Janelas de Lisboa
poema de António Gedeão
<ul><li>  Tenho quarenta janelas  </li></ul><ul><li>nas paredes do meu quarto. </li></ul>
  Sem vidros nem bambinelas  posso ver  através delas   .
  o mundo em que me reparto.
  Por uma entra a luz do Sol,  por outra a luz do luar,
  por outra a luz das estrelas  que andam no céu a rolar .
    Por esta entra a Via Láctea  como um vapor de algodão,
  por aquela a luz dos homens,  pela outra a escuridão.
  Pela maior entra o espanto,  pela menor a certeza,
  pela da frente a beleza  que inunda de canto a canto.
  Pela quadrada entra a esperança  de quatro lados iguais,
  quatro arestas, quatro vértices,  quatro pontos cardeais.
  Pela redonda entra o sonho,  que as vigias são redondas,
  e o sonho afaga e embala  à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,  por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,  e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,  e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio  a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
  todos os risos e choros,
  todas as fomes e sedes,
  tudo alonga a sua sombra
  nas minhas quatro paredes.
    Oh janelas do meu quarto,
    quem vos pudesse rasgar !
    Com tanta janela aberta
    Falta-me a luz e o ar. 
Música: Marisa Monte “ Fado”
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António Gedeão

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António Gedeão

  1. 1. Janelas de Lisboa
  2. 2. poema de António Gedeão
  3. 3. <ul><li>  Tenho quarenta janelas </li></ul><ul><li>nas paredes do meu quarto. </li></ul>
  4. 4.   Sem vidros nem bambinelas posso ver  através delas .
  5. 5.   o mundo em que me reparto.
  6. 6.   Por uma entra a luz do Sol, por outra a luz do luar,
  7. 7.   por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar .
  8. 8.     Por esta entra a Via Láctea como um vapor de algodão,
  9. 9.   por aquela a luz dos homens, pela outra a escuridão.
  10. 10.   Pela maior entra o espanto, pela menor a certeza,
  11. 11.   pela da frente a beleza que inunda de canto a canto.
  12. 12.   Pela quadrada entra a esperança de quatro lados iguais,
  13. 13.   quatro arestas, quatro vértices, quatro pontos cardeais.
  14. 14.   Pela redonda entra o sonho, que as vigias são redondas,
  15. 15.   e o sonho afaga e embala à semelhança das ondas.
  16. 16. Por além entra a tristeza, por aquela entra a saudade,
  17. 17. e o desejo, e a humildade, e o silêncio, e a surpresa,
  18. 18. e o amor dos homens, e o tédio, e o medo, e a melancolia,
  19. 19. e essa fome sem remédio a que se chama poesia,
  20. 20. e a inocência, e a bondade,
  21. 21. e a dor própria, e a dor alheia,
  22. 22. e a paixão que se incendeia,
  23. 23. e a viuvez, e a piedade,
  24. 24. e o grande pássaro branco,
  25. 25. e o grande pássaro negro
  26. 26. que se olham obliquamente,
  27. 27. arrepiados de medo,
  28. 28.   todos os risos e choros,
  29. 29.   todas as fomes e sedes,
  30. 30.   tudo alonga a sua sombra
  31. 31.   nas minhas quatro paredes.
  32. 32.     Oh janelas do meu quarto,
  33. 33.     quem vos pudesse rasgar !
  34. 34.     Com tanta janela aberta
  35. 35.     Falta-me a luz e o ar. 
  36. 36. Música: Marisa Monte “ Fado”
  37. 37. fim

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