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Trabalho de sociologia (2)

  1. 1. v • GoffMan • GoffMan Ficha de leitura dos capítulos 1,2,6 e 8 da obra “Introdução à análise dos fenómenos sociais “ de Luc Van Campenhoudt Dez. 2012 Discentes: Cláudia Brito Nº 47027 /Regina Sousa Nº 47789 Unidade Curricular: Sociologia Geral - Curso: Educação Social (Pós-laboral) I Ano Docente: João Martins
  2. 2. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 2 ÍNDICE Capítulo I - Richard Hoggart, “ A Cultura do Pobre” ............................................................................. 3 Contribuição Complementar “O Etnocentrismo” - M. Sahlins........................................................... 6 Capítulo II – Erving Goffman, Asilos..................................................................................................... 7 Contribuição Complementar - R.K. Merton...................................................................................... 10 Capítulo VI - Pierre Bordieu, A distinção............................................................................................. 12 Contradições e conflitualidade – Karl Marx ..................................................................................... 15 Capítulo VIII “ A formação da classe operária inglesa” Edward Thompson........................................ 18 Contribuição Complementar: do micro ao macro: os níveis da ação coletiva .................................. 22 Reflexão ................................................................................................................................................ 24 Referências Bibliográficas .................................................................................................................... 27
  3. 3. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 3 Capítulo I - Richard Hoggart, “ A Cultura do Pobre” “Percebemos a sociedade a partir da nossa própria existência e dos nossos valores”. Nas ciências sociais, uma das dificuldades que o investigador terá que ultrapassar, nas suas análises, será a do subjetivismo. Pois, as análises objetivas do investigador estão também marcadas pelas suas perceções subjetivas, ou seja, por uma realidade que é produto da sua consciência. Na sua obra “ Uses of Lietracy”, que é uma análise sobre o estilo de vida das classes proletárias inglesas, entre os anos 30 e 50, Hoggart, que era oriundo desse segmento social, diz-nos que o facto de estar tão próximo do seu objeto de estudo implica o perigo de emitir juízos deformados, ou seja, cair na armadilha do subjetivismo. Para fugir ao subjetivismo e tornar o seu trabalho o mais científico, imparcial e rigoroso possível, ele usou uma metodologia de investigação bastante diversificada, sendo o seu principal método utilizado o inquérito etnográfico (efetuado com a ajuda de um questionário), que consistia na observação intensiva e direta dos modos de vida da classe operária (estruturas familiares, práticas culturais e religiosas, etc.). Procedeu também à análise do conteúdo de livros, jornais e publicidade, valendo-se para isso de técnicas utilizadas por especialistas de análise literária. Por último, comparava os seus resultados com os de outros investigadores, para impedir generalizações apressadas. Na sua investigação, Hoggart valorizou bastante os métodos qualitativos, nomeadamente: as observações minuciosas no terreno. Pois considerava que os métodos quantitativos, apesar de poderem ser bastante úteis por fornecerem dados estatísticos, eram insuficientes porque não permitiam conhecer verdadeiramente o que determinados comportamentos simbolizam. O seu profundo conhecimento da classe operária aliados à objetividade dos seus métodos científicos tornaram-se uma mais-valia na sua investigação, uma vez que lhe permitiram tirar proveito dos inquéritos e desmontar as suas armadilhas. Segundo a burguesia, a forma como a classe operária gere os seus dinheiros e controla os seus créditos é irracional, tendo em conta os seus recursos financeiros. Por isso, critica os gastos supérfluos, a alimentação pouco diversificada, a qualidade da educação, entre muitas outras práticas, das classes populares. Hoggart considera que a visão burguesa é enganadora, constata, por exemplo, que o endividamento é visível em qualquer classe social e a diversidade alimentar nem sempre esta presente numa classe burguesa.
  4. 4. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 4 Segundo ele, este quadro é enganador dado que isola certos comportamentos criticáveis do conjunto de um modo de vida e não explica as atitudes estigmatizadas. Considera, portanto, que para ultrapassar estes estereótipos, torna-se necessário ver para além dos hábitos/comportamentos, perceber aquilo que eles representam. Assim, concluí, através das suas análises que, partilhando das mesmas condições de precaridade e posição social inferior (base da escala social), o consumo de determinados produtos e certos tipos de comportamentos por parte da classe operária têm como objetivo final o reforço e a coesão. Portanto, o importante não é o comportamento per si, em termos culturais, mas o vínculo entre eles. Há uma necessidade da classe operária de valorizar esta coesão, de manter e consolidar o grupo familiar, amigos próximos, bairro, aldeia, pois ela (coesão) significa proteção, solidariedade entre o grupo, em situações de doença, de perda de emprego e outras. Segundo Luc Van Campenhoudt (2003), “Esta posição da classe popular na escala social constitui a sua principal característica estrutural. A estrutura é a regra implícita que liga entre si os elementos de um conjunto e sem a qual cada elemento permanece incompreensível”. Ao contrário dos comportamentos isolados, que são apenas folclore, a análise sociológica, usando uma metodologia científica, permite-nos descortinar os reais significados desses comportamentos. Por exemplo, ao contrário da burguesia, que considerava como irresponsável a liberdade que os operários concediam aos seus filhos, Hoggart, através das suas análises, mostra-a como uma antecipação de um destino social. As características estruturais da cultura popular permitem compreender porque permanecem certos comportamentos tão profundamente enraizados na cultura popular. Pois, apesar, da classe operária se ter escolarizado, de ter acesso a diferentes meios de comunicação (jornais, revistas, rádio e televisão), ou seja, de ter visto uma série de novidades entrarem no seu quotidiano fruto da época moderna, certos hábitos e valores tradicionais permanecem vivos. Perante a oferta de programas de TV, por exemplo, as suas escolhas (das classes populares) recaem sobre programas que mantenham toda a família/grupo reunidos, o que quer dizer que a adaptação à vida moderna faz-se em coesão com as atitudes tradicionais. As mudanças que se fizeram sentir na classe operária, fruto dos modernos meios de comunicação, foi na direção e sob as formas de que os valores e a cultura tradicionais fornecem já o princípio. Desta forma, os comportamentos duvidosos reprováveis que foram adotados pela classe operária, explicam-se por estarem em conformidade com as suas atitudes tradicionais.
  5. 5. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 5 Mas a cultura e modo de vida de uma classe não resultam de uma simples soma de características. Ao nível do senso comum, os preconceitos etnocentristas constituídos por ideias feitas inabaláveis, representam um fator de identificação do grupo e legitimação da dominação. Por exemplo, esta imagem da classe popular, como classe despesista, frívola e influenciável não é gratuita. Ela tem como propósito confina-la à sua posição de dominada, supondo-se ainda que dela não poderá sair sem correr o risco de degradação moral. É estigmatizando a classe operária, que as outras classes não só se valorizam a elas próprias (por contraste) como confirmam a dos outros. Por exemplo, quando a burguesia estigmatiza a classe operária, quer por os pais não oferecerem uma boa educação aos filhos quer por serem consumidores de programas que conduzem ao embrutecimento, esta age de forma contrária, para enaltecer a sua posição social. Não nos podemos esquecer que esta “caricatura” das classes populares é elaborada a partir do próprio sistema de valores da burguesia (etnocentrismo). Também outras classes sociais, e não exclusivamente a dominadora, fazem as suas análises de outras classes sociais. Nas ciências sociais, as análises dos investigadores, ainda que façam uso de uma metodologia científica, exata e objetiva, nunca é desvinculada de subjetividade, ou seja, dos preconceitos sociais do investigador. Esta subjetividade, controlada pelo próprio investigador, significa simultaneamente uma dificuldade e uma vantagem. Assim, o esforço de auto lucidez e de reflexividade por parte do investigador é imprescindível para que um trabalho seja científico. No caso de Hoggart, ele não se contenta com o revelar de ideias preconcebidas de fazedores de opinião da sua época, com inquéritos superficiais ou juízos apressados. A reflexividade e a auto lucidez são conseguidas por Hoggart, com a aplicação do seu método rigoroso, com um grande nível de aprofundamento e com a compreensão das relações entre os comportamentos. Assim, se por exemplo, Hoggart critica certos aspetos da classe popular, fá-lo de forma argumentada e esclarecida pelas suas análises, tornando-se assim imparcial em relação ao seu objeto.
  6. 6. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 6 Contribuição Complementar “O Etnocentrismo” - M. Sahlins M. Sahlins, antropólogo americano, desfez completamente a imagem de que as sociedades arcaicas ou pré-agrárias, de todos os tempos e até à sua colonização, foram fustigadas pela pobreza e pela miséria crónicas, com a sua investigação. Recorrendo à recolha abundante de documentação etnográfica sobre: atividades, ritmos de trabalho, condições alimentares e os sistemas de trocas de bens e de serviços destas sociedades, chegou a resultados inversos. Por outras palavras, a sua análise, fugindo do subjetivismo, veio mostrar que estas sociedades eram abundantes. Preocupante, para Sahlins, é o facto de essa visão “ de sociedades subdesenvolvidas”, construída a partir da visão tradicional, se ter perpetuado até às nossas sociedades contemporâneas, ou seja, não ter havido um rompimento com essas ideias etnocentristas. Com esta pesquisa, Sahlins, recorrendo a métodos científicos, mostra que as ideias já formuladas não correspondiam à “realidade” ou eram enganadoras. Sahlins, tal como Hoggart, na sua pesquisa pretende, através de um método, afastar o subjetivismo.
  7. 7. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 7 Capítulo II – Erving Goffman, Asilos Goffman, tal como Hoggart, considera que, para compreendermos os modos de vida, não podemos considerar certos comportamentos como anormais e inaceitáveis, sem antes os compreendermos a partir “do interior” e sem os inserirmos no seu contexto. Assim, inseriu-se como enfermeiro em asilos psiquiátricos, utilizando desta forma uma metodologia de pesquisa - observação participante - que se caracteriza pela inserção do investigador no meio estudado, para analisar os indivíduos com comportamentos considerados anómalos, as relações destes com o pessoal da instituição, assim como todo o funcionamento do conjunto da instituição. Este método distingue-se da maior parte dos métodos de pesquisa utilizados, porque o investigador permanece no interior da instituição estudada. Goffman usou o termo “ instituição totalitária” para descrever todas as instituições nas quais a autoridade procura uma total regulamentação da vida diária dos seus habitantes e os priva do contacto com o mundo exterior por longos períodos de tempo. E, empregou este termo também aos hospitais psiquiátricos por apresentarem as mesmas características. Vejamos agora, mais detalhadamente, as características das instituições totalitárias. Primeira, há uma distinção óbvia entre o pessoal que trabalha na instituição e os indivíduos “reclusos”. A função dos primeiros é despojar o individuo da sua própria personalidade. Esse objetivo é conseguido mediante o controlo de todas as dimensões da vida e os privando da sua intimidade. Segunda, as instituições totalitárias aplicam uniformidade em tudo o que concerne à vida dos indivíduos, como por exemplo: os quartos ou celas que ocupam, as roupas que vestem, a alimentação, etc. Por último, todas as práticas estão minuciosamente regulamentadas, de tal forma que os reclusos carecem de qualquer iniciativa pessoal para conduzir as suas vidas. Assim, nos hospitais psiquiátricos, há igualmente uma autoridade (equipa administrativa da instituição) que impõem um conjunto de regras explícitas aos doentes, que se encontram isolados do resto da sociedade, que deverão ser respeitadas/ acatadas. Mais, tal como acontece em todas as instituições totalitárias (campos de concentração, orfanatos, mosteiros, prisões e outros), também nos hospitais psiquiátricos, é aplicado ao homem um tratamento coletivo, que se encarrega de todas as suas necessidades. As necessidades humanas são, portanto, manuseadas de forma burocrática e impessoal. Daí decorre um certo número de consequências relevantes. Logo, um fosso intransponível entre o grupo de dirigentes e a massa de pessoas dirigidas, em todas as instituições totalitárias. Nos
  8. 8. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 8 hospitais psiquiátricos, Goffman, também observa uma enorme distância social entre os doentes mentais e a equipa que os supervisiona, sendo as trocas entre os dois grupos muito restritas. Mas, o conceito de instituição totalitária, na prática assume características bem diferentes e muito mais complexas. “Um conceito não é só uma descrição do fenómeno, mas uma categoria intelectual que permite tornar compreensível um certo número de fenómenos”. Assim, na sua análise, Goffman, primeiro, parte do conceito de “instituição totalitária” como grelha de análise da experiência, ou seja, explora sobre as características das instituições (estrutura), e só depois, sobre a maneira como estas modelam a existência dos indivíduos. Na sua análise, Goffman observa que são postas em prática técnicas de mortificação e despersonalização dos indivíduos, em todas as instituições totalitárias. Da mesma forma, nos hospitais psiquiátricos, a “mortificação do eu” é conseguida através de práticas que visam à humilhação, ao enfraquecimento, à degradação da identidade do individuo. Pretende-se a destruição da identidade do individuo e a criação de um novo eu, para conformá-lo ao seu novo papel de submissão. É, assim, através de práticas coletivas repetitivas (ritos), impostos, pelas várias instituições totalitárias, que os indivíduos se vão integrando e/ou modelando à instituição. Por um lado, o fato de estarem privados do mundo exterior, a perda dos seus estatutos anteriores, são fatores que contribuem desde logo para a alteração das suas personalidades. Por outro lado, estes indivíduos vão-se despojando gradualmente da sua personalidade, adotando comportamentos considerados adequados pela instituição, sabendo que com isso, por um lado podem beneficiar de certos privilégios, por outro não serão “marginalizados”. Esta construção do eu resulta da procura de uma posição de equilíbrio entre a identificação com a instituição e os papeis que estas prescrevem e a distanciação a seu respeito. Isto é, se por um lado, o individuo tem a necessidade de se sentir integrado na instituição, por ser recompensado de diversas formas, simbólica e materialmente, por outro, há uma necessidade de preservar o seu verdadeiro eu. E, é através do distanciamento que o individuo procura preservar a sua identidade. É através daquilo a que Goffman chama de práticas adaptações secundárias, que são práticas que conferem aos indivíduos a sensação de poder sobre o meio onde estão inseridos (truques, jogos e outros), que os indivíduos mantêm parte do seu verdadeiro “eu”, ou seja, estas práticas funcionam como «refúgios para a personalidade». No que se refere aos comportamentos, Goffman, considera que se num meio aberto um comportamento pode ser considerado aberrante, anómalo, num meio fechado nunca o será, porque num meio fechado há uma adaptação do eu do individuo às regras da instituição.
  9. 9. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 9 Da mesma forma, que outras instituições totalitárias, também o hospital psiquiátrico, através do seu sistema autoritário, fixa o quadro estrutural das relações daqueles que lá vivem (pessoal administrativo e doentes mentais), assim como das relações entre ambos. Goffman utilizará ainda o conceito de carreira (num sentido amplo), aplicado aos hospitais psiquiátricos, para definir o processo de transformação da personalidade do individuo perante a instituição. Isto é, a partir da maneira como se vê a si próprio e aos outros, reconstrói um novo universo que se vai adequar à instituição onde se insere. Esta reconstrução (carreira do doente mental), passa por três fases. As duas primeiras foram bem estudadas por Goffman, na primeira, a fase da pré-hospitalização, o individuo perde o suporte de amigos e familiares, bem como os seus estatutos sociais. Logo a seguir, na fase de hospitalização, o eu do individuo, que se sentiu excluído, perante um universo diferente, vai se moldando, adaptando progressivamente à instituição. Goffman analisa as várias representações que o individuo apresenta a si mesmo e aos outros “reclusos”, os meios pelos quais ele regula impressão que formam a seu respeito e as coisas que pode ou não fazer diante dos outros. Se por um lado o indivíduo se adapta, se compromete com a instituição (para obter recompensas ou evitar privações e maus tratos), por outro lado, costuma também assumir uma certa distância em relação ao papel por ele desempenhado. E essa distância justifica-se como uma forma de mostrar a si próprio e aos outros que ainda tem algum poder sobre o meio onde está inserido e que a sua personalidade não se reduz somente ao que lhe é imposto pela instituição. “Assim, podemos dizer que estes indivíduos (atores), nos hospitais, ou noutras instituições totalitárias, após interpretarem o funcionamento da instituição, gerem-no em função das suas interpretações e elaboram a partir daí as suas próprias interações”. Nas interações entre os indivíduos e a instituição, Goffman, usa conceitos como adaptações secundárias integradas e adaptações secundárias desintegradoras. Considera adaptações secundárias integradas quando o comportamento do indivíduo se inscreve num sistema de trocas (apoio mútuo, comunicação de informações úteis, etc.), sem se limitarem aos bens materiais. Aqui, estas contribuem para a harmonia da instituição. E, adaptações secundárias desintegradoras, quando os comportamentos dos indivíduos acentuam tensões, perturbam a estabilidade da instituição. São, para Goffman, de extrema importância essas adaptações secundárias pelo facto delas permitirem ao recluso reafirmar a sua integridade, a sua dignidade, sendo que elas são um elemento central na construção do eu. Há, portanto, como
  10. 10. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 10 vimos, em todas as instituições totalitárias, um quadro estrutural da instituição e o produto das interações entre os dois grupos. A investigação de Goffman valorizou, como vimos, as interações entre dois grupos (dominadores e dominados), os papéis do individuo (representações) quer para se adaptar ao meio em que está inserido quer para manter a sua personalidade. Sendo, o seu objeto de estudo os processos de interação entre os dois grupos, ele não se preocupou em estabelecer ou descobrir um conjunto de fatos mas sim observar atentamente os processos sociais patentes nas interações diretas entre os atores sociais. A sua investigação insere-se numa corrente teórica - interacionismo simbólico – que surgiu na década de 1930, no âmbito da sociologia norte-americana, por iniciativa do sociólogo Blumer, membro da Escola Sociológica de Chicago. O foco do interacionismo simbólico são os processos de interação social – que ocorrem entre indivíduos ou grupos – mediados por relações simbólicas. Ao contrário do interacionismo simbólico que confere muito peso à logica intencional, o funcionalismo valoriza a lógica objetiva. No funcionalismo, a sociedade é considerada um conjunto relativamente estável e coerente que tem tendência a reproduzir-se como tal. A esta contribuição dos indivíduos é chamada função. Contribuição Complementar - R.K. Merton Merton, um funcionalista, distingue dois tipos de funções. Por um lado a função latente, que dá conta dos efeitos benéficos ou eventualmente perversos que embora não pretendidos pelo individuo ou grupo (têm um caracter involuntário e inconsciente), ocorrem na sequência de determinadas ações. Por outro, a função manifesta, que é imediatamente percebida por todos, diz respeito aos objetivos (abertamente expressos) que o ator social ou grupo pretende alcançar. Por exemplo, a organização de uma festa tem como função manifesta a diversão (objetivo), mas como função latente, ela pode contribuir para a coesão do grupo organizador. A Merton são as funções latentes que interessam porque, contrariamente às funções manifestas em que os comportamentos têm objetivos que são imediatamente apreendidos por todos, explicam as motivações inconscientes. Apesar de Merton ser um funcionalista, ele rejeita o funcionalismo total, pois nem todas as instituições e fenómenos sociais são funcionais, ou seja, elas podem ser também disfuncionais.
  11. 11. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 11 Relembrando as adaptações secundárias desintegradoras de Goffman, poderíamos dizer em linguagem funcionalista, que estas são disfuncionais, uma vez que elas têm uma caracter desintegrador e comprometem a continuidade e o equilíbrio do sistema social. A corrente funcionalista foi muito criticada por ignorar as disfunções, as contradições. Também Merton não aceitando o “absolutismo” do funcionalismo, rompe com ele e integra o conceito de disfunção e a distinção entre função latente e função manifesta.
  12. 12. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 12 Capítulo VI - Pierre Bordieu, A distinção Bourdieu, na sua investigação “A distinção” estuda, tal como Hoggart e Goffman, a relação entre os diferentes grupos sociais ou atores (relações entre eles). Por outras palavras, à sua investigação o que interessa não é o ator particular ou um grupo, mas sim a relação que liga indivíduos entre si. Pois é, através desta relação que a vida social existe. “A distinção”, de Bourdieu, estuda as estruturas de dominação simbólica, em França, na década de 60. Alguns dos temas pesquisados foram: o sistema escolar, a arte, a literatura e as práticas culturais. Como resultado, a obra oferece um modelo de compreensão dos mecanismos sociais e culturais, que retira os fatores económicos do epicentro das análises da sociedade porque remete as práticas de consumo culturais a uma estrutura relacional. Na sua análise, pretendeu mostrar que as relações sociais para além de serem relações objetivas tinham também uma dimensão simbólica. Para estudar as culturas sociais, Bourdieu, utilizou o inquérito (com várias facetas). O principal suporte metodológico foi um questionário de perguntas sobre os diferentes aspetos das práticas e preferências culturais, como por exemplo, a escolha: de mobiliário, de vestuário, de livros, de programas televisivos, etc. Simultaneamente, os investigadores participantes do questionário, recolhiam diversa informação sobre o que observavam (alojamento, vestuário, penteado, maneira de falar, etc.). A aplicação do questionário, em grande escala (1217 pessoas inquiridas), dividiu-se em duas fases. Primeiro, baseou-se em entrevistas aprofundadas, observações etnográficas, junto de 700 pessoas, e foi depois completado por dados estatísticos (examinados) que estavam disponíveis sobre os aspetos estudados. Além disso, de cada vez que uma dificuldade surgia ou que uma nova hipótese se colocava, eram efetuadas investigações complementares. Ao contrário das metodologias tradicionais, que se limitavam à recolha de dados, na sua metodologia, a entrevista e a observação tinham um carácter exploratório. Desta forma, as interpretações teóricas e a recolha de dados empíricos não se sucediam por uma ordem estereotipada, mas alimentavam-se mutuamente e interagiam constantemente. Deste inquérito, sobre as práticas culturais da população francesa, ressaltaram dois fatos fundamentais. Primeiro, verificou-se uma relação entre, por um lado, as práticas e os gostos culturais e, por outro lado, o nível de instrução e, numa menor medida, a origem social (do pai). Por exemplo, jogar brídege, praticar golfe ou equitação, são práticas muito mais frequentes entre os grupos de pessoas instruídas e de origem social favorecida. Ao contrário,
  13. 13. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 13 grupos de pessoas pouco instruídas, menos dotadas em recursos económicos/culturais, tendem a práticas como o futebol, a pesca ou a petanca. Segundo, verifica-se, que para nível de instrução igual, quanto mais alta é a origem social (classes favorecidas) mais apreciam inovações culturais e menos adotam a cultura tradicional. Inversamente, as classes de origens modestas, tendem a ficar ligadas à cultura tradicional. O investigador, não se pode limitar a estabelecer relações estatísticas, deve captar o princípio das relações. Assim, Bourdieu, vai mais além e antes de explicar a relação entre dois ou mais fenómenos, verifica se de fato existe mesmo (confirmação do senso comum), para assim, se tornarem compreensíveis. Segundo Bourdieu, existir no espaço social é ser diferente, é marcar uma distancia entre si mesmo e os outros. Na sua investigação, sustentou a ideia de que as posições sociais e as práticas culturais que lhes correspondem definem-se e constituem-se umas em relação às outras, formando assim uma estrutura de relações. Mais, as classes sociais caracterizam-se pela estrutura de capitais, proporcionada sobretudo pela instrução e pela origem social. De seguida, veremos a distinção entre os quatro tipos de capital. O primeiro - capital económico - é o conjunto de bens e recursos económicos: património imobiliário e mobiliário, rendimentos, etc. O segundo - capital social- é o conjunto das relações sociais de que o individuo dispõe e que pode mobilizar se necessitar de o fazer. O terceiro - capital cultural – é o conjunto de recursos intelectuais e culturais herdados adquiridos através da educação familiar e escolar, de diplomas, de livros, etc. Por último - capital simbólico – que corresponde à imagem social e aos rituais associados aos três capitais anteriores. Em relação aos capitais apresentam-se, desde logo, três aspetos fundamentais. Primeiro, os capitais são investidos em função dos projetos e das ambições dos indivíduos. Segundo, os capitais, são eles próprios relações, ou seja, o valor dos capitais de um individuo é relativo ao valor dos capitais dos outros indivíduos. Por último, os diferentes tipos de capitais não oferecem as mesmas oportunidades, de poder ou prestigio. Assim sendo, é normal que se assista a uma luta objetiva e simbólica por parte dos diferentes detentores de capitais, pois a eles interessa fazer valer o capital que mais detêm. Partindo da classe superior, podemos ver, por exemplo, como a burguesia (velha burguesia dos negócios e nova burguesia dirigente das grandes empresas), detentora de um elevado capital económico, faz um grande investimento no capital social, para se distanciar de outras classes. Mas, não só a classe superior, mas também todas as outras, têm a preocupação de se distinguir entre si. Essa distinção revela-se através das escolhas diferenciadas de cada classe,
  14. 14. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 14 marcando uma distancia, simbólica e /ou física, entre elas. Desta forma, as classes com menos recursos económicos procuram atividades pouco dispendiosas (exclusivas). Por outro lado, aquelas que são detentoras de grande capital económico, utilizarão esses recursos monetários assim como as suas vantagens funcionais, para marcar intencionalmente uma grande distância entre eles e as classes que não o podem fazer. Bordieu, distingue as classes sociais com base na sua estrutura de capitais e mostra como as práticas culturais lhes estão intimamente ligados. Principalmente para os indivíduos que estão inseridos na classe média, a posição social não é rígida. A trajetória/mobilidade do individuo, pode ser ascendente ou descendente, relativamente à sua posição anterior ou à posição dos pais, dependendo da sua ambição ou resignação. Por isso, se verifica que indivíduos, beneficiando dos mesmos recursos, numa mesma altura, seguem trajetórias completamente diferentes. Bourdieu, desenvolve o conceito de “habitus” (Elias) e aplica-o às diferentes classes sociais e frações de classe. Para ele, o “habitus” é a história incorporada no individuo, que se construiu com base naquilo que ele aprendeu através das suas experiências passadas, ou seja, é um estilo de vida que assenta nas crenças filosóficas, preferências estéticas, opiniões politica, maneira de viver de cada pessoa. É com base no habitus, tendo este uma função orientadora, que o individuo vai fazer determinadas escolhas (como se comportar, da sua forma de vestir, etc.),e agir no espaço social. O habitus faz com que as pessoas se aproximem ou se afastem umas das outras, ou seja, a aproximação acontece quando há gostos, a mesma visão ou interesses em comum, e o afastamento quando existem divergências nesses pontos. É de salientar que as escolhas acontecem, na maior parte das vezes, no interior de um sistema de relações sociais. São as práticas culturais e a utilização de bens simbólicos que marcam o distanciamento entre as classes sociais, tal como afirma Bordieu: “A identidade social afirma-se pela diferença”. As preferências das classes superiores, pela música de vanguarda, pela pintura abstrata, pela arte desprovida de mensagens explícitas, etc., mais não são do que uma maneira de se distanciarem das produções culturais de massa e da classe popular. Assim, os gostos e as práticas, que correspondem ao habitus, são “diferenças simbólicas e constituem uma verdadeira linguagem”, que afirmam essas diferenças. O princípio último das distâncias assenta numa relação de desigualdade das frações com a necessidade económica. Se as classes populares têm uma grande dependência de necessidades materiais, as classes superiores, pelo contrário, assumem uma distância face aos constrangimentos materiais (distância objetiva e simbólica).
  15. 15. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 15 Neste sistema de distâncias, cada classe desempenha a sua função. Assim, é papel exclusivo da classe superior a difusão de novas formas de criação estética e de produção de novas normas culturais e, das classes populares, a rejeição. O objetivo principal de Bourdieu não foi fazer uma descrição dos costumes de cada classe mas sim compreender como eles se ligavam, se unificavam (lei). Isto é, pretendia, não entende-los como uma simples soma de elementos independentes, mas entende-los como um conjunto estruturado de relações. Abordando a questão das mudanças das práticas culturais, a nível do sistema global, podemos dizer que as classes inferiores nunca poderão alcançar as classes superiores, sendo que as últimas adotarão sempre atempadamente novas praticas com o objetivo de se distanciarem das inferiores. Por essa razão, Bourdieu, mostrou que o fato de uma classe se apropriar das práticas culturais de outra classe, não implica uma transformação do próprio sistema. Mais, verificou que a explicação relacional se opõe a uma explicação substancialista dos comportamentos. A explicação substancialista, vê esses comportamentos como propriedades inatas do individuo ou grupo que os adota. Pelo contrário, a explicação relacional, compreende como certos comportamentos que ocorrem nas relações sociais tem lugar e sentido. Assim, podemos falar de distinção, não como algo inato, mas como uma distância, uma diferença ou uma propriedade relacional que apenas existe em relação com outras propriedades. Para Bourdieu há duas maneiras para aceder à estrutura social. Primeiro, só poderá avançar desde que aquilo que quer se baseie num sólido exame de uma situação empírica concreta. Mas o seu projeto é mostrar, comparando as diferentes classes, a estrutura social. Segundo, prende-se com a natureza relacional desta estrutura. Na perspetiva relacional raciocina-se em termos de posição relativa (de uma classe, de uma fração de classe, de um grupo ou de um individuo) tendo em conta os outros e não a própria situação. Considera-se que o habitus e os jogos estratégicos dos agentes entre si explicam melhor os comportamentos do que as regras formais das organizações. Na perspetiva relacional a sociedade é o próprio sistema de relações, que liga e opõe os indivíduos. Contradições e conflitualidade – Karl Marx Testemunha do desenvolvimento extraordinário da industrialização e do capitalismo no decorrer do século XIX, Marx, ao contrário dos economistas clássicos, estuda a economia como um sistema de relações sociais entre grupos concretos que participam nos processos de
  16. 16. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 16 produção, dando-lhe o nome de relações de produção. Assim, a teoria marxista, caracteriza as relações sociais de produção como um sistema de contradições entre os seus elementos estruturais, de conflitos entre os seus atores. Por um lado, o salariato, detentor dos meios de produção (burguesia industrial), e por outro, a classe operária, que vendem a sua força de trabalho à burguesia, recebendo um salário em troca. Apesar de o operário não pertencer ao capitalista, ele permanece dependente das condições de trabalho impostas pelo empregador. Marx considera que, sob uma aparência de progresso, o trabalho do operário do século XIX é ainda pior do que a escravidão e a escravatura (de outros tempos), pois o operário é submetido a um trabalho em cadeia extenuante. Além disso, o trabalho em cadeia traz como consequência a alienação do operário, por não se reconhecer na atividade que pratica nem no objeto que daí resulta. A participação do operário, contrariamente ao que tinha acontecido no período pré-industrial, é apenas numa pequena parcela do processo de fabricação, causando-lhe por isso estranheza. E, ao sentir-se estranho ao seu próprio trabalho e a si mesmo, surge a abstração. “São estas condições de exploração e de alienação, próprias do capitalismo industrial, que definem o proletariado”. “As relações sociais de produção entre as pessoas estão ligadas às relações entre estas e as forças de produção”, a que Marx designa as relações técnicas de produção. Cabe aqui dizer que na perspetiva de Marx, as contradições, os conflitos entre as duas partes (burguesia e operários), não impede que se relacionem e pode mesmo ser uma alavanca para a mudança. A infraestrutura económica da sociedade constitui-se pelas forças produtivas, relações técnicas e as relações sociais entre estas e as pessoas que nelas trabalham. Através do seu trabalho coletivo, os operários, criam um custo bastante superior ao salário com o qual são remunerados, sendo esta diferença de valores a mais-valia do empregador Uma vez que a organização do trabalho coletivo é eficaz, a tendência é que essa mais-valia aumente, o que faz com que os ricos enriqueçam cada vez mais, enquanto os operários fiquem cada vez mais pobres. “O capitalista remunera o operário ao nível mais baixo possível, sendo a sua única preocupação que este nível possa manter a sua força de trabalho”. Segundo Marx, “ É o capitalismo industrial, indissociável do salariato, que produz verdadeiramente uma classe operária cada vez mais solidária e revoltada perante a sua exploração e miséria”. As relações mantidas no meio da produção social, são necessárias e independentes da vontade dos homens e são elas que formam a estrutura económica da sociedade.
  17. 17. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 17 Para Marx estas relações entre as classes dominantes e as dominadas são relações de exploração económica e de dominação politica e ideológica. Os interesses das diferentes classes divergem e os seus relacionamentos são conflituais, o que leva à colisão e ao início de uma era de revolução social caracterizada por uma luta de classes, que durará enquanto durar o tempo da exploração e dominação. Karl Marx usou apenas o capital económico para compreender as relações entre burguesia e a classe operária, tendo sido por isso criticado por muitos, que defendem que este é insuficiente para compreender muitos fenómenos sociais. Pelo contrário, Bordieu, alargando os capitais, não se limitando ao económico, mas tendo-o em conta, introduz outros (social, cultural e simbólico), para compreender as relações de classes.
  18. 18. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 18 Capítulo VIII “ A formação da classe operária inglesa” Edward Thompson “Os sistemas estruturais (como as normas relacionais numa instituição totalitária, um sistema de trocas ou um habitus) representam constrangimentos na medida em que limitam e orientam as práticas”. “Mas elas constituem também recursos para as práticas, às quais proporcionam quadros sociais, modalidades de ação, aspirações e competências para agir e fazer valer a sua ação”. Neste trabalho, através das análises de Thompson, veremos como os processos, as práticas quotidianas dos indivíduos e dos grupos, as suas decisões, a sua atividade militante, as suas produções intelectuais e as suas lutas sociais contribuíram para transformar as instituições, os valores, as normas, e mais em geral, as configurações sociais que prevalecem numa sociedade num dado momento. Assim, compreenderemos, através de Thompson, que a classe operária inglesa, foi-se construindo a si própria, entre 1790 e 1830. Na sua investigação, socio-histórica, que pretendia saber como se tinha formado a classe operária Inglesa, Thompson recorreu, entre outras fontes, a documentos escritos como: cartas, atas de reuniões, artigos de jornais próximos dos operários ou discursos de chefes populares. A sua pesquisa, que valorizou a abordagem qualitativa, visou reconstruir as ações e os modos de vida concretos da classe operária inglesa, assim como a maneira como os atores percecionavam as suas próprias experiencias. Constatou que, dentro da classe operária, os primeiros trabalhadores a se comprometeram nas lutas sociais, no começo da era industrial, a partir do fim do século XIX, representavam uma grande diversidade de profissões. Tecelões, impressores, encadernadores, operários agrícolas, lojistas, pequenos independentes, entre outros, com o objetivo comum de melhorarem as suas condições de trabalho (precárias), organizavam-se em associações. Mas essa organização, assumiu diferentes modalidades e maneiras de agir. Por um lado, «As sociedades de correspondência», que “eram particularmente ativas no apoio mútuo, na defesa dos trabalhadores perseguidos pela justiça ou na difusão de documentação de alcance militante.” Ao analisar, de forma mais aprofundada a Sociedade Londrina de Correspondência, Thompson, constata que esta tinha como principal objetivo uma reforma parlamentar. Por outro, o Ludismo, formado por tosquiadores e tricotadores ativos, que tinham uma atuação diferente dos anteriores, mais “violenta”. Estes juntavam-se em grupos (centenas de membros), atacavam fábricas, destruíam máquinas, por as considerarem uma ameaça ao seu trabalho.
  19. 19. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 19 Todas estas associações: «sociedades de correspondência», «Ludismo», «associações de socorros mútuos, assim como diversas manifestações e motins na via pública, com maneiras de agir diferenciadas, mais não foram do que uma reação à miséria. Todas estas ações estavam, inicialmente, fortemente descentralizadas, sem coordenação geral. Só com o decorrer do tempo, é que apareceu uma convergência de perspetivas entre estas diferentes ações, constituindo aquilo que se pode considerar um movimento social relativamente coerente e uma nova classe social. Opondo-se a Marx, Thompson, contesta uma correspondência automática entre a dinâmica económica e a dinâmica da vida social, defendendo que houve uma continuidade na tradição dissidente e que os operários das fábricas eram minoritários no início do movimento radical. Mas, também muitos observadores conservadores, radicais e socialistas sugerem a mesma equação de Marx, de que «vapor e fiação = nova classe operária». Na perspetiva de Thompson, nada nos permite estabelecer essa correspondência direta, entre a dinâmica do crescimento económico com a dinâmica da vida social ou cultural. Admite que a classe operária tenha sido fortemente influenciada pelas relações de produção, mas, mais do que isso, considera-a um fenómeno histórico, formada no movimento das lutas em uma dada sociedade. Thompson define-a da seguinte forma: “Por classe, entendo um fenômeno histórico que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. (...) a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica. Como qualquer outra relação, é algo fluido que escapa à análise se tentarmos imobilizá-la num dado momento e dissecar sua estrutura. (...) A relação precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais”. Assim, percebemos que ele entende a classe operária, de uma forma dinâmica. Isto é, a classe, constituindo uma relação história, resulta da interação de alguns homens e mulheres em experiencias comuns e partilhadas, nas quais sentem e articulam interesses entre si, em oposição e contra outros homens cujos interesses diferem e se antagonizam.
  20. 20. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 20 A consciência de classe constrói-se através das experiencias vividas pelo grupo social, expressas nas formas culturais. As tradições, costumes, valores, são frutos de uma vivência em comum, de um grupo social. A consciência de partilhar os mesmos interesses e identificar- se com estes e com os membros do grupo social é que forma a classe, para Thompson. A classe não existe sem a consciência. Fazer parte de uma classe é identificar-se com os seus interesses e valores, consciente de que estes são partilhados por todo o grupo. Para Thompson, a consciência de classe é um fenómeno mais complexo do que aquilo que Marx deixa entender. Na sua análise sobre os efeitos contraditórios do metodismo (corrente religiosa), ele constata que, por um lado, ela impediu que a revolução acontecesse, uma vez que “impunha” disciplina, obediência, o trabalho como valor supremo aos trabalhadores, mas por outro lado, ela contribui para inculcar também noções de igualdade e de dignidade humana aos trabalhadores, que passariam a ser fundamentos para as suas reivindicações. Resumindo, os esforços no sentido de submete-los ao sistema industrial e político ofereceram, paradoxalmente, a estes indivíduos as competências para se revoltarem contra o próprio sistema. Este fenómeno ilustra a distinção entre a lógica intencional e lógica objetiva. O metodismo, tendo um papel educativo, permitiu aos indivíduos (artesãos, operários agrícolas, comerciantes, etc.), pouco ou nada escolarizados, ter acesso aos textos de escritores e jornalistas radicais, nomeadamente Paine e Cobbett. Panfletos, livros baratos, impressos e vendidos clandestinamente, que difundiam ideias democráticas eram agora lidos e discutidos com grande interesse por estes indivíduos. Esta imprensa radical, independente, com ideias democráticas foi surgindo progressivamente. Jornalistas, escritores e universitários progressistas elaboravam o quadro de pensamento e definiam os objetivos para a ação coletiva. Graças a eles, uma parte cada vez maior da população interessa-se pelos debates políticos. Mesmo aqueles que não sabiam ler, ouviam de outros, estas ideias radicais, e discutiam-nas. E, é a partir da altura em que cada qual identifica a sua história individual com o destino coletivo, que se desenvolve a consciência de classe. É, na sequência deste quadro, que Thompson diz que o movimento radical é também uma cultura intelectual. Até aqui, início do século XIX, o sistema eleitoral da Inglaterra excluía a maior parte da população da vida politica. Contudo a situação alterar-se-ia, ainda que lentamente. Estas associações radicais (tais como as sociedades de correspondência), cedo perceberam que as transformações das condições socioeconómicas exigiam também transformações políticas, em geral, e a modificação das relações de força no seio do parlamento, em particular. Acreditavam que cada pessoa deveria ter os mesmos direitos políticos. Na busca deste
  21. 21. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 21 principio de igualdade, e visto que o sistema politico recusava os direitos políticos que lhes deveriam ser reconhecidos, foi necessário imporem-se, através do movimento radical, para democratizar o sistema. Assim, apresentaram-se candidatos radicais às eleições, algumas das quais ganharam, como a de Westminster em 1807. Mas, um longo caminho haveria a percorrer, mas todavia uma evolução imparável tinha sido encetada. Na perspetiva de Thompson, a classe operária, apresenta-se diversificada e multidimensional. O movimento radical é atravessado por tensões múltiplas e sacudido por várias tendências. Os seus dirigentes estão longe de ser unânimes e opõem-se por vezes vigorosamente. Entre os dois grupos extremos (radicais mais radicais e os aristocratas ou os burgueses mais conservadores e repressivos), misturam-se múltiplas correntes com opções menos categóricas, muitas vezes hesitantes e reformuláveis. Contudo, a par de conflitos abertos e sem recuos desenvolve-se um jogo de trocas, de transações e de formas menos violentas de conflitos que participam na dinâmica social da época. Estes cambiantes não impedem que, aos olhos de Thompson, a classe operária exista inequivocamente. Ao tentar perceber o nível de vida da população inglesa da época, Thompson deparou-se com algumas dificuldades, nomeadamente, estabelecer séries de salários, de preços ou de índices de consumo, etc. Mas, considera que mesmo que tivesse documentos para analisar, estes seriam insuficientes. Pois, a seu ver, as condições de vida não se limitam aos indicadores cobertos por aquilo a que se chama o nível de vida. Para ele, há mais a levar e consideração, como por exemplo, o conforto do alojamento, problemas de saúde, solidez ou fragilidade dos laços de família, entre muitos outros. Por isso, podemos ter duas leituras do nível de vida da classe operária completamente contraditórias. Por um lado, no período de 1790 a 1840, percebe-se uma ligeira melhoria dos níveis médios da vida material. Por outro, nesse mesmo período, a classe conheceu uma maior insegurança, uma exploração intensificada e uma acrescida miséria humana. Daí se conclui que, apesar de serem uteis para avaliar o nível de vida da classe, estas categorias substancialistas utilizadas na imprensa, podem ser consideradas insuficientes por ocultarem parte da realidade. Thompson, tem uma perspetiva histórica que faz justiça à diversidade e à dinâmica das situações e ao investigador um ponto de vista sobre a totalidade da experiência vivida. Ele pretende evitar as generalizações muitas vezes vazias e ideológicas as quais conduzem a teorias demasiado amplas e abstratas para poderem dar conta da exatidão da realidade humana e social. Desta forma a sua perspetiva é emancipadora.
  22. 22. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 22 Contribuição Complementar: do micro ao macro: os níveis da ação coletiva O sociólogo Alain Touraine, elaborou uma teoria de ação, na qual propõe que se distingam três níveis de ação num movimento social. Acompanhando a análise de Thompson que nos mostra o processo de formação da classe operária, percebe-se que ele integra esses três níveis de acção. Assim, no primeiro nível - o das organizações – “os atores definem-se pelos seus estatutos e ligados por relações de autoridade. Ainda que entrem em conflito por questões internas, cooperam na luta pelos objetivos da organização”. A pesquisa de Thompson mostrou toda a importância do funcionamento interno destas organizações (associações locais e outras) na base do movimento operário. No segundo nível – nível institucional e político – “quando os militantes radicais criam partidos políticos ou grupos de pressão e procuram a obtenção de lugares na assembleia parlamentar e modificar a lei eleitoral. Por outras palavras, pretendem que a sua atuação se faça a um nível mais alargado, ou seja, não atuam ao nível de uma organização particular mas sim ao nível do sistema político e institucional no seu conjunto”. Thompson, mostrou-nos como as sociedades de correspondência pretendiam fazer-se representar no parlamento, sendo o seu objetivo a reforma parlamentar. No terceiro nível – “é o das relações de classes propriamente ditas, que são dificilmente observáveis. A este nível, a questão dos conflitos incide sobre o uso que a sociedade faz da sua capacidade de atuar sobre ela mesma, de fazer a sua própria história”. Thompson, também nos mostrou estes conflitos entre as classes e, como a classe operaria escolheu através das suas ações fazer a sua história. Para Touraine, os elementos constituintes do movimento social são: a identidade (autodefinição do ator social através do conflito com outrem); a oposição (o movimento social implica a existência de um adversário) e por último a totalidade (atores em conflito, mesmo quando este seja circunscrito ou localizado, põem em causa a orientação geral do sistema). Nestes três princípios percebe-se a herança de Marx, mas tal para Touraine como para Thompson, a história será aquilo que os indivíduos dela fizerem. Touraine mostrou que um movimento social integra três níveis de ação, que habitualmente se qualificam da seguinte maneira: «micro» (para as organizações concretas e mais largamente as relações de face a face na vida quotidiana), de «meso» (para as relações de poder aos níveis institucional e politico) e «macro» (para as orientações sociais gerais e as relações de classes.
  23. 23. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 23 O problema é o da sua articulação. De outra forma, os movimentos sociais, não passando por estes níveis de ação, não passarão de uma utopia. A pesquisa de Thompson traz uma contribuição preciosa, porque abrange e liga todos estes processos: micro, meso e macrossociais. E, através da leitura dos trabalhos conceptuais de McAdam, MacCarthy e Zald, sobre Thompson, percebe-se essa ligação.
  24. 24. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 24 Reflexão A sociologia, ciência que estuda a vida social das sociedades, dos grupos, da interação dos indivíduos, surge no seculo XVIII (Revolução Francesa), com o declínio do conhecimento religioso e a instauração de um novo tipo de conhecimento – o conhecimento científico. Não só a Revolução Francesa, mas também a Revolução Industrial no século XIX (mudança da sociedade feudal para a capitalista), responsáveis por uma serie de profundas mudanças socias, contribuíram para o surgimento da sociologia. As mudanças económicas, politicas e culturais passam a ser investigadas e analisadas cientificamente. A este respeito Ferreira (2001) afirma: “Os primeiros sociólogos construíram conceitos voltados para a tentativa de interpretar por critérios científicos a realidade social. Esse foi o primeiro embate vivido por tal ciência, que é uma das marcas centrais do mundo ocidental moderno, uma vez que o passo a ser dado implicava superar, por meio da razão, os ditames colocados pelos ensinamentos do senso comum, que até então dominavam a maior parte das interpretações e explicações sobre o sentido da ação coletiva humana”. (FERREIRA, 2001,pág. 32). Após as primeiras investigações clássicas, surgem os sociólogos contemporâneos, que numa tentativa de aperfeiçoamento das teorias existentes, vão superar algumas dicotomias como por exemplo: o individuo versus a sociedade, objetivismo versus subjetivismo, estrutura versus ação. Por outras palavras, a sociologia contemporânea difere da clássica, por terem sido escolhidas novas problemáticas, especialmente aquelas que estavam ligadas às condições de trabalho da classe operária nas sociedades industriais. Richard Hoggart, sociólogo contemporâneo, que estudou a cultura das classes proletárias inglesas, nos anos 30 a 50, constata, recorrendo a métodos científicos (fuga ao subjetivismo), que a visão etnocêntrica da burguesia sobre a classe operária, baseada em estereótipos, é enganadora. Pois, conclui com a sua investigação que, partilhando das mesmas condições de precariedade e posição social inferior, certos tipos de comportamentos da classe operária têm como objetivo o reforço e a coesão da classe.
  25. 25. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 25 A obra de Bordieu “ A distinção”, vem superar a obra clássica de Karl Marx. Enquanto para Marx o que determina o pertencimento a uma classe é o facto de se ser ou não detentor dos meios de produção (estrutura), para Bordieu, o capital é mais complexo, não tendo somente uma dimensão material mas também simbólica, daí ter introduzido, além do económico, os conceitos de capital social, cultural e simbólico. Tal como outros fenómenos sociais, os aqui estudados, encontram-se divididos entre uma macro e uma microssociologia. As teorias macrossociológicas, segundo Giddens (2004), são aqueles que “…debruçam-se sobre sistemas sociais em grande escala, como o sistema político ou a ordem económica” acompanhando as grandes mudanças ao nível social. Pelo contrário, as teorias microssociológicas, debruçam-se sobre as interações em pequenos grupos. Assim temos, nestes capítulos estudados, por uma lado, investigadores como Marx e Thompson, que estudaram, pelos grandes planos (macrossociologia) a exploração, a industrialização, a divisão do trabalho, as transformações das estruturas de poder no seu todo. Por outro lado, Goffman explica, pelos pequenos planos (microssociologia), os comportamentos dos doentes mentais pela estrutura social da instituição totalitária. Por outras palavras, considera que, a individualidade do individuo formada de forma gradual na vida civil, é objeto de adulteração nas instituições totalitárias. Sendo isto tão válido para os doentes mentais quanto para os indivíduos sãos. Concluímos, a partir das análises profundas e objetivas (sustentadas em métodos científicos), que a visão que temos da realidade social, baseada em ideias subjetivas, crenças e valores é muitas vezes errada. Por outro lado, tanto a macro como a microssociologia, são de extrema importância para compreendermos a realidade social. A primeira, porque nos permite entender a forma como os indivíduos são afetados pelo enquadramento institucional onde estão inseridos. A segunda, porque nos permite entender os comportamentos dos indivíduos no quotidiano em situações de interação direta. As diferentes abordagens contemporâneas (funcionalista, interacionismo simbólico, teoria da interação) que estudamos nestes capítulos (Hoggart, Goffman, Bordieu e Thompson, Merton, Touraine, entre outros), assim como a obra clássica de Marx, são de extrema importância porque é através destas investigações que percebemos como funcionaram e evoluíram as sociedades pós industriais.
  26. 26. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 26 Sendo que a realidade social é dinâmica, porque está em constante mutação, e, pluridimensional, porque ocorre em múltiplas dimensões, a sociologia, nunca poderá estar “completa”.
  27. 27. FICHA DE LEITURA (CAPITULOS 1,2,6,8) - INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS FENÓMENOS SOCIAIS” DE LUC VAN CAMPENHOUDT 27 Referências Bibliográficas Campenhoudt, Luc Van, (2003) Introdução à análise dos fenómenos sociais, Lisboa, Edições Gradiva Giddens, Anthony (2004), Sociologia, 4º Edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian http://pt.scribd.com/doc/66565873/Delson-Ferreira-Manual-de-Sociologia, acedido em 2/11/2012

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