À sombra doflamboyant       Marinaldo l batista       Um casal, uma sina. Sofrer. Como eles mesmos       disseram: A vida ...
Homens haverá antes e depois Dele indefinidamente.Sofrerão calamidades, injustiças, flagelos, por dolo do pecadoque lhes c...
-Zé das candeias! Bradaram novamente dois meninos,sumindo numa esquina.       Era desses homens fortes vindos do sertão, e...
Isso foi bem cedo, quando o primeiro galo cantou e Zédas candeias bem viu que nem luzes no céu havia, somente aescuridão, ...
lábios que você própria não gostou e ainda comentou: -mulher sem pudor, falou em casa.” - E que entre quatroparedes o casa...
Cortou a palha, espalhou o fumo na mão. Um galocantou, cachorros latiram, ele levantou o pescoço para ver oque era. Um uru...
Antonieta virou-se assustada viu os seus olhos escuros,rugas na testa macilenta, gotas de suor na fronte a bocaentreaberta...
certo. Duvido que Deus queira isso para seus filhos. Tudovem do homem. O egoísmo e a ganância desenfreada são oscausadores...
-Caralho, essa pipa é maneira. Já fui bom nisso,suspirou.      Uma pipa veio debicando ao encontro da outraquerendo briga....
ventos, dos pássaros, do sol, a cor o cheiro das coisas e sabiao dia que ia chover, de calor, de frio e até das estiagens....
alguma organização, isso quando era contrariado, o sangueparecia esquentar nas veias, e impactava o coração. Depoisesfriav...
do outro lado, embaixo do juazeiro. Ouvimos chocalhos bemlonge nas pedras. As cabras do falecido Valdevino. Nocórrego, ond...
No outro dia Zé das candeias    acordou bem cedo disposto arecolher a maior quantidade possível de coisas. Obtermaiores lu...
Enquanto separava o lixo escarafunchava as ideias, dizia:“ Tempo bom, a infância, tão longe, meandros do tempo.”Lembrou-se...
Tudo isso se passou em sua mente como num filmemudo, filmes de Charles Chaplin tão distante e tão perto, eviu os mesmos ol...
-Uma pinga e um troço desse aí. Era um pé de galinhaboiando em gordura, - É... Rico gosta de segurança. Pensouum pouco e f...
fazem a guerra, e o que lhes escapam, derrubam governos,deprime países e seus pobres, escondem debaixo dos tapetes. Nisso ...
caindo no abismo, interminável e desconhecido. E a aveagourenta subiu com a filha nas garras, se distanciandorapidamente. ...
arderem, e o cheiro do café outrora tão bom hoje lhe davaenjoo.                             4Zé das candeias não saiu para...
“A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhouiguais.Mas a noite era ...
deitados, recebiam atendimento, ali mesmo. Era tudo nabase do improviso. Um mulato que tinha o tórax esmagadotomava o soro...
-Tira-os para passear, que eles ficarão alegres.     -Já falei com eles, mil vezes que não ligassem paramim, pois eu tenho...
descobrir seus segredos. Entra no quarto. A respiraçãoentrecortada no aparelho. Bip... Bip...Bip... Num ritmo lento.A mãe ...
-Da criança. O médico tirando o estetoscópio.  -Nasce por esses dias.  -Não o meu doutor! O dos olhos tristes.  -Tem um mê...
chuva, destruindo toda uma rua. Gente houve que perderatudo. Antonieta era uma delas. Foi morar com outros,debaixo de um v...
assustado olhou-a de soslaio, viu a barriga sequinha sinalnenhum de gravidez, ora deve estar em embrião, pensou.”      -Vo...
tinha nascido”. Todos tem uma missão na terra.” “Qual seriaa sua?”.Antonieta desde quando menina fora uma arteira. Trabalh...
voltavam das vaquejadas. Desde esse dia ela emudeceu.Ficou mais sisuda, tinha dez anos, uma criança, falaram.Maldade só. C...
os olhinhos ficavam pequenos. Depois a coloquei de quatro eaquela bunda branquinha mandei ver. Dei umas tapas bemdado na b...
6      Os últimos meses foram medonhos.       Antonieta inchara tanto que parecia uma pipa. Aenorme barriga, sem jeito, de...
parece com ambos.” - Defeito na formação disse, não vaiandar nem falar, a vida tem dessas coisas. Passou o braçosobre os m...
pescoço, uma figura interessante eu era, o saco nas costas, osapato no pescoço, um chapéu largo na cabeça, outrosfalavam e...
brincava com isso, dizia era a imagem no espelho:Semelhantes e tão contrário. Um nobre o outro com tantossentimentos sombr...
dia, dava toda uma semana por ele trabalhada. Uma aranhano teto tecia sua teia. Guardou num saco em cima da mesa.       Co...
dó. O cão, coitado, deu uma volta de noventa graus safando-se da pancada, que se pegasse arruinava a anca traseira.Tinha m...
-Ah! Ah! Ah! Coloca mais uma cachaça aqui Severino! Passaa régua. Verdade! Quase ri! Mas não era prá ri?“Eu principiei a q...
“Que dó me deu de mim, de Antonieta e de minha filha.”Fui andando pelo corredor sem rumo, uma cruz na parede.“Que sofrimen...
fim em letras garrafais, uma visão de toda a cidade, pertinhodo céu.Zé das candeias deu um soco na perna, trincou os dente...
-Soube também que a igreja é riquíssima! Pois as mãosnas ancas:       -E ontem Zé, quando vi você subindo o oitão lembra, ...
sermão que ele nos fitou, como o olhar de Judas para Jesus,antes do fatídico beijo.        -Depois veio dar a mão para gen...
Uma febre, uma virose levara Antonieta e Vanusa aomesmo tempo. E esse tempo o cemitério já era quase todohabitado.        ...
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Um casal, uma sina. Sofrer. Como eles mesmos
disseram: A vida gira, não há espaço para choro nem
lamentações. Movida por forças que não lhe dizem
respeito ou que tem tudo a ver, talvez pelo pecado
capital que todos levamos ao nascer. Um novo autor
que dar falas aos personagens, para que eles próprios
insiram suas verdades, histórias e vida. Vocês vão se
sentirem no âmago da ação, bem próximos, como
fizessem parte da mesma.

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  1. 1. À sombra doflamboyant Marinaldo l batista Um casal, uma sina. Sofrer. Como eles mesmos disseram: A vida gira, não há espaço para choro nem lamentações. Movida por forças que não lhe dizem respeito ou que tem tudo a ver, talvez pelo pecado capital que todos levamos ao nascer. Um novo autor que dar falas aos personagens, para que eles próprios insiram suas verdades, histórias e vida. Vocês vão se sentirem no âmago da ação, bem próximos, como fizessem parte da mesma.
  2. 2. Homens haverá antes e depois Dele indefinidamente.Sofrerão calamidades, injustiças, flagelos, por dolo do pecadoque lhes coubera, nessa vida ou em outras nunca se sabe,pois há os que nascem em berço de ouro, outros vejam todos,enquadremos a câmera, um Zé ninguém, sem eira nem beira,como dizem, nesse povoado, ali, empurrando agora umcarrinho, feito de tábuas e restos de bicicletas, cata lixo epapelão para a sobrevivência, - teve uma história e comotodas as histórias, começo, meio e fim. Há justos sessenta anos, sobe diariamente essa ladeiraíngreme. Para no meio exausto, parece ter cansado da vida edeste mundo, mas a esperança, -esta é latente- não o fazdesistir, sempre almeja uma vida melhor, coça a cabeça eolha o vazio, no instante em que um moleque alheio as suasdores grita, - Zé das candeias! Zé das candeias! Ele acordado torpor que se encontra inicia um sorriso, para logo depoisgritar e soltar impropérios e palavrões. -Filhos da puta! Filhos de uma quenga! Filhos de umavaca! Zé das candeias é a buceta da mãe! Fazia isso toda vez que o chamavam assim, desdequando tomou conhecimento que se divertiam fazendochacota de si mesmo. “A quem interessam as dores alheias!”,pensava. Vinha todos os dias por essa estrada de terra e quandochegava ao topo, parava como agora, tornava-se sério, fazia onome do pai, visualizando um flamboyant vermelho (Quemnunca se encantou com um flamboyant florido), onde voavamborboletas de todas as cores e colibris azuis em busca donéctar. “Para os diabos com minha vida, dizia para si rindo daprópria miséria. Deus tem mais para dar do que o diabo paracarregar!” E dançava quando falava e acendia duas lâmpadassituadas no bagageiro do carrinho, por isso o apelido.
  3. 3. -Zé das candeias! Bradaram novamente dois meninos,sumindo numa esquina. Era desses homens fortes vindos do sertão, espadaúdo,mãos grandes cheias de calos, uma calva, olhos escuros, avoz mansa de quem muita necessidade passou e passa.Desses que se olharmos amiúde, em qualquer povoado osencontramos, e tem tudo para serem infelizes, contudo vivemsorrindo da sorte arranjos da vida. Uma grande veia na testasolfeja no compasso da batida de um coração. Olha para os pés e os sente colados na terra. Terravermelha, árida e se encontram esfolados, ardendo de tantosubir e descer, aquela estrada que de onde esta avista ocruzeiro, a ponta do morro e algumas casas. Urubus voam nocéu e moradores do lugar como ele desce e sobe a todo omomento, como formigueiro ou procissão de desvalidosvindos do lixão onde a maior parte retira o sustento. Ali se sentou numa sombra bendita, um pequeno cajueiroselvagem, “aqui pego uma fresca”, pensou, assim aguentavaa descida que aí dizem, todos os santos ajudam, pegou umpapelão, dobrou-o e sentou-se sobre, “assim melhor fica”,estica as canelas, finas e olha em volta. Observa o lixão ardendo. O vento sopra ao contráriotrazendo a fumaça. O cheiro de carniça dava-lhe asco,vontade de vomitar. Tinha esperança de um dia sair dali,num golpe de sorte ou do destino nunca se sabe, a verdade éarredia, e isso não era vida, a que vivia. Lembrou-se damulher Antonieta e franziu o cenho. Foi numa manhã dejaneiro, lembra bem, pois chovia e as máquinas já cavoucavaa terra. -Zé... Você sabe que Deus escreve certo por linhastortas, não sabe? -Sim mulher. É o que dizem... -Não! Não! Quero saber da sua fé.
  4. 4. Isso foi bem cedo, quando o primeiro galo cantou e Zédas candeias bem viu que nem luzes no céu havia, somente aescuridão, o cheiro do café coado e uma brisa, balançava asfolhas da goiabeira no quintal. -Sim? -De coração? Havia sons nos outros quintais, uma criança chorava,a sirene da fábrica tocou três vezes, o dia clareava. -De coração.Antonieta continuou falando como uma cantilena. -Eu sei muito bem de nossas dificuldades. Mas foi semquerer. Antonieta mirou a lua, ainda não desaparecera. Jogoumais água no coador, silenciou-se. Apareceram-lhe duaslágrimas no canto de cada olho, hesitaram em sair, masquando baixou a face para falar, caíram e se perderam nochão de terra batida. -Acho que estou grávida foi dizendo isso e caindo devez no choro. Zé das candeias coçou a cabeça, espantado. Olhou ovelho relógio pendurado na parede, o ponteiro dos segundosbatia ao ritmo de seu coração. Olhou o galinheiro no fundo.Um galo velho montou na única galinha, estrebuchou edesceu sacolejando as penas esticou o gogó e cantou. -Mas como foi acontecer isso mulher! Lembra-se daultima vez que você perdeu o bebê e para não mais acontecer,a Filomena, enfermeira do posto nos ensinou, lembra? Faloubem explicada, Dizia assim: “ Teve vontade, introduzam esteplástico no membro duro, invenção das melhores, imitava nodedo a camisinha, depois de feito isso, podem meter semnenhum embaraço, disse isso com um sorriso ridículo nos
  5. 5. lábios que você própria não gostou e ainda comentou: -mulher sem pudor, falou em casa.” - E que entre quatroparedes o casal não deve ter vergonha, e sim muita malícia esendo assim a vida ficava bem melhor usufruindo de todosos prazeres não obstante a pobreza. Acrescentou ainda: Étudo que o pobre ainda pode fazer. Por fim disse sorrindo: -Aproveitem enquanto podem! -Já falei com você... Que é só terminarem o condomínioque constroem ali, que me emprego na casa de alguma donae se tudo correr bem... Teve receio de terminar a frase. Olhouas maquinas pela janela, monstros que acordavam. Sorveu o café preto jogando a borra que restou notronco da bananeira. Completou: -E o que Deus dá só Ele toma. Antonieta colocou do avesso o coador, encheu duasxícaras, colocou sobre a mesinha do canto e se postou noumbral, olhando as máquinas gemerem. Pareciam bichos nocio. De soslaio via Zé das candeias remexer as mãos, istofazia quando estava nervoso, o ressoar das máquinascortando a terra, virou-se de costas, Zé das candeias notouestá mais magra, o vestido puído sobrava nas ancas, canelasfinas e arqueadas, de relance viu um menino pular dobarranco, - que perigo essas crianças sem pais, pensou. Zédas candeias pegou seu café sobre a mesa, - ela não meofereceu como todos os dias, talvez esquecesse, e tomou deum gole, acocorou-se perto do banquinho, começou fazerum cigarro de palha olhando as formigas em filas. -Criança dá muito trabalho, Antonieta, preocupaçãoaté demais.
  6. 6. Cortou a palha, espalhou o fumo na mão. Um galocantou, cachorros latiram, ele levantou o pescoço para ver oque era. Um urubu pousado bem em cima do galinheiro.Levantou-se com uma pedra na mão. -Xô, bicho nojento! Raça ruim, demônio de asa. Soltavaà ira que sentia. Cada dia eles se aproximam mais. A voz saíarouca, vinda do fundo, mas a mente não detinha, águasbuliçosas. Enquanto pitava pensava consigo: pobre não tem essedireito não, veja só, colocar mais um sofredor no mundo.Soltava a fumaça cheirosa, que me ia até a cozinhaespezinhar meu nariz. Calculava escrevinhando no chão comum graveto, quantos litros de leite seriam necessários paramanter uma criança bem alimentada depois do desmame. Noprimeiro ano sabia a amamentação era importante e cansoude ver no sertão, mulheres esqueléticas sugadas até a últimagota. “Antonieta como está, só osso, não ia aguentar”. Levanta o boné para coçar a cabeça, lembrou-se davida sofrida da infância balançou a cabeça e ficou olhandouma formiga que agora passeia pelo suor de sua perna, descepela planta do pé fazendo cócegas e deliberado, esmaga-acom a ponta do dedão. Molhou o cigarro nos lábio e reacendera com umabaforada. A fumaça em volta, o cheiro do fumo, os olhosarderam e umedeceram talvez por alguma lembrança triste,de repente soltara a frase que demorou em sair: -Tem jeito sim Antonieta! Só não tem jeito para amorte.
  7. 7. Antonieta virou-se assustada viu os seus olhos escuros,rugas na testa macilenta, gotas de suor na fronte a bocaentreaberta ainda no sibilar do final da frase. Parecia um cãodanado, na lua cheia. Lembrou-se da ultima vez quando consentiu tamanhocrime, tirar a vida de um inocente que não pediu para nascer,e soubera mais tarde, era um menino lindo, sadio e semdefeitos como sonham as mães, Zé das candeias sibilou maisalguma coisa, “Que a negra Adelaide, a parteira do morro,daria um jeito como sempre deu. É só querer. Ou não sabesque todos os anjinhos que desceram aqui do morro e queoxalá subiram aos céus, não lhe sujaram as mãos?”Antonieta para não ouvir as últimas palavras que açoitariamseu coração, apertou a válvula da panela soltando numchiado toda pressão. Colocou-a embaixo da torneira e soltouum Palavrão. Zé das candeias sem perceber continuou: -Hoje mesmo, quando separava o lixo ali, -apontaracom o dedo um canto da cerca -passou um, num caixãobranquinho. Os pais choravam talvez fingindo, como numteatro, numa cena qualquer, mas no fundo sabiam era menosuma boca prá comer, menos um fruto podre que poria aperder outros tantos, já fora o tempo que as pedras viravampães, tempos de milagres. As mãos que dá, também tiram.Antonieta ficara em silêncio. Entrara a lavar as xícaras. Continuou a dizer que o que não podia era fazer filhos paraencherem as prisões, para ficarem na tutela do estado, pois amaioria que nasce aqui, sem oportunidades, cai no crime,nas drogas ou bandidagens. E terminava dizendo que eramais um para sofrer e que não podiam de jeito nenhum teresse bendito filho. Antonieta batera as panelas e Zé das candeias sabiaque ela estava contrariada. Não tinha coragem pensou. “Masnascer e viver sofrendo com fome, falta de tudo não estava
  8. 8. certo. Duvido que Deus queira isso para seus filhos. Tudovem do homem. O egoísmo e a ganância desenfreada são oscausadores de todo o mal. O inferno é aqui mesmo.” Tinha um pensamento simples. Se ele bem cedo,subisse ao lixão e pegasse mais do que precisasse para viver,outros não teriam o que comer. E nessas ocasiões sabia, nãoadiantava olhar para cima, para o céu nessas horas deaflição. A não ser para saber do clima, se ia chover ou ver osurubus ou como agora via várias pipas coloridas planando. Entrega-lhe um copo d água. Antonieta sugou-asôfrega e trêmula até o fim. O olhar de Zé das candeias erapara fora, para o morro recortado pelas máquinas, paras aspipas para o mundo. Fica observando perdido em pensamento. Ver o ventovibrar no plástico e envergar a vareta. Uma passa bempróxima como uma vela de barco cheia de vento. Levanta-se,bate os fundilhos da calça, o capim seco desgruda, observaem volta, quanto tempo se passou pergunta-se, o sol alto,amarelo, suarento. Ainda tivera alguns pensamentos soltos,como aquela pipa azul, pensava se fosse menino será meucompanheiro, de folguedos, de bola na pelada no campinhoda caixa d’água. Banhar-se-iam juntos, prendendo o ar nospulmões como fazia em criança, ensinaria atirar comestilingue não o deixaria sozinho como o filho da velhaQuitéria tão magrinho, mas quando o acharam afogado,depois de horas desaparecido, encontraram-no tão inchado,desfeito, a cara gorda, que mal coubera no caixão. É sempre triste perder um filho, mesmo sabendo que amorte é inevitável, queremos que aconteça seguindo umaordem dita natural, uma escala, do mais velho para o maismoço, como se a vida tivesse dessas coisas, como nãohouvesse o infortúnio, a má sorte ou desdita de cada um.
  9. 9. -Caralho, essa pipa é maneira. Já fui bom nisso,suspirou. Uma pipa veio debicando ao encontro da outraquerendo briga. Levantou-se ficando na ponta dos pés.“Quando o filho crescesse ensinaria a arte de soltar pipa.”Avista o menino de longe. Observa a batalha como umgeneral. Grita: -Tem cerol? O menino do outro lado responde: - Do bom seu Zé, vidro de lâmpada moído. -Eles vão pensar que você esta fugindo veja. Estãoaproximando rápidos. Deixa vir. Isso... Isso. -Dá mais linha e deixa o vento pesar. -Já dei todo o carretel! -Isso! Agora segura e deixa subir. -Puxa como tá subindo! -Vão me pegar de lado, veja! -Espera! Agora a faça descer, rápido. Deixa cair deencontro à outra. Isso. Quanto tempo não sabe, ficou a pensar e quandoentrava em si, ficava apático e insensível à temperatura esons e dores como viajasse por mundos distantes. -Então agora dá corda quando ele vier pro seu ladodebica e deixa descer, assim, assim, bravo, agora o golpe demisericórdia, isso puxa pelo rabo. O menino sorriu. Depoisgrita: -Cortei! Cortei! Olhou o céu as horas passaram quase onze, sabiadescobrir olhando para o alto, sentia o movimento dos
  10. 10. ventos, dos pássaros, do sol, a cor o cheiro das coisas e sabiao dia que ia chover, de calor, de frio e até das estiagens. Por fim Zé das candeias ver quando os meninos descemcorrendo do topo do morro, pulando cipó, gritando, é minha éminha. Zé das candeias ri, desce o morro olhando para ochão, ainda olha o flamboyant ao longe, empurra aJanelinha que se abre para o puxado, a goiabeira cheia depássaros, o morro, o silencio, bem longe dos sons do passado. 2“Não foi de hoje , quando me ensinou, cortar a pipa que euconheci Zé das candeias”. Não. Vem de longe. Eu tinha oitoanos, mais ou menos. Ele dezessete. No tempo de alistar-seno exército. Bem antes de descobri-lo, quase mendigando,sempre rondando as feiras, vagando incerto pelas ruas dopovoado. As calças rasgadas e sujas a pele cheia de fuligens,sempre empurrando o carrinho com as candeias. Fora desdequando eu fugia com Zé banguela, para os banhos de rios.Algumas dessas vezes ele nadava conosco. Minha mãe nãosabia. Só Zé banguela e eu. Fazíamos a farra. Sempre tivemosmedo dele, era estranho, falava sozinho, às vezes ria tambémtalvez com seus fantasmas. Naquele tempo chegávamos àsmargens do rio, abandonávamos as roupas, éramos livrespensávamos. Sonhávamos mil coisas, “Eu dizia Zé banguela,um dia vou ser doutor.” Ele me imitava, mergulhando de umapedra e gritava: “Eu vou ser aviador de caça, para matar osalemães.” Já Zezinho três pernas, pois esse era seu apelidoantes, por ter o pênis avantajado, não contava seus sonhos.Era tempo das mudanças o ano era sessenta e quatro pós-golpe militar. Depois soube que ele queria ser guerrilheiro de
  11. 11. alguma organização, isso quando era contrariado, o sangueparecia esquentar nas veias, e impactava o coração. Depoisesfriava, e voltava à vida comum, mas havia uma sementeplantada faltava algo para germinar, um silêncio, uma coisainterna. Depois desses banhos, nos chamava para ouvirnuma vitrola, sabe-se lá onde arrumava, no seu quartinhode fundos, ele colocava para rodar, Caetano, Gil ou Chico, epedia silêncio e tentava nos mostrar que por trás das letras,nas entrelinhas dizia, prestem atenção nessas passagens,recados ocultos de revolução. Para mim eram melosas e nadamais. Ele falava que em um conto ou romance, o maisimportante não era o enredo, nem os personagens e sim asmensagens que deveríamos encontrar nas entrelinhas emuitas vezes oculta que os bons autores as escondiam.Contava a história de cada um no exílio, longe da terra e dapátria, viraram meus heróis também. Mas naquela épocanão passava de sonhos distantes, pois o que me interessavarealmente eram as brincadeiras de pião, estilingues, os rios,açudes e a noite o que inflamava embaixo das cobertas, erameu pênis, e o pegava e manipulava devagar pensando emminhas musas, geralmente as mocinhas de filmesamericanos. Nesse tempo ele fazia-me mil conjecturas, deliberdade, de luta... Pensava que todo o jovem teria que serrevolucionário, tentar mudar o mundo, nem que fosse a custada própria vida. Eu ouvia o final das canções e na cama anoite assoviava relaxado, virava-me para o lado e dormia. Num dia, de manhã ensolarada, depois de uma noitechuvosa. Combinamos eu e Zé banguela ir caçar lá prasbandas do açude. Fomos chamar Zé três pernas, masencontramos a porta fechada. Tinha saído bem cedo falaram.Preparamos os estilingues, as melhores pedras, o embornal.Passamos pelo curral, Mané branco tirava o leite, quandofechamos a porteira ele chamava “Paraíba” à vaca malhada. Obezerro esfomeado cabeceava as tetas da vaca. Mané brancodeixou-o mamar um pouco, é para limpar o leite, vi isso justoquando eu trepava na porteira. Zé banguela me esperava já
  12. 12. do outro lado, embaixo do juazeiro. Ouvimos chocalhos bemlonge nas pedras. As cabras do falecido Valdevino. Nocórrego, onde às vezes pescávamos lambaris, íamos passardireto, juro, paramos não foi por malícia não, mas vinha lá dofundo, entre as ramas de melão de são Caetano uns gemidosestranhos. Caímos de cócoras em silêncio. Seriam as filhasdo falecido? Pensamos juntos. Isso porque vi o sorriso nacara do Zé banguela. Com a falta de dente a gengivavermelha. O dedo nos lábios pedia silêncio. Fomosengatinhando. Se elas, seria muita felicidade. Já a havíamosvistos noutra ocasião tomando banho e eram tão meninas epuras, os seios branquinhos, branquinhos que dava umavontade grande de mordê-los e aquela moitinha de cabelospretos e ralos, as mãos longas ensaboando as partes.Quando descemos as pedras, ficamos mudos. Zé três pernassegurava o rabo de uma mula, e a terceira perna tava todinhodentro dela. Soltava gemidos estranhos. Saímos dalicorrendo envergonhados. Longe sentamos numa pedra erimos até doer à barriga. De noite, acariciando-me, embaladopelas canções de amores impossíveis gozei. Um líquidoviscoso sujou todo o meu calção. No outro dia falei para Zétrês pernas no que ele me disse sorrindo: - É esperma seubesta. Desse dia em diante fiquei com muito dó do Zé.Pensava comigo: Devia ser muito solitário para fazer umnegócio daqueles. Tempo depois sumiu, e quando voltou erachamado Zé das candeias já não ouvia tais músicas, elembrava pouco de mim. Sempre o vejo no morro, olhando ovazio, as pipas ou o sol caindo, única coisa bonita nesselugar. 3
  13. 13. No outro dia Zé das candeias acordou bem cedo disposto arecolher a maior quantidade possível de coisas. Obtermaiores lucros. Olhou para trás e viu as chaminés soltandofumaça na maioria dos barracos. Só o da velha Quitéria não,agora sozinha no mundo, perdida. As máquinas já engoliama terra, empurrando para os lados, e os moleques formavamuma pelada no platô. Avistou as telhas de zinco do barraco,encoberto pela goiabeira. O cruzeiro ficara para trás, naponta da cruz dormia um urubu e riu. Persignou-se. Deusme livre, do mal. Alguma carniça fedia, o interesse movemontanhas, sabia todas àquelas máquinas cortando o topodo morro, construirão mansões, visam somente o lucro.Antonieta é trabalhadeira, dava graças a Deus por lhes dásaúde e isso nos basta, tudo o que temos foi conseguido comnosso suor, e será tudo como Deus quiser. Atravessou o esgoto a céu aberto, na encosta, ouviu otilintar das panelas, ao longe, Antonieta dera para cantar, eolhou atrás, viu o lixão ao longe, fumegando, brilhava aosol, prata, parecia um monstro vivo, cheio de odores fétidos,revirado constantemente por crianças e urubus, topou numapedra, porcaria de vida, empurrou o carrinho com mais força,abriu a cancela, colocada ali para não invadirem. Animais ecrianças se misturavam numa agonia de medo e esperança, acaça de algum achado, despejou o conteúdo do carrinho nochão para reciclar, papéis de um lado, plásticos doutro,metais aqui, e passou na mente a frase que se esgueiravadesde o alvorecer, “Estou grávida!”.Do topo via o centro da cidade, a torre da igreja, imponente, orelógio marcava dez horas, além o bairro dos ricos, outrareciclagem, pensou; eles são metais preciosos, nós, apenasrefugos, sobreviventes das migalhas, pegou o crucifixo que odeixou azebre no pescoço, olhou pros céus com fé, azul, riuda ideia, olhou a pipa bem alta, lembrou-se do menino, seusorriso, livre, cheio de sonhos, sonhos irrecuperáveis.
  14. 14. Enquanto separava o lixo escarafunchava as ideias, dizia:“ Tempo bom, a infância, tão longe, meandros do tempo.”Lembrou-se quando um dia saiu para o quintal escavou aterra e sentiu a umidade brotando nos seus dedos macios. Aterra é mãe e mulher, semelhança que mais tarde sentiranas carnes, tenras e úmidas, o cheiro salso. Naquele dia, lembrança quase apagada, a vizinha,chegou para ele e dissera: “Vem!” E cantou uma canção deamor como as sereias de Ulisses. Não conseguiu sedesvencilhar ou não queria. Não se amarrou como o herói. Ela puxou-o pela mão. Morna e suada, guiou-o comoa um cego, levou-o ao quintal entre plantas e roseiras. Umvestidinho com listras vermelhas. Atrás de um jasmim obeijou. Sentiu as carnes vibrarem sob o tecido, quase perderao fôlego, e sentiu na ponta dos dedos bem no meio das pernasdela, a agonia que ela sentia. Uma agonia de estranhostoques, uma maciez, rugosidades, fendas e formas diversas,secos e molhados, furos e continuidade, aspereza esuavidade, calor e frio, tremor e brandura. Depois umsentimento de liberdade e de arrependimento, de ternura esolidão, sentimentos tão diversos e semelhantes, umaestranheza, um amortecimento como quando no mato,achava ninho de coruja nas tocas. Assustado contraiu a mãoe tentou fugir sem conseguir, outras vezes deixou-se guiarpor caminhos incertos, e ela abraçou-o ávida. Depois desegundos ou horas, o tempo é efêmero, estremeceuarticulando um ai. Beijou-o muitas vezes, como fosse suadona, era seu escravo, e o dominou. Dizia, faz isso ele fazia,faz aquilo, e o foi levando como a correnteza de um rio, elemenino ela mulher feita, tinha cheiro no sovaco, um aromabom de mulher no cio. Naquele dia levou o perfume consigo,“era para não esquecer”, dissera depois, numa roda demeninos. E dormiu aquela noite sentindo nos dedos aqueleodor de carne indecifrável, como olhar um abismo semvislumbrar o fundo.
  15. 15. Tudo isso se passou em sua mente como num filmemudo, filmes de Charles Chaplin tão distante e tão perto, eviu os mesmos olhos tristes de estrela cadente. Haverátristeza maior? Dizia: “Já a perdoei e a esqueci por aquelesatos, mas seus olhos, jamais! Nem em mil anos”. Um urubu passou rente. Sai bicho, gritou. Na voltapassou na vendinha de seu Severino, pagou a conta atrasadacomo sempre. Pediu uma cana e sentou num canto. Não erahomem de muita conversa. Tomou-a de uma talagada só.Severino puxou assunto, - dizem por aí que a comunidade vaimelhorar, até os lotes já subiram de preço. Ele confirmoucom um aceno de cabeça. Era seu jeito, quando preocupadose fechava como uma concha. Lembrou-se de Antonieta abarriga crescendo, ficando mais ranzinza deu para reclamar,disse hoje de manhã, o dinheiro não vai sobrar quase nada, acachaça que você tá tomando, Deus me livre, ta tirando nossoleite. Ele retrucou, - Esse mês acha que vai sobrar, esses fiosde cobre vão render bem, pagam bastante por eles e pelaslatinhas. Não devia se preocupar com isso, era coisa dehomem, e com esse bairro que vão levantar aí tudo vaimelhorar se Deus quiser e aí fazemos um puxadinho, dooutro lado, sem precisar cortar a goiabeira. Ela eu não corto,já decidi, o bem-te-vi e os sanhaçus cantarão onde? Comoficaria o final de tarde, o por do sol sem o canto deles. -Como vai à construção? Puxou assunto comSeverino o dono do bar. Severino, passando um pano velhono balcão respondeu: -De vento em popa, Zé, dizem que mesmo antes deficar pronto vão transferir vários moradores. -É mesmo! Como deve ser isso? -Ah! Não entendo essas coisas, tem gente que comprana planta essas coisas. -Estranho eu não vi construir nenhuma casa ainda, e jámuraram. Um muro alto. Quer o de sempre?
  16. 16. -Uma pinga e um troço desse aí. Era um pé de galinhaboiando em gordura, - É... Rico gosta de segurança. Pensouum pouco e filosofou: - São três classes que temos agora: Osencarcerados, protegidos pelo estado, os milionáriosprotegidos pelas geringonças que o dinheiro pode comprar e aclasse consumidora. -Lá vem você com esse papo atravessado. Papocomunista. O muro caiu. Zé das candeias pestanejou, coçou o escroto olhando ovazio. Severino sem dizer nada, esperando terminar o ato.Terminou de se coçar não respondeu de imediato, roeu o péde galinha que Severino havia entregado em um guardanapo,espantou um mosquito que teimava em pousar em seu nariz,tirou o chapéu e bateu no ar. Viu-o subir revoando e pousarem cima da sua cabeça, num mata mosca quarado. Todosestavam presos à fita. Este último ficou colado na fita, osolhinhos brancos inertes os fitando. Ainda se mexiam. -Caiu... Caiu... Mas outros se levantarão. Para mimexistem só duas classes. Os que estão dentro domuro(mandam) e os que estão fora(Obedecem), o resto ébalela. Severino escutou calado, com a língua tentava tiraralgo que impregnara sua dentadura. Impaciente pegou-a comas mãos, e tirou o que o atormentava, - uma folha de couveesfregando-o em sua calça. Voltou-a para a boca e falou: -Não acredito que toda a culpa recaia no capitalismo. Poracaso o seu berço não é os Estados unidos da América? E lánão tem mendigo não. Ou melhor. Quase não. -Isso é o que você pensa nessa cabeça chata. Parasustentar suas ganâncias, inventam doenças, insinuammedos, viciam os jovens com drogas e jogos eletrônicos,
  17. 17. fazem a guerra, e o que lhes escapam, derrubam governos,deprime países e seus pobres, escondem debaixo dos tapetes. Nisso um moleque entra ofegante. Do nariz desse catarropegajoso. Grita: -Zé das candeias me desculpa, mas nasceu sua filha!Agorinha mesmo. Zé das candeias fez menção de falar algo, balançou acabeça negativamente, não valia a pena disse: “pendura essa”e desceu a ladeira, enxergou as telhas de zinco do barraco,encoberto pela goiabeira. “Talvez o bem-te-vi estivessecantando agora”. *** Antonieta depois de adiantar o almoço, uma sopa ralade feijão, viu Zé das candeias sair, direto para o bar pensou,deitou-se na rede e vieram-lhe os sonhos. Estava num jardimtodo florido e uma menina corria pelo gramado. Reconheceusua filha pelo sorriso. Corria a seu encontro de braçosabertos. Via a cena de vários ângulos. De cima, de longe doispontos se encontrando. De lado o perfil, seus cabelosdesgrenhados, os braços como cego no escuro, á frenteesperando o contato. De baixo, uns olhos tristes,ensombrados, de medo. Por quê? As pernas sem forças. Noencontro inusitado de mãe e filha. Súbito surge um urubu.Daqueles enormes que já viu de criação arrancar os olhos.Voa rasante. Vai de encontro à filha? Ai meu Deus suspira.As garras suspende a filha pelos ombros. Antonieta quaseperde o fôlego, gritando, solta infeliz, solta minha filhinha osolhos brilhavam com ódio como ao acender de mil luzes.Luta inútil. Não conseguia alcançar por mais que tentava. Nabeira do abismo caiu. Caindo via a ave agourenta com afilha nas garras, se distanciando rapidamente. Continuou
  18. 18. caindo no abismo, interminável e desconhecido. E a aveagourenta subiu com a filha nas garras, se distanciandorapidamente. Enquanto isso ela caia. As rochas escarpadaspassavam. O vestido velho foi para a cabeça devido àvelocidade. Os cabelos entravam nos olhos. Continuou caindono abismo, interminável ao desconhecido.Acordou soluçando. O coração pequeno no peito. Quandoparou de pensar no sonho, já era noite, nem vira quando Zéchegou. Quis entender tudo, construindo cada passo. Zévendo que adormecera no banquinho, levou-a para a camaem silêncio. Agora via que era noite alta e ficou pensando nosonho, aliviada. Não passara de um pesadelo, passou a mãopela barriga, sim estava ali, sentia-o palpitar dentro dela.Com certeza ele bebera, sentiu o cheiro no ar. Não tem jeito.Levantou-se pegou água na jarra, Sonho mais besta meuDeus, onde já se viu, deve ser as conversas atravessadas doZé. Olhou pela janela o negrume da noite, nenhuma luzinhapara lhe acudir nesse momento crucial em que os sonhosbons, teimam em não acontecer. “Ô homem idiota, todossabem que onde comem dois comem três.”Suplicou algo, sabia que mesmo debaixo da escuridãoexistiam as estrelas, a mesma que um dia avisara aos reis aboa nova. -“Virá com saúde se Deus quiser” - e essa mesma,oxalá estivesse no céu compreenderia toda sua aflição.Porém a ciência nos diz o que há no céu hoje, é apenasimagem do passado, inclusive as do deserto de temposmemoráveis, que brilharam em dezembro, há muito morrera,e muitas morrem e morrerão a todos os dias, chova ou façasol ignorando os sonhos. Assim viu o sol nascer, as máquinas se movimentarem,os urubus subirem aos céus, os galos cantarem, as chaminés
  19. 19. arderem, e o cheiro do café outrora tão bom hoje lhe davaenjoo. 4Zé das candeias não saiu para trabalhar nessa quinta feira.“O que você tem Zé?” Alem da febre, um calor diferente oqueimava por dentro algo que não se cura com remédios. Enquanto tremia debaixo das cobertas, Antonieta trouxera-lhe um chá quente de erva cidreira, - é bom para o sanguedissera, atravessou o esgoto a céu aberto que saia do quintale corria ribanceira abaixo, onde porcos e galinhaschapinhavam e moleques soltavam barquinhos de papel.Ouviu Antonieta cantar. Pela janela viu o cruzeiro, o lixãofumegando, as máquinas.E foi com esse som e cheiros que cochilou e sonhou.Transformara-se numa grande ave preta. Não estranharacomo Sancho. Achara até normal, os olhos de rapina, asgarras afiadas. Mediu-se no espelho. Não era o corvo. Não.Viu obscuro. Pois os pesadelos são sempre cheio de névoas.Um urubu rei. E como no poema, ele recitava versos de “Ocorvo” de Edgar Alan Poe. Ouvia o farfalhar das asas e algoassim:“Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxoMe incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!”E ao recitar tão belos versos, comia um cérebro. Seria dofilho? Como definir tamanha dor?Depois de saciar-se, bicou o umbigo, e os intestinos de tãopequena criança derramaram-se sobre a mesa. Sem dóengolia. Continuou recitando e engolindo:
  20. 20. “A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhouiguais.Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.”Os olhos eram lúgubres. Esperneou-se na cama. Estavamolhado de suor. Ao acordar perguntou-se: Eu o corvo? Não.Não desejo a morte de ninguém. Ficou matutando a tardeinteira o significado de tal sonho. Não chegou a conclusãoalguma. Ou para amenizar um pouco a culpa depensamentos desprezíveis, culpou suas leituras, era chegadoa historias sórdidas, lia Fiódor Dostoievski, Kafka e muitosoutros. Aprendera a ler sozinho, orgulhava-se disso. Aindaescutou Antonieta lhe falar que teve febre alta e que variandonão falava coisa com coisa. Ouviu ainda a descarga dobanheiro imaginou o esgoto se enchendo de excrementos,descer a ribanceira em cascatas. À tarde caiu, o sol debruçou-se na encosta, a fumaçamudava de direção a cada instante, olhou para trás, viu olixão ao longe, fumegando. Levantou-se e foi para o quintal.Encontrou Antonieta vinda do banheiro se se esgueirou paranão se trombarem, e a ouviu dizer, que amanhã iria aomédico. Ao pular o esgoto topou numa pedra, (Tantas noscaminhos), porcaria de vida, empurrou o carrinho para osfundos, abriu a cancela, despejou tudo no chão e começou areciclar. *** Logo que chegou Antonieta, viu que não seria fácil seudia. Teria que transpor todo aquele amontoado de gente,pareciam ter vindo de uma guerra, tanto eram os doentes,por ali. De tudo tinha um pouco. Tanto os sentados como os
  21. 21. deitados, recebiam atendimento, ali mesmo. Era tudo nabase do improviso. Um mulato que tinha o tórax esmagadotomava o soro deitado e um segundo segurava o vidro noalto. Mulheres, velhos, meninos e crianças jogados peloscantos como coisas esquecidas. Uns tinham os olhosenfaixados, membros quebrados, dilacerados, gemidos,moribundos em cadeiras de rodas, uma senhora segurava ofilho no colo, a moleira abaulada, os olhos em órbita, no geralmulheres grávidas esperando a boa hora, do descanso denove meses seguidos, dócil esperando o filho. Antonietaaturdida chegou-se para a atendente, um telefone na mãodava ordens fazia a triagem, disse “minha senhora...” nãochegou a terminar a frase, a atendente a cara enorme, carnesrígidas de quem nunca esboça algum sentimento, esticou osbeiços numa menção que esperasse na fila por obséquio,como todos que estavam ali pelos cantos. A fila estavadesconexa. Gente deitado, em pé ou carregados. Uma vozinhamiúda acordou-a: -Não se preocupe, é todo dia assim. Era uma criançade olhos lindos, cor de mel. Tinha algo de triste no seu olhar.Continuou: - Já me acostumei. Passou a mão sobre a suacabeça careca. Perguntou: -O que você faz aqui, tão pequeno e lindo, meu filho? -Faço quimioterapia. -E o que tem aí nessa caixa? Querendo mudar deassunto. -Meus brinquedos. -E porque não os tira? -Estão tristes. -Qual o motivo? -Por mim.
  22. 22. -Tira-os para passear, que eles ficarão alegres. -Já falei com eles, mil vezes que não ligassem paramim, pois eu tenho minha vida eles as deles. -E o que eles falam? -Não falam. Ficam assim como estão. -E como eles estão? -Amuados. -Diga-lhes que você é forte e vai sair dessa. -Já falei. É só quando me veem chorar que ficamassim. Mas vou levando, o pior são as náuseas, as tonturas...O resto suporta bem. Até a tristeza deles. E você o que tem? -Estou nos dias de ganhar meu nenê. Espero ter umacriança linda como você. - Que ele tenha melhor sorte do que eu! Desejou omenino sorrindo. Antonieta engoliu um soluço. A atendente chamou o menino. Ele foi com passosindecisos, miúdo. Ela seguiu-o em pensamento. Viu-oclaramente sentar na cama de lençóis brancos, o médicoperguntar coisas, ele deitar, via pelos seus olhos o tetobranco, tudo limpo, nenhuma aranha viva, os corredoresfrios, as mãos frias. Lembrou-se a primeira vez que foi numhospital. Foi visitar o pai que sofrera um derrame cerebral.Vêm na lembrança, corredores frios, portas entreabertasmostrando os sofrimentos, pessoas por um fio, crianças noberçário, uns chegando outros partindo. Entra no quarto dopai. Lembra quando o via sempre ao pé do velho rádioMullard, valvulado, sentado na cadeira de balanço, sempreatento à hora do Brasil, aquela música esfuziante de VillaLobos, notícias urgentes, a sombra dele enorme na parede.Era como olhar uma montanha de longe, ansiosa por
  23. 23. descobrir seus segredos. Entra no quarto. A respiraçãoentrecortada no aparelho. Bip... Bip...Bip... Num ritmo lento.A mãe na cabeceira. Cumprimentou-a com um aceno. Tudoparado, os movimentos, os sentimentos represados nagarganta. A mãe falara sussurrada: -Fale qualquer coisa, talvez ele reconheça sua voz. Elea admira muito.Os olhos umedeceram. Na mãe ela viu as rugas, o cabelobrancos, recém-pintados, vaidosa, a voz já fraca.Acrescentou com um sorriso: - Hoje de manhã ele apertou minha mão. Não queriasoltar.Antonieta tentou falar algo, não saiu. –Segure então em sua mão, disse-lhe a mãe. Fora como tocar numa árvore de casca grossa, cheia decalos. A boca cheia de tubos estava sem a prótese, às pintasescureceram-se mais, o rosto um desassossego, daquelehomem enérgico. Nas peças que fazia no torno, tão perfeitas,tão delicadas. “O que ele faz é perfeito, diziam” Quase ouviudizer o que sempre ouviu dele: “O homem vale o que tem”.Lembra-se dele como uma pessoa enérgica, mas cheia deamor, inibido pelos sentimentos.A máquina ressoava os bips. Inflava o ar nos pulmões. -Senhora! Chegou a sua vez. Acorda dos pensamentos.O médico a recebe com um bom dia. Apalpa-a, ausculta-a emede-a. Escreve rápido num papel branco, ela pensa nomenino, o que seria dele, ora para todas as crianças domundo. Diz subitamente: -O que será dele doutor? -De quem?
  24. 24. -Da criança. O médico tirando o estetoscópio. -Nasce por esses dias. -Não o meu doutor! O dos olhos tristes. -Tem um mês de vida. ***Um homem, espadaúdo, subia a estradinha que dava para omorro. Olhou em volta, “Grandes possibilidades de se dá bemaqui.” No primeiro serviço que arrumou conseguiu comprarum lote. Construiu para si um barraco destes que vemospelas marginais de todas as cidades de médio porte,ambicionando para o futuro dias melhores. Logo perdera oemprego e começou viver na clandestinidade. Os temposeram outros. Devia ser culpa de meus pecados dizia para si. Fora sempre uma pessoa temente a Deus isso era o quedizia, verdade era que nunca usou os atalhos, preferia oscaminhos já traçados. Teimoso, dizia-se de si que a infâncianão fora fácil, que fizera muitas burradas na vida que Deus operdoar-se, pois queria melhorar a todo custo. E o que fizerapara trás era passado no íntimo sentia o que era realmente,foi quando conheceu os heterônimos, fora como tomar umchoque num fio desencapado, e desde aquele dia, ficara comose olhasse o mundo e as coisas como as transpassando,aquele olhar que somente quem os tem é: os poetas e osloucos.Depois conheceu Antonieta e se apaixonou. Talvez porque elatinha o olhar meio perdido. Foi numa dessas tragédias que anatureza prega na gente. Uma encosta caiu no período de
  25. 25. chuva, destruindo toda uma rua. Gente houve que perderatudo. Antonieta era uma delas. Foi morar com outros,debaixo de um viaduto. O que chamou a atenção dele foiquando tudo aconteceu, toda aquela destruição, mulherestinham perdido maridos, homens, filhos todos choravam e elasuja de lama, os cabelos destrambelhados, os ajudavasolícita, uma jornalista sensacionalista perguntara de ondeela retirava forças para ajudar os outros, tinha havidomortes. Ela, Antonieta, olhara para a câmera e falarabaixinho: - Não perdi nada que o valha somente um pequenocaderno de poemas. E caíra no choro. Isto lhe marcoueternamente. Como uma mulher vivendo em tão precárioestado conseguia ler poemas e principalmente de amor? Erainacreditável. 5Zé das candeias se via num caco de espelho, pendurado nagoiabeira, onde fazia de vez em quando a barba, e pensavaque tudo ainda era um sonho, simplesmente um sonho, quelogo viria a cabo cedo ou tarde, pois sabia que a roda da vidanão parava tudo é movimento oscilatório como os pêndulosde um relógio. Ansioso e medo pelo novo talvez porque nuncaousara andar sem saber onde punha os pés.“Acho que somos gados soltos pelo mundo sem destino.”Enquanto os beiços assoviava uma cantiga vinda doscafundós do tempo. Depois lavou o rosto e puxou oengradado que fazia a vez de banco, entornou no prato umcaldo fino de feijão, misturou a farinha de mandioca, fazendobolinhos com a mão e foi engolindo em silêncio. Lembrou-sede Antonieta quando começou os enjoos. “Parece que foiontem quando ela lhe disse chorando estou grávida,
  26. 26. assustado olhou-a de soslaio, viu a barriga sequinha sinalnenhum de gravidez, ora deve estar em embrião, pensou.” -Você viu? -O que? -Tanto movimento hoje. La em cima o ronco dasmáquinas, parecia monstros. -Já sabem o que vão construir? -Os filhos da negra Adelaide passaram agora mesmo eeu os sondei. Ouviram homens falando, de papel na mão,riscando o chão e diziam que as alamedas começariamdaqui de baixo e ia até no pé de morro, e nesse pontoouviram bem, a numeração na esquerda era par, e o dadireita ímpar. Ainda falou que era assim sucessivo, para asfamílias não se perderem. Tive pensando mais cedo, vai serbom para todos nós, você pode trabalhar de jardineiro,registro na carteira... -O mesmo pensei de você...Antonieta levantou-se da mesa e jogou o resto de comida napia, - os enjoos. Estava pensando outro dia que seria melhorpara nós, largarmos o lixão, que essa vida que temos é umadesgraça, só comparada aos dos bichos e às vezes pior, Deusme perdoe.Zé das candeias se levantou, novamente no espelho, viu ascarnes flácidas, e os olhos fundos, deteriorando-o vivo, sembrilhos.“É... Estamos ficando velhos vem aí um filho, temos quepensar em seu futuro. Sorriu e viu os poucos dentes quetinha estavam amarelos, a língua saburrosa e as gengivasinchadas. Vincos fundos sulcava o rosto. “Os músculos,carnes, vísceras e ossos formam o corpo, - carcaça que maiscedo ou mais tarde os vermes comerão e restará o espírito, -Dizia sua madrinha quando ele triste perguntava: Por que
  27. 27. tinha nascido”. Todos tem uma missão na terra.” “Qual seriaa sua?”.Antonieta desde quando menina fora uma arteira. Trabalhodera para nascer, dissera a mãe. Nascera virada empurrandoo mundo com os pés. Andou com sete meses, e as pernasarqueadas davam-lhe um ar de pata. Desde garota tinhaloucura por passarinhos, ficava horas embaixo das juremas,dos juazeiros para ouvir seus cantos. Logo piava igual emimitá-los. Primeiro foi os bem te vis depois o canário da terra,o sabiá. “Mãe eu gosto tanto mais tanto queria todos paramim.” Assim é que se tornou exímia construtora de gaiolas. Andavasempre com canivete e palitos na mão. Esquentava um arameno fogo da candeia e furava para passar os palitos. Veio oprimeiro alçapão. Pegou um canário. Ficou embriagadaquando o sentiu na mão, trêmulo, coração aos pinotes.Encheu a parede de casa.Um belo dia quando lhe veio à primeira menstruação, faloucom a mãe, “O canto deles quando presos é tão triste, queme da melancolia.” Nessa mesma manhã soltou-os a todos.O trinca ferro pousou no angico ali perto Cantou: “bom diaseu Chico” olhou em volta com os olhinhos pequeninos evoou para longe. O pintassilgo pousou na borda da mata efez tiiii-tiiii-tiiii-tiii-tititititititititititititititi. Na vez do coleiro,ficou na cumeeira: tuí-tuí, zel-zel. Ela dissera: -Xô passarinho lindo, vai embora! A partir desse dia,gostava de ouvi-los cantando pelos matos soltos.Foi quando numa manhã daquelas depois de um temporaltudo é belo as plantas respiram a mata em sons de alegria,saíra, mas cedo para ouvi o galo de campina nos juazeiros.Ah! Canto bonito.Fora encontrada depois toda machucada sangrando. Nuncase soube da verdade. Uns falavam dos ciganos que semprepassavam por ali todos os anos. Outros dos vaqueiros que
  28. 28. voltavam das vaquejadas. Desde esse dia ela emudeceu.Ficou mais sisuda, tinha dez anos, uma criança, falaram.Maldade só. Como poderia, nem peito tinha lisa comomenino, maldade só. Depois vieram à seca, a maior e todospartiram, os pais morreram, ficara só no mundo. ***Zé das candeias sempre gostou do contato com a terra, os pésdescalços, sentindo a areia, o barro molhado, o bagaço dacana. Ruim era pisar em espinho de juá, atravessava a solado pé como dói, gostava de viver livre, defecar de cócoras nomato, o céu azulzinho e distante, longe da gente, longe detudo, desabrigado, feito bicho no pasto, sem dono, sem amor,no sofrimento diário. Muitas vezes pensava na morte e dizia,não quero morrer de morte matada, nem de doença ruim.Que seja amena, como o murchar de um galho, secando,perdendo o verde, o cheiro, cor, que seja devagar e sem dor,tomara que dormindo, é morte melhor; não a dos santos, poisnão mereço, com a vida que padeço, com os pecados quecarrego. Sonho teve e tem muitos, sonho.Conheci muitas mulheres antes de Antonieta, mulheres quesenti não eram para mim. Teve uma, que se chamavaLiberdade. Vestia um vestido todo listado de vermelho equando a mandei se despir vi a calcinha toda enfeitada,porra, cheios de laços e penduricalhos, tinha cinquentaestrelinhas num fundo azul. Tudo para chamar atenção e foitirando tudo sem nenhum rubor. Uma quenga logo pensei,pois mulher honesta se conhece pelas mãos porra, brilham aóleo de cozinha. Essa as unhas eram vermelhas, bem feitas,enorme, como garras. A xoxota tinha só uma tira de pelosbem rentes ao buraco. E aí não tive dó nem piedade dela.Quando enfiei a rola como gemia! Essas não me enganam,mulher honesta não geme, ou geme no ouvido, gemidosengolidos com o prazer, sem se olhar no espelho como essasdevassas. Mandei logo ir chupando minhas bolas. Caralho!Ela chupava com uma carinha de rata quando come queijo,
  29. 29. os olhinhos ficavam pequenos. Depois a coloquei de quatro eaquela bunda branquinha mandei ver. Dei umas tapas bemdado na bunda, bonita bunda, mas de vagabunda, ficouvermelhinha, gozei bem dentro aproveitei cada centímetrodaquela buceta. Enfiei o dedo no cu dela só para sentir ocalor. Já quando conheci Antonieta o negocio foi diferente. Elaentrou desconfiada no barraco, passou direto pela cama esentou-se aos pés de uma pilha de livros que nesse tempo eutinha. Mexeu em todos, tirou um, abriu numa página e leu:“Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver noUniverso...Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquerPorque eu sou do tamanho do que vejoE não do tamanho da minha altura...Nas cidades a vida é mais pequenaQue aqui na minha casa no cimo deste outeiro.Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe detodo o céu,Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossosolhos nos podem dar,E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.”Depois com uma vozinha pequena e triste completou:-Alberto Caeiro, e fechou o livro.Sentou-se sobre a mala de madeira onde guardava minhasroupas balançando as perninhas finas cheias de veias azuis.As unhas dos pés pintadas de branco, um laço rosaprendendo os cabelos, uns olhinhos saltitantes e escuroscobertos por cílios longos e arrebitados. Estava triste, poistinha perdido tudo e lhe ofereci meus livros, que anos e anosjuntei-os em minhas caminhadas. E transamos uma semanadepois ela lendo um poema para mim. Nesse dia resolvemosjuntar os panos, dividir nossa vida.
  30. 30. 6 Os últimos meses foram medonhos. Antonieta inchara tanto que parecia uma pipa. Aenorme barriga, sem jeito, deitar era difícil, andando depernas abertas, bufando com o peso, de vez em quandoacariciava a criança, o atrevido dava-lhe chutes avisando, enessas horas ela me mostrava, e eu achava muito estranho,parecia mesmo um saco de batatas, o desenho perfeito dospés, empurrando, encontrando ou procurando espaço, semimportar com as dores que causava. Desde a formação,somos uns egoístas, quando os espermatozoides emverdadeira maratona, correm deixando atrás os irmãos, tudopara entrar no óvulo e fechar a porta para os outros, e essaconcorrência se levará por toda uma vida ou mil vidas, sepreciso, para aplacar toda a ganância, verdadeiros sacos semfundos.O doutor me levou pela mão, as roupas brancas brilhavamao sol. “A criança nasceu, venha vê-lo, foi dizendo, - Deus quetudo sabe e manda a cruz para cada, com o peso quepodemos carregar, e o senhor é forte”. “Que palavras sem nexo, nenhum filho é cruz, cruz, Jesuscarregou para nos salvar, E maior jamais terá, diga-se depassagem, mesmo sendo ele o Filho. – Quero ver meu filho!”. O corredor de uma cor só; sem graça, branco, a luz fria,ambientes frios, cheiros repulsivos de medicamentos, pessoasandando silenciosos, doentes deitados olhares queixososparados em algum lugar fora daqui, às vezes em algumcampo, quando nos sentimos presos ou tristes é o campo quevem primeiro na mente, a relva verde, os pássaros as nuvensformando figuras a brisa, ah! A brisa como é bom senti-labater no rosto, “Essas coisas acontecem!”, “o rosto, sim orosto era isso que o doutor queria dizer, olhando-se bem se
  31. 31. parece com ambos.” - Defeito na formação disse, não vaiandar nem falar, a vida tem dessas coisas. Passou o braçosobre os meus ombros. Quando entrei no quarto vi Antonietadespenteada, o olhar perdido, quando me viu entrar engoliuseco, já tinha visto, me chamou no canto, pegou na minhamão forte, mais forte do que outras vezes e sussurrou, énossa filha apesar de tudo e quero respeito. Não se falou maisnisso. Ali naquele momento soube o que há muito pensava. Que omais importante em um ser é a alma, ou espírito. E aqueleali, veio naquela forma, me deu um leve sorriso, mostravaque as aparências enganam e, monstro não era e iria amá-lapelo resto da vida, Deus perdoa mais quando peguei aquelacoisa no meu colo, aquele corpo achatado, com doisprolongamentos de membros pareciam garras, a cabeçaenorme e mesmo assim sorria, mostrando as gengivasvermelhas e babadas, sou eu filha, estarei do seu ladosempre, para o que der e vier, enxugou as lágrimas quebrotavam do canto do olho.“É muita emoção falou o doutor, ela vai precisar muito devocês, muita compreensão e amor, tenha fé em Deus que épai”. “Obrigado doutor desculpe, pois é meu primeiro filho”.“Vou visitar outros pacientes, fique com Deus, meabraçando”.Antonieta nesse momento suspirou, talvez sonhando, tragaela para mamar, disse oferecendo o peito e a coisa sugou comforça, e ela fechou os olhos e cantou uma canção de ninarbem antiga que todas as mães cantam, e ouvi só o deglutir, eo sugar, sons inerentes a recém-nascidos.Saí exausto do hospital. Parecia que passei todo o dia acaminhar. Quando subia o morro alguns moleques mexeramcomigo e não dei importância, antes quando ouvia “Zé dascandeias”, assoviava alto, imitando o freio de um trem, vilatinhas e fui catando, pois agora éramos três, e a vida tavadifícil, o sapato apertava os pés, retirei-os, pendurei-os no
  32. 32. pescoço, uma figura interessante eu era, o saco nas costas, osapato no pescoço, um chapéu largo na cabeça, outrosfalavam eu acenava com a cabeça um perguntou que bicho temordeu nada não, minha filha nasceu, com saúde é o quepedimos amanhã todos vão saber, vão falar nos bares, naspraças e até nas igrejas, esse povo sabe falar e notícia ruimvai de avião, e foi dando um aperto aqui no meu coração, e aíparei no adro da igreja aproveitei e rezei o padre nosso, era oque sabia rezar, o que vou fazer, pedi força e paciência,lembrei-me de Jó, teria eu toda aquela fé, senti uma forçainabalável, espero que qualquer ventarola não me balancecomo as folhas de uma palmeira. 7A menina todo dia empurrou-na para o banho de sol. Era odever de Zé das candeias. Já não buliam com ele. Tristezasnão se podem enterrá-la simplesmente, pois logo as raízescrescem em mil feixes minúsculos e de tempos em temposbrotam como ervas daninhas. E o direito ao sol todos tem atéos prisioneiros. É vitamina para o corpo e todos os dias,deixavam-na na calçada e ela contente com a luz começou aestirar os membros que mal pareciam braços e sorririnocentemente para os transeuntes, e essas tentativas dealegria, pareciam mais gemidos. Consternados com o queviam passaram a jogar moedas no reservatório dedicado acolher suas excreções. Vanusa que significava esperança eraseu nome, escolhido entre mil pela madrinha de batismo,coitada, com o tilintar das moedas sorria, e balançava osmembros, como agradecendo e abria a bocarra, e as criançaspassavam ao largo. Quando o sol esquentou, àquela hora emvez de remédio se tornaria veneno, Zé das candeias subia e aempurrava para a sombra sem antes receber dela gemidos ecaretas que já se acostumara. O que tinha de melhor nohomem era a semelhança que diziam ter com Deus. Zé
  33. 33. brincava com isso, dizia era a imagem no espelho:Semelhantes e tão contrário. Um nobre o outro com tantossentimentos sombrios. Assim foi que Antonio Candeias, viu abacia repleta de moedas. Ofendido em seu orgulho, dissera,sempre trabalhei nunca precisei de esmolas, era pobre, masnenhum mendigo, que Deus o livre aceitar aquilo, empurroua porta que abriu num rangido, Antonieta acocorada emfrente à panela, o radio sobre o engradado tocava umamusica qualquer, deixou acabar para quebrar o silencio, poisquando Antonieta estava assim, não podia chama-la atenção,“Venha Vanusa, deita aqui puxou os papelões fez uma esteirae deitou-a, Antonieta fez uma graça como fazem paracrianças, alguma careta ou fala-se com voz fina e recebeu devolta movimentos de braços e pernas”. Os olhos fecharamcomo janelas e na penumbra agradeceu a Deus. Que caraessa homem, parece que viu alguma assombração! Pega doprato aí e almoça, deve ser fome. -Não, não é veja e empurrou a bacia. –Meu Deus quanto dinheiro! O que vai ser de nósagora. Zé das candeias comeu em silencio, o caldo ralo defeijão tomou um copo fundo de água, jogou o resto no troncoda goiabeira, depois um copo de café e acendeu o cigarro. Afumaça subiu pelo furo no teto, vai empestear a menina,Falou Antonieta, ele foi pra fora se sentou no banco, asmáquinas pararam para o almoço, só os urubus voavam emcírculos e alguns meninos gritavam pulando dos barrancos.Disse depois de pensar longamente: -Vamos cedo à igreja e doamos a igreja, deve teralguém precisando mais do que nós. Não precisamos disso,passamos aperto eu sei, mas nunca pensei ganhar dinheirodesse modo. Deitou-se no papelão e por distração foi contando asmoedas, centavos por centavos e viu que o arrecadado num
  34. 34. dia, dava toda uma semana por ele trabalhada. Uma aranhano teto tecia sua teia. Guardou num saco em cima da mesa. Como prometera no outro dia levou para a paróquia efoi recebido pelo padre com alegria. Pensou que seriaimprovável aceitar aquelas ofertas, tinha sangue nas veias, afamília não teve e nunca terá mendigos ou pedinches. Ahonestidade em primeiro lugar ou a esperança é a ultimaque morre e que aos humildes e pobres o reino dos céus.Depois para si, desconfiava que, tais filosofias foram criadaspara mantê-los quietos, pura mordaças que vinham dosséculos e séculos, mantidos em evidências, pelos queeternamente se mantinham no poder e para sempre como osreis e príncipes, os ditadores; e ao povo a canga, a miséria, oresto, como cães miseráveis. E em sua cabeça fervilhava ideias, vinham em formade triangulo, e em seus ápices a matéria, dinheiro e a base àganância. Outras vezes poliformes voavam círculos,pentágonos, e mil formas diferentes tendo às vezes como basea fome e a miséria. No seu entender a ganância era a maiormiséria humana, pois diante dela, o homem não tinhalimites, e tendo um, quer dois; se dois quer três issoindefinidamente. E esses produtos que se tornamindispensáveis à vida são vermes a empreita. Como cancroou o câncer, vai comendo nosso âmago, multiplicando-se emcélulas ruins, destruindo os órgãos, os homens a vida. 8-Sai daqui! Sai! Vamos! Pestilento!Foi assim Antonieta, que o velho falava. Logo quandocheguei ao lixão de manhã. Pegou um galho seco e atirou sem
  35. 35. dó. O cão, coitado, deu uma volta de noventa graus safando-se da pancada, que se pegasse arruinava a anca traseira.Tinha mais ou menos cinquenta anos, pois a vida quelevamos, tira-nos muitos anos de vida. O cão molhado daneblina, os pelos sujos colado ao corpo deixava-o maisfranzino. Mostrou irritados os dentes, e andou para o lado,esgueirando com o rabo entre as pernas. Parou debaixo deum pequeno arbusto e na sombra ficou lambendo as feridas.O velho, porra! Olhou-me de alto a baixo, catou o que queria,espalhando como fazem as galinhas quando ciscam,empurrando para trás com os pés o que não lhe servia.Quando encheu o saco roto, olhou o sol, ardia na peleimunda, já bastava pensou, colocou-o nos ombros e passoupor mim bufando. Só quando o velho trôpego desceu aestradinha, passou sob o cruzeiro, nesse instante o cão saiuda toca e esgueirou-se em minha frente, você precisava ver,me olhou de uma forma porra, com os olhos tristes, puxouum naco de carne e comeu. Olhei paro o alto, prestandoatenção nos urubus, que com o cheiro de carniça, circulavamafoitos, quase rentes, os bicos semiabertos, planando a nossafrente, os olhinhos batiam descompassados e giravam ascabeças de um lado pro outro. O cão depois se levantou comoque dizendo nunca se sabe, ainda não estou morto, rosnouparo alto, nesse momento um urubu baixou próximo,levantando poeira e fumaça com as asas. Não se importavamcom nossa presença, ficou nos olhando soberbo, indiferente apaisagem. O que nos distinguia era somente nossaarquitetura, nosso modelo ou corpo nossas almas, esta erasimilar, só queriam viver e para sobrevivermos eu tive certezanaquele momento, até matamos. ***“Minha filha o que tem, doutor?”“Um pequeno aleijão dissera, ficando mais sério, depois comum ar de riso, para me acalmar, pois ele viu de soslaioenquanto ia relatando que eu também quisera rir.”
  36. 36. -Ah! Ah! Ah! Coloca mais uma cachaça aqui Severino! Passaa régua. Verdade! Quase ri! Mas não era prá ri?“Eu principiei a querer ri porque me lembrei de uma piadaque ontem mesmo quando tomava uma cana, um colega mecontou quase morri de ri”. Era o mesmo assunto, um pai,coitado recebeu a notícia do nascimento do filho. O médicofalou com ele a mesmíssima frase.-Ah! Ah! Ah! Socava o balcão. Mais uma Severino! Respiroufundo e a virou de goela abaixo.-Não esta bebendo demais Zé? Falou Severino, passando atoalha sobre o balcão.-Não enche! Bota mais uma. “No berço uma coisa que parecia ter uma forma de orelha, -Seu filho, disse o médico. O pai, coitado, com o carinho quelhe é peculiar falou alguma frase carinhosa, como falam ospais: - pobre filho, ou meu filho, - ou qualquer coisa que ovalha, nisso o médico interveio: - Pai, fala mais alto que ele éum pouco surdo.”-Ah! Ah! Ah! Zé gargalhava segurando a barriga. Os olhosencheram-se d’água.“O riso que quase dei ontem aflorou nos meus beiços.” Acordou dos pensamentos com a mesma frase bradando emseus ouvidos. “Um pequeno defeito!”“Não pensei em nada, ou somente na piada.”“Sua filha tem um aleijão, - calou-se por uns segundos, -masque diabo, é minha filha.” Fixei os olhos do doutor, seu olhar,os olhos acostumados a tudo, não brilhava, vi alguns pelosque saiam em suas narinas, com tanto zelo com os filhos dosoutros nem tem tempo de cuidar de si, uma veia batia no seupescoço, o hálito ardia como fogo em minhas ventas. Gemeualguma coisa imperceptível e desapareceu no corredor.
  37. 37. “Que dó me deu de mim, de Antonieta e de minha filha.”Fui andando pelo corredor sem rumo, uma cruz na parede.“Que sofrimento pensou.” “Ela estava no berçário, o doutorme puxou pelo braço mais uma vez e vi aquela coisa quetinha somente tronco e membros curtos, só pensei numatartaruga, é uma tartaruguinha. Aquilo para mim forademais. A gota d’água. Caí na gargalhada. Todos me olhavamestupefato. Outra piada me veio à cabeça. Nessas situações,morro de ri, não sei por que. No enterro do filho da VelhaQuitéria quando vi aquele menino que era magrinho, gordocomo uma baleia, o defunto, as mãos cruzadas no peito oslábios pálidos e as unhas compridas, desatei a ri. A Velhacoitada me olhou com uma cara de compaixão! Nãoconsegui parar de ri. Fui expulso do velório e nunca mais fuiconvidado para tal. Ria da miséria dos outros.”Pediu a saideira. Bebeu de um gole, e saiu tropeçando nascadeiras. Ria alto, cutucou nos bolsos atrás de cigarros tirouum num maço todo amassado e acendeu depois de váriastentativas. Severino olhou para os fregueses que sementenderem nada, por isso fez com o indicador aquele sinalque significava louco. *** Uma bela manhã, quando Zé das candeias voltava dobanho de sol, a filha sorria, as moedas tilintavam na bacia,Antonieta chegou cansada, faltava ar, pois viera correndodesde a rua de baixo, e engolindo as palavras soltou a notícia: -Não é condomínio não, torcia as mãos uma na outra, -Filhos da puta nos enganaram direitinho. É um cemitério.Chama-se parque da saudade. Colocaram a placa agorinhamesmo. Olha o folheto. Estica um papel em direção dele. Nopapel falava de última morada um descanso para a família.Incitava o público em geral comprar já o seu lugar, dizia por
  38. 38. fim em letras garrafais, uma visão de toda a cidade, pertinhodo céu.Zé das candeias deu um soco na perna, trincou os dentes,enganaram-nos direitinhos. Antonieta continuou: -Dizem até que os barracos já caíram de preço. É aúnica verdade nessa vida, - a morte, - mas ninguém quervê-la do quintal. Dizem que é uma vista desprezível emelancólica. Zé das candeias sentiu um aperto no coração,voltou a empurrar o carrinho, Vanusa, indiferente a tudosorria para o sol. -O que vamos fazer agora Antonieta? Vender flores?Água mineral nos velórios? E isso, veja, apontou a baciarepleta de moedas. Como dói meu coração. Nunca fomos deaceitar esmolas.Antonieta arrumou o cabelo encarapitado, enfiou um grampobaixando as pontas e andou na frente ajeitando a saia. -Ontem quando fui deixar o dinheiro na paróquiapensei, porque não ficar com um pouco para nós? Parou naestrada e mostrou os pés. Comprei uma nova sandália veja. -Que pecado Antonieta! O dinheiro do padre. Ela fez uma cara de quem não tá nem aí, dizendo: -Pelo que eu saiba eles doam para nossa filha, nãodeve ser pecado tirar um pouco para as necessidades. Soubeque o padre, tira um pouco para as obras, um pouco paraeles e o resto manda prá Roma. E eu pensei comigo, Roma tatão longe... -Mas eu acho... Antonieta sem deixá-lo terminar: -Aquela carne ensopada que eu fiz, ontem, bem quevocê gostou, fala se estou mentindo? -Verdade, mas...
  39. 39. -Soube também que a igreja é riquíssima! Pois as mãosnas ancas: -E ontem Zé, quando vi você subindo o oitão lembra, osol batia em suas costas, vi a sua sombra no chão. Juro quenão estou brincando, mas como você parecia com um burrode carga. De tão grande que era o volume que carregava.Você não merece isso homem, nós não merecemos. E se asdoações é para nossa filha, mau nenhum terá emusufruirmos delas. Depois dessa conversa Zé das candeiasampliou o raio de atuação levando a filha lá para as bandasda capelinha onde diariamente havia um funeral. Os parentes dos mortos quando se defrontavam comaquele ser horrendo, triste pela perda de um ente querido,não economizava nas esmolas e a vida deles, Zé dascandeias, Antonieta e filha melhorava a olhos vistos.Meses depois todo o povo notava a melhora a olhos vistos. Obarraco tinha antena parabólica, comprara um velho carro, atelha trocara pela de cerâmica, fizera um puxadinho, onde Zédas candeias depois do serviço tentava alguns versos,Antonieta passava a roupa e a filha ria feito gemidos.Seis meses depois quando tudo corria como um rio tranquilo,uma chuvarada de protestos caiu-lhes sobre suas cabeças.No domingo, o sermão do padre Damião dizia assim: “Temparoquiano, trazendo suas mazelas, para o adro da igreja ecapelinha”. “Aproveitam os bons sentimentos dos outros, nãosabendo estes que a paróquia tem planos para ajudar aspessoas que realmente precisam”. Por isso, a partir de hoje,falou o padre alto e em bom som, ficavam terminantementeproibidas às esmolas no entorno da catedral. Se quiseremdoar, irmãos têm o dízimo. -Ele falou de nós Antonieta! Se pudesse àquela hora,cavar um buraco a meus pés eu teria feito e desaparecido, detanta vergonha que passei. E olha que teve uma hora do
  40. 40. sermão que ele nos fitou, como o olhar de Judas para Jesus,antes do fatídico beijo. -Depois veio dar a mão para gente. Que a senti maciaque nem bunda de nenê, pois nunca trabalhou na vida, deveter ferido quando tocou a minha, veja, parece casca deangico. Olhou para as próprias mãos. -E ainda nos chamou de ricos você viu? Dissera: “Esses falsos pobres que andam por aí usando da bondadedivina” – Será que é porque colocamos dentaduras novas, enosso rosto deixou de ter aquela cor macilenta, os contornosarredondaram-se e as dores famélicas, estas não sentimosmais? Ele é que não sabe que aprendi desde cedo o conceitode apertar o cinto no sentido conotativo, lá pros doze anos omeu cinto achava-se no último furo, quando muitas vezes eraacordado por cólicas provocadas pela fome. E que na misérianão há tempo para chorar e a vida não espera, o mundo gira.“Meus pais sumiram pelo mundo me abandonaram sozinho.Temos que ser forte bola para frente, Sobreviver não é fácilAntonieta, dia e noite empurrando esse carrinho, defendendouns trocados para sobreviver.”“Fui treteiro menino solto no mundo e o mundo nos ensina enos corrompe.” Assim foi a hora que o vimos subir o morro, falavasozinho ou com seus fantasmas quando o menino gritou “Zédas candeias” e ele fez os trejeitos com os pés e as mãos, edepois olhou em volta e viu de onde estava, o cruzeiro, e logoatrás as cruzinhas todas enfileiradas, umas pintadas debranco, outras abandonadas a sorte. Suspirou: -Ah! O Flamboyant! Viu o tapete de rosas vermelhas que seformavam todos os dias quando as flores caiam e sob asombra desse flamboyant, duas cruzes brancas com osnomes em negro: Antonieta e Vanusa - eternamente.
  41. 41. Uma febre, uma virose levara Antonieta e Vanusa aomesmo tempo. E esse tempo o cemitério já era quase todohabitado. Fim

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