Cultura dia 10 abril-2013

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Cultura dia 10 abril-2013

  1. 1. Cultura QUARTA-FEIRA • 10 DE ABRIL DE 2013 Diário do Minho Este suplemento faz parte da edição n.º 29915 de 10 de abril de 2013, do jornal Diário do Minho, não podendo ser vendido separadamente> “Igreja de S. Julian”– Salamanca, Espanha, Agosto-2012[Foto de V. B. de Vasconcellos]
  2. 2. II Cultura QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Diário do Minho No próximo sábado, na Casa da Botica – Póvoa de Lanhoso Escritor bracarense Mário Escoto apresenta “Sonho de uma noite de lua cheia”O escritor bracarense Mário Escoto apresenta no próximo sábado, 13 de abril (21h00),na Casa da Botica, Póvoa de Lanhoso, a sua mais recente obra literária – “Sonho deuma noite de lua cheia” –, publicada em outubro passado pela editora “Apenas Livros”.“Lisbonna, anno da graça 1424”. Assim come- paradisíaco cume da plenitude amorosa seça o mais recente livro do escritor bracarense vê projetado, de novo, no abismo do começo,Mário Escoto, simbolicamente intitulado encetando uma nova e dolorosa ascensão,“Sonho de uma noite de lua cheia”, editado pois sabe que a felicidade não se prolonga nopela Apenas Livros na coleção “Literatralhas isolamento, e menos ainda na quietude daNOBELizáveis”. Chegado aos escaparates existência, sob pena de se “morrer de melan-em outubro passado, vai o autor apresentá- colia”, como aliás acontecera a dois amanteslo agora, com a colaboração do jornalista ingleses que, em 1414, se haviam refugiadoPedro Antunes Vieira, ao público minhoto na ilha da Madeira para viverem felizes parano próximo sábado, 13 de abril, na Casa da sempre, e que depressa morreram por nãoBotica, Póvoa de Lanhoso. suportarem o isolamento...Em rigor, não se trata de um conto, deuma novela ou de um romance. Esta obra É breve esta narrativa de Mário Escotoé, antes, uma pequena mas sedutora nar- (tem apenas 26 págs), mas é tambémrativa de cordel, simultaneamente pícara tematicamente muito densa e demasiadoe epopeica, a fazer lembrar as medievas profunda para ser encarada como umaaventuras de “cavalaria”, ainda que, proposi- singela “história de cordel”. Ela reflete (etadamente, centrada num cenário tempo- faz refletir sobre) a complexidade das re-ral quinhentista: num século de aventuras lações amorosas e, particularmente, sobremarítimas e... amorosas! as antagónicas “forças” do destino que oArrotim, personagem principal desta obra amor desencadeia no espírito humano –de Mário Escoto, aventureiro mestre-de- “forças” essas que enredam a alma numa-armas e quixotesco “pinga-amor”, tenta teia da qual é muito difícil libertarmo-nosafogar no álcool das tascas lisboetas a – porque desencadeia um rol de tensões,mágoa (e o remorso) provocada pelo sonhos, angústias e remorsos... –, da qualsuicídio da sua amada Anna Godim, uma Mário Escoto (pseudónimo literário de Mário não é possível fugir (a não ser, porventura,bela jovem que não resistiu à desilusão das Joaquim Fernandes Malheiro) é licenciado regressando às origens da viagem...).incumpridas promessas do “herói” beirão. Acresce à densidade temática desta obra em Filosofia e pós-graduado em Arquivos uma escrita eivada de ímpar dinamismoRedime-o dessa mágoa o navegador JoãoGonçalves Zarco, que por volta de 1418 ha- e Bibliotecas. Atualmente, exerce funções (quase diríamos: cinematográfica!), quevia descoberto a Madeira com Tristão Vaz de técnico bibliotecário na Faculdade de seduz o leitor do princípio ao fim. TantoTeixeira. Agora, cinco anos após essa des- Teologia (Braga). Até hoje publicou as obras mais que o autor consegue, com ele-coberta de “Lenhame” (lenho, madeira...), vado índice de sucesso, “desmontar” asZarco quer fugir do lamacento e corrupto O Batedor, O Corvo de Wotan, Vernária e, habituais categorias narrativas para lhesespetro social em que se move Lisboa, e agora, Sonho de uma noite de lua cheia. dar uma nova roupagem literária, bempretende refugiar-se na Ilha, povoando-a patente na polifonia de vozes e nos re-e promovendo uma organização social as- gistos espácio-temporais – tudo isto sem,sente nos pilares da justiça, da responsabi- Partindo desde leitmotiv, a nova aventura amor em situações de solidão, de afasta- contudo, enfadar o leitor, que fica presolidade e da igualdade. E como necessita de de Arrotim tranforma-se numa quixotesca mento absoluto da estrutura social. à estória como se estivesse a ouvi-la di-um mestre-de-armas, convida Arrotim para viagem, onde a utopia e o mito do eterno Arrotim, o quixotesco mas também ulissia- retamente dos lábios de Sherazade (daso acompanhar nessa nova aventura. Este, retorno se fundem (e se confundem) para no herói desta potente e “sôfrega” narrativa Mil e Uma Noite) ou da boca do astutonão sendo “homem de sossegar”, aceita nos fazer refletir sobre a fragilidade e a de Mário Escoto, é ainda um mitológico Ulisses (contando à fiel Penélope as suaso desafio, ciente de que só assim poderá complexidade das relações humanas, sobre Sísifo que leva “o amor às costas”, pesadís- aventuras na ilha de Eana...).“resgatar-se” de si, da hipocrisia da capital a irracionalidade das paixões e, sobretudo, simo fardo da condição humana (no quee do frustrado amor de Anna Godim. sobre a impossibilidade de se vivenciar o à paixão diz respeito) – e que, chegado ao Miguel de Mello Diário do Minho N.º 693 Envio de trabalhos para publicação neste suplemento Cultura 10.Abril. 2013 Diário do Minho / Secção Cultural Rua de S.ta Margarida, 4 - 4710-306 Braga; Fax: 253609469. E-mail: cultura@diariodominho.pt
  3. 3. Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Cultura IIIA fulguração da morte 10.04.1971 *na obra literária de 09.06.1999 Daniel Faria Completa-se hoje (10 de Abril) mais um aniversário do nascimento de Daniel Faria – um noviço beneditino do Mosteiro de Singeverga (Santo Tirso) que nos deixou uma obra poética ímpar. POR PROF. DOUTOR Falecido prematuramente (aos 28 anos de idade), a sua obra tem sido objecto de vários estudos. MÁRIO GARCIA, SJ O Prof. Doutor Mário Garcia, da Universidade Católica, tem sido um dos investigadores que lhe FACULDADE DE FILOSOFIA têm dedicado especial atenção. Publicamos hoje, por isso, com a devida vénia, um texto da UNIVERSIDADE CATÓLICA – BRAGA MGARCIA@BRAGA.UCP.PT autoria deste Professor – texto esse que apresentou no Congresso Internacional “Do Reino das Sombras. Fulgurações da Morte”, realizado na Faculdade de Filosofia de Braga em 25 de Outubro de 2012 (e que foi publicado, em primeira instância, na revista “Brotéria” de Janeiro deste ano). Resumo: Esta comunicação inten- desconhecido. Publicara cinco Como tentar “explicar” o seu “tra- de mostrar, em toda a sua amplitu- livros de poesia e deixara outro, na balho” de poeta: “O meu projecto de, a “explicação” do verso: O meu sua cela, quase pronto. Ganhara de morrer é o meu ofício” (E, 85)? projecto de morrer é o meu ofício. prémios em concursos poéticos “Explicação” é uma palavra cara Usando a palavra lâmina, como (de muito limitada notoriedade, a Daniel Faria, mas não significa tópico de leitura, fixamo-nos no entanto); o seu estilo de ser e esclarecer racionalmente. Etimo- na Trilogia poética: “Explicação de escrever a ninguém deixava logicamente, “explicar” significa das árvores e de outros animais” insensível; acreditava-se, depois da “estender”, como se estende, por (1998), “Homens que são como publicação dos seus dois últimos exemplo, uma toalha sobre a lugares mal situados” (1998) e “Dos livros, ambos de 1998, que era mesa. Mas porque se trata de uma líquidos” (2000); e em “O livro do uma voz inovadora da poesia por- “iluminação”, inesperada e surpre- Joaquim” (2007). A morte é lumi- tuguesa. E a sua projecção tornou- endente, como um relâmpago, nosa e polémica, como a lâmina; -se universal, quando veio à luz, “rigor explosivo” (H, 172), “círculo pronuncia o nome de “uma pes- no ano 2000, o volume Dos líqui- que resiste à forma da palavra” (E, soa” que se vai descortinando. Não dos; em 2003, Poesia, reunida e 67), uso a palavra fulguração. Ful- deparamos com um significado completa, com alguns inéditos, a guração tem a ver com o fulgor de doloroso, ou mesmo sacrificial, da cargo de Vera Vouga e, em 2007, O Maria Gabriela Llansol? Gostaria, morte, ou do “sangue”, mas, pelo livro do Joaquim, redigido numa um dia, de compreender melhor contrário, de comunhão jubilosa, escrita “nas suas mais diversas esta “aproximação” que, por ago- de vida, de encontro definitivo vertentes”, como afirma o editor e ra, fica em suspenso. Tem a ver, com Cristo, o “Verbo / Tão inteiro prefaciador Francisco Saraiva Fino. sobretudo, com o sentido bíbli- que se fez espelho”. A morte, em Actualmente, dispomos de uma co de “revelação”, “glória”, “peso”, última análise, “abre passagem”, é publicação, Poesia, saída em 2012, “nome”. Fulguração torna presente sinónimo de “páscoa”. A fulguração exactamente igual ao volume, “uma palavra pessoa / Uma pala- da morte é a Ressurreição. Poesia, de 2003. Espera-se que a vra pregada ao silêncio de dizer-se * Comissão de Edição de Daniel Fa- como nunca fora ouvida“ (H, 191), “a Ao morrer, noviço beneditino do ria, lance, com rigor e celeridade, o palavra / Em carne viva. Verbo / Tão Mosteiro de Singeverga, aos 28 que falta conhecer da herança do inteiro que se fez espelho” (H, 194). anos de idade, em 1999, Daniel Poeta, “tão fabulosa quão delicada Pretendo, em três focos de “lei- Faria não era, propriamente, um de gerir” (Vera Vouga, 9). tura” da Obra de Daniel Faria, dar
  4. 4. IV Cultura QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Diário do Minhoa ver o seu “projecto de morrer”, a morte, porque a ela se entrega, com a vida futura; faz equivaler a Preparou a refeição com a lenha trazida na palavra para dentro /servindo-me da palavra lâmina. A sem descanso: morte, triste, ao cumprimento do [do arado Do poema – e havia uma forçaTrilogia: Explicação das árvores e que já se conquistou. A boca não Porque tinha fome e o coração cega / No poema: / Era um verbode outros animais (E), Homens que Ele que é agora o que nunca cessa de caminhar: “Depois da [em chamas de sangue para o silêncio arder”são como lugares mal situados (H) [repousou fome o sabor do pão / Depois da (H, 177), sustenta todo o percursoe Dos Líquidos (D), bem como O O que nunca encontrará sede o correr da água” (E, 114). Preparou o coração com a lenha “narrativo”. Da explicação, passa-livro do Joaquim (L), constituem [o sítio do sossego [do arado -se para a salvação; do “examinar”o “lugar”em que, particularmente, A não ser que haja o equilíbrio O livro de Daniel Faria, Explicação para o “incorporar”; dos “lugaresirei situar-me. Os três focos de [na vertigem das árvores e de outros animais, Para ser a lâmina do arado mal situados” para o único Lugarleitura são versos de Daniel Faria. Uma luz parada no meio poder-se-ia sintetizar nestas [e o arado que situa bem o Homem, porquePertencem ao livro Dos líquidos e [da voragem. (E, 76) palavras sublimes do Cântico das A palavra em seu gume o identifica com o Verbo, “palavraos dois primeiros estão no mesmo criaturas de S. Francisco de Assis: [a ferir e a gerar (H, 154) pessoa” (H, 191). Sem Cristo, sem apoema. Ao falar do “nome” como “arma” – “Louvado sejas, meu Senhor, pela narrativa bíblica que n’Ele culmi- “O nome é a arma contra mim. O nossa irmã, a morte corporal”. Ou O chamamento do Profeta implica na, este livro não se compreende.1. “Ainda não sei ouvir maior perigo. / Com os teus lábios no lema beneditino ora et labora: despedida e seguimento de al- Coloca, esta base, alguma que-a lâmina” (D, 272) podes destruir-me” (E, 77) – o a oração (abertura da boca Àquele guém. Elias “lançou o seu manto” bra à poesia? De modo nenhum. Poeta repete a situação da lâmina que o nosso coração procura) e sobre Eliseu, que imediatamente Universaliza-a, humanizando-a,A análise de uma palavra, no léxico contra o cansaço, mas invertendo, o trabalho (abertura da mão ao deixou a junta de bois com que sem nunca perder o mistério, “fon-de um poeta, traz, em primeiro neste caso, o sentido. Ao pronun- mundo que Ele criou para continua- estava a lavrar, correu a pedir-lhe te contínua de deslumbramento”lugar, à evidência, a sua situação ciar-se pelo peso da enxada no rmos a criá-lo). A esta luz, compre- licença para se despedir da família, (Vera Vouga, 9).material, isto é, o lugar que ocupa ombro, ou do punhal nas costas, ende-se o verso: “Estranho é o sono imolou a junta de bois, cozeu asno interior da Obra. Lâmina com- encontra uma luz que brilha como que não te devolve” (E, 78). carnes, deu de comer à sua gente, Se “és agora uma máquina mon-parece, sintomaticamente, em lâmina, diz o seu “nome”, isto é, o “e seguiu Elias para o servir” (1 Rs tada para a morte” (H, 138), não“Explicação do poeta”, o poema seu trabalho de poeta. Ao afirmar 2. “A lâmina abre passagem” 19, 21). Daniel Faria imola o seu é em virtude de qualquer pré-central da última secção, “Últimas “que nunca encontrará o sítio do (D, 272) “coração em chamas”, juntamente determinismo – “Há um cadáverexplicações”, de Explicação das sossego” está a dizer o mesmo, “com a lenha do arado”. A matéria nos olhos do acaso” (H, 123)– masárvores e de outros animais, entre desta vez contra a “luz parada” que O ainda-não-saber explica, no da imolação não é, propriamente, em virtude de uma eleição de“Explicação da gravidade” e “Expli- amor: “É um motor. E fico a traba-cação da escuta”: lhar no mecanismo secreto / Do amor. // Sei que estou em viagemPousa devagar a enxada na palavra que se move” (H, 132). [sobre o ombro O centro de atracção do amor éJá cavou muito silêncio “uma pedra nupcial” (H, 171), “uma ferida que se cura” (H, 172).Como punhal brilha [em suas costas A lâmina produz a ferida, porqueA lâmina contra o cansaço (E, 101) Ao denominar-se gera; sulca, como o amor, ”pala- vra que se move”, “à espera / DeNo poema anterior, escreveu: “Só cavador de silêncio, um companheiro possível parao pássaro vive para o voo. / Quan- o Poeta está o diálogo interior” (H, 126) e “ado pousa é igual ao homem que “ligeiramente acima sua espera / É a fé inabalável nose senta / Para pensar” (E, 100); do que morre” mistério que inclina / Os homense no poema seguinte: “Escuto o para dentro” (H, 128). Principia umcalcanhar do pássaro / Sobre a regresso a casa, à casa verdadei-flor / E não respondo” (E, 102). O ramente nossa, porque será “umapássaro e a enxada encontram-se, aliança / Com o que respira” (H, 173),como a lâmina com o trabalho. As “uma mãe a chamar o filho” (H, 177).dimensões de altura e profundi- Por isso, “fizeste-me passagem /dade, voar/cavar, unificam-se. Não (…) / Para me encontrares” (H, 166).se extrai, do punhal e da lâmina, Talvez nada melhor traduza estaqualquer semântica dolorosa. lâmina que trespassa o coração, doAntes, parece-me, o não saber que o poema “Charles de Foucauld”:“responder” ao silêncio. Como se,de repente, um relâmpago calasse acabaria o caminho da procura, Poeta, a procura de um signifi- a “lenha”, mas ele mesmo, numa Pensa que morrerás mártir.fundo no interior da terra, e nos o seu “ofício”, o seu “projecto de cado universal. Há que abrir-se espécie de prolepse do poema [Entre talhasdeixasse sem palavra. morrer” (E, 85). ao dom da palavra, na escuta do “Do sacrifício de Isaac” em Dos Ao cair ressoará o teu corpo seu silêncio fecundo. O sentido líquidos: “Queimará o monte, o [sobre o bojo.Ao denominar-se cavador de O primeiro livro da Trilogia aponta, transfere-se, assim, para o objecto filho, a lenha / A morte, as areias,silêncio, o Poeta está “ligeiramen- como seta de fogo, para a vida procurado que “abre passagem”. a viagem / O deserto, a túnica, as Pensa que morreráste acima do que morre” (E, 39), universal, escondida, que brota No segundo livro da Trilogia, Ho- estrelas // Nunca será bastante o Esta tarde. Com o sangue norecriando ou fazendo vir à super- da terra; lava que explode, do mens que são como lugares mal incêndio” (D, 229). Aqui, na voca- [peito a marcar o umbralfície tudo quanto existe: “Anun- interior da morte, como “as casas situados, quase a meio da secção ção de Eliseu, não se trata ainda Da tua morada. Nu morreráscio e pereço. / Pedra redonda / vomitam a luz pela janela” (E, 96), central, “Se fores pelo centro de ti de um holocausto. “A lâmina do E desconhecido. Na terraRemovida e / Redonda / Semente desvelamento fulgurante, activo. mesmo”, encontramos o poema arado e o arado / A palavra em [só o adornoapós a morte. Depois da mão do Talvez venha ao caso sublinhar “Eliseu (1Rs 19, 19-21)”: seu gume” continuam “a ferir e a Possui o reconhecimentohomem” (E, 47). O seu instrumento de O livro do Joaquim, estas duas gerar”, abrindo passagem.de trabalho também corta a água: citações que resumem o “ofício” de Preparou a refeição com a lenha Pensa que morrerás“Caminho como um remo que se quem trabalha contra a morte: “A [do arado Neste segundo livro da Trilogia, No chãoafunda” (E, 84); também abre para minha poesia é um punhal contra Para ser sulco na terra e resistir inicia-se um acompanhamento dedentro, porta de uma “casa mártir” si mesma. Durará o tempo de um Cristo que culmina na “Cruz, rosa / À tua porta.(E, 56), onde “a luz entra sempre corpo ao derramar-se” (L, 67); “Não Preparou a refeição com a lenha Dos ventos sem direcção que não E nunca mais acabarásde noite” (E, 57). Não se trata de cumpras todas as promessas / É [do arado seja o centro. Coluna / Sustenta- De regressar (H, 167)sofrimento, mas do testemunho um modo muito triste de morrer” Para ser fogo a propagar a luz da pelos braços como um amigoluminoso de quem trabalha contra (L, 80). O Poeta identifica a poesia que chega” (H, 194). “Alguma coisa Quando, em O livro do Joaquim,
  5. 5. Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Cultura VDaniel Faria fala da morte, traduz, Damasco golpeia. É circuncisão / A Fulguração da Ressurreição de Princípio até ao Fim, desde o Gé-em termos mais analíticos, mas Que abre, limpa” (D, 210). “Do Li- Cristo e nossa? nesis ao Apocalipse, tudo se resu-não menos expressivos, esta mes- vro do Apocalipse”: “Ele sabe que me na Encarnação do Verbo. Nãoma experiência de “querer mor- o cordeiro é uma pedra que está O livro do Joaquim vai na mes- insiste na “via dolorosa”, como serer”, mártir (“Agora, como nunca ferida” (D, 211). “Das Instruções ma linha, ao afirmar, com lugar poderia pensar pela frequênciame aconteceu, sinto-me mártir”, de São Columbano, Abade”, texto e data, Porto, 27 de Novembro da palavra “sangue”, interpretadaL, 80), perplexo, mas desprendido inspirado no Ofício de Leitura da de 1993: “Não recuses nenhum como sinónimo de sofrimento.e livre: “Se eu um dia me suicidar, Liturgia das Horas: “Quem dera dos teus limites, só eles dizem a “Sangue”, na Obra de Daniel Faria,não há-de ser pela infelicidade da que o lume / Descesse como a grandeza do que tens” (L, 78). O como na Bíblia, significa “vida”.minha vida, mas pela felicidade candeia dos que recebem quem maior limite que nós temos, é a Equivale mais à “via gloriosa”: ada morte. Nada, como a morte chega / O clarão mais cortante” morte. Não recusar a morte é um vida oferecida pela salvação doàs vezes, me é tão sedutor. Não (D, 212). sinal de amor. No diálogo poético mundo, a plenitude da alegria eé dor, nem medo, nem ausência, entre os Meninos e a Amada, “Bal- do amor. Por isso, a palavra donem peso. É apenas essa estranha Golpe, ferida, corte, “o interior da tar, há bastante tempo”, o lugar da Poeta pretende a fulguração deleveza de não-ser e de tão pouco lâmina” (D, 213), “clarão” (D, 212), infância aparece numa antiquís- Cristo, o Homem-Deus-crucifica-ser isso. Se eu um dia me suicidar, “chaga nupcial de dentro / E de sima idade, antes de haver tem- do-e-ressuscitado.não o farei como quem nega, mas fora / (…) / palavra / Trespassadora po ou para além dele. A Amadacomo quem confirma. Na sua – mais do que toda a espada ta- anseia pelo “vento” e pergunta aos Daniel Faria fala com Ele e d’Ele,aparente traição, será ainda gesto lhante” (D, 213). Falamos do Amor, Meninos se viram “Os ramos no “na transumância dos animais queinfinitamente grato de quem nun- “ – um imenso motor em chama seu agitar / E o galope de um ca- buscam os pastos mesmo quan-ca mereceu até o mínimo e mais / Nos mecanismos da viagem valo branco / Uma sombra e seu do morrem” (D, 301). A “transu-desatento cuidado. Desprender- ardente // A princípio não se sente cavaleiro” (L, 82). “Morro de dor e mância” é a páscoa de Cristo, a-se – essa liberdade, não a maior… / O amor – a humidade amanhe- saudade / E dentro dos meus ou- Sua Ressurreição, “o relâmpagoembora! mas liberdade – para o cendo / O coração ressequido” vidos / Estala um grito de sangue”; / Rápido” (D, 307), “o clarão maisnada, o absurdo, ou (se houver (D, 221). Quando o Poeta escreve: “Morro de dor e desgosto / Meu cortante” (D, 212), a “diária lâmina”perdão) para o mais além” (L, 73). “Deus vem com o cinzel / Silen- corpo trespassarei / No fio destas (D, 307) que trespassa o “coração cioso” (D, 225) ou fala da “fenda / ameias” (L, 83). Pede aos Meninos paralítico” (D, 212). É Ele “a feridaNão terá sido assim a morte de Voluntária” (D, 227), inspirando-se que peçam ao vento “Alento para incendiária / (…) / a lâmpada /Cristo na Cruz? “De anunciares em textos de S. João da Cruz e Porque trabalho com os dedos esperar / (…) / Alento para morrer” Sempre acesa para nunca se que-em silêncio / O nada que salva de Santa Teresa do Menino Je- [e as veias (L, 84). O Cântico dos Cânticos, na brar. / (…) / A corrente // O amora minha mão perdida / Remo à sus, não está a falar de si, mas Abertas a lama onde sou terra voz da Amada, entrara, fulgurante, que as águas não podem apagar”superfície teimando contra / O d’Aquele de quem falam a Bíblia [e água em Dos Líquidos, secção terceira, (D, 212):peso âncora de fechar os olhos / E e os Santos, “as nascentes / No “Do inesgotável”:inclinar / O corpo afogado” (H, 189). rochedo liso, no deserto impre- Começa nele a primeira fonte. visto” (D, 201), onde “É quente o [Assim Enquanto tenho o lume corro Amo-te na carne que tomaste3. “Desatado silêncio. É quieto de uma clarida- A pedra cresce Enquanto sou a labareda [do chão que aplainopela diária lâmina” (D, 307) de / Atenta” (D, 201). O Espírito de Com seu sangue derramado. [e a força de queimar Com as mãos Deus é, por assim dizer, decifrado [Lâmina que deixa Com as palavras que escrevoDos líquidos, a plenitude do cres- no texto Dos líquidos, pelos textos A sede em ambos os lábios. Ao meio-dia – diz-me ó que vais [e apagocendo que é a Trilogia, constitui sagrados. Como poderia não ser a [Começa [descendo – onde Na areia, no cérebro.um dos livros mais sedutores da morte o princípio da Vida? Assim leveda Te apascentas Amo-te com o cérebro em feridapoesia portuguesa contemporâ- A meda de água. E o que escrevo Para que também eu coma, Pensando-tenea. Não podemos desligá-lo dos Com quem se fala? Na última [é a fonte [para que também eu corra Remédio que derramas em mimoutros dois, mas, superando-os, secção do livro, o Poeta convoca Transformada (D, 270) Enquanto as folhas estão [a tua medicina, a morteengloba-os, abrindo-os para o o “leitor” para lhe “explicar” que a [orvalhadas No meu corpo. Até que repouseDefinitivo. A sua organização, em verdade é “maior / E mais bonita Se mais dúvidas houvesse em [como enfermosete secções, exprime, como os do que a palavra” (D, 338), e para o identificar “a fonte”, “o lugar do Enquanto o sol marca No teu leito. Amo febrilmentesete sacramentos, a plenitude da convidar a aproximar-se d’Aquele golpe” (D, 282) “a semente” que [na sombra da hora [amo o diaVida Espiritual, a iniciação inces- que é a Verdade: “aproxima / A tua “está poisada no lugar de padecer” A transumância. Enquanto Em que disseres: Largasante para dentro de um universo mão da paisagem que resta / Como (D, 284), bastaria a clara alusão A corrida me abrasa (D, 254) A tua enxerga! – E ande (D, 246) ◗sem fim. se fora o lado do verbo que en- que se segue, aos Evangelhos de carnou” (D, 344), numa alusão ao S. João (Jo 10, 1-16; 19, 31-37) e deNa primeira secção, “Das nas- gesto de Cristo que incita Tomé S. Lucas (Lc 15, 4-7), para vermos Conclusãocentes”, no poema “Do Livro dos a meter a mão no Seu Lado (Jo que se trata de Cristo: “a dolorosa / Referências:Solilóquios 1”: 20, 27); e também a contemplá- / Chaga do pastor / Que abriu o redil Alguns dos maiores poetas do l’O, na cena do perdão à mulher no próprio corpo e sai / Ao encontro Ocidente foram grandes “espiritu- FARIA, Daniel, Poesia, edição de Vera Vouga, Assírio & Alvim, docu-Que eu oiça adúltera (Jo 8, 6-8): “Debruça-te da ovelha separada” (D, 285). ais”: Homero, Virgílio, Dante, menta poetica/ 144, Porto Editora,A tua voz desde o interior da como ele quando escreveu no S. João da Cruz… E nem por isso, 2012. [lâmina – ó pastor chão” (D, 345). Daí, a força que assume a expres- ou talvez por causa disso, a sua Esta edição integra todos os livrosQue escutas o meu balir são: “Desatado pela diária lâmina Obra nunca cessou de fulgurar. de poesia já publicados e alguns [no interior do rebanho. Quem é, realmente, o interlocutor, / Na condição da luz encarcerada Daniel Faria pode colocar-se, poemas inéditos.Tu és fermento que engrandece com quem se dialoga? no astro / Para ser nas viagens pequenino, aos ombros desses Cito a página, com a letra inicial [o meu pão sinal” (D, 307). No mesmo poe- Gigantes, como o Menino Jesus assinalada do livro:Eu fui-te a esponja erguida Começa no verbo o que escrevo. ma, na mesma página, fala-se do às cavalitas de S. Cristóvão... E (Explicação das árvores e de ou- [de vinagre [A palavra “Gume / Invejando o relâmpago tros animais, 1ª ed. 1998);E ardo vivo por ser-te Que deixo na pequena pedra / Rápido” e “Do amor” “Que não “A videira testamentária – mãe / H (Homens que são como lugares [o alimento. [branca deixa o corpo por um pouco / De- Bíblica no eixo da casa” (D, 339), é mal situados, 1ª ed. 1998); D (Dos líquidos, 1ª ed. 2000).(D, 213-214) Do fermento. O pão que cresce sejar // Qualquer coisa diferente a chave de leitura da sua Obra. Os [ignorado de morrer” (D, 307). Que será esse três últimos livros formam uma Faria, Daniel, O livro do Joaquim,“O interior da lâmina” explica-se desejo de morrer, que o amor não Trilogia, que não pode ser sepa- edição e prefácio de Franciscopor várias ocorrências convergen- Começo devagar a meda rítmica só não suprime, mas impele e es- rada. Uma Trindade indivisível. A Saraiva Fino, 1ª ed., Vila Nova detes. Cito três, nos poemas imedia- No eixo que corta dos dois lados timula, senão já, em sacramento, Economia da Salvação, ou, como Famalicão, Quasi Edições, 2007.tamente anteriores: “Do Livro dos E fere – os pulsos primeiro “a mesa da aliança” (D, 286), essa diria Gil Vicente, um Breve Sumá- Cito com a letra L, indicando aActos dos Apóstolos”: “A luz de [e a língua “diária lâmina” que nos desata? rio da História de Deus. Desde o respectiva página.
  6. 6. VI Cultura QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Diário do Minho Rua Central – novo livro de José Bento Silva sobre a Póvoa de Lanhoso aparecem nos noticiários, que não pela primeira vez, a oportunidade José Bento Silva não esquece os tinha feito o curso com uma tese têm biografias, mas apenas uma de evocar os seus com tempo e anónimos. Gente, todavia, com sobre o Delírio das Perseguições. esquecediça passagem pelas ruas orgulho. alma, escreve o autor. “Uma alma Implantada a República, a Póvoa da vida”. A dúvida acabaria por se tão grande que lá do alto da Bela de Lanhoso exara “um voto de transformar numa evidência que Em Rua Central, abundam pro- abraçava a vila toda; zés-ninguéns profundo sentimento pelo faleci- impôs ao escritor a necessidade tagonistas, heróis e vítimas de duma sociedade que a imprensa mento do avalizado médico psi- de salvar do anonimato diversas pequenas histórias de todo o local destacava com os epítetos quiatra Doutor Miguel Bombarda” pessoas, o que foi feito relatando género, de casos de encontros e de pés-descalços (os da patuleia), e atribui-lhe o nome de uma rua. as suas histórias em As Rosas de desencontros, de cenas de amo- ralé, populares, descamisados”. Outro chorado herói republicano, Atacama. res e desamores, de episódios de Mas, como é de regra num livro Cândido dos Reis, que se tinha pancadaria ou de generosidade. E sobre ruas, evoca também os que suicidado por julgar derrotado o Salvar os anónimos quantos deles com alcunhas que tiveram nome e obra na Póvoa de golpe para depor a monarquia, POR do esquecimento se revelam, por si só, como igni- Lanhoso e fora dela. empresta o nome a um largo da ção suficiente da imaginação. “‘Ah, vila, que também se afirma con- EDUARDO JORGE José Bento Silva faz exactamente falta dizer que a alcunha ‘mordica’ Figuras da História de Portugal doída com o desaparecimento do MADUREIRA LOPES o mesmo. Impelido por razões nos vem de um antepassado que, nas ruas da Póvoa de Lanhoso almirante. distintas, mas sob idêntico impera- nas festas e romarias, gostava de Quando o século XX se enca- tivo ético, salva do anonimato um mordiscar as raparigas’”, revela Por vezes, ao longo dos anos, minhava para o fim, no dia 4 de incontável número de povoenses João Mordica ao autor. foi a comoção de um momento Dezembro de 1980, um acidente e essa generosidade é um dos pri- Em algumas ocasiões, José Bento histórico que guiou as escolhas de aviação, ainda hoje envolto meiros méritos do livro Rua Cen- toma de empréstimo um proce- toponímicas. em polémica, provoca a morteTrazer uma inscrição dramática, tral, que merece ser devidamente dimento literário usado por José Serpa Pinto teve direito a um do primeiro-ministro Francisco Sávisível num campo de concentra- reconhecido. A tarefa impôs, como Saramago e, aconselhado pelo largo. Conta José Bento: “Deu-se o Carneiro e do ministro da Defesação nazi, para o início da apresen- bem se compreenderá, um imenso narrador de Memorial do Conven- Ultimatum inglês de 11 de Janeiro Adelino Amaro da Costa. Ambostação de um livro sobre as ruas labor. Foi imprescindível percor- to que diz: “Já que não podemos de 1890 e Portugal levantou-se serão, por essa outra trágica cir-de um município português pode, rer as ruas, claro. Andar e ver. Foi falar-lhes das vidas, por tantas patrioticamente contra “a infame cunstância, nome de ruas.talvez, parecer pouco propositado. necessário ler muito. Foi preci- serem, ao menos deixemos os no- Inglaterra. E a vila da Póvoa não Quem pretender estudar a re-A verdade é que a recordação des- so, por exemplo, folhear muitos mes escritos, é essa a nossa obri- ficou atrás nessa maré de indigna- cepção que os grandes aconteci-sas palavras, gravadas no campo jornais para aí colher pequenas gação, só para isso escrevemos, ção e fervor patriótico”. Como Ser- mentos históricos tiveram no quede Bergen Belsen, na Alemanha, notícias anódinas publicadas ao torná-los imortais, pois aí ficam, pa Pinto “era o herói do momento”, ainda se continua a designar porse foi impondo à medida em que longo dos anos, conferindo-lhes se de nós depende”, regista no- por iniciativa da Liga Democrática província, adianta muito trabalhoia avançando a leitura desta Rua uma segunda vida, uma inespe- mes que lhe foram sendo falados. da Póvoa de Lanhoso, o presidente lendo este livro. Algumas pas-Central, de José Bento Silva. Elas rada actualidade. E foi igualmente Deste modo, livra do esquecimen- da Câmara propôs, um mês de- sagens de Rua Central ajudamencontram-se reproduzidas em imperioso ouvir pessoas. Este livro to tanta gente que, para, de novo, pois, que o major desse o nome a compreender certos períodosAs Rosas de Atacama, um livro de testemunha, com eloquência, a usar as palavras de Sepúlveda, não ao Largo da Fonte. da História de Portugal, no queLuis Sepúlveda. Conta o escritor escuta de muita gente, de mulhe- aparece nos noticiários, não tem No início do século XX, mal co- tiveram de mais mesquinho ou dechileno que, numa extremidade res e de homens que falam de si e biografia, mas apenas uma rapida- meçado o mês Outubro de 1910, mais nobre.do campo e muito próximo do de quem os precedeu. E talvez não mente esquecida passagem “pelas um doente mental com a fobia Como ainda há não muito tempolugar onde se erguiam os infames seja ilegítimo imaginar que não ruas da vida”. Pelas ruas da Póvoa da perseguição assassinou o se recordou na iniciativa “Póvoafornos crematórios, na superfície faltarão os que talvez tenham tido, de Lanhoso. psiquiatra Miguel Bombarda, que de Lanhoso e a sua herança”, nãoáspera de uma pedra, viu que«alguém (quem?) gravou, talvezcom o auxílio de uma faca ou deum prego, o mais dramático dosapelos: ‘Eu estive aqui e ninguémcontará a minha história’».Afirma Sepúlveda que terá lido uns “Outro opositor do sacerdote e político [padre José Dias], sendo, contudo, seu amigo, foi Adolfo Joãomil livros, mas nunca um texto lhepareceu “tão duro, tão enigmático, de Figueiredo, outro nome de rua. Em 1934, apresentou-se na pia do baptismo com quatro filhos paratão belo e ao mesmo tempo tão baptizar, duas meninas – a Liberdade Armanda e a República Isolina – e dois rapazes – o Armandodilacerante como aquele escrito Lenine e o Bento Staline. Armando Lenine contou a José Bento que, contra o que pode parecer ób-sobre uma pedra”. O escritor diz vio, o pai tinha feito uma pequena cedência ao padre José Dias, ao escolher os segundos nomes dasnão saber se a frase foi escritapor quem pensava “na sua saga raparigas – Armanda e Isolina – e os primeiros nomes dos rapazes – Armando e Bento.”pessoal, única e irrepetível” ou “emnome de todos aqueles que não
  7. 7. Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Cultura VII «Este livro, diz José Bento [na foto ao lado], “é uma deambulação, inte- ressada e apaixonada, pelos caminhos da vila e freguesia da Póvoa de Lanhoso”. Poder usufruir de uma visita guiada de um modo tão fascinante, durante a qual nos são mostrados lugares encantadores e nos é apresen- tada tanta gente inesquecível, é um privilégio para qualquer leitor.»faltaram aqui figuras históricas e contra o que pode parecer óbvio, dicionário (“o sangue espadanou, uma vez, quando escasseavam as pode ocorrer a necessidade depersonalidades exemplares. José o pai tinha feito uma pequena o insulto referveu, as blasfémias pistas para esclarecer o topónimo lembrar o mais elementar. Citan-Bento evoca-as com justeza, do- cedência ao padre José Dias, ao uivaram”). Alto da Bela ou Laje da Bela. Em do Zilda Cardoso, autora de Ruacumentando o essencial daquilo escolher os segundos nomes das outras ocasiões, impõe-se censu- Paraíso, faz-se notar que “‘é essaque fizeram para serem credoras raparigas – Armanda e Isolina – e As voltas e a lógica rar as inconstâncias toponímicas. a lógica da toponímia… que a ruada admiração e estima povoense. os primeiros nomes dos rapazes – da toponímia “À política toponímica da Póvoa dos ferradores se chame Rua dos Armando e Bento. de Lanhoso bem pode aplicar-se Ferradores’”.Protagonistas de tensões Rua Central é um livro sobre to- o velho ditado de ‘cada cabeçae conflitos políticos Os protagonistas ponímia. José Bento verifica com cada sentença’, variando os crité- O povo num país rural que são vítimas rigor as explicações para certos rios de comissão para comissão,Mas a vila também teve prota- nomes. Por vezes, tem de as rejei- ou de vereador para vereador”, Como fez em outros livros,gonistas de tensões e conflitos. Rua Central permite traçar um tar. “Fantasias românticas, etimo- escreve José Bento sobre o facto José Bento escolhe um tema eMuitas vezes, por razões políticas. mapa das zonas de risco. Os pro- logias simplistas que não devem de haver ruas de novas urbaniza- ensina-nos muito, não só sobre aAntes de 25 de Abril de 1974, não tagonistas têm, aqui, o estatuto de corresponder a nada”, escreve ções sem nome próprio. Também Póvoa de Lanhoso e o Minho, masse conseguia escapar à influência vítimas. Entre os locais mais peri-do padre José Dias, pároco da gosos do século XIX, encontrava-Póvoa de Lanhoso e presidente -se a Rua do Castelo. Aí, no dia 9 «“Às vezes até penso que a vila da Póvoa era uma terra envergonhada da suada Câmara Municipal. Chegou à de Julho de 1885, o marceneiro própria condição e natureza. Os campos, as hortas e os quintais eram a suaPóvoa de Lanhoso no dia 19 de Joaquim António Ferraz ficou naMarço de 1925 e, passados alguns penúria porque lhe arrombaram a essência, a sua retaguarda, o seu sustento. Os campos faziam parte da suaanos, já era proprietário de uma casa e roubaram os instrumentos identidade, do seu próprio nome (campo das Lourenças, campo do Lameirão,parte substantiva dos campos de de ofício. No dia 18 de Maio de campo Barbosa e Castro, campo do Amparo, campo da Feira). Mas detestava oValdemil. Comenta José Bento 1890, foi o caseiro de João Baptis- povo, sacrificava-o no trabalho, explorava o seu suor, mantinha-o analfabeto,que “é o que se chama a magia ta Antunes Guimarães que viu ada multiplicação dos campos”. casa assaltada, tendo ficado sem desonrava as suas filhas, maltratava as criadas, humilhava-o nas repartiçõesAdmirado e detestado, para usar alguma roupa e lenços de lã e de públicas, embebedava-o nas tabernas escuras e mal cheirosas, mantinha-otermos do autor, encontramo-lo seda, no valor de 12 mil réis. Uma a broa e a caldo de couves sem azeite, enfim, tinha nojo dele”.»omnipresente neste livro, embora outra notícia recolhida por Josénão tenha o nome em qualquer Bento informa-nos que, na mes-rua, ao contrário de, por exemplo, ma rua, no dia 29 de Janeiro deJoão Augusto Ribeiro de Car- 1888, um rapaz, chamado Antóniovalho, um dos que se lhe opôs. Joaquim Cláudio, bateu na mãe,O antagonismo era, aliás, de tal Maria Cláudia.monta que João Carvalho, res- José Bento não se limita a trans-ponsável, em 1901, pelo reinício crever “faits divers” noticiados pelada publicação do semanário Maria imprensa. Interroga-os também,da Fonte, deixou uma “Carta de para mostrar a ideologia queConsciência” para ser aberta após através deles se transporta. Refe-a sua morte. Nela, como conta rindo que, em 1906, a imprensaJosé Bento, impunha um enterro local mostrava o lado mais per-civil, por não querer, “por princí- verso das peculiaridades da vidapio algum”, que o cadáver fosse no Lugar da Portela, num bairroacompanhado ao cemitério pelo dominado pela pobreza e pelapadre José Dias. marginalização social, o autorOutro opositor do sacerdote e desconstrói com ironia uma no-político, sendo, contudo, seu ami- tícia sobre uma cena de pugilatogo, foi Adolfo João de Figueiredo, que ali tivera lugar, fazendo notaroutro nome de rua. Em 1934, o exagero da comparação entreapresentou-se na pia do baptismo o Lugar da Portela povoense e acom quatro filhos para baptizar, Mouraria lisboeta; o delírio hiper-duas meninas – a Liberdade bólico na caracterização do lugarArmanda e a República Isolina – e (“ali, onde a devassidão campeiadois rapazes – o Armando Leni- infame, mais impudicamente quene e o Bento Staline. Armando o vício nos bacanais da RomaLenine contou a José Bento que, antiga”); ou o excesso de uso do Castelo da Póvoa de Lanhoso e Capela de Nossa Senhora do Pilar
  8. 8. VIII Cultura QUARTA-FEIRA, 10 de abril de 2013 Diário do Minhotambém sobre Portugal. O povo e exemplo que para aqui mais inte- numa escola da Póvoa de La- Milagres, clamores de aflição, doença ou calami-o país rural dos séculos passados ressa, pode-se reter que, em 1927, nhoso a partir de 1984, ano em e peregrinações dade. “Mas havia clamores quee de até há pouco encontra-se em testamento, “deixou duzentos que começou a funcionar a eram obrigatórios e se realiza-aqui muito bem retratado. contos para construir um prédio escola de instrução de condu- A rotina povoense é, obviamente, vam em dias calendarizados”. NaRetratado, analisado e denuncia- em condições modernas e higié- ção automóvel “Maria da Fonte”. quebrada em momentos espe- Póvoa, em 1874, “‘era de anti-do, como sucede neste extracto: nicas, onde pudessem funcionar A estupefacção é tanto maior ciais. São de natureza religiosa quíssimo e imemorial uso e cos-“Às vezes até penso que a vila da conjuntamente as escolas primá- quanto sabemos que Amândio algumas dessas ocasiões em que tume efectuarem-se anualmentePóvoa era uma terra envergo- rias para rapazes e raparigas”. de Oliveira foi um dos “pioneiros o tempo entra numa medida quatro clamores”, em honra danhada da sua própria condição e Tendo, igualmente, enriquecido do transporte público em Portu- diferente da do quotidiano, tam- Visitação de Nossa Senhora anatureza. Os campos, as hortas e no Brasil, e embora não sendo gal”, ao apresentar, em 1926, no bém ele muito impregnado de Santa Isabel, em comemoraçãoos quintais eram a sua essência, povoense, Joaquim Ferreira dos dia 28 de Março, em Garfe, onde religiosidade. do Anjo Custódio, em reverênciaa sua retaguarda, o seu sustento. Santos, o Conde de Ferreira, nascera, o seu primeiro veículo No dia 13 de Setembro de 1951, a de S. Francisco de Borja, e emOs campos faziam parte da sua conhecido pelo hospital que motorizado de transporte colec- Póvoa de Lanhoso recebe a ima- devoção do Patrocínio de Nossaidentidade, do seu próprio nome ofereceu à cidade do Porto, legou, tivo de passageiros. gem peregrina de Nossa Senhora Senhora.(campo das Lourenças, campo em 1866, mil e duzentos réis para Rua Central revela-nos anúncios de Fátima. “Milhares de luzes bri- Outras práticas devocionais,do Lameirão, campo Barbosa e a edificação de uma escola de simples e, com certeza, eficazes. lhavam na terra como as estrelas associadas a outros lugares,Castro, campo do Amparo, campo instrução primaria na Póvoa de Não abusavam, como agora, do no céu”, diz o relato recuperado podiam ser citadas, como, porda Feira). Mas detestava o povo, Lanhoso. vício parolo de os sobrecarregar por José Bento. Na despedida, no exemplo, as peregrinações àsacrificava-o no trabalho, explora- A vila fez-se ainda de comer- com palavras e expressões de dia seguinte, houve “lágrimas, pre- Senhora do Pilar. E poderiava o seu suor, mantinha-o anal- ciantes. A vasta informação língua inglesa. O Barateiro da ces e aclamações”. E “milhares de continuar-se o percurso que nosfabeto, desonrava as suas filhas, sobre a vida comercial povoense Póvoa dizia ser “a casa que mais lenços a acenar”. O protagonismo leva dos hagiotopónimos, comomaltratava as criadas, humilhava- suscita, aqui e ali, espanto. É barato vendia e melhor sortido é da multidão, mas, pouco tempo o lugar de S. Brás, bispo e mártiro nas repartições públicas, embe- que, no século XIX, havia lojas apresentava”; e a Casa das No- depois, um novo relato tem um em 316, que se celebra a 3 debedava-o nas tabernas escuras e com produtos que apenas con- vidades, “uma casa nova com protagonista individual: “O meni- Fevereiro, na “romaria dos poses”,mal cheirosas, mantinha-o a broa sultando o dicionário (ou nem experiência antiga, para honrar o no – António Martins dos Reis, de até a ruas com nomes únicos,e a caldo de couves sem azeite, assim) se descobrirá o que são. comércio da Póvoa”. 8 anos de idade, filho de Bernardi- como a Rua do Ferro de Engomar,enfim, tinha nojo dele”. Em 1897, no Largo do Amparo, Alguns registos que José Bento no dos Reis e de Maria Joaquina assim designada por causa de um havia uma loja de fazendas e reproduz evidenciam a existência Martins, da Portela – depois da edifício de 1902 que se assemelhaOs brasileiros e os comerciantes mercearias. “Chamava-se a Loja de actividades comerciais na Rua Bênção dos Doentes, foi para a um ferro de engomar. Podería-da Póvoa de Lanhoso do Povo e era do comerciante da Feira e Largo da Feira desde o casa de seus pais, com muleta, e, mos continuar, mas é tarefa im- José da Paixão Bastos”. Nela, início do século XVIII. A importân- passado pouco tempo, deixou-as possível sinalizar tudo o que faz aA Póvoa de Lanhoso foi também havia “fazendas, casimiras [pano cia de que a feira se revestia é tes- em casa e foi passear pelo lugar imensa variedade de Rua Central.obra de quem do campo emi- de lã fino e entrançado], chevio- temunhada pela abundante docu- e pela vila, causando admiração a Este livro, diz José Bento, “égrou. Para o Brasil, como António tes [tecido inglês de lã], picoti- mentação fotográfica apresentada todos os que o conheciam, desde uma deambulação, interessadaFerreira Lopes, em 1857. Para lhos [variedade de picote menos (e sendo impossível referir tudo o criança, agarrado às muletas. […] e apaixonada, pelos caminhosregressar benemérito. Afirma José grosso. Picote – 1. pano gros- que nesta obra é apreciá- Toda a gente o viu, toda a gente da vila e freguesia da Póvoa deBento que é consensual ter sido seiro de lã ou burel; 2. ponto de vel, aproveite-se o pretexto para o vê”. Lanhoso”. Poder usufruir de umaele “o grande impulsionador do renda], mercearia e arroz”. Um referir a mais-valia que representa Momentos especiais eram, visita guiada de um modo tãourbanismo moderno da Póvoa de dos produtos com o nome mais a abundante inclusão de fotogra- com certeza, os clamores, que fascinante, durante a qual nos sãoLanhoso”. enigmático era o “caspolbento”, fias do autor e de arquivos). se realizavam muitas vezes na mostrados lugares encantadoresDo generoso legado de António um remédio santo contra a cas- Em Rua Central – mais um mérito a antiga capela do Amparo. Os e nos é apresentada tanta genteFerreira Lopes, dá boa conta Rua pa e a queda de cabelo, vendido acrescentar à já longa lista – apren- clamores, explica José Bento, inesquecível, é um privilégio paraCentral. “O hospital foi porven- na Loja dos Tabelados, no Largo de-se muito sobre, por exemplo, eram orações, procissões ou qualquer leitor. ◗tura a obra mais importante para de António Ferreira Lopes. a arquitectura doméstica, o urba- peregrinações que se realizavamAntónio Lopes, à qual ele devotou Motivo de espanto é, igualmen- nismo, os ofícios, o comércio, os em honra de um santo ou santa, [Este texto serviu para apresentação do livro Rua Central, de José Bento Silva,mais amor, mais entusiasmo e te, saber que apenas se tornou serviços, a vida quotidiana, as festas ou como forma de penitência e numa sessão realizada no dia 25 demais carinho”, mas, para usar o possível aprender a conduzir ou a religiosidade. para rogar ajuda em momentos Janeiro, na Póvoa de Lanhoso] Dois opúsculos de Maria Eugénia com fins solidários é composto por mais de meia já estiveram expostos no edifício duzem quadros da autora. centena de textos poéticos; o do Turismo, em Braga, revertem a Muito mais do que se tornar co- segundo, intitulado “Vamos con- favor de instituições que apoiam nhecida como escritora ou pin- seguir neste mundo insensível”, doentes crónicos, nomeadamen- tora, Maria Eugénia (a ausência foi escrito, segundo afirma a te nas áreas da paramiloidose e de sobrenomes é prova disto própria autora, para “mostrar os da insuficiência renal (sujeitos a mesmo...) pretende contribuir problemas que as mulheres têm hemodiálise). para ajudar as pessoas que se para engravidar e durante o pe- Apesar de ter uma profissão que encontram em dificuldades, par- ríodo de gestação”. É composto em nada se relaciona com a arte ticularmente aquelas que, em por um conjunto de textos em literária, Maria Eugénia tem-se de- razão das doenças acima referidas, prosa poética, nos quais Maria Eu- dicado à escrita e também à pintura “sofrem caladas”. Maria Eugénia é autora de génia explora, com grande realismo, (neste última componente já expôs Os textos destes dois volumes dois opúsculos cujas vendas as dificuldades e as angústias – mas no Turismo e na Biblioteca Lúcio apresentam-se ao leitor como se destinam, parcialmente, também as alegrias – de quem ota Craveiro da Silva). O grande talento uma torrente de sentimentos, Maria Eugénia, a finalidades solidárias. O por ser mãe. que demonstra na pintura também onde o quotidiano é presença per- a autora dos opúsculos solidários primeiro volume intitula- Uma parte substancial das re- reverteu efeitos nos dois opúsculos, manente e a esperança é caminho -se “Surpresa Silenciosa” e ceitas destes dois volumes, que já que as capas dos mesmos repro- apontado ao futuro. M.M. ◗

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