Skins the novel

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Skins the novel

  1. 1. PRÓLOGO7 a.m, e além do triturar do limpador de ruas lá fora, eu ainda podia ouvi-los no quarto dela.Ela tentava abafar o barulho, porém não havia dúvida do que estavam fazendo. Como elapodia fazer isso comigo?Isso não é real. Não pode ser real.Eu me deito pela metade em cima dos lençóis, uma mão acariciando meu estômago. Todo omeu corpo ficou paralisado, congelado. Se eu pudesse sentir isso. Queria sentir.Eu parei de me acariciar, puxei o lençol sobre mim e rolei para meu lado da cama. Fiqueiencarando para fora da minha janela a manhã nascendo – apenas começando a brilhar. Eusenti o suor escorrer por trás do meu pescoço – já estava muito quente – e minha cabeçalatejava. Minha felicidade estava murcha e estremecida dentro de mim. Ela não me amava. Elanunca teria feito isso comigo se me amasse.Então pararam.“Muito obrigado por isso, porra.”Olhando para o teto, eu franzi o cenho, meus lábios se partiram ao meio para que eu pudessesoltar um silencioso e incrédulo suspiro.Me senti como se fosse o fim do mundo. A pior coisa que já aconteceu comigo. Se eu pudesseimaginar por um segundo que eu poderia acreditar no amor, eu percebi agora que eu estariame iludindo. Porque tudo termina do mesmo jeito, mesmo você o amando ou não.Todo mundo te trai no final.AGOSTO – SEMANA 1EffyDia 1, sábado, agosto.VenezaEntão ela escolheu Veneza. Eu posso ver o porquê. É como um castelo gigante da Disney, masmuito surreal de certa forma. E é um bom longo caminho de Bristol para lá, do meu pai e detoda porcaria de lá. Então bom trabalho mãe. Qualquer coisa que bote algum distância entremim e todo mundo. JJ, Cook e Freddie. A porra dos três mosqueteiros.
  2. 2. Eu começara algo e não conseguia continuar com isso.E estar cercada por água – como um fosso gigante nos separando do inimigo. Eu e minha mãetínhamos de fugir.Nós alugamos um apartamento pequeno longe do centro e dos turistas. Os donos tinham idoembora da cidade pelo verão todo. É um prédio de quatro lados com um grande pátio nomeio. Fantástico. Tão pitoresco. Até as paredes rosas descascadas, elas me lembram demilkshake de morango. Tem uma varanda também. Azul enferrujado. Perfeita para se sentar,observar e fumar. Ver sem ser vista.Meu quarto, de qualquer jeito, é um espetáculo de aberrações. Barbies por todo o lugar. Umacama de solteiro. Uma imagem de Jesus e Maria com os seus jeitos virginais. Naomi e Cookmijariam nas calças se pudessem me ver agora, eu pensei, enquanto jogava a minha mala nacama e olhei em minha volta. Não tinha computador. Eu achei uma Lan house depois dealgumas horas, assim poderia manter contato. Se eu quisesse.Minha mãe estava deprimida assim que chegamos lá. Estava nublado, chovendo muito, úmidoe fedia mas, Deus, tudo em que ela pensa ultimamente é nela. Ela e a porra de seusproblemas. Que ela criou, por sinal. Talvez eu devesse ser mais simpática considerando toda amerda que eu tenho me metido nos últimos meses, mas minha mãe nem ligou ou pareceu seimportar.E eu?“Qual é o seu problema?” Eu perguntei.“Nenhum. Eu não sei.” Ela disse cansada. “Não era realmente o que eu esperava... talvez foium erro vir para cá?”“Talvez” Eu fechei os olhos, irritada.Faça um esforço, Effy, você sabe como é se sentir uma merda.Eu abri as persianas. A chuva tinha parado. Os raios de sol me fizeram piscar. E sorrir. “Viu?” eume virei pra minha mãe. “Transformado.”Um patético e fraco sorriso. “É, isso ajuda.” Ela tirou os cigarros de sua bolsa e acendeu um.“Então, o que deveríamos fazer agora?”“Eu vou tomar banho” eu disse. “Depois eu vou explorar o lugar. Achar uma Lan house”.
  3. 3. “Ah, espere” ela me entregou um envelope marrom. “Isso é do seu pai”.Eu rasguei para abrir. Contei cinco notas de cem euros.“Para gastar” disse mamãe. “Isso deve ser o bastante, se precisar de mais fale comigo”.“Certo, obrigada” eu disse ingrata.Vai precisar mais do que merda de dinheiro.“Bem” ela suspirou. “Eu vou arrumar esse lugar e deixar mais como um lar”.Lar? Se isso a deixa feliz, acho.Assim que eu cheguei lá fora, acendi um cigarro, peguei meu telefone e o liguei, esperei queele captasse sinal e deletei a mensagem da operadora. Dez minutos depois recebi umamensagem da Pandora. Alguma coisa sobre o Thomas e a mãe dela. Pediu para que eumandasse fotos para ela. Sim, Panda.A tarde estava na metade e silenciosa. Na esquina da rua, alguns velhinhos sentavam-se emfrente a uma lanchonete jogando dominó. Um cachorro sarnento cheirava o chão ao redor deseus pés. Uma mulher parecendo exausta com um avental de corpo inteiro estava esfregandoo chão do prédio perto do nosso. Ela parou por um minuto para descansar e me notou, em pécom o meu telefone. Ela me olhou de cabo a rabo com um tom desaprovador, talvez cominveja. Essa era a vida dela todo dia esfregar, esfregar, deixar limpo. Ela botou seu esfregão devolta ao seu balde e seguiu em frente.Eu acendi outro cigarro e fui em direção a um muro baixo, oposto ao nosso prédio. Eu sentei,fumando, fazendo meu lance de observar as pessoas. Encarando. Três garotos, da minha idadetalvez, cruzaram a esquina. Um deles, o alto, com um chapéu, parecia o Freddie. Lindo. Meiocheio de si. Me chamou a atenção.“Signorina... ciao... ciao” ele assobiou. Os dois perto dele começaram a fazer macacadas,assobiando, gritando coisas que eu não entendia, chegando perto de mim.“Você sabe o que ‘cai fora’ significa?” eu perguntei ao mais alto quando se acalmaram. “Cai.Fora.”“Ooooh. Inglese.” Ele começou a vir. “Legal. Está de férias?”“Quoi?”, Soltei um anel de fumaça perfeito.
  4. 4. Os dois racharam. Eu suspirei em minha mente e descruzei as pernas. Meus pés estavamqueimando, estava muito quente. Minhas pernas estavam nuas. Eu olhei para elas e depoispara os três garotos. Eles haviam parado de rir. Silenciou-se. Minha respiração começou aacelerar, mas eu não iria deixá-los cheirar o medo. Eu joguei meu cigarro no chão à minhafrente e começamos a nos encarar.“Então, quando quiserem ir se foder, está tudo bem para”“Como é que é?” disse o mais alto “Nós só estávamos sendo amigáveis. Talvez seja você quedeveria ‘se foder’ agora” Ele olhou para seus amigos. “Você esta vestida que nem uma puta”ele complementou. “A porra de uma puta.”Eu queria vomitar. Vomitar todinha neles. Eu queria meu pai, minha mãe, Freddie.Eu começara algo que eu não podia terminar.“Eh Che fate?!” uma voz gritou. Um sujeito mais velho vindo em minha direção, com aquelevisual caro dele. Terno, camisa, sapatos italianos Poncy. Ele olhou bruscamente para os trêsidiotas e soltou a correnteza de italiano bravo.O mais alto saltou no ar e uivou que nem um lobo. Eu sorri com desdém. Cook. Que nem oCook. Os outros dois fizeram o mesmo e foram embora correndo.“Ciao, bella” um deles me gritou obscenamente enquanto corriam “Vadia inglesa”. Então elesjá estavam na esquina. Foram embora.O que me deixou sozinha com a porra do George Clooney.“Sta bene?” ele perguntou. “Você está bem?” ele chacoalhou a cabeça “Não ligue para essesrapazes”.“Eu não estava” eu disse sorrindo. “Mas tudo bem”.Eu me levantei, já sem vontade de explorar e entrei em nosso prédio.“Ah, você está morando aqui?” ele disse. “Eu também” ele estendeu sua mão “Meu nome éAlfredo, mas meus amigos me chamam de Aldo”.Eu dei minha mão. “Effy.”Nós fizemos aquela coisa de sorrir estranhamente.
  5. 5. “Você não deveria fumar” ele disse, olhando para o maço de cigarros em minhas mãos. “Fazmal para pele”.“Obrigada pelo conselho” eu educadamente disse dando o meu sorriso mais charmoso. “Euvou carregar isso em mente”.Ele abriu a porta de madeira gigante e a segurou para mim. Nós estávamos na entrada, a qualcheirava a umidade, como uma caverna. Eu olhei para todas as antigas entradas de quem jáviveu por lá.Eu queria uma, eu pensei. Eu gostaria de entrar em uma e ficar lá escondida para sempre.“Então...” disse o Aldo. Ele começou a subir a escada de pedras e se virou para mim “Você estácom seus pais?”“Minha mãe” eu disse “Ficaremos aqui por um mês”.“Ah, vocês alugaram o apartamento dos Tropeas? Bem nós deveriamos beber um Grappajuntos, talvez? Uma bebida de boas-vindas!”.“Grappa?”“Uma bebida italiana, Effy. Queima a alma.”Com o despeito de não querer, eu sorri. “Seu inglês é muito bom.”“Obrigado. Eu passei um ano estudando em Londres. Eu estava esperando há muito tempoalguém dizer isso. Eu não pratico muito hoje em dia”.Nós chegamos ao topo do segundo lance de escada e Aldo sentiu seu bolso de trás.“Droga” ele disse. “Eu deixei minhas chaves na casa da minha mãe”. Ele esfregou a testa.“Estou trancado para fora do meu apartamento”.“Tudo bem.” Eu mordi meus lábios e pensei a respeito “Você está com sua carteira?”“Sim, mas –““Eu preciso de um cartão de crédito. Só preciso disso”. Eu observei sua expressão, que estavaconfusa. “Para abrir a porta?”Ele me encarou, não entendendo por um segundo, depois sorriu um sorriso perfeito pracaralho. Ele não parecia tão mal. Eu não tinha percebido antes.
  6. 6. “Garota esperta. Agora, como, e o mais importante, por que você aprendeu a fazer isso?”“Por que talvez eu achasse que fosse útil?” eu disse olhando mordazmente para a fechadurade sua porta.“Então isso acabou de ser provado” Aldo disse, me entregando sua carteira.Eu ignorei os vários cartões de crédito à disposição, incluindo o Amex platinum, e peguei ocartão mais frágil e laminado. Cartão de filiação ou alguma coisa assim. Eu me ajoelhei no chãoe deslizei o cartão o mais longe que podia no espaço acima da fechadura, o inclinei atéencostar na maçaneta, então o dobrei de volta ao outro caminho e o inclinei sobre a porta.Pronto. Eu me levantei e esfreguei meu joelhos.“Muito obrigado pela ajuda” ele disse. “Você gostaria de entrar para tomar um drink?”“Não” eu respondi. “Obrigada”.Por que eu disse isso? Porque minha resposta padrão é sempre “Não”.Eu o esperei insistir, mas ele não o fez. “Tudo bem, Effy” ele estendeu a mão para alcançar aminha. Era quente e seca, não pegajosa. Grande, forte. “Eu estou endividado com você”.Nós sorrimos um para o outro.Deixe-o aí, pensei. Não vá. Botei uma mecha de meu cabelo entre meus dedos e acaricieilentamente. Eu li uma vez em uma revista que homens odeiam quando as mulheres brincamcom seu cabelo. Que se foda.“Bem, te vejo então” eu disse devagar. “Outra hora”.Sem esperar que ele falasse, eu subi para nosso apartamento, contando o tempo com cuidado.Quando eu cheguei no topo da escada eu olhei pra trás. Ele tinha ido embora.NaomiDomingo, 2 de Agosto.Boate RitzyA música estava ensurdecedora. O braço do Cook surgiu e bateu no meu rosto.“Ei! Idiota desastrado” eu bati em suas costelas.
  7. 7. Ele se moveu mais para perto de mim. Pressionou seu maldito rosto sobre o meu. “Ah,princesa. O Monstro Cook está apenas sendo amigável...” ele acariciou minha bochecha.Eu tirei sua mão de mim, mas lutei comigo mesma para não sorrir, só um pouco. O lance doCook é que ele é malditamente irresistível. Eu não gosto dele. Digo, estou em outro timeagora, por assim dizer. Ele está descontrolado pra porra. O oposto de mim. Mas às vezes, é, eunão ligaria de ser capaz de fazer e dizer qualquer merda que eu quisesse. Eu morreria antes dedizer isso a ele, mas eu secretamente invejo o Cook. De um jeito doentio, obviamente.“Cook”. Olhei pra ele com o olhar de irmã mais velha desesperada. “Só se aquiete, pode ser?”Ele riu que nem um maníaco “Eu não me aquieto, Naomi. Você sabe disso”. Ele deu um beijomolhado no meu nariz. “Certeza de que eu não posso te tentar a voltar para o trem dospintos?”Eu limpei sua baba. “Trem dos pintos?”“É, talvez não”. Cook tinha seus olhos grudados em alguma coisa atrás de mim. Eu virei. Emilyestava parada lá. Tinha olhos grandes, parecendo duvidosa. “Sua parceira em colar velcro techama”.Eu estendi a mão e segurei a mão da Ems puxando-a para perto de mim. “Nós vamos ignoraressa observação” eu disse a ele asperamente. “Vou deixar passar. E só –“ eu belisquei suabochecha “- porque você é um marica por dentro”.Cook riu em silêncio, suando por causa dos efeitos da ecstasy. “Justo o bastante, Naomikins”.Ele tomou um gole de Lager e balançou a lata para nós. “Vejo vocês depois, sapas”.Emily mexeu seu nariz. “O que ele queria?”, ela perguntou, tentando não soar incomodadaque o Cook flerta comigo. Bem, flerta em seu jeito maluco.“Nada, querida”. Eu botei meus braços em volta dela e deslizei uma mão por debaixo de suablusa, acariciando sua coluna. “Vamos lá, vamos ir embora e fazer alguma coisa depravada emalgum lugar”.“Aqui?”. Emily disse sorrindo um sorriso doce e vulgar ao mesmo tempo.“Aqui”. Eu segurei as mãos dela e a puxei atrás de mim em direção ao banheiro. Ela me seguiuentre um grupo gigante de silhuetas coladas em direção ao banheiro feminino. Quando
  8. 8. chegamos à porta, eu a beijei delicadamente, então firmemente achei sua língua. Emily gemeue puxou seus quadris para perto de mim.“Eu estou tão feliz agora” ela disse, afastando-se temporariamente. “Se eu morresse hoje anoite estaria tudo bem”.“Para mim também”. Eu beijei Emily na testa.Eu vi Cook levantando sua lata pra mim sobre a pista de dança. Um sorriso safado estava emseu rosto. “Encantador” , ele disse fazendo mímica labial e piscou para mim.Eu segurei a mão da Emily e a puxei rapidamente pela porta.Segunda, dia 3 de agosto.Quarto da Naomi“Que horas são?”. Eu rolei e pausei o iPod que estava em seu dispositivo. Parecia estar nomeio da noite para mim. Emily e eu não havíamos voltado pra casa antes das 2 da manhã. Nósficamos acordadas sem querer que a noite acabasse. Nossa última noite. Nós dormimos nafrente da sessão de compras, um pouco chapadas, um pouco bêbadas. Felizes.Mas essa manhã eu me senti irritadiça, para dizer o mínimo.“Oito e meia, mais ou menos?”, Em disse. Ela estava pintando as unhas do pé. Na minha cama.“Emily! Você não pode fazer isso no banheiro ou coisa assim? Você vai deixar manchas roxassobre a minha colcha.”“Tá bom, tá bom, Jesus”. Ela se levantou mancando em direção à porta. Ela virou em minhadireção quando chegou lá. “O que há de errado com você essa manhã?”“Nada”, eu disse automaticamente. Eu estava carrancuda, como é de costume. Eu não meorgulho disso, mas velhos hábitos não morrem cedo. “Só é... cedo”. Me apoiei em um braço.“Eu não sou legal nas manhãs”.Ela não estva caindo nessa. “Certo... Mas... Eu estou indo pra França de tarde e do nada vocêcomeça a agir como... Como tudo o que eu faço está lhe dando nos nervos”, ela disse. “Vocêestá querendo que eu vá, né?”.
  9. 9. Eu revirei os olhos. “Eu mal posso esperar para me livrar de você para eu começar a viver osmelhores tempos da minha vida nas próximas semanas. Eu estou contando a porra dossegundos para você entrar naquele navio”.Merda, os olhos dela começaram a ter aquele jeito de choro. Ela é uma flor sensível. Estranhoporque Emily Fitch era mais durona do que eu poderia ser. Eu lato, mas não mordo.Obviamente eu sou o cara do relacionamento.Sim Naomi, relacionamento.“Não... Em”, eu estendi meu braço e acariciei suas costas. “Desculpa. Olha, você sabe que euvou sentir sua falta. Muito”. Emily sorriu e assim mau humor desapareceu. Ela é como umanjo. Um anjo ruivo e adorável. Eu queria segurá-la e nunca deixá-la ir.“Vem cá”, eu disse.Eu a encontrei no meio do caminho e a agarrei pela sua blusa, levantando-a e atirandao-a emalgum canto. Eu encarei seus peitos perfeitos. Suave, linda Emily.“Eu te amo, Emily”, eu disse acariciando seu estômago. Eu me ajoelhei e a beijei. Senti seucheiro. Emily acariciou meu cabelo e ficamos assim por alguns minutos. Eu não queria meseparar dela. Nunca.“Naomi”, Em disse eventualmente.“O quê?”, eu me levantei e botei meu braço em volta dela.Ela descansou sua cabeça sobre meu ombro e disse “Você não vai fazer alguma coisa boba,vai?”“Como o quê?”“Como... eu não sei. O que os olhos não vêem, o coração não sente”.Eu a segurei mais apertado. “Como se eu fosse”.“Nem com o Cook... Eu sei que você –““Escuta, Emily”, eu me distanciei para poder olhar ela propriamente. “O que aconteceu comigoe Cook foi um momento totalmente insano na minha outra vida sana. Eu estava tentandofingir que eu era... Que eu não gostava de você.”
  10. 10. Os olhos de Emily ainda estavam meio que brilhando.“Que eu te amava. Amo. Tudo bem?”Ela relaxou. Covinhas voltaram a ser a perfeição de uma pele como pêssego. “Bom. Porque eutenho certeza em relação a isso. Em relação a nós. Para mim não é um casinho da porra eacabou.”“Nem para mim”. Eu disse sem saber direito o que isso era realmente. Eu sei que a amo. Eunão consigo não me imaginar segurando, beijando e fodendo ela. Mas cabe ao júri decidir seeu sou lésbica ou hétero.“Que seja, você poderia comentar”, eu disse tirando o cabelo do rosto dela, “sobre o grandecaso amoroso entre você e o JJ?”“Naomi!” Emily me empurrou em direção à cama. “Eu já te expliquei o que aconteceu comigoe o JJ. Você sabe muito bem que transei por pena. EU SOU LÉSBICA.”“Sshh”, eu disse rindo. Eu a puxei comigo pra cama. “Você pode dizer isso um pouco mais alto?Acho que não ouviram no interior da Austrália”.O som de alguém andando na sala em direção ao banheiro nos fez parar. Kieran ou minhamãe. Emily rolou de costas. E deitamos em silêncio. Dedinhos entrelaçados.EmilySegunda, 3 de Agosto.Quarto da Naomi, mais tarde.“Naomi”, eu sussurrei. Toquei seu pescoço com a ponta dos meus dedos. Acariciei lentamentesua pele desde atrás de sua orelha até seu suave e pálido ombro.“Naomi... acorda”.Naomi fez um barulho parecendo um grunhido e mexeu seu nariz. Eu sorri. Eu tenho sorridomuito ultimamente. Eu fiquei de costas e olhei para o teto e depois para seu quarto. O quartoda Naomi é maneiro. Muito mais legal que o meu. Ou melhor dizendo: do que eu divido com aKatie. Com a porra de jogadores de futebol e boybands nas paredes. Os My Little Ponies delacontinuam no peitoral da janela, e com todas suas jóias e correias com estampa de leopardoperto deles. Eu só deixei a Katie tomar o quarto porque, bem... É o que ela faz. E eu também
  11. 11. nunca liguei. Mas finalmente eu criei colhões comecei a enfrentá-la. E não parece ter um jeitode voltar atrás.Eu continuei a observar o quarto e a sorri. Não conseguia acreditar na minha sorte. Nãoconseguia acreditar que a menina que eu amava me amava também. Por um tempo eu penseique isso nunca ia acontecer. Eu gostava da Naomi desde o ensino fundamental. Ela éapaixonante e inteligente. Contagiante. E seus olhos... Parece a rainha do gelo. Alguns pensamque ela é fria. Só porque ela não fica de conversinhas superficiais e estúpidas. Ela não é quenem a Katie que abre a boca e só sai merda. A Naomi é sincera. Se as pessoas acham que issosignifica “fria”, elas estão erradas.Elas estão muito erradas.Eu bocejei alto. Depois senti a mão da Naomi no meu braço.“Merda. Que horas são?”, ela disse sonolenta. “Você tem de ir?”Eu rolei para poder encará-la. Ela estava esfregando os olhos. Então ela parou e ficamos nosencarando. Sorrisinhos surgiram em nossos rostos.“Oi, linda”, eu disse. “Já é tarde e eu estou com fome. O que você quer de café da manhã?”“Você”, disse Naomi me puxando em sua direção e me beijando primeiro gentilmente e depoismais forte. Eu estava formigando de prazer. Eu peguei sua mão e a guiei até onde eu a queria.Ela hesitou e depois seus dedos começaram a fazer seu trabalho.Ah meu Deus, essa é a porra do paraíso, eu pensei. Eu estou no paraíso.Duas horas depois nós estávamos na cafeteria, tomando café da manhã. Naomi, granola,comida de coelho. Eu, um sanduíche gigante de salsicha e ketchup. Naomi estava olhandominha comida com um sorriso em seu rosto.“O quê?”Ela engoliu um pouco da granola e do iogurte. “Você”, ela disse. “Gostando da sua salsicha,né?”Eu mastiguei e bufei, quase respingando comida mastigada nela.“Ah, sim” , eu disse para me defender “Eu amo salsicha. Você deveria experimentar, Naomi...Não tem idéia do que está perdendo.”
  12. 12. “Ah, eu acho que tenho” ela estendeu sua língua e a balançou para mim.Um sujeito mais velho tomando um café da manhã tradicional olhou para nós com um olharsevero. Ele pegou seu jornal e segurou severamente na frente de seu rosto.“Vá se foder”, eu disse para o seu jornal, sem emitir nenhuma voz. Naomi revirou seus olhos eempurrou sua comida de coelho. Ela ficou mal humorada do nada.“O que foi, docinho?” eu disse limpando minha boca com um guardanapo.Naomi fez um beicinho. “Você vai entrar naquele navio”, ela disse naturalmente. “É isso”.“Você vai sentir minha falta, não vai, querida?”, eu disse parecendo um disco arranhado. “Émelhor você sentir mesmo”.“Hm... Primeiramente” ela disse séria “Depois eu vou provavelmente perder o interesse”.“Naomi!” , eu disse com um grito agudo. “Vadia”.“Quantas vezes eu vou ter de te dizer?” ela sorriu. Ela parecia tão gostosa. Eu queria mordê-la.Meu estômago estava dando voltas e voltas.“Não deveria ser agora”, eu disse “E minha mãe vai ser um pé no saco.”Naomi concordou com a cabeça. “Ah é”, ela disse “A sua mãe tão liberal”.“É, bem. Nem todo mundo pode ter uma mãe que nem a sua”.“Você deveria estar agradecida por isso”, disse Naomi com um suspiro. “Eu sei que sua mãeprecisa de tempo para compreender isso. Nós, eu digo. Eu também precisei de tempo praporra para compreender. Eu acho que não posso culpá-la. Não completamente”“Ela é um pesadelo ultimamente”, eu disse. “Nós só vamos ter de transar na frente dela, é oúnico jeito dela entender”.“Isso sim que seria um pesadelo”, Naomi se deliciou. “Eu preferiria fazer um ménage com oCook e a Katie”.“Ugh. Naomi! Ela é minha irmã, sua vadia safada”. Eu pensei sobre o que disse. “Porra! Vocênão gosta dela também, ou gosta?”Naomi ficou séria.
  13. 13. “Sim, claro, ela disse. “Quer dizer, vocês são idênticas, não são?”.NaomiSegunda, 3 de agosto.Em casa, à noite.Após dar tchau para Emily à tarde, eu fiquei um pouco à deriva em uma nuvem de felicidade eamor, mas à noite eu voltei a Rabugentrópolis. Eu tinha três semanas para ficar de molho eobcecada com o que a Emily estava fazendo e com quem. Eu pensei em sua mãe que estariatotalmente num ataque anti-gay. E na Katie, aquela vadiazinha. Provavelmente ela estariatreinando suas falas malvadas. Emily pareceu pensar que Katie não seria mais uma vadiaconosco, mas eu não estou tão certa. Eu estava tirando a sua gêmea. É assim que ela vê. Elanão consegue me agüentar. E esse sentimento é mútuo.Minha mãe e Kieran estavam comendo na cozinha quando eu desci as escadas depois de duashoras depressivas na minha cama escutando thrash metal alto em meu iPod.Se anime, Naomi, talvez isso nunca aconteça.Minha mãe olhou pra cima quando entrei. Ela me deu um de seus olhares meios quesimpáticos e exasperados para mim. “Oi, amor” ela disse. “Está bem?”.Eu dei um grunhido e puxei uma cadeira. Kieran me olhou cautelosamente. Ele nunca estavacerto quando eu iria derrubá-lo com o infortuno incidente na sala de aula quando ele tentoume dar uns amassos. Naquela hora eu fiquei ofendida porque aquilo era ilegal pra começar,caralho. Mas o Kieran é legal. Eu nunca pensei que ia dizer isso, mas ele a deixa feliz. E,indiretamente, isso significa que todos aqueles perdedores infelizes que ocupavam minha casacomo se fosse uma maldita comunidade iriam finalmente sair daqui.“Sente-se. Coma alguma coisa” disse minha mãe. “Ocorreu tudo bem com a Emily?”
  14. 14. Uma visão de mim e de Emily mais cedo surgiu na minha cabeça. Eu não pude evitar umsorriso surgir no meu rosto.“Sim, ocorreu tudo bem”. Eu inspecionei as caçarolas em minha frente, mas decidi contrariar.“Agora eu preciso de um emprego de férias, eu não posso ficar sentada aqui o dia todo”.Mamãe trocou olhares preocupados com Kieran. Eles também não me queriam circulando pelacasa. Sem julgar pelo tempo que eles passavam no quarto da minha mãe, de qualquer jeito.Tipo uma estraga-prazeres, com Naomi-Sem-Amigos olhando para o nada tristemente.Vê, é precisamente isso que eu odeio em relacionamentos. Conexão. Você não pertence avocê mesmo. Você está se dividindo com outra pessoa. Então quando não estão com você,uma parte de você some junto.Mas eu consegui o que eu queria, não consegui?“Bem,” minha mãe disse vivamente “Um emprego talvez desvie sua mente de Emily. Melhordo que fazer faxina?”.“Talvez eu não queira desviar minha mente de Emily”,eu rosnei. “Você só me quer fora do seucaminho”.“Naomi, isso não é verdade”, disse Kieran em pânico com o desenrolar da conversa.“Não é?”.“Ah, cresce”, disse minha mãe empilhando tigelas e pratos. “Poxa, Naomi, você não é assim.Normalmente é tão madura”.“Eu estou cansada disso”, eu disse. “Morando numa casa de abrigados por todos esses anos.Superando os seus atos de caridade. Sendo ‘madura’. O que você acha de eu agir como euquero para variar? Se você não gostar, imagino”Silêncio. Kieran olhou desesperadamente para o teto. Pobre súdito.“Eu acho que está na hora de todos irmos para a cama”, disse minha mãe. “Falaremos nisso demanhã”.Eram nove da manhã. “Certo, tudo bem. Você vai pra cama”. “Você parece estar apta depoisdisso”.Minha mãe me ignorou, enquanto Kieran foi trocando as pernas até o quarto.
  15. 15. Eu a vi entupindo a louça de lavar enquanto pensava se eu não tinha ido um pouco longedemais. Não que eu fosse me desculpar.Finalmente minha mãe desligou as luzes da cozinha fingindo que não sabia que eu estava aacompanhado com os olhos. Enquanto ela atravessou minha cadeira, curvou-se na altura domeu queixo.“Não fique tão nervosa, Naomi”, ela sussurrou. “É só amor”.PandoraTerça, 4 de agosto.Em casa.Desde o meu dia favorito no mundo todo, o dia do baile, eu e Thomas estamos como doispintos no lixo. Eu fiquei tão feliz que ele ainda me amava. Eu achei que eu realmente tivesseestragado tudo. E eu sei que eu contei a Emily e a Katie que eu nunca queria transar com maisninguém depois do Cookie porque isso só deixa tudo muito estranho, mas eu não quis dizerisso. Eu queria ter o serviço completo com o Tom como você nunca imaginaria.Claro que manter minha mãe desatualizada sobre eu virando uma mulher seria difícil. Minhamãe parece saber de tudo o que acontece comigo. Eu sempre ando até o final da nossa ruapara ligar para o Thomas. Ela não gosta que eu fique perto de garotos. Que caralhos voadoresela iria dizer se soubesse o que anda se passando pela minha cabeça atualmente?Se Effy não tivesse viajado com sua mãe nessa férias, eu poderia conversar com ela sobremeus sentimentos e tal. Ela sabe tudo sobre garotos. Ela deve saber, ela tem metade delesbabando por ela. Garotos nunca será um problema para a Effy. Ao menos antes dela foder como Freddie. Effy ficou um pouco estranha com isso, e eu fiquei um pouco estranha com a Eff. Elaacertou Katie com uma pedra. Isso não é bom. Eu estava contrariada com ela depois disso. Euvou sempre amar a Effy, acho, mas eu tenho de me virar sozinha.Eu liguei para meu adorável garoto no ponto de ônibus.“Oi, Thommo, é a Panda. Quer vir ao Brandon Hill para ficarmos nos beijando?”“Eu não posso, Panda. Eu tenho de ir trabalhar. Não são férias pra mim, sabe?”“Que isso, Thomas... Vamos lá. Nós podemos visitar tia Lizzie e tomar chá. Vai ser bombástico.”
  16. 16. “Pandora, não. Eu tenho de pagar o aluguel.”Eu suspirei. Coitado do Thomas, ele não vai para o colégio porque tem de pagar todas essascoisas pra ele, sua mãe, sua irmã e seu irmão. Ele tem de trabalhar, tipo, toda hora. Não éjusto porque não tenho tempo para me jogar em cima dele. Thomas disse que não precisofazer isso ainda, ele disse quer que seja perfeito, romântico e tal. Eu só quero que nósfaçamos. Propriamente. Thomas será meu namorado para sempre. Não como Cookie que nãoqueria me conhecer melhor quando não estava botando sua coisa em mim. Eu não quero maispensar no que eu e Cookie fizemos. Faz com que eu me sinta envergonhada.“Ok, Thomas, você venceu. Te encontro no ponto de ônibus da rua Granger depois do trabalhoentão?“Oui, Panda. Vou esperar por isso ansiosamente” disse Thomas, eu podia ver seu sorriso pelotelefone. “Je t’aime.”“Je t’aime, aussi.”Voltando pra casa eu fiz um plano. Primeiro de tudo eu e mamãe precisávamos cair na real. Eusei que eu não poderia ficar guardando segredo para sempre. Sobre pensamentos sensuais. Euainda quero fazer bolinhos vestida em meus pijamas e eu não acho que roupas que nem as daKatie caem bem em mim. Nunca serei uma tarada ambulante. Mas eu quero sexo. E eu querocom o Thomas. Eu quero mais do que tudo. Eu tinha que contar à minha mãe sobre oThommo. Uma vez que ela o conhecer, eu acho que ela vai amá-lo também. Só que... Ela nãogostaria que eu tivesse um amigo homem. Sem mencionar um namorado. Mamãe estavameditando quando eu entrei em nossa sala. Eu sentei no sofá e fiquei encarando ela.“Mãe”, eu disse. “Mãe, eu preciso te contar uma coisa.”“Hmm”, mamãe me deu um olhar severo. “Panda Poo, estou meditando.”“Eu sei, mas... mãe, eu realmente preciso te contar uma coisa.”Mamãe suspirou. “O que é, Pandora?”Eu esperei um pouco. Eu tinha que dizer agora ou eu iria amarelar e não dizer nunca.“Você sabe... Você sabe que eu nunca tive um namorado?”O rosto celestial da minha mãe se tornou num rosto de cão chupando manga. Seus olhostomaram uma forma malvada e estreita.
  17. 17. “Claro que você não tem, Pandora. Garotos ficam para depois. Muito depois. Quando vocêcrescer.”Eu lhe dei um olhar severo. “Vê? É isso, mãe, eu sou tipo crescida agora.”Minha mãe riu e isso me incomodou.“Isso não é engraçado, mãe. Você não me leva a sério. Eu não sou mais pequena. Olha-“ eulevantei minha blusa e mostrei a ela meu sutiã 44. “Meus peitos são super enormes.”A boca da minha mãe se abriu na forma de um circulo perfeito. “Pandora! Abaixe a blusa!Nunca mais faça isso. Nunca.” Ela se levantou e começou a enrolar seu tapete de yogarapidamente. “Agora, eu sugiro que nós tomemos uma xícara de chá e esquecermos que issoaconteceu.” Ela segurou minha mão e me levou a cozinha. Ela botou a chaleira pra ferverenquanto eu sentei na mesa.Tudo deu errado. Eu deveria ter pensado nisso melhor. Eu sou tão inútil em me virar sozinha.“Agora, Pandora” disse minha mãe. “Chá? Ou o que você acha de leite com chocolate?”ThomasTerça, 4 de Agosto.A caminho para encontrar a Panda.Depois do trabalho eu fui à loja do Sr. Sharma para comprar uma rosquinha para a Panda. Eleestava inclinado no balcão lendo jornal e cutucando seu nariz. O barulho da porta o fez pular.Eu fingi estar procurando alguma coisa no meu bolso e quando olhei para cima ele estavaarrumando os cigarros.“Tudo bem, Thomas?”, ele disse.“Muito bem, obrigado Sr. Sharma. E com você?”“Aproveitando o clima, de qualquer jeito. O de sempre?”Eu afirmei com a cabeça. Sr. Sharma é um pessimista de verdade. Para ele as coisas boas erammeramente uma consolação pequena para uma vida horrível.“Aonde a Pandora está hoje?”, ele disse botando uma rosquinha de doce de manteiga e cremenuma sacola de papel.
  18. 18. “Eu estou a caminho para encontrá-la.”“Eu aposto que está. Você é um sortudo da porra, não é?”“Sim, eu sou”, eu não pude conter um sorriso.“Bem, não faça nada que eu não faria.”Eu ignorei isso. Mr. Sharma no quesito paixão não é uma imagem que eu queria em mente.Até ele presumiu que eu e Pandora tínhamos uma relação sexual. Todos meus amigospresumem que eu e Panda temos uma relação sexual. Acho que as únicas pessoas que nãopresumem que estávamos comme les lapins como dizemos aqui, eram minha mãe e a mãe dePandora e não acho que elas estavam convictas.Não é que eu não queira transar com a Pandora. Eu só quero que seja parfait. Eu não estouinteressado em fazer em qualquer canto como animais. Esse é o gosto do Cook, não o meu.Eu caminhei para encontrar Pandora com uma convicção renovada. Essa menina que eu amomerece algo melhor do que uma transa rápida embaixo de um banco. Mas quando meaproximei do nosso local de encontro no ponto de ônibus eu podia ver Panda andando pracima e pra baixo que nem uma pessoa louca e apertei o passo.“Olá, Panda”, eu abri um sorriso largo para minha garota, mas eu não conseguia fazer com queela sorrisse, ela estava realmente triste. “O que aconteceu?”“Não é bom, Thomas”, disse Pandora secando lágrimas de suas bochechas. “Não é bom,porra.”“O que acontecera?”, eu sentei no banco protegido e acenei para Pandora sentar-se perto demim. “Você brigou com sua mãe?”“Não, para falar a verdade”. Panda fungou. “Bem, mais ou menos. Eu quero dizer...”, elafechou seus olhos. “Ela não me escuta, eu tentei contar a ela sobre você. Sobre como soucrescida agora. Crescida o bastante para ter um namorado e fazer coisas com ele, entende?”.“Pandora! Você falou com sua mãe sobre sexo?”.“Eu quis”, Pandora segurou minha mão. “Mas eu nem consegui chegar tão longe assim.”“Obrigado, Deus por isso”, eu suspirei alto. “Não é muito respeitoso da sua parte falar com asua mãe sobre essas coisas. Ela não quer saber disso”.
  19. 19. “Bem, ela deveria!”, Pandora gritou. Ela soltou a minha mão. “Já está na hora, Thomas. Euestou pronta.”Eu olhei pra baixo e a rosquinha em sua sacola. “A questão é. Pandora, que eu não sei se estoupronto para isso ainda. Não com você. Você é especial. Eu não quero estragar isso”.“Você não me ama, então?”. Pandora pareceu petrificada. “Você não pode me amar”.“Não, é precisamente porque eu te amo que não quero pressionar para fazer isso”, eurespondi. “Nós temos tempo, Panda. A hora será em breve”.EffyQuarta, 5 de Agosto.Numa cafeteria em Veneza.Porra, está quente aqui. Eu finalmente tirei minhas botas e botei meus chinelos ontem. UmasHavaianas verdes que minha mãe me comprou por uma estúpida quantidade de dinheiro.Primeiro eu me sentia nua com elas. Minhas botas e eu passamos por um monte de merdajuntas. Tipo, elas são minha armadura.Eu me levantei muito cedo essa manhã. Eu não consigo encarar sentar numa mesa com suaestranha superfície de plástico, comendo aquele pão duro italiano com geléia, junto comminha mãe fingindo estar alegre tentando pensar em coisas para fazermos juntas. Ela deve terlido aquela porra de Guia de passar o tempo em Veneza de ponta a ponta e agora ela quer quenós vamos para um tour cultural, ter certeza de que nenhuma parte de Veneza não foirevirada.Ela está tentando, eu sei que está, mas tudo o que ela faz está me dando nos nervos.Desde nosso primeiro dia eu estava esperando dar de cara com Aldo de novo. Eu até passei emseu andar super devagar e parei na escada, tentando escutar sua porta abrir. Eu não tenhocolhões para bater na porta.Mas essa manhã nós nos encontramos nas caixas de correio. Ele estava mexendo em suacorrespondência. Meus chinelos estavam fazendo mais barulho do que minhas botas,enquanto eu andava em sua direção. Não passo por envergonhada, então fui para perto dele.Aldo olhou pra mim e sorriu.“Bom dia”, ele disse. “Como você e sua mãe estão?”
  20. 20. “Bem, obrigada”. Eu olhei para a correspondência em suas mãos. “Você tem um monte decartas aí.”Aldo suspirou. “Sim, sim. Sempre contas apra pagar, dinheiro para os advogados de minhaesposa. Dinheiro para meus filhos... E para esse apartamento. Nunca acaba”.Minha esposa. Quem teria traído com outra pessoa?, eu pensei. Ele ou ela?“Você tem filhos?”, eu perguntei inocentemente, para ganhar tempo. “Você não mora comeles?”“Eu estou me divorciando da mãe deles”, ele disse. “É necessário me afastar deles também,embora eu não queira. É difícil.”, ele balançou um envelope marrom na minha frente. “E émuito caro!”“Desculpa”, eu disse. “Deve ser meio que uma merda”.Aldo deu de ombros e botou as cartas no bolso de sua jaqueta e me deu um olhar longo.“E aonde está seu pai?”, ele disse sendo direto.“Eu não faço idéia”, minha vez de dar de ombros. “Eles estão separados.”“Desculpe-me. Coitada de você”, ele disse. “É mais difícil para as crianças”.Nós fizemos silêncio. Sujeito legal, eu pensei. Generoso, mas nem tanto intrometido.“Então, Effy”, ele disse depois de um momento. “O que você vai fazer hoje?”.“Sei lá. Talvez explorar mais um pouco”, eu disse. “E me perder, provavelmente”.“É uma cidade labirinto, há definitivamente o risco de se perder se não conhecê-la”, ele fezuma pausa. “Mas algumas vezes pode ser... libertador estar perdido”, ele me olhou nos olhosenquanto falava. “Não acha?”.Venha comigo.“Talvez você possa vir... me mostrá-la?”.Ele olhou seu relógio e então, bem naquela hora, eu vi seus olhos trêmulos sobre meu corpo.Ele parou.
  21. 21. “Por que não?”, ele disse. “Vai me fazer bem também”, ele me gesticulou primeiro a porta.“Vamos lá.”“Aonde vamos?”, eu perguntei.“Santa Maria Del Miracoli” ele disse enrolando as palavras em sua língua.Eu imaginei sua língua em outros lugares. Meus peitos, para começar.“E isso é?”“Uma igreja.”“Ótimo.”“Você irá amá-la.”, ele disse.“Eu sou atéia”, eu disse.Ele balançou a cabeça, me dando um pequeno olhar decepcionado. “Vamos lá, você comcerteza é mais inteligente que isso.”Jesus, até parece que eu me tornei Katie Fitch, a rainha da grosseria e superficialidade.“Foi uma piada”,. eu disse debilmente. “Mais ou menos”.Aldo me sorriu encorajadoramente.“Ah, o senso de humor inglês! Eu preciso tempo para me adaptar, acho”.Nós entramos num labirinto de ruas de pedras e becos onde, em cima, as roupas se secavamnos parapeitos das varandas. Nós enxotamos os gatos famintos para pararmos num pequeno emal tratado quadrado. Um sino soava alto.“Aqui”, disse Aldo, apontando para um estranho prédio com uma fachada plana. “O lugar maisbonito em Veneza”.Não parecia nada para mim. Não como a igreja que meu pai me arrastava com meu irmãoTony todo domingo quando éramos crianças. Nos tempos em que meu pai se taxava de‘espiritual’. Idiotice total, obviamente. Aquela igreja era grande, gótica, majestosa. Essaparecia com nada, vista externamente.
  22. 22. Aldo sentiu que eu não estava impressionada. “Só espere”, ele sussurrou como se fossecompartilhar um segredo fantástico.Eu senti uma faísca quando ele pegou minha mão e me levou silenciosamente até as portas demadeira e por lajes de mármore, e então eu o pude entender. As paredes estavamliteralmente cobertas com mármores marrons e marfim, nos levando a uma altura louca, umteto de madeira entalhada. Era fantástica. Eu poderia estar mais imersa se eu não tivesseconsciente da mão de Aldo nas minhas costas, bem no meio de minhas omoplatas.“Bem”, ele disse. “O que você acha?”.“Eu acho que é fantástico pra porra”, eu sussurrei.Aldo inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: “Sua linguagem é um de certa formainapropriada, Effy, mas o seu coração está no lugar certo”.“Obrigada”, eu disse, estranhamente emocionada.Mas ele estava errado. O meu coração com certeza não estava no lugar certo.CookQuinta, 6 de agosto.Em um ponto de ônibus.“Puta que o pariu”, eu tirei o baseado da minha boca e dei para o Freddie. “Mais fraco do quemijo, isso. Quem te deu isso, cara? É horrível.”Freddie me deu uma daquelas caras de cachorrinho perdido. Deu de ombros com aqueles seusombros de skatista idiota. “Não sei. Um amigo da Karen, acho.” Ele examinou meu rosto, queestava incrédulo pra porra. “Não, não o Johnny White. Eu não sou tão burro.” Ele deixou obaseado na sarjeta.“Bom ouvir isso, meu amigo”, eu bati em seu braço, levantei a mão e a balancei no ar. “Vocêandou levantando empilhadeiras, Fredster? Seus bíceps: mais fortes do que um tijolo”.JJ deu aquele seu sorriso sereno. Não bebe, não fuma de verdade. Nosso Looney Tune da casa.O que ele usa para agüentar as coisas? Ele olhou para o baseado encharcado. “Vocês sãoperspicazes o bastante para brigar com esses dois policiais com olhares bravos vindo em nossa
  23. 23. direção? Ou vocês são maricas? Literalmente ou de outra forma.”,ele se curvou, pegou obaseado e jogou sobre seu ombro.“Seu retardado,” surgiu uma voz irritantemente velha . “Caiu bem em cima das compras quefiz”.Freds, JJ e eu demos de ombro. Fred e eu sorrimos. Não a conhecíamos, não ligávamos.“Vocês têm nenhum respeito a nada nos dias de hoje”, a bruxa continuou. Ela deu umacotovelada nas costas de JJ. “Você, rapazinho, eu conheço sua mãe... ela busca meus livros dabiblioteca para mim. Ah, eu vi você no carro dela. Não pense que eu não falarei a ela o quevocê anda fazendo.”“Eu não. Eu não estava-“ balbuciou JJ vermelho que nem a porra de uma beterraba. Fred e eubufamos com uma risada. E eu não conseguia me conter, me virei.“O que acham de uma rapidinha?”, eu disse correndo minha língua sobre meus lábios. “Oônibus não vai chegar aqui tão cedo”, eu disse enquanto a velhinha armava e desarmava suaarmadilha, os três mosqueteiros andavam até a casa do Fred.Eu tinha uma aposta para ele.FreddieNo galpão“Certo, Freds”, disse Cook esfregando suas mãos como um homem velho e safado. “Eu tenhouma oferta que você não vai recusar”. Não gostei como isso soou, porque ele estaria certoprovavelmente. Cook tem um jeito de conseguir tudo o que quer.“Você vai amar essa, um joguinho pra passar o tempo, só eu e você”.“E o JJ?”, eu disse.“Jay já está curtindo o mundo dele, não é Jaykins?”. Cook se inclinou pra frente na cadeira queele gostava de chamar de sua – ficava no meu galpão, mas que seja – e apontou seu cigarropara mim.“Você fez ontem à noite, né?”“Sim. E daí?”
  24. 24. “Foi bom, não foi?”“Foi divertido. Isso vai chegar a algum lugar?”“Bom, então: quatro semanas, eu e você, quem conseguir mais xoxotas ganha. Tem de terpenetração profunda, cara, e acertar duas vezes o mesmo passarinho não conta”.“Legal”, eu disse sarcasticamente. Mas a idéia do Cook não era tão ruim. Não envolvia nadailegal para começar. E por várias razões eu estava querendo variedade sexual. Que se foda.“É, tudo bem então.”“Resposta certa, meu amigo. Gayjay vai marcar os pontos, mas vamos ter que roubar algumasevidências para dar para ele. Calcinha grudenta, camisinha gozada... esse tipo de coisa”.“Isso realmente não parece sórdido”, eu disse secamente.Mas realmente não importava pra mim. Como eu disse, eu já cansei de fazersignificativamente. Eu amei uma garota, ela caiu fora e me deixou. Eu não vou cair nessaarmadilha de novo.Eu ainda checava meu telefone de hora em hora, para falar a verdade.O que ela estaria fazendo agora?“Então,” Cook estendeu sua mão. “Que o melhor homem ganhe.”Eu apertei meus olhos. Então esse é seu jogo, não é? Eu pensei. Que se foda então.“Absolutamente”, eu disse ignorando sua mão. “O jogo começou.”JJLoja de Kebab“Cai fora, frutinha”, disse Cook. “Isso tem nada a ver com a Effy. Então, você vai marcar apontuação?”Eram 2 da manhã e eu e Cook estávamos num canto do Abrakebabra. Nós tínhamos ido noCaves, onde Fred e Cook transaram (não um com o outro, o Cook também dispôs essa regraem algum canto. E não no clube literalmente, o que eu acho que é desaprovado: Cook fez emum beco e Freddie saiu para a casa da menina). Pandora, Thomas e Naomi estavam lá tambémentão foi uma boa noite mesmo que eu só tenha dançado sozinho e tentando não pensar no
  25. 25. fato de que eu era o único sem a opção de sexo pós clube. Eu estava sentado durante umacanção tomando minha água com gás quando Cook reapareceu.“Eu pensei que você estava transando”, eu gritei.“Sim, terminei. Escuta Jay, eu tenho um plano. Vamos” e ele me levou à loja de Kebabs e mecomprou uma espécie de batatinhas.Ele me explicou as regras no qual meio que fazia sentido. Num jeito totalmente moralmenteduvidoso, obviamente.Há uma razão do Cook fazer esse jogo. Eu não sou fã de psicologia não autêntica e atualmenteeu sou um lixo em coisas com um lado de compromisso empático/emocional, mas nesse casoaté eu conseguia perceber. Effy queria o Freddie todo o tempo que ela ficava com o Cook:Cook perdeu o jogo. Então ele inventou um onde poderia ganhar, o que provavelmente vai,como relações sexuais para o Cook é tipo o sol amarelo da Terra para o Super Homem: semele, eles não tem poderes ou acham que não têm (onde a analogiacom super homem sequebra a menos que você conte encarnações pré-1986, ele realmente não tem poderes semenergia solar, enquanto estou quase certo de que o sangue vai continuar sendo bombeadopelo coração para o corpo de Cook mesmo que se ele não tivesse uma exposição regular àspartes safadas de uma garota).Eu demonstrei minha análise ao Cook. Ele não parecia impressionado, por isso o comentáriode babaca.“Ok, eu vou marcar os pontos”, eu disse finalmente. “Mas, sem interesse nenhum, por quevocê não quis que eu fizesse parte do jogo?”.Cook sorriu de uma maneira infantil. “Porque você iria perder, Jaykins”.“Eu pensei que o que importasse fosse competir”, eu disse ficando um pouco carrancudo.“E é sim. Que é outra área onde você não se dá bem, meu amiguinho virgem”.“Sai fora. Eu não sou virgem”.“Poderia passar por um, amigo”.Um ponto justo onde eu não podia argumentar.
  26. 26. Considerando tudo, eu estava grato pelo Cook ter criado esse jogo. Significava que ele eFreddie eram amigos novamente, que eles ficariam felizes, e portanto eu ficaria feliz também.Relativamente falando, obviamente.EffyQuinta, 6 de agosto.Veneza, à noite.“Então, Effy, o que você acha de Vivaldi?”Aldo e eu estávamos voltando de uma caminhada. Eu estava fazendo o que o Tony chamava decaminhada amadora e instável, esbarrando levemente nele. Ele estava com as duas mãos nosbolsos.Que seja, ele iria se aquecer eventualmente.“Vivaldi”, eu repeti lentamente. “Four seasons, né?”“Isso mesmo”, ele disse. “Ele era de Veneza. Há concertos dele todo o tempo aqui, mas temum hoje à noite que eu sei que vai ser excelente. Talvez você queira ir. E sua mãe, claro?”“Eu acho que ela odeia todas essas coisas clássicas”, eu disse. O que era verdade, por sorte.“Mas eu vou dar uma chance e ir.”Merda. Igrejas velhas e Vivaldi, nem Pandora acreditaria nisso.“Excelente”, disse Aldo. “É a sua música, Gloria. Um pequeno trabalho de um coral. Lindo”.Nós caminhamos em silêncio por um instante. Eu sentindo sua presença como a porra de umbrilho de um Ready Brek. Na entrada do prédio, Aldo parou para pegar uma carta que haviadeixado para trás antes.“Até essa noite, Effy. Eu te encontro no seu apartamentos às sete”.Minha mãe pareceu confusa quando eu disse a ela que iria a um concerto com um homem demeia idade.“Diz quem ele é de novo?”, ela disse com um olhar de soslaio para mim por trás da fumaça deseu cigarro.
  27. 27. “Ele mora nesse prédio. Eu o ajudei a abrir seu apê quando ele ficou trancado para fora”, eudisse. “Olha, é só algo para fazer, nada do além.”“Certo. Fico imaginando qual interesse ele possivelmente poderia ter em você”, ela disse maisdura do que a porra de um osso.“Eu não sei. Um culto ao demônio? Pergunte a ele quando vier me buscar”, eu sabia que elanão iria, ainda bem.Quando Aldo chegou eu tinha acabado de sair do banho, então eu gritei para minha mãedeixá-lo entrar. Eu me deparei com eles conversando na mesa da cozinha, cada um com umataça de vinho. Ele tomou o seu drink e se levantou.“Foi um prazer te conhecer, Anthea”, ele disse. “Você tem certeza de que eu não posso tepersuadir a se juntar a nós?”.“Eu tenho certeza”, disse minha mãe. “Obrigado, de qualquer jeito.”Eu segui Aldo pelo sala e a olhei sentada na mesa com seu livro de guia turístico aberto.Pobre vaca.Eu não estava muito esperançosa para o concerto, e quando terminou, eu já não estavaouvindo. Foi difícil com Aldo perto de mim, cheirando a Dolce e Gabanna ou Versace ou o queseja. Seu braço estava tocando no meu. Só isso. Mas ele nunca olhou para nenhum lugar a nãoser sua frente. Nem mesmo quando eu cruzei e descruzei minhas pernas provocativamente.Mas no começo, quando a orquestra tocou, a música começou e o coral começou a cantar derepente, eu podia escutar o som ecoando pelo teto, bem; foi estranho. Era tocante.Lembre-se, Effy, eu pensei, tu não deves se emocionar.“Maravilhoso”, ele disse enquanto saíamos na umidade. Eram dez e meia e 28 graus. Ele merecompensou com um sorrisinho em seu rosto. “Eu espero que você não tenha odiado cadaminuto daquilo?”“Não, eu...gostei”, eu disse. “Eu achei a experiência divertida”. Era verdade. Eu gostara desentar perto dele. Eu teria preferido se ele botasse a sua mão na minha coxa e deslizasse porentre minhas pernas, mas pelo visto sujeitos mais velhos não são tão diretos em avançar.
  28. 28. “Fico contente por isso.” Aldo disse. “Agora, o que você quer fazer? Uma caminhada de voltaao apartamento?”“De boa”, eu não queria voltar, acho. Eu estava me divertindo.“Nós devemos pensar em algo para fazer da próxima vez, que sua mãe achasse divertido”,Aldo teve esse devaneio enquanto andava devagar pra cima e pra baixo por pequenas pontes.Devemos?“A coisa é que ela não está muito...sóciavel atualmente”, eu disse deslealmente. “Coisaspessoais a estressando. Você sabe”.“Ah”, ele me olhou. “Eu posso simpatizar com isso”.Legal.“Coisas pessoais muito complicadas”, eu acrescentei. “Você não vai querer saber.”“Entendo. Você é protetora com ela, eu posso ver. Deve ser difícil para vocês duas.”“O quê?”“Bem”, ele pareceu estranho. “Seu pai não estar por perto.”“Eu não acho que seja nem um pouco difícil pra ela”, eu disse.Eu podia sentir seus olhos em mim. “E por quê?”.“Porque é o que ela queria. Ela sempre consegue o que quer. E então vira uma bagunçagigante e ela começa a reclamar disso”, eu olhei através dele calmamente. “Eu não tenho nemum pouco de pena dela.”Se Aldo estava surpreso com a minha falta de coração, ele não demonstrou. Ele puxou meusbraços porque um casal quase nos acertou e eu me achei temporariamente sendo puxada paraseu peito. Senti o calor vindo dele. “Por experiência as coisas raramente são facéis assim”, eledisse quietamente. “Talvez seja digno tentar entender.”Que se foda. Eu quase ri na cara dele. Invés disso eu botei a mão na minha testa e fechei osolhos.“Effy? Você está bem?”
  29. 29. “Só um pouco tonta”, eu menti. “É o calor”.Ele sentiu minha bochecha com as costas da mão. “Você está um pouco quente”. E le balançoua cabeça. “Vocês, mulheres inglesas. Criaturas tão fragéis”.Nossos olhos se prenderam um no outro.Eu prendi seu olhar. Olhei para sua boca aberta e macia, bochechas bronzeadas e seus cíliosnegros.Eu queria que você me beijasse.Em vez disso ele pegou meu braço e me guiou por sobre a ponte e pelos becos pavimentadoscom godo de volta ao nosso apartamento.Eu voltei e andei até a cozinha para me deparar com minha mãe sentada na mesa tomandoSambucca com uma velhinha. “Essa é Florence”, disse minha mãe. “Ela mora no apartamentovizinho. Florence, essa é minha filha, Effy”.Ela parecia uma anciã (a velhinha, não minha mãe, embora os últimos meses tenham tiradoum poucoseu brilho), sua pele coberta por rugas, mas com postura ereta, sua mão firmeenquanto segurava sua caneca. Ela era magra como um rodo, com cabelos brancos ebrilhantes retorcidos e presos em sua nuca. Ela estava usando uma camisa-vestido azulpetróleo com uma vertente tripla de continhas pretas até a rachadura, onde seus peitosestariam se ela tivesse algum.“Prazer em conhecê-la”, disse Florence. Inglesa.“Igualmente”, eu disse. “Eu gostei de suas continhas.”Ela as tocou. “Ah, obrigado” ela disse. “Elas são adoráveis, não são? Ébano genuíno, claro, oque eu acho que estaria enrugado agora se eu não tivesse comprado aos setenta. Não temsubstituto para o genuíno, tem, Effy?”“Acho que não”, eu disse. Brilhante pra porra, nós viajamos centenas de quilometros paraItália e minha mãe fica amiga com uma velhinha senil inglesa e tagarela.“Florence se mudou de Londres para cá dez anos atrás”, disse minha mãe.“Meu marido era italiano, mas nós vivíamos em Winbledom” disse Florence. “Quando elemorreu, eu senti uma urgência tremenda de voltar para a Itália. Realmente perversa”.
  30. 30. “Sim.”“Eu decidi vir a Veneza porque foi o lugar que fizemos amor pela primeira vez. Dois desetembro de 1939, o dia antes da guerra ser declarada. A ecstasy antes da agonia, por assimdizer. Benito era um amante estupendo. Dedos bonitos”Ok, talvez eu fosse passar a gostar dela.“Você tem um amante?”, Florence me perguntou enquanto eu sentava na mesa. Mamãesoltou um riso fraco. Eu estudei o rosto da senhora por um momento. Ela era real?“Não na verdade, Florence”, eu disse. “Você tem?”Florence começou a rir e terminou tossindo emitindo aquele som como se estivesse liberandoanos de fumaça de cigarro. Ela bateu em seu próprio peito e disse “Ha ha! Touché, Effy! Ai,esses dias estão acabados para mim. Sinto em dizer que é um caso em que nem o espírito,nem a carne querem. Hoje em dia eu uso Sudoku para dormir.”“Boa dica, Florence”, eu disse sem conseguir tirar um sorriso genuíno do meu rosto. “Eu voutentar isso quando a hora chegar.”Aquela noite de sono demorou a chegar. Eu deitei acordada por horas, um híbrido de Aldo,Freddie e Cook invadindo minha mente e meu corpo. Eu trabalhei com os meus dedos dentrode mim. Eu o queria em todo canto.Eu queria acordar perto dele.EmilySexta, 7 de Agosto.Hotel Bonjour France Vacance! perto de Bordeaux, França.“Aaah, oi” disse Katie alto, sacudindo o cabelo como um rabo de cavalo bagunçado. “O quetemos aqui?”Era o quarto dia de nossas alegres férias em família, mas o primeiro dia aqui no Butlins de LaMer. Nós havíamos passado alguns dias na casa de Cecile e Ed (amigos de nossos pais) em Lyonpor alguns dias e Katie e eu fizemos um bom trabalho em evitar uma a outra, ajudado pelofato de Fabien, o filho de dezenove anos de Cecile, ter transado com ela no quarto dele na
  31. 31. maior parte do tempo. James não é uma companhia muito melhor, mas pelo menos eu possobater nele toda vez que ele abrir a boca.Então agora eu e Katie estávamos tolerando um momento raro de ocupar a mesmaproximidade, sentadas no monte de pedras decorativas do lado de fora do nosso chaléobservando uma família chegar subindo os degraus até os deles. Um rapaz em boa forma comcabelo cacheado e escuro e membros longos e marrons estava trazendo um carregador deLinux e uma mochila enorme. Katie inclinou-se em seus braços, colocando suas pernas numaposição em que elas pareciam mais longas e magras do que elas realmente são.O rapaz subiu as escadas, ele não parecia tê-la escutado, nem ao menos dado uma olhadanela. Má sorte, Katie.“Ei”, ela disse bruscamente. “Você é surdo cego ou alguma coisa?”Ele parou e olhou para ela. “Quê?”“Esqueça”, disse Katie levantando e tirando areia de sua bunda. “Perdedor”, ela escalouarrogantemente as pedras até a praia.“Encantadora”. Ele olhou pra mim, reagiu e levantou suas sobrancelhas. “Jesus, tem duas devocê?”Eu ri pela primeira vez em quatro dias. “Ignore-a”, eu disse, estendendo minha mão. “Nós nemsomos tão idênticas. Meu nome é Emily.”“Josh”. Ele era doce, eu tinha de admitir. Katie ia estragar tudo com seus ataques. Ele olhou devolta pra ela, andando furiosamente pela areia.“Sua irmã sabe que sua mini saia está enfiada em sua calcinha?”, ele disse.Eu passei a gostar dele. “Ah, ela sabe com certeza”, eu disse, enquanto minha mãe saia dochalé radiante como um radar hétero. Eu me levantei rapidamente. “Melhor ir, te vejodepois.” Eu saltei por trás de minha mãe que provavelmente estava planejando sua roupa parao casamento.“Definitivamente”, disse Josh “Até mais tarde, Emily.”“Então?”, disse minha mãe quando nos sentamos para jantar. “Você fez um novo amigo então,querida?”. Boa jogada, ela estava se segurando por uma hora inteira enquanto deixava acomida pronta.
  32. 32. “Que? Quem?”, eu disse inocentemente e comi uma garfada de carne de cordeiro.“O garoto Josh, não é? Ele é muito bonito.”“Ah, ele”. Eu alcancei o vinho tinto para me servir mais uma taça. “Sim, mãe, ele tem uma boaaparência. Acho que a Katie está de olho nele. Né, Katie?”“De jeito nenhum”, Katie rosnou, empurrando sua comida em seu prato. “Meninos bonitosque nem ele não são meu tipo”.Que nem uma porra louca eles não são.“Nem o meu”, eu disse claramente pra minha mãe. “Obviamente.”Minha mãe revirou os olhos e deu um sorrisinho totalmente enfurecido. “Isso que vamos ver.”“Ah, mas vocês poderiam conquistar muito mais”, ela disse. “As duas”, ela começou a recolheros pratos e levá-los ao balcão da cozinha. “Alguém está afim de torta de maçã?”Aqui vamos nós.“ALÔ? EU SOU LÉSBICA!”, eu sibilei alto.“O que quer que você diga, querida!”, cantarolou minha mãe distribuindo porções de torta.Jesus. Eu preferia quando ela negava furiosamente. Seriam duas semanas inteiras só dessamerda.“Sem sobremesa para mim”, eu disse pegando meu telefone. “Eu tenho uma ligação prafazer.”Eu passei por minha mãe que ofegou, desesperada pra ser a última a falar.“É”, disse Katie. “Nada pra mim também. Tenho de tomar cuidado com meu corpo fabuloso.”“Mesmo que ninguém tome”, eu fiz uma observação. Eu fui direto para o quarto batendo aporta na cara da Katie quando ela chegou lá.“Porra de vadia coladora de velcro”, ela disse batendo na maçaneta agressivamente.Eu a deixei entrar depois de minutos de socos e batidas na porta e decidi ligar pra Naomi emum lugar mais privado. Na praia daria. Eu deixei Katie se amarrando nela mesma, como airmãzinha do Jordan. Cílios postiços, base como cimento, saia indo até sua xoxota. Mas o que
  33. 33. eu estou falando... Eu tinha certeza de que ela ia encontrar um idiota pra transar com ela. Eunão imaginei que o pessoal se agitaria tanto por conta do Foam Nite – uma balada da vilaorganizada pelos resorts. Eu preferiria me matar a ir àquela pequena aglomeração.Estava uma noite clara enquanto eu caminhava até a praia. Céu ficando mais escuro de umtom azul. As estrelas estavam começando a aparecer. Eu deitei na areia olhei pra cima e penseina Naomi. Eu sentia muito falta dela. Chequei as horas no meu celular: nem tão tarde paraligar. Ela atendeu imediatamente.“Oi, amor”. Era tão bom ouvir sua voz que eu poderia ter chorado.“Oi, você. Como andam as coisas?”, eu disse.“Ah, você sabe. Fantásticas. Ver minha mãe e seu namorado se amando não pode sersubestimado como uma forma de incrível entretenimento. Eu nunca soube como éestimulante ver dois desesperados apalpar um ao outro a cada segundo da porra do diainteiro.”“Porra, docinho. Isso é malvadeza.”“Sim. É uma merda. Mas hoje seria uma merda de qualquer jeito”, ela suspirou. “E você?”“Mesma coisa. Estou ficando louca. Minha mãe está tentando fazer com que eu saia com umgaroto”.“Oh, Deus. Com quem?”“Um rapaz do chalé vizinho. Ele é OK.”Silêncio.“Eu obviamente não estou interessada”.“Tanto faz. Acha que eu ligo?”“Eu mais que espero que sim!”Eu sabia que ela estava sorrindo, porque ela não respondeu.“Eu queria que você estivesse aqui comigo, agora.”Naomi soltou um gemido. “Eu também, não consigo parar de pensar em nós na minha cama.”
  34. 34. “Eu sei.” Eu hesitei. “Me lembre...o que nós estávamos fazendo na sua cama?”“Bem...”, Naomi começou, mas ouvi passos atrás de mim.“Porra, alguém está vindo”, eu sibilei no telefone. “Eu te ligo depois.”Eu virei para ver quem estava me assustando. Era Josh.“Quem é você? Algum tipo de pervertido?”, eu disse olhando para ele. Eu não podia ver muitono escuro, mas eu poderia dizer que ele estava sorrindo.“Hã, não”, ele disse. “Não, eu sou alguém com orelhas. Não tem mistério: o som viaja.”“Tudo bem”, eu disse a ele, agarrando meu telefone.“De boa. Bem, desculpa. Eu vou te deixar sozinha”, ele disse. Ele marchou para fora da praia.Eu me senti um pouco má.“Ei”, eu o chamei. “Se você estiver sem nada pra fazer amanhã... nós poderíamos, você sabe,sair juntos ou algo assim”.Josh sorriu. “Claro”, ele disse agora andando de costas. “Eu iria gostar disso. Só dê uma batidana nossa porta.”“Excelente”, eu disse dando um tchauzinho alegre.Eu o olhei até entrar em seu chalé, então peguei meu telefone e apertei rediscar.“Ei, você”, eu disse. “Eu estava com medo que você tivesse ido dormir.”“Sem chance. Não enquanto eu estiver pensando em te despir.”“É?”“Você esta com sua calcinha branca de algodão e eu estou beijando o interior de suasadoráveis coxas.”“Eu deveria tirar minha calcinha?”“Não... eu estou fazendo isso. Então eu vou me mover mais para cima... Primeiro devagar,depois...”“Rápido”, eu disse sem ar. “Faça mais rápido.”
  35. 35. “Você ama isso”, ela disse.“Eu amo pra caralho. Você pode ver meus peitos?”“Sim, e você está tocando neles. Seus mamilos estão durinhos. E eu estou me esfregando paracima e para baixo na sua coxa”.“Jesus...”, meu coração estava pulando, ficando mais rápido. Eu tinha minha mão na minhacalcinha, minhas mãos sondando enquanto eu imaginava que era a língua da Naomi. “Eu vougozar”, eu disse. “Eu quero te beijar-“.Com um ímpeto eufórico, eu gozei, com uma mão trêmula agarrando o telefone para perto domeu ouvido.“Eu te amo”, eu disse ao mesmo tempo que Naomi. “Eu te amo muito.”KatieSexta, 7 de Agosto.Eu desci do pinto cada vez mais mole do garoto.“Transa excelente pra porra, querida. Você é gostosa”, ele disse puxando a camisinha pra forae descendo para puxar seus shorts que estavam em seus tornozelos.Eu tirei a areia das minhas roupas e me vesti. “Sim, brilhante. Te vejo por aí.” Eu me inclinei,beijei-o e dei uma acariciada rápida em suas bolas, só para ele se lembrar de mim. E saí dapraia indo em direção ao mar. Eu não tenho intenção de vê-lo de novo, mas era legal sairdeixando uma nota alta.O Foam Nite da vila era obviamente idiota pra caralho, mas pelo menos eu transei. Para serhonesta, eu poderia até escolher com quem. Eu estava usando meu vestido novo verde limãopor cima do sutiã e calcinhas com estampa de leopardo. E me depilei quase toda com ceraantes de sairmos de Bristol. Quando cheguei ao clube eu fui direto para o bar. Antes de eu tera chance de fazer o pedido, alguém estava me oferecendo um drink, mas não fazia o meu tipo,então educadamente neguei. O próximo a chegar em mim era melhor. Alto, boa aparência,sorriso atrevido.“Posso te pagar uma bebida?”, ele gritou por causa do barulho. Eu o olhei de cima a baixo,captei uma amostra de sua cueca branca e brilhante acima de seus jeans, camisa azul
  36. 36. desgastado, cabelo preto despenteado e sorri meu sorriso mais fofo. “Claro. Vou querer um V‘n’ T, obrigada”. Ele sorriu e se inclinou por cima de mim para fazer o pedido. Ele cheirava bem.“Como você está aqui sozinha?”, ele disse, entregando meu drink. “Onde está seu namorado?”“Eu não tenho um namorado”, eu disse. “E eu não vim aqui pra ficar só dançando”, eu olheipara ele, piscando bastante.“Garota safada”, ele disse passando a mão no meu traseiro.Meia hora depois estávamos na praia. Ele não era um amante dos mais sensíveis, mas esseraramente é o x da questão. Sexo é sexo. E sexo era a única coisa que estava deixando essasférias idiotas de doer aceitáveis. Isso e o pensamento sobre tudo o que eu deixei para trás.Não tinha nada em Bristol me esperando, a menos que você conte humilhações e memóriasdolorosas. O que eu não conto, por mais que pareça engraçado. Duas semanas que eu nãopoderia de jeito nenhum dar de cara com o Freddie só poderia ser boa coisa, mesmo que fosseem um hotel de merda que seria como a porra de Blackpool, se não tivesse tanto sol.Tomando banho de sol o dia todo e transando a noite toda. Há jeitos piores de se passar otempo. Eu comecei como eu pretendia seguir, transando com um cara elegante de umadespedida de solteiro numa cabine vazia de uma balsa. Ele era vil, na verdade, vestido em suacamisa polo e berrando “Oh deus, sim” quando gozou.Depois Fabien na casa de Cecile e Ed. Meio nerd, mas gostava de mim, o que era o objetivo eele me fodeu gostoso em seu quarto por quase oito horas. Eu estou certa que seus pais sabiampor causa do barulho, mas ninguém disse nada. Deve ser normal na França. Eles se sentemmais confortáveis com relação ao sexo. Na verdade, foi doloroso depois de um tempo, mas eujá me acostumei com a dor. Não me afetava. Melhor do que não sentir nada.Emily não aprova, claro, mas ela podia ir se foder. Ela não consegue lidar com o fato de que eusou mais pegável do que ela. É, ela esta andando por aí agora com aquele olhar convencido emseu rosto, como se o sonho do amor jovem tivesse dado um soco em sua cara. Mas eu tenhouma notícia para ela: não conta se você for uma sapa. Não é a mesma coisa, porra.Quando eu cheguei a Emily já tinha adormecido. Eu sentei na minha cama e tirei minhasroupas. Meu corpo se sentia como estivesse ferido, machucado. Eu quase sempre durmopelada, mas eu roubei uma das blusas gigantes de lésbica da Emily, deitei na cama e boteimeus joelhos perto de meu peito.
  37. 37. E tentei não chorar.EmilySábado, 8 de Agosto.No chalé.Já passara da uma da manhã quando fui para a cama e só Deus sabe quando a Katie foi, entãonenhuma de nós estava interessada quando nosso pai tentou nos acordar às oito e meia. Eu omandei pra fora, mas consegui captar as palavras ‘família’ e ‘aulas de surfe’. O bastante paragarantir que eu ficasse em estado de coma até meio dia. Quando eu acordei Katie tinha idoembora e eu tinha a casa só para mim. Euforia. Eu fui até a cozinha em meus pijamas epreparei um copo de chá. Eu estava passando geléia no pão quando minha mãe, meu pai eJames voltaram da manhã de esportes aquáticos, grudados.“Ahá, ela acordou!”, disse meu pai. Continuava jovial então. Perfeito.“Estou feliz que você já está de pé”, disse minha mãe, pegando a chaleira para encher de novo.“Eu pensei que você, Katie e eu poderíamos passar a noite no SPA. Um pouco de tempo sópara as garotas. Eu disse que iria encontrar Katie na cidade daqui a pouco.”Eu realmente, realmente preferiria não ir.“Obrigada, mãe. Parece legal, acho, mas eu não estou querendo ir. Eu iria dar um passeio.Sozinha.”“Vamos lá, Emily. Sai dessa.”Pelo amor de Deus.“Sair do que? Eu estou bem. Eu só estou querendo uma tarde pra mim mesma.”Minha mãe suspirou. “Tudo bem. Talvez amanhã, então”.“É. Talvez.”Ela continuou tagarelando no meu quarto. Tudo bem se ela não tivesse feito a proposta, masfez tudo parecer falso pra porra.
  38. 38. Eu não me incomodei em dizer que eu tinha planos pra sair com o Josh hoje. Eu iria escutar aténão ter fim. Eu esperei todo mundo ir embora antes de pegar minhas coisas pra ir para praia eparar em seu chalé.Eu bati em sua porta e ela abriu quase que imediatamente.“Obrigado, Deus, por isso”, disse Josh. Eu podia ouvir uma voz alta de mulher no fundo quandoele puxou a porta por trás dele. Eu levantei minhas sobrancelhas.“Minha mãe” ele disse. “Ela sabe como falar muito, Deus a abençoe. Eu convidaria você aentrar, mas ela já está ficando molhadinha em suas calcinhas com o pensamento de umacolega em potencial pra seu filho depravado.”“Então”, eu pressionei. “Depravado?”.“Longa história, Emily. Vamos dizer que mamãe não é a mulher mais progressiva do mundo.”Uma pequena luz surgiu. “Ahá”, eu disse. “Você é gay.”Josh tinha escovado os cabelos para trás exageradamente.“Eu, querida? Por que você pensaria isso?”“Só um chute.”“Bom trabalho, Sherlock” ele olhou pra mim. “E você?”“Também”, eu disse. “É agora que batemos um na mão do outro pra criar laços?”Ele sorriu. “Sim, se nós fôssemos uns idiotas retardados”, ele me olhou de cima a baixo. “Euachei que tinha alguma coisa em você. Meu gaydar infalível, como sempre.” Ele olhou de voltapara meu chalé. “Seus pais aceitam isso normalmente?”“Não. Eles estão fingindo que não é verdade. Você sabe, negando totalmente, esse tipo decoisa.”Nós chegamos ao topo das pedras. Josh tirou seus chinelos e os colocou em sua mochila.Estava muito quente, nenhuma nuvem em nenhum canto. A praia já estava lotando.“Quer achar algum lugar mais privado?”, disse Josh. “Eu ouvi falar que tem uma praia rochosaperto da península.”“Você está falando daquela península a cinco quilômetros?”, eu resmunguei.
  39. 39. Mas meia hora depois nos encontrávamos em um trecho de areia deserto longe daquelascrianças berrando.Nós colocamos nossas toalhas em cima de algumas rochas e eu passei em mim mesma filtrosolar fator 50. Eu me despi para ficar em meu biquíni e me sentei.Ele se sentou ao meu lado e pela primeira vez eu pude olhar pra ele propriamente. Cabelolongo e marrom, olhos castanhos, ombros largos, e usando bermuda de cós baixa, cáqui.“Escuta”, ele disse enquanto olhávamos para aquele mar perfeito e um casal de barcosdesaparecendo no horizonte. “Eu só quero me desculpar por te envergonhar ontem à noite,quando você estava ao telefone.”“Esquece. Me desculpe por ter sido tão grossa. Eu só estou com raiva por ter que passar asférias com os meus pais. Você sabe, sentindo falta da minha namorada.”Josh cutucou alguns seixos com um galho.“Eu sei exatamente o que você está dizendo. Eu terminei com o meu namorado alguns mesesatrás. É por isso que meus pais me trouxeram aqui... me persuadiram a vir pra cá porqueacharam que iria me animar. E claro que eles pensaram que eu ia abrir meus olhos que lá nofundo eu sou hétero de carteirinha.”“Foda-se o que eles dizem”, eu resmunguei. “Todo mundo na minha família odeia a Naomi.Minha namorada. Eles acham que ela me transformou numa lésbica. Se eles soubessem quefoi eu que a persuadi...”, eu ajeitei meus óculos escuros. “A pior é a Katie, minha irmã. Ela nãoconsegue aceitar que eu não sou que nem ela. Ela é a porra de um imã para garotos. Ela é todaconvencida, entende?”“Para falar a verdade, ela parece bem insegura para mim” Josh disse claramente.“Isso é uma piada?”, eu disse. “Insegura?”“Totalmente. Ela é desesperada. Como foi provado ontem quando eu cheguei com minha mãee meu pai. Profundamente carente.”Por algum motivo isso me incomodou.“Ela não é carente!”, eu disse. “Ela sempre está confiante para porra com tudo. Ela nunca ficousem um namorado.”
  40. 40. “Claro que ela nunca ficou sem. Ela provavelmente dá pra todo mundo”, Josh se virou pra meencarar. “Está claro, Emily. Eu conheci um monte de meninas que nem ela.”“Tá”, eu disse baixo. “Talvez você esteja certo”.Já estava na hora de eu e minha irmã termos uma conversa séria.EffySábado, 8 de agosto.VenezaMinha mãe, eu e Florence esvaziamos três garrafas de vinho ontem à noite, e mesmo assim eume encontrei vasculhando armários em busca de mais bebidas à meia noite. Eu encontrei umacoalhada de limão liquida. Eu me servi com metade da garrafa em uma caneca. Nojento pracaralho. Eu vomitei por uma hora e dormi no chão do banheiro. Minha mãe me achou.“Jesus”, ela se ajoelhou, segurou meu queixo e chacoalhou minha cabeça.Eu abri meus olhos. “O quê?”.“Você não sabe quando parar?”, ela disse secamente.“Parar com o quê?”, enquanto eu falava, eu podia sentir meu lábio se rachando.Ela me deu um olhar severo.“Meio litro de Limoncello depois de todo aquele vinho? Meu deus... e você vomitou em todaminha bolsa de maquiagem”.Ela se levantou e enxaguou uma flanela na pia.“O que você está fazendo?”.“Eu vou limpar toda essa bagunça. Cristo, olha o seu estado”.Antes que eu pudesse protestar ela começou a limpar meu rosto gentilmente. Foi legal.Relaxante. Por alguns minutos só havia o som de suas pulseiras batendo e a minha respiração.“Está muito tarde para um banho”, ela murmurou. “Sem água quente, de qualquer jeito”. Elaparou de limpar e tirou o cabelo do meu rosto. “Vamos lá. Hora de dormir”.
  41. 41. “Me deixa”.Ela me ignorou.“Vamos tirar isso. E sua saia”.Ela segurou meus braços e me puxou para que eu me sentasse na ponta da banheira.“Eu posso me despir sozinha, mãe. Eu não sou um bebê”, eu disse enquanto uma onda de doragonizante surgiu em minha cabeça. “Só me dá a porra de um paracetamol. Eu vou ficar bem”.“Não se mexa”, ela disse e saiu para a sala. Dois minutos depois ela voltou com algo largo ebranco que obviamente tinha afanado de uma velhinha.“Uma camisola? Isso deve ser uma piada”.Eu me levantei desajeitada. Eu estava nua e tremendo agressivamente. Minha mãe deslizou aroupa de velhinha pela minha cabeça, colocou meus braços para dentro e abotoou até a minhagarganta. Eu me senti como se tivesse cinco anos.“Boa garota”, ela disse tranquilamente. “Boa garota”.Ela segurou minha mão e me guiou até meu quarto, puxou o lençol da minha cama. Eudesmoronei no travesseiro.“Mãe”, eu disse sonolenta, observando-a fechar as persianas. “Não feche completamente”.Ela as deixou e veio em minha direção. Me cobriu com o lençol e apagou a luz.“Você vai ficar bem, Effy”, ela disse. “Tudo ficará bem”.Mas ao meio dia estávamos de volta à guerra fria. Certo, eu a deixei cuidar de mim, mas euestava sob influência. Não significava que ficaríamos grudadas uma na outra hoje de manhã.Todas as coisas que estavam lá antes continuavam lá.Eu vaguei pela cozinha me sentindo uma merda. Minha mãe estava na mesa de costas paramim. Eu fechei meus olhos. Minha cabeça cambaleou. Eu bebi suco de laranja, tomei trêsaspirinas e peguei o chaveiro extra.“Eu vou sair”.
  42. 42. Minha mãe me olhou por cima do livro de frases que estava estudando, inutilmente já que elanão falou uma palavra em italiano desde que chegamos aqui. “Para onde?”.“Só passear, tomar um ar. E eu talvez vá ver... qual é o nome dela?”.“Florence?”, disse minha mãe. “Talvez eu vá com você”.“Nesse caso estou indo à Lan House”, eu disse calmamente.“O que raios há de errado com você?”, minha mãe sentou furiosamente de volta na cadeira.“Eu só quero ficar sozinha. Entendeu?”, eu estava sendo uma vadia e ela não merecia isso, maseu tenho uma reputação a manter.“Então você não está interessada a se juntar a nós mais tarde?”, ela disse claramente,fechando seu livro e se servindo com mais café.“Nós?”.“Aldo me convidou – nós – a uma excursão numa pequena ilha de Veneza”, ela disse. “Eu achoque se chama Lido”.“Tudo bem”, eu lutei contra o estímulo de chutar sua cadeira. “Bem, sim, eu vou. Por quenão?”.Minha mãe sorriu e acendeu um cigarro. “Legal. Vai ser bom sentir o cheiro do mar. Nósescolhemos a época mais quente do ano para vir a uma maldita cidade no mediterrâneo. Nãoé a toa que todos os nativos vão para o campo. Bem...”, ela começou a colocar suas coisas emsua bolsa: óculos escuros, carteira, telefone, maquiagem. “Ele é um bom homem, não é?Gentil”.E ele é meu, eu pensei. Não seu.Houve uma batida alta na porta.Minha mãe olhou em seu relógio. “Merda. Eu não percebi que era tão tarde. Deve ser oAlfredo”.“Eu vou atender”, eu disse, me atirando para fora da cozinha.Quando abri a porta do nosso apartamento, Aldo estava lá com Florence. Seu braço cruzadocom o dele.
  43. 43. “Olá, querida”, ela sorriu pra mim. “Eu espero que você não se importe com uma velhinha debrinde”.Eu teria ficado puta se fosse outra pessoa. Mas Florence podia encantar os passarinhos daporra das árvores, e podia fazer companhia para minha mãe.Isso pode acabar dando certo.“Claro que não” eu disse. “Quanto mais, melhor”.Enquanto todos nós descíamos as escadas, minha mãe na frente, Aldo se virou pra mim. “Lidoé um lugar extraordinário, Effy”, ele disse. “Faz parte de Veneza, mas é muito diferente.Principalmente a arquitetura. Várias construções com decorações de arte gastas que já foramincríveis. Agora é, acho que vocês ingleses diriam, um glamour que está desaparecendo. E éum pouco misterioso. É aonde gravaram Death in Venice?”.Eu fiquei sem expressão.“Um filme dirigido por Luchino Visconti. Muito perturbador”.“E um livro”, minha mãe observou. “Sobre uma escritora que se apaixona por um rapaz maisnovo”.Eu aposto que ela só leu isso essa manhã na porra de seu amado guia turístico.Mas eu estava ansiosa para ir. Lido soa como aquele tipo de lugar aonde o real se torna irreal.E isso era perfeito pra mim.Nós tomamos um táxi aquático e o ar salgado lentamente levou minha dor de cabeça embora.Enquanto nos distanciávamos de Veneza, eu olhei de volta para a cidade, ardendo com o calor.Minha mãe pensou que estava na porra do Dolce Vita ou coisa assim, com um lenço amarradona cabeça e óculos escuros. O vento estava bagunçando seu cabelo. Eu sorri com a parte detrás de sua cabeça.Quando chegamos, Aldo nos levou diretamente para almoçar em um hotel chique perto daágua. Um prédio incrível pêssego e dourado aonde as pessoas pareciam ter sido presas notempo. E agiam desse jeito, também. Eu juro que o sujeito que nos levou à nossa mesa securvou para nós.
  44. 44. Assim que nos sentamos, eu levantei novamente.“Aonde você vai?”, minha mãe perguntou.“Banheiro”, eu disse sem olhar pra ela. Eu precisava me recompor.No banheiro eu subi em uma das pias e me sentei por um tempo, massageando minha mãocom o creme grátis e encarando todos que entravam. Todos desviavam o olhardesconfortavelmente. Não era minha culpa se eles se assustavam comigo. Eu não estavafazendo qualquer coisa errada.“Ah, aqui está você!”, disse Aldo sorrindo quando voltei. “Eu estava pensando pra onde vocêtinha ido”.“Só observando o lugar”, eu disse me servindo uma taça de vinho. “Lugar legal”.“É mesmo. Eu só estive aqui uma vez, na noite do meu casamento”.“Eu estou surpresa que tenha coragem de voltar aqui”, disse minha mãe.“Ao contrário, é uma lembrança feliz para mim”.Eu tomei todo o meu vinho e coloquei mais.Abastacendo o barco, como meu pai diria.“Effy, sem exagerar”, disse minha mãe.Eu a ignorei e tomei um grande gole de vinho. Assim era melhor. Eu estava começando a mesentir bem e bêbada. Eu fiz um gesto para o garçom trazer mais do mesmo.“Effy...”, disse minha mãe como se estivesse avisando a uma criança para ficar longe datomada.“Ah, relaxa, mãe”, eu disse. “Relaxe. Tome mais vinho”, eu desastrosamente servi vinho emseu copo, então no de Aldo, no de Florence e no meu. Eu me senti como se estivesse pairandosobre a mesa, olhando com olhos estreitos Aldo tentando puxar conversa com minha mãeenquanto ela comia seu espaguete à bolonhesa. Como você está aventureira, mãe. Por quevocê não simplesmente pede ovos e batata e acaba com isso?Florence percebeu meu olhar e sorriu maliciosamente.
  45. 45. Uma salva de palmas me trouxe de volta à terra. Do outro lado da sala um sujeito num ternobranco se curvou e sentou em um grande piano, agitando a cauda de seu casaco enquanto ofazia. Eu ri muito alto e algumas pessoas me deram um olhar severo. Que se fodam.Ele começou a tocar a música do Billie Holiday, ‘Lover Man, Oh Where Can You Be?’, uma dasminhas favoritas, acredite se quiser. Eu me inclinei, minhas mãos no meu colo e olhei paraminha taça, respirando o cheiro picante e cantarolei junto.“Adorável”, disse Florence. “Me leva de volta”.Eu revirei meus olhos para olhar para ela. Ela captou meu olhar e sorriu de novo, entãosubitamente ergueu sua taça.“Para situações estranhas, não é, Effy?”, une ela meio que murmurou.Eu balancei meu copo precariamente, o vinho respingando em cima da mesa. Minha mãeolhou inquieta.“Que situação estranha?”, ela perguntou, seus olhos se ampliando.Eu dei a ela um sorriso irritante.“Nada para se preocupar, Anthea”, disse Florence colocando sua mão em cima da mão deminha mãe. “Nós somos todos amigos aqui”.Está tudo bem, Florence. Finja ser senil.“Como está seu bife, Effy?”, disse Aldo. Eu tinha esquecido que ele estava ali.“Certo, é isso”, disse minha mãe de repente, pegando o meu copo. “Você vai ficar doente.Coma sua comida”.Eu estava quase pegando minha taça de volta quando o pianista começou a tocar uma coisanova. Eu não reconheci, mas Florence uniu suas mãos em um êxtase musical. Eu me levantei ecomecei a me balançar e dançar, meus olhos se fecharam.“Sente-se, pelo amor de Deus”, minha mãe me sibilou.Ignorando-a, eu segurei as mãos de Aldo. “Dance comigo”, eu disse tentando levantá-lo. Seucheiro era adorável.Aldo riu. “Eu acho que talvez você não esteja acostumada com vinho italiano”.
  46. 46. Ele gentilmente se desvencilhou das minhas mãos, e eu me senti balançar. Eu estava maisbêbada do que pensava. Eu me sentei no chão e ri. Eu senti as mãos de minha mãe nos meusombros. Ela colocou a boca perto do meu ouvido e disse, “Você precisa levantar agora. Tudovai ficar bem, mas você precisa levantar. Você está se envergonhando”.“Eu estou tentando me divertir”, eu disse. “Não estrague”.Seus lábios, suas mãos, meu garoto de olhos castanhos.Então Aldo veio e se ajoelhou ao meu lado. “Deixe-me te ajudar a levantar, Effy”, ele disse.“Parece que você caiu”, ele colocou seus braços por baixo de meus cotovelos e tentou melevantar, mas apenas conseguiu levantar meus braços sobre minha cabeça. Me fez rir.Enquanto eu me levantava um garçom apareceu e disse, em inglês, “Posso trazer um copo deágua pra sua filha?”Filha?! Eu ri alto e disse, “É, certo. Ele é meu papai. Ele, tipo, me espanca... quando eu soutravessa, mas se sou uma boa garota ele me dá a porra de uma transa”.“Effy!”, minha mãe disse. Ela cobriu seus olhos com a mão. Mortificada, ela disse, “Pelo amorde Deus, você vai fazer com que eles nos expulsem”.Eu olhei para Florence, que era a única que eu estava remotamente preocupada em ofender,mas ela estava olhando pra mim com um meio sorriso em seu rosto. Qual era o jogo dela?Então a profecia de minha mãe se tornou verdade e nós fomos expulsos. Alguns convidadosingleses do hotel tinham se queixado, aparentemente. Como se eu ligasse.Quando chegamos lá fora minha mãe se virou para Aldo e disse, “Me desculpe por Effy. Eu nãosei o que aconteceu com ela”.Eu balancei minhas mãos na frente dela, com tanta raiva que eu queria agarrar o cabelo dela ebater sua cabeça na parede repetidamente. “Oi? Eu estou aqui”, eu gritei.Minha mãe desviou seu rosto de mim. “Você está com bafo”, ela disse.“Por que você liga?”, eu murmurei. “Está tentando impressionar ele, não está? Cai fora.”“Eu adoraria”, ela disse, com o rosto vermelho. “Mas para o melhor e para o pior eu sou suamãe, e não posso te deixar nesse estado”.
  47. 47. Que tocante. Era um beco sem saída. Eu sentada na calçada desejando que ter pegado ametade da garrafa de vinho que estava na mesa.Um movimento me fez olhar pra cima. Florence tinha tropeçado. “Oh, Deus”, ela disse. “Eunão estou muito bem. Muito vinho. Anthea, querida, pode me levar pra casa?”.“Claro”, disse minha mãe. “Nós todos vamos. Mas você está bem? Deveríamos encontrar ummédico?”.“Ah não, não precisa. Eu só preciso dos meus remédios e da minha cama. E não precisamacabar com seu dia assim tão cedo. Eu tenho certeza de que Aldo não vai se importar de cuidarda Effy”.Ela olhou pra Aldo, que disse rapidamente, “Claro... Effy e eu vamos ficar e tomar muito café ecomer muito bolo”.“Então está decidido”, disse Florence de maneira entusiasmada, até demais. E ela acabou depiscar para mim? Espertinha pra caralho.Minha mãe segurou o braço de Florence e virou para Aldo. “Sinto muito por hoje”, ela disse.“Estou me sentindo terrível”.“Não se sinta”, Aldo respondeu. “Não precisa”.Eu podia sentir minha mãe me olhando, mas me recusei a encará-la. Quando olhei pra cima,ela e Florence estavam indo embora.Aldo sentou do meu lado, suas mãos descansando em seus joelhos levantados. “Isso foi umaperformance e tanto”, ele disse. Eu olhei para seus tornozelos e pés, nus em seus mocassins decouro.“Effy”.“O quê?”.“Eu disse que isso foi uma performance e tanto”.Eu dei de ombros e acendi um cigarro e me senti imediatamente nauseada. Mas isso iriapassar.“Você está... você está em algum tipo de encrenca?”, Aldo disse, sem noção alguma.
  48. 48. “Encrenca?”, eu ri sem humor algum. “Talvez essa seja uma palavra para a situação”.“Quer me contar?”.Você realmente não quer saber“Não importa”, eu disse solenemente. “Eu só queria alguém para me fazer esquecer”, eu tremiapesar do calor.Aldo se moveu para mais perto de mim. Ele tirou sua jaqueta e botou em volta de meusombros.“Álcool diminui a temperatura do seu corpo”, ele disse. Ele tirou um cigarro do meu maço.“Eu pensei que você desaprovava o fumo”.“Eu desaprovo. A desgraça do ex-fumante”, ele disse deixando as mãos em forma de conchaenquanto o acendia. Ele soltou o ar. Sua mão tremeu um pouco enquanto me devolvia oisqueiro. “Eu devo dizer que estou... incerto sobre você, Effy”, ele disse, não olhando paramim, mas sim em frente.“O que quer dizer?”, eu soei mais inocente do que me sentia. Quando ele virou pra me encararmeus olhos caíram para o cinto em suas calças. Eu pensei na minha boca no seu pinto e subirnele, senti-lo preencher minha boceta.Pare Effy. Não faça algo estúpido.Aldo balançou sua cabeça, apagou o cigarro e se levantou. Ele estendeu sua mão para melevantar em sua direção e colocou seus braços em mim. “Pobre Effy”, ele disse.Eu descansei minha cabeça em seu peito, senti seu cheiro e ouvi a batida do seu coração. Euarqueei minhas costas para que meus peitos se pressionassem nele e, quando ele não mesoltou, movi o braço coloquei minha mão em seu pinto. Ele não me empurrou imediatamente,ele esperou um pouco. Nesse tempo eu consegui o que precisava. Senti-lo excitado com meutoque.“Você está um pouco bêbada, Effy”, ele disse baixo. “Isso não é o que você quer.”“Você não sabe o que eu quero”, eu disse rouca. “Você não sabe mesmo.”
  49. 49. “Talvez não”. Aldo pegou outro cigarro e acendeu. “Mas você querendo ou não, eu voucomprar para você um café forte e algo bem doce para comer”. Ele abotoou sua jaqueta sobremeus ombros. “Vamos lá. Você vai se sentir muito melhor, eu prometo.”NaomiSegunda, 10 de agosto.The Caves, Bristol.“Eu ouvi falar na sua maratona infantil de sexo”, eu disse à Cook, enquanto ele zumbia a minhavolta como uma vespa excitada. “E independente do fato de não estar mais interessada empintos, de qualquer natureza, eu nunca, nunca, nem em um milhão de anos, nem se o infernocongelasse, nem que nós fossemos os últimos humanos vivos e só transar com você pudesseme salvar de ser comida viva por uma bactéria medonha, nunca, NUNCA deixaria vocêencostar seu pinto em mim. Ficou claro?”“Você ama isso”, disse Cook, tirando um baseado meio fumado de seu bolso de trás. “Se euparasse de tentar transar com você, Campbell, você ficaria devastada.” Ele fechou o zíper desua jaqueta, que estava rasgada na parte inferior de um braço.“Ah, querido. Você precisa de alguém pra cuidar de você”, eu puxei o revestimento xadrezrasgado, “não pra transar contigo.”“Idiotice pra caralho”, ele disse agradavelmente. “Quer se juntar a mim para fumar?”Eu vi JJ com olhar vazio do outro lado da pista de dança.“Não, eu acho que eu vou conversar com o Jeremiah”, eu disse. “Ter uma conversa decente eadulta.”“Justo, senhora Naomi”, Cook foi em direção à porta. “Mas se encontrar Frederick, diga a eleque ele tem de me alcançar, Cookie está na frente dele com muito vapor. Facinho, comosempre.”“Eu não vou me envolver. Isso é imbecil e triste”, eu disse. “Mas eu vou dizer para ele aondevocê está e você pode dizer isso a ele”, eu vi Cook desaparecer pela porta antes de ir encontraro JJ.
  50. 50. Eu saí hoje para me recuperar. A parte de mim que estava ocupada em sentir falta da minhagarota. Mas o que aconteceu foi que me encontrei procurando por ela nas multidões. Ridículopra porra. Eu estou perdida.Senti alguém cutucar as minhas costas. JJ apareceu atrás de mim.“Quer ver uma mágica?”, ele começou a dizer ansiosamente, começando a colocar as mãosnos bolsos.“Não, JJ. Eu realmente não quero”. Peguei sua mão. “Mas vamos sentar em algum lugar.”“Sério?”, ele parecia confuso.“Para conversar”, eu disse rindo. “Sem gracinhas.”JJ me seguiu para uma banqueta gasta encostada na parede. Um casal vigorosamenteesfregando o corpo um do outro estava esparramado nela. Eu bati no ombro da garota e dei aela o meu olhar mortal infame e os dois foram para o lado e nos deixaram sentar.JJ estava simultaneamente impressionado e com cara de quem sentia muito.“Então, o que há com o Cook e essa competição maluca de sexo?”, eu disse. “Ele não podeapenas chorar como um ser humano normal?”“Sim”, disse JJ, “passa um pouco dos limites, admito.”Para provar o que JJ estava falando, Cook reapareceu, dessa vez com uma garota atrás dele.Ele a levou para o sofá que estava na nossa frente, e começou a enfiar a língua em suagarganta. Boa, Cook. Sutil.JJ os espiou. “Ele ficou com ela quando viemos aqui semana passada. Eu estou reconhecendo atatuagem de serpente no pé dela. Devemos sentar em outro lugar?”“Eu não vou sair agora. Só vamos fingir que eles não estão aqui”. Eu ainda tinha um copo deplástico quase cheio com vodka e água tônica. Tomei um grande gole. JJ tomou um gole de suaágua.“Por que você não bebe, JJ?”, eu perguntei a ele.Ele olhou pra mim e rapidamente desviou o olhar de novo. “Eu não gosto muito do sabor”, eledisse.
  51. 51. “Esse é realmente o motivo?”JJ sorriu nervosamente. “Um deles”, ele tomou um gole de sua água. “Então, Naomi...”Eu o interrompi, tentando acabar com seu tormento. “JJ, você sabe que eu não ligo para o queaconteceu entre você e Emily.”Ele olhou para a garrafa em suas mãos e começou a tirar o rótulo. “Não liga? Digo... bom, ficofeliz. Foi só um ato de caridade. Da parte dela, obviamente.”Eu o vi brincar nervosamente com a garrafa. “Ela gosta de você”, eu disse. “Eu não ouvinenhuma reclamação, também... você sabe, sobre o-”O rosto de JJ de repente estava banhado em uma coloração rosa avermelhado.“Que seja”, ele murmurou. “Sei quando vocês estão sendo condescendentes comigo, Naomi.”“Porra. Não, JJ. Eu não estou sendo condescendente com você. Você é mais inteligente do quetodos nós”, eu disse, me sentindo mais desajeitada a cada segundo. “Você realmente acha quetransar com qualquer coisa que se mova te faz especial?”, meus olhos voaram para Cookbrevemente. “Ou te faz feliz?”“Me faria muito feliz”, disse JJ, finalmente soltando a garrafa. “Me sentir normal.”Eu concordei com a cabeça. Eu sei como era sentir que todo mundo estava rindo de uma piadaque eu não conseguia entender. Senti isso por quase toda a minha vida.“Você vai ficar bem”, eu disse. “Eu prometo.”JJ aceitou isso com um meio sorriso. “Enquanto isso”, ele suspirou, gesticulando para nossooposto. “Estou aqui meramente para observar...”Cook estava se satisfazendo com afagos completamente exagerados. Sua mão estava dentrodo zíper da calça da garota enquanto ela se contorcia ruidosamente em seu colo.JJ e eu trocamos olhares entretidos. Eu senti uma presença ao meu lado.“Tudo bem?”, Freddie caiu pesadamente no nosso meio. “Aonde está o Cook?”“Bem na sua frente”, respondeu JJ.“Merda, já?”, Freddie suspirou e jogou a cabeça para trás enquanto olhava para o teto.
  52. 52. “Ah, Freddie”, eu disse. “Cook disse que você teria que mexer o seu traseiro se você quiser teralguma chance de ganhar esse joguinho”, eu disse a ele. “Apenas repassando.”“Obrigado.” Freddie olhava para todo lado, menos para o que estava na nossa frente.Mas que lindo grupo de macacos nós formávamos.Depois de um tempo, Freddie sentou-se direito de repente, bateu em seus joelhos com asmãos e disse, “Então... como está indo com a Emily?”“Bem. Ela está de férias com o resto da porra da família Addams.”Ele levantou as sobrancelhas.“Eles me odeiam. Particularmente a gêmea do mal.”JJ se inclinou na direção do Freddie. “É estranho. Mesmo elas sendo idênticas, às vezesesqueço que Katie é irmã da Emily”, ele disse. Sua face se iluminou: “Ei, Freds, tivemosrelações sexuais com gêmeas! É como em um filme pornô...”. Seu sorriso se desmanchou.“Digo, pelo o que ouvi dizer.”Freddie esfregou a mão em seu rosto. “Não tem graça”, ele disse. “Ainda me sinto mal porcausa disso.”“Eu não me incomodaria”, eu disse. “Katie é uma vadia total. Ela mereceu tudo o queaconteceu.”“Ela não é tão má assim”, Freddie respondeu. Então, vendo minha expressão: “Quer dizer,talvez ela tenha alguns problemas e tal...”“Certo. Enquanto a Effy é um ser humano bem ajustado”, eu disse sem pensar.Freddie cruzou seus braços em seu peito e curvou os ombros. “Que porra isso quer dizer?”“Nada. Tem-se que questionar a saúde mental de alguém que deixaria uma garotainconsciente para poder transar com o namorado dela numa barraca...” eu aspirei. “Só isso.”“Você não sabe de tudo”, disse Freddie furiosamente. “Só cuide da porra da sua vida.”JJ encarou o rótulo de sua garrafa atentamente.“Tudo bem”, eu levantei meu copo pra ele. “Tchau então.”

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