OS ECONOMISTAS
ALFRED MARSHALLPRINCÍPIOS DE ECONOMIATRATADO INTRODUTÓRIONatura Non Facit SaltumVOLUME IIntrodução de Ottolmy StrauchTradu...
FundadorVICTOR CIVITA(1907 - 1990)Editora Nova Cultural Ltda.Copyright © desta edição 1996, Círculo do Livro Ltda.Rua Paes...
INTRODUÇÃO(Ensaio biobibliográfico sobre Alfred Marshall)“A verdade biográfica é indevassável”(Freud a Arnold Zweig)Marsha...
correntes opostas: uma, ortodoxa, personificada em John Stuart Mill(1806-1876) e nos neoclássicos Léon Walras (1834-1910),...
verso econômico ao sistema solar. “Assim como o movimento de todocorpo no sistema solar afeta e é afetado pelo movimento d...
Um “eminente vitoriano”A biografia de Marshall, isto é, a cronologia de sua vida, nadamais é que a moldura de sua obra com...
blemas de xadrez. “Esse controle e repressão paternal teve um efeitomarcante e duradouro sobre Marshall. Sua pronunciada t...
a ela que conseguiu transformar o material de Adam Smith, DavidRicardo e Stuart Mill, em “uma máquina moderna de pesquisa”...
das condições existentes da sociedade não era fácil”. Um amigo, comquem discutia questões sociais, retrucou-lhe um dia: “V...
nesses passeios solitários nos Alpes”, e períodos de Wanderjahre, comoos chamava a sra. Marshall, lembrando ainda que Mars...
of Foreign Trade, with some allied problems relating to the theory oflaissez-faire” e que nunca foi publicado; mas suas pa...
Economia quanto de ensiná-la. Professor a vida inteira, mesmo quandoabandonou formalmente o ensino ao aposentar-se da cáte...
— a causa insuspeita, essa diminuta circunstância, essa coincidêncianegligenciada, mudou o curso da História. Embora não t...
saltar, inicialmente, que a importância histórica de sua obra contrastacom a sua relativa exigüidade, considerando que sua...
fontes de referência sobre a teoria monetária de Marshall; 6) OfficialPapers (1926), obra póstuma contendo trabalhos reali...
doutrinas características estavam bastante desenvolvidas em 1875, sen-do que a partir de 1883 já assumiam sua forma final....
Cabe ainda, neste quadro sumário e esquemático das raízes dopensamento de Marshall, mencionar duas correntes de idéias pre...
Assim, por exemplo, é noção corrente, divulgada em aulas, com-pêndios, enciclopédias e dicionários de Economia, que o prin...
emprego em Economia a estreitos limites, confinando os diagramas anotas de rodapé e as equações a apêndices, em vez de, co...
pretação econômica dos fatos complexos e incompletamente conhecidosda experiência, e leva-nos muito pouco adiante no estab...
suas idéias nesse campo são os Official Papers, coletânea de memo-randos e depoimentos prestados a órgãos governamentais, ...
Marshall pretendia, como plano de trabalho inicial e básico, es-crever uma série de monografias sobre problemas econômicos...
diversos, alguns dos quais publicados.27 Os fundamentos da sua teoriageral, segundo ele próprio, já estavam mais ou menos ...
como disse, de forma acessível a um mítico “homem de negócios comum”.Daí a evidente preocupação didática não só na concisã...
de seu trabalho analítico, ”a obra-prima clássica dessa análise parcialtão admirada por uns e tão criticada por outros".32...
nas investigações econômicas que tornam necessário ao homem, comsuas limitadas faculdades, avançar senão passo a passo; de...
3) a explícita introdução do elemento Tempo como um fator naanálise econômica, bem como as concepções de períodos “longos”...
tíveis, no entanto, com uma velha crença na resistência das forças daconcorrência. Diz o prof. Edgeworth: “Posso me lembra...
para a Economia moderna”.39 Logo no início dos Princípios, Marshall,lembra Levitt, tornou claro o que iria enfrentar: “......
dizer sobre sua atenuação ou extinção em outros escritos e cartas pu-blicadas, é a inclusão nos Princípios de tantas censu...
as mulheres com a tentação de altos salários, que estariam se elevandorelativamente mais depressa do que os dos homens, o ...
pobreza de seus pais. Mas não achava que a pobreza fosse a explicaçãode tudo. Pronta ação, disse ele, é necessária com res...
gerações de economistas, diz Levitt, Marshall tinha clara consciênciadessa alta obrigação.Teorias do salário e da distribu...
a desejar quando estendida da mercadoria ao trabalho: “As exceçõessão raras e sem importância nos mercados de mercadorias ...
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  1. 1. OS ECONOMISTAS
  2. 2. ALFRED MARSHALLPRINCÍPIOS DE ECONOMIATRATADO INTRODUTÓRIONatura Non Facit SaltumVOLUME IIntrodução de Ottolmy StrauchTradução revista de Rômulo Almeida e Ottolmy Strauch
  3. 3. FundadorVICTOR CIVITA(1907 - 1990)Editora Nova Cultural Ltda.Copyright © desta edição 1996, Círculo do Livro Ltda.Rua Paes Leme, 524 - 10º andarCEP 05424-010 - São Paulo - SPTítulo original:Principles of Economics: An Introductory VolumeDireitos exclusivos sobre a Apresentação de autoriade Ottolmy Strauch, Editora Nova Cultural Ltda.Impressão e acabamento:DONNELLEY COCHRANE GRÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA.DIVISÃO CÍRCULO - FONE (55 11) 4191-4633ISBN 85-351-0913-7
  4. 4. INTRODUÇÃO(Ensaio biobibliográfico sobre Alfred Marshall)“A verdade biográfica é indevassável”(Freud a Arnold Zweig)Marshall pertence, legitimamente, à linhagem dos grandes mes-tres fundadores da Economia Política Clássica inglesa — Adam Smith,Ricardo, J. S. Mill —, corrente de pensamento das mais fecundas que,brotando da Revolução Industrial, expandiu-se no século XIX e es-praiou-se até nossos dias por ramificações e canais doutrinários osmais diversos. Essa corrente teve três épocas distintas: a Clássica pro-priamente dita, a Ricardiana e a Marshalliana ou Ricardiana-Refor-mada.1 Os Princípios de Economia de Marshall constituem, juntamentecom A Riqueza das Nações de Adam Smith, e os Princípios de Ricardo,um dos grandes divisores de águas no desenvolvimento das idéias eco-nômicas,2 representando a transição da antiga para a moderna Eco-nomia. Na história do pensamento econômico, Marshall tem um lugarproeminente, sendo considerado o chefe da chamada “escola neoclássicade Cambridge”; título, aliás, a que ele jamais se arrogou, embora fosseconsciente de sua posição hegemônica no mundo anglo-saxônico, o queexplica muito do que ele fez e do que se omitiu.Segundo a conhecida “Árvore Genealógica da Economia” traçadapor Samuelson,3 Adam Smith (1723-1790), gênio tutelar da escola clás-sica, gerou David Ricardo (1772-1883), o “pai de todos”, que gerou duas51 SHOVE, G. F. “The Place of Marshall’s PRINCIPLES in the Development of EconomicTheory”. In: Economic Thought — An Historical Anthology. GHERITY, James A. (ed.).New York, Random House, 1965. p. 453 (publicado originalmente no Economic Journal.LII, 1942. p. 284-329).2 SHOVE. Loc. cit.3 Introdução à Análise Econômica. 8ª ed., Rio de Janeiro, Agir Editora, 1975.
  5. 5. correntes opostas: uma, ortodoxa, personificada em John Stuart Mill(1806-1876) e nos neoclássicos Léon Walras (1834-1910), William Stan-ley Jevons (1835-1882), e Alfred Marshall (1842-1924), a qual gerouJohn Maynard Keynes (1883-1946), de quem provieram, por sua vez,os “neo” e os “pós-keynesianos” dos nossos dias; outra, heterodoxa,representada por Karl Marx (1818-1883) e seus descendentes “socia-listas científicos” matizados de hoje. Esses dois ramos díspares, e seusrebentos de diferentes graus de legitimidade ou bastardia em relaçãoaos seus respectivos troncos histórico-doutrinários, constituem a teoriae a prática da Economia contemporânea.A contribuição de Marshall ao progresso da ciência econômica é,sem dúvida, de importância histórica. Herdeiro da rica herança inte-lectual dos economistas e pensadores dos séculos XVIII e XIX, tantoda Grã-Bretanha quanto do resto do continente europeu, exímio ma-temático, versado em Ciências Naturais, Filosofia, História e clássicosda Antiguidade greco-romana, Alfred Marshall sistematizou e quanti-ficou o material de Adam Smith e Ricardo, complementando-o e tor-nando seus princípios e conceitos “operacionais”, ou seja, na linguagemtecnológica de hoje, “reciclou-os”, tornando-os “computáveis”. Inovandoou simplesmente sistematizando em matéria doutrinária e de metodo-logia da análise econômica, procurou despojar a Economia Política or-todoxa de seu pretenso dogmatismo, universalidade e intemporalidade,submetendo seus postulados a um rigoroso tratamento científico, es-pecialmente diagramático e matemático, sendo considerado, a justotítulo, um dos precursores, com Cournot e Walras, do que hoje cha-mamos de Econometria. Marshall contribuiu, também, e sobretudo,para reabilitar e humanizar a Economia Política que, no curso da Revo-lução Industrial, criara um mítico homo economicus, lobo de seu seme-lhante, movido exclusivamente pelo interesse pessoal na luta pela sobre-vivência do mais forte, num “darwinismo social” impiedoso e incessante.Para Marshall, a Economia com suas análises e leis não era umcorpo de dogmas imutáveis e universais, e de verdade concreta, mas“uma máquina para a descoberta da verdade concreta”. Keynes, seudiscípulo dileto em Cambridge e seu mais eminente biógrafo, refere-seà “sua descoberta de um completo sistema copernicano no qual todosos elementos do universo econômico são mantidos em seus lugares pormútuo contrapeso e interação”.4 O próprio Marshall, aliás, já exprimiaessa concepção das posições mutuamente dependentes dos fatores eco-nômicos, mesmo antes da publicação dos Princípios, comparando o uni-OS ECONOMISTAS64 "Alfred Marshall, 1842-1924". In: The Economic Journal. XXXIV, nº 135, setembro de 1924,p. 350. Republicado em Memorials of Alfred Marshall, ed. por A. C. Pigou, 1925, e nosEssay in Biography, 1933, do próprio Keynes. Nesse estudo, a mais completa biografia deMarshall, considerado por Schumpeter “uma das notáveis obras-primas da literatura bio-gráfica”, baseia-se, em grande parte, o presente ensaio biobibliográfico.
  6. 6. verso econômico ao sistema solar. “Assim como o movimento de todocorpo no sistema solar afeta e é afetado pelo movimento de todo outro,assim é com os elementos do problema da Economia Política”.5Ainda na opinião de Keynes, “Marshall foi, como cientista, dentrode seu campo próprio, o maior do mundo por cem anos”.6 SummaEconomica e compêndio básico para gerações sucessivas de estudantes,professores e economistas profissionais, seus Princípios seriam, segundoalguns, a única obra a conter toda a ciência econômica de seu tempo.“Está tudo em Marshall” — era voz corrente nos círculos acadêmicosdos países de língua inglesa e de grande parte da Europa continental,onde sua influência predominou, inquestionável, até recentemente, ten-do atingido seu zênite no primeiro quartel deste século, a chamada“época marshalliana” por excelência.Sua sombra gigantesca projeta-se até hoje sobre nós, reconheceuSchumpeter,7 um dos seus mais lúcidos e severos críticos. E essa sombrasó tende a crescer na medida em que, na crista da onda neoconserva-dora, a ortodoxia política refluir à ortodoxia econômica. Ainda que sobessa inspiração a releitura dos clássicos da Economia Política, em buscadas fontes originais do fundamentalismo econômico, será salutar e,para alguns, surpreendente. Ver-se-á, por exemplo, que Adam Smithtinha opiniões heterodoxas como a dos maus efeitos dos altos lucrossobre a elevação dos preços, que o lucro é um dedução do produto dotrabalho, que o trabalhador é o único produtor de valor e o trabalho,portanto, é a medida real do valor de troca de todas as mercadorias.Ricardo, por sua vez, fazia do trabalho o estalão e a fonte criadora deriqueza, além de haver apontado, pela primeira vez, para a expropriaçãoda “mais-valia” da mão-de-obra. Stuart Mill foi mais além, pois erapartidário da intervenção do Estado na economia para coibir os abusosdo laissez-faire no mercado e acabou proclamando-se socialista. Quantoao nosso Marshall, sua obra, sob o rigor da densa e sistemática análiseeconômica, está impregnada da questão social, interrogando-se cons-tantemente sobre se realmente haveria necessidade de existirem pobrespara que houvessem ricos, considerando a suprema finalidade da eco-nomia Política elucidar essa questão crucial. E até mesmo Marx, noextremo oposto do espectro doutrinário, relidos seus próprios escritosem confronto com a vulgata de seus supostos intérpretes, adeptos ouadversários, cuja interpretação, como a dos teólogos, passa por dogmaexclusivo, acaba-se concordando com o próprio em que, afinal, “ele nãoera marxista...”MARSHALL75 Artigo de Marshall de crítica à Political Economy de Jevons, publicado em The Academyem 1872, um dos dois únicos artigos de crítica que Marshall jamais publicou; o outro versasobre Mathematical Psychics de Edgeworth em 1881, apud Keynes, ibid.6 Loc. cit. p. 321.7 "Alfred Marshall’s Principles: A Semi-Centennial Appraisal". In: Ten Great Economists —from Marx to Keynes. Nova York, Oxford University Press, 1951. p. 91.
  7. 7. Um “eminente vitoriano”A biografia de Marshall, isto é, a cronologia de sua vida, nadamais é que a moldura de sua obra como, via de regra, só acontece comos grandes pensadores e artistas, com as raras e históricas exceçõesde todos conhecidas. Não há em sua vida acontecimentos que tenhamsignificado próprio, senão em função de sua obra. De resto, em si “averdade biográfica é indevassável” (como escreveu Freud a ArnoldZweig). Sua vida transcorreu, mansa e tranqüila, ao longo de duasvertentes — pacato professor e economista inovador —, a exemplo deAdam Smith; vertentes, aliás, convergentes, já que ele tinha por hábitocomunicar a seus colegas e discípulos, muito antes de publicá-las, suascriações no campo da economia, e, por outro lado, como economistasempre teve a preocupação didática de explicar e ensinar.Alfred Marshall nasceu em 26 de julho de 1842 em Clapham —um bairro então aprazível de Londres — filho de William Marshall eRebeca Oliver, de classe média. Seus ascendentes pelo lado paternoeram principalmente clérigos, alguns dos quais tiveram certa notorie-dade, tanto pela peculiaridade de suas convicções religiosas como, nocaso de um deles notadamente, pela descomunal força física. Seu painão seguiu a tradição familiar, mas quis que o filho o fizesse, o queele acabou não fazendo, como é comum acontecer. Esse traço anglicano,porém, severo, ascético e antifeminista, especialmente pronunciado nosr. William, marcou a formação do jovem Alfred, orientada, a princípio,para a ordenação clerical. Mas não só ele não se ordenou, como nemmesmo, por fim, manteve-se crente; e a vida reservou-lhe ainda a irônicasurpresa de levá-lo a casar-se com uma das primeiras mulheres daInglaterra a obter grau universitário — a que sempre se opôs porquestão de princípio — e que, ademais, foi professora de Economia esua ativa colaboradora intelectual.Seu pai, caráter resoluto e dominador mas não cruel, em que arispidez era temperada pela afeição familiar, era um evangelista eantifeminista militante, autor já na velhice (morreu com 92 anos) deum panfleto significativamente intitulado “Os Direitos do Homem eos Deveres da Mulher”. Ocupando a posição de certo relevo de Caixado Banco da Inglaterra, proporcionou ao filho uma infância de relativoconforto mas exerceu despótica influência nos primeiros estágios desua educação, financiada, no entanto, até o fim por “bolsas”, auxíliode parentes e aulas particulares. Obrigava Alfred a estudar, até altashoras da noite, hebraico (então preparatório para a carreira eclesiás-tica), que ele detestava e proibia-o, terminantemente, de praticar suasrecreações prediletas — a Matemática, e o xadrez, consideradas “fri-volidades ociosas”; proibições essas que, em relação à primeira, o jovemdesobedecia sistemática e secretamente mas que, quanto à segunda,ele respeitou a vida inteira, exceto quanto à leitura, já adulto, de pro-OS ECONOMISTAS8
  8. 8. blemas de xadrez. “Esse controle e repressão paternal teve um efeitomarcante e duradouro sobre Marshall. Sua pronunciada tendência paraa hipocondria, sua relutância em comprometer-se inequivocamente empublicar sem reservas e restrições maciçamente documentadas, seutemor à indolência e a ociosidade, sua rejeição fundamental de ativi-dades de ”puro prazer" (tal como a Matemática) têm suas raízes nasexperiências de sua infância e juventude" — é a observação de Corry.8A que Keynes acrescenta: “A hereditariedade é poderosa e Marshallnão escapou de todo da influência do molde paterno. Um senso enrai-zado de predomínio em relação ao gênero feminino lutava nele comuma profunda afeição e admiração que sentia por sua própria mulher,e com um meio que o lançou em contato estreito com a educação e aliberação das mulheres”.9 Bem, isso é o quanto basta sobre os antece-dentes familiares de Marshall e a influência sobre a sua personalidade.Aos nove anos de idade, fez seus estudos de letras e línguasclássicas num reputado estabelecimento de ensino (Merchant Taylor’sSchool), graças a uma “bolsa” que seu pai, percebendo sua capacidade,obteve de um diretor do Banco da Inglaterra. Pela distinção com quefez esse curso, que abrangia a Matemática até o nível de cálculo di-ferencial, teria Alfred direito a uma “bolsa” de estudos clássicos naUniversidade de Oxford, requisito básico para a sua ordenação na IgrejaAnglicana, a que, como foi dito, estava destinado pelo pai. Ele, porém,rejeitou o desígnio paterno, rebelando-se não propriamente contra ateologia ortodoxa mas contra o prosseguimento de estudos clássicos, efoi fazer um curso superior de Matemática no St. John’s College daUniversidade de Cambridge, com dinheiro emprestado por um tio, em-préstimo que, uma vez formado, pagou em um ou dois anos, dandoaulas particulares de Matemática.Aliás, esse instrumental científico foi a vida inteira seu violond’Ingres, pois, se conseguiu consagrar-se como emérito economista, foisempre, no entanto, basicamente um excelente e exemplar matemático.Menino ainda já lia livros da matéria, escondido do pai, que felizmente,dizia Marshall, nada entendia do assunto. “Ele tinha um gênio paraa Matemática”, reconheceu um dos seus primeiros professores, na Mer-chant School. Em Cambridge foi um dos mais brilhantes estudantesda matéria de sua geração. Ele próprio recorda o jovem teórico queem 1869, com 27 anos, portanto, costumava “pensar em matemáticamais facilmente do que em inglês”.A Matemática foi a sua vocação básica, seu primeiro ganha-pão,e já quando economista seu principal instrumento analítico e metodo-lógico, além de ter sido seu caminho de acesso à Economia. Foi graçasMARSHALL98 CORRY, Bernard. “Marshall, Alfred”. In: International Encyclopedia of the Social Sciences.SILLS, David S. (ed.) The Macmillan Company ε The Free Press, 1968. v. 10, p. 25.9 Ibid, p. 312.
  9. 9. a ela que conseguiu transformar o material de Adam Smith, DavidRicardo e Stuart Mill, em “uma máquina moderna de pesquisa”. Osalicerces e o arcabouço semi-oculto de sua obra são matemáticos. Suadívida para com a Matemática, “seu grande aliado impessoal”, é imensae, segundo alguns, jamais resgatada, pois que nunca lhe foi suficien-temente reconhecido e grato. A verdade é que sua atitude em face daMatemática, ou melhor, do seu emprego na Economia, foi ambivalente,relegando-a, aparentemente, a um plano secundário, confinando, emsuas obras, os diagramas a notas de rodapé e as equações a apêndices.Mas sua concepção dos usos e abusos da Matemática em Economia, oque hoje se chama Econometria, será melhor explanada quando forabordada a sua obra como economista. Retomemos, enquanto isso, ocurso de sua vida.Uma vez concluído, com distinção, o curso de Matemática em1865, passou imediatamente a dar aulas dessa ciência como professortitular no Clifton College, por um breve período, e, em seguida, comopreparador (ou explicador) para os cursos regulares de Matemática emCambridge, ao mesmo tempo que estudava Filosofia, especialmenteKant e Hegel. Aí, principalmente sob a influência de alguns professoresuniversitários que se preocupavam com os problemas sociais provocadospela Revolução Industrial e que se reuniam informalmente numa So-ciedade de Debates (Grote Club), foi se afastando gradualmente daMetafísica, da Ética e da Psicologia, que estavam então nas fronteirasdas Ciências Sociais. Abandonou definitivamente a religião, tornando-seagnóstico, embora perdurasse, por toda a vida, o substrato anglicanode sua formação. Foi por essa época que se processou a laicização doensino universitário, já que só na segunda metade do século XIX éque foram abolidos nas universidades inglesas, Cambridge inclusive,os exames de Teologia para todos os alunos, exceto os dos cursos dessamatéria. Marshall passou então a preocupar-se com a questão social,sendo levado à “percepção de que a pobreza estava na raiz de muitosmales sociais”, o que acabou conduzindo-o ao estudo da Economia. Ma-téria para a qual, como muitos dos grandes economistas contemporâ-neos, nunca fez curso universitário regular e especializado, já que naépoca a matéria não existia senão como complemento de outros cursos,tal qual como no Brasil de algumas décadas atrás. Segundo a suaconvicção, que manteve inalterada pela vida inteira, o problema dapobreza era não somente fundamental para a Economia como a suaprópria razão de ser. Como ele próprio viria mais tarde a dizer nosPrincípios: “o estudo das causas da pobreza é o estudo das causas dadegradação de uma grande parte da Humanidade”.Tal como seu contemporâneo Karl Marx, Marshall passou da Fi-losofia para a Economia, só que no seu caso foi pela via matemática.Descrevendo sua passagem para a Economia, recordava ele já no finalda vida: “Da Metafísica fui para a Ética, e achei que a justificativaOS ECONOMISTAS10
  10. 10. das condições existentes da sociedade não era fácil”. Um amigo, comquem discutia questões sociais, retrucou-lhe um dia: “Você não diriaisso se soubesse Economia”. Sua iniciação no campo econômico proces-sou-se, segundo ele próprio, da seguinte forma: “Minha familiarizaçãocom a Economia começou com a leitura de Mill, enquanto ainda estavaganhando minha vida ensinando Matemática em Cambridge, e tradu-zindo suas concepções em equações diferenciais até onde pudesse ir;e, em regra, rejeitando aquelas que a isso não se prestassem... Issofoi, principalmente, em 1867/68".10 ”Enquanto estava dando aulas par-ticulares de Matemática, traduzi o quanto possível os raciocínios deRicardo para a Matemática e empenhei-me em torná-los mais gerais".11Em 1868, ainda com resquícios da fase metafísica, levado pelodesejo de poder ler Kant no original, foi aperfeiçoar seu conhecimentoda língua na Alemanha, onde entrou em contato com economistas ale-mães, especialmente Roscher. Nessa mesma data cessou o professoradode Matemática e passou a exercer a livre-docência de uma nova cadeirano currículo de Ciências Morais, criada em St. John’s especialmentepara que ele pudesse dar aulas de Economia Política e Lógica. “Épossível ver que espécie de jovem era ele nessa época;” — lembraalguém que o observou de perto — “brilhante matemático, um jovemfilósofo carregando uma carga indigesta de Metafísica alemã, Utilita-rismo e Darwinismo; um humanitarista com sentimentos religiosos massem credo, ansioso por aliviar o fardo da Humanidade mas moderadopelas barreiras reveladas pela Economia Política ricardiana — vê-seo substrato de um homem que se tornou para seus alunos sábio epastor tanto quanto um cientista, cujo ponto de vista científico e objetivoera dar à Economia uma renovada postura pública, cuja simpatia paracom a reforma social levava-o a querer derrotar os que a ela se opu-nham, cujas altas aptidões deveriam ser zelosamente devotadas à suaamante intelectual como as de um artista à sua musa”.12Durante os nove anos seguintes Marshall continuou em Cam-bridge lecionando Economia Política e Lógica e elaborando as basesde seu pensamento econômico. Costumava passar as férias nos Alpessuíços, “fortalecendo o corpo e o espírito”, hábito que conservou a vidainteira, levando uma grande caixa de livros, dentre os quais a sra.Marshall lembra Goethe, Hegel, Kant e Herbert Spencer, quando aindaem sua fase filosófica. Mais tarde, já tendo ingressado no campo daEconomia, começou a desenvolver nessas excursões suas teorias sobreComércio Interno e Exterior. “Ele fazia suas reflexões mais profundasMARSHALL1110 Memorials of Alfred Marshall. PIGOU, A. C. (ed.). Nova York, Kelley, 1966. p. 412.11 Carta a J. Bonar. In: Memorials. p. 374.12 HOMAN, P. T. Contemporary Economic Thought. p. 197-198. Apud GUILLEBAUD, G. W.Alfred Marshall — Principles of Economics. 9ª ed. (Variorum), Editorial Introduction, Lon-don, Macmillan, 1961.
  11. 11. nesses passeios solitários nos Alpes”, e períodos de Wanderjahre, comoos chamava a sra. Marshall, lembrando ainda que Marshall “semprefez o seu melhor trabalho ao ar livre”, mesmo quando em Cambridge.Em 1875 Marshall visitou os Estados Unidos por quatro mesescom o propósito de “estudar o problema do Protecionismo em um paísnovo”. Percorreu todo o leste e foi até San Francisco. Esteve nas Uni-versidades de Harvard e Yale, e manteve longas conversações comeconomistas acadêmicos e contatos com figuras proeminentes. Voltouentusiasmado com a vitalidade industrial do país.Já então preocupava-se em dar ao ensino da Economia Políticamaior autonomia e status, colaborando nesse sentido com os professorestitulares Fawcett e Sidwig. A eles juntaram-se antigos alunos seus,tais como H. S. Foxwell e John Neville Keynes (pai do famoso econo-mista), os quais se tornaram, mais tarde, conferencistas em EconomiaPolítica na Universidade. Esses esforços acabaram por serem coroadosde êxito, graças principalmente a Marshall, como se verá em seguida.Em 1877 casou-se com Mary Paley, sua antiga aluna de EconomiaPolítica e que mais tarde lecionaria a matéria no colégio feminino deNewham em Cambridge. Admirável figura humana — uma das pri-meiras mulheres inglesas a obter grau universitário —, Mary Paleyfoi uma companheira exemplar para Marshall e sua ativa colaboradoraintelectual. Todos os professores e alunos que freqüentavam a casados Marshall são unânimes em elogiar suas qualidades humanas eintelectuais. Mantinha-se, no entanto, em segundo plano pelo sensode devoção e o reconhecimento da superioridade do marido, dedican-do-se inteiramente àquele que ela achava que tinha algo de mais im-portante a dizer e a escrever, e que, provavelmente, não o teria feitotão bem sem a sua inteligente e ativa colaboração durante os quarentae sete anos em que estiveram casados. Marshall, aliás, no prefácio à8ª edição dos Princípios reconhece expressamente que sua mulher oajudou e aconselhou nas sucessivas edições da obra.Segundo os regulamentos universitários então vigentes, Marshallao casar-se foi obrigado a abrir mão da posição que ocupava em St.John’s. Assim, deixou Cambridge e foi para Bristol como diretor doColégio Universitário estabelecido pela Universidade de Oxford e pro-fessor de Economia Política. Dava aulas à noite para jovens homensde negócios, enquanto sua mulher lecionava a mesma matéria, de ma-nhã, para turmas compostas principalmente de mulheres. Foi aí, em1879, que publicou seu primeiro livro, Economics of Industry, em co-laboração com a sra. Marshall (e que é, na verdade, mais dela do quedele), um pequeno compêndio concebido como manual para uso no cursode extensão da Universidade de Oxford em Bristol. Antes, porém, masnesse mesmo ano, Henry Sidwick publicou, com permissão de Marshallpara circulação restrita, um folheto com alguns capítulos, não conse-cutivos, de um tratado que Marshall pretendia escrever sobre a “TheoryOS ECONOMISTAS12
  12. 12. of Foreign Trade, with some allied problems relating to the theory oflaissez-faire” e que nunca foi publicado; mas suas partes mais impor-tantes foram incorporadas aos Princípios. Esteve empenhado nesse es-tudo de 1869 a 1877, abandonando-o para colaborar na feitura do Eco-nomics of Industry.13Em 1881 Marshall, por motivo de saúde (cálculo renal), deixouo cargo de Diretor do Colégio Universitário em Bristol e foi recuperar-sena Itália, onde permaneceu durante um ano e, não obstante, continuouseus trabalhos de Economia. Retornando a Bristol em 1882, onde aindaera professor de Economia Política, estava com a saúde completamenterestaurada mas passou a manifestar uma acentuada tendência hipo-condríaca, considerando-se sempre à beira da invalidez, embora se man-tivesse firme e intelectualmente ativo até os últimos anos de sua vida.Graças à amizade com o dr. Jowett, Diretor de “Balliol”, da Uni-versidade de Oxford, muito interessado em Economia e que costumavadiscutir assuntos econômicos quando se hospedava na casa de Marshallem Bristol, tornou-se, em 1883, livre-docente de Economia Política em“Balliol”, dando aulas para candidatos ao Serviço Civil da Índia. Suacarreira em Oxford foi breve e brilhante — atraía alunos dos maistalentosos e suas preleções públicas eram assistidas por maiores emais entusiásticas classes do que em qualquer outro período de suavida. Tomava parte em debates públicos e adquiriu crescente prestígionos círculos universitários.Em janeiro de 1885, no entanto, voltou para Cambridge comoprofessor titular de Economia Política, em substituição a Henry Faw-cett, que morrera no ano anterior, cátedra que até hoje está ligadaindissoluvelmente ao seu nome e que ocupou por vinte e três anos atéaposentar-se em 1908, para dedicar-se exclusivamente à sua obra deeconomista. Tinha então 66 anos e viveu ainda mais dezesseis anosem Balliol Croft, vivenda que construiu em Medingley Road (endereçoque fecha o Prefácio à 8ª e definitiva edição dos seus Princípios) eonde morreu em 13 de julho de 1924, pouco antes de completar 82anos de idade. A casa, com a biblioteca, foi legada à Universidade deCambridge, onde se encontram seus manuscritos e obras inéditas, aindauma vez mais graças à sua viúva, que preservou a sua memória detodos os modos, fornecendo, inclusive, a Keynes notas e apontamentosde Marshall e dela própria que lhe permitiram escrever a obra-primaque é a biografia de seu antigo mestre e amigo, um monumento pereneao qual ele tanto devia.Marshall, tal como Samuelson hoje,14 gostava tanto de estudarMARSHALL1313 Alguns fragmentos do manuscrito original estão guardados na Biblioteca Marshall emCambridge. O folheto foi reimpresso em fac-símile pela “London School of Economics” em1930 como o nº 1 de sua série “Reprints of Scarce Tracts in Economics and Politics”.14 Newsweek. 24-12-80.
  13. 13. Economia quanto de ensiná-la. Professor a vida inteira, mesmo quandoabandonou formalmente o ensino ao aposentar-se da cátedra, refletea preocupação didática em suas obras, as quais pretendia que fossementendidas pelo maior número possível de leitores, especialmente poressa figura mítica do homem comum de negócios. Daí a linguagemclara e concisa, a precisão dos conceitos, a factualidade da exemplifi-cação, extraída, tanto quanto possível, da vida corrente e evitando,sobretudo, o uso abusivo da Matemática no curso da exposição.Tanto como professor universitário quanto como economista,Marshall foi uma figura singular. Primeiro, pela imensa e hegemônicainfluência que exerceu sobre gerações de economistas, alguns seus an-tigos discípulos, que adquiriram renome universal, dentre os quais,para só citar dois dos mais proeminentes, Pigou, que o substituiu emCambridge, e Keynes que, partindo de algumas idéias básicas de seuvelho mestre, revolucionou a teoria e a política econômicas na primeirametade de nosso século. Em segundo lugar, pela própria singularidadede seus métodos pedagógicos. Como não gostasse de lecionar para tur-mas grandes e possivelmente desinteressadas, procurava diminuir onúmero de alunos que acorriam ao seu curso, reduzindo-o aos realmenteinteressados na matéria, advertindo logo nas primeiras aulas que, seviessem apenas com a esperança de se prepararem para passar nosexames, desistissem prontamente porque ali não era o lugar para isso.Na verdade, Marshall não transmitia propriamente informações, achan-do que isso era função dos livros, mas obrigava os alunos a refletir econcluir, despertando-lhes, além do gosto pela matéria, a especulaçãoe a compreensão dos problemas. Nada de aulas magistrais, pronun-ciamentos dogmáticos do tipo magister dixit mas, antes, provocando oespírito de análise e crítica, a desconfiança das causas aparentes e,sobretudo, “melodramáticas”, quase nunca verdadeiras. Seu método deensino era algo maiêutico: pela análise e crítica alcançar a verdade,antes do que pelo processo de mera transmissão e assimilação de sim-ples informação. Era algo semelhante ao método do prof. Tobins, recentePrêmio Nobel de Economia: ajudar o aluno, por meio da proposição deteses e questões, a chegar a conclusões corretas por seu próprio esforçode raciocínio. Raramente levava apontamentos para as aulas e quasenunca os consultava, sendo suas preleções de certo modo assistemáticase fragmentárias, dificultando ou mesmo impossibilitando os alunos detomarem notas e organizarem súmulas. Preferia antes dissertar, oumelhor, divagar sobre temas e problemas diversos, nem sempre conexos,procurando analisá-los com os alunos, demonstrando tanto a sua rea-lidade quanto a complexidade de suas causas e efeitos. “Quando causase efeitos fazem combinações melodramáticas, os historiadores os ligam,suspeitem da conexão”, dizia, conforme um dos seus discípulos, quelembra ainda: “ele gostava de contrastar as causas supostas e reaisdos acontecimentos, realçar a significação dos fatos ocultos ou ignoradosOS ECONOMISTAS14
  14. 14. — a causa insuspeita, essa diminuta circunstância, essa coincidêncianegligenciada, mudou o curso da História. Embora não tivesse grandeamor pela História, suas generalizações e interpretações históricaseram de grande originalidade e interesse, e soube que ele pensou, certavez, em escrever um extenso tratado de História Econômica”.15Rigoroso nos exames e na correção dos trabalhos escolares, fa-zendo comentários críticos ou elogiosos entremeados de humor, foi, noentanto, amigo paternal de seus alunos, ajudando-os na escolha detemas e na elaboração de teses, emprestando-lhes livros, recebendo-osem sua casa para discussão ou simples conversa, e pagando de seuparco bolso os estudos dos mais carentes. Deixou em todos os que lhefreqüentaram as aulas uma indelével impressão, um sentimento deadmiração e amizade filial, e, sobretudo, a gratidão não por lhes terensinado Economia mas por lhes ter incutido a visão da importância,complexidade e unidade dos problemas econômicos, uma visão nova efecunda de que se aproveitariam para sempre.Quando ainda professor, Marshall teve atuação destacada emtrês importantes movimentos: 1) a fundação da Associação EconômicaBritânica, agora Royal Economic Society; 2) a controvertida questãoda Graduação Universitária de Mulheres em Cambridge, que agitoue dividiu a Universidade, controvérsia na qual Marshall, não obstanteser em princípio favorável à emancipação feminina, opôs-se, igualmentepor princípio, à concessão de grau universitário a mulheres, para grandedecepção de seu círculo de amigos liberais e progressistas, atitude quesó pode ser explicada pelo seu ancestral e entranhado preconceito “ma-chista”. Tal atitude é tanto mais estranhável num homem de sua cul-tura e inteligência quando ele tinha em casa — lembremo-nos — oexemplo de sua própria mulher, de formação universitária e que tantoo ajudou intelectualmente, para não citar o caso de tantas outras mu-lheres que, na época, se distinguiram em diversos campos de atividades,tais como as irmãs Brontë, George Eliot, Florence Nightingale, HarrietBeecher Stowe, Mary Kingsley (antropóloga e bióloga que explorou aÁfrica Ocidental), James Barry (que, disfarçada de homem, formou-seem Medicina em 1812 e, incógnita, tornou-se um dos mais hábeis ci-rurgiões do Exército britânico); 3) criação da Escola de Economia deCambridge, tornando o ensino da Economia independente do currículode outros cursos (Ciências Morais e História), movimento de evoluçãogradual que só se completou em 1903, pelo que Marshall pode serconsiderado, legitimamente, o fundador dessa Faculdade (que não deveser confundida com a corrente doutrinária que dela derivou, a “escolaneoclássica de Cambridge”, de que ele foi, também, o fundador).Vejamos agora Marshall como o eminente economista. Cabe res-MARSHALL1515 BENIANS, E. A. In: Memorials. p. 78-80.
  15. 15. saltar, inicialmente, que a importância histórica de sua obra contrastacom a sua relativa exigüidade, considerando que sua atividade inte-lectual, sujeita naturalmente a hiatos periódicos mas breves, começoucedo e estendeu-se praticamente até o fim de sua vida. As razões dessaparcimônia são tanto de ordem circunstancial quanto pessoal: absorção,a princípio, nas atividades de magistério; duas ou três interrupçõescurtas por motivo de doença, sendo que o problema de saúde foi umadas razões por ele alegadas, no Prefácio à presente obra, para alterarseus grandes projetos intelectuais; seu “fôlego curto” como tratadista,contrariamente a Adam Smith, por exemplo, fazendo-o vacilar por muitotempo sobre a melhor maneira de abordar um assunto — se monogra-ficamente ou au grand complet, deixando algumas obras de maior fôlegoesboçadas ou apenas idealizadas —; a extrema preocupação com a exa-tidão e perfeição dos conceitos expressos; o hábito de fazer circularoralmente entre colegas e alunos suas produções intelectuais, algumasdas quais foram publicadas particular e fragmentariamente em círculosrestritos ou só incorporadas muitos anos mais tarde a seus escritos;a quase mórbida suscetibilidade à crítica e à controvérsia, o que ofazia espaçar e retardar demasiadamente a publicação em forma de-finitiva de seus escritos teóricos.A bibliografia completa dos trabalhos de Marshall16 compreende81 itens, dos quais apenas uns poucos podem ser considerados livros,constituída a grande maioria de folhetos, artigos e depoimentos peranteórgãos governamentais. Os livros são os seguintes, em ordem cronoló-gica de publicação: 1) The Economics of Industry (1879), em colaboraçãocom Mary P. Marshall, já mencionado anteriormente e que mais tardeMarshall retirou de circulação por motivos pessoais não muito claros,alegando que “não se pode vender barato a verdade”; 2) Principles ofEconomics (1890), que será examinado, detalhadamente, mais adiante;3) Elements of Economics of Industry (1892), publicado como “sendo oprimeiro volume de Elements of Economics” (que não apareceu) e que,conforme o próprio autor, é “uma tentativa de adaptar o primeiro vo-lume dos meus Princípios de Economia à necessidade de principiantes.Alguns trechos foram retirados do Economics of Industry”; 4) Industryand Trade: A Study of Industry Technique and Business Organization,and of Their Influences on the Conditions of Various Classes and Na-tions (1919) é, como diz Marshall no Prefácio à 8ª edição dos Princípios,uma continuação desta obra e substitui o prometido II volume quenunca veio à luz. É uma obra notável, comparável sob todos os aspectosaos Princípios, tanto na forma quanto no conteúdo; 5) Money, Creditand Commerce (1923), consubstanciando os primeiros estudos realiza-dos por Marshall e completados em 1875, sendo uma das duas principaisOS ECONOMISTAS1616 KEYNES, J. M. “Bibliographical List on the Writings of Alfred Marshall”. In: The EconomicsJournal. v. XXXIV, nº 136, dezembro de 1924. p. 627-637. Republicada no Memorials.
  16. 16. fontes de referência sobre a teoria monetária de Marshall; 6) OfficialPapers (1926), obra póstuma contendo trabalhos realizados entre 1886e 1903 e apresentados a órgãos governamentais; a mais importantedas duas fontes de informação sobre as idéias monetárias de Marshall.Cabe ainda mencionar Memorials of Alfred Marshall (1925), coletâneade ensaios sobre Marshall editada por Pigou, além da seleção de algunsde seus escritos avulsos mais importantes, republicando, ainda, a bi-bliografia elaborada por Keynes.Ao examinar a obra de Alfred Marshall deve-se ter em vista,naturalmente, as influências predominantes na formação de seu pen-samento sócio-econômico. Assim, sua condição familiar de pequeno-burguês e o molde ético-religioso que essa condição lhe impôs desdecedo são fatores não negligenciáveis na apreciação de suas concepções.Há que considerar, igualmente, o contexto histórico-cultural de suaépoca, a longa “era vitoriana”, pois, como bem observou Gillebaud,17“o principal período formativo de sua vida coincidia com o apogeu daInglaterra Vitoriana, e sob muitos aspectos característicos ele era um”eminente vitoriano" (segundo a expressão consagrada pelo conhecidolivro de Lytton Strachey). Quando ele nasceu, lembra o citado autor,Ricardo tinha morrido havia apenas dezenove anos e Malthus haviasomente oito; enquanto a primeira edição dos Princípios de EconomiaPolítica (de Mill) fora publicada em 1848, quando Marshall tinha seisanos de idade. Jevons era quase sete anos mais velho do que ele.Marshall foi, por conseguinte, contemporâneo, ou quase contemporâneo,dos mais famosos economistas do século XIX. Mas ele não foi um “emi-nente vitoriano” apenas pelas circunstâncias da contemporaneidadecom figuras célebres da época, mas também, e principalmente, porquesua mentalidade foi fortemente marcada pela ideologia predominantedurante o longo reinado da Rainha Vitória (1837-1901). Essa influênciatem muito a ver com a sua visão ético-social, como também, natural-mente, com a sua própria concepção econômica. Até certos modismosvitorianos, como por exemplo a tentativa pueril de restaurar as práticase o código de honra da Cavalaria medieval (mera justificativa para aociosidade da aristocracia, cuja única ocupação era caçar perdizes eraposas) e a idealização da civilização helênica, encontraram nele certasimpatia. Diante do conteúdo ético-social de sua obra, que examina-remos oportunamente, alguém disse que nela Calvino, a Igreja Angli-cana e o espírito vitoriano juntam-se numa simetria simbiótica.Marshall veio da Filosofia para a Economia por preocupaçõesético-sociais, único paralelo possível entre a sua biografia intelectuale a do seu antípoda, Karl Marx. Começou a estudar seriamente Eco-nomia em 1867, aos 25 anos portanto e, como informa Keynes, suasMARSHALL1717 Loc. cit.
  17. 17. doutrinas características estavam bastante desenvolvidas em 1875, sen-do que a partir de 1883 já assumiam sua forma final. Lembra aindaKeynes que a Political Economy de Mill apareceu em 1848, a 7ª edição(a última revista pelo autor) é de 1871 e Mill morreu em 1873. DasKapital de Marx apareceu em 1868; a Theory of Political Economy deJevons, em 1871; Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (Fundamentosda Economia Política) de Menger também em 1871; e os Leading Prin-ciples de Cairnes em 1874 — assim, concluiu, quando Marshall começou,Mill e Ricardo (e também Adam Smith, por que não?) ainda reinavamsupremos e indisputados.Cronologicamente, dentre as influências de personalidades mar-cantes em sua vida, a primeira seria Kant, o qual, na “fase metafísica”do desenvolvimento intelectual de Marshall, foi “seu guia” e o “únicohomem que jamais adorei”, “até que os problemas sociais vieram im-perceptivelmente à frente” diante da questão crucial: “as oportunidadesda vida real deverão ser reservadas a uns poucos?” A essa altura ainfluência dominante é a do prof. Henry Sidwick e seu círculo intelectualem Cambridge, através do qual Marshall foi levado à questão social.Sobre o papel desempenhado por Sidwick, o mais eminente de seuscontemporâneos, lembra Marshall: “Ainda que eu não fosse seu alunode fato, eu o fui substancialmente em Ciência Moral. Fui modeladopor ele. Foi, por assim dizer, meu pai e mãe espirituais: pois ia a elequando perplexo e para ser confortado quando perturbado; e nuncavoltei vazio.” “O convívio com ele me ajudou a viver”. Há, também, éclaro, Mill, a mais poderosa influência sobre a intelectualidade jovemda época (mais, aliás, por seus escritos filosóficos do que pelos econô-micos) e cujo Political Economy foi, como vimos, seu primeiro livro deleitura econômica e que muito o impressionou na época. Mais tarde,já amadurecido, Marshall não tinha Mill em muito alta conta comoeconomista, considerando clássicos Petty, Hermann von Thünen e Je-vons, mas não Stuart Mill. Marx, aliás, num dos seus costumeiroscomentários acerbos, disse sobre Mill que “sua proeminência é devidaem grande parte à planura do terreno” na época. Reconhece, por outrolado, que deve muito a Hegel (e quem não lhe é devedor?) e à suaFilosofia da História mas, ao que parece, não apreendeu dele, alémde um certo historicismo, o essencial, isto é, a dialética, de que nãohá vestígio em sua obra. Ainda no Prefácio à 1ª edição dos Princípios,diz-se credor de Herbert Spencer, Cournot e Von Thünen por diversascontribuições mencionadas na obra e que examinaremos oportunamen-te. Segundo notas autobiográficas Marshall sentiu-se atraído, em certaépoca, pelas novas concepções de Roscher (representante da escola his-tórica alemã) e outros economistas alemães, e até mesmo por Marx,Lassale e outros socialistas, com cujos ideais simpatizava em princípiomas não reconhecia validade em suas análises e conclusões concernen-tes à engenharia social.OS ECONOMISTAS18
  18. 18. Cabe ainda, neste quadro sumário e esquemático das raízes dopensamento de Marshall, mencionar duas correntes de idéias predo-minantes na época. Uma é o Utilitarismo de Bentham (1748-1832),doutrina que impregnou a sua concepção econômico-social, como tam-bém a de Mill em certa fase, tendo desempenhado importante papelna vida política da Inglaterra e podendo mesmo ser considerada umadas bases da ideologia burguesa do século XIX. A outra influênciadominante foi a das idéias evolucionistas de Darwin (A Origem dasEspécies. 1859) e daí um certo “darwinismo social”, adquirido atravésde Spencer, em que a competição (ou concorrência) seria a força motrizdo progresso econômico pela seleção dos mais aptos. No seu perfil in-telectual, convém lembrar, outrossim, a sua formação universitária,que não consistia exclusivamente da ciência matemática, mas tambémdo estudo das letras e línguas clássicas — grego e latim — como era,de resto, tradicional na formação universitária inglesa e européia demodo geral, e que até certa época era praticamente o único requisitointelectual exigido para o recrutamento da alta administração britânica.Por fim, cabe ressaltar, em sua formação de economista, a sua fami-liaridade (de que se vêem exemplos nos Princípios) com os principaisramos das indústrias, as práticas comerciais e a vida das classes ope-rárias, tendo tido inclusive contatos diretos com líderes sindicais emesmo com famílias de operários.O rastreamento da formação e evolução do pensamento econômicode Marshall e principalmente de suas contribuições específicas noscampos da doutrina e da metodologia da análise econômica é dificultadopelo fato de suas idéias terem sido formuladas e expostas em aulas,conferências e depoimentos perante órgãos governamentais, ou veicu-ladas fragmentariamente em publicações de circulação restrita, muitoantes de serem “oficializadas” em livros de forma sistemática e defi-nitiva. Sabe-se, não obstante, como já foi mencionado, que ele começoua estudar Teoria Econômica em 1867; seu pensamento na matéria es-tava amadurecido por volta de 1875, tendo assumido forma definitivaem 1883. Entretanto, nenhuma parte de sua obra foi dada a públicoem forma adequada senão em 1890 nos Princípios (não considerandoo manual de vulgarização publicado em 1879 em co-autoria com suamulher). E a parte de matéria em que primeiro trabalhou e que estavavirtualmente concluída em 1875 não foi publicada em livro senão cercade cinqüenta anos depois, em 1923 (Money, Credit and Commerce).Esse hiato entre a elaboração e a publicação de suas inovações con-ceituais e metodológicas teve como conseqüência ensejar a que algumasdessas inovações fossem divulgadas por outros, tirando delas, quandoenfim publicadas, a originalidade e o impacto da novidade. Daí muitoseconomistas do mundo inteiro, que conheciam Marshall pelos seus tra-balhos publicados, julgarem um tanto exagerada a proeminência quelhe atribuíam seus contemporâneos e sucessores ingleses.MARSHALL19
  19. 19. Assim, por exemplo, é noção corrente, divulgada em aulas, com-pêndios, enciclopédias e dicionários de Economia, que o principal títulode glória de Marshall na história do pensamento econômico seria o deter feito a síntese dos postulados clássicos com a doutrina marginalistadevida a Jevons e à chamada escola austríaca (Menger, Böhm-Ba-werck). Há quem prove, porém, como fez Shove,18 que ele nada devenem a um nem à outra, tendo em vista a originalidade ou prioridadesubjetiva das suas idéias, as datas de publicação das obras dos mar-ginalistas e as referências e reconhecimentos de Marshall às principaisfontes de suas contribuições. Quanto à contribuição dos clássicos, oque Marshall tentou fazer, segundo ele próprio, foi completar e gene-ralizar, por meio do aparato matemático, os postulados de Smith eprincipalmente Ricardo, conforme expostos por Mill. Aliás, quando eco-nomistas americanos acusaram-no de tentar “reconciliar” doutrinas di-vergentes, Marshall irritou-se com essa errônea e injusta interpretação.19Já a contribuição de Marshall à Economia Matemática ou Ma-temática Econômica, ou ainda, para ser mais preciso, à metodologiadiagramática, é incontroversa. A noção da extensão da aplicação dosmétodos matemáticos estava no ar, por assim dizer. Já nessa épocaesboçava-se nos círculos acadêmicos uma tendência a estender a apli-cação da Matemática das Ciências ditas experimentais às então cha-madas Ciências Morais, dentre as quais as Ciências Sociais; mas essatendência nada produzira até então de substancial e definitivo no campoda Economia. Ora, era natural que Marshall, por volta de 1867 amigodo grande professor de Matemática W. K. Clifford e por ele treinado,ao voltar-se para a Economia, personificada em Ricardo, começasse atrabalhar com diagramas e álgebra. Ele não foi, na verdade, o únicoe nem mesmo o primeiro dos economistas contemporâneos a utilizaro instrumental matemático para a análise econômica. Cournot já ohavia feito (Recherches sur les Principes Mathématiques de la Théoriedes Richesses. 1838), como também Walras (Eléments d’Économie Pure.1874-1887; La Théorie Mathématique de la Richesse Sociale. 1873-1883). Marshall, porém, chegou à Economia muito mais treinado doque Jevons e mesmo que Adam Smith, professor universitário de grandecultura geral, e Ricardo, atilado homem de negócios da City, os quaisnão ignoravam os fundamentos da matéria, nem tampouco Mill (queusou exemplos matemáticos), mas que não tinham como ele o domnatural e o treino científico dessa disciplina. Foi, por isso, o primeiroa empregar esse aparato analítico de forma sistemática, construtiva eexemplar. E isso ele o fez com a prudência da sua ciência.Falou-se na ambivalência da atitude de Marshall em relação àMatemática, já que, mestre consumado da matéria, restringiu o seuOS ECONOMISTAS2018 Loc. cit.19 Carta a J. B. Clarck, de 24-03-1908. In: Memorials. p. 418.
  20. 20. emprego em Economia a estreitos limites, confinando os diagramas anotas de rodapé e as equações a apêndices, em vez de, como Walras,por exemplo, alçar-se em exercícios abstratos no curso da exposição.Essa sua atitude crítica, porém, diante dos usos e abusos dos métodosmatemáticos em Economia não é fruto, evidentemente, de ignorânciada matéria, mas, antes, é justamente devida ao seu profundo conhe-cimento de suas potencialidades e limitações, considerando a Matemá-tica um método válido de análise em Economia, mas não de exposição,que deve ser em linguagem corrente e ter exemplificação com fatosreais. O seu comedimento no uso da Matemática era devido tambémà necessidade de comunicação, preocupado que estava em ser lido eentendido pelo maior número possível de pessoas, inclusive pelos nãoversados na linguagem matemática; mas a razão principal, segundoCorry, era “o receio de que conjuntos de equações omitem ou distorceminfluências e considerações relevantes”.20 Ressalvando a utilidade doshábitos de raciocínio matemático para clareza e precisão dos conceitos,e do emprego de diagramas, de entendimento geral, antes que de sím-bolos matemáticos, diz ele próprio no Prefácio à 1ª edição dos Princípios:“O principal uso da Matemática pura em questões econômicas pareceser o de ajudar uma pessoa a anotar rapidamente, de uma forma sucintae exata, alguns dos seus pensamentos para seu próprio uso, além deassegurar-se de que tem suficientes premissas, e somente o bastante,para as suas conclusões (isto é, que suas equações não sejam em númeromaior ou menor do que suas incógnitas). Mas quando um grande nú-mero de sinais tiver que ser usado, isso se torna extremamente penosopara qualquer um, exceto para o próprio autor”. Seu pensamento arespeito se torna ainda mais claro numa carta em que fala de suaexperiência pessoal: “Um bom teorema matemático relativo a hipóteseseconômicas era altamente improvável de ser boa Economia; e eu pros-segui, cada vez mais, segundo as regras: 1) Use Matemática como umalinguagem estenográfica, antes do que como um instrumento de inves-tigação; 2) empregue-a até que se obtenham resultados; 3) traduzapara o inglês; 4) então ilustre com exemplos que tenham importânciana vida real; 5) queime a Matemática; 6) se não teve êxito em 4,queime 3. Isso tenho feito com freqüência”.21 Há ainda a considerarque sendo Marshall um grande matemático que até pensara em em-brenhar-se na Física nuclear, só poderia sentir um certo desdém doponto de vista intelectual e estético pelos triviais fragmentos de Álgebraelementar, Geometria e Cálculo diferencial que compõem a MatemáticaEconômica, diz Keynes, acrescentando: “Contrariamente à Física, porexemplo, as partes do esqueleto da teoria econômica que são exprimíveisem forma matemática são extremamente fáceis comparadas à inter-MARSHALL2120 Op. cit., p. 27.21 Carta a A. L. Bowley, de 27-02-1906. In: Memorials. p. 427.
  21. 21. pretação econômica dos fatos complexos e incompletamente conhecidosda experiência, e leva-nos muito pouco adiante no estabelecimento deresultados úteis”.22 O método de trabalho marshalliano consistia, emsíntese, na utilização da Matemática acessoriamente, como meio deinvestigação, e o raciocínio ordinário, bem como os exemplos da vidareal, para a exposição. Essa orientação metodológica impregnou a mo-derna teoria econômica inglesa, a partir da chamada “escola de Cam-bridge”, e foi seguida, entre outros, por Keynes, Hicks e Pigou.Os primeiros exercícios matemáticos e diagramáticos de Marshallem Economia faziam parte do estudo A Teoria do Comércio Exterior,completado por volta de 1875/77 e foram divulgados, como era seuhábito, em círculos restritos, sendo mais tarde suas partes mais sig-nificativas incorporadas aos Princípios. Diz Keynes que “eles eram detal caráter em sua penetração, abrangência e exatidão científica e foramtão mais longe do que as ‘brilhantes idéias’ de seus predecessores, quepodemos proclamá-lo, justamente, como o fundador da Economia dia-gramática moderna — esse elegante aparato que geralmente exerceuma poderosa atração sobre principiantes inteligentes, que todos nósusamos como uma inspiração e um freio de nossas intuições, e comoum registro estenográfico de nossos resultados, mas que geralmenterecua para um segundo plano à medida que penetramos mais no âmagodo assunto”.23 Assim Marshall, tendo começado por criar os métodosdiagramáticos modernos, terminou por relegá-los ao seu devido lugar.O aparato analítico-matemático e seu prudente uso foi uma de suasprincipais contribuições ao desenvolvimento da moderna ciência eco-nômica. Outras foram as inovações metodológicas e conceituais contidasprincipalmente nos Princípios e, last but not least, sua teoria monetária.Deixando de lado, por enquanto, o acervo teórico contido nosPrincípios, que será exposto detalhadamente quando do exame da obra,vejamos agora a teoria monetária marshalliana. Houve quem dissesseque Marshall negligenciou a estrutura monetária e, mais genericamen-te, a agregativa em que sua teoria do valor atua. Nada mais errôneo.Não só o que concerne aos Princípios pressupõe, subjacentemente, umaestrutura monetária, como ele trata explicitamente desse arcabouçonoutros trabalhos. “Não há nenhuma parte da Economia”, diz Keynes,“em que a originalidade e a prioridade do pensamento de Marshallsejam mais marcantes do que aqui, ou onde sua superioridade de pe-netração e de conhecimento sobre seus contemporâneos tenha sidomaior. Dificilmente se encontrará algum aspecto importante da mo-derna Teoria da Moeda que não tenha sido conhecido por Marshallquarenta anos atrás”.24 As duas principais fontes de referência sobreOS ECONOMISTAS2222 Loc. cit., p. 333.23 Loc. cit., p. 332-333.24 Ibid., p. 335.
  22. 22. suas idéias nesse campo são os Official Papers, coletânea de memo-randos e depoimentos prestados a órgãos governamentais, e Money,Credit and Commerce, publicado já na sua velhice mas contendo prin-cipalmente concepções elaboradas muitos anos antes.Os Official Papers contêm a essência da teoria monetária de Mar-shall. Em síntese, segundo Corry, “os mais importantes elementos desua contribuição nessa área são os seguintes: a chamada equação deCambridge e o seu desenvolvimento de um ciclo de crédito através deum desequilíbrio entre taxas de juros reais e monetárias. Marshall éconsiderado comumente o fundador da abordagem de Cambridge à teo-ria monetária. Em essência, essa teoria postula uma função de procuraestável da moeda, com a renda real (ou riqueza) como o principal ar-gumento da função. Caeteris paribus, tal abordagem dará uma relaçãoproporcional entre mudanças na oferta da moeda e mudanças no nívelgeral de preços. Essa abordagem foi formalizada por Pigou (1917) emum famoso artigo, e elaborada por Keynes em seu Tract on MonetaryReform (1923). Marshall tornou absolutamente claro, no entanto, quemudanças em outros fatores — no volume de atividade e na procurade moeda — podem muito bem dominar a relação, especialmente emperíodos de crise econômica. Sua outra contribuição nesse campo foielucidar o mecanismo de conexão das taxas reais de juros e as taxasmonetárias, por meio do qual as divergências entre as duas geram umciclo de crédito”.25 Mais especificamente, as mais importantes e carac-terísticas de suas contribuições originais a essa parte da Teoria Eco-nômica são:261) A exposição da Teoria Quantitativa da Moeda como parte daTeoria Geral do Valor;2) a distinção entre a taxa “real” de juro e a taxa “monetária”,e a importância disso para o ciclo de crédito, quando o valor da moedaé flutuante;3) a corrente causal pela qual, nos modernos sistemas de crédito,uma oferta adicional de moeda influencia os preços, e a parte desem-penhada pela taxa de desconto;4) o enunciado de Teoria da “Paridade do Poder Aquisitivo” comodeterminante da taxa de câmbio entre países com moedas mutuamenteinconversíveis;5) o método de “corrente” de compilação de números índices;6) a proposta de papel-moeda para circulação (segundo as Pro-posals for an Economical and Secure Currency de Ricardo), lastreadoem ouro e prata (fundidos juntos) como padrão;7) a proposta para um Padrão Tabular oficial para uso opcionalno caso de contratos a longo prazo (algo assim como a nossa UPC).MARSHALL2325 Loc. cit., p. 32.26 KEYNES. Op. cit., p. 337-340.
  23. 23. Marshall pretendia, como plano de trabalho inicial e básico, es-crever uma série de monografias sobre problemas econômicos especí-ficos (Comércio Exterior, Teoria Monetária etc.) e depois fundi-las numtratado geral de Economia, ao qual se seguiria um compêndio maispopular. Por força de circunstâncias diversas, porém, viu-se obrigadoa alterar seu projeto original e começar pelo que seria o fecho de umalonga obra — daí os Princípios de Economia.Princípios de Economia— Um moderno instrumento de pesquisaOs Princípios de Economia são a Magnum opus de Marshall, asíntese de seu pensamento, obra que o consagrou definitiva e univer-salmente como grande economista. Seu aparecimento, em 1890, tevesucesso imediato, sendo saudado pelos economistas e pelas publicaçõesespecializadas como um acontecimento marcante na história do pen-samento econômico — o início da idade moderna da Economia. Obteve,inclusive, uma certa popularidade, contribuindo para restabelecer naopinião pública o prestígio e a credibilidade da Economia Política, aba-lados pelas versões desumanas e cruas dos postulados clássicos. Mar-shall pretendia, aliás, que seu livro fosse lido pelos homens de negócios,políticos e profissionais liberais, talvez vencendo a natural aversão daaristocracia dirigente pelos assuntos econômicos em geral e pelo mundodos negócios em particular.A importância histórico-doutrinária dessa obra advém, principal-mente, do fato de que, além das inovações conceituais e metodológicasnela contidas, apresentava, pela primeira vez, uma síntese dos postu-lados da Economia Política clássica e da doutrina marginalista numtodo coerente, sólido e lúcido, sendo que a sua sofisticada exposiçãoda análise marginalista é, ainda hoje, considerada magistral, motivopelo qual seu autor é apontado por alguns, um tanto equivocadamente,o “papa do marginalismo”. Era o primeiro grande tratado geral sobreos fundamentos da Economia, ainda que viesse a se chamar apenas“introdutório”, depois dos Princípios de Economia Política de Mill; e aleitura comparada de ambos esclarece e ressalta os superiores méritosde Marshall. Obra seminal, de grande valor teórico e didático, tornou-serapidamente livro de consulta obrigatória para os profissionais e com-pêndio básico do ensino de Economia no mundo anglo-saxônico e emgrande parte do continente europeu.Essa obra monumental não saiu assim de súbito, pronta e aca-bada, como da cabeça de Juno. Marshall vinha estudando e ensinandoEconomia há muito tempo antes de sua elaboração, levou nove anosescrevendo-a e cerca de trinta, o resto de sua vida, revendo suas su-cessivas edições. Muitas das idéias e conceitos sistematizados nos Prin-cípios já haviam sido antes concebidos e expostos fragmentariamentepor Marshall em aulas, conferências, documentos oficiais e trabalhosOS ECONOMISTAS24
  24. 24. diversos, alguns dos quais publicados.27 Os fundamentos da sua teoriageral, segundo ele próprio, já estavam mais ou menos estabelecidospor volta de 1870, vinte anos, portanto, antes da publicação da 1ªedição dos Princípios. “A grande mudança que inquestionavelmenteteve lugar nas duas décadas antes da publicação dos Princípios foi naprópria maneira de Marshall abordar a sua matéria, e que assumiaa forma, sobretudo, de ampliação do seu equipamento no campo daEconomia aplicada.”28 Essa obra é fruto, portanto, da plena maturidadeintelectual de seu autor, e ele a reviu, refundiu e aperfeiçoou-a atépraticamente o final de sua vida.29O que impressiona logo à primeira vista nos Princípios é suaadmirável arquitetura intelectual — a ampla perspectiva, a firmezada construção interna, a articulação orgânica de suas partes, a solidezde seus alicerces. A forma em que se expressam conceitos complexose inovadores é límpida e precisa, não lhe faltando mesmo certa elegânciaestilística e metáforas literárias, marcas do bom escritor. “Sob a rou-pagem da literatura a armadura da Matemática” — disse seu contem-porâneo Edgeworth a propósito da obra de Marshall em geral, comque este concordou, e que se aplica igualmente, e talvez com maisrazão, aos Princípios. Cabe assinalar, a propósito do magnífico aparatomatemático de que se serviu com prudência e destreza exemplares, aelegância e a lucidez de suas equações e diagramas. Mas, no que tangeainda às funções matemáticas em que assenta a obra, advertia o autor,mais uma vez, que “num tratado como este a Matemática é usadasomente para exprimir em uma linguagem tersa e mais precisa aquelesmétodos de análise e raciocínio que as pessoas comuns adotam, maisou menos inconscientemente, nos negócios de todo dia da vida”. Pre-tendendo abranger todo o campo da Economia de então, queria fazê-lo,MARSHALL2527 Além do Economics of Industry e dos estudos sobre comércio exterior e teoria monetária,partes dos quais foram incorporadas aos Princípios, são de interesse como backgrounddesta obra, segundo Guillebaud, o artigo de Marshall sobre Jevons, já citado, que contéma essência da teoria marshalliana da distribuição; outro em defesa de Mill, intitulado “Mr.Mill’s Theory of Value” (Fortnightly Review. Abril 1886), a aula magna de Marshall em1885 como professor de Economia Política em Cambridge e publicada sob o título de ThePresent Position of Economics (Memorials. p. 152-174); “The Graphic Method of Statistics”,memória apresentada ao Congresso Estatístico Internacional em 1885 (Memorials. p. 175-187), cujos dois últimos parágrafos contêm a primeira referência à concepção marshallianada Elasticidade da Procura e expõe o método diagramático de mensuração da elasticidadeem qualquer ponto da curva da procura, que ele usou posteriormente nos Princípios; “Theo-ries and Facts about Wages” (Cooperative Annual. O primeiro esboço da teoria da distribuiçãodesenvolvida nos Princípios).28 GUILLEBAUD. Ibid.29 Os Princípios pretendiam inicialmente abranger dois volumes, sendo a designação volumeI eliminada a partir da 6ª edição de 1910, quando foi acrescentado o subtítulo “TratadoIntrodutório”. As mais importantes alterações efetuadas por Marshall estão na presenteedição, a 8ª (1920) e definitiva. Da 5ª à 8ª edição não houve alterações estruturais nosPrincípios. Há, como já foi citada, uma 9ª edição póstuma em dois volumes, mas é apenasvariorum: o volume I é fac-símile da 8ª e o volume II reproduz as variantes das sucessivasedições. Para todos os efeitos prevalece a 8ª edição, na qual baseia-se a presente tradução.
  25. 25. como disse, de forma acessível a um mítico “homem de negócios comum”.Daí a evidente preocupação didática não só na concisão, clareza e rigorda exposição, como também nas constantes introduções, remissões enotas explicativas. Mas sob a superfície desse polido “globo de verdade”,como foi chamado, há embutidos ricos veios e pepitas de puro ouro,que ao leitor atento e persistente valerá a pena lavrar, como veremosadiante. Por isso costuma-se dizer que a aparente facilidade de sualeitura é, até certo ponto, enganosa, pois a cada releitura fazem-senovas descobertas.Não cabe aqui fazer um roteiro dos Princípios — a ordem deleitura é estabelecida pelo autor, seguindo suas próprias indicaçõesquanto às partes que podem ser ladeadas temporariamente e obser-vando as advertências com que balizou o percurso. A preocupação di-dática do antigo professor é ainda uma vez manifesta ao resumir todaa obra num Sumário cuja leitura, logo de início, dá uma visão pano-râmica de toda a matéria abordada, além de facilitar a consulta departes específicas.A concepção geral dos Princípios baseia-se numa visão microeco-nômica do regime capitalista de produção segundo um enfoque neo-clássico. A tese central da doutrina econômica aí contida é a de umatendência natural para o equilíbrio, uma tendência de crescimento gra-dual, como resume Joan Robinson, aplicada aluna de Marshall: “Asforças do mercado distribuíam os recursos da melhor maneira possívelentre os diversos usos alternativos. Daí o conceito de distribuição darenda baseado na justiça natural. Isto é, a contribuição dos trabalha-dores para a produção se refletiria nos salários, enquanto a contribuiçãodo capital para a produção estaria nos lucros. Isso seria justo, direitoe natural.”30Convém relembrar que o arcabouço analítico ou a espinha dorsaldessa obra nada mais é que uma complementação e generalização, pormeio do aparato matemático, da teoria do valor e da distribuição deRicardo, como foi exposta por Mill.31 O cerne e a pedra de toque dosPrincípios onde se assenta o seu arcabouço são o Livro Quinto cujaorigem remonta a 1873, quando o autor estava reformulando suas ilus-trações diagramáticas de problemas econômicos. “Desse cerne”, relem-bra Marshall, “o presente volume foi estendido gradualmente para afrente e para trás, até atingir a forma em que foi publicado em 1890".Essa parte do tratado, confessadamente a sua preferida, embora de-dicasse igual atenção e cuidado ao conjunto da obra, contém o núcleoOS ECONOMISTAS2630 "Os Problemas da Economia Moderna". In: Cadernos de Opinião. nº 15, Dez. 79/Agosto 80.p. 8-12.31 SHOVE. Op. cit., p. 433. Uma exposição minuciosa da matéria contida em cada livro dosPrincípios pode ser encontrada em TAYLOR, Overton H., A History of Economic Thought.Nova York, McGraw Hill Books Co., 1960. Cap. 13, p. 337-379.
  26. 26. de seu trabalho analítico, ”a obra-prima clássica dessa análise parcialtão admirada por uns e tão criticada por outros".32 Ainda sobre essaparte do tratado, Marshall acrescenta: “Para mim, pessoalmente, oprincipal interesse do volume centra-se no Livro Quinto: ele contémmais do trabalho de minha vida do que qualquer outra parte; é lá,mais do que em qualquer outra parte, que eu tentei enfrentar as ques-tões pendentes da ciência”.33 E continua dizendo que o grande problemageral da distribuição econômica dos recursos é o pivô do principal ar-gumento da matéria mais importante do Livro Quinto e mesmo deuma grande parte de toda a obra. (Livro Quarto. Cap. III, § 8. “Notasobre a lei do rendimento decrescente”.)Vejamos, agora, especificamente, as principais contribuições deMarshall no campo da doutrina e análise econômicas contidas nos Prin-cípios, que é, como já se disse, a suma do seu pensamento. Justamentenuma época em que a controvertida teoria do valor dividia os econo-mistas em posições irreconciliáveis, Marshall conseguiu, graças prin-cipalmente à introdução do elemento tempo como fator na análise,reconciliar o princípio clássico do custo de produção com o princípioda utilidade marginal, atribuído à escola austríaca (Menger), Walrase Jevons, mas que, diz Marshall, lhe foi inspirado por Von Thünen.“Ao introduzir o fator tempo na análise econômica pela distinção entrecurtos e longos períodos, ele procurou, com efeito, determinar o papeldo custo objetivo de produção (longos períodos) e o da utilidade marginal(períodos curtos) na determinação do valor dos bens e serviços.”34 Exis-tem alguns autores, porém, como Corry,35 que consideram a elaboraçãoda rigorosa Economia do estado estacionário a contribuição teórica cen-tral de Marshall.O método de “análise parcial” ou “análise de equilíbrio parcial”,também chamado de abordagem Ceteris paribus (iguais às demais coi-sas, isto é, sem que haja modificação de outras características ou cir-cunstâncias) é das mais famosas e, hélas, controvertidas contribuiçõesde Marshall. Consiste, essencialmente, em compartimentar a economiade modo que os principais efeitos de uma mudança de parâmetro numdeterminado minimercado possam ser ressaltados sem considerar osefeitos colaterais em outros mercados, inclusive as reações, ou feedbackdestes. Justificando o seu modelo analítico estático, diz Marshall, ini-cialmente, que “a função da análise e da dedução em Economia não éforjar longas cadeias de raciocínio, mas forjar seguramente muitas pe-quenas cadeias e simples elos de ligação”, acrescentando então que:“O elemento tempo é uma das primeiras causas daquelas dificuldadesMARSHALL2732 SCHUMPETER. História da Análise Econômica. Partes IV-V, p. 109.33 Prefácio à 2ª edição.34 Cf. Robert, 2.35 Loc. cit., p. 28.
  27. 27. nas investigações econômicas que tornam necessário ao homem, comsuas limitadas faculdades, avançar senão passo a passo; decompondouma questão complexa, estudando um aspecto de cada vez para, final-mente, combinar as soluções parciais numa solução mais ou menoscompleta do problema total. Decompondo-o, separa provisoriamente,debaixo da condição Ceteris paribus, as causas perturbadoras... Quantomais a questão é assim reduzida, mais exatamente pode-se tratá-la...Cada tratamento exato e seguro de uma reduzida questão ajudamais a elucidar os problemas maiores... do que seria possível deoutra forma. A cada passo, mais coisas podem ser consideradas, asdiscussões teóricas se podem tornar menos abstratas, as discussõespráticas menos inexatas do que era possível numa fase anterior”.(Livro Quinto. Cap. V, § 2.)Outras formulações doutrinárias e metodológicas incorporadasaos Princípios — tais como a elasticidade da procura, economias ex-ternas e internas, quase-renda, firma representativa, organização em-presarial etc. — desempenharam importante papel no desenvolvimentosubseqüente da Economia e fazem parte hoje do instrumental teóricoe analítico do economista moderno.Valendo-se de notas e observações do prof. Edgeworth, que foidos primeiros renomados economistas a proclamar a importância danova obra de Marshall, Keynes assim resume as principais contribui-ções que nela se contêm (algumas das quais, como foi dito, já esboçadasde uma forma ou outra em Economics of Industry).361) O esclarecimento completo e definitivo dos papéis desempe-nhados respectivamente pela Procura e pelo Custo de Produção nadeterminação do valor.2) “a idéia geral, subjacente à proposição de que o Valor é de-terminado no ponto de equilíbrio da Procura e da Oferta, foi estendidaaté a descoberta de um verdadeiro sistema copernicano, pelo qual todosos elementos do universo econômico são mantidos em seus lugares pormútuas reações e contrapesos. A teoria geral do equilíbrio econômicopor duas poderosas concepções subsidiárias — a Margem e a Substi-tuição. A noção de Margem foi estendida além da Utilidade para des-crever o ponto de equilíbrio em dadas condições de qualquer fator eco-nômico que possa ser considerado capaz de pequenas variações emtorno de um valor dado, ou em sua relação funcional a um dado valor.A noção de Substituição foi introduzida para descrever o processo peloqual o Equilíbrio é restaurado ou estabelecido. Em particular, a idéiade Substituição na Margem, não somente entre objetivos alternativosde consumo, mas também entre os fatores de produção, foi extraordi-nariamente frutuosa em resultados”;OS ECONOMISTAS2836 Loc. cit., p. 349-354.
  28. 28. 3) a explícita introdução do elemento Tempo como um fator naanálise econômica, bem como as concepções de períodos “longos” e “cur-tos” tinha como um dos seus objetivos traçar “um encadeamento con-tínuo atravessando e conectando as aplicações da teoria geral de equi-líbrio da procura e da oferta a diferentes períodos de tempo”. Há outrasdistinções conexas a essas que agora consideramos essenciais a umraciocínio claro e que foram explicitadas pela primeira vez por Marshall— especialmente entre economias “externas” e “internas”, custo “pri-mário” e “suplementar”. Desses pares, o primeiro Keynes considerauma completa novidade quando apareceram os Princípios; o último,no entanto, já existia no vocabulário da indústria, se não no da análiseeconômica. “Por meio da distinção entre períodos longos e curtos, osignificado de ‘normal’ tornou-se mais preciso; e com a ajuda de duasoutras concepções caracteristicamente marshallianas — Quase-Rendae Firma Representativa — a doutrina do Lucro Normal foi desenvol-vida.” “Todas estas são idéias inovadoras que ninguém que procurepensar claramente pode dispensar, diz Keynes, ressalvando, porém,que essa é a área em que, em sua opinião, a análise de Marshall émenos completa e satisfatória, e onde resta muito a fazer. ReconheceMarshall, no Prefácio à 1ª edição da obra, que o elemento tempo ”é ocentro da principal dificuldade de quase todo problema econômico";4) a concepção especial de Excedente do Consumidor, desenvol-vimento natural das idéias de Jevons, não se revelou, na prática, tãoproveitosa como parecera a princípio. Mas, lembra Keynes, ninguémpode desprezá-la como parte do aparato de pensamento, e é particu-larmente importante nos Princípios por causa do seu uso — nas pa-lavras do prof. Edgeworth — “para mostrar que, laissez-faire, o máximode vantagem alcançada pela concorrência irrestrita, não é necessaria-mente a maior vantagem possível que possa alcançar”. A prova, apre-sentada por Marshall, de que o laissez-faire teoricamente entra empane sob certas condições e não apenas praticamente, considerado umprincípio de vantagem social máxima, foi de grande importância filo-sófica. Marshall não levou essa argumentação muito longe,37 e a ex-ploração mais avançada desse campo foi deixada ao seu discípulo diletoe sucessor, Pigou, que demonstrou que máquina poderosa para abrircaminho numa região embaraçada e difícil oferece a análise de Marshallnas mãos de quem tenha sido educado para compreendê-la bem;5) a análise do monopólio feita por Marshall deve ser mencionada,bem como, a propósito, sua análise do rendimento crescente, especial-mente onde existem economias externas.As conclusões teóricas de Marshall nesse campo e sua simpatiapara com as idéias (ideais, seria mais exato) socialistas eram compa-MARSHALL2937 Industry and Trade gira parcialmente em torno desse ponto.
  29. 29. tíveis, no entanto, com uma velha crença na resistência das forças daconcorrência. Diz o prof. Edgeworth: “Posso me lembrar da viva im-pressão da primeira vez que encontrei Marshall — lá pelos anos oitenta,creio — por sua forte expressão da convicção de que a Concorrênciadominaria por muito tempo como a principal determinante do valor”.Estas não foram as suas palavras, mas elas se encaixam no pensamentoexpresso em seu artigo sobre “The Old Generation of Economists andthe New”:38 “Quando uma pessoa está disposta a vender uma coisapor um preço pelo qual uma outra está disposta a pagar, os dois ar-ranjam por se encontrarem a despeito de proibições do Rei, do Parla-mento ou dos funcionários de um Truste ou Sindicato Operário”;6) a introdução explícita da idéia de “elasticidade” é o maiorserviço prestado por Marshall aos economistas na provisão de termi-nologia e equipamento para apurar o pensamento. “A apresentação dadefinição de ‘Elasticidade da Procura’ é virtualmente o primeiro tratadode uma concepção sem cuja ajuda a teoria avançada do valor e daDistribuição teria feito algum progresso. A noção de que a procurapode responder a uma alteração de preço numa extensão que pode sermais ou menos do que proporcional era, naturalmente, familiar desdeas discussões no começo do século XIX sobre a relação entre a ofertae o preço do trigo. De fato, é algo surpreendente que essa noção nãotenha sido mais claramente elucidada por Mill ou Jevons. Mas assimnão o foi. E o conceitoe =dxx÷ –dyyé inteiramente de Marshall. A maneira com que Marshall introduz aElasticidade sem nenhuma sugestão de que a idéia é nova, é notávele característica. O campo de investigação por esse instrumento de pen-samento é outro em que os frutos completos foram colhidos pelo prof.Pigou antes do que pelo próprio Marshall".De outro ponto de vista que não o estritamente técnico-econômicomas sob a óptica ético-social, os Princípios revelam, numa leitura aten-ta, aquelas “pepitas” que se disse estarem subjacentes sob a polidasuperfície deste “globo da verdade”. Daí a observação de alguns de quea sua leitura é aparentemente fácil, mas torna-se complexa se sujeitaà reflexão. Ao “garimpar” as prescrições sociais, os preceitos morais eas recomendações sobre diretrizes governamentais, que constituem amensagem de política econômica e social de Marshall, verifiquei queo veio aurífero mais rico já havia sido explorado por Theodore Levitt,um dos atuais economistas que consideram monumental os Princípiosnum ensaio sobre Marshall em que ressalta a sua “relevância vitorianaOS ECONOMISTAS3038 Quarterly Journal of Economics. 1896. v. XI. Republicado no Memorials.
  30. 30. para a Economia moderna”.39 Logo no início dos Princípios, Marshall,lembra Levitt, tornou claro o que iria enfrentar: “...a pouca atençãoque se tem dado à relação entre a Economia e o superior bem-estardo homem” (Livro Primeiro. Cap. 1, § 3). Ele não cairia na armadilha,como alguns dos seus predecessores, em desculpas implícitas pelos “ex-cessos” da atual ordem econômica. Disse ele, com evidente desaprova-ção, que no passado “o período no qual a livre iniciativa se apresentavanuma forma bárbara e desnaturada foi, na verdade, quando os econo-mistas foram mais pródigos em louvá-la (Livro Primeiro. Cap. I, § 5).Marshall não repetiria esse ”erro", diz Levitt. Ele estava determinado“seriamente a investigar se é necessário de todo haver as ditas ‘classesbaixas’, isto é, se é preciso haver um grande número de pessoas con-denadas desde o berço ao rude trabalho a fim de prover os requisitosde uma vida refinada e culta para os outros, enquanto elas própriassão impedidas por sua pobreza e labuta de ter qualquer quota ou par-ticipação nessa vida” (Livro Primeiro. Cap. I, § 2).No prosseguimento dessa investigação, diz ainda o citado autor,Marshall propunha deixar sua análise seguir seu próprio curso: “Assim,quanto menos nos preocuparmos com discussões escolásticas sobre aquestão de saber se tal ou qual assunto pertence ao campo da economia,melhor será” (Livro Primeiro. Cap. II, § 7). Além do mais, disse eleno início que “as forças éticas estão entre as que o economista deveconsiderar. Tem-se tentado, na verdade, construir uma ciência abstratacom respeito às ações de um ‘homem econômico’... Mas essas tentativasnão têm sido coroadas de êxito, nem tampouco realizadas integralmen-te” (Prefácio à 1ª edição). Ele não ignorará as “altruísticas”, “desinte-ressadas” e “sacrificadas” continuidades e motivações dos “membrosde um grupo industrial”. Refere-se a estas como “forças éticas”, dizendono prólogo que: “Se este livro tem alguma peculiaridade é, talvez, ade dar proeminência a esta e outras aplicações do princípio de Conti-nuidade” (Prefácio à 1ª edição).Marshall era francamente favorável “à doutrina de que o bem-estar do povo em geral deve ser o objetivo último de todos os esforçosprivados e de todos os programas políticos” (Livro Primeiro. Cap. IV,§ 6). Já quase no fim do volume, advertindo em sua maneira cautelosasobre a “necessidade de se estar de guarda contra a tentação de exageraros males econômicos de nossa própria época”, declara-se finalmenteem favor de um firme compromisso para “estimular os outros, bemcomo a nós próprios, a uma disposição de não mais permitir que osmales atuais continuem a existir” (Livro Sexto. Cap. XIII, § 15). Pormeio de todo o vasto tratado esses “males” são revelados e profligados,acentua Levitt, que acrescenta: “Ainda que Marshall tivesse muito queMARSHALL3139 LEVITT, Theodore. “Alfred Marshall: Victorian Relevance for Modern Economics”. In: Quar-terly Journal of economics. XC (3), agosto de 1976. p. 425-443.
  31. 31. dizer sobre sua atenuação ou extinção em outros escritos e cartas pu-blicadas, é a inclusão nos Princípios de tantas censuras morais, pre-ceitos éticos, propostas intervencionistas, reflexões utópicas, e tantarepulsão reprimida que torna a obra tão original”.São variados e numerosos os pronunciamentos extra-econômicose éticos de Marshall, contrastando com o caráter técnico e científicode suas análises e postulados econômicos do que pretendia ele fosse“uma máquina para pesquisa da verdade”. O ordenamento por Levittdesses pronunciamentos é algo arbitrário, mas não há vantagem práticaem alterá-lo. Sigamo-lo, pois.A economia da infância e a da famíliaMarshall sentia-se intensamente perturbado com a terrível in-justiça com que a livre-empresa pressionava os filhos da pobreza. Suasolução parcial era equipá-los com o poder de evitar ou escapar disso.Sendo sua crença de que “o conhecimento é a nossa mais potente má-quina de produção” (Livro Quarto. Cap. I, § 1), disse ele: “Poucos pro-blemas práticos interessam mais diretamente ao economista do queos que se referem aos princípios segundo os quais deveriam ser divididosentre o Estado e os pais as despesas da educação das crianças (LivroQuarto, Cap. VI, § 7)... do ponto de vista nacional, o investimento deriqueza no filho do trabalhador é tão produtivo quanto o seu investi-mento em cavalos ou maquinaria” (Livro Quarto. Cap. VII, § 10). Eainda: “O mais valioso de todos os capitais é o que se investe em sereshumanos, e desse capital a parte mais preciosa resulta do cuidado eda influência da mãe, tanto quanto esta conserve os seus instintos deternura e abnegação, e não se tenha empedernido pelo esforço e fadigado trabalho não feminino” (Livro Sexto. Cap. IV, § 3). Assim, temosnessa última citação, observa Levitt, não somente a noção de capitalhumano, mas também um dos preceitos vitorianos sobre o lugar, de-veres e sensibilidades da mãe num Estado industrial. Os sentimentosde Marshall refletiam simplesmente a idealização intelectual prevale-cente da mulher. Eles eram parte essencial das noções marshallianasde como o capital humano é criado: “...ao avaliar o custo de produçãode trabalho eficiente devemos freqüentemente tomar como unidade afamília. De qualquer forma, aliás, não podemos tratar o custo daprodução de homens eficientes como um problema isolado. Devemostomá-lo como parte do problema mais amplo do custo de produçãode homens eficientes, juntamente com as mulheres aptas a tornaros seus lares felizes e a criar os seus filhos vigorosos em corpo eespírito, amigos da verdade e da limpeza, corteses e corajosos” (LivroSexto. Cap. IV, § 3).Segundo a implícita divisão de trabalho de Marshall, à mulhercaberia a tarefa natural e principal de cuidar da família. Duvidava,portanto, do benefício automático da “mão invisível” ao afastar do larOS ECONOMISTAS32
  32. 32. as mulheres com a tentação de altos salários, que estariam se elevandorelativamente mais depressa do que os dos homens, o que, se por umlado, desenvolve as suas faculdades, é, por outro lado, um mal namedida em que leva as mulheres a negligenciarem os seus deveresdomésticos e a não investirem seus esforços na formação de um ver-dadeiro lar e na educação dos filhos, que representa um capital pessoal(Livro Sexto. Cap. XII, § 10). Os maridos devem, também, ter umacerta presença doméstica, sendo que a sociedade como um todo teminteresse direto na redução de horas extravagantemente longas de tra-balho que os mantêm fora de casa (Livro Sexto. Cap. XIII, § 14). Quantoaos efeitos sobre os jovens da renda familiar e comportamento dospais, achava ele que o investimento de capital na criação e educaçãodos filhos para o trabalho é limitado na Inglaterra pelos recursos dospais (Livro Sexto. Cap. IV, § 2), e isso nas classes mais baixas é umgrande mal. Muitos dos filhos das classes trabalhadoras são insatis-fatoriamente alimentados e vestidos, recebem educação insuficiente,têm poucas oportunidades de obter uma melhor visão da vida ou com-preensão da natureza do trabalho mais elevado dos negócios, da ciênciaou da arte, enfrentando muito cedo trabalho duro e exaustivo, e porfim vão para o túmulo levando consigo talentos e capacidades nãodesenvolvidas, mal este que é cumulativo (idem). Em contraste, aquelesque nascem nos altos estratos da sociedade levam de saída a vantagemde um melhor começo de vida, graças a seus pais (Livro Sexto. Cap.IV, § 3). É óbvio, diz ele, que o filho de alguém já estabelecido nosnegócios começa com uma grande vantagem, aprende quase que in-conscientemente sobre os homens e costumes, começa com maior capitalmaterial e tem a vantagem adicional de relações comerciais já esta-belecidas (Livro Quarto. Cap. XII, § 6).A correção desse “males” redunda, felizmente, no bem públicopor meio da produção de melhor “capital humano” e a extinção da“negligência anti-econômica” em seu desenvolvimento. Em apoio desua tese, afirma Marshall que às habilidades dos filhos das classestrabalhadoras pode ser atribuída a maior parte do sucesso das cidadeslivres da Idade Média e da Escócia em tempos recentes. Mesmo naprópria Inglaterra o progresso é mais rápido naquelas partes do paísem que a maioria dos líderes da indústria é constituída de filhos detrabalhadores, uma vez que as velhas famílias estabelecidas têm ca-recido da flexibilidade e juventude de espírito que nenhuma vantagemsocial pode suprir e que provém somente de dons naturais. Esse espíritode casta e essa deficiência de sangue novo entre os líderes da indústriase sustentam mutuamente, e não são poucas as cidades do sul daInglaterra cuja decadência pode ser atribuída em grande parte a essacausa (Livro Quarto. Cap. VI, § 5). Assim, pois, ele atribuía uma grandeparte da miséria existente e do entorpecimento econômico a causasestruturais hereditárias — barreiras de casta impostas aos filhos pelaMARSHALL33
  33. 33. pobreza de seus pais. Mas não achava que a pobreza fosse a explicaçãode tudo. Pronta ação, disse ele, é necessária com respeito ao grande“resíduo” de pessoas que são física, mental ou moralmente incapazesde um bom dia de trabalho com que ganhar um bom salário diário. Ocaso daqueles que são responsáveis por crianças exigiria maior gastode fundos públicos e mais estrita subordinação da liberdade pessoal ànecessidade pública. O mais urgente entre os primeiros passos é insistirna freqüência regular à escola com roupa decente, corpos limpos e bemalimentados. Em caso de omissão, os pais devem ser advertidos e acon-selhados; e como último recurso os lares poderiam ser dissolvidos ouregulados com alguma limitação da liberdade dos pais (Livro Sexto.Cap. XIII, § 12). Evidentemente Marshall estava advogando, com me-didas severas, uma forma de instrução pública compulsória, mas com“roupa decente” e “corpos limpos”.A significação dessa inclusão nos Princípios, observa Levitt, éque Marshall advertiria de início “que tais matérias (como trustes,manobras da Bolsa, controle de mercados), não podem ser apropria-damente discutidas num volume sobre Fundamentos: elas cabem numvolume que trate de alguma parte da Superestrutura (Prefácio à 8ªedição). Assim, estranha com razão o citado autor, trustes que produzembens e serviços são Superestrutura; famílias que produzem capital hu-mano não o são. ”Controle de mercados" é Superestrutura; controle depessoas não o é. Quando convinha aos seus preceitos, conclui Levitt,todas as matérias tornavam-se legitimamente o campo de um “volumede Fundamentos”.Admitindo que os ganhos dos pobres possam aumentar, Mar-shall ressalvava, no entanto, que eles poderiam usá-los incorreta-mente, “de maneira tal que pouco ou nada contribuem para tornar-lhes a vida mais nobre ou verdadeiramente mais feliz” (Livro Sexto.Cap. XIII, § 14). Para isso ele tinha uma solução: “o progresso podeser apressado... através da aplicação de princípios eugênicos à me-lhoria da raça, suprida de contingentes populacionais pelas camadasmais altas antes do que pelas mais baixas” (Livro Quarto. Cap.VIII, § 5). Esta, de certo modo, é a “solução final” porque, comoobserva Levitt, afinal o que Marshall pregava não era tanto de na-tureza econômica mas o aperfeiçoamento moral e estético. Era paraisso, finalmente, acrescenta ainda o citado autor, mais do que porsua contribuição para a riqueza nacional ou para a redução da po-breza que a instrução das “camadas mais baixas” deveria ser esti-pendiada: elevar o tônus da vida humana. “O mestre-escola deveaprender que o seu dever principal não é distribuir conhecimentos,pois alguns xelins comprarão mais ciência impressa do que o cérebrode um homem pode conter, mas educar o caráter, as faculdades eatividades... Para esta finalidade, o dinheiro público deve fluir li-vremente” (Livro Sexto. Cap. XIII, § 13). Como “mestre-escola” deOS ECONOMISTAS34
  34. 34. gerações de economistas, diz Levitt, Marshall tinha clara consciênciadessa alta obrigação.Teorias do salário e da distribuiçãoSe casta e pobreza hereditária explicam o ciclo da pobreza, o queexplicaria a pobreza em si, pergunta-se Levitt, que responde: tudo oque Marshall pode afinal dizer depois de trinta anos de revisão dosPrincípios é que a pobreza em si derivava de baixos salários e quebaixos salários nada tinham virtualmente a ver com a produtividade,mas, sim, inteiramente com a existência do que Marx chamou de “exér-cito de reserva industrial” — massas de desempregados rebaixando opreço do trabalho, desesperadamente prontos a furar a greve daquelesque, em busca de melhoria, recusam-se a trabalhar. “Isso é especial-mente verdadeiro em relação aos trabalhadores não-qualificados, emparte porque os seus salários oferecem muito pouca margem para pou-pança, em parte porque quando qualquer grupo deles suspende o tra-balho, há um grande número pronto a preencher os seus lugares” (LivroSexto. Cap. IV, § 8).Ainda que se preocupasse seriamente com a teoria da distribuiçãoe a teoria dos salários que tanto fascinaram Ricardo e seus seguidores— e particularmente Karl Marx — é inquestionável que Marshall ne-gava totalmente a utilidade delas na questão da pobreza: “...os saláriosde toda classe de trabalho tendem a ser iguais ao produto líquido dotrabalho adicional do trabalhador marginal dessa classe... Essa dou-trina tem sido apresentada às vezes como uma teoria dos salários.Mas não há fundamento válido para tal pretensão. A doutrina... nãotem por si mesma significação real, uma vez que para avaliar o produtolíquido temos que tomar como fixas todas as despesas de produção damercadoria em que o homem trabalha, fora o próprio salário”. Contudo,“a doutrina traz à luz uma das causas que regulam os salários” (LivroSexto. Cap. I, § 7).Por fim, logicamente, diz levitt, foi ao exército de reserva indus-trial que Marshall teve que retornar, porque afinal o preço do trabalhoera ele próprio um dos determinantes do preço de mercado de seuproduto. E ele considerava a principal influência sobre o preço do tra-balhador a extensão da concorrência das reservas de mão-de-obra nosportões de um grande empregador, ou de empregadores agindo de co-mum acordo. “Tem-se agora certeza de que o problema da distribuiçãoé muito mais difícil do que o julgavam os antigos economistas... Nasua maior parte, as antigas tentativas para dar uma solução fácil aoproblema foram na realidade respostas a questões imaginárias quepoderiam ter surgido em outros mundos que não o nosso, nos quaisas condições de vida fossem muito simples” (Livro Sexto. Cap. I, § 2).Noutra passagem anterior ele já havia expressado a mesma idéia aodizer que a cativante elegância da teoria da distribuição deixava muitoMARSHALL35
  35. 35. a desejar quando estendida da mercadoria ao trabalho: “As exceçõessão raras e sem importância nos mercados de mercadorias (commodi-ties), mas nos mercados de trabalho são freqüentes e importantes. Quan-do um trabalhador teme a fome, sua necessidade de dinheiro (a utili-dade marginal deste para ele) é muito grande. Se no início o trabalhadorleva a pior na negociação e se emprega a salário baixo, a necessidadecontinuará grande, e ele continuará vendendo sua força de trabalho abaixo preço. Isso é mais provável porque enquanto a vantagem danegociação, a respeito de mercadorias, tende naturalmente a ser bemdividida entre os dois lados, num mercado de trabalho é muito comumque esteja mais dos lados dos compradores do que dos vendedores”(Livro Quinto. Cap. II, § 3). “É certo, todavia, que os trabalhadoresmanuais, como classe, estão em desvantagem na negociação e que adesvantagem, onde quer que exista, é provável ser cumulativa em seusefeitos” (Livro Sexto. Cap. IV, § 6).Tão convicto estava Marshall da desigualdade da relação entreo comprador e o vendedor de trabalho que, às vezes, parecia rejeitarquase completamente a doutrina econômica convencional nessa ques-tão, pois chegava a dizer que os salários não são determinados pelopreço de procura nem pelo preço de oferta, mas pelo conjunto total decausas que determinam a oferta e a procura (Livro Sexto. Cap. II, §3). Ele tinha franco desprezo pelos sofismas que procuravam reduzirtodos os recursos e troca ao que Marx chamava de “nexo pecuniário”— seres humanos livres não são conduzidos no trabalho sob os mesmosprincípios que uma máquina, um cavalo ou um escravo (Livro Sexto.Cap. I, § 1). E reclamava dos pais que mandam seus filhos trabalharemcomo pessoas preguiçosas e mesquinhas, com muito pouco amor-próprioe iniciativa (Livro Quarto. Cap. IV, § 6). Contudo: “Se em qualquertempo (a oferta e a procura de trabalho) se faz sentir sobre quaisquerindivíduos ou classes, os efeitos diretos do mal são claros. Mas os so-frimentos que daí resultam são de diferentes espécies: aqueles cujosefeitos geralmente terminam com o mal que os provocou, não devem,em geral, ser comparados em importância com os que têm efeito indiretode rebaixar o caráter do trabalhador ou de impedi-lo de fortalecê-lo(Livro Sexto. Cap. IV, § 1).Então temos que o desigual poder de barganha dos trabalhadoresnão leva a nenhuma espécie de equilíbrio aceitável e a própria teoria,já dissera Marshall, quando levada às suas mais remotas e intricadasconseqüências lógicas, foge das condições da vida real (Livro Quinto.Cap. XII, § 3). A realidade é uma série de “males”, o maior dos quaisé “rebaixar o caráter dos trabalhadores”. Marshall foi buscar a solução,como na questão da pobreza cíclica, fora do campo econômico. Foi en-contrá-la no Estado e nos sindicatos operários. O mal a enfrentar étão urgente que medidas drásticas contra ele são ansiosamente dese-jadas (Livro Sexto. Cap. XIII, § 12). Ele era a favor de um salárioOS ECONOMISTAS36

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