Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica

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Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica

  1. 1. Os conteúdos deste periódico de acesso aberto estão licenciados sob os termos da Licença Creative Commons Atribuição-UsoNãoComercial-ObrasDerivadasProibidas 3.0 Unported. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica Postgraduate and its dialogues with the Basic Education Flávia Werle*  RESUMO – Estudo analisando as possibilidades de, na área de Educação, processar-se uma interlocução com sentido de diálogo, compartilhamento e reciprocidade, entre a pós-graduação e a Educação Básica. Sugere cinco eixos de abordagem da temática: (a) quem são os envolvidos na interlocução, (b) os espaços e tempos para a sua ocorrência, (c) os recursos, instrumentos e meios de iniciar, desenvolver e sistematizar a interlocução, (d) as finalidades da interlocução, bem como (e) as conflitualidades que perpassam os campos em que os interlocutores se encontram. Estes eixos não se apresentam como subtítulos, mas perpassam todo o texto que, na primeira parte, decorre da análise de um documento redigido pelos próprios programas de pós-graduação em educação da região sul, qual seja a proposta do programa no item “articulação com a graduação” e, na segunda parte, reflete acerca de dois espaços privilegiados de interlocução com a Educação Básica, quais sejam a sala de aula e os grupos de pesquisa. Palavras-chave – pós-graduação; articulação entre níveis de ensino; Educação Básica; pesquisa; ensino ABSTRACT – Study analyzing the possibilities in the area of education, process is a dialogue with a sense of dialogue, sharing and reciprocity between the graduate and basic education. Suggests five points of the thematic approach: (a) who are involved in the dialogue, (b) the spaces and times for their occurrence, (c) the resources, tools and means to initiate, develop and systematize the dialogue, (d) the purposes of dialogue, and (e) conflictualities that run through the fields in which the interlocutors are. These axes are not presented as subtitles but permeate the entire text in the first part follows from the analysis of a document drafted by the Graduate Programs in Education, Southern Region, which is the Proposed Program in “conjunction with the graduation “and in the second part, reflects about two privileged space for dialogue with primary education, namely the classroom and research groups. Keywords – graduate; articulation between levels of education; basic education; research; teaching Ao que nos estamos referindo quando falamos em não interage, não sintoniza e não escuta o que o outrointerlocução? Interlocução implica conversação entre tem a dizer? Ou seja, torna-se um locutor, mas que éduas ou mais pessoas, duas ou mais instituições, dois indiferente ao caráter inter, de troca, da interlocução.ou mais grupos. Este “dois ou mais” contém o diverso O espaço de interlocução é um espaço fluido, móvel,e o múltiplo. Este “dois ou mais” pode tornar-se muitos precisa ser construído. O espaço de interlocução implicamais, com o que se transversalizam uma diversidade capacidade de prática social e de interação, em processosde interesses, intensidades e direcionalidades da que se expandem “no terreno da cultura, da formaçãointerlocução, com isto se altera a condição de ouvir e da identidade e comunicação” (OZGA, 2000, p. 32).dialogar com os interlocutores. Frente a muitas pessoas O espaço de interlocução é pedagógico no dialogar ee instituições, são outras as exigências de pronunciar e compartilhar. Dependendo da posição, das pressões,comunicar. Mas podemos nos perguntar: o interlocutor do tempo, das urgências e dos objetivos, as demandasé aquele que fala com o outro ou o que fala pelo outro, de interlocução se alteram. A interlocução está situadaou o que fala em nome do outro? É o que fala, mas historicamente e é multifacetada.* Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS, Brasil) e Professor titular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo, RS, Brasil). E-mail: <flaviaw@unisinos.br>.Artigo recebido em agosto 2012 e aprovado em setembro 2012. Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  2. 2. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica 425 Considerando a noção dialogante, de reciprocidade internamente os campos em que os interlocutores see de compartilhamento da interlocução e o tema tratado encontram?nesta pesquisa,1 podemos aportar um conjunto de questões. A Educação Básica é complexa, diversificada.Primeiro, estamos falando de interlocução diretamente A respeito de qual EB falamos? De uma educaçãocom o professor, com as escolas, como as instituições focada na faixa de obrigatoriedade? Esta tem sido,e seus contextos, a interlocução com os sistemas, frente progressivamente, ampliada. Se na década de 1960 aa demandas das secretarias de educação, dos conselhos obrigatoriedade escolar era de quatro anos, referentemunicipais de educação, dos conselhos escolares, da ao ensino primário, na de 1970 passa a ser de 8 anos e,Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível hoje, abrange dos 4 aos 17 anos. Por outro lado, discutirSuperior (Capes)? Estas questões são importantes, EB é referir um âmbito composto por vários tipos depois problematizam quem são os que entram em inter- instituições educativas, as de Educação Infantil, Ensinolocução. Fundamental, Ensino Médio, e diferentes modalidades, Em segundo lugar, uma interlocução se faz com hora incluindo a Educação de Jovens e Adultos. Sim, há ummarcada? Palestras, eventos, painéis se constituem em conjunto muito diversificado de grupos com os quaisinterlocuções? A continuidade da interlocução é uma estabelecer interlocuções. Nesta cada vez mais ampla,questão relevante? Estamos falando de uma interlocução complexa e diversificada EB, quem é o interlocutor? Asque se faz em sala de aula, no desenvolvimento de políticas de EB? Os sindicatos e associações de docentesseminários, de disciplinas? Uma interlocução que se faz da EB? Os professores da EB? Mas quais, os contratados,no espaço da universidade ou nos prédios das escolas de os concursados, os professores que estão em processo deEducação Básica (EB)? Ora, estamos numa época em formação inicial ou buscando a segunda licenciatura?que a delimitação espacial da escola concorre com as Ou aqueles que já estão em exercício, no meio de suapropostas de aprendizagem em qualquer lugar, a qualquer carreira profissional? Ou ainda são os professores dashora (DALE, 2008, p. 17). Neste caso de deslocamento licenciaturas que formam professores para a EB? Ou seráde espaços, que características assume a interlocução? a escola de EB a interlocutora? Que instituição é esta, aFalamos de uma interlocução duradoura, continuada, que tem Índice de Desenvolvimento de Educação Básicaconstruída, retomada periodicamente? Sim, a dimensão (IDEB) maior em seu município, em seu estado. A quede temporalidade e espacialidade também é pertinente na funciona em quantos turnos? Neste caso, a comunidadediscussão da interlocução. escolar é interlocutor? Os membros dos diferentes Falamos de uma interlocução pela pesquisa? Uma colegiados são interlocutores? Ou ainda serão os alunosinterlocução pela orientação e formação de novos da EB os interlocutores? A interlocução se estendepesquisadores? É uma interlocução pela disseminação para os que foram excluídos das escolas? Os jovens eda produção científica e que também se identifica nos adultos que procuram a EB? Ou se restringe aos querelatórios e nos registros Coleta Capes? É uma interlocução estão em cargos executivos nos sistemas de ensino? Masapreendida e expressa por meio de indicadores, que em que instância, a municipal, a estadual ou a federal?depende da capacidade dos programas de pós-graduação Entretanto, em cada uma destas instâncias são tantos asde registrar, com clareza, precisão, concisão e coerência, segmentações, departamentos, diretorias, supervisões...o que cada professor realizou individualmente ou Sim, falar em interlocução com a EB é referir umaque interlocuções desenvolveu o coletivo, ou é uma complexidade muito grande de instituições, grupos,interlocução que se manifesta predominantemente como profissionais, instâncias, políticas e práticas. Ademais, nãoprocesso? A interlocução com a EB restringe-se à pós- há como esquecer o ambiente competitivo, individualistagraduação da área da Educação ou estende-se a outras e o fato de que “a chave-mestra da compreensão dosáreas do conhecimento? Sim, é importante refletir sistemas educativos reside no reconhecimento de suasobre os caminhos, os meios escolhidos para proceder à relação com os problemas fundamentais do capitalismo”interlocução. (DALE, 2008, p. 16). Nas indagações anteriores está a questão de quem E no lado da pós-graduação, quem é o interlocutoré o(s) interlocutor(es), a questão do espaço e tempo frente à EB? Os alunos da PG, os professores do corpoem que ocorre a interlocução, bem como dos recursos, permanente dos programas, o coletivo do programainstrumentos e meios para iniciar, registrar, sistemati- por meio de suas áreas de concentração, linhas dezar e desenvolver a interlocução. Mas, principalmente, pesquisa, oferta curricular? A universidade com suasestá presente a pergunta: interlocução para quê? Com estruturas e burocracias, na inter-relação de atividadesque finalidades? Quais os propósitos e contribui- de pesquisa, ensino de graduação e pós-graduação? Ouções de uma interlocução entre Pós-Graduação (PG) o coletivo de programas da universidade numa propostae EB? E ainda, quais conflitualidades perpassam multidisciplinar? Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  3. 3. 426 Flávia Werle A pós-graduação em educação da Humanas e contém 33 subáreas. Por outro lado, região sul e a Educação Básica: computando os atuais programas de pós-graduação da analisando áreas de concentração e área de Educação no país, encontramos que 84% deles linhas de pesquisa referem “Educação” como AC e 16% apresentam uma designação menos geral como área de concentração. A problematização anterior indica a amplitude De qualquer forma, não é pela designação das áreasdas questões envolvidas e, portanto, discutir a inter- de concentração dos programas que se pode identificarlocução entre a PG e a EB implica fazer escolhas. a sua interlocução com a EB. Ressalto que trabalheiEmbora considerando que a interlocução se manifesta com a listagem de programas da Capes datada de 2009predominantemente como processo, como espaço móvel, (total 113 programas), a qual já incluía alguns mestradosfluido, em contínua construção e que implica capacidade profissionais, os quais tendem a ser mais específicos nade prática social dos envolvidos, que as conflitualidades indicação de suas AC.internas aos campos em que os interlocutores se situam, Com o objetivo de compreender como as linhas delimitam e repercutem no processo, que são inúmeros pesquisa dos programas de pós-graduação em educação daos interlocutores, optei por tratar a interlocução região sul expressam a interlocução com a EB, procedi aconsiderando – para os primeiros dois subtítulos deste um levantamento de todas as linhas de pesquisa, medianteartigo – a visão expressa pelos programas no relatório o acesso à página web de cada programa. Esta análise nãoque apresentam à Capes. Trata-se de um relatório apontou casos de programas que evidenciem explicitaçãoanual em que os programas descrevem suas atividades, direta e clara entre LP e a EB.processos de pesquisa, estrutura curricular, enfim, suas Há programas com a proposta de um núcleoações, registrado no Caderno Proposta do Programa, ano articulador entre as LP. Neste caso, o núcleo articulador2009, disponível no site da Capes. Delimito este material possivelmente figure na perspectiva de AC. Háempírico para análise considerando os programas de pós- formulações de LP bastante abrangentes, indicando,graduação em educação da região sul – Santa Catarina, por exemplo, que o foco é o campo da educação emParaná e Rio Grande do Sul –, sejam eles organizados em articulação com outros três campos do conhecimento,programas com curso de mestrado e doutorado ou apenas tratando as questões em diferentes perspectivas ecom curso de mestrado. contextos. Quando as LP referem EB, esta não aparece Neste subtítulo enfoco a interlocução entre a PG e a como tema central, mas em geral associada à formaçãoEB questionando como ela se apresenta na formulação de professores e ao ensino superior. De forma geral,das linhas de pesquisa e das áreas de concentração dos as linhas de pesquisa se descrevem de maneira ampla.programas em foco. Portanto, a evidência de diálogo da PG com a EB não Para discutir as evidências de interlocução da PG com fica demonstrada claramente nos programas a partir daa EB no tocante às áreas de concentração dos programas, descrição das linhas de pesquisa. A análise dos projetosanalisei inicialmente os Planos Nacionais de Pós- de pesquisa, das dissertações e teses, e da produção dosGraduação (PNPG). O I PNPG (1975-1979) (BRASIL, docentes é que poderá apresentar tais evidências. Este1975a), especialmente o seu desdobramento para a área da trabalho de análise e demonstração do quanto nós dosEducação (BRASIL, 1975b), indicava que cada programa programas de pós-graduação em educação procedemos ade pós-graduação tinha várias áreas de concentração este diálogo está ainda por ser feito e demandará muito(AC). Na região sul, em 1975, eram quatro programas. tempo e esforço, não sendo objeto do presente estudo.A UFPR tinha duas áreas de concentração: Metodologiado Ensino e Planejamento Educacional; a UFRGS A pós-graduação em educação daorganizava-se em três áreas, Planejamento Educacional, região sul e a interlocução com aPsicologia Educacional e Ensino; a PUCRS tinha também Educação Básica e a graduaçãotrês AC, quais sejam, Aconselhamento Psicopedagógico,Administração de Sistemas Educacionais e Métodos Busquei ler2 como os programas de pós-graduaçãoe Técnicas de Ensino e a UFSM uma apenas, Teoria e em educação da região sul expressam seus vínculos comPrática do Currículo a Nível Médio. Por vezes estas AC as licenciaturas e cursos de graduação, que seria uma dasresultavam da transposição da estrutura departamental da formas de proceder a esta interlocução. Da análise douniversidade para a PG. Os demais PNPG não enfatizavam material evidencia-se que os programas de pós-graduaçãoas áreas de concentração. têm compromisso de integração com a graduação e de Atualmente a Capes trabalha com nove grandes atuação nas licenciaturas, o que é um registro a favor daáreas, 76 áreas e 340 subáreas do conhecimento. A área interlocução. Por outro lado, junto com esta interlocuçãode Educação está incluída na grande área de Ciências se desenvolve também a com a EB. Estamos frente a, no Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  4. 4. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica 427mínimo, três segmentos de interlocutores: os cursos de tais encargos representam um tensionamentograduação e licenciaturas, os programas de pós-graduação contínuo para esses docentes que, por vezes, tême a Educação Básica. Nestes diversos momentos de que conciliar as atividades consideradas de grande relevância institucional e social [...] e a dedicação àsinterlocução os professores dos programas não estão atividades consideradas indicadores de qualificaçãosozinhos, realizam esta ação juntamente com os pós- da produção para o programa, no caso, a pesquisagraduandos. científica. O que era desejo expresso em meados dos anos 1970,no I PNPG (1975-1979) – que os professores atuassem Emerge aqui a conflitualidade e as diferentessimultaneamente na graduação e na pós-graduação pressões que perpassam o campo da PG no atendimento– está ocorrendo nos PPG educação da região sul. de demandas de produção científica, orientação, ensinoOcorrendo na forma de docência, mas também mediante e inserção nas múltiplas atividades das universidades, oa participação nos colegiados das licenciaturas, em que, sem dúvida, configura o campo de trabalho e disputascargos de representação, na coordenação de cursos de dos programas e as condições de interlocução com a EB.graduação, de estágios e de prática de ensino em cursos Até aqui referi que muitos são os personagens da PGde licenciatura. Ocorre também na orientação de trabalho em interlocução com a EB, destacando os professoresde final de curso e na orientação de monografias de cursos que atuam na PG e na graduação, os professores quede especialização. Pode-se dizer que há registro de ampla atuam na graduação e os alunos da PG que atuam naarticulação pela via da docência em cursos de formação modalidade de estagiários. Mas a interlocução precisade professores, bem como mediante orientação de alunos ter intencionalidade, promover comunicação, sintonia,de graduação (TCC) e de trabalhos de iniciação científica diálogo com a EB. Para tanto, experiência em sala de(IC). O estágio docência é, igualmente, uma forma aula e a vivência em escolas de EB são fundamentais paraimportante de articulação PG dentro da universidade, com aqueles que atuam nas licenciaturas.os cursos de graduação, e com as licenciaturas e a EB. Gatti, Barreto, André (2011), discutindo políticas A atuação nas licenciaturas, por sua vez, enriquece docentes em nível federal, destacam que o processo dee dialoga com a pesquisa nos programas e favorece a formação de professores requer docentes comprometidosdisseminação da pesquisa na graduação. Os programas com a EB, capazes de desenvolver um trabalho articuladovão além da citação nominal de disciplinas atendidas com questões do cotidiano da EB, para que se possapelos docentes da pós-graduação em cada semestre letivo, avançar em qualidade de ensino e aprendizagem deo que fica evidente, por exemplo,3 no seguinte trecho todos os alunos. Os cursos de formação de professoresexpresso por um programa da região sul e os docentes que neles atuam precisam articular-se de forma a oferecer recursos para a profissionalização dos Um olhar sobre a produção acadêmica do programa professores. Recursos que favoreçam a superação de um permite observar que muitos dos projetos de pesquisa certo nível de desconexão entre universidade e escolas e desenvolvidos pelos docentes ou pelos mestrandos têm o avanço para além da supervalorização do conhecimento sua gênese no contexto do curso de graduação. Se por um lado esta presença na graduação induz e fornece acadêmico como fonte única de autoridade frente ao temáticas de investigação para o programa, de outro conhecimento sobre a escola, o ensino e a aprendizagem. favorece o entrelaçamento do ensino com a pesquisa Trata-se de uma “mudança epistemológica” que precisa no âmbito da graduação. ser discutida em todos os níveis de ensino e que exige esta interlocução de parte da universidade com a EB. Os programas, entretanto, estão atentos não apenas às Criticando as estruturas de formação institucio-demandas internas à sua universidade, com o que dialogam nalizadas no país, as autoras afirmam:com os sistemas de ensino, mas aos compromissos coma função de pesquisa e produção de conhecimentos que Reformulações e reorientações, complementaçõesa pós-graduação precisa atender. Um deles assim se ou acréscimos não tocaram em seu aparato básico: aexpressou: formação de cada especialidade profissional docente continua sendo feita em cursos separados, estanques, Esses múltiplos compromissos institucionais com base na divisão da ciência; cursos sem articulação acarretam uma grande diversidade de atividades entre si, sem uma base compartilhada e com clara desenvolvidas pelo docente-pesquisador, o que separação interna entre formação em área disciplinar beneficia não apenas a instituição como um todo, e formação pedagógica: dois universos que não se co- mas também o próprio programa que ganha em municam (GATTI; BARRETO; ANDRÉ, 2011, p. 95). integração política e acadêmica, propiciando maior inserção social nos setores e nos diferentes Vários programas da região sul, como que sensíveis e níveis nos quais atua. Entretanto, paradoxalmente, atentos a essas críticas, colaboram para alterar este quadro, Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  5. 5. 428 Flávia Werlemediante diferentes estratégias, incluindo a assessoria criados, procedendo, no início do ano, à seleção de suaprestada a projetos de reestruturação curricular das primeira turma de mestrado. O que chama a atenção naslicenciaturas em suas universidades. Assim se pronuncia apresentações é o quanto estes programas estão atentosum programa da região sul: e procurando se inserir nas possibilidades abertas por editais e propostas de políticas da Capes. Por outro lado, Entende-se que, a constituição do programa trazem muitas queixas de exclusão frente a editais abertos qualifica as atividades da graduação. Os docentes pelo CNPq, onde não tem conseguido obter apoios. O que participam ativamente de reuniões de colegiado e destaco é que, entre os programas que se fizeram presentes, isto foi fundamental, por exemplo, nas reformulações curriculares recentemente ocorridas, quando 31% têm projetos vinculados a observatórios, seja o de integraram as comissões criadas para este fim, o Educação, o de Educação Indígena ou de Educação do que contribuiu para uma crescente valorização das Campo e, por outro lado, 22% participam do Programa atividades de pesquisa na graduação. Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). O que os “novos programas” estão demonstrando é uma Esta é sim uma importante forma de interlocução intensa atividade de pesquisa e trabalho conjunto com ada PG com a EB, não só a docência nas licenciaturas, EB em diferentes formas e, portanto, uma abertura paramas o envolvimento com o aprimoramento curricular as diretrizes do PNPG.dos cursos, a pesquisa difundida na universidade e nossistemas de ensino. Um tema que deve ser objeto de dedicado estudo por Outro relevante espaço de construção da identidade parte do SNPG é a melhoria da qualidade da Educação Básica, notadamente do Ensino Médio. Propõe-se quedos programas e de desenvolvimento da interlocução com o SNPG desenvolva estudos relativos à formação dea EB é a pesquisa realizada por alunos de IC, conforme professores, ao estabelecimento dos padrões mínimosregistra um dos programas da região sul: de qualidade, à gestão das escolas e à adequação dos currículos tendo em vista as necessidades e A integração com a graduação também ocorre em os interesses dos adolescentes e jovens sujeitos da função dos projetos de pesquisa que os docentes do Educação Básica, notadamente do Ensino Médio. mestrado mantêm em nível de iniciação científica. Esse A CAPES, que cuida dos cursos de pós-graduação, é um esforço levado a cabo por todos os professores recebeu novas atribuições com a criação das diretorias do programa. E os projetos de iniciação científica de Educação Básica e tem condições de comandar os desenvolvidos na graduação estão vinculados às linhas esforços para consecução dessa tarefa. A interação de pesquisa e aos projetos individuais que os docentes mais definitiva com a educação básica é uma maneira sustentam na pós-graduação. Esta prática foi se de reforçar a aproximação do SNPG com os interesses construindo pela convicção no processo de educação da sociedade (PNPG, 2010, p. 21). continuada e no sentido de uma lógica orgânica, quer dizer, articulada entre a formação do discente e os Por certo, a melhoria da qualidade da EB exige objetivos do programa. investimento na formação de professores, a retomada dos padrões mínimos de qualidade, e foco na gestão Há casos de interlocução muito intensa e anterior das escolas e na adequação dos currículos, mas,à criação da pós-graduação estrito senso de uma também, uma maior valorização social da profissão,universidade, como por exemplo: “o mestrado nasceu melhores salários, bem como melhores condições deda inserção e da necessidade de ampliar/qualificar os trabalho, infraestrutura das escolas e de carreira doprocessos de formação de professores da região”. Portanto, magistério. Sem estas condições gerais que decorrema criação e consolidação dos próprios programas, decorre, de fracas, desconexas e descontínuas políticas públicas,qualifica, aprofunda esta interlocução que vem sendo a interlocução pode reduzir-se a programas e projetosconstruída numa rica prática social local. fragmentados ou a queixas, desalento e manifestações de Aqui um parêntese importante para referir uma desânimo para com a educação. Assim, interlocução nãosituação vivida por programas que estão iniciando sua se constrói por imposição. Interlocução, por ser diálogo,trajetória. Em março de 2012 ocorreram em Brasília, na compartilhamento e prática social, decorre especialmentesede da Capes, reuniões de análise e acompanhamento da implicação dos envolvidos, os quais podem serdos programas de PG da área de Educação, com a estimulados, mas respondem a partir de sua história,presença dos coordenadores. Participei deste momento conhecimento, reflexividade e condições institucionaisde compartilhamento e autoavaliação, especificamente na aos programas e projetos que fomentam a interlocuçãosala em que os programas nota 3 de todo o país estavam entre a PG e a EB. Ademais, há que acompanhar, avaliar,reunidos. Dentre os 50 programas da área neste nível aprofundar a inter-relação entre os diferentes programasde avaliação, muitos estavam na condição de recém- e projetos voltados para esta interlocução. Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  6. 6. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica 429 Um importante espaço de articulação da graduação, constroem de si mesmos ao preencherem o Coleta Capes,PG e EB são os grupos de pesquisa, por vezes organizados base empírica desta reflexão, é prenha de intencionalidadena forma de Centros de Formação e Orientação que procura corresponder aos processos de avaliação.Pedagógica, como apresenta a descrição de um programa Por outro lado, os processos de avaliação externa, comda região sul a seguir: seus indicadores e quantificações, de alguma forma condicionam as práticas dos programas e pressionam Espaço físico definido que fundamenta suas ativi- pesquisadores e alunos em direção à intensificação dades... [para] a) proporcionar orientação pedagógica, do trabalho, à multiplicação da produção científica e a educação continuada e formação docente; b) quali- atividades computadas nas avaliações. Estas questões ficar recursos humanos para a formação docente delineiam um cenário de conflitualidade e tensão, no transdisciplinar; c) qualificar recursos humanos nas qual os programas de pós-graduação se instituem, diversas áreas e níveis de atuação profissional; d) de- senvolver ensino à distância; e) desenvolver projetos desenvolvem e consolidam, e também constroem sua dos cursos de graduação e das linhas de pesquisa do identidade e suas linhas de pesquisa. Vale lembrar, programa. O centro funciona como um espaço que ademais, com Freitas, Sordi, Malavasi e Freitas (2011, agrega programas de pesquisa e experimentação p. 9), que o processo de avaliação não é como um jogo pedagógica, propostos e encaminhados por grupos de inevitável de cartas marcadas, mas configura-se como um estudo e pesquisa da universidade. campo de forças aberto a contradições que necessitam ser enfrentadas. E acrescentam: “porém é preciso conhecê-lo Em minha leitura, os programas de pós-graduação em para melhor lidar com ele, seja nos seus limites, seja naseducação, em conjunto com outras forças da universidade, suas possibilidades”.procedem a interlocuções com a Educação Básica. Éconstante, generalizada, universal a participação dos Sala de aula e vínculos comprofessores da PG em cursos de licenciatura, embora “o a pesquisa: espaço privilegiadodesafio dos docentes do PPGE é [seja] garantir que essa de interlocuçãoatuação na graduação esteja articulada às atividades depesquisa e docência no mestrado”, conforme afirma um A interlocução com a Educação Básica se dá emdos programas. sala de aula.4 Em salas de pós-graduação, como nas Há múltiplos compromissos institucionais atendidos de graduação e em cursos de extensão, nos quais ospelos professores dos programas, além de ações de docentes que também atuam na pós-graduação lecionamdocência, participações em colegiados, coordenações e os seus alunos realizam estágios. Na observação dosde cursos, disciplinas, estágios. Em diferentes níveis alunos, na escuta de suas histórias, dificuldades, espantoselas são veículos de interlocução com a EB. Que espaço e de seus contextos. Contextos que são verbalizados,privilegiado de interlocução é a coordenação de estágios descritos, comunicados pelos próprios alunos, e que,ou a coordenação das práticas de ensino nas licenciaturas! ao se apresentarem frente a outras falas, possibilitam Mais do que expressar a articulação entre a graduação comparações, estranhamentos, teorizações. A interlocuçãoe a PG, o espaço do Coleta Capes/proposta do programa com a EB se dá em sala de aula, onde os alunos que tambémevidencia a intensa integração, cooperação e interlocução são professores se reconhecem a si mesmos no debateque está ocorrendo nos programas e nas universidades. com os outros, num processo de percepção de mútuasMais do que separação entre ensino, pesquisa e diferenças. Uma interlocução que é uma construção e umaextensão, identificam-se estruturas multidisciplinares observação, que não é passiva, que supõe a organizaçãoe multifuncionais de integração e convivência, nas e reorganização de visões, de compreensões. Estesquais diferentes atores interagem (ensinam, pesquisam, processos de organização e teorização ocorreram frenteaprendem) e múltiplas atividades são desenvolvidas. à temática da disciplina ou seminário, à bagagem deHá programas que expressam as diferentes formas de conhecimentos e experiências aportada pelo professor einterlocução na universidade com os sistemas de ensino pelos alunos, mas, especialmente, devido à atenção parapela explanação coerente de seus projetos de pesquisa. os contextos, aqueles que são explicitados e os que nãoNeles os objetos de estudo articulam pessoas e levam emergem facilmente, não se pronunciavam claramente naà superação de fronteiras entre graduação, PG, ensino, dinâmica da sala de aula.pesquisa, extensão, universidade e sistemas de ensino. Uma importante vertente de interlocução com a A análise aqui realizada destaca uma visão favorável, EB é, portanto, a sala de aula de cursos de licenciaturainsinuando como possível e em processo a interlocução e de pós-graduação. Uma sala de aula que se relacionaentre a Educação Básica e a pós-graduação. Sem dúvida, com pesquisa, com produção científica, com diálogo ea forma que os programas se instituem e a imagem que discussão desta produção. Uma pesquisa que principia e Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  7. 7. 430 Flávia Werlecontinua na e a partir da sala de aula, que dialoga com estar “disponíveis como recurso e como área de trabalhofatos concretos e situados temporalmente, trazidos por para professores de todos os setores, devido à capacidadealunos e professores dos cursos superiores, que dialoga de inspirar as suas próprias tomadas de decisão decom pessoas que são protagonistas em muitas escolas. cariz político e para encorajar avaliações essenciais eUma pesquisa que realiza traduções e links entre conceitos independentes das políticas governamentais” (OZGA,e situações empíricas. Sim, uma sala de aula em que o 2000, p. 26).ensino se transmuda em pesquisa e favorece a construção Ao tratar de políticas educacionais alguns alertasde um objeto de estudo, num esforço de conhecimento, são pertinentes. Souza, em seu artigo Estado do campode organização e de questionamento. Construção que se em políticas publicas no Brasil, chama atenção paradá no diálogo com a teoria, com as situações, com os os problemas enfrentados pelas pesquisas em políticasatores e com os projetos que os mesmos possuem. Uma públicas. Indica o escasso conhecimento e debate sobreconstrução que não é uma descoberta de algo posto, o que os pesquisadores estão produzindo, a pulverizaçãomas, uma atividade que é docência e que também é ou de estudos setoriais, e o quanto temas e metodologiasencaminha e inspira para uma prática de pesquisa. Uma se apresentam de forma difusa. Mas um alerta muitopesquisa e uma sala de aula que extrapolam o período relevante é o que indica cuidados quanto àletivo, e se expandem no espaço profissional, nas relaçõescotidianas. proximidade da área com os órgãos governamentais, Afirma-se, portanto, que a articulação da PG com a que tanto podem gerar trabalhos normativos e prescritivos, como a possibilidade de esses órgãosEB se faz de diferentes formas no contexto das salas de pautarem a nossa agenda de pesquisa. Esse problemaaula das universidades, algumas mais diretas e claramente existe não apenas em relação aos órgãos do governo,articuladas à EB do que outras. Os professores dos que financiam muitas de nossas pesquisas, mas tambémprogramas e seus alunos baseiam e aportam sua experiência aos organismos multilaterais (SOUZA, 2003, p. 16).com a EB e com a pesquisa em sua dinâmica de interação eprodução, nos seminários, disciplinas e demais atividades Este alerta pode também ser formulado de outrade formação. Igualmente, estes mesmos professores maneira: “a comunidade científica busca tambéme pós-graduandos atuam em cursos de graduação e encontrar aliados que, eventualmente, subsidiarão as suaslicenciaturas em ações de ensino que também alimentam pesquisas; é, portanto, um grupo social que tem ‘algo aa pesquisa. É um processo de circularidade no qual não vender’, e que procura ‘compradores’” (FOUREZ, 1995,é possível generalizar e delinear com clareza o que cada p. 98). Este trecho de Fourez é mais incisivo, utiliza umaprograma fala, onde os processos de pesquisa iniciam, expressão mais forte – venda e compra. Mas o fato é queonde a EB está presente, onde a teoria prevalece. É um precisamos de recursos para as pesquisas e para envolverprocesso dinâmico, pois dinâmicas são as instituições e e formar os que querem fazer pesquisas.as posições que estes atores ocupam nas instituições, orasão professores de EB, ora professores no ensino superior, Grupos de pesquisa como espaço deora mestrandos, graduandos, doutorandos. interlocução com a Educação Básica Sim, a sala de aula contém possibilidades de pesquisae inspira investigações na linha do que afirma Jenny Ozga Se uma importante vertente de interlocução é a sala(2000, p. 25): de aula, outra igualmente relevante é a pesquisa. Forster, em trabalho recente,5 descreve sua trajetória de pesquisa A orientação ou predisposição para a investigação de uma década na interlocução com escolas públicas de deverão servir para desenvolver a reflexividade sobre Ensino Fundamental de diferentes municípios gaúchos. o trabalho em educação, ou seja, a transferência de Destaca eixos de tensão identificados em suas práticas práticas de investigação para o contexto escolar, de de pesquisa, focando relações entre teoria e prática, entre modo que a experimentação, o escrutínio de resultados, o trabalho em equipe, a avaliação e a procura de conhecimento e ação e entre formação universitária e melhorias na resolução de problemas devem constituir formação profissional. Ao discutir estes tensionamentos, um hábito e uma fonte natural para qualquer trabalho sistematiza: de índole pedagógica. Resgatar o teórico naquilo que ele tem de questionador e superador de práticas de senso comum, sem negar Sim, Jenny Ozga refere constantemente que o professor sua dinamicidade e complexidade [...] As lógicas daprecisa ser um pesquisador em políticas educacionais. De formação universitária e da formação profissional,fato, as políticas povoam nosso cotidiano, e em nossas nas suas especificidades e diferenças, puderampráticas recontextualizamos as políticas educacionais. qualificar a educação e a formação docente. O grupoPara Ozga, as pesquisas em políticas educacionais devem de pesquisa compreendeu que para profissionalizar Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  8. 8. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica 431 o ofício de ensinar, se faz necessário superar a visão para a melhoria de suas práticas. Emocionadamente, da academia sobre a docência, ao trabalhar saberes uma professora de escola básica vinculada a um dos desvinculados do campo de atuação, e a visão do senso subprojetos assim se expressa: comum presente na escola, que reduz os saberes da prática docente a uma circulação restrita e particular. O resgate pessoal, profissional e como cidadã [foi- Reconhecer a formação inicial como incompleta, até me oportunizado] através da participação da bolsa de mesmo pela natureza humana de seres inconclusos que pesquisa do observatório... Estou com quase 27 anos de somos não serve, entretanto, para descuidos por parte atuação na rede pública municipal, iniciando a carreira das agencias formadoras de professores com a quali- em uma escola “tributária” para onde me deslocava a dade de formação possível (FORSTER, 2012, p. 5). pé fazendo três quilômetros para ir e a mesma distância de retorno, descendo e subindo morro, afundando o Sim, teoria e prática, conhecimento e ação, formação pé no barro quando chovia. [...] Por 16 anos dediquei-e pesquisa constituem cenários e ingredientes da inter- me, exclusivamente, à Escola Municipal de Ensinolocução. A reflexão de Forster explica o que Silva Junior Fundamental [...], entre coordenação pedagógica e(2010) sintetiza: direção, correndo risco com traficantes e intimidada por policiais da mesma família, atendendo a escola nas Os contextos de trabalho é que se credenciam como madrugadas por assalto, entre tantas outras situações ambientes de formação, pelo reconhecimento de que marcaram, [incluindo] ter o tapete puxado por seu valor formativo [...] há que haver, por parte dos questionar e não ser da situação partidária. Ter hoje esta sujeitos envolvidos, uma permanente mobilização dos oportunidade, quando deixei de fazer mestrado pela saberes adquiridos em situações de trabalho, que se dificuldade em conciliar o papel de mãe e realizar meu constituirão em subsídios para situações de formação, compromisso com a escola, é algo que não ocorrem e dessas para novas situações de trabalho (SILVA palavras para traduzir o sentimento que explode no JUNIOR, 2010, p. 7). peito. Além disto, o incômodo e desconforto que sinto ao ver frequentemente a educação ser considerada de má qualidade, já quase de forma banal, e ver que Em minhas pesquisas, especialmente pela experiência o professor ainda não internalizou a necessidade dede coordenar um projeto em rede, vinculado ao transformar sua prática [com o que ele próprio] exclui-Observatório de Educação,6 tenho, em conjunto com se do sistema, ao invés de incluir-se com posturaos demais coordenadores dos subprojetos, identificado arrojada, fazendo valer seu espaço.destaques e repercussões expressas pelos professoresde Educação Básica que, mediante uma bolsa de Neste relato está presente um agradecimento e,estudos, participam como “professores pesquisadores” principalmente, uma alta capacidade de prática social– esta designação é por eles muito valorizada. Relatam exercida há mais de 25 anos de trabalho. Há tambémconsequências desta participação em suas práticas, um ensaio de teorização sobre a própria identidadequais sejam: preparam melhor as reuniões pedagógicas, profissional como docente de rede pública. Está igualmentedialogam com mais conhecimento com os seus colegas, presente uma descrição da história de desvalorização dopercebem um amadurecimento em si mesmos como professor e das dificuldades enfrentadas nas escolas, masprofissionais, pois discutem com mais fundamentação principalmente a persistência desta professora de redee criticamente as questões de sua escola. Com sua pública do Rio Grande do Sul.participação no grupo recebem e acumulam informações Nos grupos de pesquisa os professores são encorajadose experiências com o que conseguem dar mais apoio a falar, são ouvidos, fazem apelos pela qualificação dana escola, o que traz um benefício de ampliação do educação pública. A participação em grupos de pesquisaconhecimento para toda a escola e acerca da própria escola. encoraja-os a desenvolverem uma abordagem crítica aParticipar de pesquisa é valorizado pelos professores, pois respeito das políticas e de suas práticas, encoraja-os alhes possibilita construir uma nova visão acerca de seu pedirem mais da universidade, a lerem mais. Os gruposambiente de trabalho, sendo também uma oportunidade de pesquisa são um coletivo em interlocução com ade atualização, um incentivo à leitura e uma forma de Educação Básica.educação continuada (WERLE, 2011, p. 7). Volto a Jenny Ozga e com ela afirmo: Portanto, nesse projeto, temos uma equipe ampliada– docentes da universidade, do programa, mestrandos, As capacidades de os professores executarem ou colaborarem em investigações contribuem para adoutorandos, graduandos e voluntários –, junto com estes sua identidade profissional e aumentam o nível deprofessores pesquisadores (docentes de redes públicas de interacção com os alunos e com os seus pares noEducação Básica); para todos, a participação no grupo terreno da cultura e da identidade. É ainda estimuladade pesquisa é considerada uma oportunidade altamente a capacidade de desenvolverem a sua aptidão para asignificativa para seu desenvolvimento profissional e prática social (OZGA, 2000, p. 79). Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  9. 9. 432 Flávia Werle Bernardete Gatti (2005), em texto discutindo o progra- debater achados, teorizar, sistematizar visões entre osma de intercâmbio para pesquisa, realizado ao longo da que estão situados na área de Educação e os que estãodécada de 1980, sob os auspícios de várias agências de localizados em diversas áreas do conhecimento.financiamento, destaca a importância de formação de Hoje, são nove grandes áreas de conhecimento, con-grupos de pesquisa não apenas em termos de produção, siderando a classificação da Capes: Ciências Exatas emas da formação de redes, de nucleação de pesquisadores, da Terra, Ciências Biológicas, Engenharias, Ciências dado impacto desse programa e seus desdobramentos nas Saúde, Ciências Agrárias, Ciências Sociais Aplicadas,diferentes instituições envolvidas. Assim inicia ela: Ciências Humanas (Filosofia, Teologia, Sociologia, Antro- pologia, Arqueologia, História, Geografia, Psicologia, O pesquisador não trabalha sozinho, nem produz Educação, Ciência Política) Linguística, Letras e Artes, e sozinho. A intercomunicação com pares, o trabalho Multidisciplinar. A que área compete a interlocução com em equipe, as redes de trocas de ideias e disseminação a EB? Seguramente esta é uma interlocução em várias de propostas e achados de investigação, os grupos de direções. Se nos reportarmos ao PNPG 2011-2020, há referência temática, constituem hoje uma condição essencial à realização de investigações científicas e indicação sim da área da Educação, mas está clara a refe- ao avanço dos conhecimentos. Para os pesquisadores rência a Engenharias, Ciência Política e Administração mais experientes, esse diálogo permanente com para avançar na qualidade e superar os problemas da grupos de referência temática torna-se fundamental Educação Escolar Básica, especialmente o Ensino Médio. para o avanço crítico e criterioso em teorizações, Ao instituir a Educação Básica como um assunto estraté- em metodologias, em inferências. Para os menos gico, este PNPG coloca-a como uma questão a ser enfren- experientes, ou iniciantes, é fundamental para sua tada por uma equipe multidisciplinar, ampliando o debate formação, pois não se aprende a pesquisar, não se para todos os cursos de pós-graduação (Brasil, 2010, p. 164). desenvolvem habilidades de investigador apenas lendo manuais. Essa aprendizagem processa-se por Aqui situa-se uma questão importante a ser mais interlocuções, interfaces, participações fecundas em profundamente discutida. grupos de trabalho, em redes que se criam, na vivência Ao falar em interlocução, estamos procurando e convivência com pesquisadores mais maduros soluções para problemas e crises da EB? Estamos (GATTI, 2005, p. 124-128). buscando uma abordagem na perspectiva da “educação baseada nas provas” EBP,7 almejando que as práticas e Os grupos de pesquisa são experiências de interlocu- políticas educacionais estejam baseadas nas melhoresção nos quais um grande desafio se apresenta. O desafio provas científicas disponíveis (SAUSSEZ; LESSARD,da sistematização e teorização de experiências, o do 2009, p. 141)? Nessa linha, a proposta de interlocuçãoafastamento das ações diretamente realizadas nas escolas se encaminha no sentido de que a pós-graduaçãoe sistemas de ensino para problematizar e desenvolver produzisse evidências de pesquisa, que oferecesse umuma visão crítica a respeito das mesmas. O desafio de respaldo racional para a tomada de decisões de práticos esistematizar relatos de prática, teorizando-os sem os políticos, assegurando a eficácia de suas intervenções? Acongelar e sem deles retirar a riqueza do vivido. interlocução ocorreria por meio de produtos de pesquisa Os grupos de pesquisa permitem que relações assi- que fornecessem provas da eficácia de uma reforma,métricas se façam reversíveis, que a autoridade não seja que indicassem as melhores práticas, o melhor caminho,atribuída apenas ao professor do programa, à teoria, à uni- a melhor prova possível e disponível no “mercado dasversidade, mas que se fundamente no diálogo e no compar- pesquisas” a respeito de uma reforma ou prática a sertilhamento. Um compartilhamento em que se ensina e se promovida? Esse talvez fosse o caminho da interlocuçãoaprende no grupo, no qual se exercita a ajuda mutua e a bus- defendido entre os favoráveis à EBP e que a destacamca de aprofundamento, de reflexão, sem cair no relativismo. como “ponte essencial entre três esferas – pesquisa, prática e política” (SAUSSEZ; LESSARD, 2009, p. 144). Interlocução para quê? Esta proposta influenciaria também os temas de pesquisa que deveriam corresponder às preocupações, fornecendo A estrutura da pós-graduação é diversificada e hoje “respostas pertinentes para as questões relativas aotemos programas de pós-graduação, cursos de mestrado, que funciona regularmente com um bom desempenho”doutorado e mestrado profissional. A pós-graduação tem (SAUSSEZ; LESSARD, 2009, p. 146), com o que o fococompromissos com a pesquisa e a produção científica. A das pesquisas seria a sua utilidade prática.interlocução corre o risco de ser feita apenas no âmbito As respostas à indagação “interlocução para quê?”do mundo acadêmico e entre os acadêmicos. De fato, é dependem do paradigma de referência do pesquisador,importante ampliar a interlocução entre os pesquisadores do docente, do professor, do aluno, do responsável pelasque estudam questões relativas à EB. É fundamental políticas públicas. Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012
  10. 10. Pós-graduação e suas interlocuções com a Educação Básica 433 Pelo que apresentei, a interlocução é necessária para formatos para cursos de licenciatura para o estado da Bahia;sustentar a pesquisa e o ensino, para um projeto reflexivo relatório. Brasília, DF: Capes/Unesco, 2010. (Documento interno).de desenvolvimento e de identidade profissional, para o SOUZA, Celina. “Estado do campo” da pesquisa em políticasdesenvolvimento do sistema nacional de educação para a públicas no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais,qualificação da EB à pós-graduação. v. 18, n. 51, p. 15-20, fev. 2003. Meu argumento é de que interlocução é um elemento- WERLE, Flávia Obino Corrêa. Observatório de educação:chave na educação brasileira que não se restringe à PG análise de um espaço de formação. Seminário Observatórios,em educação frente à EB. A universidade, em todas as Metodologias e impactos nas políticas públicas. São Leopoldo,suas áreas, é que se coloca em interlocução com a EB RS: Casa Leiria, 2011. 15 p.e com a sociedade. Uma interlocução que precisa serdiversificada, fortalecida, pois é no todo da universidade Notasque se faz educação, e é nesta dimensão do múltiplo que 1 Este texto é uma versão da conferência de abertura da IX AnpedSula interlocução com a EB está para ser tecida. – Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul 2012. A Pós- Graduação e suas interlocuções com a Educação Básica. Caxias do Sul, Universidade de Caxias do Sul,29 de julho a 1º de agosto de 2012. Referências 2 Fiz uma leitura analítica do Caderno Proposta do Programa no item Integração com a Graduação considerando todos os programas da área deBRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional Educação da região sul, mediante consulta aos Cadernos de Indicadoresde Pós-Graduação. Plano Nacional de Pós-Graduação. 2. ed. 2009, disponível na página da Capes, indicada a seguir. Não cheguei a analisar outros aspectos que constam dos relatórios dos programas;Brasília, DF: 1975a. 52 p. foquei apenas nas AC, LP (conforme discutido no subtítulo anterior) e______. Ministério da Educação e Cultura. Coordenação do articulação com a graduação. Disponível em: <http://conteudoweb.capes.Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. gov.br/conteudoweb/CadernoAvaliacaoServlet?acao=pesquisaAno& ano=2009>.Programa de Pós-Graduação em Educação: linhas 3 Preferi não citar nominalmente os programas de cujos relatórios extrai osoperacionais, 1975-1976. Brasília, DF: 1975b. 71 p. trechos que cito na tentativa de destacar pontos comuns, expressões mais______. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoa- sintéticas e significativas no conjunto dos textos consultados, pelo fatomento de Pessoal de Nível Superior. Plano Nacional de Pós- desta análise buscar uma visão geral dos programas da régio sul sobre a temática em análise.Graduação – PNPG 2011-2020. Brasília, DF: CAPES, 2010. 2 v. 4 O conteúdo deste e do seguinte subtítulo decorre de uma revisitação______. Ministério da Educação. Plano Nacional de Pós- de minha prática como docente e pesquisadora no ensino superior e deGraduação – PNPG 2005-2010. Brasília: CAPES, 2005. 262 p. observações e registros realizados ao longo de meu percurso profissional. 5 Trabalho intitulado Universidade e escola: situações formativas e apren-DALE, Roger. Construir a Europa através de um espaço europeu dizagens mútuas, apresentado no VII Congresso Ibero-americano dede educação. Revista Lusofona de Educação, Lisboa, v. 11, Docência Universitária, realizado na Faculdade de Psicologia e Ciênciasp. 13-30, 2008. da Educação da Universidade do Porto, 24 a 27 de junho de 2012. 6 O Edital 38/2010, como iniciativa do MEC, operacionalizada pela CapesFORSTER, Mari Margarete dos Santos. Universidade e e INEP, é um mecanismo de política pública que contempla dentre seusescola: situações formativas e aprendizagens mútuas, VII objetivos específicos o fortalecimento do diálogo entre a comunidadeCongresso Ibero-americano de Docência Universitária, 7, acadêmica, os gestores das políticas nacionais de educação e os diversosPorto, PT: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da atores envolvidos no processo educacional, bem como o incentivo àUniversidade do Porto, 24 a 27 de junho de 2012. articulação entre pós-graduação, licenciaturas e escolas de Educação Básica. Para tanto, admite a formação de grupos de pesquisa com pós-FOUREZ, Gérard. A construção social das ciências: intro- graduandos, alunos de cursos de graduação e professores em efetivodução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora da exercício ou profissionais que exerçam a função de coordenador ouUniversidade Estadual Paulista, 1995. supervisor pedagógico na Rede Pública de Educação Básica (PEB). UmFREITAS, Luiz Carlos de, SORDI, Mara Regina Lemes de, dos elementos mais inovadores e que se constitui num grande desafio, é a vinculação de PEB aos grupos de pesquisa. No caso do projeto queMALAVASI, Márcia Maria Sigrist, FREITAS, Helena Costa coordeno, no ano de 2011, estiveram vinculados 24 PEB atuando comoLopes de. Avaliação educacional: caminhando pela contramão. pesquisadores bolsistas. São docentes, em sua maioria, de redes públicas3. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. municipais, mas também alguns professores da rede estadual. O desafioGATTI, Bernardete Angelina; BARRETO, Elba Siqueira de Sá; da inclusão em um projeto de pesquisa de professores em exercício na Educação Básica decorre de inúmeras questões, desde o tempo que estesANDRÉ, Marli Eliza de Afonso. Políticas docentes no Brasil: professores podem dedicar ao estudo e às demandas do projeto, frenteum estado da arte. Brasília, DF: Unesco, 2011. 300 p. à carga horária exigida por suas escolas e vínculos de trabalho, até suaGATTI, Bernardete Angelina, Formação de grupos e redes de participação em eventos e reuniões do núcleo, além das do subprojetointercâmbio em pesquisa educacional: dialogia e qualidade. a que se vinculam, bem como o nível de conhecimento e vivência de procedimentos de pesquisa que acumularam em sua trajetória escolar.Revista Brasileira de Educação, n. 30, p. 124-181, set./dez. 2005. 7 É importante referir a EBP pois outras áreas de conhecimento e açãoOZGA, Jenny Investigação sobre políticas educacionais. estão adotando esta mesma estratégia de neutralidade, objetividade ePorto, PT: Porto Editora, 2000. racionalidade instrumental. Um exemplo é a MBP (medicina baseada na prova), focada na intensificação da transferência de resultados paraSAUSSEZ, Frédéric; LESSARD, Claude. A educação baseada a prática médica. Trata-se de saber como e se os práticos utilizam asna prova. De que se trata? Quais são suas implicações? In: provas produzidas pelas pesquisas. A MBP tem repercussões no campoFERREIRA, Eliza Bartolozzi; OLIVEIRA, Dadila Andrade da prática clínica e na formação médica, com ênfase na transferência(Org.). Crise da escola e políticas educativas. Belo Horizonte: de resultados da pesquisa para a prática (SAUSSEZ; LESSARD, 2009,Autêntica, 2009. p. 141-160. p. 145). É importante esta discussão pois a interlocução da pós-graduação se faz em diferentes direções e com as demais áreas. Muitas vezes, osSILVA JUNIOR, Celestino Alves da. Fortalecimento das critérios, lógicas e metodologias de outras áreas se impõem por sobrepolíticas de valorização docente: proposição de novos os da educação. Educação, Porto Alegre, v. 35, n. 3, p. 424-433, set./dez. 2012

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