Notações para discussão.
   Eu detesto essa (urbi et orbi) maneira de falar e sofro        quando não sei concretamente a quem falo.
 Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que     este volume se ocupa, um tipo de homem feito de  pressa, montado tã...
   Tem só apetites, crê que só tem direitos e não      crê que tem obrigações: é o homem sem     nobreza que obriga - sin...
   O homem, pelo contrário, mercê de seu poder de  recordar, acumula seu próprio passado, possui-o e o aproveita. O homem...
    o advento das massas ao pleno poderio social. Como as    massas, por definição, não devem nem podem dirigir sua    pr...
 Talvez a melhor maneira de aproximar-se aeste fenômeno histórico consista em referir-nos  a uma experiência visual, subl...
     A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de       dois fatores: minorias e massas. As minorias são    indivíduos ou...
   o homem seleto não é o petulante que se supõe      superior aos demais, mas o que exige mais de     si que os demais, ...
     E não apenas as técnicas materiais, mas, o que é mais  importante, as técnicas jurídicas e sociais. No século XVIII,...
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    A soberania do indivíduo não qualificado, do      indivíduo humano genérico e como tal, passou, de        idéia ou id...
   O homem-massa é o homem cuja vida carece     de projeto e caminha ao acaso. Por isso não            constrói nada, ain...
  Minha tese é, pois, esta: a própria perfeição com   que o século XIX deu uma organização a certas     ordens da vida, é...
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   Não podia comportar-se de outra maneira esse           tipo de homem nascido no mundo    demasiadamente bem organizado...
   A vida humana, por sua natureza própria, tem       de estar posta em algo, em uma empresa     gloriosa ou humilde, em ...
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Material preparado pelo Prof. Mauricio Marques Canto Junior para o segundo encontro do Botekis Legalis.

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  1. 1. Notações para discussão.
  2. 2.  Eu detesto essa (urbi et orbi) maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.
  3. 3.  Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobresabstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidadesua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possarevogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa.
  4. 4.  Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais.
  5. 5.  O homem, pelo contrário, mercê de seu poder de recordar, acumula seu próprio passado, possui-o e o aproveita. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros, que nos permite não cometer os mesmos sempre. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a extensa experiência vital decantada gota a gotaem milênios. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida."
  6. 6.  o advento das massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não devem nem podem dirigir sua própria existência, e menos reger a sociedade, quer dizer- se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos, nações, culturas, cabe padecer. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. Também se conhece seu nome. Chama-se a rebelião das massas. Convém que se evite dar, desde já, às palavras "rebelião", "massas", "poderio social", etc. um significado exclusivo ou primariamente político. A vida pública não é só política, mas, ao mesmo tempo e ainda antes, intelectual, moral, econômica, religiosa;
  7. 7.  Talvez a melhor maneira de aproximar-se aeste fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual, sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara.
  8. 8.  A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só nem principalmente "as massas operárias ". Massa é "o homem médio". Deste modo se converte o que era meramente quantidade - a multidão - numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é o mostrengo social, é o homem enquanto não se diferencia de outros homens, mas que repete em si um tipo genérico.
  9. 9.  o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais, mas o que exige mais de si que os demais, embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade, é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada especial, mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são, sem esforço de perfeição em si mesmas, bóias que vão à deriva.
  10. 10.  E não apenas as técnicas materiais, mas, o que é mais importante, as técnicas jurídicas e sociais. No século XVIII, certas minorias descobriram que todo indivíduo humano, pelo mero fatode nascer, e sem necessidade de qualificação alguma, possuía certos direitos políticos fundamentais, os chamados direitos do homem e do cidadão, e que, a rigor, estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. Isto foi, primeiro, um puro teorema e idéia de uns poucos; depois, esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia, a impô-la e reclamá-la: as minoriasmelhores. Não obstante, durante todo o século XIX a massa, que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal, não os sentia em si, não os exercitava nem fazia valer senão de fato, sob as legislações democráticas, continuava vivendo, continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. O "povo" - segundo então era chamado -, o "povo" sabia já que era soberano; mas não acreditava nisso.
  11. 11.  . Sofre hoje o mundo uma gravedesmoralização, que entre outros sintomas semanifesta por uma rebelião das massas, e temsua origem na desmoralização da Europa. As causas desta última são muitas. Uma das principais, o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. A Europa não está certa de mandar, nem o resto domundo de ser mandado. A soberania histórica acha-se em dispersão.
  12. 12.  A soberania do indivíduo não qualificado, do indivíduo humano genérico e como tal, passou, de idéia ou ideal jurídico que era, a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. Vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar, mas que não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido em sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnicas que nunca, o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso.
  13. 13.  O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes.
  14. 14.  Minha tese é, pois, esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida, é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização, mas como natureza. Assim se explica e define oabsurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos, que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar, crêem que seu papel se reduz a exigi-lasperemptoriamente, como se fossem direitos nativos.
  15. 15. o homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo.  homem-massa, encontra-se o seguinte: 1o., uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, abastada, sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que, 2o., o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é, a considerar bom e completo seuhaver moral e intelectual. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. Atuará, pois, como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo; portanto, 3o., intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião, sem considerações, contemplações, trâmites nem reservas; quer dizer, segundo um regime de "ação direta”
  16. 16.  Pois bem, a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar- se em um mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações.
  17. 17.  Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado, do qual só percebe as vantagens e não os perigos. O contorno o mima, porque é "civilização" - isto é, uma casa -, e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa, que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele, e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino.
  18. 18.  A vida humana, por sua natureza própria, tem de estar posta em algo, em uma empresa gloriosa ou humilde, em um destino ilustre ou trivial. Trata-se de uma condição estranha, mas inexorável, inscrita em nossa existência.

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