto-observa a fin demelhor os fenômenos que se apresentam no contexto discriminar cómo y quánto condiciona suescolar, temos que lançar mão de outras disciplinas – presencia la situación que estudia. (p. 20-1)sociologia, antropologia, psicanálise, economia,psicologia social, psicossociologia, etc. A Isto significa dizer que a possibilidade decomplexidade destes fenômenos nos incita a abordá- pesquisa/intervenção será circunscrita na/pelalos multirreferencialmente – a partir de várias interatividade: o conhecimento e a prática profissionalreferências teóricas3. se realizam na/pela relação mesma entre sujeito e Cabe ressaltar que a análise multirreferencial aqui objeto – na relação intersubjetiva.proposta não tem como pretensão “esgotar” seu objeto Nesse sentido, o trabalho do psicólogo escolarde estudo. Analisar, neste contexto, não se define não é neutro e nem objetivo, pois além de ele nãomais através da nossa capacidade de recortar, de dominar (no sentido de controle) seu objeto – adecompor, de dividir, reduzir a elementos mais dinâmica da escola – ele está implicado com (n)ele.4simples, mas através de nossas possibilidades de Queremos dizer com isso que esta relação –“compreensão”, de “acompanhamento” dos psicólogo x “escola” – entendida como um encontrofenômenos vivos e dinâmicos (Ardoino, 1995, p. 9). intersubjetivo, requer o reconhecimento de Tal postura nos aproxima de um tipo específico de dimensões que não estão relacionadas nem com osmetodologia de trabalho que tem como pressuposto o aspectos teóricos nem com os aspectos metodológicosreconhecimento do caráter implicacional da que ele pode utilizar quando da realização de seuatividade de pesquisa ou de intervenção. trabalho. Tais dimensões estão circunscritas pela Ao indicar a observação participante como uma ordem do psíquico, do desejo, da vontade, quemetodologia de trabalho para o psicólogo escolar, implicam afetos nem sempre “dizíveis” no cotidianoMartins (1996) quis enfatizar que esse profissional ao acadêmico, mas que emergem durante a inserçãose inserir no contexto escolars se confronta com uma profissional.5certa tensão. De um lado, ele deve estabelecer umcerto distanciamento do seu objeto de estudo e deintervenção, de tal modo que possa conhecer seus A ESCUTA CLÍNICAinterstícios; por outro lado, deve buscar estabeleceruma relação de implicação junto aos agentes É no contexto das considerações anteriores queenvolvidos no processo, sem a qual seria impossível vislumbramos a “escuta clínica” como uma forma dedesenvolver sua atividade. abordar os fenômenos que se desenrolam no cotidiano Tal fato, por sua vez, traz em si mesmo um escolar.problema epistemológico, que diz respeito, Tradicionalmente o termo clínico, seja elefundamentalmente, à questão da relação entre sujeito e empregado como substantivo, seja como adjetivo,objeto. Como assinala Bohoslavsky (1976): indica ou um tipo de prática, de experiência, de formação, ou um estabelecimento onde as pessoas El psicólogo tiene en su cuenta ... que su rol de observador modifica, aun por su sola 4 Entendemos implicação como o “... engajamento pessoal e presencia, el campo de observación; es, por coletivo do pesquisador em e por sua práxis científica, em lo tanto, un observador participante y função de sua história familiar e libidinal, de suas posições consciente de esa participación en el passadas e atual nas relações de produção e de classe, e fenómeno que está bajo su mirada. Al de seu projeto sócio-político em ato, de tal modo que o observar una situación, está por consiguiente investimento que resulte inevitavelmente de tudo isso seja observándose a sí mesmo y al vínculo que ha parte integrante e dinâmica de toda atividade de conhecimento.” (Barbier, 1985, p. 120)3 5 O conhecimento produzido sob esta perspectiva aproximar- Muitas vezes as informações provenientes deste tipo de se-ia da atividade da bricolagem, pois tais disciplinas experiência são registradas em nossas anotações, em nossos seriam operacionalizadas de tal forma que elas não se cadernos de campo, e “lapidados” e “re-elaborados” sob o reduzissem umas às outras, conforme nos indica Ardoino, prisma da razão. Sobre esta questão ver Borba, 1997, 1998 e Lapassade, 1998. Ver também, Martins, 2000. especialmente o capítulo intitulado “Jornal de Pesquisa”.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  5. 5. Atuação do psicólogo escolar 43procuram um tratamento para suas doenças: clínica à ação do médico sobre o doente; as práticas sociaispsicológica, clínica médica etc. que implicam alterações, como é o caso tanto das No âmbito da medicina, este termo nos remete psicoterapias e socioterapias, como em certos aspectospara o trabalho do médico junto a seu paciente, o da educação, da formação etc., trazem novos sentidosque traz implícita a idéia de uma certa evolução para o termo. Estes últimos, por sua vez, incorporam-favorável da doença que o paciente apresenta, em se ao sentido original, ampliando-o, suportandofunção da atenção que ele recebe6. Nesse sentido, algumas contradições, o que o localiza no âmbito deentende-se que há uma certa relação entre o uma certa polissemia.conceito de clínico e a noção de mudança – o que A noção de clínico, portanto, se inscreve naimplica uma dimensão histórica. No entanto, ordem da praxiologia, enquanto ação-reflexão, seja noArdoino (1990) nos alerta que as expectativas âmbito da escola, seja no âmbito do hospital... Assim,implícitas nestas mudanças estão relacionadas com “clínico” passa a ser um “conceito chave, naum retorno a uma norma, a uma situação anterior e confluência da ciência fundamental com a ciênciaa ação do médico será reparatória, pressupondo-se aplicada no que se refere ao homem.” (Barbier, 1985,o restabelecimento de um estado considerado p. 46).anteriormente como “normal”. Para Ardoino: No âmbito das Ciências do Homem e daSociedade, o sentido original do termo clínico, (...) o procedimento clínico e sua teorizaçãoencontra-se consideravelmente modificado7. A devem conquistar o lugar que lhes foi atéquestão não está mais colocada sobre uma qualidade agora recusado (...) o que é fundamental ao procedimento clínico é o respeito, ou melhor,ou estado de um paciente, o que demandaria um certo a sensibilidade ao que é ambíguo, ao duplotipo de trabalho e, por conseqüência, uma determinada sentido e à hipercomplexidade. (Ardoinoprática e/ou metodologia de intervenção, mas “[O] citado por Barbier, 1985, p. 46)projeto do clínico está-se tornando fundamental para ainteligibilidade de sua prática. Ao questionamento Podemos caracterizar o olhar clínico comometodológico se superpõe... uma interrogação aquele que toma em consideração um campo - deepistemológica.” (Ardoino, 1990, p. 37). pesquisa ou de intervenção - estruturado por um De uma certa maneira, as considerações jogo de relações e de interações dinâmicas etradicionais sobre o clinicar nos remete para um tipo complexas. No entanto, ele também supõe que ode familiaridade (com o “doente”), para o prático e o pesquisador estejam convenientementeconhecimento pela experiência. Mas, à essas idéias, deslocados na relação, isto é, que eles assumamacrescenta-se, atualmente, a idéia de intervenção do uma postura de implicação-distanciamento. Talprático e o postulado de uma capacidade de evolução, postura, por sua vez, possibilitar-lhes-á estarde aquisições, que se dão pela integração e pelo jogo efetivamente co-presentes na situação que elesde alterações8. Nesse sentido Ardoino afirma: “É analisam, sem perder, para tanto, suas especificidadesjustamente essa hipótese de transformações possíveis, e suas competências.(...), que se torna essencial quando se trata de práticas Da Matta (1987) aproxima-se bastante destasociais definidas como clínicas.” (1990, p. 37). perspectiva ao analisar possibilidades do trabalho Apesar de ainda encontrarmos o emprego do antropológico no âmbito das sociedades em que otermo “clínico” em sua acepção original, vinculando-o antropólogo está inserido. Ele nos aponta que a tarefa do antropólogo nessa situação será transformar o que6 lhe é “familiar” em “exótico". Isto requer, o que Etimológicamente "clínica" deriva de "cama". Utilizado para caracterizar la labor de los médicos, este término podemos denominar de uma atitude de señala el trabajo concreto sobre un paciente específico. “estranhamento” para o que é vivenciado como Luego se extiende hasta abarcar un ámbito geográfico: el rotineiro, comum, próximo, conhecido etc., o que hospital, o una rama de las enseñanzas médicas. significa, concomitantemente, um “estranhamento de (Bohoslavsky, 1976, p. 23, n. 3) si mesmo”, um “auto-estranhamento”. Tal atitude,7 Ver Lévy (2001) e Araújo e Carreteiro (2001). portanto, implica a busca de novos sentidos para a8 A alteração é entendida aqui como uma dinâmica onde se relação que o antropólogo estabelece com seu objeto, reconhece que numa relação entre pessoas, elas se reconhecendo nela - na relação – a possibilidade de influenciarão entre si, modificando-se. Neste processo estão implícitos não apenas os aspectos conscientes de cada um, dar novos sentidos para as suas próprias mas também esse processo é marcado por desejos, vontades representações. etc. traços muito mais relacionados com o inconsciente. Ardoino, por sua vez, nos lembra, nesse casoPsicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  6. 6. 44 Martins (...) o tipo de análise em questão não tem atribuídos, pela abertura ao desconhecido, pela mais grande relação com a análise entendida disponibilidade para a alteração (e por conseqüência etimologicamente (decomposição, redução da heterogeneidade), para a escuta do inefável. do complicado em elementos mais simples) É mais uma sagacidade (perspicácia), vinculada a um processo de acompanhamento numa CONSIDERAÇÕES FINAIS duração, a intimidade partilhada, donde (...) os exemplos: psicanalítico, socioanalítico, etnológico, etnográfico, e até Abordar a escola multirreferencialmente, o que etnometodológico, podem nos dar alguma isso significa para o psicólogo escolar? Tal questão idéia. (Ardoino, 1990, p. 38) nos remete para várias dimensões da atuação do psicólogo no contexto da escola. Inicialmente cabe Cabe salientar que a clínica se apóia registrar que a abordagem multirreferencial possibilitafundamentalmente na observação - no olhar mais ou ao profissional compreender a instituição em suamenos caracterizado por uma ambição de controle, complexidade, abordando os fenômenos que ali secomo o que caracteriza a postura médica tradicional. desenvolvem sob várias óticas disciplinares:No entanto, quando à ela (à observação) aproximamos sociologia, psicologia, antropologia, etc... de tal formaa importância da escuta, mais temporal, aquela do que elas não se reduzam umas as outras. Onão-dito. “O ouvido aí se encontra assim conjugado conhecimento produzido acerca desta realidade é umcom o visto.” (Ardoino, 1990, p. 39). conhecimento conjugado, tecido, localizado, Isto significa que as funções do “olhar” e da historicizado; conhecimento que, em princípio, deve“escuta”, que se apóiam sobre visões de mundo ser construído coletivamente.diferentes – ou seja, implicam paradigmas diferentes Cabe registrar que a complexidade não é(os primeiros mais voltados para dimensões espaciais intrínseca aos fenômenos, mas ela se constrói a partirenquanto que os relativos ao segundo mais voltados dos olhares que são colocados sobre ele. Isto significapara as dimensões temporais) e conseqüentemente que a atuação do psicólogo – enquantoem metodologias específicas – devem ser articuladas pesquisador/interventor no contexto escolar - éconvenientemente a fim de estabelecer pontos de marcada pela sua implicação, ou seja, o conhecimentoreferência no tempo e no espaço, concomitantemente. produzido e/ou a intervenção efetivada se Para Ardoino há nessa escuta, como na circunscrevem a partir relações intersubjetivas que sãointerpretação que a acompanha, uma primeira forma estabelecidas no cotidiano escolar, o que significade multirreferencialidade reconhecer a influência do desejo, da vontade, dos afetos etc... que emergem durante sua inserção (...) é a língua do outro, sua indexicabilidade profissional e que estão presentes (mas muitas vezes que é necessário apreender e falar, para negados) nos encontros entabulados na escola. encontrar os fios de sua pré-história e os Abordar multirreferencialmente a instituição avatares de seu desejo. [Na relação clínica] o escolar significa também assumir uma outra postura discurso não tem necessidade de ser explícito em seu cotidiano, uma postura que não se inspire nos pois ela joga essencialmente ao nível do sub- modelos positivistas nem cartesianos – cujo objetivo é entendido. (Ardoino, 1990, p. 40) simplificar a realidade para melhor controlá-la. Uma postura que se estruture numa escuta, numa escuta Em vista do reconhecimento da heterogeneidade clínica, que aqui deve ser entendida como uma formaque a abordagem clínica pressupõe em si mesma, ela é de acompanhamento, um acompanhar da realidadenotadamente multirreferencial quando se trata de escolar em sua historicidade, resgatando-se o vivido, osujeitos coletivos. Nesse caso, para compreendê-los, é experienciado. Não se trata de trabalhar no eixonecessário recorrer a “(...)óticas de leitura e de doença x saúde, como pressupõe Andaló em sualinguagem diferentes (psicológica, psicossociológica, crítica ao modelo médico, mas criar espaços onde associológica, econômica etc.), heterogêneas, que é vivências escolares possam ser ditas e escutadas – sejanecessário saber combinar e articular.” (Ardoino, sob na perspectiva da sociedade, seja na perspectiva1990, p. 40). da instituição, seja na perspectiva dos indivíduos ou Tal perspectiva, no plano das práticas do grupos, etc...psicólogo escolar, permite o reconhecimento de Tal lugar – o da escuta – possibilita ao psicólogoelementos até então desconsiderados na abordagem criar situações coletivas, espaços de construção dedos processos educativos, possibilitando uma conhecimentos sobre si mesmo – sobre a escola, sobrereapropriação da experiência e dos sentidos, a eles as experiências dos envolvidos no processoPsicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003
  7. 7. Atuação do psicólogo escolar 45educacional, etc. - de tal forma que os problemas (Coord.). Multirreferencialidade nas ciências e navividos sejam amplamente discutidos e a busca de educação (pp. 24-41). São Carlos: Editora da UFSCar.soluções para os mesmos, compartilhada. O exercício Barbier, R. (1985). A pesquisa-ação na instituição educativa.da escuta clínica, por suas vez, tem como perspectiva Rio de Janeiro: Jorge Zahar.desvelar dimensões do cotidiano escolar e das relações Bohoslavsky, R. (1976). Orientación vocacional: la estrategia clínica (3ed.). Buenos Aires: Nueva Visión.que o estruturam até então impensadas,desconhecidas, mas que tangenciam as práticas que aí Borba, S. C. (1997). Multirreferencialidade na formação do “professor-pesquisador”: da conformidade àse estabelecem. complexidade. Maceió: Do Autor. O psicólogo, nesse lugar, tem a condição de sair Costa, A. C.; Kumata, L. Y. & Siqueira, S. L. (1994).da desconfortável situação de bombeiro – onde sua Esclarecimento do papel do psicólogo em instituiçãoação se restringe a “apagar incêndios” – e contribuir escolar e levantamento nas escolas daspara com a organização dos envolvidos com a escola, facilidades/dificuldades encontradas pelos estagiárioscriar no coletivo novas pautas de compreensão da (mimeo). Relatório de Pesquisa. Londrina: Dep. Psicologiarealidade vivida, sugerir novas formas de avaliação Social e Institucional/UEL.dos processos que se desdobram no contexto escolar Da Matta, R. (1987). Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco.(de aprendizagem, de avaliação, referentes aorganização, a instituição, etc...). Ezpeleta, J. & Rockwell, E. (1986). Pesquisa participante. São Paulo: Cortez/Autores Associados. Cabe registrar, no entanto, que este lugar que“desenhamos” para o psicólogo não existe, ainda não Lapassade, G. (1998). Da multirreferencialidade como “bricolagem”. Em: J. G. Barbosa (Coord.).se consolidou, pois as expectativas depositadas sobre Multirreferencialidade nas ciências e na educação (pp.51-sua atuação ainda se estruturam no eixo doença x 65). São Carlos: Editora da UFSCar.saúde. Lévy, A. (2001). Ciências clínicas e organizações sociais. Belo A mudança, por sua vez, pode ser vislumbrada, Horizonte: Autêntica/FUMEC.desde que seja promovida no contexto das relações Lourau, R. (1995). A análise institucional. Petrópolis: Vozes.sociais que se estabelecem tanto no contexto escolar Machado, V. L. S., Xavier, A. P. M, Papa, G. R., Wierman, M.como na sociedade mais ampla. É no âmbito dessas L., Castaldelli, V., Domínguez, V. (1993). Psicólogorelações que vislumbramos as possibilidades de escolar, orientador pedagógico e assistente pedagógico namudança, pois é aí que o profissional terá a escola: um trabalho em cooperação? Paidéia. 4,45-63.oportunidade de negociar sentidos, ampliar o Martins, J. B. (1996). Observação participante: uma abordagemsignificado de sua prática, apresentar novas metodológica para a psicologia escolar. Semina: Ciências Sociais/Humanas. 17 (3), 266-273.perspectivas de intervenção e de compreensão darealidade. Martins, J. B. (2000) Abordagem multirreferencial: contribuições epistemológicas e metodológicas para o estudo dos fenômenos educativos. Tese de Doutorado, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. REFERÊNCIAS Morin, E. (1996a). Epistemologia da complexidade. Em D. F. Schnitman (Org.). Novos paradigmas, cultura eAndaló, C. S. A. (1984). O papel do psicólogo escolar. subjetividade (pp. 274-289). Porto Alegre: Artes Médicas. Psicologia, ciência e profissão. 1, 43-47. Morin, E. (1996b). Introducción al pensamiento complejo.Andaló, C. S. A. (1993) O psicólogo escolar na busca de uma Barcelona: Gedisa. identidade. Jornal do Conselho Federal de Psicologia. Ano VIII (34), 5. Reger, R. (1989). Psicólogo escolar: educador ou clínico? Em: M. H. Souza Patto (Org.). Introdução à Psicologia EscolarAraújo, J. N. G. & Carreteiro, T. C. (Orgs.) (2001). Cenários (pp. 9-16). São Paulo: T. A. Queiroz. sociais e abordagem clínica. São Paulo/Belo Horizonte: Escuta/FUMEC.Ardoino, J. (1990). L’analyse multiréférentielle des situations sociales. Psychologie Clinique. 3, 33-49.Ardoino, J. (1995). Multiréferentielle (analyse). En J. Ardoino. Le directeur et l’intelligence de l’organization: Repéres et Recebido em 11/07/2003 notes de lecture (pp. 7-9). Ivry: ANDESI. Aceito em 24/09/2003Ardoino, J. (1998). Abordagem multirreferencial (plural) das situações educativas e formativas. Em J. G. BarbosaEndereço para correspondência: João Batista Martins, Rua Anísio Figueiredo, 476 – Londrina – PR. CEP 86065-800. Email: jbmartin@sercomtel.com.br.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 39-45, 2003

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