Círios - Henrique Picarelli

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Círios - Henrique Picarelli

  1. 1. 45Horizonte GeográficoCíriosTexto e fotos de Henrique PicarelliCinco participantes dagrande procissão paraensedo Círio de Nazaré, revelamseus sacrifícios feitosem nome da fédeBelémOdia ainda não nasceu às margensda Baía de Guajará e uma multi-dão já se concentra ao lado daCatedral Metropolitana de Belém. Muitoantes dos primeiros raios de sol ilumi-narem a capital paraense, pessoas comdiferentes histórias se encontram nadevoção à Nossa Senhora de Nazaré eajudam a escrever juntas um novo ca-pítulo desta jornada de fé que, em 2012,completou 220 anos: o Círio.Logo a manhã ganha as cores do diae revela uma multidão que já rompe acasa dos milhares. São dois milhões depessoas que transformam as ruas de Be-lém, por onde a imagem vai passar atéchegar à Basílica de Nazaré, cumprindoum percurso de 3,6 quilômetros, numcaudaloso rio de gente.À distância, a vi-são parece homogênea: o tom morenodas peles dos fiéis cria rostos familiares ealimenta um falso parentesco entre eles.No entanto,à medida que se aproximam,e os relatos começam a ser contados,essa certeza visual se quebra e um novoCírio se forma. Desta vez heterogêneo,pessoal e intransferível, como se dentro44 Horizonte GeográficoHá mais de 300 anosuma imagem da VirgemMaria foi encontradaàs margens do igarapéMurucutu. No lugar foierguida a igreja de NossaSenhora de Nazaré,ponto final da procissãode cinco quilômetros
  2. 2. Desde 1931uma grandee forte corda foiincorporada àprocissão. Paramuitos romeiros,todo sacrifíciopara tocá-la valea penaAos 28 anos, devoto de Nossa Senhora deNazaré desde as lembranças mais antigasda infância, este filho de Belém acredita terherdado do pai a paixão pelo Círio.“Quandocriança, antes de completar dez anos deidade, meu pai me levava para participar daRomaria das Crianças e eu adorava. Cresciaprendendo o valor da fé e hoje eu embarcona corda para agradecer tudo aquilo que avida tem me dado, nunca para pedir”, re-lembra Deivyd que neste ano, pela primeiravez, não conseguiu completar o percursopor conta de um corte profundo no pé es-querdo. “Machuquei o meu pé no começoda Avenida Nazaré mas não queria desistir.de cada pessoa houvesse um Círio próprio,motivado pela graça alcançada, renovadopelo novo pedido ou, simplesmente, navontade de perpetuar uma tradição que,certamente,já atravessou diversas geraçõesde famílias paraenses.Nesta multidão sem face, um grupose destaca. Desde as primeiras horas damadrugada, muito antes da procissão sair,cerca de sete mil pessoas, entre homens emulheres, jovens e adultos, se espremem ese espalham num espaço de 400 metros decomprimento. A disputa é para pegar umpedaço da corda e ter a responsabilidade depuxar a berlinda, onde a imagem de Nos-sa Senhora de Nazaré é carregada. Para ospromesseiros da corda, como esses fiéis sãoconhecidos, essa tarefa traz muito mais doque a honra de carregar o símbolo máximodessa devoção. Para muitos, o sacrifício decaminhar descalço sob calor e umidadeamazônicos representa a oportunidade deagradecer as bênçãos obtidas ao longo doano e renovar uma fé difícil de ser com-preendida para quem se depara com essamanifestação religiosa pela primeira vez.Deivyd, promesseiro da cordaÉ a gratidão que leva Deivyd José dosSantos pelo sétimo ano consecutivo à corda.Aguentei por quase 5 horas,mas chegou ummomento em que a dor foi maior do que aminha fé”, lamenta o devoto pouco antesde se surpreender com suas fotos, tiradasdurante a procissão.“Meu Deus! Esse sou eu?” Estas foramas primeiras palavras de Deivyd ao se en-contrar nas fotos entre centenas de fiéisdurante parte do trajeto, pouco antes dese machucar e ser obrigado a sair. “Esta éa primeira vez que me vejo no Círio e nãoconsigo me lembrar de que sentia naquelahora!”, espanta-se o pedreiro. “Olhandopara mim, neste momento tão meu, sóconsigo pensar nos motivos que eu tenho47Horizonte Geográfico46 Horizonte Geográfico
  3. 3. para agradecer e para estar lá. E no anoque vem, eu vou voltar”.Daniel, o evangélico na cordaNão é só a fé e a religião que movempessoas para a maior procissão católica doBrasil. Em 2006, o evangélico Daniel Moura– à época com 20 anos, se sentiu instigadopelos amigos a conhecer de perto o Círiode Nazaré. Católico de nascimento, Danielconheceu a igreja evangélica aos 12 anosde idade, pro meio de amigos da escola.Aos 15, foi batizado na Igreja Adventistado Sétimo Dia, mesmo caminho percorridopela mãe e pelo irmão mais novo algunsanos depois. E foi dentro dos ensinamentosPudamerumenimi,omnisvolupideliteplandis alictumresed et fugitaverferum esquam lautandis alit, sed48 Horizonte Geográficocatólica fervorosa e apaixonada pelo Círio,Daniel admira a relação da família dela comas festividades religiosas desta época do ano.“Com o tempo,eu aprendi a conviver com areligiosidade da família dela, com a crençadeles.E acho muito bonita a relação de todosaqui e a forma como o Círio os reaproxima”.Para Fernanda,a mulher de Daniel,o pe-ríodo do Círio é a época de relembrar a avóCarmita, falecida há 5 anos e que passouaos 12 filhos e aos 18 netos o principal valordesta festa para os Meireles. “O Círio sem-pre representou o momento de encontro denossa família”, recorda a neta.“É o começode um novo ano, de renovar os pedidos, deagradecer. Para a família paraense, agora éa hora de viver o Natal”.Kátia, uma viajante da féKátia de Nazaré Meireles, 47 anos, é aúnica das filhas de dona Carmita que nãovive mais no Pará. Desde quando se casou,há 10 anos, ela mora na cidade de Suzano,na grande São Paulo, mas se programa paraestar em Belém durante o mês de outubro.“É impossível me manter afastada daqui eda minha família nesta época do ano.A mi-nha paixão por tudo isso renasce e eu revivoa minha história, a história da minha famí-lia”, afirma a única das 6 irmãs que carregaNazaré no nome por conta do aniversário noDaniel, evangélico, casado com Fernanda, católica, resumeseu interesse: “como paraense, o Círio faz sentido pra mim”A multidão se acotovela nas ruas de Belém. A cada ano, centenas de fieis são hospitalizados por causa do calorevangélicos que ele aprendeu que as ima-gens não devem ser adoradas, veneradasou reverenciadas, o que transforma a festaem torno da imagem de Nossa Senhora deNazaré sem sentido para ele.A conversão religiosa, no entanto, nãofoi suficiente para aquietar a curiosidadedo jovem belenense. Dois dias antes daprincipal procissão do Círio, durante umaconversa com amigos, Daniel decidiu queiria participar e da forma mais presentepossível: ao lado dos promesseiros da corda,ajudando a levar a imagem da Padroeira daAmazônia. “Como evangélico, o Círio nãofazia sentido para mim. Mas como para-ense, faz”, resume, explicando sua decisão.A noite que antecedeu a experiência foicurta. Pouco mais de 2 da manhã e Danieljá estava deitado sobre a corda, para marcaro lugar. Às 6h30, a corda é levantada e apromissão se inicia. “Nos primeiros 20 mi-nutos, pensei em não ficar, achava que nãoaguentaria aquele calor. Eu me perguntavao que estava fazendo lá”, recorda o evan-gélico com um sorriso no rosto. “O peitoespreme, você não anda.Você é levado!”.Na primeira tentativa de sair da corda,Daniel encontrou o próprio significado parao Círio, muito além da questão religiosa,muito diferente das versões que ouvira dosamigos. “Quando falei que queria sair, umdos promesseiros tentava me convencer aficar. Falava da minha fé, dos motivos queme faziam estar ali e do compromisso comaquilo que tinha prometido”, recorda. “Elenão sabia nada sobre mim, sobre a minhareligião, mas não queria que eu abando-nasse o meu compromisso com aquiloque havia prometido, como se estivessecuidando de mim”.A passagem de Daniel pela corda duroupouco mais de 3 horas,por culpa das unhasdos pés que sucumbiram ao contato com oasfalto.O aprendizado vivido naqueles mo-mentos, no entanto, tem acompanhado otécnico em informática até os dias de hoje.Casado há 6 anos com Fernanda Meireles,“Meu Deus!Esse sou eu?”,surpreendeu-seDeivyd ao ver aimagem flagradadurante suadifícil passagempela corda
  4. 4. A romaria fluvial doCírio percorre 10milhas na baía deMarajó, recebendohomenagens dapopulação ribeirinha
  5. 5. mês de outubro.“A cada ano, independentede minha mãe ter falecido e não estar maisentre a gente, nós nos tornamos mais uni-dos.Ela,mesmo não estando aqui,fortaleceo amor que temos um pelo outro”, contaKátia enquanto tenta disfarçar a saudade damãe que começa a transbordar pelos olhos.“Neste momento, a gente sente a minhamãe mais próxima, como se eu pudessever os movimentos dela por aqui. O Círioé muito a nossa mãe”, completa LucindaMeireles, a mais velha das irmãs e que hojese responsabiliza pelos preparativos da fes-ta em família e prepara o altar da casa queconta, além da imagem de Nossa Senhora,uma foto da mãe.Para outros devotos de Nossa Senhorade Nazaré, o Círio carrega significados dife-rentes, além do encontro da família – comoé para os Meireles, ou do sacrifício de fé –como encara Deivyd.Tia Dora, a hospedeiraNa Casa de Plácido, local criado parareceber os milhares de romeiros que che-gam a Belém durante este período do ano,encontramos um Círio que se concretizana doação e que se personifica na figura deDolores Cerejo. Ou apenas Tia Dora, comoprefere ser chamada.A disposição de menina ajuda a escon-der os 81 anos de idade. Ela não pára! Cadagrupo de romeiros que chega parece abas-tecer de energia as pernas e os braços destavoluntária que, desde quando a Pastoral daAcolhida foi criada há 11 anos, abandona aprópria casa no período do Círio para aten-der os devotos de Nossa Senhora de Nazaré.“Neste momento do Círio, poder ajudar al-guém é a maior satisfação possível que euposso ter. Eu me dôo a este trabalho.Venhopara cá e não tenho vontade de voltar paracasa”, diverte-se ao falar da própria dedica-ção sem se descuidar do atendimento aosperegrinos, da distribuição da água, do pre-paro da sopa e das colegas com quem divideo trabalho na Casa.“Além da fé das pessoasque chegam,cumprindo as suas promessas,o que mais me emociona é a dedicação dasvoluntárias daqui. Todo mundo vem para53Horizonte GeográficoDoloresCerejo, a TiaDora, na Casade Plácido,que acolheromeiros:“contágiode energiapositiva”A origem do Círio de NazaréDe herança portuguesa, a devoção à NossaSenhora de Nazaré no país data de 1700, quandoo caboclo Plácido José dos Santos encontrouuma pequena imagem da Virgem Maria àsmargens do igarapé Murutucu, que passava atrásde onde está hoje a Basílica de Nazaré.De acordo com os relatos da época, Plácido terialevado a imagem até a casa, de onde ela sumiuaté ser reencontrada no mesmo igarapé. Depois,a imagem foi levada ao Palácio do Governo, ondepassou a noite escoltada por guardas. Reza alenda que para a surpresa de todos, na manhãseguinte a imagem estava de volta ao igarapé.Neste local, Plácido construiu uma capelapara hospedar a imagem, embora apenasem 1792 o Vaticano autorizasse a realizaçãoda primeira procissão, que aconteceriaem 8 de setembro do ano seguinte.Em 1855, com as fortes chuvas que caíramKátia Meireles (ao centro), junto com suas irmãs: a visita anual à Belém coincide sempre com o Círiodurante o Círio, a berlinda que levava a imagematolou e a corda foi utilizada pela primeira vez.Em 1901, a procissão começa a ser realizadano segundo domingo de outubro e, a partirde 1931, a corda passaria a ser incorporadadefinitivamente à berlinda.As procissões são longas: em 2004, por exemplo,o Círio durou mais de 9 horas, tornando-se aprocissão mais longa da história da festividade.
  6. 6. ajudar, para trabalhar. Parece que há umcontágio dessa energia positiva que aca-ba se manifestando no rosto de cada umade nós”, explica Tia Dora enquanto apontapara as outras voluntárias do outro lado dobalcão. E entre um atendimento e outro,ela revela o segredo de tamanha dedicação.“Nada faz mais diferença do que agir comamor e se doar com o amor que a gente temaqui. O meu Círio mora dentro desta Casae eu peço a Deus que essa energia toda mefaça estar aqui no próximo ano”.José Ribamar, um peregrinoNo mês de outubro de 2012, cerca de400 voluntários, entre eles médicos, enfer-54 Horizonte GeográficoA cada ano,José Ribamarpercorrea pé os 70quilômetrosque separamsua cidade deBelém para sejuntar ao Círiomeiros e massagistas, se revezaram duran-te o período do Círio para atender cercade 15 mil romeiros. Dentre os peregrinosatendidos pela Casa de Plácido estava JoséRibamar Araújo, de chapéu de palha paraproteger a cabeça do sol e devoção à NossaSenhora de Nazaré estampada na camisetae nas palavras.Piauiense de nascimento, Ribamarmora em Castanhal, cidade distante 70quilômetros da capital paraense, desde ofinal da década de 80. Há 4 anos percorreessa distância a pé nos dias anteriores àprocissão do Círio. Os 72 anos de idade nãoficam evidentes, mesmo depois de quase24 horas de caminhada. E o cansaço nãoé capaz de abafar a paixão com que falado motivo que o faz percorrer esse traje-to. “Eu estou aqui porque fiz um pedido àNossa Senhora e estou sendo atendido. Aminha próstata estava 50% maior do queo normal e no último ultrassom que fiz,há dez dias, ela estava 37% menor”, co-memora. “Eu prometi que se ficasse bom,curado mesmo, eu caminhava até quandonão aguentasse mais”.Quando questionado sobre a impor-tância da fé para a própria cura, seu JoséRibamar se emociona. “Rapaz, eu acreditoque a fé é tudo nessa vida. Quando comeceiessa jornada, eu só pensava na do ano quevem e isso me mantém vivo, com vontadede viver, independente dos problemas quea vida tenha me dado”.Para Deivyd, Daniel, a família Meireles,tia Dora, seu José Ribamar e tantos outrosparaenses que voltam à terra natal nestaépoca do ano, o Círio é uma espécie de re-encontro com a própria fé, com as própriascrenças, com as próprias raízes.Ao se afas-tar dos números grandiosos que compõema maior festa religiosa do Brasil, percebe-seque há um Círio que acontece dentro decada pessoa, de cada promessa, de cadaagradecimento, independentemente dosignificado religioso da maior festa decredo católico do país.

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