Contextualizando a Escola rural: Rio Grande do Sul final do século XIX e início do século XX

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Contextualizando a Escola rural: Rio Grande do Sul final do século XIX e início do século XX

  1. 1. SÉRIE-ESTUDOSPeriódico do Mestrado em Educação da UCDB
  2. 2. Série-Estudos publica artigos na área de educação, com ênfase em educação escolar e formação de professores de caráter teórico e/ou empírico. Série-Estudos – Periódico do Mestrado em Educação da UCDB, n. 20 (dezembro 2005). Campo Grande : UCDB, 1995. Semestral ISSN 1414-5138 V. 23,5 cm. 1. Educação 2. Professor - Formação 3. Ensino 4. Política Educacional 5. Gestão Escolar.Indexada em:BBE - Biblioteca Brasileira de Educação (Brasília, Inep)EDUBASE - UNICAMPCLASE - Universidad Nacional Autónoma de MéxicoSolicita-se permuta / Exchange is requestedTiragem: 1.000 exemplares
  3. 3. Missão Salesiana de Mato Grosso UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO Instituição Salesiana de Educação Superior SÉRIE-ESTUDOSPeriódico do Mestrado em Educação da UCDBSérie-Estudos – Periódico do Mestrado em Educação da UCDB. Campo Grande-MS, n. 20, p. 1-244, jul./dez. 2005.
  4. 4. UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO Instituição Salesiana de Educação SuperiorChanceler: Pe. Dr. Afonso de CastroReitor: Pe. José MarinoniPró-Reitor Acadêmico: Pe. Jair Marques de AraújoSérie-Estudos – Periódico do Mestrado em Educação da UCDBPublicada desde 1995Editora ResponsávelMargarita Victoria Rodríguez (margarita@ucdb.br)Conselho Editorial Conselho CientíficoAdir Casaro Nascimento Amarílio Ferreira Junior - UFSCarLeny Rodrigues Martins Teixeira Celso João Ferretti - UNISOMariluce Bittar Emília Freitas de Lima - UFSCarRegina Tereza Cestari de Oliveira Fernando Casadei Salles - UNISO Graça Aparecida Cicillini - UFU Hamid Chaachoua - Universidade Joseph Fourier/FrançaPareceristas Ad Hoc Helena Faria de Barros - UCDBAlda Maria do Nascimento Osório - UFMS Jorge Nagle - UMCAlexandara Ayach Anache - UFMS José Luis Sanfelice - UNICAMP/UNISOEulália Henriques Maimone - UNIUBE Luís Carlos de Menezes - USPIvan Russef - UCDB Manoel Francisco de Vasconcelos Motta - UFMTJose Carlos de Araujo - UFU Sonia Vasquez Garrido - PUC/ChileJosefa Aparecida G. Grigoli - UCDB Susana E. Vior - UNLu/ArgentinaJosemar de Campos Maciel - UCDB Vicente Fideles de Ávila - UCDBMarisa Bittar - UFSCar Yoshie Ussami Ferrari Leite - UNESPDireitos reservados à Editora UCDB (Membro da Associação Brasileira das Editoras Universitárias- ABEU)::Coordenação de Editoração: Ereni dos Santos BenvenutiEditoração Eletrônica: Glauciene da Silva Lima SouzaRevisão de Redação: Dulcília SilvaVersão e Revisão de Inglês: Barbara Ann NewmanBibliotecária: Clélia Takie Nakahata Bezerra - CRB n. 1/757Capa: Helder D. de Souza e Miguel P. B. Pimentel (Agência Experimental de Publicidade)Av. Tamandaré, 6.000 - Jardim SeminárioCEP: 79117-900 - Campo Grande - MSFone/Fax: (67) 3312-3373e-mail: editora@ucdb.brhttp://www.ucdb.br/editora
  5. 5. EditorialSérie Estudos: 10 anos de história de divulgação científica na áreada educação O Periódico Série Estudos foi criado em 1995, com o objetivo de socializar e divulgar aspesquisas científicas desenvolvidas na Universidade Católica Dom Bosco, especialmente aquelasproduzidas no âmbito do Programa de Mestrado em Educação. Dez anos se passaram desdeque um grupo de professores liderados pelo professor Vicente Fideles de Ávila e pela professo-ra Conceição Aparecida Galves Buttera, propuseram-se a organizar um meio impresso dedivulgação científica. Nesta longa jornada empreendida no final do milênio, o periódico contoucom a valiosa colaboração de todos os professores vinculados ao Programa de Mestrado emEducação, com o apoio dos dirigentes da Universidade e da equipe da Editora UCDB. Estapublicação ganhou lentamente reconhecimento pela comunidade acadêmica nacional e in-ternacional, prova disto é que nos últimos anos tem recebido contribuições de pesquisadorese educadores de todos os estados brasileiros, assim como de países da América Latina eEuropa. À medida que o grupo adquiriu experiência, foram se consolidando propostas maisaudaciosas, como por exemplo, a organização de cinco dossiês. O primeiro, em 2002, organiza-do pelos professores Marisa Bittar e Amarílio Ferreira Junior (UFSCar), reuniu artigos sobreFormação de Professores; o segundo, sob a organização dos professores Mariluce Bittar eFernando Casadei Salles (UCDB), em 2003, dedicado à temática Diversidade Cultural e Educa-ção Indígena. No mesmo ano, organizou -se o terceiro, sobre a temática Educação Superior,sob a responsabilidade dos professores Marília Morosini (PUCRS), João dos Reis Silva Junior(UFSCar) e Mariluce Bittar (UCDB). No ano de 2004, foi organizado o quarto dossiê, pelaprofessora Regina Tereza Cestari de Oliveira (UCDB) sobre o tema Políticas de financiamentoe gestão educacional e, em 2005, o quinto, dedicado ao tema Comunicação, Educação eNovas Tecnologias, sob a responsabilidade da professora Claudia Maria de Lima. Esta progres-siva organização dos artigos em forma de Dossiê demonstra, por um lado, o crescimento donúmero de articulistas, e, por outro, o próprio amadurecimento da Série-Estudos que adquiriuvisibilidade acadêmica na área da educação no Brasil e no mundo. Portanto, aproveitamoseste número para render homenagem e reconhecimento aos professores que integram oConselho Científico, ao Conselho Editorial, à Editora UCDB, e, especialmente, a todos os editoresque trabalharam pela qualidade científica do periódico e acreditaram na viabilidade do projeto. Neste número 20, continuando com a tradição de socializar as pesquisas produzidasno âmbito nacional e internacional, visando a contribuir com as discussões teóricas emetodológicas da pesquisa em educação, trazemos para o leitor uma série de artigos quediscutem diversas questões sobre a educação. Na sessão Ponto de Vista, o artigo da professora Eurize Caldas Pessanha reflete acercada formação de pesquisadores em educação na região Centro-Oeste; a autora considera que
  6. 6. é um campo de conhecimento que vem se configurando, especialmente após a implantaçãodos cursos de pós-graduação, destacando a importância da organização e consolidação dosgrupos de pesquisa para superar a prática do pesquisador solitário. A sessão Artigos apresenta 13 trabalhos. O primeiro texto, escrito por Adriana Kemp Maas,analisa a interpretação do Brasil e do brasileiro com base nas obras Os Sertões, de Euclides daCunha, Urupês, de Monteiro Lobato, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Parado Jr.,apontando as possíveis implicações dessas interpretações no campo da educação. No segundo artigo, Alaíde R. Doatoni e Otaviano J. Pereira discutem as mudançascomunicacionais e o uso das novas tecnologias no campo educacional e as contribuições edesafios para a formação de professores. O texto de Cláudia Maria Mendes Gontijo apresenta os resultados de uma pesquisasobre apropriação da linguagem escrita em crianças, utilizando o referencial teórico-metodológicoda perspectiva histórico-cultural na Psicologia. Na seqüência, Célio Juvenal Costa analisa as características da formação do padrejesuíta nos primeiros decênios da Companhia de Jesus, no Brasil, caracterizada pela tradiçãoescolástica de formação rigorosa e disciplinar. O artigo de Flávia Obino Corrêa Werle explica como a realidade educacional rural eraconcebida no estado do Rio Grande do Sul, antes da constituição da Escola Normal Rural combase em análise documental de fontes oficiais. O texto de Javier Hermo e Cecília Pittelli aborda as reformas educativas da Argentina eChile, em uma perspectiva comparada apontando características comuns tanto no que serefere às suas diretrizes, quanto na sua implementação, no sentido de contribuir para com umdebate da “reforma da reforma”. José Joaquim Pereira Melo, por sua vez, nos oferece algumas reflexões sobre a propostade educação de Sêneca e o papel que atribui ao sábio, considerado o ponto culminante dadinamica formativa. O texto de José Licínio Backes é resultado de sua pesquisa de doutorado, na qualproblematiza a dicotomia alta e baixa cultura na produção das identidades e diferenças, en-tendidas como uma produção social e cultural, fundamentando-se no campo teórico dosestudos culturais pós-estruturalistas. No artigo da Maria Alice de Miranda Aranda e Ester Senna são analisadas as contradi-ções do processo de democratização e a Constituinte Escolar da Rede Estadual de Ensino deMato Grosso do Sul, no período 1999-2000. O texto de Maria Aparecida de Lima Madureira, Sergio Marcos Rodrigues da Silva eJorge Luis Cammarano Gonzalez, procura interpretar e entender os possíveis determinantesdas reformas educacionais implantadas nos anos de 1990, considerando que em uma pers-pectiva técnico-produtiva do capital, a educação escolar para o trabalho e a cidadania, acabamproduzindo a subordinação e alienação do trabalho. No texto seguinte, Maria Lucia de Amorim Soares discute as “novas” tecnologias e amediação do ensino, no contexto da comunicação e suas implicações na prática do professor. O artigo de Ruth Pavan apresenta os resultados de pesquisa realizada no doutoradoem que analisa a reflexão dos professores de Educação de Jovens e Adultos sobre a exclusão
  7. 7. social no âmbito da hegemonia neoliberal que visa à mercantilização das relações humanase suas conseqüentes implicações na educação escolar. O trabalho de Theresa Adrião e Teise Garcia traz os resultados parciais da pesquisa queanalisa a implantação do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) na rede estadual deensino do Estado de São Paulo e na rede municipal da cidade paulista de Pirassununga,mostrando as diferenças da gestão dos recursos em ambas as redes. Por fim, na seção Resenhas, Altemir Luiz Dalpiaz analisa a obra Educação E Diferenças:desafios para uma escola intercultural, 6º volume da “Coleção Teses e Dissertações em Educa-ção” da Editora UCDB (2005), constituída por capítulos escritos por docentes e discentes vincu-lados à Linha de Pesquisa: Diversidade Cultural e Educação Indígena, do Programa de Mestradoem Educação da UCDB. Conselho Editorial Dezembro/2005
  8. 8. SumárioPonto de VistaPesquisa e formação de pesquisadores em educação no Centro-Oeste – Tendênciase perspectivas ............................................................................................................................................................................. 13Research and the training of researchers in education in the Mid-West – tendenciesand perspectives ....................................................................................................................................................................... 13 Eurize Caldas PessanhaArtigosA interpretação do Brasil e do brasileiro e suas implicações no campo da educação........... 29The interpretation of Brazil and of the Brazilian and the implications in the field ofeducation ...................................................................................................................................................................................... 29 Adriana Kemp MaasRevolução comunicacional global, educação escolar e formação de professores:possibilidades e limites ...................................................................................................................................................... 47Global revolution in communication, schooling and teacher training: possibilities andlimits ................................................................................................................................................................................................. 47 Alaíde R. Donatoni Otaviano J. PereiraLembrar... nomes e formas das letras ........................................................................................................................ 63Remembering... names and letter formation ....................................................................................................... 63 Cláudia Maria Mendes GontijoA formação do padre Jesuíta no século XVI ......................................................................................................... 79The training of the Jesuit priest in the 16th Century ...................................................................................... 79 Célio Juvenal CostaContextualizando a escola rural: Rio Grande do Sul final do século XIX e início do XX .......... 97Contextualizing the rural school: Rio Grande do Sul at the end of the 19th Century andthe beginning of the 20th ........................................................................................................................................................................................................................................................ 97 Flávia Obino Corrêa WerleEjes de una reforma educativa integral ................................................................................................................ 111Directions for an integral educational reform .................................................................................................. 111 Javier Hermo Cecilia Pittelli
  9. 9. Sêneca: o papel do sábio na formação da humanidade .......................................................................... 129Seneca: the role of the sage in the formation of humanity ................................................................... 129 José Joaquim Pereira Melo“O povo não tem cultura! nós temos cultura porque...”: efeitos de uma dicotomia ............... 143“The people do not have culture! We have culture because…”: effects of a dichotomy .......... 143 José Licínio BackesA Constituinte Escolar da rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul (1999 a2001): acertos e desacertos com a democracia .............................................................................................. 153The School Constituent of the state teaching network of Mato Grosso do Sul (1999 to2001): fitting in and misfitting with democracy ........................................................................................... 153 Maria Alice de Miranda Aranda Ester SennaReformas educacionais, cultura e cotidiano escolar .................................................................................... 175Educational reforms, culture and daily school routine ............................................................................... 175 Maria Aparecida de Lima Madureira Sergio Marcos Rodrigues da Silva Jorge Luis Cammarano GonzalezDe semióforos, glocalização e redes: novas tecnologias na escola ................................................... 195Of “semióforos”, “glocalização” and networks: new technologies in the school ....................... 195 Maria Lucia de Amorim SoaresA educação, o/a educador/a e a exclusão social ........................................................................................... 205Education, the educator and social exclusion .................................................................................................. 205 Ruth PavanPrograma Dinheiro Direto na Escola: estudos de dois casos paulistas .......................................... 219“Money Straight into to the School” Program: studies of two cases in São Paulo ................. 219 Theresa Adrião Teise GarciaResenhaEducação e diferenças: desafios para uma escola intercultural .......................................................... 229Education and differences: challenges for an intercultural school ................................................... 229 Altemir Luiz Dalpiaz
  10. 10. Ponto de Vista
  11. 11. Pesquisa e formação de pesquisadores emeducação no Centro-Oeste – Tendências eperspectivasResearch and the training of researchers in educationin the Mid-West – tendencies and perspectivesEurize Caldas Pessanha Doutora em Educação – Docente do Programa de Pós- graduação em Educação da UFMS. e-mail: eurizep@hotmail.comResumoO objetivo deste artigo é apresentar algumas considerações e reflexões sobre o processo de formação depesquisadores em educação no Brasil, focalizando, especificamente, a história da pesquisa em educaçãono Centro-Oeste. Considerações fundamentadas nas análises que os pesquisadores da área vêm produ-zindo, pelo menos desde 1971, quando foi publicada a primeira revisão da produção na área (GOUVEIA,1971), e na experiência da autora como pesquisadora, formadora de pesquisadores e membro da Comis-são governamental que avalia os programas de formação de pesquisadores da área de educação. Asnoções de campo e habitus de Bourdieu são a base para as reflexões sobre os dados obtidos nas revistasda área e nas bases de dados da Capes e do CNPq. A autora sustenta que a preparação de pesquisadoresna área de educação, no Brasil, reflete a história de um campo cuja configuração é resultado de lutas edisputas por legitimação, inclusive epistemológica.Palavras-chavePesquisa educacional; formação de pesquisadores.AbstractThe aim of this paper is to present some considerations and reflections on the process of training researchersin Education in Brazil. These considerations are founded on analyses which researchers in the area havebeen producing since at least 1971 when the first revision of such production in the area was published(GOUVEIA, 1971), and on the experience of the authoress as a researcher and a trainer of researchers andmember of the government Commission that evaluates programmes which train researchers in the area ofeducation. Bordieu’s notions of field and habitus are the basis for the reflections on the data obtained inthe magazines in the area and on the data bases of Capes and of CNPq. The authoress maintains theposition that the preparation of researchers in the area of education in Brazil reflects the history of a field,the configuration of which is the result of struggles and disputes for legitimation, including epistemological.Key wordsEducational research; training of researchers. Série-Estudos - Periódico do Mestrado em Educação da UCDB. Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005.
  12. 12. A motivação imediata deste texto foi objetiva e independem da consciência hu-o convite que recebi para proferir a confe- mana e que é nessa estrutura objetiva,rência de abertura do III Seminário de Pes- expressa na hierarquia de posições, nas tra-quisa do Programa de Pós-Graduação – dições, instituições e histórias a ele relacio-Mestrado em Educação da UCDB, realiza- nados que os indivíduos adquirem o con-do em agosto de 2005. No entanto, sua junto de disposições que lhes permite agirmotivação mais ampla são as reflexões de acordo com as possibilidades existen-que venho realizando como formadora de tes no interior dessa estrutura objetiva: opesquisadores e pesquisadoras há mais de habitus,. Bourdieu (1983; 2004), oferece10 anos, desde a apresentação de uma uma instigante chave de análise para essedissertação de mestrado por mim orientada propósito.e, muitos anos antes, durante a orientação Nessa direção, o objetivo deste artigode monografias de especialização. é apresentar algumas considerações e refle- Todos que já levaram “a termo” (ex- xões sobre o processo de formação de pes-pressão estranha, mas adequada, por se quisadores em educação no Brasil, focalizan-tratar de um “parto” teórico) sabem – e do, especificamente, a história da pesquisaquem está no meio de sua elaboração pro- em educação no Centro-Oeste. Considera-vavelmente não faz idéia – como esse pro- ções fundamentadas nas análises que oscesso “sacode” certezas, provoca perplexi- pesquisadores da área vêm produzindo, pelodades ou confirma, abala ou restaura fun- menos desde 1971, quando foi publicada adamentos teórico-metodológicos. Os obje- primeira revisão da produção na áreatos de pesquisa, seus recortes, sua história, (GOUVEIA, 1971), e na experiência da autoraa produção de conhecimento na área, os como pesquisadora, formadora de pesqui-caminhos metodológicos são alguns dos sadores e membro da Comissão governa-temas dessas “perplexidades”. mental que avalia os programas de forma- Sempre em pauta: a formação de ção de pesquisadores da área de educação1.pesquisadores. Nesse sentido, sustento que a prepa- Um dos elementos chave desse pro- ração de pesquisadores na área de educa-cesso de formação, geralmente, pouco apro-fundado nos cursos de formação de pesqui- ção no Brasil reflete a história de um camposadores, é a noção de que cada projeto, cuja configuração é resultado de lutas e dis-cada pesquisa realizada e cada conheci- putas por legitimação, inclusive, episte-mento novo produzido inserem-se em uma mológica. Para argumentar em favor destadeterminada área de conhecimento com hipótese, o texto está organizado em duassuas características, lutas internas e exter- partes: 1. O campo da educação e o proces-nas, suas histórias de rupturas e continui- so de formação de pesquisadores em educa-dades que a caracterizam como um campo. ção no Brasil; 2. Tendências e perspectivas Ao afirmar que as relações internas da pesquisa e da formação de pesquisado-em cada campo são definidas de forma res na área de educação no Centro-Oeste. 14 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  13. 13. Parte 1 – O campo da educação e o ção e Pesquisa em Educação-ANPEDprocesso de formação de criada em 1976, cuja finalidade é a buscapesquisadores em educação no Brasil do desenvolvimento e da consolidação do ensino de pós-graduação e da pes- Como mencionamos, as noções de quisa na área da Educação no Brasil ;campo e de habitus formulados por 3. A avaliação dos Programas de pós-gra-Bourdieu constituem importantes instru- duação instituída pela CAPES, Coorde-mentos teóricos para se analisar como se nação de Aperfeiçoamento de Pessoalforma um determinado campo científico, de Nível Superior, em 1976;como é o caso da educação, a partir das 4. Os Cadernos de Pesquisa, revistadefinições sobre o que pode ser considera- publicada pela Fundação Carlos Chagasdo científico em determinado momento2. desde 1971 com o objetivo de “divulgarRazão pela qual considero importante re- a produção acadêmica sobre educação,tomar parte da história do campo da edu- gênero e raça, propiciando a troca de in-cação no Brasil. formações e o debate sobre as principais Há algum tempo, o campo de educa- questões e temas emergentes da área. Ação no Brasil vem se dedicando sistematica- revista privilegia a disseminação das pes-mente a produzir análises periódicas refletin- quisas realizadas no país, embora publi-do sobre as bases e rumos de sua produ- que também estudos provenientes do ex-ção. Desde o primeiro desses “balanços” - o terior” (apresentação da revista no http:/texto de Aparecida Joli Gouveia inauguran- /www.scielo.br); constituindo-se comodo a revista Cadernos de Pesquisa, em uma das principais referências para o1971 – essas análises constituíram-se em estudo da história da pesquisa em Edu-importantes marcos de periodização para cação no Brasil, pela publicação sistemá-estudar a história da pesquisa em Educação tica de balanços na área.no Brasil e, conseqüentemente, para anali- Analisando os artigos com revisõessar a formação de pesquisadores na área. publicados na revista Cadernos de Pesquisa, Embora a criação do Instituto Nacio- os Documentos da Área produzidos pelasnal de Estudos Pedagógicos-INEP, em 1938, Comissões de avaliação e documentos di-tenha sido a primeira iniciativa oficial de vulgados pela ANPED, parece claro que afomentar e organizar a pesquisa educacio- história da pesquisa em Educação no Brasilnal no Brasil, outros espaços institucionais foi marcada por alguns passos.tornaram-se ao longo do tempo a base da O primeiro passo foi a sua própriaestrutura objetiva do campo, na qual se ins- configuração como um campo, cujo marcotituem os habitus analisados por Bourdieu. inicial foi o artigo de GOUVEIA (1971)3 que,1. Os programas de pós-graduação em edu- inaugurando a revista Cadernos de Pesqui- cação criados a partir dos anos de 1960; sa, inicia a reflexão sobre a pesquisa2. A Associação Nacional de Pós-gradua- educacional no Brasil. Embora a década deSérie-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005. 15
  14. 14. 1920 seja o marco da formação da da análise de temas e sumários de proje-intelligentzia educacional brasileira, o artigo tos em andamento ou concluídos desdede Gouveia pode ser considerado o discur- 1970, do exame de estudos publicados naso inaugural da reflexão do campo sobre revista Cadernos de Pesquisa e de infor-si mesmo. mações sobre trabalhos que se realizam em O caráter inaugural desse artigo não instituições localizadas na cidade de Sãoreside apenas no seu ineditismo e propósi- Paulo, obtidas diretamente de pesquisado-tos, reside, principalmente, na percepção da res” (GOUVEIA, 1976, p. 75); e um artigo denecessidade de definir o que era pesquisa Franco e Goldberg, do mesmo ano, proble-educacional, isto é, de determinar que obje- matizando a necessidade de se estabele-tos identificavam uma pesquisa como sen- cer prioridades para a pesquisa educacio-do de educação, uma vez que os lócus de nal discutindo os critérios de relevância.realização ou divulgação (Centro Brasileiro As atividades de mapeamento e aná-e Centros Regionais de Pesquisas Educaci- lise da produção da área; a necessidadeonais, INEP, Universidades) não eram sufi- de definir os objetos que caracterizam acientes para definir sua inserção no campo. área, a discussão sobre os lócus de pesqui- Para os propósitos do levantamento sa que deveriam ser privilegiados, sobre arealizado, Gouveia classificou como pesqui- formação dos pesquisadores e sobre asa educacional priorização de temáticas de pesquisa ba- (...) qualquer estudo que incida em uma seada em critérios de relevância, autorizam ou mais das seguintes áreas: a caracterização desse momento como o a) a situação escolar ou algum de seus momento em que o campo assume que aspectos (aprendizagem, métodos de en- possui uma configuração própria o discur- sino, material didático, alunos professo- so inaugural da reflexão do campo res, etc...); sobre si mesmo. b) o sistema escolar (o conjunto dos dife- Como se observa nos artigos publi- rentes níveis e tipos de escola, cadeias de cados durante as duas décadas seguintes, comando na administração da educação, as questões sobre as quais o campo se os mecanismos de controle, etc...); debruçou e que revelaram as tensões den- c) as relações entre a escola (ou o siste- tro de suas “estruturas objetivas” foram: ma escolar) e o sistema social mais am- 1.A relevância e as prioridades das plo, em seu conjunto ou em algum de temáticas4; seus aspectos (GOUVEIA, p. 6). 2.As questões metodológicas5; Dois outros artigos completam a 3.A relação entre a pesquisa e a pós-gra-caracterização desse momento inaugural: duação6.o artigo da mesma autora, cinco anos de- Nos últimos cinco anos, surgiram ospois do primeiro, no qual pretendeu “apre- “balanços dos balanços”, quase sempreender a situação em que se encontra a motivados pelas datas comemorativas dospesquisa sobre educação no Brasil, a partir programas de pós-graduação, da revista 16 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  15. 15. Cadernos de Pesquisa e da própria ANPED7. Figura 1. Mestres e doutores titulados nos A estreita vinculação entre a história programas de pós-graduação em Educa-da pesquisa e dos cursos de formação de ção no Brasil no período de 1996 a 2003pesquisadores no Brasil autoriza a análisedessa formação a partir da história do campo. Desde a primeira reflexão sobre ocampo, já se manifestava a preocupaçãocom a formação dos pesquisadores.Gouveia identificou que os pesquisadoresdo INEP e dos centros de pesquisa não tive-ram nenhuma formação específica uma vezque eram formados em Pedagogia porFaculdades de Filosofia, cujo corpo docenteera pouco familiarizado com as técnicas dapesquisa empírica; ou Cientistas Sociais, com A história da pós-graduação noexperiência em coleta de dados e análise Brasil foi o tema central da última Reuniãoquantitativa de dados. Como conclusão, a Anual da ANPED, em outubro de 2005.autora propôs que a formação de pesqui- Vários ângulos de análise foram assumi-sadores em educação se fizesse nas univer- dos pelos diversos autores evidenciandosidades em programas de pesquisa dos que a relação entre a pós-graduação e aquais participassem alunos e professores formação de pesquisadores é cada vezde pós-graduação. mais estreita. Muito provavelmente, essa propos- Pode-se mesmo afirmar que a pes-ta refletia os rumos que a, ainda incipiente, quisa em educação no Brasil é realizadapós-graduação em educação estava assu- pelos titulados nos Programas de pós-gra-mindo. Tendo se iniciado em 1965, a pós- duação, uma vez que os órgãos financia-graduação em educação no Brasil tornou- dores exigem titulação de doutorado dosse o lugar por excelência de formação dos coordenadores das propostas apresenta-pesquisadores em educação, lócus de pro- das. Mesmo nas instituições nas quais odução e de discussão do conhecimento na número de doutores é menor, exige-se, peloárea. Baseando-se apenas nos dados dis- menos o título de mestre dos autores deponíveis na CAPES, sobre a quantidade de projetos de pesquisa.mestres e doutores titulados no Brasil pelos Os Programas de pós-graduação emprogramas de pós-graduação em educa- educação constituem-se, portanto, no lócusção, percebe-se que, em 8 anos, o número formador dos pesquisadores na área dede titulados triplicou. educação. Segundo as orientações especí- ficas da área de educação, a pesquisa é o eixo dessa formação. Para aprovar a criação de um novo curso de mestrado, além deSérie-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005. 17
  16. 16. outros requisitos, a área exige que a insti- premissa adquire sentido bem concreto paratuição demonstre a existência de ambiência aqueles que, como nós, não concebem ade pesquisa – “mínimo de dois anos de docência, especialmente no ensino superior,pesquisa instalada na instituição, na área sem base na pesquisa. Para além do fa-de Educação, sob responsabilidade do moso tripé – ensino, pesquisa e extensão –Núcleo de Docentes Permanentes do Pro- venho defendendo que a pesquisa é o eixograma, com projetos e produtos de pesqui- e o motor das outras duas faces do ensinosa: relatórios e publicações”; e um Progra- superior: o ensino e a extensão.ma cujo perfil evidencie a “articulação en- Eixo porque é o elemento que vaitre linhas de pesquisa, estrutura curricular, imprimir a direção do processo, e motorprojetos de pesquisa e seus produtos, indi- porque, sem produção de conhecimento, acando de modo claro e coerente o empe- formação no ensino superior fica reduzidanho do Programa em formar profissionais ao repasse de informações e a umade alto nível” (CAPES, Portal). pseudo-profissionalização, características das instituições tipicamente de ensino, que,Parte 2 – Tendências e perspectivas como afirmou Dourado, constituem a maio-da pesquisa e da formação de ria da IES da Região Centro-Oeste:pesquisadores em educação no das 198 IES, apenas 12 são universidadesCentro-Oeste: que em tese se organizam a partir da indissociabilidade entre ensino, pesquisa Nesta segunda parte do artigo, dirijo e extensão” (DOURADO, 2004, p. 6).o foco de minhas reflexões para as tendên- A partir dessa premissa, o texto decias e perspectivas de pesquisa nos progra- Dourado (2004, p. 2).mas de pós-graduação em educação da busca situar os paradoxos do processo deregião Centro-Oeste. expansão e privatização da educação su- Para debater essas reflexões, inicio perior e, ainda, situar alguns indicadoresretomando algumas idéias que expus no da institucionalização da pesquisa noVII EPECO, realizado em Goiânia, em 2004, Brasil e na região Centro-Oeste e apresentacomo debatedora do texto de Luis Dourado algumas ações a serem implementadas objetivando o fortalecimento das IES daPolíticas de educação superior e pesquisa região Centro-Oeste e a garantia denas IES do Centro-Oeste: limites e pers- indissociabilidade entre ensino, pesquisapectivas. e extensão no interior destas IES. O texto de Dourado (2004, p. 2) par- Para alcançar esses objetivos e par-te da premissa básica “de que a pesquisa tindo da premissa básica, o autor foi bus-constitui um dos núcleos essenciais da edu- car seus dados empíricos nos indicadorescação superior, em uma perspectiva forma- do Diretório dos grupos de Pesquisa dotiva emancipatória”. CNPq e chegou a conclusões realmente Quase um lugar comum em todos provocadoras, das quais, vou destacar eos discursos sobre ensino superior, esta comentar algumas: 18 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  17. 17. 1º A distribuição dos grupos de pesquisa constatando que: segundo a região geográfica indicou, 1º Os grupos de pesquisa cadastrados no em 2002, a concentração desses gru- CNPq constituem um universo maior do pos, respectivamente, nas regiões Su- que as linhas e projetos de pesquisa deste (52%), Sul (24%). A região Cen- dos programas da área de Educação. tro-Oeste responde por apenas 5,3% Isso poderia indicar um potencial mai- dos grupos de pesquisa no banco de or de pesquisadores? Os Programas já dados do CNPq. A referida região am- examinaram as listas dos grupos de pliou o número de grupos de pesquisa suas instituições para verificar as possi- de 183, em 1993, para 809 em 2002, bilidades de articulação? iniciando um processo de recomposi- 2º As linhas de pesquisa dos Programas ção da participação da região certa- de Pós-graduação da Região guardam mente articulado ao esforço de relação estreita: verifiquei por palavra institucionalização da pós-graduação chave e há temáticas que se repetem stricto sensu. em até quatro programas.2º A concentração dos grupos de pesqui- Naquela ocasião, referendando o sas nas IFES da região que respondem conferencista, propus que se discutisse o de- por 71,7% dos grupos de pesquisa da senvolvimento de ações coordenadas e ar- região o que, certamente, indica o pe- ticuladas pelas IES da região, objetivando queno número de grupos de pesquisa o fortalecimento institucional e o enfrenta- nas demais IES: estaduais, confessionais mento de questões sociais, bem como, pela e privadas. definição e consolidação de áreas de pes-3º Em termos nacionais há um predomí- quisa a serem priorizadas visando ao de- nio de duas áreas de conhecimento: senvolvimento tecnológico e avanço do Medicina e Educação que são respon- conhecimento. sáveis, respectivamente, por 6,1% e 6,0% Ainda com essas premissas, decidi dos grupos nacionais. agora, trabalhar as mesmas fontes de dados,4º A partir desses dados é notória a neces- mais preocupada com o apoio do CNPq aos sidade de fortalecimento institucional da docentes dos programas da região. pesquisa e melhor distribuição dos gru- É preciso lembrar que o Diretório dos pos entre as IFES da região. grupos de pesquisa do CNPq é apenas um banco de dados. Pertencer a um Grupo Procurando aprofundar esses dados credenciado pela instituição e cadastradoexaminei as listas dos grupos de pesquisa no Diretório indica apenas que estão sendoda área de Educação no Diretório do CNPq divulgadas as temáticas, linhas de pesquisae comparei com as linhas de pesquisa dos e objetos sobre os quais o grupo vem pes-programas de Pós-graduação em Educa- quisando. Não indica apoio do CNPq noção do Centro-Oeste (Fonte coleta/CAPES), sentido real, de financiamento.Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005. 19
  18. 18. Esse apoio real, ou a falta dele, cons- A questão que orientou minha buscatitui um dos mais importantes elementos aos bancos de dados em relação às tendên-na constituição do campo e na aquisição cias e perspectivas da pesquisa emdo “corpo de disposições que lhes permite educação na Região Centro-Oeste dizia res-agir de acordo com as possibilidades exis- peito exatamente ao apoio do CNPq: pro-tentes no interior dessa estrutura objetiva: curei saber como essa agência de fomentoo habitus”, retornando a Bourdieu. vem apoiando os pesquisadores dos Pro- O financiamento de pesquisas pelas gramas de Pós-Graduação em Educaçãoagências de fomento não só viabiliza a dessa região8.sua execução como também as legitima Tendo como fonte, os Currículospois, pelas regras de cada agência, o pro- Lattes dos pesquisadores (83) do grupo dejeto é submetido à análise de consultores docentes permanentes dos programas dead-hoc e de comitês específicos por áreas. pós-graduação (NRD6 em 2003) em edu-O CNPq é a mais importante agência de cação do Centro-Oeste, verifiquei quantosfomento, sendo praticamente a única no apresentavam “histórico no CNPq”9 e, des-caso do Centro-Oeste, uma vez que as ses, quantos receberam financiamento paraagências estaduais além de incipientes, pesquisa, quer seja sob a forma de Auxílioquase não financiam pesquisas na área à Pesquisa quer seja sob a forma de bolsade ciências humanas. de Produtividade de Pesquisa.Figura 2. Comparação do apoio do CNPq aos docentes dos Programas dePós-Gradua-ção em Educação da região Centro-Oeste. 20 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  19. 19. Figura 3. Apoio do CNPq aos docentes conhecimento na área de educação no Cen-dos Programas de Pós-Graduação em Edu- tro-Oeste? Que história nos conta essa história?cação da região Centro-Oeste Estaria essa história relacionada com os vários momentos da história dos sucessivos “estados da arte” realizados pela própria área de educação? Como já mencionado anteriormente, a pesquisa em educação no Brasil, embora tenha se iniciado com a criação do INEP e do CBPE, só adquiriu contornos de campo de conhecimento a partir da criação dos cursos de pós-graduação stricto sensu, ao final da década de 1960 (PUC-Rio, em 1965, e da PUC-SP, em 1969), alguns dos quais fundaram a ANPED em 1976. Como todo “campo”, sua história éFONTE: Currículos Lattes dos docentes NRD6/2003 dosde Pós-Graduação em Educação da região Centro-Oeste permeada de conflitos, continuidades e– acessados em 12/8/2005. rupturas. Os dados apenas referendam as con- A noção de conflitos nunca foi tão ex-clusões de Dourado sobre a concentração plícita quando da publicação, em 1993, dodos grupos no Sul e no Sudeste, ou, para Balanço, literalmente um balanço, em “A pro-ser mais explícita, a rarefação dos grupos dução discente dos programas de pós-nas demais regiões, mas reforçam essa idéia graduação em educação no Brasil” (1982-mostrando que apenas 32% dos pesqui- 1991) In: Avaliação e perspectivas na área desadores dos Programas de Pós-Graduação educação. Porto Alegre: ANPED, 1993.em Educação da região Centro-Oeste rece- Ao dissecar a produção de conheci-beram, durante toda a sua carreira como mento realizada na Pós-Graduação empesquisadores, apoio financeiro do CNPq Educação, já com 30 anos de história, apara seu ofício de pesquisar. autora provocou reações diversas dentro da Cabe lembrar também que as regiões área: perplexidade foi a mais suave.Norte e Nordeste vêm sendo alvo de pro- Vou destacar uma das conclusões dogramas específicos para formação e fixação trabalho que me parece bem pertinentede pesquisadores. Só muito recentemente para a análise da história dos Programasesses programas começaram a contemplar da região Centro-Oeste:a região Centro-Oeste e não incluem a área A dispersão e a variação temática (aponta- das por GATTI, 1982, p. 69) continuam a serde Ciências Humanas. características predominantes sobre a uni- Mas, que história nos contam esses dade e a continuidade. Não se trata de diver-dados? Haveria uma história da produção do sidade, traço positivo a ser conquistado eSérie-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005. 21
  20. 20. preservado, mas de: a) fragmentação de te- Educação etc...). Hoje, todos os programas mas numa multiplicidade de subtemas ou se organizam em 28 Linhas de pesquisa assuntos; b) pulverização dos campos temáticos e c) descontinuidade no trato dos que, em maior ou menor grau, guardam assuntos. relação com objetos de pesquisa mais do Convém destacar que a Tabela 18,1 que com subáreas de conhecimento.do referido trabalho indica a distribuição As linhas de Pesquisa dos Progra-das temáticas das dissertações e teses por mas de Pós-graduação em Educação da15 grandes temas, subdivididos em região Centro-Oeste são as seguintes, porsubtemas, num total de 118, fazendo com ordem de início.que nenhum deles incluísse mais de 5% das 1. Educação e meio ambientedissertações e teses. 2. Filosofia na educação Não exagero ao afirmar que essa 3. História da educaçãoconstatação, embora refutada por alguns 4. Educação e psicologiapesquisadores da área, foi a base para a 5. Avaliação em educaçãoguinada dos programas na direção de sua 6. Política gestão e economia da educaçãoorganização em linhas de pesquisa que, em 7. Sociologia da linguagem e educaçãotese, evitaria essa dispersão. Claro que essa 8. História e historiografia da educaçãotendência foi fortemente induzida pelas 9. Saberes e práticas educativassucessivas avaliações da Capes que 10. Estado e políticas públicas de educaçãopassaram a valorizar os programas que se 11. Escola, sociedade, culturaorganizavam em linhas de pesquisa e pelo 12. Instituições e políticas educacionaisCNPq que iniciou o cadastramento dos gru- 13. Teorias da educação e processos peda-pos nos Diretórios dos Grupos de Pesquisa gógicosem 1993. 14. Formação de professores e organização Voltando ao Centro-Oeste: a Pós-Gra- escolarduação em Educação nesta região, ao con- 15. Dinâmica curricular e ensino-aprendi-trário do que possa parecer, não é tão jovem, zagemo primeiro programa foi criado em 1974, e 16. Políticas educacionais, gestão da escolamais da metade dos programas (5) data e formação docenteda década de 1980. 17. Educação em ciências Na década de 1990, seguindo a ten- 18. Práticas pedagógicas e suas relaçõesdência nacional, os programas da região com a formação docentecomeçaram a se organizar em Linhas de 19. Movimentos sociais política e educaçãopesquisa que, inicialmente, guardavam popularhomologia com as disciplinas, vestígio dos 20. Ensino de ciências e matemáticaprimeiros anos da Pós-Graduação quando 21. Cultura e processos educacionaisa pesquisa ainda não era o seu eixo e 22. Educação cultura e disciplinas escolaresmotor (História da Educação, Filosofia da 23. Educação, trabalho e movimentos sociais 22 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  21. 21. 24. Educação, indivíduo e sociedade apontadas nos sucessivos “estados da arte”25. Estado e política educacional que a área vem divulgando, desde os dois26. Formação e profissionalização docente artigos fundamentais de Aparecida Joli27. Educação e linguagem Gouveia (GOUVEIA, 1971 e 1976; FRANCO28. Educação e movimentos sociais & GOLDBERG, 1976; GATTI, 1982; WEBER, políticas e gestão em educação 1992; WARDE, 1993).29. Magistério e processos de aprendizagem É preciso deixar claro que não estou30. Políticas públicas e gestão da educação indicando que a história regional repete ou básica copia a história nacional; estou afirmando31. Políticas públicas e gestão da educação a inserção dos Programas de Pós-Gradua- superior ção em Educação da Região Centro-Oeste32. Tecnologias de comunicação e informa- nesse campo. ção na educação Muitas interrogações e possíveis33. Educação e trabalho objetos de pesquisa emergem das reflexões34. Diversidade cultural e educação indígena apresentadas até agora. Para concluí-las Não fiz o cruzamento desses dados quero voltar à motivação mais ampla des-com os dos demais programas de Pós-Gra- te texto, enunciada acima: minha preocupa-duação em Educação do país, mas posso ção com a formação de pesquisadores eafirmar que essa tendência é nacional. O pesquisadoras e reforçar uma das tendên-próprio Documento da Área, divulgado ao cias encontradas, qual seja a organizaçãofinal da avaliação do triênio passado, afir- dos Programas em Linhas de pesquisa.ma que Concordando com as sucessivas ori- entações dos Documentos de Área produ- A CA-ED observou, pela análise dos rela- tórios do triênio, a tendência de constitui- zidos ao final de cada período de Avaliação ção de linhas de pesquisa extremamente da CAPES, que enfatiza a necessidade de abrangentes. Tal abrangência facilita a que o programa mostre a organicidade, inclusão de projetos de pesquisa das mais coerência e consistência de sua proposta e variadas temáticas, mas, de forma algu- sugere enfaticamente a organização em ma, assegura a organicidade da proposta. A questão se agrava ao se perceber que Linhas de Pesquisa, defendo esta forma de muitas vezes as temáticas de teses e, so- organização como a mais favorável para bretudo, dissertações, guardam pouca ou a formação de pesquisadores. nenhuma relação com os projetos e mes- Sendo a configuração de uma neces- mo com as linhas (CAPES, 2004). sária restrição temática, à qual devem estar Nesse sentido, como não poderia fortemente articulados, projetos de pesqui-deixar de ser, a história do campo na região sa e a estrutura curricular do programa e,Centro-Oeste não é diferente da história conseqüentemente, tenha como seu produ-nacional. Com certeza, se formos analisar to a produção intelectual docente e discente,a história das temáticas da região, vamos incluídas as teses e dissertações, as Linhasencontrar a mesma história das tendências de Pesquisa inserem as orientações de te-Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 13-26, jul./dez. 2005. 23
  22. 22. ses e dissertações em uma rede de proteção Nenhuma formação teórico-metodológicapara orientadores e orientandos. é garantia de êxito de investigação. Ela é um dos componentes da investigação e Considerando a produção de conheci- deve ser um componente fundamental.mento uma atividade precipuamente coletiva, Não há pesquisa rica feita por sujeito ig-não apenas no sentido de que se insere, como norante, mas só o sujeito culturalmenteum novo elo, na produção da humanidade, rico não constitui garantia para o êxito damas, no próprio processo de produção – em- pesquisa ( NETTO, J. P., 1997).bora o produto possa ser individual, ninguém A organização em Linhas de Pesqui-pesquisa sozinho; a orientação de teses e dis- sa é apenas um dos componentes da for-sertações também precisa ser coletiva. mação de pesquisadores, a meu ver, um E a organização em Linhas de Pes- componente fundamental, mas não é ga-quisa vem se mostrando a forma mais efi- rantia nem a única forma de fazê-lo.ciente de orientação, minimizando o cará-ter de trabalho solitário dos mestrandos e Notasdoutorandos e a cumplicidade exclusiva dos 1 Comissão de Acompanhamento e Avaliação da CAPES. 2orientadores. Ao perceber seu trabalho como Este trabalho segue apenas a trilha seguida por outros pesquisadores brasileiros como Moreiraparte de uma história de produção de (2002) que utilizou o mesmo conceitoconhecimento, a história da Linha de Pes- “bourdieusiano” para analisar o campo do currículo. 3quisa em que se insere, orientandos e Com o objetivo de apresentar uma visão geral daorientadores percebem que partem de um situação da pesquisa educacional no Brasil, a auto- ra analisou pesquisas publicadas no período de 1965patamar já estabelecido a partir do qual a 1970, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.seu trabalho pode alçar vôo. 4 Esteves (1984); Franco (1984) Vieira (1985); Mello Nesse momento, fechando meu tex- (1983). 5to, preocupo-me com a possibilidade de Gatti, (1982); Mello (1982); Gouveia (1985); Vieira (1988).estar sendo muito restritiva, dando a im- 6 Gatti (1983); Warde (1990); Cunha (1991); Weberpressão de que conheço os caminhos e sei (1992). 7como chegar ao lugar que procuro. Preciso André (2001); Gatti (2001 e 2002). 8 No Coleta Capes há informação de 16 projetosentão, recorrer a José Paulo Netto: a orga- financiados por outras agências em 2003 (FAPEMAT,nização em Linhas de Pesquisa não garan- FAPEMIG, FAPDF, FUNDECT e INEP). 9te a produção de conhecimento que faça o O Sistema de Currículos Lates inclui o item Con-campo avançar, assim como, sulta a outras bases: “histórico no CNPq”, quando o pesquisador foi financiado alguma vez pela agência.ReferênciasANDRÉ, M. E. D. A. de. Pesquisa em Educação: buscando rigor e qualidade. Cadernos de Pes-quisa. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 113, p. 39-50, 2001.BOURDIEU, P. Ofício de sociólogo. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. 4. ed. Petrópolis: 24 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
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  24. 24. VIEIRA, E. Pesquisa em educação: quando se é específico? Cadernos de Pesquisa. São Paulo:Fundação Carlos Chagas, n. 67, p. 56-58, 1988.VIEIRA, S. A pesquisa em educação no Brasil: conversando sobre problemas, perspectivas eprioridades. Cadernos de Pesquisa. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 55, p. 81-84, 1985.WARDE, M. J. O papel da pesquisa na pós-graduação em educação. Cadernos de Pesquisa.São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 73, p. 67 -75, 1990._____. A produção discente dos programas de pós-graduação em educação no Brasil (1982-1991). In: Avaliação e perspectivas na área de educação. ANPED, 1993.WEBER, S. A. produção recente na área de educação. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n. 81,1992.Recebido em 05 de julho de 2005.Aprovado para publicação em 25 de agosto de 2005. 26 Eurize C. PESSANHA. Pesquisa e formação de pesquisadores em educação...
  25. 25. Artigos
  26. 26. A interpretação do Brasil e do brasileiro e suasimplicações no campo da educaçãoThe interpretation of Brazil and of the Brazilian andthe implications in the field of educationAdriana Kemp Maas Mestranda em Educação nas Ciências – Unijuí. e-mail: adrikm@brturbo.com “Não é certamente o atrativo menor de uma teoria o fato de ela ser refutável: justamente com isso ela atrai mentes mais sutis” (Friedrich Nietzsche)ResumoCom base no entendimento de que a interpretação do Brasil e do brasileiro nos diferentes momentos dahistória do país, por diferentes autores, consolida arquétipos culturais que se refletem na ordem social enos conceitos estruturantes da educação e do pensamento pedagógico, “demarcando” possibilidades demudança do país, este texto constitui-se de uma análise dos textos Os Sertões de Euclides da Cunha Sertões,(1902), Urupês de Monteiro Lobato (1914), e Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Jr. Urupês, Contemporâneo,(1942). Evidenciam-se aspectos em que as referidas obras assemelham-se e/ou contrariam-se no quetange à interpretação do Brasil e do brasileiro e, por fim, são apontadas e discutidas possíveis implicaçõesdessas interpretações no campo da educação.Palavras-chaveInterpretação do Brasil e do brasileiro; arquétipos culturais; educação.AbstractBased on the understanding that the interpretation of Brazil and the Brazilian, in different periods of thehistory of the country, by different authors, consolidates cultural archetypes which are reflected in the socialorder and in the structuring concepts of education and pedagogical thought,”marking” possibilities ofchange in the country, this text constitutes an analysis of the texts “Os Sertões” by Euclides da Cunha(1902), “Urupês by Monteiro Lobato (1914), and “Formação do Brasil Contemporâneo (The Formation “Urupês” Contemporâneo”of Contemporary Brazil), by Caio Prado Jr. (1942). There are evidences of aspects in which the aforementionedworks are similar and/or different in relation to the interpretation of Brazil and of the Brazilian and finally,possible implications of these interpretations in the field of education are brought out and discussed.Key wordsInterpretation of Brazil and Brazilians; cultural archetypes; education. Série-Estudos - Periódico do Mestrado em Educação da UCDB. Campo Grande-MS, n. 20, p. 29-46, jul./dez. 2005.
  27. 27. Introdução de agitações sociais resultantes das cres- centes desigualdades: a Revolta de Entende-se que a interpretação do Canudos, na Bahia, em fins do século XIX,Brasil e do brasileiro nos diferentes momen- o tempo do cangaço, com a figura lendáriatos da história do país, por diferentes autores, de Lampião, nos primeiros anos do séculoconsolida arquétipos culturais que, por sua XX, em todo o sertão assolado por cons-vez, refletem-se na ordem social e nos con- tantes secas.ceitos estruturantes da educação e do pen- A produção literária desse períodosamento pedagógico, “demarcando” possi- reflete esses conflitos, sintetizados em trêsbilidades de mudança no país. aspectos: 1) denúncia da realidade brasi- Com base nessa compreensão, a pro- leira, negando o Brasil literário herdado doposta deste texto é analisar a interpretação Romantismo e do Parnasianismo e retra-do Brasil e do brasileiro, a partir das obras tando o Brasil não-oficial do sertão nordes-Os Sertões de Euclides da Cunha (1902), Sertões, tino, dos caboclos interioranos, dos subúr-Urupês de Monteiro Lobato (1914), e For-Urupês, bios; 2) incorporação à Literatura de tiposmação do Brasil Contemporâneo de Contemporâneo, humanos marginalizados; 3) leitura/repre-Caio Prado Jr. (1942). sentação da realidade brasileira à luz de Os referidos textos de Euclides da fatos políticos, econômicos e sociais con-Cunha e Monteiro Lobato foram tomados temporâneos, diminuindo a distância entrecomo objeto deste estudo por serem repre- realidade e ficção.sentativos de um momento histórico brasi- A obra de Caio Prado Jr., por sua vez,leiro caracterizado por uma significativa foi tomada por ser representativa de outramudança nas “fontes de inspiração” de nos- explicação do Brasil, que toma corpo a partirsos intelectuais (início do século XX), perío- de 1930, superando-se a historiografia ba-do que antecedeu a Semana de Arte seada nos conceitos de raça, revoltas/bata-Moderna, de 1922. As duas primeiras déca- lhas, que permeiam as interpretações ante-das do século XX marcam, em termos mun- riores e construindo-se uma “leitura” dadiais, os preparativos para a Primeira Guerra sociedade brasileira a partir de concepçõesMundial, que teve a Europa como palco; o culturais (organização social e econômica).Brasil vive a República do café-com-leite, O país vive a efervescência do fim da Repú-dos grandes proprietários rurais. Trata-se de blica do café-com-leite e do Movimentouma época em que os fortes contrastes da Modernista preparado nas primeiras duasrealidade brasileira são evidenciados: de um décadas do século XX, tendo vivido seulado, é a época áurea da economia cafeeira período mais radical até 1930, quando seno Sudeste, da entrada de grandes levas inicia o que se denomina segunda fasede imigrantes, notadamente os italianos, do modernista, caracterizada pela denúnciaesplendor da Amazônia, com o ciclo da social, cujas obras exprimem um elevadoborracha, e do surto da urbanização de São grau de tensão nas relações do “eu” com oPaulo; de outro lado, é também o tempo mundo. A maturidade e o engajamento que 30 Adriana Kemp MAAS. A interpretação do Brasil e do brasileiro e suas...
  28. 28. se verifica nas produções literárias desse econômica, cultural e, conseqüentemente,período também se fazem presentes na na educação. Entende-se que as con-obra historiográfica de Caio Prado Jr. cepções que permeiam o fazer em educa- A busca incessante pela definição do ção resultam da relação de forças entre dife-tipo humano brasileiro marca tanto a pro- rentes modos de “olhar-ler” a realidade edução literária quanto a historiográfica. E é vislumbrar suas possibilidades. Nesse sen-essa busca que norteia a análise dessas tido, três questões são fundantes: Quem so-obras neste estudo. Apresenta-se, num pri- mos? Quem queremos ser? Quais são nos-meiro momento, uma leitura de Os Sertões Sertões, sas possibilidades? A literatura e a historio-de Euclides da Cunha, e de Urupês de Urupês, grafia ajudam-nos a construir respostasMonteiro Lobato, tecendo a respeito de para estas questões.ambas alguns comentários analíticos, bus-cando evidenciar aspectos em que se com- Sertões: Os Sertões: o sertanejo como aplementam/assemelham e/ou se contra- “rocha viva” da nacionalidaderiam/negam, uma vez que pertencem aomesmo período da Literatura Brasileira e Publicado em 1902, Os Sertões de Sertões,foram publicadas em um momento da his- Euclides da Cunha, é resultado da expe-tória do Brasil caracterizado pela tentativa riência do autor como enviado do Jornal Ode construção de uma tradição intelectual Estado de São Paulo à Bahia, a fim degenuinamente nacional. fazer a cobertura jornalística da Revolta de Na seqüência, apresenta-se uma lei- Canudos, em 1897.tura da obra Formação do Brasil Con- A obra divide-se em três grandestemporâneo de Caio Prado Jr., buscandotemporâneo, partes: A Terra, O Homem e A Luta.evidenciar a interpretação que o mesmo faz Na primeira parte, intitulada A TERRA,do Brasil e de seu povo. Por fim, evidenciam- o autor situa geograficamente o leitor (osse possíveis contradições e/ou comple- sertões descritos incluem territórios dementações entre os textos estudados e suas Goiás, Piauí, Maranhão, Ceará, Pernam-implicações no campo da educação. buco e Bahia); descreve a terra do sertão A análise que ora se apresenta des- nordestino, do ponto de vista geográfico, eses textos funda-se no entendimento de que faz uma análise do clima do sertão. Embo-a leitura de textos da literatura e da ra não seja essa a parte sobre a qual estehistoriografia proporciona conhecer e com- estudo efetivamente recai, merecem desta-preender a sociedade em seus diversos que as descrições poéticas, permeadas demomentos, possibilitando a percepção das prosopopéias1, através das quais eviden-mudanças ocorridas, para além da infor- cia-se a antropomorfização2 da natureza.mação sobre os fatos históricos, mas, prin- Como exemplo, tem-se a descrição dascipalmente, a compreensão de seu signifi- bruscas alterações climáticas ocorridas nocado e seus desdobramentos na vida sócio- sertão:Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 29-46, jul./dez. 2005. 31
  29. 29. A terra desnuda tendo contrapostas, em E estava intacto. Murchara apenas. Mu- permanente conflito, as capacidades mificara conservando os traços fisio- emissiva e absorvente dos materiais que nômicos, de modo a incutir a ilusão exata a formam, do mesmo passo armazena os de um lutador cansado, retemperando-se ardores das soalheiras e deles se esgota, em tranqüilo sono, à sombra daquela ár- de improviso. Insola-se e enregela-se, em vore benfazeja. Nem um verme – o mais 24 horas. Fere-a o Sol e ela absorve-lhe vulgar dos trágicos analistas da matéria – os raios, e multiplica-os e reflete-os, e re- lhe maculara os tecidos. Volvia o turbi- frata-os, num reverberar ofuscante: pelo lhão da vida sem decomposição repugnan- topo dos cerros, pelo esbarrancado das te, numa exaustão imperceptível. Era um encostas, incendeiam-se as acendalhas da aparelho revelando de modo absoluto, mas sílica fraturada, rebrilhantes, numa trama sugestivo, a secura extrema dos ares (Id, vibrátil de centelhas; a atmosfera junto ao Ibid, p. 38). chão vibra num ondular vivíssimo de bo- Este trecho ilustra, também, o estilo cas de fornalha em que se pressente in- comparável no fulgor, fulmina a natureza da linguagem empregada por Euclides da silenciosa, em cujo seio se abate, imóvel, Cunha, incorporando à literatura termos na quietude de um longo espasmo, a científicos, sem a tradicional visão idealiza- galhada sem folhas da flora sucumbida da de mundo. (CUNHA, 2000 [1902], p. 36-37). Na segunda parte, intitulada O Merece destaque, ainda, a descrição HOMEM, que constitui o foco de interesseque o autor faz da “secura” do ar na região deste estudo, o autor propõe-se a analisar,dos sertões brasileiros. O autor cria uma objetivamente, a formação do homem doimagem que se define claramente “diante sertão. Logo no início dessa parte, explicitados olhos” do leitor, constituindo uma o rigor científico que pretende aplicar àilustração: escrita, marcando textualmente seu repú- O sol poente desatava, longa, a sua som- dio às formas de pensar e representar o bra pelo chão e protegido por ela – braços mundo que não obedeçam à racionalidade largamente abertos, face volvida para os técnica. céus – um soldado descansava. Há como que um excesso de subjetivismo Descansava... havia três meses. no ânimo dos que entre nós, nos últimos Morrera no assalto de 18 de julho. A co- tempos, cogitam de cousas tão sérias, com ronha da Mannlicher estrondada, o uma volubilidade algo escandalosa, aten- cinturão e o boné jogados a uma banda, tas as proporções do assunto. Começam e a farda em tiras, diziam que sucumbira excluindo em grande parte os materiais em luta corpo a corpo com adversário objetivos oferecidos pelas circunstâncias possante. Caíra, certo, derreando-se à vio- mesológica e histórica (Ibid, Ibid, p. 70). lenta pancada que lhe sulcara a fronte, Resultado de discussões que trava no manchada de uma escara preta. E ao en- texto, fazendo emergir outras vozes, num terrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala diálogo com outros autores, Euclides da comum de menos de um côvado de fundo Cunha faz uma afirmação categórica: “Não em que eram jogados [...]. temos unidade de raça” (Id, Ibid, p. 71). 32 Adriana Kemp MAAS. A interpretação do Brasil e do brasileiro e suas...
  30. 30. A complexidade étnica no Brasil é dirigindo-se, com Ruiz de Montoya a Ma-evidenciada também na página 71, em que dri e Diaz Taño a Roma, apontavam-no como inimigo mais sério (Id, Ibid, p. 80).afirma que a formação do povo brasileiroestá ligada aos seguintes fatores: a) à Portanto, a feição verdadeiramenteheterogeneidade de elementos étnicos an- nacional está no contraste, que não se ba-cestrais; b) à amplitude e variação do meio seia, segundo o autor, em causas étnicasfísico; c) à variedade de situações históri- primordiais. Ele ressalta a influência docas, decorrentes, em grande parte, do meio ambiente e do clima sobre o movimentofísico. No que diz respeito a esta última va- histórico e a formação étnica.riante, o autor diz que a ocupação do Brasil, Na página 84, Euclides da Cunhajá na fase colonial, se deu separando-se afirma: “Não há um tipo biológico brasileiro”radicalmente o Sul e o Norte. É pertinente e “Não há um tipo antropológico brasileiro”.esclarecer que, quando Euclides da Cunha Apresenta o que se pode denominar umase refere ao Sul, deve-se ler “região sudeste” tese acerca da formação étnica, trazendo(São Paulo e Rio de Janeiro, principalmen- conceitos que hoje são facilmente comba-te). No Sul (Sudeste, portanto), registrou-se tidos pelos Estudos Culturais, bem comoum movimento progressista, enquanto que pela Biologia: “cultura superior, raça superior,no Norte, capitanias esparsas e incoeren- sub-raça”. Dos argumentos apresentadostes, onde “a história é mais teatral, porém pelo autor, interessa, na perspectiva destamenos eloqüoente” (p. 80). E soma-se a isso abordagem, a conclusão a que chegou: osa separação entre si das três raças forma- vários aspectos da natureza brasileira dis-doras do povo da região: o negro, o índio e tribuíram de modo diverso as camadaso europeu (português): étnicas no território do país, originando uma Mesmo no período culminante, a luta com mestiçagem variada. os holandeses, acampam, claramente dis- Assim como a formação da popula- tintos em suas tendas de campanha, os ção do norte se deu diferentemente da popu- negros de Henrique Dias, os índios de lação do sul do país, a formação da popula- Camarão e os lusitanos de Vieira. Mal unidos na guerra, distanciam-se na paz. ção sertaneja se deu diferentemente da litorâ- O drama de Palmares, as correrias dos nea. O sertanejo tem maior influência do ín- selvícolas, os conflitos na orla dos sertões, dio, enquanto o tipo humano do litoral é mais violam a transitória convergência contra marcado pelo cruzamento com o negro. Isso o batavo (Id, Ibid, p. 80). tem, segundo o autor, determinante contri- Já o povo do Sul é descrito como: buição sobre o caráter de cada um desses Um povo estranho de mestiços levan- tipos: o sertanejo e o homem litorâneo. tadiços, expandindo outras tendências, Mesmo que ambos sejam “mestiços”, o que, norteado por outros destinos, pisando, re- soluto, em demanda de outros rumos, do ponto de vista do autor, é negativo para [...]. Volvia-se em luta aberta com a corte seu desenvolvimento e sua evolução, o ser- portuguesa, numa reação tenaz contra os tanejo está em vantagem por ter recebido jesuítas. Estes, olvidando o holandês e maior influência do índio do que do negro.Série-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 29-46, jul./dez. 2005. 33
  31. 31. Sobre as características morais do sem a vastidão e o trançado impenetrávelsertanejo, o autor afirma que são uma das do litoral, como ‘mimoso’ das planuras e o ‘agreste das chapadas desafogadas,mescla do caráter do bandeirante (paulista) todas salteadamente, nos vastos claros dase do jesuíta (europeu): caatingas [...] foram laços preciosos para a1. o bandeirante (paulista): bravo e deste- fusão desses elementos esparsos, atrain- mido, em busca de ouro ou escravos, não do-os, entrelaçando-os. E o regime pasto- ril ali se esboçou como uma sugestão povoava, ao contrário, por onde passa- dominadora dos gerais (Id, Ibid, p. 91-92). va, deixava porventura “mais deserto”; O caráter do sertanejo é descrito, por-2. o jesuíta (europeu): resignado e tenaz; tanto, como a fusão dos elementos que o3. o vaqueiro (sertanejo): bravo e destemi- formaram. O colono, que no sertão se ins- do como o bandeirante, resignado e te- talou após as frustradas buscas pelas mi- naz como o jesuíta, tinha uma vantagem nas naquela região, contribuiu com a “ín- que faltou a ambos: a fixação ao solo. dole aventureira”. O indígena acrescentou Nos sertões brasileiros, o vaqueiro é a impulsividade. Estas características sefigura preponderante. O povo sertanejo conservam no tipo sertanejo, modificadas(mestiço) foi sendo formado pela fusão com apenas de acordo com as novas exigênciasoutros povos, do sul e do norte que se aven- da vida, traduzindo-se em:turavam em busca de minas: • vestes características; Abrindo aos exploradores duas entradas únicas, à nascente e à foz, levando homens • hábitos antigos; do sul ao encontro dos homens do norte, o • apego às tradições mais remotas; grande rio erigia-se desde o princípio com • sentimento religioso levado até o fana- a feição de um unificador étnico, longo traço tismo; de união entre as duas sociedades que se • exagerado ponto de honra; não conheciam (Id, Ibid, p. 91). • folclore belíssimo de rimas seculares. Nessa passagem, evidencia-se mais Segundo o autor, os jesuítas, capu-uma vez a influência do meio atribuída à chinhos e franciscanos tiveram importânciaformação do povo, pois o Rio São Francisco destacada na história da formação dosé apontado como “unificador étnico”. Outra povos sertanejos, catequizando indígenaspassagem também é muito significativa, e incorporando-os à vida nacional por meioilustrando a tese defendida pelo autor so- dos aldeamentos que se formavam no sé-bre a formação do povo: culo XVIII sob influência das missões A terra, do mesmo passo exuberante e jesuíticas. acessível, compensava-lhes a miragem desfeita das minas cobiçadas. A sua estru- Para ele, dois determinantes históricos tura geológica original criando conforma- se destacam na manutenção do autóctone ções topográficas em que as serranias, na região sertaneja do Brasil: últimos esporões e contrafortes da cordi- 1. as grandes concessões de sesmarias, o lheira marítima, têm a atenuante dos ta- buleiros vastos; a sua flora complexa e que levou ao latifúndio, em um “sistema variável, em que se entrelaçam florestas feudal”, e dificultou a entrada de novos 34 Adriana Kemp MAAS. A interpretação do Brasil e do brasileiro e suas...
  32. 32. povoadores ou concorrentes, permane- mentais superiores ou inferiores, tomando cendo a raça mestiça própria do local, como modelo de superioridade mental o crescendo fora da influência de outros indo-europeu e afirmando que a capacidade elementos, entregues à vida pastoril; cerebral é herança da integração de esfor-2. a carta régia de 7 de fevereiro de 1701, ços da raça a que pertence o homem. Nesse que foi medida concentradora desse iso- sentido: “[...] o mestiço – traço de união entre lamento. O documento legal proibia, sob as raças, breve existência individual em que pena de severas punições, qualquer co- se comprimem esforços seculares – é, quase municação ou mesmo relação comercial sempre, um desequilibrado” (p. 101). daquela parte dos sertões (Pombal, Cume, Afirma, ainda, que a destruição das Bom Conselho, Monte Santo) com o Sul. raças inferiores se dá pela civilização, para A esses fatos históricos, soma-se a já a qual elas não estariam preparadas. Nes-destacada influência do clima na formação se sentido, o isolamento do sertanejo (mes-do tipo sertanejo. O resultado é, segundo o tiço) teve função benéfica, pois o manteveautor, um tipo uniforme: longe da civilização, protegendo-o e permi- [...] o homem do sertão parece feito por tindo seu desenvolvimento: um molde único, revelando quase os A sua evolução psíquica, por mais demo- mesmos caracteres físicos, a mesma tez, rada que esteja destinada a ser, tem, ago- variando brevemente do mameluco bron- ra, a garantia de um tipo fisicamente cons- zeado ao cafuz trigueiro; cabelo corredio tituído e forte. Aquela raça cruzada surge e duro ou levemente ondeado; a mesma autônoma e, de algum modo, original, envergadura atlética, e os mesmos transfigurando, pela própria combinação, caracteres morais traduzindo-se nas mes- todos os atributos herdados; de sorte que, mas superstições, nos mesmos vícios, e despeada afinal da existência selvagem, nas mesmas virtudes (Id, Ibid, p. 100). pode alcançar a vida civilizada; por isto Ainda na página 100, o autor “abre mesmo que não a atingiu de repente (Id,um parêntese” e traz alguns conceitos que Ibid, p. 103).estão subentendidos nas observações que Portanto, estariam superadas asfaz acerca do homem, que são, segundo ele, questões biológicas, pois “O sertanejo é,impressões, “sem pretensão ou método”: antes de tudo, um forte. Não tem o raquitis-“Reproduzamos, intactas, todas as impres- mo exaustivo dos mestiços neurastênicossões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos do litoral” (p. 103); o sertanejo estaria aptode repente, acompanhando a celeridade de à vida civilizada, buscando “galgar degraus”uma marcha militar, demos de frente, numa na escalada linear da evolução.volta do sertão, com aqueles desconhecidos A obra de Cunha explicita tambémsingulares, que ali estão – abandonados – aspectos da cultura do sertanejo, que ilus-há três séculos”. Nesse “parêntese”, mencio- tram a afirmação anterior acerca do apegona o evolucionismo, a fim de justificar sua às tradições remotas. O divertimento doconvicção na superioridade/inferioridade vaqueiro constitui-se das seculares festasracial como determinante de estados de cavalhada e mouramas, nas vilas. UmSérie-Estudos... Campo Grande-MS, n. 20, p. 29-46, jul./dez. 2005. 35
  33. 33. exemplo do apego às tradições remotas é O seu primeiro amparo é a fé religiosa.a encamisada, um dos programas dessas Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras dofestas, que consiste em assalto noturno em Divido ruflando, lá se vão, descampadosque as tropas vestem camisões por disfar- em fora, famílias inteiras. [...] Ecoam largosce. A encamisada é, nas palavras do autor: dias, [...] pelos ermos, por onde passam as Velhíssima cópia das vetustas quadras dos lentas procissões propiciatórias, as ladai- fossados ou arrancadas noturnas, na nhas tristes. Rebrilham longas noites nas Península, contra os castelos árabes, e de chapadas, pervagantes, as velas dos peni- todo esquecida na terra onde nasceu, onde tentes... Mas os céus persistem sinistra- a sua mesma significação é hoje inusitado mente claros; o Sol fulmina a terra; progri- arcaísmo, esta diversão dispendiosa e in- de o espasmo assombrador da seca. O teressante, feita à luz de lanternas e archo- matuto considera a prole apavorada; con- tes, com os seus longos cortejos de ho- templa entristecido os bois sucumbidos mens a pé, vestidos de branco, ou à ma- [...] em mugidos prantivos ‘farejando a neira de muçulmanos, e outros a cavalo água’; – e sem que se lhe amorteça a em animais estranhamente ajaezados, crença, sem duvidar da Providência que o desfilando rápidos, em escaramuças e si- esmaga, murmurando às mesmas horas mulados recontros, é o encanto máximo as preces costumeiras, apresta-se ao sa- dos matutos folgazãos (Id, Ibid, p. 117). crifício (Id, Ibid, p. 121). As músicas/ritmos são o choradinho A religiosidade do sertanejo é, comoe o baião. A tradição oral é mostrada como ele, mestiça; as suas crenças singulares tra-um elemento da cultura sertaneja. Nos in- duzem a aproximação de tendências distin-tervalos do baile, são travados desafios/ tas: lendas arrepiadoras (do caapora, do sacicompetições de rimas. A superstição é ou- diabólico, de lobisomens e mulas-sem-cabe-tro traço característico de tal cultura: ça, de mal-assombramentos variados), as benzeduras e as “profecias esdrúxulas de É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, messias insanos” convivem com as romarias em linha, seis pedrinhas de sal, que re- piedosas, as missões, as penitências, reve- presentam, em ordem sucessiva da es- lando heranças da religiosidade africana e querda para a direita, os seis meses vin- indígena misturadas à fé cristã/católica: “os douros, de janeiro a junho. Ao alvorecer sertanejos, herdeiros infelizes de vícios secu- de 13 observa-as: se estão intactas, pres- sagiam a seca; se a primeira apenas se lares, saem das missas consagradas para deliu, transmudada em aljôfar límpido, é os ágapes selvagens dos candomblés afri- certa a chuva em janeiro; se a segunda, canos ou poracês do tupi” (p. 126). Nessa em fevereiro... (Id, Ibid, p. 120). afirmação, explicita-se mais uma vez que o A fé religiosa também é traço marcan- autor tem por parâmetro o europeu, a reli-te da constituição do sertanejo, expressada gião européia, pois é significativo quandopor meio de imagens de santos, rezas, pro- diz que elementos da fé indígena e/ou afri-cissões e ladainhas às quais se entregam em cana convivem com elementos da fé católica,uma esperança que é pura espera, impossi- afirmando que o sertanejo herdou, mas nãobilitados de fazerem sua própria história: apenas herdou, é “herdeiro infeliz!” das 36 Adriana Kemp MAAS. A interpretação do Brasil e do brasileiro e suas...

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