O desemprego - Um caso de sucesso

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O desemprego - Um caso de sucesso

  1. 1. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Universidade do Algarve Escola Superior de Educação e Comunicação Mestrado em Educação Social - 1º Ano Unidade Curricular de Pobreza e Exclusões Sociais 2013/2014 O OUTRO LADO DO DESEMPREGO Um caso de sucesso Docente: Vanessa Sousa Discentes: Cecília Pires, nº 40046; Rita Gonçalves, nº 41807 e Ricardo da Palma, nº 43043 Faro, novembro de 2013
  2. 2. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso “Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atómica: a vontade.”. Albert Einstein
  3. 3. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Índice Introdução.............................................................................................................................. 3 1. O Objeto de estudo ........................................................................................................... 4 1.1. Exclusão Social e Desemprego .............................................................................. 4 1.2. A resiliência no desemprego .................................................................................. 5 1.3. Empreendedorismo VS Emprego ..........................................................................5 2. O Estudo: que caminhos? ................................................................................................. 6 2.1. Fases estruturantes da investigação .......................................................................8 2.2. O desenho da investigação: primeiros passos ........................................................ 9 2.3. Análise de conteúdo ............................................................................................. 11 2. Análise e interpretação de resultados ............................................................................. 12 2.1. Teóricas VS Empíricas ........................................................................................ 13 2.2. Exclusão Social e Desemprego ............................................................................ 13 2.3. A resiliência no desemprego ................................................................................ 14 2.4. Empreendedorismo VS Emprego ........................................................................14 3. Conclusões ...................................................................................................................... 15 Bibliografia.......................................................................................................................... 17 ANEXOS ............................................................................................................................. 19 Grelha de análise de conteúdo da entrevista .................................................................20
  4. 4. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Introdução Enquadrado na avaliação da unidade curricular (UC) Pobreza e Exclusões Sociais do Mestrado em Educação Social, da ESEC-UAlg, a presente abordagem resulta da proposta da docente da UC, Vanessa Sousa, a qual, dada a sua atualidade e importância, bem como a constante presença no nosso País, motivou a que a escolha do tema incidisse no desemprego enquanto fator de exclusão social. Emerge também de um caso concreto de desemprego e das perceções cotidianas que tendem a manter-se bem vincadas na vida dos portugueses, bem como dos fundamentos teóricos de alguns autores, mormente de Bruto da Costa (1998), que define o desemprego como um propulsor de exclusão social. Nesta senda, pretende-se efetuar uma abordagem à criação do próprio emprego como fator de resiliência ao desemprego, e, do geral para o particular iremos tratar o conceito de exclusão social, partindo dos seus princípios norteadores, e, inevitavelmente, chegar ao desemprego, encarando-o como um fenómeno que afeta cada vez mais indivíduos e cada vez mais de diferentes estratos sociais. Nesta abordagem ir-nos-emos focar com maior incidência no domínio económico (parcos rendimentos ou inexistentes, impossibilidade de obtenção de bens e serviços indispensáveis ao pleno funcionamento do indivíduo em sociedade), onde a situação de desemprego assume um papel preponderante na fragilização da estrutura social do indivíduo e das suas condições psicológicas, comportamentais e das relações familiares. Apoiados nos dados mais recentes do Eurostat relativos à taxa de desemprego (média EU: 11%; média Portugal: 16,3%)1, que levam a crer que as atuais orientações políticas de promoção de crescimento económico, tanto nacionais como europeias, sugerem resultados pouco positivos quanto à empregabilidade, propomo-nos, recorrendo a um exemplo de sucesso de criação do próprio emprego (negócio), refletir sobre se uma aposta em paradigmas de promoção de capacitação das pessoas para uma autoeducação empreendedora permite por si só impulsionar alternativas de vida de forma autónoma e promover um volte face à atual crise económica e social. Acreditamos que atitudes ativas, dinâmicas e por vezes arrojadas de abordar o mercado de trabalho e com estímulos que levem as pessoas ao (re) aproveitamento de recursos e oportunidades promoverão a desejada transformação social. Enquanto Educadores Sociais, promotores da mudança social, pretendemos provocar a sociedade com esta ilustração positiva de criação do próprio emprego como alternativa resiliente ao desemprego. Reconhecemos que esta resiliência, ao ser encarada como uma 1 Dados do Eurostat referentes ao mês de setembro de 2013 – consulta em novembro de 2013 3
  5. 5. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso estratégia a seguir, tende a servir de alavanca ao aumento da autoestima, capacitação e valorização pessoal e coletiva. 1. O Objeto de estudo 1.1. Exclusão Social e Desemprego Na linha de pensamento de Bruto da Costa (1998), as pessoas são consideradas socialmente excluídas quando se combinam a falta de meios económicos, o isolamento social o acesso limitado aos direitos sociais e civis, bem como o acesso insuficiente aos recursos pessoais, familiares, económicos e culturais, e pode, portanto, ser definida como a fase extrema do processo de desenvolvimento da marginalização (Castel, 19902, citado em Costa, 1998). Quando falamos de exclusão social significa a exclusão n(d)a sociedade, aqui vista como a rutura do conjunto de sistemas sociais básicos (sociabilidade, económico, institucional, espacial e simbólico). Assim, a sua definição tende a ser mais complexa do que a do conceito de pobreza, na medida em que não se depende apenas de determinantes económicos mas em termos mais amplos de integração ou participação na sociedade em um ou vários domínios desses sistemas sociais. É, pois, um processo dinâmico dentro de qualquer sociedade e que representa uma acumulação contínua de fatores sociais e económicos ao longo do tempo (problemas laborais, formas de educação e estilos de vida, saúde, nacionalidade, alcoolismo, toxicodependência, violência…) (Costa, 1998). A exclusão social e a pobreza são sem dúvida dos maiores desafios do nosso século, na medida em que colidem com o exercício dos direitos fundamentais dos seres humanos. Tomando como ponto de partida estes direitos fundamentais, abordaremos a partir da posição de Bruto da Costa, a exclusão social do tipo económico, quando este a refere como “falta de acesso a fontes de recursos, que incluem o mercado de trabalho, em função ao salário que se aufere; o sistema da segurança social, pelas pensões, abonos, subsídios, etc.” (1998, p.15). No que toca ao conceito de desemprego, e baseando a abordagem no pensamento teórico de Maruani (2002), onde esta autora, recorrendo a conceitos históricos, refere que foram as políticas sociais que contribuíram para a invenção do desemprego enquanto construção social em constante movimento e transformação, levou a que refletíssemos sobre a forma de olhar este conceito. 2 Castel, R., (1990). Extreme Cases of Marginalization, from Vulnerability to Desaffiliation, comunicação apresentada no European Seminar on Social Exclusion, realizado em Alghero (Itália) em Abril de 1990. 4
  6. 6. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Entendemos, portanto, que estar/ser desempregado não significa estar apenas privado de um trabalho remunerado, voluntária ou involuntariamente, mas também reconhecer como legítimo a procura ativa de emprego. As próprias condições de inscrição e de direito ao subsídio de desemprego, e que se estende numa enorme franja da nossa sociedade, não fazem mais do que limitar as fronteiras desta mesma legitimidade. Estas condições sinalizam e oficializam os limites do direito ao desemprego que só pode existir se houver direito ao trabalho. 1.2. A resiliência no desemprego Como referem Louçã e Caldas (2009, citados em Santos, 2011), ironizando sobre o pensamento neoliberal que aponta como evidente que os despedimentos de hoje serão, talvez, o emprego de amanhã, recorremos a este ponto de vista para, numa inversão ideológica, o propor como fator impulsionador da abordagem ao tema da criação do próprio emprego enquanto resiliência ao desemprego. Numa perspetiva norteada pelos pensamentos de autonomia, capacitação, mudança e empowerment, pretendemos, recorrendo ao pensamento de Paulo Freire, mostrar que o desemprego por si só não poderá continuar a ser entendido pela sociedade como um veículo propulsor de pobreza e de endividamento das famílias e, logo, de exclusão social. Boaventura de Sousa Santos entende o desemprego como um dos principais “detonadores da insolvência pessoal e familiar“ (2011, p.69). Neste sentido, entendemos, que esta atitude empreendedora, de criação do próprio emprego e encarada como capacidade pessoal para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas, será a forma de apresentar indícios de viragem para novas formas de encarar a vida e o mercado de trabalho e, logo, de abordar o desemprego enquanto fator propulsor de exclusão social. 1.3. Empreendedorismo VS Emprego Para abordar o tema do empreendedorismo, num sentido ativo, arrojado e diligente e que se pretende apontar como um dos pontos marcantes deste trabalho, aprofundamos o conhecimento através das várias pesquisas e leituras documentais e que nos levaram não só à objetiva definição do conceito como à clareza das suas caraterísticas, munindo-nos de pensamentos teóricos contemporâneos e que compreendem o empreendedorismo como orientação para o desempenho e está relacionado com a exploração de oportunidades rentáveis (Shane & Venkataraman, 2000). Nesta linha de pensamento, Baptista, Teixeira e Portela (2008) acrescentam ao conceito de empreendedorismo as componentes oportunidade e necessidade. Estas componentes 5
  7. 7. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso apontam que o facto de o indivíduo criar o seu próprio emprego depende de estímulos de cariz económico e que distinguem estes dois tipos de empreendedorismo. Estamos perante um processo de empreendedorismo de oportunidade quando os indivíduos que têm maior capital social conseguem alcançar uma determinada oportunidade de negócio que se prevê lucrativa e acreditam alcançar com maior facilidade os seus objetivos pessoais e económicos. Já o empreendedorismo por necessidade ocorre quando os indivíduos se deparam sem alternativas favoráveis (falta de rendimentos por se encontrarem desempregados ou em empregos inadequados) para subsistir e optam por criar estratégias para ultrapassar essas situações, nomeadamente a criação do próprio emprego. É no tipo de empreendedorismo por necessidade que baseamos o nosso trabalho 2. O Estudo: que caminhos? Tal como defendem Albarello, Digneffe, Maroy, Ruquoy, Saint-Georges (1995), como qualquer trabalho realizado em ciências sociais é necessário recorrer a métodos, técnicas, e estratégias específicas consoante o assunto em questão. Abordar o tema da criação do próprio emprego, numa perspetiva empreendedora e de resiliência ao desemprego, quer pela forma como nos propomos abordá-lo, quer pelo fenómeno negativo do desemprego que teima em vincar-se na nossa sociedade, mostrou-se um desafio deveras relevante. Assim, iniciou-se a investigação deste trabalho, intitulado: «O Outro Lado do Desemprego: Um Caso de Sucesso»; e partindo da questão geral de investigação: «Que atitudes de resiliência perante o desemprego podem evitar a exclusão social?». Tendo em conta que esta investigação implica o estudo de relações sociais e a compreensão de problemas, a presente abordagem aponta para uma investigação de carácter qualitativo, tal como define Guerra (2006), em que investigação implica uma reflexão do estudo por parte do investigador, sendo este o principal instrumento de recolha de dados e adota uma postura objetiva durante a recolha desses mesmos dados (observa, participa e conversa …). Dentro da investigação qualitativa, o método do estudo de caso foi o que mais se adequou à investigação que pretendíamos realizar. Este método aprofunda a investigação de um indivíduo, de uma família, de um grupo ou de uma organização, que implica que a unidade social não seja demasiado extensa, centra-se na recolha intensiva de informação acerca de enumeras práticas e representações sociais e serve para aumentar o conhecimento relativamente a um determinado indivíduo e gerar novas hipóteses (Gauthier, 2003). A abordagem indutiva permitiu-nos fazer a correspondência entre a observação e a realidade e parte da questão particular «Que atitudes de resiliência perante o desemprego 6
  8. 8. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso podem evitar a exclusão social?» para chegar a conclusões generalizadas (Flick, 2005). Pretende-se que esta abordagem seja objetiva e, assumindo um papel crítico e reflexivo face à situação do desemprego em Portugal, recorrer aos princípios norteadores da Educação Social de intervir positivamente na vida das pessoas, para que possamos apontar estratégias que as conduzam ao bem-estar social. Atendendo que o estudo trata de um caso específico, entendemos que a entrevista seria a técnica de investigação qualitativa por excelência e que melhor se ajustava ao trabalho (Guerra, 2006). A recolha de dados foi feita através da pesquisa documental (documentos de caráter não científico) e bibliográfica (do tema em estudo e reconhecidas cientificamente), tal como defende Oliveira (2007), a qual favorece a observação do processo de desenvolvimento, ou não, do indivíduo, grupos, conceitos, saberes, comportamentos, crenças, valores, práticas, etc. (Cellard, 2008). Outra das formas de recolha de dados foi através da entrevista semiestruturada, tipologia que mais enquadrava ao nosso trabalho pela abertura e flexibilidade das questões do guião e que levaram o participante a fazer uma leitura da fase concreta da sua vida (Quivy e Campehoudt, 2008), que neste caso particular se baseou na criação do próprio emprego como forma de resiliência à situação de desemprego em que se encontrava, e ainda pela observação do investigador durante a entrevista. Neste estudo, a amostragem, caraterística da investigação qualitativa, incidiu na modalidade (por caso único) por acontecimento e a sua estratégia tratou-se de uma amostragem estatística, uma vez que eram conhecidas as caraterísticas e dimensões do caso em concreto a estudar, existindo sempre a noção do número de participantes a entrevistar (um), sem que houvesse a preocupação da quantidade de entrevistas mas sim com a qualidade daquela a realizar (Flick, 2005). Para além disso a qualidade da informação recolhida através da pesquisa documental, entrevista e respetiva análise foi bastante fundamentada, apesar de, e segundo Duarte (2002), os dados resultantes desta investigação qualitativa, geralmente abundantes, serem muitas vezes difíceis de tratar. Neste sentido, foi usada a análise de conteúdo teorizada por Bardin (2008) e Silva e Pinto (1986) no sentido de facilitar o tratamento dos dados e suas triangulações bem como da melhor interpretação. 7
  9. 9. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social 2.1. O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Fases estruturantes da investigação CONCETUAL  Escolha do desemprego enquanto propulsor de exclusão social como objeto de investigação;  Elaboração do quadro de referência que conduzirá às questões e orientará o guião;  Seleção, revisão e análise de literatura fundamental.  Perceção da resiliência no desemprego. METODOLÓGICA  Elaboração do desenho da investigação.  Seleção de um caso (único) de sucesso de criação do próprio emprego - amostra.  Variáveis do estudo: Exclusão; Desemprego; Emprego; Atitude; Conscientização; Empowerment; Empreendedorismo.  Investigação qualitativa – estudo de caso. EMPÍRICA  Recolha de dados através de pesquisa documental, entrevista semiestruturada, gravação, transcrição e observação resultante da mesma.  Análise de conteúdo e triangulação de dados.  Interpretação, apresentação e comunicação dos resultados. Com base na figura acima apresentada, e fundamentada pelo pensamento de Fortin (2000), foi desta forma que delineámos as etapas desta investigação. A fase concetual, onde foram delineadas as ideias que orientaram a investigação, tendo em conta a necessidade da delimitação do domínio para que fosse viável a sua realização, foi também a fase em que se procedeu a toda a revisão da bibliografia e documentação indispensável para se conhecer e compreender os conteúdos e, assim, situar o objeto de estudo no contexto dos atuais conhecimentos. Esta fase compreendeu ainda a escolha do tema: «O Outro Lado do Desemprego: Um Caso de Sucesso» enquanto problema de investigação, onde a pertinência, o valor teórico e prático e as dimensões metodológicas aplicadas, que, levaram à questão de investigação: «As atitudes de resiliência perante o desemprego podem evitar a exclusão social?» traçando-se um quadro de referência apropriado, que permitiu definir o paradigma de investigação e que conduziu às questões de abordagem do problema. Na fase metodológica elegeu-se um desenho de investigação que delineou o paradigma e os métodos de recolha e de análise dos dados, projetou o plano de obtenção de respostas às questões, definiu-se variáveis (Exclusão; Desemprego; Emprego; Práticas de resiliência; Conscientização; Empowerment; Empreendedorismo) que operacionalizaram o estudo e definiu-se a amostra (um caso de sucesso de uma pessoa desempregada que criou o próprio emprego). Por fim, na fase empírica, que consistiu na operacionalização/execução das fases anteriores, recolheram-se, organizaram-se e trataram-se os dados em função do objeto de 8
  10. 10. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso estudo, sendo utilizadas todas as técnicas e subsequente triangulação de todos os dados, procedendo-se às suas interpretações e à comunicação dos resultados ao participante. Contudo, e como em qualquer abordagem qualitativa, raramente se segue uma linha sequencial rígida e fixa. Algumas etapas aconteceram em simultâneo e de forma interativa (por ex. a formulação do problema de investigação; identificação das questões para elaborar o conceito e a descrição do fenómeno; escolha dos métodos de recolha de dados; a escolha do contexto social e da amostra; a recolha e análise de dados; elaboração das hipóteses interpretativas que dão significado à situação; reformulação interativa do problema e das questões, e/ou modificações conforme dados novos que foram surgindo). 2.2. O desenho da investigação: primeiros passos O quadro abaixo ilustra, em concreto, o desenho que balizou a investigação e que permitiu uma maior aproximação ao tema. Neste sentido, e segundo Fortin (2000), este desenho além de permitir ao leitor uma perceção mais clara quanto ao objeto de estudo, permitiu-nos também aplicar as estratégias mais adequadas quer na consistência da investigação quer na fundamentação teórica utilizada na abordagem ao tema e de todas as variáveis identificadas. 9
  11. 11. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social TEMA DE INVESTIGAÇÃO O OUTRO LADO DO DESEMPREGO: UM CASO DE SUCESSO SELEÇÃO DOS SUJEITOS DE INVESTIGAÇÃO (QUEM?)  Um caso de sucesso de criação do próprio emprego como substituição da situação de desemprego – resiliência. FORMULAÇÃO DA QUESTÃO GERAL DE INVESTIGAÇÃO  As atitudes de resiliência perante o desemprego podem evitar a exclusão social? ESCOLHA DOS MÉTODOS E TÉCNICAS ADEQUADAS (COMO?)  Investigação qualitativa; O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso FORMULAÇÃO DAS QUESTÕES ESPECÍFICAS (O QUÊ) 1Caraterização social do entrevistado i. Idade; ii. Naturalidade e nacionalidade; iii. Área de residência; iv. Habilitações literárias; 2Experiência profissional i. Profissão ii. Que outras atividades profissionais exerceu? iii. Qual a atividade profissional que mais se identifica? E porquê? iv. Qual foi a sua última atividade profissional? Quanto tempo durou? 3Situação de desemprego i. Porque ficou desempregado? ii. Já tinha estado desempregado anteriormente?  Técnicas: - Pesquisa documental; iii. Como se sentiu enquanto desempregado (psicologicamente e - Entrevista socialmente)? semiestruturada; iv. Enquanto esteve desmpregado sentiu- Análise de conteúdo se excluído do seu gupo de amigos ou família? Porquê? v. Quanto tempo esteve desempregado até decidir iniciar o seu próprio negócio? 4Atitude perante o desemprego/criação do próprio negócio i. Que tentativas fez para regressar ao mercado de trabalho? ii. Como encarou a situação? iii. O que o motivou para criar o seu próprio emprego? iv. Inspirou-se em alguém para avançar com o seu próprio negócio? v. Sentiu alguns constrangimentos/dificuldades? Se sim, quais? E como os ultrapassou? vi. Já tinha trabalhado anteriormente na área profissional em que iniciou o seu negócio? vii. Que tipo de conhecimentos tinha na área? (optou por criar o seu próprio emprego) viii. Porque é que escolheu abrir um negócio em vez de trabalhar por conta de outrem? ix. Era algo que queria fazer antes de ter ficado desempregado, ou foi a uma opção de recurso? x. Que carateristicas pessoais considera ter que o ajudaram na criação do próprio emprego? xi. Sentiu que corria alguns riscos ao criar o próprio negócio? Quais? xii. Como acha que seria a sua situação económica e social hoje se não tivesse optado por criar o seu próprio negócio?  Método estudo de caso FORMULAÇÃO DOS CONCEITOS SENSIBILIZADORES (A REVISÃO DE LEITURA: PRINCIPAIS REFERÊNCIAS TEÓRICAS E CONCEITOS CHAVE) 1. Conceitos de construção do objeto de estudo  O desemprego como um propulsor de exclusão social Costa, B. (1998).  Os excluídos (…) devem ser educados para terem domínio sobre a sua vida e poderem ter os meios para fazer uma reflexão constante sobre a sua vida e decidir conscientemente sobre ela - Freire, P. (1983).  O desemprego por si só não poderá continuar a ser entendido pela sociedade como um veículo propulsor de pobreza e exclusão social - Santos, B.S. (2011).  O empreendedorismo - Shane, S. & Venkataraman, S. (2000)  Baptista, A; Teixeira, M; Portela, J. (2008). Motivações e obstáculos ao empreendedorismo em Portugal e propostas facilitadoras. 2. Conceitos Metodológicos  Métodos, técnicas, metodologias e estratégias específicas esta abordagem - Albarello, L.; Digneffe, J.; Maroy, C.; Ruquoy, D. & Saint-Georges, P. (1995).  Os dados recolhidos através da investigação qualitativa são geralmente abundantes, mas muitas vezes difíceis de tratar - Duarte, R. (2002).  Investigação qualitativa e análise de conteúdo, a fim de conhecer os sentidos e razões que contribuem para a ação dos indivíduos na sociedade - Guerra, I. (2006).  O estudo de caso serve para aumentar o conhecimento relativamente a um determinado individuo e gerar novas hipóteses - Gauthier, B. (2003).  Haguette, T. (1997). Metodologias qualitativas na Sociologia. 5ª edição. Petrópolis: Vozes.  Lakatos, E. & Marconi, M. (2003). Fundamentos de metodologia científica. 5ª edição. São Paulo: Atlas.  Ludke, M. & André, M. (1986). Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: E.P.U.  Identificação das fases e etapas de investigação – Fortin, M. (2000).  Tipos, características e dimensões da amostragem - Flick, U. (2005).  Histórias de Vida - Poirier,J., Chapier-Valadon, S. (1995).  Análise de conteúdo (definição) - Krippendorf, K. (1980).  Entrevista semiestruturada - Quivy, R. & Campenhoudt, L.V. (2008)  Transcrição de dados linguísticos - Paiva, M. (2004).  Fases da análise de conteúdo - Bardin, L. (2008). 3. Conceitos de Educação Social  É ao responder aos desafios que as pessoas exigem de si próprias reflexão, crítica, criatividade, eleição, decisão, organização e ação que fazem dela um ser adaptado à realidade e mais integrado - Freire, P. (1980).  A Educação Social emerge para dar resposta a uma diversidade de problemas sociais - Samagaio, F. (2006).  Um dos grandes desafios do ES é preparar os indivíduos para questões como as da solidariedade e da tolerância para que possa combater problemáticas, tais como, por exemplo, a exclusão social - Serapicos, A. (2003). 10
  12. 12. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social 2.3. O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Análise de conteúdo A análise de conteúdo, tal como definida por Krippendorf (1980), é “uma técnica de investigação que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto”. No mesmo raciocínio, Bardin (2008) diz que a análise de conteúdo não serve apenas para se proceder à descrição dos dados apurados, atendendo que não se pretende apenas reproduzir os conteúdos das mensagens através da técnica utilizada, mas sim apresentar algumas significações dessas mesmas mensagens e que se traduzam em conhecimento. Deste modo, após realizarmos a entrevista, foi importante que a transcrição dos dados recolhidos reproduzissem o discurso narrado de uma forma fiel, apontando que a (…) fidelidade aos dados orais deve ser o objectivo de toda a transcrição. Queremos registar o que foi dito por um falante da forma como foi dito. Uma transcrição não é e não pode ser uma edição da fala do entrevistado. (Paiva, 2004, p.136) A análise de conteúdo da entrevista foi conduzida indo ao encontro das etapas fundamentais desenhadas por Bardin (2008). Numa primeira fase, denominada por préanálise, foi realizada uma leitura exaustiva das informações recolhidas (leitura flutuante), as quais nos orientaram para as questões norteadoras, que, por seu lado, nos sugeriram a explicação do fenómeno observado (criação do próprio emprego). A escolha de índices que apontaram para o objetivo geral da investigação (criação do próprio emprego como determinante da inclusão social), de acordo com o seu quadro teórico, fundamentou toda a abordagem. Quanto à constituição do corpus, defendido por Bardin (2008), foi definida toda a panóplia de fundamentos teóricos que entendemos realçar e selecionar para serem submetidos à respetiva análise e que definiram a organização da informação e deram respostas de forma: exaustiva, em que se esgotou a comunicação na sua totalidade e não se omitiu qualquer dado; representativa, cuja amostra representou o universo; homogénea, em que os dados expuseram o tema e em que a técnica e a recolha dos dados foram uniformes; pertinente, cujos documentos adequaram-se quer ao conteúdo quer ao objetivo da entrevista; e exclusiva, cuja classificação da categoria correspondeu apenas a um único elemento. Com estes critérios, e seguindo a linha de Silva e Pinto (1986), procurou-se a existência de padrões e regularidades existentes nos discursos de modo a preparar uma lista prévia de categorias de codificação, sendo que uma “categoria é habitualmente composta por um termo 11
  13. 13. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso chave que indica a significação central do conceito que se quer aprender, e de outros indicadores que descrevem o campo semântico do conceito” (pp.110-111). A segunda fase, definida por Bardin (2008) como a etapa da exploração do material, compreendida pelo processo de transformação sistemática dos dados e agrupados em unidades, permitiu uma descrição correta das caraterísticas importantes do conteúdo e implicou a já referida categorização (que apesar de não ser uma etapa obrigatória de toda a análise de conteúdo, a maioria dos procedimentos de análise de conteúdo organizam-se em redor deste processo). Com o objetivo de alcançar o n central do texto em função das regras estabelecidas, partimos da análise de unidades de registo, que surgem como o momento da aplicação do que foi trabalhado na pré-análise, e que, segundo Carmo e Ferreira (1998), (…) é o segmento mínimo de conteúdo que se considera necessário para poder proceder à análise, colocando-o numa dada categoria e de unidade de contexto que constitui o segmento mais longo de conteúdo que o investigador considera quando caracteriza uma unidade de registo, sendo a unidade de registo o mais curto. (pp.257) E, por último, o tratamento dos resultados e a devida interpretação e, já na posse de um corpus de informação trabalhado e organizado de acordo com os objetivos da investigação e das questões levantadas, foi possível propor inferências e realizar interpretações de acordo com o quadro teórico definido. 2. Análise e interpretação de resultados Antes de realizar qualquer interpretação dos dados obtidos, pretendemos também interpretar a influência da entrevista enquanto técnica de excelência, que além da mesma permitir inferências sobre as dimensões identificadas, permitiu também melhorar a sua aplicabilidade e operacionalização e aferir com maior relevo sobre os constrangimentos e potencialidades. Neste campo metodológico, pretendemos salientar a flexibilidade estrutural da entrevista como um dos aspetos que consideramos positivo, visto permitir qualquer alteração ao referencial temático do decurso da entrevista. O facto de se ter verificado algum constrangimento por parte do entrevistado pela utilização do equipamento de gravação áudio, entendemos ser um aspeto menos positivo e que pode ter condicionado a entrevista. Foi observável que a presença deste instrumento, e tal como defende Wenger (2002) não deixou o participante muito à vontade. É também de sinalizar que, por vezes, a proximidade entre o participante e o investigador pode ser um dos fatores menos positivos, onde o participante pode entender que a informação que se pretende pode ser já do conhecimento do investigador 12
  14. 14. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso e, logo, seja uma perda de tempo e/ou que o mesmo crie dúvidas quanto à utilização do dados, contrariando desta forma, e resumindo-nos apenas a esta caso concreto, ao que defende (Bourdieu, 1999). Desta forma, achamos que a opção da entrevista ser conduzida por um investigador e participante desconhecido, desde que seja dado o seu consentimento e devida elucidação do motivo do estudo, tende a recolher-se dados mais profundos, sem subterfúgios e com maior objetividade. Neste ponto do presente trabalho importa referir que a existência de um quadro teórico de referência consistente, que permita abordar os aspectos e temas relevantes da investigação, e a experiência empírica dos investigadores são fatores determinantes do produto final (Bogdan & Biklen, 1994, p.206). Entendemos ainda que a interpretação dos dados deva seguir uma estrutura e de acordo com as dimensões/variáveis consideradas relevantes, que permita contribuir para a facilidade da sua leitura. 2.1. Teóricas VS Empíricas É na relação entre o quadro teórico e o trabalho de campo que pretendemos equacionar os dados recolhidos. Neste sentido, e sendo certo que o panorama socioeconómico português atual não é dos mais favoráveis, seria, supostamente, fácil abordar o tema do desemprego e da exclusão social tal como os defende teoricamente Bruto de Costa (1998). Contudo, encarando o objeto de estudo como um forte desafio e pretendendo ir mais além entendemos, pela leitura dos dados obtidos, que o estar/ser desempregado não significa estar apenas privado de um trabalho remunerado, voluntária ou involuntariamente, mas também reconhecer como legítimo a procura ativa de emprego. As próprias condições de acesso e direito ao subsídio de desemprego, e que se estende a uma enorme franja da nossa sociedade, não fazem mais do que limitar as fronteiras desta mesma legitimidade. Estas condições sinalizam e oficializam os limites do direito ao desemprego que só pode existir se houver direito ao trabalho (Maruani, 2002). É nesta linha que a exclusão social tende a ganhar forma ao considerar que as pessoas são socialmente excluídas quando se combinam a falta de meios económicos, o isolamento social o acesso limitado aos direitos sociais e civis, bem como o acesso insuficiente aos recursos pessoais, familiares, económicos e culturais (Costa, 1998). 2.2. Exclusão Social e Desemprego A partir dos dados obtidos e tendo por referência o quadro teórico definido previamente para a pesquisa, constatou-se que o participante único da amostra conseguiu travar o processo de exclusão social (de tipo económico) ao decidir criar o seu posto de 13
  15. 15. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso trabalho. O entrevistado optou por criar o seu próprio emprego, como alternativa a não conseguir encontrar trabalho, sendo que essa opção já tinha sido ponderada anteriormente quando se encontrava a trabalhar por conta de outrem. A mera situação de se encontrar desempregado acarretava um conjunto de sentimentos e representações que o próprio participante rejeitava e é observável quando, questionado acerca do seu estado de espírito aquando da situação de desemprego, o mesmo refere que foi uma situação constrangedora porque em primeiro lugar estava desocupado e em segundo lugar a situação financeira era bastante desfavorável e que o levava a algumas inquietações quanto ao fato de não saber como pagar as suas contas mensais. Ainda que de uma forma algo subtil, foi possível perceber que o participante sentiu algum grau de exclusão social quando refere que se sentiu «desamparado porque não tinha nada para fazer» e algum isolamento social dada a distância física entre a família e entre os amigos, uma vez que não é natural do Algarve e cujas distâncias não permitiram um apoio mais próximo. 2.3. A resiliência no desemprego O facto de o participante ter insistentemente procurado emprego e, paralelamente, ter procurado aconselhamento junto de terceiros próximos, quanto à possibilidade de se lançar por conta própria, confirma a existência de uma atitude de resiliência do participante. Esta atitude comprova-se quando o mesmo indica que enquanto esteve desempregado procurou ativamente emprego através do envio de currículos para diversas entidades. Como, não conseguia voltar ao mundo do trabalho, optou por se aconselhar com familiares que o ajudaram financeiramente e a planear como iria criar o próprio negócio. Consideramos que o entrevistado, apesar de ter tido o apoio de familiares, mesmo sem esse apoio, embora o processo de sair da situação de desemprego fosse mais moroso, possivelmente, arriscava na mesma criar o seu próprio negócio e no limite ponderava procurar emprego fora de Portugal. Achamos que é desta forma, dada a aparente persistência, «teimosia» e atitude lutadora com que encarou esta fase da sua vida, que fundamenta a sua personalidade resiliente. 2.4. Empreendedorismo VS Emprego Nesta vertente, e pela análise dos dados podemos constatar que existiu uma atitude empreendedora do participante, quer pelo facto de ter decidido arriscar no seu próprio negócio quer, inclusive, por arriscar num negócio cuja área não tinha quaisquer conhecimentos. No entanto é importante ressalvar que também tomou esta decisão porque tinha o apoio da sua companheira, a qual já tinha experiência na área da pastelaria. Esta atitude permitiu-lhe 14
  16. 16. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso resolver as dificuldades que sentia em voltar ao mercado de trabalho enquanto trabalhador por conta de outrem, que era a realidade vivida até ficar no desemprego. Entendemos que, neste caso concreto, trata-se de um caso de empreendedorismo por necessidade, atendendo ao facto do participante ter tido a iniciativa de criar o seu próprio emprego por se encontrar na situação de desempregado, sem perspetivas de conseguir encontrar qualquer emprego, levando-o a numa situação económica desfavorável e que de alguma forma pôs em causa a sua subsistência. Esta estratégia de contornar a situação, criando a alternativa favorável para a ultrapassar com a aposta da criação do próprio emprego demonstra uma clara atitude empreendedora. 3. Conclusões Apoiando-nos do pensamento de Louçã e Caldas (2009, citados em Santos, 2011), que, ironizando sobre o pensamento neoliberal que aponta como evidente que os despedimentos de hoje serão, talvez, o emprego de amanhã, recorremos a este ponto de vista para, numa inversão ideológica, propor o tema da criação do próprio emprego enquanto fator de resiliência ao desemprego, resiliência essa bem patente nesta abordagem. É, com atitudes empreendedoras, como a registada no nosso entrevistado, enquanto respostas a necessidades específicas e conjunturais que devemos basear a nossa reflexão. O empreendedorismo depende parcelarmente de estímulos de cariz económico (Baptista, Teixeira, Portela, 2008), mas também é certo que a vontade, o crer, a criatividade e a capacidade de iniciativa determinam a sua aplicação. Numa perspetiva norteada pelos pensamentos de autonomia, capacitação, mudança e empowerment de Paulo Freire, pretendemos inferir que o desemprego, visto por Boaventura de Sousa Santos (2011) como um dos principais “detonadores da insolvência pessoal e familiar“ (p.69), por si só não poderá continuar a ser entendido pela sociedade como um veículo propulsor de pobreza e de endividamento das famílias e, logo, de exclusão social. Uma atitude empreendedora, de criação do próprio emprego, exemplificada na presente abordagem, deverá ser encarada como capacidade pessoal para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas e, deste modo, que rompa com a forma do desemprego, que apesar de ser um tipo de exclusão social, apresente indícios de viragem para novas formas de encarar a vida e o mercado de trabalho. Enquanto Educadores Sociais, um dos grandes desafios é preparar os indivíduos para questões como as da solidariedade e da tolerância para que possa combater problemáticas, tais como, por exemplo, a exclusão social (Serapicos, 2003). E nas perspetivas freireanas de educar para intervir (que se referem a mudanças reais nas relações das pessoas e na sua 15
  17. 17. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso autonomia, no trabalho, na educação e na saúde), e que durante toda a sua vida procuram dar voz aos grupos mais oprimidos e excluídos da sociedade para que pudessem ter domínio sobre a sua vida, entendemos que a situação de vulnerabilidade criada pelo desemprego é um dos campos férteis da atuação da Educação Social e pode ser um dos caminhos de mudança e que mostre às pessoas que podem criar os meios para fazer uma reflexão constante sobre a sua vida e decidir conscientemente sobre ela. É assim que (…) no ato mesmo de responder aos desafios que lhe apresenta seu contexto de vida, o homem se cria, se realiza como sujeito, porque esta resposta exige dele reflexão, crítica, invenção, eleição, decisão, organização, acção. Todas essas coisas pelas quais se cria a pessoa e que fazem dela um ser não somente adaptado à realidade e aos outros, mas integrado. (Freire, 1980, p.15). Como pista de uma futura investigação, e tendo em conta as características deste trabalho, que serviu apenas como ilustração de uma das formas de encarar o desemprego, não nos permitiram aferir que parcela da sociedade encara o risco calculado da criação do próprio emprego como ponto de viragem à situação adversa do desemprego, e que parcela “cai na subsidiodependência” que a leva ao débil modo de vida condigna, com apontamentos de sobrevivência social, de forma a evitar qualquer tipo de exclusão e até mesmo de pobreza. Seria, assim, de todo interessante estudar esta temática numa perspetiva mais macro (por exemplo: com vários casos de sucesso/insucesso de uma comunidade), enquadrando no estudo a perspetiva de educadores sociais e provocar a sociedade com registos e estratégias de empowerment, autonomia, valorização, estímulo ao (re)aproveitamento de recursos, etc., que despertem as comunidades e promovam o bem estar social. 16
  18. 18. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Bibliografia Albarello, L.; Digneffe, J.; Maroy, C.; Ruquoy, D. & Saint-Georges, P. (1995). Práticas e Métodos de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa: Gradiva. Baptista, A; Teixeira, M; Portela, J. (2008). Motivações e obstáculos ao empreendedorismo em Portugal e propostas facilitadoras. Trabalho apresentado em Comunicação ao XIV Congresso da APDR. Comunicação ao XIV Congresso da APDR, Tomar. Bardin, L. (2008). Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70. Cellard, A. (2008). A análise documental. Em: Poupart, J. et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes. Costa, B. (1998). Exclusões Sociais. Lisboa: Gradiva. Duarte, R. (2002): Pesquisa qualitativa: reflexões sobre o trabalho de campo”. Cadernos de pesquisa, n.º 115, p.139-154. Flick, U. (2005). Métodos qualitativos na investigação científica. Lisboa: Monitor. Fortin, M. (2000). O Processo de Investigação: Da concepção à realização. Loures: Lusociência. Freire, P. (1980). Conscientização. São Paulo: Moraes. Freire, P. (1983). Pedagogia do Oprimido. 12ª Edição, Rio de Janeiro: Paz e Terra. Gauthier, B. (2003). Investigação social: da problemática à colheita de dados. Lisboa: Lusociência. Guerra, I. (2006). Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo: Sentidos e formas de uso. Estoril: Princípia Editora, Lda., 1ª edição. Krippendorf, K. (1980). Content Analysis. An Introduction to its Methodology. Londres: Sage. Maruani, M. (2002). Les mécomptes du chômage. Lonrai: Ateliers de Normandie Roto Impression s.a.s. Oliveira, M. (2007). Como fazer pesquisa qualitativa. Petrópolis: Vozes. Paiva, M. (2004). Transcrição de dados linguísticos. In: Mollica, M. & Braga, M. (orgs.), Introdução à sociolinguística: o tratamento da variação. 2ª ed. São Paulo: Contexto, pp.135-146. Poirier,J., Chapier-Valadon, S. (1995). Histórias de Vida- Teoria e Prática. Oeiras: Celta. 17
  19. 19. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Quivy, R. & Campenhoudt, L.V. (2008). Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa: Gradiva. Samagaio, F. (2006). A educação social e a investigação: algumas generalidades em torno de um perfil profissional. Cadernos de estudo. Porto: Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, n.º 3, pp. 17-23. Santos, B.S. (2011). Portugal: Ensaio contra a autoflagelação. Coimbra: Almedina. Shane, S. & Venkataraman, S. (2000). The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, 25(1):217-226. Silva, A; Pinto, J. (1986). Metodologia das Ciências Sociais. Porto: Afrontamento. 18
  20. 20. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso ANEXOS 19
  21. 21. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso Grelha de análise de conteúdo da entrevista Problemática Experiência profissional Situação de desemprego Análise Atualmente o entrevistado exerce a profissão de empresário na área da pastelaria. Tendo já trabalhado como técnico de análise de águas, vendedor de produtos químicos. A anterior profissão que exerceu foi de distribuidor durante 4 anos. Foi dispensando do seu trabalho como distribuidor, porque a empresa encontrava-se com poucos clientes e sentiram necessidade de reduzir o pessoal. Tendo o mesmo vivido a situação de desemprego durante um ano e dois meses. Esta situação foi muito constrangedora para ele, porque viu-se com falta de dinheiro para pagar contas e sentiu-se desocupado. Diariamente sentia-se desamparado porque não tinha nada para fazer, os amigos encontravam-se a trabalhar e a família encontrava-se distante não o conseguindo sempre o apoio que necessitava. Mesmo perante a situação de desemprego, não se sentiu deprimido e não se isolou. O mesmo procurou sempre que possível estar com os amigos e a namorada. Enquanto estava desempregado e como não encontrava trabalho pensou na possibilidade de criar o seu próprio negócio. Excerto «empresário de pastelaria» «[…] técnico de análise de águas […] vendedor::: de produtos químicos […] distribuidor.» «Análise de águas […]» « Fui distribuidor […]Trabalhei lá aproximadamente 4 anos […]» « […] Só saí por falta de trabalho ::: a empresa tinha pouco movimento e tiveram necessidade de reduzir o pessoal […]» « Tive cerca de um ano e dois meses » « Foi algo que pesou um pouco em mim::: … é difícil … falta de dinheiro para pagar as contas … e não ter aquela rotina::: andar sempre desocupado::» « Por vezes::: os amigos estavam a trabalhar e eu sentia-me desamparado […] sentia me desamparado ::: a minha família está em Beja e:::: estou aqui sozinho … Por mais que queiram apoiar, não é aquele apoio constante::: devido à distância.» « não. Sempre quis estar com os amigos e com a namorada. Não me sentia deprimido(…)» « Nesse tempo fui pensando nessa possibilidade (criar o próprio negócio)como alternativa ao facto de não encontrar trabalho e também porque era algo que eu já queria fazer … e esta situação veio também como 20
  22. 22. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso O entrevistado enquanto esteve desempregado procurava ativamente emprego enviando currículos. Essa foi a forma que arranjou para não passar os dias desocupado. Teve alguém com quem se aconselhou e que o ajudou em todo o processo para conseguir criar o seu próprio negócio. Essa pessoa já tinha experiência como empresário na área da hotelaria e restauração. Atitude perante o desemprego/criação do próprio negócio O entrevistado sentiu algumas dificuldades durante esse processo devido a todas as burocracias (Finanças, Segurança Social…) que estão inerentes à criação do próprio negócio. Por esse motivo é que demorou cerca de um mês para conseguir abrir o negócio. Neste processo contou com apoio financeiro de familiares o que permitiu com que não tivesse que recorrer a créditos. Porque se tivesse recorrido a créditos poderia vir a ter problemas. Abriu o negócio numa área em que nunca tinha trabalhado mas contou com a ajuda da companheira que já tinha experiência, Obtou por abrir o seu negócio porque consegue assim ter independência e cria as suas próprias regras, não ter que estar sobre sobre uma escapatória do facto de estar desempregado» « […] procurava ativamente, entregava currículos e não me chamavam::: E essa foi a forma que encontrei também para não estar parado […] « […] Falei com alguém que me ajudou a pensar::: a tomar a decisão::: colaborou comigo no sentido de avançar. E essa pessoa foi também uma das pessoas que me inspirou para abrir este negócio» « […] essa pessoa::: … que já tinha experiência como empresário: uma pessoa de negócios. Porque os negócios dele também eram nesta área» « […] Acho que as dificuldades que toda a gente sofre::: existem muitos entraves, muita burocracia por parte da segurança social, finanças, câmaras::: licenças […] Só em burocracias demorei quase um mês até conseguir abrir. « […] o apoio de familiares, não tive que me (endividar) graças a Deus… é uma vantagem::: […]» « […] Não::: e não em queria meter nisso porque iriam ser mais problemas e preferi assumir a dívida com os familiares.» « […] tinha poucos ou nenhuns (0.1) mas a pessoa que está comigo já tinha experiência, já tinha trabalho nisto e isso foi uma maisvalia, já não começamos necessariamente do zero.» « […] Porque abrir o meu negócio para já é uma independência::: temos a nossa independência ::: e 21
  23. 23. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso o controle de terceiros. Mesmo antes de estar desempregado já tinha pensando em abrir negócio próprio mas não sabia era em que área. O entrevistado considera-se teimoso e persistente e isso foram duas das características que o ajudaram na criação do próprio emprego. O mesmo quando não está contente com um resultado obtido começa logo a pensar em arranjar soluções para obter o resultado esperado, o que mostra que o mesmo também é determinado. Sentiu que corria alguns riscos ao criar um negócio próprio devido a todas as burocracias que acarretam estas situações. E, por outro lado o negócio também podia não correr como esperado e não ter lucro nem para si, nem para pagar a quem o financiou neste projeto. O mesmo considera que se não tivesse tipo o apoio que teve para conseguir criar o seu próprio negócio, provavelmente teria optado por emigrar ou persistia na procura de emprego. Se não tivesse criado o seu negócio provavelmente ainda estava desempregado e a trabalhar por fora para ganhar algum dinheiro. fazemos o nossos serviço à nossa maneira::: criamos as nossas próprias regras para que tudo corra bem … Não temos que estar sujeitos a regras de outras pessoas::: […]» « […] Sempre me passou pela cabeça ((apontando o dedo)), o ter um negócio meu (hhhhhhh). Não tinha pensado era em que área::: mas surgiu esta oportunidade e foi nesta que fiquei ::: (…)» « A teimosia::: É preciso ser teimoso e persistir no que se quer::: Eu quando não estou contente com o resultado::: começo logo a pensar em maneiras diferentes::: para dar a volta e::: no fundo chegar onde quero.» « Sim::: sem dúvida. Porque parar abrir negócio é preciso muitas burocracias… e para abrir um estabelecimento tem que estar tudo nos conformes … caso contrário pudesse receber fiscalização e podia o fechar:::: Também podia o negócio correr mal e não ganhar dinheiro sequer para pagar a quem me ajudou. «:::::: talvez não. Se calhar escolhia sair de Portugal ou :::procurava um emprego durante mais algum tempo.» « […] Continuava no desemprego::: se calhar teria a fazer uns PESCATOS para ganhar mais algum […]» 22
  24. 24. Pobreza e Exclusões Sociais Mestrado em Educação Social Trabalho (visão do entrevistado) O Outro Lado do Desemprego: Um caso de sucesso « […] É uma forma de estar bem na vida e de se fazer o que se gosta:::não é aquela O entrevistado prefere forma de irmos para o trabalhar porque é uma forma trabalho já contrariados e de se sentir bem e de se mais um dia:::: é uma coisa manter ocupado. importante para mim::: estar ocupado ::: Não me imagino já sem trabalhar.» 23

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