Bedwyn 06.ligeiramente perigoso

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Bedwyn 06.ligeiramente perigoso

  1. 1. Ligeiramente Perigoso Mary Balogh Série Bedwyn 06 Disponibilização em Esp: Passionate Novels Tradução: YGMR Revisão: Edith Revisão Final: Adriana Amaral Formatação: Adriana e Gisa PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES A chegada de Wulfric Bedwyn, duque de Bewcastle, à festa campestre por excelência da temporada revolucionou a alta sociedade londrina. É um dos homens mais ricos, poderosos e influentes do reino; também o mais altivo e distante. Mas nesta deslumbrante tarde de verão, enquanto todos os olhares femininos convergem no bonito e arrogante duque, ele só parece ter olhos para a única mulher que de maneira nenhuma quereria chamar sua atenção. Christine Derrick é imune a seu título e sua posição. Desconcerta-o e o exaspera com sua vitalidade e suas francas maneiras. É absolutamente inadequada para ele. Mas a seu lado, pela primeira vez em sua vida, Wulfric sente que esse muro de frieza e reserva que levantou entre ele e o mundo se começa a rachar. Nota da revisora Edith: Adorei a historia. É deliciosa. Ri muito. O duque é arrogante, altivo, frio e cumpre todas as regras da etiqueta. A mocinha é oposto de tudo isso. Mete-se em situações embaraçosas das quais é a primeira a rir (eu junto). E tem uma luz própria e alegria que conquista a todos e faz com que o duque se apaixone por ela contra sua vontade. E vice-versa. Os demais Bedwing que foram os personagens principais das demais historias agora aparecem como casamenteiros! Nota da Revisora Adriana: O livro começa como todos os outros clássicos que já li, mas depois fica interessante e o tempo todo a gente quer saber o que a mocinha vai aprontar em seguida e qual será a reação do Conde. Também passei boa parte do livro na expectativa de que a mocinha o fizesse rir, pois ele é um homem muito sério que não dá um risinho sequer.
  2. 2. Capítulo 1 -Tem as faces excessivamente ruborizadas, Christine - comentou sua mãe ao mesmo tempo que soltava a costura em seu regaço para lhe dar uma olhada mais conscienciosa - E os olhos muito brilhantes. Espero que não tenha febre. Christine pôs-se a rir. -Venho do vicariato estive jogando com os meninos – explicou - Alexander queria jogar críquete, mas em seguida nos demos conta de que Marianne não podia apanhar a bola e de que Robin era incapaz de golpeá-la. Assim decidimos brincar de esconderijo, embora para Alexander parecesse um jogo muito infantil para seus nove anos e tive que pedir que ficasse no lugar de sua pobre tia com seus vinte e nove anos! Estávamos nos divertindo muito até que Charles apareceu na janela de seu escritório e nos perguntou, embora suponha que foi uma pergunta retórica, como ia terminar o sermão com toda a animação que estávamos fazendo. Nesse momento Hazel saiu com os copos de limonada e levou aos meninos ao salão para que se entretivessem lendo em silêncio, pobrezinhos, e eu decidi voltar para casa. -Parece-me que não usava o chapéu enquanto brincava de correr de um lado para outro com os meninos - comentou sua irmã mais velha, Eleanor, que afastou o olhar do livro para observá-la por cima de seus óculos - Não está ruborizada, tomou muito sol! -Como quer que meta a cabeça nos esconderijos mais diminutos se o chapéu dobrar seu tamanho? - perguntou-lhe, lançando mão da lógica ao mesmo tempo que começava a colocar em um vaso com água que tinha pego da cozinha as flores que tinha cortado do jardim antes de entrar em casa. - Saiba que tem o cabelo feito um desastre - acrescentou Eleanor. -Isso tem conserto fácil - assegurou, passando-as mãos pelos curtos cachos com uma gargalhada - Já está feito. Melhor assim? Eleanor meneou a cabeça antes de devolver o olhar ao livro, embora o fez com um sorriso. Um agradável silêncio reinou de novo na sala enquanto as três mulheres se concentravam em suas respectivas tarefas. Entretanto, o silêncio emoldurado pelos gorjeios dos pássaros e o zumbido de dos insetos que revoavam do outro lado das janelas abertas foi interrompido ao cabo de uns minutos pelo som da carruagem que entrou na rua em direção a Hyacinth Cottage. Havia mais de um cavalo e o som das rodas indicava que era um veículo grande. Devia ser a carruagem do Schofield Park, a casa senhoril do barão Renable situada a uns três quilômetros de distância, supôs de forma distraída. Nenhuma das três prestou muita atenção à chegada do veículo. Lady Renable costumava utilizá-la quando ia fazer visitas, embora uma calesa poderia lhe haver servido para o mesmo propósito, ou um simples cavalo... ou seus dois pés. Eleanor costumava descrever à dama como frívola e ostentosa, e não era uma descrição desacertada. Embora também fosse amiga de Christine. Nesse momento compreenderam que os cavalos estavam diminuindo o passo. As rodas da carruagem chiaram em protesto. As três ergueram a vista ao mesmo tempo. - Acho que lady Renable vem de visita - disse Eleanor, com a vista cravada ao outro
  3. 3. lado da janela por cima dos óculos-. A que se deverá a honra? Estava esperando-a, Christine? -Sabia que tinha que ter trocado de touca depois do almoço - disse sua mãe - Christine, por favor, diga à senhora Skinner que traga correndo uma limpa. -A que leva está muito bem, mamãe - assegurou enquanto dava os últimos toques ao ramo, depois do que atravessou a sala para lhe dar um beijo na fronte. - Além disso, só é Melanie. -Já sei que é lady Renable. Essa é minha preocupação - replicou exasperada sua mãe, embora não voltasse a insistir com o assunto da touca. Não era preciso ser um gênio para adivinhar o motivo da visita de Melanie. -Suponho que deve perguntar por que recusou o convite - aventurou Eleanor, pondo voz a seus próprios pensamentos - E suponho que não aceitará um não por resposta agora que veio em pessoa. Pobre Christine. Quer correr para se esconder em seu dormitório enquanto eu lhe digo que contraíste um leve caso de varíola? Pôs-se a rir ao escutar o comentário de sua irmã enquanto sua mãe levava as mãos à cabeça. Era por sabido todos que Melanie jamais aceitava um não por resposta. Independentemente do que Christine estivesse fazendo, e sempre estava ocupada com algo - dava aulas na escola da aldeia vários dias na semana; visitava e ajudava aos anciões e aos doentes, a alguma mulher que acabava de dar a luz, a algum menino doente ou a algum amigo; e brincava e entretinha a seus sobrinhos no vicariato, já que em sua opinião Charles e Hazel os desatendiam com a desculpa de que os meninos não necessitavam que um adulto brincasse com eles quando se tinham uns aos outros para entreter-se. Melanie se empenhava em acreditar que devia estar adoecendo à espera de que aparecesse alguém com alguma diversão frívola. Claro que Melanie era sua amiga e adorava estar com ela e com seus filhos. Mas dentro de limites. Estava segura de que sua visita não tinha outro fim que repetir em pessoa o convite que lhe tinha levado por escrito um criado no dia anterior. E que ela tinha recusado também por escrito, com tato, mas com firmeza. Em realidade tinha recusado um mês antes, a primeira vez que a convidou. A carruagem se deteve em frente à grade do jardim com tal animação que todos os habitantes do povoado deveriam ser conscientes de que a baronesa teve o trabalho de fazer uma visita à senhora Thompson e a suas filhas, residentes do Hyacinth Cottage. Escutou-se o ruído da portinhola ao abrir-se e fechar-se, logo antes que alguém - possivelmente o cocheiro, pois era impossível que fosse Melanie. Suspirou e se sentou à mesa. Sua mãe soltou a costura e endireitou a touca. E Eleanor retornou a seu livro com um sorriso malicioso. Melanie, lady Renable, entrou na sala ao cabo de um instante, deixando atrás à senhora Skinner, a governanta, que tinha aberto a porta para anunciá-la. Como era habitual, estava muito arrumada para a vida rural. Seu traje era tão elegante como se fosse dar um passeio pelo Hyde Park, em Londres. Seu rígido chapéu estava coroado por coloridas e espigadas plumas cuja finalidade era o de fazê-la parecer mais alta. Usava luvas e uma de suas mãos segurava uns óculos. Sua pessoa parecia ocupar a metade da sala. Sorriu-lhe com jovial afeto.
  4. 4. -Ah, aqui está, Christine! - exclamou Melanie com grande eloquência depois das saudações e das cortesias de rigor com as outras duas damas. -Aqui estou – reiterou - Como está, Melanie? Sente-se na poltrona. Entretanto, sua senhoria declinou o convite com um gesto dos óculos. -Não tenho tempo - declarou - Estou segura de que sofrerei uma de minhas enxaquecas antes que acabe o dia. Você tem culpa que esta visita seja necessária, Christine. O convite deveria ter bastado que eu saiba. Não entendo por que teve que me enviar essa carta recusando-o. Bertie assegura que é um excesso de falsa modéstia e diz que deveria lhe dar uma lição e não vir em pessoa para fazê-la repensar. O pobre não diz mais que tolices... Mas eu sei por que recusou o convite, e estou aqui para dizer que você também faz tolices de vez em quando. É porque Basil e Hermione estão convidados, não é? E porque discutiu com eles depois da morte de Oscar. Mas isso faz muito tempo, e você tem o mesmo direito que eles a vir a minha casa. Afinal, Oscar era o irmão de Basil e, embora o pobre já não esteja conosco, você é e continuará sendo parte de nossa família porque esteve casada com ele. Christine, não seja teimosa. Nem peque de falsa modéstia. Recorda que é a viúva do irmão de um visconde! Era impossível que o esquecesse, embora as vezes gostaria de fazê-lo. Tinha estado casada durante sete anos com Oscar Derrick, irmão de Basil, visconde de Elrick, e primo de lady Renable. Conheceram-se em Schofield Park, na primeira festa que Melanie organizou justo depois de casar-se com Bertie, o barão Renable. Para ela, filha de um cavalheiro com recursos tão escassos que se viu obrigado a complementar seus ganhos com o salário de professor de aldeia, tinha sido um matrimônio muito vantajoso. E nesse momento Melanie queria que fosse a outra de suas festas. -É uma cortesia de sua parte me convidar. - disse Christine - Mas de verdade preferiria não ir. -Tolices! - Melanie levou os óculos aos olhos e inspecionou a sala com eles, um gesto afetado que os fazia muita graça a Eleanor e a ela; e como não, sua irmã não demorou para esconder a cabeça atrás do livro para ocultar seu sorriso. -É claro que quer ir. Quem não ia querer? Minha mãe virá, acompanhada de Audrey e sir Lewis Wiseman. Em realidade, a festa é a celebração de seu compromisso, embora já tenha sido anunciado. Inclusive convencemos ao Héctor, embora já sabe que é impossível convencê-lo a se divertir a menos que alguém o obrigue. - Justin também irá? -perguntou. Audrey era a irmã mais nova de Melanie; Héctor e Justin, seus irmãos. Justin era seu amigo desde que os apresentaram naquela mais que longínqua primeira festa. Virtualmente tinha sido seu único amigo durante os últimos anos de seu matrimônio. -É obvio que sim. - respondeu Melanie - Acaso não vai onde quer? Sobre tudo a minha casa, que é onde passa mais tempo. Sempre se deu muito bem com minha família. Mas além deles, esperamos a um sem-fim de convidados distintos e agradáveis, e planejamos um bom número de atividades para que todo mundo se divirta, manhã, tarde e noite. Tem que vir. Insisto. -Melanie - protestou Christine-, de verdade que... -Deveria ir, Christine - interrompeu-a sua mãe - e divertir-se. Sempre está pendente das necessidades de outros.
  5. 5. -Já pode ir dizendo que sim - acrescentou Eleanor, que preferiu voltar a olhar por cima dos óculos em lugar de tirá-los até que a visita partisse e pudesse retornar à leitura - Sabe muito bem que lady Renable não irá até que a tenha convencido. Olhou com exasperação a sua irmã, que se limitou a enfrentar seu olhar com expressão risonha. Por que ninguém convidava a Eleanor a esse tipo de acontecimentos? Entretanto, conhecia a resposta. Em seus trinta e quatro anos, sua irmã tinha aceitado com placidez seu papel como solteirona e como apoio de sua mãe, e não parecia sentir a juventude perdida. Porque esse foi o caminho que escolheu de forma deliberada quando o único pretendente que teve morreu em combate na Península muitos anos atrás, e depois nenhum homem tinha conseguido fazê-la mudar de opinião, embora alguns o tenham tentado. -Tem muita razão, senhorita Thompson - replicou Melanie, e as plumas de seu chapéu se inclinaram quando assentiu com a cabeça - Porque aconteceu algo terrível. como sempre, Héctor se deixou levar por seu caráter impulsivo. Héctor Magnus, visconde de Mowbury, era um erudito que vivia virtualmente afastado do mundo. Era impossível imaginá-lo fazendo algo impulsivo. Melanie começou a golpear a mesa com os dedos. -O pobre não sabe como comportar-se - afirmou- teve a temeridade de convidar a um amigo à festa, lhe assegurando que era eu quem o convidava. E teve a amabilidade de me informar desta mudança de planos há apenas dois dias; muito tarde para encontrar a uma dama que emparelhe o número de convidados. Ah! Por fim entendia. Seu convite tinha chegado no dia anterior pela manhã, um dia depois que Melanie descobrisse a catástrofe que se abatia sobre seu mundo. -Tem que vir – repetiu - Querida Christine, não pode se negar. Seria uma desgraça impensável ver-me obrigada a fazer uma festa com um número ímpar de convidados. Você não o permitiria, não é? Muito menos quando minha salvação está em suas mãos. -Seria muito embaraçoso, na verdade - reconheceu sua mãe - Sobre tudo quando Christine não tem nada especial para fazer durante as próximas duas semanas. -Mamãe! - protestou. Os olhos da Eleanor seguiam olhando-a com expressão risonha por cima dos óculos. Suspirou com força. Estava decidida a manter-se firme. Nove anos antes tinha entrado para formar parte da alta sociedade graças a seu matrimônio. Naquela época a ideia lhe tinha sido maravilhosa. Além de estar enamoradíssima de Oscar, a possibilidade de formar parte dos círculos sociais mais deliciosos a tinha deslumbrado por completo. E durante alguns anos tudo tinha ido bem tanto em seu casamento como na alta sociedade. Depois tudo começou a ir ladeira abaixo. Tudo. Ainda se sentia aturdida e doída quando o recordava. Enfim, assegurou-se de manter tudo enterrado no fundo de sua mente a fim de conservar a prudência e recuperar o ânimo, e nesse momento não necessitava de nenhum aviso do passado. Não queria ver Basil nem Hermione nem em pintura. Entretanto, era incapaz de ficar de braços cruzados quando alguém estava em apuros. E Melanie parecia necessitar de verdade de sua ajuda, porque a fama de anfitriã meticulosa era seu maior orgulho. Além disso, por cima, eram amigas. -O que lhe parece se continuar aqui em casa, mas ir a uma festa em alguma ou outra
  6. 6. ocasião? - sugeriu com uma nota esperançada na voz. -Mas Bertie teria que ordenar que preparassem a carruagem todas as noites para trazê-la e que a recolhessem pela manhã - disse Melanie. - Seria um aborrecimento, Christine. -Poderia ir caminhando - assinalou. -E chegar com a bainha do vestido poeirenta ou enlameada, as faces ruborizadas e o cabelo alvoroçado? – perguntou - Para isso, melhor não ir. Tem que ficar dormindo conosco. E não há mais o que falar. Os convidados chegarão depois de amanhã. Enviar- lhe-ei a carruagem cedo para que possa se instalar comodamente. Compreendeu que o momento para negar com firmeza já tinha passado. Ao que parecia, estava condenada a ir a uma das festas campestres de Melanie. Pelo amor de Deus! Se não tinha nada que vestir nem dinheiro para comprar um guarda-roupa novo! Claro que, de qualquer forma, tampouco havia algum lugar onde comprar um guarda- roupa novo em oitenta quilômetros ao redor. Melanie acabava de retornar de Londres, onde tinha passado a temporada social atuando como madrinha da estreia de sua irmã e sua apresentação à rainha. Todos seus convidados, salvo ela acabavam de retornar da capital e levariam consigo seus melhores trajes e suas deliciosas maneiras. Aquilo era um pesadelo. -Muito bem – disse - Irei. Melanie esqueceu sua dignidade o suficiente para rebaixar-se a sorrir de orelha a orelha, antes de lhe golpear o braço com os óculos. -Sabia que o faria – afirmou - Embora teria gostado que não me tivesse feito perder todo este tempo para vir convencê-la. Tenho um sem-fim de coisas que fazer. Me dá vontade de estrangular ao Héctor. De todos os cavalheiros que poderia haver convidado, teve que escolher ao único capaz de converter uma festa em um não viver para a anfitriã. E para cúmulo me avisa de sua chegada com alguns dias de antecipação! -O príncipe do Gales? - aventurou Christine, rindo entre dentes. -Não acredito que alguém deseje tê-lo em sua casa - respondeu Melanie - embora suponha que seria um logro contar com ele. Mais ou menos como acontece com meu convidado, que não é outro senão o duque de Bewcastle. Arqueou as sobrancelhas ao escutá-la. Conhecia o duque de ouvir falar, mas jamais o tinham apresentado. Era incrivelmente poderoso e arrogante e também frio como um bloco de gelo, segundo os rumores. Compreendia o nervosismo de Melanie. E tinha escolhido a ela para fazer par com o número de convidados? A ideia lhe pareceu hilariante até que compreendeu que a presença do duque era uma razão mais para ficar em casa. Claro que já era muito tarde. -Ai, Deus! - exclamou sua mãe, que parecia muito impressionada. -Sim - concordou Melanie com os lábios apertados ao mesmo tempo que suas plumas se balançavam - Mas não tem por que preocupar-se, Christine. Há um bom número de cavalheiros que lhe serão muito agradáveis e que estarão encantadíssimos em procurar sua companhia. Sempre tem esse efeito nos homens, sabe? Apesar de seus anos. Eu mesma estaria morta de ciúmes se não estivesse tão apegada ao Bertie, embora fique tão intolerável cada vez que organizo uma festa. Não para de grunhir, de queixar-se e de insinuar que divertir-se não lhe interessa o mínimo. De qualquer forma, suponho que
  7. 7. não terá que cruzar nenhuma palavra com sua excelência se não quiser. Sua arrogância e sua reserva são conhecidas, e possivelmente nem sequer chegue a reparar em você. -Prometo que não tropeçarei em seus pés – replicou - porque me manterei bem longe dele. Os lábios da Eleanor voltaram a esboçar outro sorriso quando a olhou. Entretanto, pensou, o problema era que talvez acontecesse o que tanto desejava evitar: tropeçar nele. Ou melhor, tropeçaria consigo mesma quando passasse em frente ao duque enquanto levava nas mãos uma bandeja com gelatina ou uma jarra de limonada. Estaria muito mais contente ficando em casa, mas já não podia fazer nada. Tinha aceitado ficar em Schofield Park durante duas semanas. -Agora que o número de convidados volta a ser par - disse Melanie - tentarei perdoar ao Héctor. Esta será a melhor festa campestre de todos os tempos. Com certeza será o assunto de conversa em todos os salões londrinos na próxima temporada, vou converte- me na inveja de todas as anfitriãs inglesas e aqueles que não estão convidados procurarão com esforço um convite o ano que vem. O duque de Bewcastle nunca sai de Londres a menos que seja a uma de suas propriedades. Não consigo entender como Héctor conseguiu convencê-lo a vir. Talvez lhe tenham chegado rumores de como são deliciosas minhas festas. Ou talvez... Não obstante, ela tinha deixado de escutá-la. As seguintes duas semanas estavam destinadas a ser algo menos agradável. E para cúmulo estava o agravante da presença do duque de Bewcastle como convidado, coisa que a faria sentir-se envergonhada. Em vão, é obvio, já que tal como Melanie acabava de afirmar, era improvável que percebesse sua presença, do mesmo modo que não se perceberia se pisasse em uma lombriga. Como detestava sentir-se envergonhada! Nunca o tinha feito até uns anos depois de suas bodas, quando se transformou de repente na protagonista dos falatórios das pessoas, depois de enviuvar se prometeu que jamais voltaria a ficar nessa situação, que jamais abandonaria os limites de seu reduzido mundo. Claro que os anos não passavam em vão. Estava a ponto de completar os trinta, era a velhice! Ninguém esperaria que se unisse aos jovens para pular alegremente. Podia fazer parte do grupo de adultos dignos. Podia acomodar-se em sua cadeira e observar os acontecimentos em lugar de participar deles. De fato, inclusive poderia ser muito divertido. - Quer tomar uma xícara de chá com biscoitos, lady Renable? -perguntou sua mãe. -Não tenho tempo, senhora Thompson - respondeu Melanie - Os convidados chegam depois de amanhã e ainda restam mil e um detalhes que atender. A vida de uma baronesa não é tão glamorosa como parece, asseguro. Tenho que partir. Despediu-se com um elegante gesto da cabeça, embora desse um beijo na face e um carinhoso apertão no braço, e saiu da sala agitando os óculos, um revoou de plumas e saias. Sua mãe já estava de pé. -Temos que subir a seu quarto agora mesmo, Christine – disse - para ver se terá que limpar, remendar ou adornar sua roupa. Pelo amor de Deus, o duque de Bewcastle ! Além disso o visconde de Mowbury, sua mãe e visconde de Elrick com sua esposa! E de lorde e lady Renable, é obvio. Subiu correndo a escada em frente de sua mãe para ver se, por algum milagre,
  8. 8. tinham aparecido de repente em seu armário dez ou doze vestidos elegantes e na moda desde que se vestira essa manhã. Wulfric Bedwyn, duque de Bewcastle, estava sentado atrás da enorme escrivaninha de carvalho da magnífica e bem sortida biblioteca de sua residência londrina, Bedwyn House. Arrumou-se para a noite com muito esmero e elegância, embora não tivesse jantado com nenhum convidado nem havia ninguém presente nesse momento. O tampo de couro de sua escrivaninha estava vazio, salvo pelo mata-borrão, várias penas recém- afiadas e o tinteiro com seu plugue de prata. Não tinha nada que fazer, pois sempre se assegurava de concluir os assuntos de negócios durante o dia, e já era de noite. Poderia ter saído de fato, ainda podia fazê-lo. Tinha vários convites entre os que escolher, embora a temporada tivesse concluído e a maioria de seus pares partira a Brighton ou a suas respectivas propriedades no campo para passar o verão. Entretanto, nunca tinha gostado das reuniões sociais a menos que sua presença fosse requerida por um motivo muito concreto. Poderia ter passado a noite no White"S, embora o clube não estaria muito concorrido nessa época do ano, era um bom lugar onde procurar companhia agradável e conversa. Não obstante, tinha passado muito tempo em seus distintos clubes ao longo da última semana mais ou menos, desde que o Parlamento fechara suas portas. Nenhum membro de sua família estava na cidade. Lorde Aidan Bedwyn, o irmão com o que tinha menos diferença de idade e seu legítimo herdeiro, nem sequer tinha posto um pé em Londres nessa primavera, ficou no Oxfordshire com sua esposa, Eve, devido ao nascimento de seu primogênito, que tinha sido uma menina. Depois de três anos de casamento tinha sido um acontecimento muito celebrado e esperado. O batismo tinha sido em maio e ele mesmo tinha assistido, embora só ficou com eles alguns dias. Lorde Rannulf Bedwyn, o terceiro dos Bedwyn por ordem de nascimento, estava no Leicestershire com Judith e seus dois filhos, um menino e uma menina. Desde a morte de sua avó, momento no que herdou a propriedade, tomava suas obrigações como latifundiário com mais seriedade que nunca. Freyja, uma de suas irmãs, estava na Cornualha com o marquês do Hallmere, seu marido, que nesse ano tinha descuidado de suas obrigações parlamentares e tampouco tinha pisado na capital. Freyja estava grávida de novo. Seu primeiro filho nasceu a princípios do ano anterior e ao que parecia os dois desejavam uma menina nessa ocasião. Lorde Alleyne Bedwyn estava no campo com sua esposa, Rachel, e suas gêmeas, que nasceram no verão anterior. Estavam muito preocupados com a saúde do barão Weston, o tio de Rachel, com quem viviam, e não queriam deixá-lo sozinho. O coração voltava a lhe dar problemas. Morgan, a caçula da família, estava em Kent. Ela e seu marido, o conde de Rosthorn, tinham passado umas semanas na cidade, mas o clima de Londres não tinha sido muito bom para seu filho, de modo que Morgan o tinha levado de volta para casa. Rosthorn tinha passado a primavera viajando entre Londres e o campo até que o Parlamento fechara suas portas, momento no qual partira sem perda de tempo. Não voltaria a repetir a experiência jamais, tinha-lhe assegurado antes de partir. No futuro, se sua esposa e seus filhos não podiam acompanhá-lo, ficaria em casa, e que se aborrecesse o Parlamento. "Seus filhos", havia dito. Em plural. O que
  9. 9. certamente queria dizer que Morgan também estava grávida. Era muito gratificante, concluiu enquanto segurava uma das penas e a acariciava com o indicador e o polegar, ver que seus irmãos estavam felizmente casados. Suas obrigações no referente a eles tinham sido concluídas de forma satisfatória. Entretanto, Bedwyn House estava vazia sem eles. Morgan nem sequer se alojou com ele durante as semanas que tinha estado na cidade. Talvez fosse essa conclusão que o tinha levado a tomar uma decisão impulsiva, coisa incomum nele, poucos dias antes. Tinha aceito um convite verbal de parte de lady Renable para participar da festa campestre que a dama faria em Schofield Park, em Gloucestershire. Jamais ia a festas campestres. Era incapaz de imaginar uma forma mais insípida de passar duas semanas. Claro que Mowbury lhe tinha assegurado que a companhia seria excepcional e a conversa, inteligente, e que poderiam pescar. De qualquer forma, duas semanas rodeado pelas mesmas pessoas, por muito afáveis que estas fossem, poderiam acabar com a paciência de qualquer um. Reclinou-se na poltrona e apoiou os cotovelos nos braços, depois do que uniu as mãos pelas pontas dos dedos e cravou o olhar à frente, sentia falta da Rose mais do que se atrevia a admitir. A que fora sua amante durante mais de dez anos tinha morrido em fevereiro. Um resfriado inofensivo na aparência, embora ele insistisse em chamar a seu médico pessoal para que a atendesse. Apesar de tal atenção, acabou convertendo-se em uma inflamação dos pulmões, e o único que o médico pôde fazer foi lhe evitar as dores na medida do possível. Sua morte tinha sido um duro golpe. Esteve ao seu lado no último momento, assim com durante a prática totalidade de sua enfermidade. E se sentia exatamente como se tivesse enviuvado. Rose e ele tinham desfrutado de uma relação muito agradável. Durante os meses do ano quando residia na cidade, encarregava-se de que ela estivesse alojada com todos os luxos e comodidades, e quando partia para Lindsey Hall, ela ia à casa de seu pai, um ferreiro, onde sua condição de amante rica de um duque lhe dava certa fama e um considerável respeito. Sempre que estava em Londres costumava passar as noites com ela. A sua não tinha sido uma relação apaixonada (a paixão era algo alheio a ele) e tampouco tinham desfrutado de uma amizade especialmente íntima, pois seus interesses e sua educação eram muito diferentes. Não obstante, tinham tido um agradável companheirismo. Estava seguro de que para ela também tinha sido uma relação satisfatória. Se não fosse assim, o teria notado ao longo dos dez anos de sua relação. Sempre se tinha alegrado de não ter tido nenhum filho com ela. Embora os teria mantido se tivessem nascido, lhe teria sido incômodo ter filhos bastardos. Sua morte tinha deixado um enorme vazio em sua vida. Sentia falta dela. Tinha levado uma existência celibatária desde fevereiro, mas não sabia como podia substituí-la. Tampouco estava seguro de querer fazê-lo. Ao menos, no momento. Rose tinha sabido agradá-lo e satisfazê-lo. E ele tinha sabido agradá-la e satisfazê-la, mas estaria disposto a amoldar-se a outra pessoa? Aos trinta e cinco anos se sentia como um ancião. Nesse momento apoiou o queixo na ponta dos dedos. Tinha trinta e cinco anos. Tinha completado suas obrigações como duque de Bewcastle ao pé da letra, e isso
  10. 10. porque nunca tinha querido o título, apesar de havê-lo herdado aos dezessete anos. Todas as obrigações salvo a de casar-se e engendrar filhos e herdeiros. Muitos anos antes tinha estado a ponto de cumprir também essa obrigação, quando era jovem e albergava a esperança de que a felicidade pessoal e as obrigações pudessem vir de mãos dadas. Entretanto, na mesma noite escolhida para anunciar o compromisso, sua futura esposa pôs em marcha um elaborado plano a fim de livrar-se de um matrimônio que lhe era repugnante, já que tinha muito medo (dele e de seu próprio pai) para dizer a verdade. Como um duque ia escolher uma mulher como sua duquesa e esperar que a união lhe trouxesse felicidade pessoal? Quem ia casar-se com um duque pela pessoa, não pelo título? De uma amante era fácil desfazer-se. De uma esposa, não. Daí que a pequena rebelião que se permitiu desde aquele assunto com lady Marianne Bonner não fosse outra que a de permanecer solteiro. E satisfazer suas necessidades com Rose, a quem conheceu e fez sua amante menos de dois meses depois daquela desastrosa noite. Mas Rose estava morta e enterrada graças a sua generosidade em uma igreja próxima à forja de seu pai. O duque de Bewcastle tinha deixado à vizinhança boquiaberta com sua presença no funeral. Por que demônios tinha aceito ir a Schofield Park com Mowbury? Porque não queria voltar sozinho a Lindsey Hall, mas ao mesmo tempo tampouco suportava a ideia de ficar em Londres? Uma razão de pouco peso, embora Mowbury fora muito inteligente e um grande conversador, e lhe tivesse assegurado que o resto dos convidados cumpriria a mesma premissa. De qualquer forma, teria sido melhor passar o verão inspecionando suas diversas propriedades na Inglaterra e Gales, e talvez ficando uns dias com cada um de seus irmãos enquanto viajava de uma a outra. Não, o último não teria sido boa ideia. Todos eles tinham as próprias vidas. Cônjuges e filhos. Todos eram felizes. Sim, assim achava. Eram felizes de verdade. Todos eles. E se alegrava muitíssimo. O duque de Bewcastle, completamente a sós com seu esplendor e poder pessoal, e rodeado pela magnificência da mansão londrina que habitava, continuou olhando ao vazio enquanto batia as pontas dos dedos no queixo.
  11. 11. Capítulo 2 A carruagem do barão Renable chegou bastante cedo essa manhã para recolher Christine e levá-la a Schofield Park. Melanie, com aspecto agitado, aceitou contente que a ajudasse com os preparativos de última hora. Christine passou pelo quarto que lhe tinham atribuído, um aposento do tamanho de uma caixa de sapatos situado na parte posterior da mansão entre duas lareiras, que por sua vez bloqueavam a vista da janela e só lhe permitiam ver um trecho da horta para agarrar seu boné, arrumar o cabelo e colocar sua escassa bagagem. Depois subiu ao quarto infantil para saudar os meninos, e passou o resto da manhã e parte da tarde de um lado para outro fazendo diversos recados. Teria estado fazendo-o todo o dia se Melanie não a tivesse visto no meio da tarde subindo depressa, carregada de toalhas em direção a um dos aposentos de convidados mais luxuosos, e lhe tivesse dado uma reprimenda por seu aspecto. -Tem que se vestir agora mesmo, Christine - disse horrorizada com uma mão sobre o coração - e arrumar o cabelo. Disse-lhe que podia ajudar, não que se deixasse tratar como uma criada. Isso que leva são toalhas? Vá a seu quarto agora mesmo, tola, e comece a se comportar como uma convidada. Menos de meia hora depois, reapareceu no piso inferior vestida decentemente, embora não na moda, com seu segundo melhor vestido de musselina bordada e o cabelo lustroso depois de tê-lo escovado. Detestava com toda sua alma estar nervosa... E ter se deixado apanhar. Poderia estar na metade da lição de geografia na escola e desfrutando lindamente com isso. -Ah, aqui está - disse Melanie quando se reuniu com ela no vestíbulo. Agarrou-lhe uma mão e lhe deu um apertão um tanto doloroso - Vai ser muito divertido, Christine. Espero não me ter esquecido de nada. E também espero não me pôr a vomitar quando vir chegar os convidados. Por que vomito sempre neste tipo de situações? É muito inapropriado. -Como de costume, tudo sairá tão maravilhosamente bem que a declararão a melhor anfitriã do verão - lhe assegurou. -De verdade acredita? - Melanie colocou uma mão sobre o coração como se quisesse refrear seu errático pulsar - Eu gosto como fica de cabelo curto, Christine. Esteve a ponto de me dar um desmaio quando me disse que iria cortá-lo, mas parece mais jovem e bonita, como se alguém tivesse retrocedido o tempo para você... Claro que sempre foi bonita. Não sabe o ciúme que tenho. O que disse Bertie? Entretanto, lorde Renable, que estava a alguns passos delas, limitou-se a pigarrear com uma espécie de grunhido. -Aproxima-se uma carruagem, Mel - disse o barão - Começa a festa. - Olhou a sua esposa como se o contestável estivesse a ponto de invadir Schofield Park para levar todos seus bens terrestres - Sobe a seu quarto para se esconder, Christine. Acho que poderá desfrutar de outra hora de liberdade. Melanie lhe deu uma batidinha no braço com brutalidade e inspirou de forma audível. Deu a sensação de crescer vários centímetros e se transformou na hora em uma anfitriã elegante e aristocrática que jamais na vida tinha experimentado os nervos nem a
  12. 12. necessidade de vomitar em tempos de crise. Embora esteve a ponto de fazê-lo quando baixou a vista de repente e se deu conta de que tinha um copo de limonada ao meio na mão direita. -Que alguém leve isto! - ordenou enquanto olhava a seu redor em busca do criado mais próximo - Pelo amor de Deus! Poderia tê-lo derramado sobre as botas ou sobre o vestido de alguém. -Já o pego eu. - ofereceu-se ela com uma gargalhada enquanto o tirava da mão. - E derramar a bebida sobre alguém é algo típico de mim, não de você, Melanie. Desaparecerei com a limonada para evitar o perigo. Subiu a escada em direção à saleta amarela, onde as convidadas deviam reunir-se com ela. Por alguma razão que só ela conhecia, Melanie sempre mantinha as damas e aos cavalheiros separados até que pudesse recebê-los conjuntamente no salão para tomar o chá, momento no que se inaugurava de forma oficial a festa. Entretanto, deteve-se um momento no patamar, situado justo sobre o vestíbulo, de modo que se podia ver o que havia abaixo se chegava ao corrimão. A carruagem que tinha ouvido Bertie devia estar mais perto do que pensava. Os primeiros convidados já estavam entrando no vestíbulo. Foi incapaz de resistir a dar uma olhada para comprovar se conhecia algum dos recém-chegados. Tratava-se de dois cavalheiros. Um deles, vestido descuidadamente com uma jaqueta marrom amassada e muito grande, calças azul escura com bolsos à altura dos joelhos, botas desgastadas que tinham vivido melhores tempos, uma gravata que parecia atada ao pescoço com pressas e sem ajuda nem de espelho nem de criado, a gola da camisa sem arrumação, e o cabelo alvoroçado como se acabasse de levantar-se da cama, era Héctor Magnus, visconde de Mowbury. -Mel, aqui está! - exclamou com um sorriso em direção a sua irmã, como se tivesse esperado que o recebesse outra pessoa em sua casa - Como está, Bertie? Christine sorriu com afeto, e o teria saudado se não fosse pela presença do outro cavalheiro. Não teria sido mais oposto a Héctor mesmo se tivesse tentado. Era alto, bem formado e muito elegante. Levava uma magnífica jaqueta azul sobre um colete bordado em cinza claro, umas calças cinza escura e umas reluzentes botas de montar rematadas em branco. O nó da gravata era elegante e preciso, sem cair na ostentação. A gola engomada da camisa lhe chegava justo à mandíbula. Ambas roupas eram de um branco antigo. Levava um chapéu de taça na mão. Seu cabelo era escuro e abundante, com um corte delicioso e muito bem penteado. Sob o elegante traje, seu peito e seus ombros pareciam muito largos e poderosos, e em comparação, seus quadris eram muito estreitos. Saltava à vista que essas coxas não necessitavam que o alfaiate preenchesse as calças. Embora não foi seu impressionante aspecto o que a manteve em silêncio e cravada no lugar, espiando-o em lugar de seguir se caminho, mas a segurança de seu porte, a orgulhosa e arrogante inclinação de sua cabeça. Estava claro que se tratava de um homem que dominava seu mundo com facilidade e que exigia obediência imediata de seus subordinados, entre quem se encontrava, é obvio, virtualmente o resto dos mortais... Talvez fosse uma ideia ridícula, embora nem tanto se fosse o conhecido duque de
  13. 13. Bewcastle. Seu aspecto era o que esperava, pelo que conhecia dele. Era um aristocrata dos pés à cabeça. Viu parte de seu rosto quando Melanie e Bertie o saudaram e ele fez uma reverência. Era bonito, apesar da frieza e austeridade de seu atrativo, com um queixo firme, lábios magros, traços marcados e um nariz proeminente, ligeiramente curvado e muito aristocrático. Entretanto, não lhe viu os olhos. Depois de saudar Melanie se moveu até colocar-se quase debaixo dela enquanto que seu amigo conversava com Héctor, de modo que se inclinou ligeiramente sobre o corrimão no preciso instante no qual o duque jogava a cabeça para trás e levantava a vista para ela. Teria se retirado depressa, envergonhada porque a tivesse pilhado espiando, se não a tivessem surpreendido os olhos que tentava ver. Porque pareceram atravessá-la até chegar até sua nuca. Não tinha muito clara sua cor: azul claro?, cinza claro? mas a distância que os separava não era suficiente para livrar-se de seu efeito. Com razão tinha semelhante reputação! Por um breve instante teve a impressão de que o duque de Bewcastle podia ser um homem muito perigoso. O coração lhe desbocou como se a acabassem de descobrir olhando pelo olho da fechadura de um aposento onde se estivessem cometendo atos escandalosos. E nesse momento aconteceu algo extraordinário. O duque lhe piscou um olho. Ou isso lhe pareceu por outro instante muito breve. Não obstante e enquanto abria os olhos como pratos, percebeu que estava esfregando o olho que lhe tinha piscado, e então caiu na conta de que ao inclinar-se sobre o corrimão também tinha inclinado o copo que tinha na mão. Tinha derramado limonada sobre o olho do duque de Bewcastle ! -Ai! – exclamou - Sinto muitíssimo. Em seguida, deu meia volta e subiu a escada tão depressa quanto lhe permitiram as pernas. Que constrangimento mais horroroso! Que estupidez de sua parte! Tinha prometido que não tropeçaria com ele no primeiro dia, mas não tinha ocorrido prometer que não lhe derramaria limonada em um olho. Desejava com toda sua alma que esse incidente não fosse um mau presságio dos dias vindouros. Tinha que recuperar a compostura antes que as damas se reunissem com ela, pensou uma vez que chegou sã e salva a saleta amarela. E devia manter-se bem longe do duque de Bewcastle durante os seguintes treze dias e meio. Claro que isso não seria muito difícil. Certamente nem sequer a reconheceria quando voltasse a vê-la. Além disso, não era a classe de pessoa em que o duque poderia fixar-se em circunstâncias normais. A pesar do acidente com a limonada, o duque de Bewcastle nem sequer significaria um ligeiro perigo para alguém tão insignificante como ela. Além disso, por que deveria afetá-la sua presença? Era um desses homens a quem jamais tentaria impressionar.
  14. 14. Era limonada, percebeu Wulfric na hora. Não obstante, embora a limonada fosse uma bebida refrescante para os que não gostavam do vinho nem de outros licores em dias quentes, não podia dizer-se que fosse um colírio agradável... Não se queixou em voz alta. Os Renable não pareciam haver-se dado conta do incidente, apesar de que a criatura que lhe tinha jogado a limonada da galeria superior tinha sido bastante impertinente para desculpar-se a gritos antes de sair fugindo como um coelho assustado... e tinha feito bem. Os Renable estavam muito ocupados com o Mowbury. Limpou o olho com um lenço e esperou que não estivesse tão irritado como o sentia. De qualquer forma, não era um começo promissor para uma visita de duas semanas. Um criado que trabalhasse para ele não continuaria sendo-o durante muito tempo se espiava aos convidados, derramava-lhes algum líquido em cima, desculpava-se em voz alta e logo saía fugindo. Esperava que fosse um episódio isolado e não um indício da pobre qualidade do serviço doméstico. A criatura nem sequer usava touca. Tinha conseguido ver que tinha o cabelo encaracolado, o rosto redondo e uns olhos enormes embora, evidentemente, não tinha tido a oportunidade de lhe dar uma boa olhada. Fato que não lamentava o mínimo. Desterrou-a de seus pensamentos. Se os Renable eram incapazes de controlar a seus criados, não seria ele quem se preocuparia da má qualidade do serviço. Isso era coisa dos barões. Afinal, ele ia acompanhado por seu criado pessoal para que se encarregasse de suas necessidades pessoais. Ainda tinha a esperança de que a festa campestre em Schofield Park fosse de seu agrado. Mowbury, um homem de uns trinta anos que era um leitor compulsivo e que tinha viajado por todo mundo, sobre tudo a Grécia e Egito, tinha sido um companheiro de viagem muito interessante durante o longo trajeto de Londres. Conheciam-se desde há anos e mantinham uma espécie de amizade. Os Renable o tinham recebido cordialmente. Tinham-lhe atribuído uma suíte espaçosa e elegante orientada para os jardins, arvoredo e canteiros de flores da fachada da mansão. Depois de mudar de roupa e sentar-se em frente ao espelho no closet para que seu criado o barbeasse, desceu à sala de bilhar, o lugar de reunião destinado aos cavalheiros e ali se encontrou com o conde de Kitredge e o visconde de Elrick, que tinham chegado antes que ele. Ambos os cavalheiros eram mais velhos e sempre lhe tinham sido uma companhia amena. Era um sinal prometedor. Mowbury e seu irmão mais novo, Justin Magnus, também estavam no aposento. Nunca se tinha relacionado com o Magnus, mas lhe parecia um jovem bastante agradável. Talvez isso fosse depois de tudo o mais indicado para ele, pensou enquanto se juntava à conversa. Desfrutaria de duas semanas de uma companhia interessante e logo estaria preparado para retornar a Lindsey Hall e passar ali o resto do verão. Afinal, não ia converter-se em um ermitão pelo simples fato de que seus irmãos se casaram e sua amante tivesse morrido. Nesse preciso momento a porta voltou a abrir-se e escutou dois sons extremamente desagradáveis: risinhos femininos e gargalhadas masculinas. As vozes femininas e
  15. 15. masculinas produziam uma alegre gritaria. As damas seguiram seu caminho. Um considerável grupo de cavalheiros entrou na sala de bilhar. E nenhum só deles, estimou, ultrapassava os vinte e cinco anos. E nenhum só deles, concluiu a julgar pelas gargalhadas, e pelo andar, tinha dois dedos de testa. Se não estava muito equivocado, acabava de passar em frente à porta um grupo igualmente numeroso de acompanhantes femininas. Eram as mesmas pessoas, participantes do mercado matrimonial, que enchiam os salões de baile londrinos durante a temporada social. E eram o principal motivo pelo que evitava os ditos eventos a menos que as circunstâncias o obrigassem a ir. Era o resto dos convidados. -Ah, parece que quase todo mundo já chegou - disse um do grupo, um tal sir Lewis Wiseman, um jovem de aspecto simpático a quem conhecia de vista - Um homem não necessita de uma festa de compromisso em sua honra, mas a irmã de Audrey e sua mãe insistiram, assim como Audrey, suponho. Assim aqui estamos. - ruborizou-se e logo pôs- se a rir quando seus jovens amigos começaram a lhe dar tapinhas nas costas e o converteram no alvo de várias brincadeiras subidas de tom. Wiseman, recordou muito tarde, acabava de anunciar seu compromisso com a senhorita Magnus, a irmã de lady Renable. A festa era em honra de seu compromisso. E dado que os dois membros do casal eram muito jovens, a maioria dos convidados também o eram. A ideia o horrorizou. Tinham-no convidado com falsos pretextos para pular com infantes de ambos os sexos? Durante duas semanas? Entretanto, não podia culpar a ninguém, salvo a si mesmo, por acreditar em um homem que mal se se relacionava com o mundo exterior. Até tal ponto era isso certo que Mowbury tinha chegado a apresentar-se no White"s com botas díspares. Era muito possível que se esquecera por completo do recente compromisso de sua irmã. Agarrou o cabo de seu monóculo e de forma quase inconsciente adotou sua expressão mais fria e imponente quando os jovens mostraram sua intenção de tratar aos cavalheiros mais velhos e a ele mesmo com alegre camaradagem. Piscou várias vezes. Nesse momento se deu conta de que ainda sofria uma ligeira ardência no olho. A cunhada de Christine, Hermione Derrick, viscondessa do Elrick, foi uma das primeiras damas a chegar. Alta, loira e magra, estava tão elegante e bonita como de costume apesar de ter mais de quarenta anos. Christine, com o coração na boca, levantou-se e lhe sorriu. Teria-lhe dado um beijo na face, mas algo em sua atitude a deteve, de modo que ficou de pé onde estava. -Como está, Hermione? - perguntou. -Christine... - Hermione a saudou com um rígido gesto de cabeça e passou por cima a pergunta - Melanie me disse que estava convidada. -Como estão os meninos? - Os sobrinhos de Oscar já não eram meninos, compreendeu de repente, mas jovens que sem dúvida já teriam saído do ninho para explorar o mundo por si só.
  16. 16. -Cortou o cabelo - comentou Hermione - Que incomum! E com esse comentário a abandonou para conversar com o resto das damas pressentes. Bom, pensou enquanto voltava a sentar-se, ao que parecia sua cunhada não pensava passar por cima de sua presença, mas sim de sua voz. Um começo nada prometedor... ou melhor uma continuação nada prometedora do começo. Hermione, que era filha de um procurador rural, fazia um matrimônio muito mais vantajoso que o seu quando se casou com o visconde de Elrick fazia mais de vinte anos. Acolheu-a no seio da família com os braços abertos e a ajudou a acomodar-se à vida da alta sociedade. Inclusive se encarregou de apresentá-la à rainha. Fizeram-se amigas apesar dos mais de dez anos de idade que as separavam, embora tal amizade se ressentiu durante os últimos anos de seu matrimônio. De qualquer forma, a espantosa briga que tiveram depois da morte de Oscar a pegou de surpresa. No dia posterior ao funeral abandonou Winford Abbey, a casa senhoril do Basil, destroçada, desolada e sem um penny depois de ter comprado uma passagem na carruagem de postas, decidida a retornar a casa, a Hyacinth Cottage, para lamberas feridas e recompor como pudesse os pedaços de sua vida. Não havia tornado a ter notícias de seus cunhados depois... Até esse dia. Esperava fervorosamente que ao menos pudessem ser corteses durante duas semanas. Afinal, ela não tinha feito nada de mau. A viscondessa do Mowbury, a mãe do Melanie, uma mulher baixa e rechonchuda de cabelo grisalho e olhos penetrantes, abraçou-a e lhe disse que se alegrava de voltar a ver seu adorável rosto Audrey também comentou como estava encantada de vê-la antes de ruborizar-se e sorrir de felicidade quando lhe deu o parabéns por seu compromisso. Por sorte, a tensão que tinha existido com a família direta de Oscar jamais afetou à relação que manteve com sua tia e seus primos, que não costumavam passar muito tempo em Londres enquanto ela esteve casada. Lady Chisholm, casada com sir Clive e a quem conhecia de outros tempos, assim como senhora King, a quem também conhecia, saudaram-na com amabilidade. Além disso, havia seis mocinhas vestidas com elegância e opulência, certamente amigas de Audrey. Saltava à vista que se conheciam muito bem, já que se agruparam para rir e conversar fazendo caso omisso do resto das convidadas. Todas elas teriam estado na sala de aula enquanto ela vivia em Londres, pensou. Voltou a sentir-se como uma anciã. E seu segundo melhor vestido de musselina de repente lhe pareceu um fóssil. Era um dos últimos trajes que Oscar lhe tinha dado antes de morrer. Duvidava muito que tivesse chegado sequer a pagá-lo... -O duque de Bewcastle é um dos convidados - anunciou lady Sarah Buchan ao resto de mocinhas em voz bastante alta, com os olhos arregalados e duas rosetas nas faces. Acabava de chegar com seu pai, o conde de Kitredge, e seu irmão, o honorável George Buchan. Não obstante, todos sabiam por que Melanie o tinha ido desvelando aos convidados conforme chegavam a fim de impressioná-los. Ao que parecia, seu aborrecimento com o Héctor por havê-lo convidado tinha desaparecido. -Não o vi nenhuma só vez durante a temporada social - continuou lady Sarah - embora esteve todo o tempo em Londres. Diz-se que mal sai, e que só vai à Câmara dos
  17. 17. Lordes e a seus clubes. Mas vai estar aqui. Imaginem isso! - Um só duque e uma horda de damas - comentou Rowena Siddings com expressão maliciosa e um sorriso que deixava à vista suas covinhas - Embora as casadas não contam. E Audrey tampouco porque está comprometida com sir Lewis Wiseman. - Mas ainda assim, continuamos sendo muitas para competir pelas atenções de um só duque. -Mas o duque de Bewcastle é velho, Rowena - assinalou Miriam Dunstan-Lutt - Tem mais de trinta anos. -Mas continua sendo um duque - lhe recordou lady Sarah - assim sua idade não importa absolutamente, Miriam. Meu pai diz que não posso me rebaixar a me casar com um homem que ostente um título inferior ao de conde, embora nesta primavera recebi uma multidão de propostas por parte de cavalheiros perfeitamente aceitáveis para muitas outras. Não seria tão desatinado que me casasse com um duque. -Seria uma façanha conseguir a mão do duque de Bewcastle - acrescentou Beryl Chisholrn - Mas por que temos que lhe conceder a vitória, Sarah? Talvez devamos competir todas por ele, ergueu-se um coro de risinhos. -Todas são umas mocinhas muito bonitas - disse lady Mowbury com afabilidade, levantando a voz para que pudessem escutá-la do outro lado da sala, - e certamente todas casarão o ano que vem ou no seguinte, mas talvez deveriam saber que Bewcastle evitou todos os esforços casamenteiros até o momento. Tanto é assim inclusive as mães mais decididas retrocederam em seu empenho. Eu nem sequer o tive em conta para Audrey. -De qualquer maneira, quem quereria casar-se com ele? - perguntou a aludida com a complacente segurança que lhe outorgava o estar comprometida. - Basta entrar em uma sala para descer a temperatura vários graus. Carece de sentimentos, de sensibilidade e de coração. Sei de uma fonte muito confiável. Lewis diz que quase todos os jovens que frequentam White’s lhe têm medo e que o evitam na medida do possível. Acho que foi muito injusto por parte de meu irmão convidá-lo. Ela era da mesma opinião. Se Héctor não tivesse convidado ao duque, ela não estaria ali sentada nesse preciso instante, a cavalo entre o desconforto e o aborrecimento e certamente que não lhe teria derramado limonada no olho. Sentia-se um pouco afastada das damas mais velhas, que logo formaram um grupo e começaram a conversar, e também das mais jovens, embora como estas se encontrassem mais perto acabou por converter-se em um membro de seu grupo quando desceram a voz e os risinhos tolos continuaram. -Proponho uma aposta - disse lady Sarah baixando a voz. Tinha que ser a mais jovem, pensou. De fato, parecia ter escapado do ala infantil embora devia ter ao menos dezessete anos se tinha sido apresentada em sociedade - A ganhadora será a que consiga que o duque de Bewcastle lhe proponha matrimônio antes de que acabe a festa campestre. -Temo que isso é quase impossível, Sarah -replicou Audrey enquanto as demais continham as gargalhadas - O duque não tem intenção de casar-se. -E nenhuma aposta é atraente se não houver possibilidade de que alguém ganhe - acrescentou Harriet King.
  18. 18. -O que propõem que apostemos? -quis saber Sarah, que continuava com as faces acesas e esse brilho malicioso nos olhos, e que não estava disposta a desterrar a ideia de qualquer jeito - Ver quem é capaz de entabular uma conversa com ele? Não, não, isso é muito fácil. Adivinhar quem é a primeira em dançar com ele? Audrey, sua irmã planejou algum baile? O que lhes ocorre? -Ganhará quem é capaz de mantê-lo entretido durante uma hora inteira - sugeriu Audrey - me Acreditem, isso será uma tarefa muito difícil. E a vencedora, se houver alguma, terá ganhado seu prêmio com acréscimo. Tenho a sensação de que uma hora em companhia do duque será como estar uma hora sentada no Pólo Norte. Ergueu-se outro coro de risinhos. Não obstante, Sarah fez caso omisso da advertência e olhou às integrantes do grupo com os olhos brilhantes. A todas salvo a ela, que não formava parte do grupo embora tinha escutado cada palavra. -Que seja uma hora a sós com ele – disse - A ganhadora será primeira em conseguir tal façanha. Quem sabe? Talvez consiga que se apaixone por ela e lhe proponha matrimônio depois de tudo. Não acho tão estranho, na verdade. Houve uma pausa antes dos inevitáveis risinhos. -Quem quer participar? - perguntou lady Sarah. Lady Sarah, Rowena, Miriam, Beryl, sua irmã Penélope e Harriet King aceitaram a provocação, tudo acompanhado de mais risinhos, gritinhos e sorrisos indulgentes por parte das damas de mais idade, que quiseram saber o que lhes fazia tanta graça. -Nada -respondeu Harriet King-. Não é nada, mamãe. Só estamos falando dos cavalheiros que foram convidados. Christine também sorriu. Alguma vez tinha sido tão tola? perguntou-se. Mas sabia que sim, casou-se com Oscar depois de dois meses de o conhecer, simplesmente porque era tão bonito como um deus grego, assim costumavam descrevê-lo e porque se apaixonou até as sobrancelhas de sua atitude e seu encanto. -E você, prima Christine? - perguntou Audrey quando as damas de mais idade deixaram de lhes prestar atenção. As jovens tinham acordado que Audrey fosse o banco; cada uma apostaria um guinéu e o total o levaria a ganhadora. Se ninguém conseguisse o prêmio, os guinéus retornariam às mãos de suas respectivas proprietárias ao cabo das duas semanas. Surpreendida, destacou-se com a mão e arqueou as sobrancelhas. -Eu? Não, nem pensar! - respondeu com uma gargalhada. -Pois não vejo por que não - insistiu Audrey, que inclinou a cabeça e a observou com atenção - Afinal é viúva, não uma mulher casada, e o primo Oscar nos deixou faz dois anos. E não é tão velha. Duvido muito que tenha completado os trinta. As outras mocinhas se voltaram para ela como se fossem uma só para contemplar com receio a alguém que estava tão perto dos trinta. Seu silêncio foi bastante eloquente para dizer que na sua idade não tinha a menor oportunidade de fazer-se com a atenção de um duque durante uma hora. Estava absolutamente de acordo com elas, embora não pela mesma razão. Tanto fazia os vinte e nove anos que tinha que os dezenove. -A verdade é que não acho graça pagar para passar uma hora convertida em um
  19. 19. pedaço de gelo - disse. -Nisso tem razão - concedeu Audrey. -É a filha de um professor de escola rural, não é assim, senhora Derrick? - Perguntou Harriet King com evidente desdém - Estou segura de que lhe dá medo perder a aposta. -Certamente que me dá medo - reconheceu com um sorriso, já que o comentário não requeria resposta - Mas acho que me dá muito mais medo ganhar. Que diabo ia fazer eu com um duque? Produziu-se um momentâneo silêncio antes que voltassem a explodir em risinhos. -Me ocorrem algumas coisas - comentou Miriam Dunstan-Lutt, que se ruborizou por suas atrevidas palavras. -Já está bem - declarou Audrey com firmeza ao mesmo tempo que levantava uma mão para chamar a atenção de todas e comprovava que nenhuma integrante do outro grupo estivesse escutando - Não posso permitir que se exclua da aposta pelo mero fato de que não deseja ganhar, prima Christine. Eu porei seu guineu. De fato, vou apostar por você. Não acham que isto é muito escandaloso? Supõe-se que as damas não devem apostar. -Olhos que não veem, coração que não sente - disse Beryl Chisholm. -Vai perder seus dois guinéus, asseguro - disse Christine a Audrey e pôs-se a rir ao pensar na reação do duque de Bewcastle se chegasse a inteirar-se do que estava acontecendo na saleta amarela. -É possível - concordou Audrey - Mas como espero que ninguém ganhe, recuperarei o dinheiro sem dúvida alguma. É obvio, dado que a aposta consiste em entabular conversa com o duque durante uma hora e não em fazer que proponha matrimônio, poderia participar eu mesma, mas acho que não vou fazê-lo. Sete guinéus não me parecem incentivo suficiente. Além disso, Lewis poderia ficar ciumento, e lhe explicar que tentava ganhar uma aposta não seria uma desculpa apropriada. Em algum lugar do piso de baixo alguém fez soar uma campainha, sinal de que todos os convidados tinham chegado e de que se esperava que se reunissem no salão para tomar o chá. -Bom, conhece o duque de Bewcastle? - perguntou Harriet King a lady Sarah. -Não - admitiu a aludida - mas se é um duque, com certeza tem que ser bonito. -Eu sim o conheço - replicou Harriet ao mesmo tempo que se agarrava a seu braço para sair da saleta com ela, - e em circunstâncias normais não o olharia duas vezes. Mas não posso me arriscar a que ganhe uma viúva, filha de um professor rural, que pode ser que sim ou pode ser que não tenha completado já os trinta, não lhe parece? O par saiu da saleta agarrada pelo braço. Audrey a olhou com uma careta. -Ai, Deus! Temo que já riscaram a linha de combate - lhe disse - Claro que não vai recusar semelhante desafio, não é, Christine? Vai ter que recuperar meu dinheiro. Rowena Siddings a pegou pelo braço enquanto desciam ao salão. -Mas que tolas somos todas - disse a moça - Aceitamos a provocação, senhora Derrick, ou mantemos as distâncias e admiramos ao grande homem de longe? - Acho que eu vou manter as distâncias e rir dele de longe se é tão pretensioso e soberbo como se murmura- respondeu - Não admiro a grandeza carente de consistência. -Que valente é você! - a moça sorriu - Rir do duque de Bewcastle!
  20. 20. Ou dela mesma, pensou, por haver-se deixado arrastar aos segredinhos e as tolices dessas mocinhas quando a única coisa que tinha que ter feito era recusar o convite do Melanie no dia anterior ou dizer não à Audrey uns minutos antes. Entretanto, não podia culpar a ninguém, salvo a si mesma, reconheceu com pesar.
  21. 21. Capítulo 3 O salão já estava cheio de cavalheiros. A festa campestre, ao que parecia, tinha começado de forma oficial. Menos mal. Se não começasse, jamais acabaria. Seria muito cedo para começar a contar os dias que faltavam até sua volta a casa? Perguntou-se Christine. O primeiro homem que viu foi Justin Magnus, o irmão mais novo de Melanie. Sorriu- lhe e a saudou com a mão do outro extremo do salão. Lady Chisholm estava falando com ele e a dama gostava muito de falar... Devolveu-lhe a saudação e o sorriso. Justin, que era baixinho, quase lhe era menor meia cabeça, magro e de aparência bastante comum, possuía inteligência, uma personalidade encantadora e um grande senso de humor como cartas de apresentação. E sempre se vestia com elegância e bom gosto; não como seu pobre irmão Héctor. Justin se declarou e lhe pediu em matrimônio naquela primeira e longínqua festa. Entretanto, depois de rechaçá-lo e de aceitar Oscar, floresceu entre eles uma amizade que se estreitou com o passar do tempo até tal ponto que durante os dois ou três anos anteriores à morte de seu marido foi seu único amigo. Ou, ao menos, o único a quem podia acudir. Sua família se encontrava longe. Ele foi o único que jamais deu crédito aos terríveis rumores que corriam sobre ela. Nem sequer ao pior de todos, o último. Ele foi o único que saiu em sua defesa, embora Oscar, Basil e Hermione não acreditassem jamais. Ainda o contava entre seus amigos. A seguir viu Basil. A aparência física do visconde de Elrick, um homem de meia estatura e compleição magra, de cabelo espaçado e calvo no alto da cabeça, rosto alongado e feições regulares, que não atraentes, sempre tinha ficado eclipsado por seu irmão mais novo. Basil era mais de dez anos mais velho que Oscar, mas o adorava e sua morte o deixou destroçado. Em lugar de lhe dar as costas, como achava que faria, saudou-a com uma reverência muito formal ao mesmo tempo que ela fazia o mesmo e se dirigia a ele por seu nome de batismo. Em seguida e tal como fizera sua esposa pouco antes, deu a volta para continuar falando com um cavalheiro de meia idade que conforme acreditou recordar era o conde de Kitredge. Não lhe disse nenhuma palavra, afastou-se em busca do canto mais remoto do salão. Já era hora de adotar o papel de satírica espectadora da humanidade, papel que pensava desempenhar durante as duas semanas seguintes. Se tivesse sorte, ninguém se fixaria nela em todo esse tempo. Conseguiu chegar ao lugar escolhido e sentar-se em uma cadeira antes de que o duque de Bewcastle entrasse no salão. Depois do desafortunado incidente ocorrido durante sua chegada, temia o momento de vê-lo. Embora o que teria a temer? Que se jogasse sobre ela? Ou o que seria mais lógico, que ordenasse a um batalhão de criados que se jogasse sobre ela e a arrastasse até o magistrado mais próximo acusando a de agressão e assalto a seu olho? Chegou acompanhado de Bertie, e o rumor das conversas que tinham lugar no aposento sofreu uma drástica mudança. As mocinhas começaram a falar em voz mais alta e seus sorrisos se tornaram deslumbrantes; os jovens riam de forma mais afetada e adotaram uma atitude mais arrogante. As damas de mais idade exibiram sua plumagem.
  22. 22. Foi muito divertido. Claro que não deveriam ter se incomodado. O duque não teria posto uma expressão mais desdenhosa se tivesse estado observando um salão cheio de lombrigas. Esse rosto aristocrático e frio bastou para deixar claro que considerava a cena tão abaixo de sua dignidade ducal que não ia fazer o esforço nem de sorrir nem de adotar uma atitude medianamente afável. Melanie, como era de esperar, inclinou-se sobre ele e se desdobrou. Todo sua desenvoltura como anfitriã experimentada. Pegou-o pelo braço e o levou pelo salão para assegurar-se de que aqueles pobres mortais inferiores a sua excelência que não tinham o prazer de conhecê-lo em pessoa desfrutassem da oportunidade de beijar o chão a seus pés. Por sorte, graças a Deus! Melanie não a viu sentada no lugar e assim a mortal mais insignificante que havia no salão se viu privada da oportunidade de ficar em pé para executar sua mais elegante reverencia ante o grande nome. A uma observação satírica, recordou-se, possivelmente lhe sobrassem esses comentários depreciativos a respeito de um homem a quem nem sequer conhecia. Entretanto, a mera presença do duque de Bewcastle lhe punha os nervos à flor da pele. Caía-lhe mau, era-lhe insuportável e estaria muito contente se a deixasse tranquila durante os treze dias e meio que tinham por diante. A que se devia essa reação tão antagônica? Era muito estranha nela, tanto com conhecidos como com desconhecidos, adorava as pessoas. Todo tipo de pessoas. Uma vez que a ronda de apresentações chegou a seu fim, o duque continuou em pé, pires de biscoitos na mão, conversando com o conde de Kitredge e Héctor, que pouco antes a tinha saudado a distância com um gesto da cabeça e um sorriso. O conde era um homem importante. E também era pomposo. Mas não despertava animosidade alguma. E embora Héctor possuísse o título de visconde, professava-lhe um grande carinho. Assim que o título aristocrático que ostentava Bewcastle não tinha nada que ver com sua reação. E nesse preciso instante a serenidade que a embargava se esfumou assim que seu olhar se encontrou com o do duque e começaram a passar por sua cabeça visões de carcereiros, cárceres, grilhões e magistrados. Seu primeiro impulso foi desaparecer por completo e afastar o olhar em um esforço para fundir-se com a tapeçaria da cadeira que ocupava. Entretanto, nunca tinha sido das que tentava passar despercebida frente ao mundo, embora essa foi sua atitude durante os dois últimos anos de vida de Oscar, por que tinha que desaparecer? Por que tinha que afastar ela o olhar quando ele não dava sinais de fazê-lo primeiro? Então a irritou de verdade. Sem deixar de olhá-la, arqueou uma dessas arrogantes sobrancelhas. E depois a enfureceu. Com os olhos cravados nela e a sobrancelha arqueada, agarrou o cabo do monóculo e o ergueu a meio caminho do olho como se lhe surpreendesse o descaramento que demonstrava ao enfrentar seu olhar. Foi então quando decidiu que não afastaria a vista nem por todos os cárceres e os grilhões da Inglaterra. Tinha-a reconhecido, verdade? E o que? Afinal, seu único delito tinha sido o de derrubar mais da conta o copo de limonada quando casualmente ele
  23. 23. estava debaixo. Devolveu-lhe o olhar e aumentou seu descaramento rindo-se em sua cara. Enfim, não riu precisamente. Mas lhe demonstrou com sua expressão que não ia deixar-se acovardar por uma sobrancelha e um monóculo meio erguido. Agarrou um biscoito de seu prato e lhe deu uma mordida... momento no que descobriu que levava um banho de açúcar glassê. O açúcar lhe manchou os lábios e os lambeu ao tempo que o duque de Bewcastle abandonava o grupo no que se encontrava e punha-se a andar para ela. Ante ele se abriu um caminho como por arte de magia. Claro que não houve magia alguma no fato. Todo mundo se afastou para lhe deixar passagem... Certamente estaria tão acostumado a receber semelhante tratamento que nem percebeu que o faziam. Pelo amor de Deus! Pensou enquanto o via aproximar-se. Sua presença era magnífica, certamente. Deteve-se quando as pontas de suas botas de montar estiveram a escassos centímetros das pontas de seus escarpins. O perigo se abatia sobre ela, pensou, com o coração acelerado muito a seu pesar. -Não recordo que nos tenham apresentado, senhora -`disse com uma dicção deliciosa e uma nota ligeiramente enfastiada na voz. -Ah! Eu sim o conheço - lhe assegurou-. É o duque de Bewcastle. -Nesse caso, leva-me vantagem - replicou sua excelência. -Christine Derrick - disse, sem lhe oferecer mais explicação. Nem sua família, nem a de Oscar, teriam o menor interesse para ele. -Fiz inadvertidamente algo que lhe seja engraçado, senhorita Derrick? - quis saber ele. -Sim, temo que sim - respondeu -. E é "senhora" Derrick. Sou viúva. O monóculo voltava a estar em sua mão. Viu-o elevar ambas as sobrancelhas e compor uma expressão que sem dúvida seria capaz de gelar os cachos de uvas nas videiras e de arruinar a colheita de todo um ano. Enquanto isso, deu-lhe outra mordida no biscoito... e teve que voltar a lamber os lábios. Deveria lhe pedir desculpas de novo? Perguntou-se. Mas por quê? Já se desculpou em seu momento. Tinha o olho direito um pouco mais vermelho que o esquerdo? Ou eram imaginações suas? -Seria amável de me dizer o que foi? - perguntou-lhe erguendo o monóculo um pouco mais, embora não chegou ao olho. Que arma mais efetiva! Pensou, conseguia interpor tanta distância entre o duque e os aborrecidos mortais como uma espada em mãos de um homem normal. Decidiu que gostaria de dispor de um. Talvez se convertesse em uma anciã excêntrica que contemplava o mundo através de um monóculo gigante, aterrorizando aos presunçosos e arrancando gargalhadas aos meninos por culpa de um horripilante olho magnificado. Estava-lhe perguntando o que lhe tinha feito graça. "Graça" não era a palavra mais acertada, mas certamente se riu dele. Coisa que estava fazendo de novo. -Mostrou-se contrariado, de fato continua contrariado - se encolheu - porque me neguei a obedecer a seus desejos. -Contrariado, diz você? - Suas sobrancelhas se arquearam de novo - Acaso lhe ordenei algo?
  24. 24. -Certamente que sim - respondeu - Me descobriu observando-o do outro extremo do salão e levantou uma sobrancelha, que foi seguida do monóculo. Claro que nem sequer deveria ter percebido que você erguia o monóculo. Deveria ter afastado obedientemente o olhar muito antes de que o fizesse. -E o fato de erguer uma sobrancelha se equivale a uma ordem e o de elevar um monóculo é sinônimo de contrariedade, senhora? -perguntou de novo. -Do que outra forma explicaria você que tenha cruzado o salão para dirigir-se a mim? - perguntou ela por sua vez. -Talvez, senhora - respondeu - deva-se a que, ao contrário você, estive circulando entre os restantes convidados. Adorou a resposta. Tanto que soltou uma gargalhada. -E agora despertei sua hostilidade – assinalou - Seria melhor que não me prestasse a menor atenção, excelência, e que me deixasse seguir interpretando meu papel de espectadora. Não espere que me acovarde ante você. -Acovardar-se? -levou o monóculo ao olho e observou suas mãos através da lente. Tinha as unhas curtas. E limpas, mas suspeitava que para o duque seria fácil adivinhar que trabalhava com elas. -Sim, me acovardar – reiterou - Assim é como governa seu mundo. Acovardando a todos os outros. -Alegra-me que acredita me conhecer tão bem apesar da breve relação que nos une, senhora - respondeu. -Suponho que não deveria ter falado com tanta franqueza – admitiu - Mas foi você quem perguntou. -Certamente - replicou ao mesmo tempo que executava uma rígida reverência Entretanto, antes que o duque pudesse dar meia volta e partir, apareceu Melanie. -Vejo que já conheceu Christine, excelência - disse, tomando-o pelo braço e esboçando um elegante sorriso - Entretanto, permite-me afastá-lo dela um momento? Lady Sarah Buchan deseja lhe fazer uma pergunta, mas é muito tímida para dirigir-se a você por si mesma. Melanie o conduziu para o lugar que ocupava lady Sarah, quem lançou um olhar venenoso a ela antes de fazer uma reverência e dirigir um deslumbrante sorriso ao duque. Mãe do amor formoso! A aposta! Pensou. Acaso pensava essa menina que tentava ganhá-la? Claro que se fosse assim, não era a única que o fazia. Harriet King se plantou diante dela. -Um conselho, senhora Derrick, se me permitir disse com amabilidade - Talvez seja capaz de atrair ao duque de Bewcastle até seu lugar com um sorriso incitante e uma total falta de decoro ao negar-se a afastar o olhar de sua pessoa, mas vai necessitar de um plano muito mais elaborado se quer ter uma conversa durante uma hora. Bem! Exclamou para si mesma e pôs-se a rir de boa vontade. -Estou certa de que tem razão – afirmou - vou ter que pensar em algo realmente incitante. Entretanto, em lugar de compartilhar a brincadeira, a moça deu meia volta depois de ter completado com sua boa obra.
  25. 25. Teve o palpite de que sua intenção de passar desapercebida em um canto durante duas semanas não ia ser fácil. Acabava de chamar a atenção do mesmo modo que se tivesse estado no meio do salão agitando um estandarte. Embora jamais tivesse sido capaz de passar despercebida em nenhum lugar... e isso tinha sido parte do problema durante seu matrimônio. Possuía uma natureza muito sociável. Esses olhos! Pensou de repente. Durante sua breve conversa com o duque tinha descoberto que eram prateados. Os olhos mais extraordinários que tinha visto na vida. Eram duros, frios e velados. Olhá-los era como olhar uma superfície que repelia tudo o que lhe lançassem de modo que nada conseguia transpassá-la. Tinha-lhe dado à impressão de que ou não havia nada em seu interior, que esse aristocrático rosto duro e arrogante estava oco, ou que a pessoa que morava em seu interior estava muito bem escondida. De qualquer forma, esses olhos eram muito inquietantes, porque apesar de guardar com zelo o interior do duque, pareciam possuir o extraordinário poder de atravessar a outros e chegar diretamente à nuca. Vê-los tão curta distância e, sobre tudo, senti-los penetrar seu crânio tinha confirmado sua impressão inicial: podia ser um homem perigoso se o provocasse. Ela teria provocado? Supôs que, quando muito, o teria incomodado tanto como um diminuto mosquito que revoasse em torno de sua orelha ou que lhe metesse no olho. Suspirou e comeu o biscoito que tinha na mão. Estava lambendo os dedos quando Justin se aproximou de seu lugar. Ficou em pé com um alegre salto e se fundiram em um quente abraço. -Justin! – exclamou - Passaram séculos! -Milênios, diria eu - corrigiu-a com um sorriso - Em realidade nos vimos na Páscoa. Eu gosto de como fica seu cabelo curto. Está mais bonita que nunca. Já vejo que acaba de conhecer o grande homem. Apostaria o que fosse como Mel passou algumas noites em claro desde que descobriu que Héctor o havia convidado. -Inclusive foi a Hyacinth Cottage para me convencer de que viesse e assim equilibrar o número de convidados - replicou com uma careta - E já conhece Melanie quando coloca algo entre sobrancelha e sobrancelha. Não me deixou alternativa. -Pobre Chrissie! - zombou dela - Embora eu saí ganhando. Depois desse comentário pareceu relaxar-se pela primeira vez em todo o dia. -Christine esteve casada com meu pobre primo Oscar - estava explicando Renable ao Wulfric - Conhecia-o? Era o irmão mais novo do visconde de Elrick. Um homem encantador e querido por todos. Sua morte foi uma tragédia, sobre tudo para Christine, que se viu obrigada a voltar para a casa de sua mãe, aqui no povoado. Era a filha do professor do povoado quando Oscar a conheceu. E fez um matrimônio brilhante. Mas, enfim, não durou, e lhe tenho muitíssima lástima. Por isso a convidei. Temos uma grande amizade e precisa divertir-se um pouco. Seu sobrenome o tinha levado a supor que era da família dos Elrick, e ao lhe explicar que era viúva, recordou que o visconde tinha perdido a seu único irmão uns anos antes. Entretanto, não dependia economicamente dos Elrick, pois vivia com sua mãe e se via obrigada a aceitar a caridade de seus amigos para participar de acontecimentos sociais
  26. 26. como esse. Oscar Derrick não contaria com uma fortuna ao casar-se ou, o que era mais provável, tinha-a dilapidado. Sua viúva não parecia contar com ganhos próprios Sua vestimenta era muito menos elegante que a do resto das damas. Para falar a verdade, a primeira vez que a viu - com um só olho, por certo - a tinha tomado por uma criada. O vestido de musselina que levava era decente, embora não fosse o último grito da moda. E tampouco era muito jovem. Talvez rondasse os trinta. Era muito bonita, de olhos grandes, rosto redondo e bronzeado pelo sol - a tão escassa distância tinha sido impossível não perceber esse detalhe -. Se por acaso isso não bastasse, tinha sardas na ponta do nariz. Era morena e de cabelo encaracolado, embora o levasse curto. Seu aspecto delatava sua origem rural, e parecia muito fora do lugar entre os convidados de lady Renable. Mas claro, realmente estava fora do lugar. Apesar de ter feito um matrimônio muito vantajoso, não deixava de ser a filha de um professor de escola incrivelmente impertinente ainda mais. Uma lástima que Derrick tivesse tido a desconsideração de morrer tão jovem. Decidiu que não aprofundaria sua relação com a dama durante as duas semanas que duraria sua estadia. Embora o mesmo poderia dizer no referente a quase todas as demais convidadas. Começava a dar-se conta do engano garrafal que tinha cometido ao aceitar de forma impulsiva um convite verbal procedente de outro convidado... que não era outro que lorde Mowbury, cujas desorientações eram amplamente conhecidas. Lady Sarah Buchan estava lhe fazendo outra reverência, apesar de que não fazia nem meia hora que tinham sido apresentados. -Queria lhe perguntar, excelência - disse ruborizada quando cravou o olhar nesses enormes olhos prateados -, que atividade matinal prefere: cavalgar ou passear? Fiz uma aposta com a Miriam Dunstan-Lutt, embora saiba perfeitamente que não está bem visto que as damas apostem - riu com dissimulação. Estava há muito tempo fora do âmbito do mercado matrimonial e tanto as damas de todas as idades como suas respectivas mães tinham deixado de rondá-lo fazia anos ao dar-se conta de que não se deixaria caçar. Não obstante e embora suas habilidades estivessem um pouco oxidadas, era capaz de reconhecer uma armadilha quando a tinha diante. -Em regra geral, dedico as manhãs à correspondência e aos assuntos de negócios porque é quando minha mente está mais lúcida, lady Sarah - respondeu com brusquidão. - Costumo cavalgar ou passear quando o dia está bem avançado. E você, o que prefere? Estava a ponto de morrer de aborrecimento. De verdade estava a moça paquerando com ele?
  27. 27. Capítulo 4 Muitos dos convidados estavam cansados da viagem e aproveitaram o tempo entre o chá e o jantar para descansar na tranquilidade de seus quartos. Wulfric aproveitou a oportunidade para escapar ao exterior em busca de ar fresco e um pouco de exercício. Evidentemente não conhecia a propriedade, mas procurou o amparo da vegetação para ocultar-se de forma instintiva da mansão e evitar que alguém unisse a ele. Atravessou em diagonal um prado salpicado de árvores e entrou em um atalho que cruzava uma zona de bosque até chegar à beira de um lago artificial cuja colocação tinha sido escolhida com esmero para obter o maior efeito visual. Não era muito grande, mas estava afastado e era um lugar encantador e tranquilo e também ficava oculto da mansão. O dia era agradável, quente, mas não caloroso, e corria uma suave brisa. Isso pensou enquanto respirava fundo, era o que necessitava ar puro e um entorno campestre para recuperar o ânimo depois da longa viajem e do salão lotado de pessoas que tinha tido que enfrentar. Vários atalhos se internavam entre as árvores em diferentes direções, mas ficou onde estava, sem saber muito bem se continuava caminhando ou demorava-se nesse lugar, desfrutando dos aromas do campo no verão. Deveria ter ido a Lindsey Hall. Entretanto, não o tinha feito, assim não tinha sentido desejar nesse instante ter tomado outra decisão. Ainda estava no mesmo lugar, contente sem fazer nada quando escutou a suas costas o inconfundível som de passos que se aproximavam pelo mesmo atalho pelo qual tinha chegado. Repreendeu-se por não ter se movido antes. A última coisa que desejava era ter companhia. Mas já era muito tarde. Tanto fazia o atalho que escolhesse, já que lhe seria impossível partir sem que o visse quem quer que aparecesse na borda. Virou-se, incapaz de dissimular por completo a irritação. A mulher avançava com passos muito pouco femininos, não levava boné nem luvas, e ia olhando para trás como se quisesse assegurar-se de que ninguém a seguia. Antes de que pudesse afastar-se ou avisá-la do iminente desastre, deu de encontro com ele. Agarrou-a pelos braços muito tarde e se encontrou com um matagal de cachos no nariz, antes que ela erguesse a cabeça com um grito alarmado e seus narizes sofressem uma topada. De algum jeito era quase inevitável, disse a si mesmo com triste resignação... E com o nariz dolorido e os olhos chorosos. Algum anjo malévolo tinha que tê-la enviado a esta festa campestre para atormentá-lo... ou para lhe recordar que jamais se deviam tomar decisões impulsivas. Viu-a levar a mão ao nariz, certamente para averiguar se o tinha quebrado, se sangrava ou padecia de ambos os males. Tinha os olhos cheios de lágrimas. -Senhora Derrick - disse com uma leve arrogância, embora já fosse muito tarde para dissuadi-la de que se aproximasse dele. -Ai, Deus! - exclamou ela ao mesmo tempo que baixava a mão e piscava - Sinto
  28. 28. muitíssimo! Que torpe sou! Não estava olhando por onde ia. -Nesse caso – replicou - bem poderia ter acabado no lago se eu não tivesse estado aqui. -Mas não o fiz - respondeu ela com sensatez - De repente, tive a impressão de que não estava sozinha e olhei para trás em lugar de prestar atenção ao caminho. E tinha que ser você nem mais nem menos. -Desculpe-me. - Fez-lhe uma reverência muito rígida. Poderia lhe ter devolvido o comentário, mas não o fez. Nesse momento ficaram em evidência suas rústicas maneiras e a falta de elegância e sofisticação que esperava encontrar nas damas com as quais estava obrigado a relacionar-se durante essas duas semanas. A brisa alvoroçava as mechas frisadas de seu cabelo. O sol fazia com que sua pele parecesse ainda mais bronzeada que no salão. Seus dentes pareciam muito brancos em comparação. Seus olhos eram tão azuis como o céu. Era, reconheceu a contra gosto com certa surpresa, bastante bonita... apesar de que o nariz ia avermelhando naquele momento. -Minhas palavras soaram muito rudes - falou ela com um sorriso - Não era minha intenção dizê-lo assim. Mas primeiro lhe derramo limonada em um olho, depois o desafio em um duelo de olhares pelo mero fato de que me incomodou sua sobrancelha e agora me dou de cara contra você e lhe parto o nariz ao mesmo tempo que quebro o meu. Espero de todo coração que com isto se esgotou minha reserva de estupidezes para estas duas semanas e que possa ser decorosa, elegante e muito aborrecida durante o resto de minha estadia nesta casa. Podiam dizer-se grande quantidade de coisas como réplica a um comentário tão franco. Entretanto, dito comentário tinha revelado muitas coisas sobre ela mesma, e nenhuma especialmente atraente. -Escolhi um atalho ao acaso - replicou ele ao mesmo tempo que se afastava ligeiramente - O lago foi uma surpresa, mas está situado em um entorno muito agradável. -Sim, certamente! - concordou ela - Sempre foi um de meus lugares preferidos. -Não me cabe a menor duvida de que saiu porque desejava estar sozinha - disse, preparando sua fuga - Incomodei-a. -Absolutamente – corrigiu-o com voz alegre - Além disso, saí para passear. Há um atalho que rodeia o lago e que foi planejado com detalhe para oferecer uma grande variedade de prazeres sensuais. - Olhou-o nos olhos, fez uma careta e se ruborizou - Às vezes não escolho as palavras com muito acerto - comentou. "Prazeres sensuais", isso era o que devia tê-la envergonhado. Não obstante, em lugar de entrar na hora no o atalho que tinha mencionado, viu-a titubear um instante e compreendeu que lhe estava bloqueando o passo. Antes de que pudesse mover-se, ela voltou a falar: -Talvez goste de me acompanhar. Não havia nada que gostasse menos no mundo. Não lhe ocorria uma maneira mais indesejada de passar a escassa hora livre de que dispunha antes de trocar-se de roupa para o jantar. -Ou talvez não... - acrescentou ela com esse olhar risonho que tinha visto pouco antes, do outro lado do salão quando arqueou uma sobrancelha e a ofendeu com o gesto.
  29. 29. Disse-o como se fosse um desafio. E a verdade, pensou, era que tinha algo que lhe era um tanto fascinante. Era muito diferente de qualquer outra mulher que tinha conhecido. E ao menos não havia nem rastro de paquera em seus gestos. -Gostaria - disse, e se afastou para que ela o precedesse pelo atalho que entrava entre as árvores e corria paralelo à borda do lago. Depois se colocou a seu lado, pois quando se desenhou o atalho tiveram a previsão de fazê-lo-bastante largo para que duas pessoas pudessem caminhar uma ao lado da outra. Não falaram durante um momento. Embora como bom cavalheiro era hábil para iniciar uma conversa educada, nunca tinha sido dado a conversar para evitar o silêncio. Se ela estava contente passeando em silêncio, ele também. - Acho que devo agradecer meu convite a Schofield Park - disse ela finalmente com um sorriso, embora não o olhasse no rosto. -Como diz? - Olhou-a com as sobrancelhas arqueadas. -Depois que o convidaram - lhe explicou ela - Melanie se viu assaltada pelo pânico ao dar-se conta de que o número de cavalheiros superava em um ao de damas em sua lista de convidados. De modo que despachou a toda pressa uma carta a Hyacinth Cottage para me convidar, e quando me neguei, foi em pessoa para me rogar que aceitasse. Acabava de lhe confirmar suas suspeitas. -Depois que me convidassem – repetiu - De que me convidasse o visconde de Mowbury. Devo entender, então, que o convite não partiu de lady Renable. -Em seu caso eu não me preocuparia por isso - o tranquilizou - Assim que acessei a vir e a resgatei do potencial desastre, admitiu que preferia sua presença a do príncipe regente por muito importante que tivesse sido contar com sua majestade. Segundo ela - e possivelmente esteja certa, será a inveja de todas as anfitriãs da Inglaterra. Continuou olhando-a. Efetivamente, um anjo malévolo tinha intervindo em todo o assunto. Essa mulher estava ali por ele... e ele estava ali pelo mero fato de ter agido de forma alheia a seu caráter. -Não desejava aceitar o convite? - perguntou-lhe. -Não. - Tinha estado balançando os braços de um modo muito pouco apropriado para uma dama, mas nesse momento entrelaçou as mãos às costas. -Porque se sentia ofendida ao ter sido excluída da lista original? - sugeriu. Isso indicava que costumavam tratá-la como uma parente pobre que ninguém fazia caso, não? -Porque, embora pareça muito estranho, não desejava vir - respondeu. -Talvez se sinta fora do lugar em companhia superior, senhora Derrick - aventurou. -Acredito que não compartilho sua definição de "superior" – replicou - Mas, em resumidas contas, tem razão. -E ainda assim esteve casada com um irmão do visconde de Elrick – comentou. -E ainda assim estive - afirmou com jovialidade. Entretanto, não aprofundou no assunto. Tinham saído do arvoredo e se encontravam ao pé de uma verde colina salpicada de margaridas e ranúnculos. -Não lhe parece uma colina linda? -perguntou-lhe, embora sem dúvida não esperava resposta. Vê? Se subirmos, nos permitirá ver por cima das copas das árvores e teremos uma vista panorâmica perfeita do povoado e das terras de trabalho que se estendem ao longo e largo de quilômetros ao redor. A campina é como um tabuleiro de xadrez. Quem
  30. 30. escolheria a vida em cidade a isto? Não o esperou nem se amedrontou pelo íngreme da ascensão O precedeu até coroar a colina, embora poderiam tê-la rodeado e ter ficado ao pé, e uma vez no mais alto, estendeu os braços em cruz e deu uma volta completa com o rosto erguido para o sol. A brisa, que ali em cima soprava com força, agitou o cabelo e o vestido e fez que a fita que levava em torno da cintura ondeasse ao vento para frente. Parecia uma ninfa do bosque, e apesar disso tinha a sensação de que seus movimentos e seus gestos eram genuinamente espontâneos e naturais. O que em outra mulher poderia interpretar-se como paquera nela era uma expressão de exuberante alegria. Tinha a estranha sensação de ter entrado, sem pretendê-lo, em outro mundo. -Certamente... - reconheceu. A senhora Derrick deixou de mover-se para olhá-lo. -Você prefere o campo? - perguntou-lhe. -Sim - respondeu ao mesmo tempo que continuava subindo até chegar a seu lado e, uma vez em cima, foi girando devagar para admirar toda a vista da campina. -Então, por que passa tanto tempo na capital? -Sou membro da Câmara dos Lordes - lhe explicou - É meu dever assistir às sessões. - Cravou a vista na aldeia. -A igreja é bonita, não lhe parece? - comentou ela - Reconstruíram a ponta da torre faz vinte anos, depois que uma tormenta derrubou a antiga. Lembro tanto da tormenta como das obras. A nova é cinco metros mais alta que a anterior. -O vicariato é o edifício que está ao lado? -perguntou. -Sim – respondeu - Minhas duas irmãs e eu crescemos ali, com o antigo vigário e sua esposa. Eram muito amáveis e hospitaleiros. Suas duas filhas eram nossas melhores amigas, e depois havia seu filho, Charles, com quem tínhamos menos relação. O pobre era o único varão entre cinco garotas. Todos íamos à escola local, as garotas e os meninos. Tivemos sorte porque o professor, meu pai por certo, não era da opinião de que a única coisa que as mocinhas têm entre as orelhas é ar. Louisa e Catherine se casaram muito jovens e vivem um pouco afastadas. Mas depois que o antigo vigário e sua esposa morreram com dois meses de diferença, Charles, que ocupava um posto de diácono a uns trinta quilômetros daqui, ficou com o cargo e se casou com minha irmã Hazel, a do meio das três. -Sua irmã mais velha também está casada? -quis saber. -Eleanor? -Negou com a cabeça - Quando tinha doze anos anunciou que sempre ficaria em casa para cuidar de nossos pais quando fossem velhos. Apaixonou-se uma vez, mas seu noivo morreu na batalha da Talavera antes que se casassem, e depois perdeu o interesse pelos homens. Quando nosso pai morreu, insistiu no que dizia de menina, embora claro, agora só precisa cuidar de minha mãe. Acredito que é feliz. Sim, pensou certamente que pertencia a outro mundo... ao da nobreza rural. Certamente tinha feito um matrimônio muito vantajoso. Viu-a estender um braço e dar um passo para ele para lhe indicar com mais facilidade o que apontava. -Aquilo ali é Hyacinth Cottage – disse - Ali vivemos. A casa sempre me pareceu
  31. 31. muito pitoresca. Passamos momentos de incerteza quando meu pai morreu, já que só ele constava como arrendatário. Mas Bertie, o barão Renable, teve a amabilidade de arrendá- la a minha mãe e a Eleanor por toda a vida. -Pensando que você não as sobrevivesse? -perguntou. A senhora Derrick desceu o braço. -Ainda estava casada com o Oscar - respondeu - Sua morte era imprevisível, é obvio, mas embora não tivesse sido esse o caso, suponho que Bertie teria pensado que ficaria com sua família. -Mas não o fez? -Não. Contemplou Hyacinth Cottage da distância. Era uma casa bonita, com seu telhado de palha e seu extenso jardim. Parecia uma das casas maiores do vilarejo, um lar adequado para um cavalheiro de nascimento, embora tivesse agido como professor de escola. A senhora Derrick, que estava de pé e em silencio a seu lado, pôs-se a rir baixo. Virou a cabeça para olhá-la. -Tornei a fazer algo que lhe é engraçado, senhora Derrick? - perguntou. -A verdade é que não. - Sorriu-lhe - Mas acabo de me dar conta que Hyacinth Cottage parece uma casinha de bonecas daqui acima. Certamente caberia em um cantinho do salão de sua casa. -Refere-se a Lindsey Hall? - disse - Duvido muito. Calculo que deve haver quatro dormitórios no andar de cima e outros tantos aposentos no piso inferior. -Então talvez em um cantinho de seu salão de baile. -Talvez - concordou, embora duvidasse. Não obstante, a ideia era engraçada. -Se seguirmos pelo atalho que rodeia o lago a este passo, pode ser que ainda tenham biscoitos para acompanhar o chá da tarde. -Nesse caso será melhor que nos ponhamos em marcha. -É possível que não quisesse caminhar até tão longe - disse ela - Talvez prefira retornar por onde viemos em lugar de me acompanhar. Aí estava... sua oportunidade de escapar. Não soube por que não a aceitou. Talvez porque não estava acostumado a que o despachassem. -Não estará tentando desfazer-se de mim por acaso, não é, senhora Derrick? - perguntou ao mesmo tempo que segurava o cabo do monóculo e o levava ao olho para observá-la através da lente, só porque sabia que o gesto a incomodaria. Não obstante, ela pôs-se a rir. -Simplesmente pensei que talvez esteja acostumado a ir a cavalo a toda parte ou a que o levem de carruagem - respondeu - Não quero ser a culpada de que lhe saiam bolhas nos pés. -Nem de que chegue tarde ao jantar? - Baixou o monóculo e o deixou pendurado na fita - É muito amável, senhora, mas não a culparei de qualquer possível desastre. Apontou com uma mão o caminho que descia pelo outro lado da colina. Conforme comprovou, continuava discorrendo em paralelo à borda do lago durante um lance antes de voltar a desaparecer entre as árvores. A senhora Derrick fez várias perguntas enquanto caminhavam. Perguntou-lhe por Lindsey Hall, em Hampshire, e também por suas outras propriedades. Pareceu muito
  32. 32. interessada na propriedade que tinha em uma remota península do Gales, perto do mar. Perguntou-lhe por suas irmãs e irmãos, e depois, quando soube que estavam todos casados, perguntou-lhe por seus cônjuges e seus filhos. Caiu na conta de que estava falando mais do que o habitual sobre si mesmo. Uma vez que saíram do arvoredo, descobriu uma bonita ponte de pedra colocada sobre um riacho cujas águas desciam com rapidez entre suas escarpadas bordas no caminho ao lago. Detiveram-se ao chegar ao centro e contemplaram o reflexo do sol na água. A senhora Derrick se apoiou na mureta. Os gorjeios dos pássaros inundaram o ar. Era uma cena bucólica. -Justamente aqui foi onde Oscar me beijou pela primeira vez e me pediu que me casasse com ele - disse ela em voz baixa - passou muita água debaixo desta ponte desde aquela tarde... em mais de um sentido. Não disse nada. Esperava que não lhe desse de soltar um sem-fim de sandices sentimentais sobre o amor e a enormidade de sua perda. Entretanto, quando se virou para olhá-lo, fez isso muito depressa e com as faces ruborizadas. Supôs que tinha esquecido por um momento com quem estava... e agradeceu enormemente que o tivesse recordado na hora. -Ama Lindsey Hall e suas outras propriedades? - perguntou ela. Só uma mulher, uma mulher muito sentimental, poderia fazer semelhante pergunta. -"Amar" talvez seja uma palavra muito extravagante para referir-se a um montão de pedras e uma parte de terra, senhora Derrick – respondeu - Preocupo-me de que estejam bem administradas. Cumpro minhas responsabilidades com aqueles que vivem de minhas propriedades. Passo todo o tempo que me é possível no campo. -E ama a seus irmãos e irmãs? Arqueou as sobrancelhas. -"Amar" é uma palavra utilizada pelas mulheres, senhora Derrick - respondeu - e em minha experiência costuma implicar tal leque de emoções que é virtualmente impossível que contenha um significado. As mulheres amam a seus maridos, a seus filhos, aos bebês e a seus cães; a última ninharia que se compraram, dar passeios pelo parque e a última novela que tomaram emprestada da biblioteca. Também amam a luz do sol e as rosas. Eu cumpri meu dever com meus irmãos, assegurei-me que todos tenham um futuro e um matrimônio feliz. Escrevo-lhes uma vez ao mês. E suponho que morreria por qualquer deles se alguma vez fosse necessário um sacrifício tão ostentoso e nobre. Isso é amor? Deixo a resposta você. Ela o observou em silencio durante um bom tempo. -Refere-se às emoções das mulheres com desdém – replicou - Sim, amamos todas essas coisas que mencionou e muitas mais. Acredito que não quereria viver se minha vida não estivesse cheia de amor por todas as coisas e por todas as pessoas que me rodeiam. Não é uma emoção que deva inspirar desdém. É uma atitude ante a vida completamente oposta a daqueles que a veem como uma sucessão de deveres que cumprir ou de cargas que suportar. É evidente que a palavra "amar" tem um sem-fim de acepções, ao igual a muitíssimas palavras de nossa preciosa língua em constante evolução. Mas embora digamos que amamos as rosas ou amamos aos bebês, nossas mentes e nossos corações
  33. 33. compreendem que a emoção não é a mesma. Sentimos uma imensa alegria ao contemplar uma rosa perfeita. Dá-nos um tombo o coração ao ver um menino de nosso sangue ou de nossa família. Ninguém conseguirá que me envergonhe pela ternura que sinto por minhas irmãs ou por meus sobrinhos. Teve a firme impressão de que acabava de pô-lo em seu lugar. Entretanto, tal como acontecia com as pessoas que discutiam levadas pela paixão e não pela razão, tinha tergiversado suas palavras. Lançou-lhe um de seus olhares mais gélidos. -Desculpe-me se me equivoco, mas disse ou insinuei que deva envergonhar-se, senhora Derrick? - replicou. Suas palavras teriam castigado a qualquer outra dama. Porém não à senhora Derrick. -Sim - afirmou cortante - insinuou-o. Insinuou que as mulheres são frívolas e que fingimos amar quando em realidade não conhecemos o significado dessa palavra. Quando, de fato, essa palavra não tem um significado verdadeiro. -Ah! - exclamou em voz baixa, mais aborrecido do que jamais se permitia estar- Nesse caso, talvez deva me desculpar, senhora. Afastou-se da mureta e empreenderam de novo a marcha. O caminho voltou a levá- los entre as árvores, embora nesse lance pudessem contemplar o lago que estavam rodeando para poder chegar ao ponto de partida. A senhora Derrick apressou o passo até chegar à mansão. -Bem - disse ela com um sorriso deslumbrante quando entraram no vestíbulo, rompendo assim o longo silencio que tinha dominado a última parte do passeio - devo me apressar se não quiser chegar tarde ao jantar. Despediu-se dela com uma reverência e a deixou correr - sim, "correr" era a palavra adequada escada acima até que desapareceu de sua vista, depois do que empreendeu o caminho a seus aposentos. Ao chegar a seu destino surpreendeu descobrir que tinha estado fora mais de uma hora. Não lhe tinha sido tão longo. Deveria ter sido assim. Normalmente não o fazia nem pingo de graça aguentar a companhia de alguém que não tivesse escolhido com antecipação e isso incluía a todos os desconhecidos. O duque de Bewcastle não se sentiu obrigado a acompanhá-la ao diminuto quarto que lhe tinham atribuído, comprovou Christine com alívio. Possivelmente estaria contente depois de ter sobrevivido a uma hora tão tediosa, pensou enquanto corria escada acima, esquecendo que Hermione tinha insistido em que correr não era uma maneira elegante de deslocar-se de um lugar a outro. Seguiu correndo até chegar a seu quarto. Não demoraria muito em trocar de vestido para o jantar, mas restava muito pouco tempo. Mal dava crédito ao que acabava de fazer. Deixou-se estimular por algumas tontinhas, isso era o que tinha feito. Tinha saído a toda pressa da mansão depois do chá para desfrutar de um pouco de tempo a sós, deu-se de cara com o duque de Bewcastle que momento mais embaraçoso! E depois, justo quando estava a ponto de escapar dele, lhe tinha ocorrido a genial ideia de ganhar a aposta nesse preciso instante, quase antes de tê-la feito. Só para demonstrar-se a si mesma que podia fazê-lo. Porque em nenhum

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