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Em outras palavras. "A terra será não apenas maldita por 
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No Novo Testamento e em toda tradição cristã existem 
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Desafios do século 21 Primeiro capítulo

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O objetivo deste livro é ajudar a enfrentar as novas situações, os novos séculos e milênios com a segurança de que antes que nascessem os montes e se formassem a terra e o mundo, nosso Deus é Deus (Sl 90.2). A ele seja a glória pelos séculos dos séculos!

Os quatro temas discutidos na primeira parte deste livro são de grande importância neste terceiro milênio. A ecologia e a economia já são temas de vida ou morte para boa parte da humanidade, bem como para centenas de espécies biológicas cuja existência está ameaçada e em perigo de extinção. Sob o título de “catolicidade” o autor procura oferecer algumas diretrizes, não apenas para o que tradicionalmente se tem chamado de “ecumenismo”, ou seja, a unidade entre as diversas denominações cristãs, mas também e, sobretudo, a unidade pelas muitas divisões de classe, nacionalidade, gênero, idade e etc., que existem na igreja. Por último, o quarto capítulo trata de um aspecto específico dessa diversidade: a cultura.

A segunda parte consiste de três sermões pregados no Seminário Presbiteriano na cidade do México.

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Desafios do século 21 Primeiro capítulo

  1. 1. c a p í t u l oum Teologia e ecologia Quando transbordou para além dos limites de seu leito judaico original, a torrente caudalosa do evangelho cristão não encontrou uma paisagem plana e sem história, mas o oposto. Aquela paisagem greco-romana também ti-nha seus leitos antigos, pelos quais convidava a correr as águas do evangelho. Portanto, para compreender as formas que a teologia cristã foi tomando naqueles primeiros sécu-los de nossa era, é necessário entendermos algo daqueles leitos antigos que contribuíram para canalizar a fé cristã em direção aos rumos que tomaria no fi nal. Desde tempos imemoráveis, os gregos como todo grupo humano que busca subsistir no meio da natureza, se interes-saram pelo mundo que os cercava. Alguns de seus fi lósofos mais antigos diziam que o mundo é feito de água; outros, de fogo; outros, dos quatro elementos água, fogo, ar e terra;
  2. 2. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão outros tratavam de explicar os movimentos do mundo e da natureza em termos dos princípios do amor e do ódio; outros diziam que tudo, inclusive os deuses, era composto de par-tículas ínfi mas às quais chamavam de átomos. A todos estes esforços para descobrir a essência das coisas deu-se o nome de “fi losofi a”, cujo signifi cado é amor ou gosto pela sabedoria. Finalmente, contudo, os grandes mestres gregos passa-ram deste interesse por conhecer a natureza das coisas para o interesse por conhecer a natureza do próprio conheci-mento. Parece claro que quando um fi lósofo diz, por exem-plo, que tudo é fogo, ele está ultrapassando os limites do puramente empírico, fazendo um juízo que vai além do que seus sentidos lhe dizem. Além disso, há casos nos quais os sentidos nos enganam, como quando os olhos nos dizem que um bastão se quebra ao ser introduzido na água. As coisas estavam neste pé quando chegou o grande fl orescimento da fi losofi a grega, com seus grandes mestres Platão e Aristóteles. Platão percebe não apenas que o conhecimento ultraspas-sa os limites do empírico, mas também que os sentidos nunca nos dão todos os dados necessários para chegar ao verdadeiro conhecimento. De fato, se o verdadeiro conhecimento for o conhecimento de realidades imutáveis, há uma descontinui-dade radical entre esta meta e os dados que os sentidos nos proporcionam, referindo-se todos às realidades passageiras. Os sentidos me dizem que uma maçã é redonda, e a reco-nheço como tal, mas o certo é que nunca vi coisa alguma que seja pura e perfeitamente redonda. De onde então aprendi essa ideia de redondeza? Consideremos outro exemplo. Dois 16
  3. 3. Teologia e ecologia sentidos me dizem que duas maçãs mais duas maçãs são qua-tro maçãs, e que duas pedras mais duas pedras são quatro pedras. Porém, além das maçãs e das pedras, o intelecto me diz que dois e dois são quatro. De onde então aprendi que dois e dois são quatro? Com relação a essa pergunta, houve na Antiguidade duas respostas fundamentais – respostas que são muito impor-tantes para a questão ecológica e, sobretudo, para a questão do modo pelo qual a igreja e a fé cristã têm se relacionado com o mundo da natureza. A primeira destas duas respostas é a de Platão. Essen-cialmente, Platão diz que o verdadeiro conhecimento não vem das percepções que os sentidos nos oferecem, mas de outras realidades superiores e imutáveis. Há, então, dois ní-veis de realidade ou por assim dizer, dois mundos: o mundo dos sentidos, este mundo que vemos e que tocamos, mas que não pode nos dar conhecimento verdadeiro de realida-des imutáveis, e o mundo das ideias, mundo de realidades imutáveis e inteligíveis, no qual está o verdadeiro conheci-mento. Como sabemos, Platão explica nosso conhecimento desse mundo das ideias em termos da pré-existência da al-ma, de modo que se eu reconheço agora que essa maçã é re-donda é porque naquela outra existência, antes de cair nesse mundo do sensível, vi a ideia pura da redondeza cuja som-bra agora reconheço na maçã. Para nossos propósitos aqui, no entanto, o que nos importa enfatizar é o fato de que, dada essa cisão entre o mundo do material e o mundo do inteligível, e dada também uma cisão axiológica, de modo que supostamente aquele mundo das ideias vale muitíssimo 17
  4. 4. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão mais do que este mundo transitório das realidades mate-riais, não há por que se preocupar demais com a natureza que nos rodeia. O importante são as ideias, as realidades que estão por trás dessa natureza. Assim, há na tradição platônica uma forte tendência, se não antiecológica, de não dar muita importância à ecologia – o que no fi nal das con-tas vem a ser praticamente o mesmo. O mais famoso dos discípulos de Platão, Aristóteles, abordou o problema do conhecimento de um modo di-ferente. Aristóteles concorda com seu mestre que há uma diferença real entre os dados dos sentidos e o verdadeiro conhecimento. Porém, não concorda com o modo pelo qual Platão resolve o problema. Ao contrário; para Aristóteles, os sentidos desempenham um papel crucial no processo do conhecimento, que é um processo mediante o qual o intelecto abstrai dos dados dos sentidos os conceitos que constituem o conhecimento. Assim, por exemplo, embora nunca tenha visto a redondeza propriamente dita, à medi-da que vou vendo muitas maçãs e muitas pedras, e muitas outras coisas semelhantes, vou abstraindo de todas elas esse elemento comum ao qual chamo “redondo”. A ideia de “re-dondo” não existe em si mesma, em um mundo das ideias, como insinuava Platão, mas está nessa e naquela maçã, nessa e naquela pedra etc. Para o tema que nos importa, isto é, o interesse pela natureza, sua viabilidade e sua relação com a raça humana, parece claro então que a teoria do co-nhecimento que Aristóteles propõe é muito mais favorável ao nosso estudo e, portanto, tanto à exploração quanto à preocupação ecológica, do que a de Platão. 18
  5. 5. Teologia e ecologia Em resumo, voltando à nossa imagem do Evangelho como um rio que transborda em seu leito, quando este evangelho apresentou-se pela primeira vez ao mundo gre-go- romano, foram-lhe oferecido dois leitos antigos pelos quais a teologia cristã poderia correr. E um deles era mais favorável que o outro às preocupações com o mundo e a natureza. Isto no campo das ideias. Porém, ainda que Platão não tivesse gostado disso, o fato é que o ser humano nunca vive puramente no mundo das ideias. O ser humano vive tam-bém em um mundo de relações humanas, políticas, econô-micas etc. Então, para entender aquela paisagem por onde se esparramaram as águas do Evangelho, é preciso recordar que Aristóteles tinha acabado de propor suas teorias quan-do boa parte do arcabouço do mundo grego antigo veio abaixo. Aristóteles foi mestre de um príncipe macedônio chamado Alexandre, a quem a posteridade conhece como Alexandre, o Grande. Em poucos anos, Alexandre e suas falanges apropriaram-se não apenas de toda a Grécia anti-ga, mas também de toda a bacia oriental do Mediterrâneo, inclusive a Ásia Menor, a Síria, a Palestina e até o Egito; e logo partiram em uma grande campanha de conquista em direção ao Oriente, onde se apoderaram do antigo império persa e chegaram às fronteiras da Índia. Ainda que o império de Alexandre não tenha durado muito, suas consequências perduraram por longo tem-po e até recrudesceram com o passar dos anos. Onde an-tes existiram culturas e modos de ver a vida relativamente independentes uns dos outros, surgia agora uma cultura 19
  6. 6. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão cosmopolita em que se mesclavam pessoas e ideias de mui-tas origens e contextos diferentes. O grego tornou-se a lín-gua comum do Mediterrâneo Ocidental – é por isso que todo o Novo Testamento foi escrito em grego – e junto com o idioma propagou-se também a cultura grega. Porém, essa cultura supostamente grega já não era a da antiga Atenas de Sócrates e Platão, mas uma cultura grega à qual se ha-viam adicionado elementos de tantas outras culturas quan-tas Alexandre e seus seguidores conquistaram. Além disso, as culturas antigas subsistiam – todas elas subordinadas à cultura grega dominante, mas ao mesmo tempo guardando algo de sua identidade e suas práticas tradicionais.1 Tudo isso cresceu com a expansão do poderio romano, que pouco a pouco foi ocupando o lugar dos sucessores de Alexandre em toda a bacia oriental do Mediterrâneo. Ago-ra, além de uma cultura comum, havia um Estado comum. Deste Estado eram súditos tanto gregos quanto sírios, egípcios, judeus, trácios etc. Todos esses povos mesclavam- -se nas praças onde havia lugar de comércio, nos exércitos de tropas auxiliares que os romanos recrutavam onde quer que impusessem seu domínio e nas cidades que eram o or-gulho 20 do Império Romano. E aqui é importante mencionar o sentido original de uma palavra que sempre entra em jogo quando falamos de 1 Neste sentido e como uma refl exão preliminar acerca do tema de nosso quarto capítulo, cabe ressaltar o paralelismo entre o que se sucedeu no mundo antigo com as conquistas de Alexandre e o que sucedeu em nossa América com as conquistas ibéricas. Estas também pretenderam “civilizar” nossos antepassados indígenas, a quem se impuseram os idiomas, costumes e religião ibéricos. Por algum tempo, pareceu que as tradições ancestrais destas terras estavam a caminho de desaparecer. Porém, em épocas mais recentes temos visto o despertar das culturas, línguas e tradições antigas agora adaptadas aos desafi os do mundo moderno, mas nem por isso menos arraigadas na Antiguidade pré-colombiana.
  7. 7. Teologia e ecologia ecologia: a palavra “civilização”. Originalmente, “civilização” era o mesmo que “cidadifi cação”. Para os romanos, como pa-ra os antigos gregos, a maior invenção humana era assim a cidade. Todo império, para subsistir, necessita de uma ideo-logia que justifi que sua existência e suas ambições. Um dos modos pelos quias os romanos justifi caram suas ambições imperialistas foi precisamente seu programa civilizador, ou seja, seu programa de construir e promover o crescimento e o embelezamento das cidades. Assim, em um dos elogios mais famosos ao Império Romano, o eloquente orador Élio Aristides declara: Tanto as partes costeiras quanto o interior se encheram de cidades, algumas recém-fundadas e outras aumentadas e melhoradas por vós. ... Por todas as partes há ginásios, fontes, arcadas monumentais, templos, ofi cinas, escolas, e pode-se dizer que todo o mundo civilizado, que desde o princípio adoeceu, fora trazido pela ciência correta a um estado de saúde. ... e por vossa, a celebração nunca acaba, como uma chama perene, mas avança de tempo em tempo e de população em população, demonstração de júbilo que se justifi ca pela felicidade de que todos gozam.2 Contudo, o crescimento das cidades nem sempre era um sinal da felicidade de que falava Élio Aristides. Em muitos casos, o crescimento das cidades era devido mais aos fatores que difi cultavam cada vez mais a vida no campo. Assim, por exemplo, tem se falado muito acerca do enorme crescimento da cidade de Alexandria, na desembocadura do Nilo. Essa 21 2 Oration rom. 4. 94, 97, 99.
  8. 8. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão cidade, de origem relativamente recente, pois havia sido fun-dada por Alexandre, o Grande no ano de 332 a.C., logo che-gou a ser a segunda cidade do Império Romano, e a rivalizar em tamanho e em esplendor com a própria Roma. Seu farol era uma das maravilhas do mundo. E sua biblioteca e museu (que na realidade era mais parecida com uma universidade do que com um museu moderno) tornaram-na o principal centro intelectual de todo o Império Romano. O que muitas vezes se esquece é que o crescimento excessivo de Alexan-dria era paralelo ao empobrecimento campestre do egípcio. Visto que o clima do Egito é favorável à preservação de an-tigos papiros, existem dados que nos permitem comprovar o terrível impacto que as políticas “civilizadoras” ou “cidadi-fi cadoras” de Roma tiveram sobre as zonas rurais do Egito. Os impostos chegaram a tal nível que muitos camponeses tiveram de abandonar as terras porque não podiam pagá-los. Há registros de aldeias inteiras que se tornaram totalmente despovoadas no transcurso de uma geração. Enquanto isso, o governo, ao mesmo tempo em que tra-tava de embelezar Alexandria e de dotá-la de toda sorte de facilidades, promulgava decreto após decreto proibindo os camponeses de viver na cidade – ainda que a própria exis-tência de tais decretos mostrava sua inefi cácia.3 Tudo isto, que nos reporta a situações que todos co-nhecemos nos dias de hoje, signifi cava que a população do Império Romano – especialmente a urbana– era uma po-pulação com um profundo sentimento de desarraigamento. 3 Há um estudo excelente desta situação no Egito, que provavelmente se repetia em outras províncias do Império Romano: Naphtali Lewis, Life in Egypt under Roman Rule (Oxford: Clarendon Press, 1983). 22
  9. 9. Teologia e ecologia O habitante típico de Alexandria, Éfeso, Antioquia ou Corinto já não tinha uma identidade própria. Do mesmo modo que a população judaica havia se espalhado por boa parte do mundo conhecido, ao que chamamos de Diás-pora, assim também se espalharam os egípcios, os gregos e outros. Na própria Roma havia autores que se queixa-vam da entrada de outras culturas e tradições, enquanto os próprios autores romanos, mesmo os que escreviam sobre as maravilhas da vida no campo, viviam na cidade. Em síntese, o que isso tudo signifi ca é que a população greco-romana do primeiro século, e especialmente a popu-lação urbana, era uma população em transição, afastada de suas raízes históricas, em dúvida acerca de suas religiões ancestrais, em busca de identidade própria e, portanto, alie-nada do mundo e da natureza. Destacando nosso objetivo, é necessário então ressaltar que quando a mensagem cristã transbordou para essa ba-cia do Mediterrâneo, o que encontrou foi uma população sedenta de sentido e de identidade, mas ao mesmo tempo uma população que ansiava acalmar essa sede bebendo de águas individualistas e ultramundanas. O habitante típico daquelas cidades helenistas onde se pregou o Evangelho nos primeiros séculos não queria que lhe falassem da natu-reza nem do mundo físico, acerca dos quais tinha bem pou-cas esperanças; queria antes que lhe falassem de sua alma, de sua salvação eterna, de seu destino individual. (E que seja dito de passagem, se pouco lhe interessava o mundo físico, muito menos o mundo político no qual sua opinião ou participação não servia para nada). 23
  10. 10. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão É por isso que o gnosticismo constituía um rival e uma ameaça tão grande para a igreja nascente. Bem se podia dizer que o gnosticismo se adaptava melhor às necessidades da época do que o cristianismo ortodoxo. O gnosticismo conferia sentido àquele mundo confuso do primeiro sécu-lo, simplesmente cortando o nó cego e dizendo que, afi nal de contas, o mundo não tinha nenhuma importância. Ao dizer que este mundo físico não é senão um obstáculo à verdadeira salvação, o gnosticismo expressava precisamente o que muitas pessoas queriam ouvir. Se o mundo é mau, se não é mais que um obstáculo à minha salvação, o fato de eu não ter encontrado meu lugar nele não é razão para me preocupar. Aqui não é o foro para uma ampla discussão das razões pelas quais a igreja antiga rechaçou o gnosticismo. Basta dizer que, apesar de seu atrativo, o gnosticismo parecia radicalmente incompatível com a fé cristã. O cristianismo afi rmava que o Deus que conhecemos em Jesus Cristo é o mesmo Deus que no início criou todas as coisas e viu que eram boas; o cristianismo afi rmava que entre as coisas boas que Deus criou encontra-se o corpo humano, que no fi nal há de ressuscitar para a vida eterna; sobretudo, o cristianismo proclamava a encarnação de Deus em um ser humano de carne e osso. Tudo isso era contrário ao gnosticismo e, portanto, apesar de ter havido muitas ten-tativas de ligar intimamente as duas doutrinas, no fi nal a igreja cristã se declarou totalmente oposta ao gnosticismo. Além do mais, pode-se dizer que tanto o Cânon do Novo Testamento quanto o Credo dos Apóstolos são, pelo menos 24
  11. 11. Teologia e ecologia em parte, resultado do desejo dos cristãos ortodoxos de deixar bem claro o contraste entre sua doutrina e a do gnosticismo.4 Com relação ao que nos interessa aqui, parece fácil per-ceber que, ao rechaçar o gnosticismo, o cristianismo recha-çou uma doutrina que por sua natureza teria bem pouco a dizer quanto à preocupação ecológica. Se a realidade física é má por natureza, é de se esperar o fato de que ela vá mal, e não há por que nos preocuparmos. Todavia, apesar de todos os esforços antignósticos por parte dos líderes da igreja, as tendências da época não podiam deixar de afetar o modo como o evangelho era interpretado. Ao mesmo tempo em que levavam a cabo a grande campanha antignóstica, estes mesmos grandes mestres do cristianismo se achavam envolvidos em outra luta de iguais proporções para garantir um lugar para a fé cristã dentro da cultura greco-romana. Quanto aos mo-dos empregados para obter este lugar falaremos em outra ocasião, quando discutirmos a questão da relação entre fé e cultura. O que nos interessa saber de imediato é que nesta campanha aqueles mestres do cristianismo encon-traram nas doutrinas de Platão e de seus seguidores um grande aliado. Ao se defrontar com as pessoas mais edu-cadas entre os críticos do cristianismo, os teólogos cristãos apelavam para várias doutrinas de Platão que pareciam coincidir ou ao menos render apoio aos ensinamentos cristãos. 4 Discuti este tema, mostrando como o credo precisa ser entendido deste modo, em Histo-ria del pensamiento cristiano, volume 1 (Miami: Caribe, 1992), p. 143-54. 25
  12. 12. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão O que no principio foi um recurso apologético, pouco a pouco foi se convertendo parcialmente no próprio conteú-do da teologia cristã. E já para o fi m do século 2, muitos dos teólogos cristãos mais distintos também eram platonianos. Cem anos mais tarde, no fi m do século 3, a maioria dos teólogos pertencia a essa escola. Ao fi nal do século 4, eram bem poucos os teólogos que propunham uma alternativa ao platonismo. E em meados do século 5, quando estas ques-tões fi losófi cas se misturavam com o debate cristológico e as autoridades imperiais interviram para forçar o consenso neste debate, boa parte dos que sustentavam as teorias de Aristóteles teve de partir para o exílio, que era na época o império persa. O resultado de tudo isso é que durante os primeiros sé-culos da Idade Média os teólogos cristãos interpretavam a realidade em termos essencialmente platônicos. Desta perspectiva – talvez seja necessário repetir – o verdadeiro conhecimento não é obtido por meio dos sentidos, nem tampouco consiste em conhecer as coisas passageiras des-se mundo. Seguindo uma adaptação ao platonismo clás-sico proposta por Santo Agostinho no fi nal do século 4 e meados do século 5, pensava-se que o conhecimento ver-dadeiro fosse obtido mediante uma iluminação do Verbo eterno de Deus. Visto que o estudo dos objetos materiais pode nos ocultar essa iluminação, e no melhor dos casos não contribui para ela, tal estudo não tem nenhum lugar na vida da pessoa verdadeiramente sábia, o próprio Agostinho mostra-se muito dolorido e arrependido porque em certa ocasião se ativera por uns minutos a observar a conduta de 26
  13. 13. Teologia e ecologia uma lagartixa, quando na realidade deveria ter se ocupa-do das verdades eternas. Séculos mais tarde, Anselmo de Canterbury declarou que, porquanto o ser humano foi feito para a contemplação de Deus, se por apenas um instante afasta sua vista do Eterno, a fi m de contemplar em seu lugar o mais formoso dos astros, não poderá em toda a eternidade pagar por tal pecado. Devido a tais preconceitos contra o conhecimento que se obtém por meio dos sentidos, não há de nos estranhar o fato de que durante os primeiros séculos da Idade Média a observação sistemática da natureza e de seu funcionamen-to e equilíbrios caíram em desuso. Certamente podemos imaginar que os camponeses ainda observavam o céu e os ventos para ver se iria chover ou se era uma boa época para plantar. As mulheres que assavam o pão também observa-vam como em épocas de calor o fermento levava menos tempo para levedar a massa em comparação ao inverno. Sem estas observações teria sido impossível viver. Porém, do ponto de vista das elites intelectuais, e certamente dos grandes mestres da religião, tudo isso era inferior, um em-pecilho à contemplação das verdades eternas. O efeito que tudo isso teve sobre o tema que discuti-mos é ambivalente. Por um lado, os “avanços” tecnológicos foram tão lentos que a questão da destruição do meio am-biente foi apenas ventilada. Uma sociedade como aquela, que não considerava o estudo das coisas materiais como digno de se empreender, não poderia produzir grandes in-ventos ou inovações. Provavelmente as duas invenções mais importantes, do ponto de vista do meio ambiente, foram 27
  14. 14. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão a invenção do arado de relha e dos arreios para cavalos. Com eles produziu-se um aumento na terra cultivada, o que, por sua vez, permitiu certo aumento da população em áreas anteriormente pouco habitadas. Os bosques foram reduzindo paulatinamente, ao ponto de a caça começar a escassear e os nobres começarem a reservá-la para si. Esse processo, porém, foi tão lento que quase ninguém percebeu – e quem o percebeu não tinha os meios para constatar que o que via em seu ambiente local era parte de um processo geral. Por outro lado, devido à mesma falta de interesse na realidade física e natural, as mesmas mudanças ecológicas que estavam ocorrendo e puderam ser observadas passa-ram despercebidas. Quando ocorria de alguém percebê-las, não pensava que deveria ou poderia fazer grande coisa para combatê-las. Foi apenas nos séculos 12 e 13 que as coisas começaram a mudar. Por uma série de motivos, dos quais o mais impor-tante foram as Cruzadas, cresceu o contato com o mundo muçulmano, tanto no Oriente Próximo quanto na Espanha e na Sicília. Como resultado desses contatos, a Europa Oci-dental cristã voltou a conhecer muitas das obras de Aris-tóteles, que tinham sido esquecidas desde o século 5. Este redescobrimento de Aristóteles gerou uma verdadeira revo-lução fi losófi ca e teológica. A princípio, as autoridades das igrejas, assim como quase todos os teólogos e professores de teologia, se opuseram à “nova” fi losofi a. Houve condenações e proibições de se estudar Aristóteles. Como se sabe, os que assumiram a vanguarda nos esfor-ços por produzir uma teologia que levasse em conta a re-cém- descoberta fi losófi ca de Aristóteles foram São Tomás 28
  15. 15. Teologia e ecologia de Aquino e seu mestre, Alberto, o Grande. No começo, a posição desses dois grandes mestres dominicanos encontrou forte oposição tanto entre a hierarquia eclesiástica quanto na comunidade teológica. Muitos foram os tratados escri-tos para condenar a nova fi losofi a e teologia tomistas. No fi m, contudo, impôs-se a teologia de São Tomás, com sua forte dose de Aristóteles. Para o que nos interessa aqui, é importante recordar o que dissemos no início acerca do contraste entre o modo como Aristóteles entendia o conhecimento e o modo como seu mestre Platão o entendia. A reintrodução de Aristóteles na Europa Ocidental não trouxe somente uma nova fi loso-fi a ou um desafi o a algumas das doutrinas até então tidas como tradicionais. O que Aristóteles levou à Europa Oci-dental do século 18 foi uma maneira completamente nova de ver o mundo – ou, melhor dizendo, um outro ângulo de ver o próprio “ver” e, portanto, uma nova atitude de aplicar o “ver” ao mundo das realidades físicas. Se o conhecimento se baseia, como defendia Aristóteles, no processo median-te o qual o intelecto abstrai os conceitos gerais dos casos particulares que os sentidos percebem, então é importan-te dedicar-se à observação destes casos particulares, destes objetos sensíveis que para o platoniano não passavam de obstáculo ao verdadeiro conhecimento. Embora os teólogos tenham dado a importância mere-cida a São Tomás e seu mestre – e talvez até mais do que mereciam – a história das ideias e da civilização ocidental não fez o mesmo. Foi a reintrodução de Aristóteles, cuja iniciativa foi tomada por esses dois mestres, que tornou 29
  16. 16. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão possível o grande despertar das ciências naturais que no fi nal deu origem à explosão tecnológica que se tornou ca-racterística fundamental da civilização ocidental na Idade Moderna. Não foi por acaso que Alberto, o Grande, escre-veu obras de astronomia, zoologia e botânica. Para Alberto e Tomás — e graças a eles para as gerações posteriores — a observação da natureza era campo próprio da atividade de sábios e de cristãos. Por outro lado, não se deve dar crédito demais a Aris-tóteles e nem às concepções fi losófi cas que eram discutidas nas universidades. Pouco antes de Tomás e de Alberto, São Francisco cantara para o “irmão Sol”, “irmã Água” e “irmão Lobo”. E antes ainda de São Francisco, São Bernardo de Claraval escrevera inúmeros poemas, sermões e meditações acerca da humanidade de Cristo – algo que não ocorrera a São Anselmo, preocupado que estava com as realidades imutáveis e puramente intelectuais. Aconteceu que os séculos 12 e 13 foram épocas que, por diversas razões, levaram ao questionamento de boa parte da sabedoria tradicional, inclusive da interpretação platoniana da fé cristã. As cruzadas haviam aberto novos horizontes à Europa Ocidental. O crescimento das cidades e do comér-cio forçava as pessoas de inclinação mais prática, a se ocu-parem das necessidades físicas da vida, organizando-as de maneira que até então não haviam sido necessárias. Até a construção das grandes catedrais góticas, obra fundamental da época, exigia que fosse prestada à pedra e à sua nature-za uma atenção que elas não pareciam ter merecido antes. Foi neste ambiente que irromperam as obras de Aristóteles, 30
  17. 17. Teologia e ecologia à imagem e semelhança de Deus, um senhorio que se limita pelo amor. E percebemo-lo também na segunda narrativa, onde a liberdade do ser humano para explorar a natureza encontra limite simbólico na árvore proibida. A natureza com certeza o alimentará, mas o humano terá de respeitar certos limites. Isto é o que Gênesis nos diz a respeito dos propósitos de Deus para a criação. Porém, Gênesis nos diz mais. De-pois da história da criação nos primeiros dois capítulos, o terceiro conta a história do pecado. Se a existência da ár-vore proibida no segundo capítulo nos fala dos limites do governo humano sobre a natureza, e dos limites no seu de-leite dela, o comer dessa mesma árvore no terceiro capítulo nos fala da transgressão desses limites e suas consequências para a humanidade. Fala-se muito sobre o tema da queda e do pecado original. Porém, não se enfatiza o sufi ciente o caráter ecológico desse pecado. Ao estender a mão e pegar o fruto proibido, o homem e a mulher negam os limites que Deus colocou para seu governo e deleite da natureza. Gênesis 3 versículo 6 descreve as características dessa árvore proibida pelos olhos da mulher tentada. Diante da tentação, a árvore proibida é boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento. Em outras palavras, transgredir os limites redundará em benefício próprio. Não é esta a tentação ecológica que nos levou à situação atual? Um empresário vê que uma ilha quase de-serta, é boa para banhos de mar, agradável para tomar banho de sol, e desejável para se ganhar muitos milhões. Ele com-pra, toma posse dela e a transforma em um dos tantos falsos 45
  18. 18. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão paraísos que surgiram nas últimas décadas em nossas terras tropicais. E não apenas um empresário específi co, mas toda sociedade baseada no que parece bom, agradável e desejável, aos próprios olhos, é também uma sociedade na qual não há limites para a contaminação atmosférica, o envenenamento das águas, a destruição da fauna e da fl ora. Porém, o Gênesis não se limita à transgressão dos limi-tes. Determinadas consequências acompanham a transgres-são. Muito poderia ser dito a este respeito. Mas, vamos nos ater ao que segue a partir do versículo 17. Ali Deus diz ao homem: ...maldita é a terra por tua causa. O fato de transgre-dir os limites ecológicos comendo da árvore proibida não resulta em dano somente para o ser humano transgressor e para a árvore violada, mas para toda a criação. “Maldi-ta é a terra.” Isto nos recorda o que vimos tantas vezes no âmbito da ecologia: o equilíbrio da natureza é tão precio-so que, quando a violamos em um ponto, as consequên-cias dessa transgressão vão muito além do que poderíamos imaginar. Queimamos as selvas amazônicas e causamos mudanças climáticas na África. Espalhamos pesticidas em nossos campos para melhorar as safras e destruímos não apenas os insetos nocivos, mas também seus inimigos natu-rais, de modo que temos de continuar desenvolvendo novos 46 inseticidas. Porém, a maldição da terra afeta não apenas a própria terra, mas também o ser humano. Maldita é a terra por tua causa, com sofrimento comerás dela todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e ervas daninhas… Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra...
  19. 19. Teologia e ecologia Em outras palavras. "A terra será não apenas maldita por tua causa, mas também maldita para ti. A terra que foi tua mãe, porque dela foste feito, estes animais feitos do mesmo pó que tu, e que, portanto, são teus irmãos, já não serão tua mãe e teus irmãos, mas te serão contrários, terás de lutar com eles para sobreviver; em certo sentido, serão teus ini-migos. Do mesmo modo que haverá inimizade entre a mu-lher e a serpente, assim também haverá inimizade entre ti e toda a criação. Para completar as coisas, essa inimizade que introduziste entre ti e a terra, entre ti e o pó, será inimizade que chegará até ao mais profundo de teu ser. Porque pó eras e ao pó retornarás. Eras parte dessa terra que violaste, e por mais que te aches dono e senhor, tirano e explorador da natureza, transgressor impune de teus limites, és parte dela, e a ela retornarás". Por último, antes de sair deste capítulo 3 de Gênesis, é preciso perceber o que diz este livro logo depois da trans-gressão a respeito das consequências para a natureza e para a relação entre o ser humano e o restante do mundo natural. No versículo 20 lemos que Adão chamou à sua mulher Eva. Recordemos que esta foi a ajudadora idônea, companheira igual a ele, carne de sua carne e osso de seus ossos, à qual o homem se negou a dar nome, compartilhando com ela seu próprio nome, chamando-a “mulher”. Agora, como re-sultado da transgressão, a primeira coisa que o varão faz é reclamar seu direito de posse e de controle sobre outro ser humano, pondo-lhe um nome. A transgressão ecológi-ca, o comer da árvore proibida, leva não somente à maldi-ção da terra e das relações entre a humanidade e seu meio 47
  20. 20. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão ambiente, mas também à maldição das relações humanas, à objetualização do outro, à sociedade de domínio e explo-ração 48 mútua. E também vemos isto na vida contemporânea. A explo-ração e violação da natureza não ocorrem sem a exploração e a violação das relações humanas. Visto que boa parte des-tas relações humanas constitui a fi bra do que chamamos atualmente de “economia”, deixaremos esse tema para o próximo capítulo. Basta recordar que quando fazemos da natureza um objeto de exploração, quando transgredimos os limites de nossa relação com a natureza, já demos o pri-meiro passo para transgredir os limites de nossa relação com o próximo, que no fi nal das contas também é parte da natureza. Do mesmo modo que a mulher tentada viu na ár-vore um objeto digno de desejo, porque lhe pareceu bom e agradável às suas vontades, na sociedade que carrega o selo da transgressão nós nos relacionamos uns com os outros com base no que o outro pode trazer de bom para nós. Até aqui vimos que as Escrituras nos apresentam uma visão bem real de nossa relação com a natureza, como as consequências são devastadoras quando essa relação se per-verte. Porém, a Bíblia não fala apenas do pecado e de suas consequências. A Bíblia fala também de um Deus de amor que não abandona sua criatura, ainda que ela o abandone. A Bíblia fala de um Deus que se preocupa com sua criação, ainda que a transgressão a tenha corrompido. A Bíblia fala de um Deus de salvação. A Bíblia fala do Evangelho. Aqui é preciso ressaltar acima de tudo a continuidade entre tudo que acabamos de dizer acerca de Gênesis, e o
  21. 21. Teologia e ecologia que lemos no restante do Antigo Testamento e no Novo. O Deus do Antigo Testamento, o Deus Criador, é o mesmo do Novo Testamento. Por isso, diz o Evangelho de João que ... este [mundo] foi feito por meio dele [o verbo]..., e que [o verbo] veio para o que era seu ( Jo 1.10-11). Não é verdade que no Antigo Testamento Deus se apresente a nós como Criador e Juiz, e no Novo como Redentor e Perdoador. Não. O Deus do Novo Testamento é o mesmo do Antigo Testamento. E já no Antigo se fala da esperança de uma restauração da ordem criada: O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leão e o animal de engorda viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá (Is 11.6). E o profeta Ezequiel: Então ele me disse: Estas águas saem para a região oriental e, descendo pela Arabá, entrarão no mar Morto e, ao entrarem nas águas salgadas, estas se tornarão doces. E por onde quer que o rio passe, haverá todo ser vivo que vive em enxames e muitíssimo peixe; porque essas águas chegarão lá para que as águas do mar se tornem doces, e por onde quer que este rio passe, tudo viverá. Os pescadores estarão junto dele; haverá lugar para estender as redes desde En-Gedi até En-Eglaim; o seu peixe será em grande volume, segundo a sua espécie, como o peixe do mar Grande. Mas os seus charcos e os seus pântanos não fi carão doces; serão salgados. Junto do rio, em ambas as margens, nascerá todo tipo de árvore que dá fruto comestível. A sua folha murchará, nem o seu fruto faltará. Dará novos frutos nos seus meses, porque as suas águas saem do santuário. O seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio. (Ez 47.8-12) 49
  22. 22. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão No Novo Testamento e em toda tradição cristã existem diversos ecos desta esperança. Paulo declara que na esperan-ça de que também a própria criação seja libertada do cativeiro da degeneração, para a liberdade da glória dos fi lhos de Deus (Rm 8.21). Nesta passagem, que contém vários elementos de difícil interpretação, uma coisa é clara: a solidariedade do gênero humano com o restante da criação, tanto em sua dor atual como em sua esperança futura: Pois sabemos que toda a criação geme e agoniza até agora, como se sofresse dores de parto; e não somente ela, mas também nós, que temos os pri-meiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando ansiosamente nossa adoção, a redenção do nosso corpo. (Rm 8.22-23). Em outras palavras: do mesmo modo que agora, embora tendo sido salvos por obra de Jesus Cris-to e possuindo as primícias do Espírito Santo, nossos cor-pos continuam sujeitos à corrupção de toda carne, porém esperam a ressurreição fi nal, assim também todo o restante da criação física, embora sofra com dores como a de parto, aguarda a consumação fi nal. Ambrósio, o famoso bispo de Milão, que viveu por volta do século 4, disse de maneira incisiva, referindo-se à ressur-reição de Jesus Cristo: “Nele o mundo ressuscitou! Nele o céu ressuscitou! Nele a terra ressuscitou!”6 Ou, como disse São Tomás de Aquino em termos poéticos: Uma vez realizado o juízo fi nal, a natureza humana acaba-rá totalmente situada em seu fi m. E como todas as coisas corporais existem em certo modo para o homem... então 6 De excessu frutris Satyri, II 120 (P.L. 16:1403). 50
  23. 23. Teologia e ecologia será conveniente que o estado de toda criatura corporal mude, a fi m de concordar com o estado dos homens que existiram outrora. E como os homens já serão incorrup-tíveis, será tirado de toda criatura corpórea o estado de 51 geração e degeneração.7 Diante da crise ecológica do século 21, cabe-nos desen-volver uma interpretação da natureza criada que, ao mesmo tempo em que leve em conta sua condição de criação caída, leve em conta também sua promessa de criação redimida. Tudo que dissemos até agora acerca de como nós, que nos chamamos de crentes em Cristo, precisamos manifestar nosso amor e responsabilidade para com as demais pessoas, e não apenas para com suas almas, mas também para com seus corpos, temos de estender isso agora para a criação que nos rodeia e da qual somos parte. A esperança cristã não é apenas escatológica, mas, ao mesmo tempo, também ecológica. Para fi nalizar, seria bom levantarmos uma questão a res-peito de uma passagem muito conhecida do apóstolo Paulo. Em 2Co 5.17, lemos que Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas no-vas. O que o texto grego diz literalmente é: “Se alguém está em Cristo, nova criação”. A versão tradicional dá a entender que quando alguém está em Cristo, essa pessoa muda, e vem a ser uma nova criatura. Isto é certo. Porém, será que o texto não diz muito mais que isso? Será que o texto não diz tam-bém que para os que estão em Cristo toda a criação é nova 7 Suma contra gentiles 4.97 (B.A.C. 102:941).
  24. 24. Desaf ios do século 21 para o pensamento cristão – nova não porque tenha mudado, mas porque agora a vemos não como inimiga, como a terra da qual temos de arrancar o sustento, como natureza a ser dominada mas porque agora a vemos como Deus a vê e nos vê, como criação redimida e reconciliada com Deus e conosco? Paulo diz o mesmo dos crentes. Diz que nossa vida está escondida com Cristo em Deus, e quando Cristo, nossa vida, se manifestar, então nós nos manifestaremos com ele em glória (Cl 3.3-4). Não seria isto a que se refere o apóstolo Paulo quando diz que a criação aguarda a revelação dos fi lhos de Deus (Rm 8.19)? Será que a vida do restante da criação não está também escondida com Cristo em Deus? Portanto, como fi nalização deste capítulo e ponto de partida para nossa refl exão ecológica no século 21, tomemos a famosa passagem da segunda epístola aos Co-ríntios, porém traduzida literalmente, sugerindo que a escu-temos dentro do contexto de tudo que foi dito: “Se alguém está em Cristo, nova criação! As coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo”. 52

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