o doce vermelho
das beterrabas
o doce vermelho das beterrabas
joão batista ferreira

coleção rocinante
© 2006 João Batista Ferreira

Produção editorial
Debora Fleck
Isadora Travassos
Jorge Viveiros de Castro
Marília Garcia
Va...
Sumário
Luz .............................................................................. 11
Nós, que amávamos a Nina Sim...
Para Mônica, Lucas e Virgínia.
Importante é a luz, mesmo quando consome;
a cinza é mais digna que a matéria intacta
e a salvação pertence àqueles que ace...
JOÃO BATISTA TEM A PAIXÃO DA CLAREZA: isso é o que
transparece nas três histórias escolhidas para fazer parte desta antolo...
Luz
Naquela atmosfera onde a música enfraquecia as resistências
e tecia algo semelhante a uma respiração comum,
a paz de u...
cos (que aceitou o convite para trabalhos de fotografia em
São Paulo) ou outra coisa que mal escuto. Erguemos copos
em dir...
fascínio, cujo significado combinamos não procurar, temendo uma compreensão que desvanecesse o encanto).
Sim, o incerto ex...
lhido num abraço terno? O momento em que percebo no
seu sorriso a magia capaz de transportar o apartamento para
um lugar r...
Nas fotos que Marcos não tirou – mas que já estavam
para sempre na minha memória – deslizamos sobre as luzes
refletidas no...
no lugar certo, a música adequada, um ritmo envolvente.
Neste filme, a atmosfera sugere que, lá fora e aqui dentro,
logo a...
Nós, que amávamos a Nina Simone
Qualquer amor
já é um pouquinho de saúde,
um descanso na loucura
GUIMARÃES ROSA, Grande Se...
No décimo andar de outro edifício que parece um dia
ter sido azul, à esquerda, posso distingui-la uma vez mais –
uma silhu...
de finitude, de repente tão próxima quanto a calçada suja
da avenida.
O aroma do incenso de Marília se diluiu por inteiro
...
Márcia imitou Ingrid: “esta música (Nina Simone tocava You’ll never walk alone) não é maravilhosa, não mistura
melancolia ...
Um ano fora. As primeiras cartas de Márcia misturavam
entusiasmos e pequenas depressões. Não era difícil imaginá-la
relend...
Semanas depois, ela insinuou que “as cartas se tornaram
repetitivas”. Referência sutil? Referência que ampliava muito
suas...
Você se transformou numa sombra com receio de olhar
para trás e encontrar a imagem de uma outra pessoa muito
parecida com ...
– Assim, com a luz deste lado – disse para ela.
Feito aura, espectro, para sua surpresa, Marília se transformou no perfil ...
Reprise
Não era uma personagem de ninguém, embora às vezes,
mais por comodismo ou para não se sentir desamparado
como obra...
Anselmo fica mais irritado. Abre a boca para se lamentar e percebe-se ridículo. Fica uma fração de segundo ali, o
gesto in...
– Como foi o dia hoje?
Pelo que Anselmo lembrava, ela devia sorrir amistosa.
Ela treme. Então ele lembra de outro filme em...
Salto
no pensaba en nada, nada más
y caí que al fin esto es un juego
todo empieza siempre una vez más
y a rodar, y a rodar...
Pouco depois, os músicos fazem um intervalo.
– O baterista parece o Tavinho. – Bia diz.
– Não sei quem é.
– Da minha antig...
– O quê?
– No anel.
– A divindade que há em mim, saúda a divindade que
há em ti, algo assim.
– Bonito.
Ao lado de Bia, um ...
– Lembrei de você. Numa outra situação, Scarlet teria
se desculpado. Mas a prima estava tão contente com a visita. Parecia...
– Às vezes você não se sente num filme?
– Como assim?
– A vida como se fosse um filme.
– E como é?
– Um filme cuja graça à...
A cantora recomeça com Dos Gardênias para ti, agora
um cover da Maria Rita.
– Quero é dançar – Bia diz.
– Só se formos a o...
André se aproxima. Pede que desça. Bia o empurra e
dá mais alguns rodopios. Sente uma rápida tontura. Vê luzes girando, br...
– Vamos pra casa.
– Não é mais um morto-vivo.
– Você vai ficar bem.
– Descobriu seu próprio brilho.
–
– Não consegue disfa...
– Ok, Bia.
– O maior dos planetas na órbita da estrela.
– Que estrela?
– Eu, porra!
– Sim, Bia, você é minha estrela.
Andr...
O silêncio das estrelas
Somos, todos nós,
criaturas das estrelas
e das suas forças,
elas nos fazem,
nós as fazemos
DÓRIS L...
ganhou, só pra te mostrar. Tá vendo? Uma torta parecida
com esta: vermelha, assim.
Sei o que você está pensando. Não quer ...
O que você achou da parte em que ela adivinha o pensamento dele? Pensei nas vezes em que também adivinho
seus pensamentos,...
– Não disse, não disse! O muro é bem alto, mas o céu
é aberto! – Ele mesmo responde. Caminha agitado pelos
corredores. Gri...
do, mas depois fiquei triste. Falei que só saio quando você
melhorar.
Você não acredita, não é? Contei pra ele que vejo se...
vão saber. Para eles, a vida será sempre a mesma. Não sabem
disso, nem das outras pessoas e coisas que estão ao seu redor....
Flor
Ah, a flor do amor tem muitos nomes.
GUIMARÃES ROSA, Grande Sertão: Veredas
Uma rosa é uma rosa,
é uma rosa,
é uma ro...
Ele interrompe a leitura da revista com a foto de um
homem gordo e sorridente na capa.
Examina as duas flores. Sorri. Mais...
Nina lembra, então, de antigas lições escolares – lições de
Vera, mais ou menos assim:
– As borboletas são insetos alados ...
Desiste das borboletas. Só consegue pintar flores – de
uma determinada espécie de flores solitárias – que jamais se
destac...
Para um som impossível,
para uma voz
que há muito se foi.
Então vê – feito selo, feito marca eterna – a cópia idêntica à d...
Nina abre, sem medo. A mulher é muito parecida com
ela. Tão parecida que era inevitável o longo abraço. Depois
descobrem q...
O doce vermelho das beterrabas

Meus dentes estão vermelhos das beterrabas que acabei de comer. Gosto de comê-las todas as...
Nossa mãe morou nesta casa. Ela foi embora há quatro
anos. Um dia ficou muito nervosa e raspou o cabelo. Não
gritou, como ...
Mas ainda não chegou a hora. Semeei muitas beterrabas em
nosso quintal e a colheita será grande, melhor do que no
ano pass...
Leveza

Júlia está sentada na sauna a vapor. Júlia, a mulher enorme, é uma pessoa doce. Tem mãos pequenas, buliçosas. Mãos...
Domingo. Acompanha Cíntia, sua filha, a uma festa
de aniversário. Sem disposição. Um parente distante do qual
Júlia nem le...
Mais tarde, escondida, bebe o uísque do genro, pela
primeira vez. Liga a televisão do seu quarto. Silvio Santos
não parece...
Quando chega mais perto, Cíntia bate no vidro, nervosa.
O atendente chama o segurança.
Júlia toca no ombro da filha e depo...
Pênalti

É claro que vou bater! Que história é essa, agora? A
gente não decidiu isso ontem?
As torcidas assoviam, vaiam. O...
Adilson, o capitão, escuta e tira o Evaldo de perto de
mim. Evaldo mostra aquela cara de bunda de sempre, mas
vai pra trás...
Vocês me tiraram sangue, seus desgraçados! Vaias e gritos não me assustam. Depois vocês vão acompanhar a repetição na TV. ...
Lucidez
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
FERNANDO PESSOA, Tabacaria

Antônio, o escritor, sonha com o Anj...
– Normal.
–
– Como vou confiar em você?
– É simples.
– Como?
– Nunca faltei com ninguém.
Antônio acorda suado. Parecia rea...
– Antônio.
–
– Quero escrever um livro para a posteridade.
–
Antônio acorda assustado. Mais molhado de suor do
que no prim...
Atravessa madrugadas sem dormir. Escreve sem parar.
Bebe litros de café. O fluxo não se interrompe, nem quando a mão está ...
seus últimos dias? Não havia ninguém. Uma dor fria o invade e também a certeza de que não sabe viver sem escrever,
mesmo n...
Mistérios
Não nos une o amor, mas o espanto.
Será por isso que a amo tanto?
JORGE LUIS BORGES

Pobre Osvaldinho, foi se ap...
– Que frio, meu Deus. Escolhi a roupa errada. Estou
me odiando por isso – diz Rosana.
– Pegue minha jaqueta – diz Osvaldin...
lhos perdem a paciência.
Este aqui deitado na rede? Sou eu: Dr. Osvaldo.
Nos fins de semana, gosto de ficar aqui no terraç...
Máximo divisor comum

– Um pouco de ousadia não faz mal a ninguém.
– A sua ousadia é um tanto...
– Um tanto o quê?
– Você ...
– Fale baixo.
– E o Osvaldo, um tremendo puxa-saco!
– Sorte sua ter ficado nesta mesa distante.
– Que se danem!
– Amanhã v...
– Puxa, Raquel.
– Queria ouvir as piadinhas que vão te mandar amanhã.
– Você é muito sensível.
– Sensível é você.
– Conte ...
Vidente

Amaral e José se reencontram, depois de anos. Foram
grandes amigos na escola.
Amaral tem aparência jovial. Prospe...
– Vivo só. E a situação está difícil, Amaral.
– Ora, ora.
– Não quero mais aborrecê-lo, Amaral. Me perdoe.
– Deixe disso.
...
– Estou muito angustiado. Até o resto de vida será de
dificuldades. Você poderia me adiantar uma parte, uma
pequena parte ...
– Talvez sejam onze anos, Amaral, onze anos! Onze anos!
Não é uma maravilha?
– É, maravilhoso.
– O que há com você, Amaral...
– Suicídio?
– Não, José, não.
– Que bobagens, Amaral?
– Não me pergunte, José, não me pergunte.

74
Iceberg
O espírito julga, a alma vive.
ERNESTO SÁBATO

O professor Lopes concluiu o último capítulo do seu
romance. Está e...
Sem falar nos escritores que fazem inúmeras versões de
seus trabalhos, até encontrar o tom satisfatório. Abreviam,
amplifi...
A teoria não funciona. Às vezes é assim mesmo, o que
parecia um momento de iluminação se apaga feito um tímido fósforo.
No...
seu livro. Sim, havia muitas referências indiretas a Helena.
O livro era todo escrito para ela. De certa forma, era como
u...
Aniversário
Eu nunca guardei rebanhos,
mas é como se os guardasse.
FERNANDO PESSOA, O Guardador de Rebanhos

Luíza abre um...
preço ainda está fora do orçamento. Mas, quem sabe? Sim,
tudo se ajeitava bem nos últimos meses e conseguiu, afinal,
algum...
favor. Tem um relatório confidencial naquele malote. Ok!
Ok! Obrigada. Um abraço.
A novidade vem pouco antes do almoço. Dr...
Os beijos e abraços se sucedem. Sente vontade de falar
o quanto está agradecida. Mas a boca seca não consegue
dizer nada.
...
O olhar distraído ainda encontra documentos amassados, vários clipes no chão, umas plantas secas, um quadro
torto e empoei...
partiu certa vez num motel. Ficaram quase uma hora procurando continhas no carpete com cheiro de mofo. Mesmo
assim, elogia...
Quando chega ao apartamento toma comprimidos para
dormir.
Acorda tarde. As pálpebras inchadas descobrem olhos
que observam...
– Alô? Júlio? Obrigada. É, foi ontem, sim. O dia está
lindo? Sei que tem sol, ainda não olhei pra rua. Almoçar?
Daqui a um...
Palcos

O refletor, situado no fundo do palco, ilumina os cabelos crespos de Anabela, que se transformam em uma névoa azul...
Ferreira, j.b. (2006). o doce vermelho das beterrabas.
Ferreira, j.b. (2006). o doce vermelho das beterrabas.
Ferreira, j.b. (2006). o doce vermelho das beterrabas.
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Ferreira, j.b. (2006). o doce vermelho das beterrabas.

  1. 1. o doce vermelho das beterrabas
  2. 2. o doce vermelho das beterrabas joão batista ferreira coleção rocinante
  3. 3. © 2006 João Batista Ferreira Produção editorial Debora Fleck Isadora Travassos Jorge Viveiros de Castro Marília Garcia Valeska de Aguirre Capa Ilustração de Rosana Toniolo Pozzobon CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F441d Ferreira, João Batista, 1959O doce vermelho das beterrabas / João Batista Ferreira. – Rio de Janeiro : 7Letras, 2006 96p. – (Rocinante) ISBN 85-7577-297-X 1. Conto brasileiro. I. Título. II. Série. 06-2600. CDD 869.93 CDU 821.134.3(81)-3 2006 Viveiros de Castro Editora Ltda. R. Jardim Botânico 600 sl. 307 Rio de Janeiro RJ CEP 22461-000 | tel: (21) 2540-0076 editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br
  4. 4. Sumário Luz .............................................................................. 11 Nós, que amávamos a Nina Simone ............................. 17 Reprise ......................................................................... 25 Salto ............................................................................ 28 O silêncio das estrelas................................................... 37 Flor .............................................................................. 43 O doce vermelho das beterrabas ................................... 49 Leveza .......................................................................... 52 Pênalti ......................................................................... 56 Lucidez ........................................................................ 59 Mistérios ...................................................................... 64 Máximo divisor comum ............................................... 67 Vidente ........................................................................ 70 Iceberg ......................................................................... 75 Aniversário ................................................................... 79 Palcos ........................................................................... 87 Uma certa eternidade ................................................... 90
  5. 5. Para Mônica, Lucas e Virgínia.
  6. 6. Importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Caio Fernando Abreu, O Ovo Apunhalado
  7. 7. JOÃO BATISTA TEM A PAIXÃO DA CLAREZA: isso é o que transparece nas três histórias escolhidas para fazer parte desta antologia.* Um autor que procura a maior consciência possível não só sobre cada frase, mas cada palavra, cada ponto, cada vírgula, cada parágrafo. Nem por isso seus contos se ressentem de frieza ou cerebralismo; ao contrário, todos eles revelam uma profunda simpatia e rara sensibilidade para tratar das coisas humanas. Da velha solitária, em Elefantes, à adolescente (depois mulher) confusa de Flor e ao menino cruel de Beterrabas, o que marca o texto de João Batista é o espanto em relação ao fato de estarmos vivos – todos nós, leitores, autores ou/e personagens – e, só por isso, jogados numa aventura quase sempre incompreensível. A qualidade de seus textos talvez venha dessa carga de vida – latejante, pungente – emboscada atrás das palavras medidas que revelam uma técnica segura e uma linguagem que, com muita freqüência, aproxima-se daquela perfeição conquistada por Clarice Lispector. CAIO FERNANDO ABREU, 1990. * Texto originalmente escrito como prefácio para a antologia de contos Paulistanos Desvairados, inédita, organizada por Caio Fernando Abreu. Os três contos mencionados estão no presente livro com os nomes de Leveza, Flor e O doce vermelho das beterrabas, respectivamente.
  8. 8. Luz Naquela atmosfera onde a música enfraquecia as resistências e tecia algo semelhante a uma respiração comum, a paz de um só e enorme coração, palpitando e englobando todos. JÚLIO CORTÁZAR, O Jogo da Amarelinha – Você viu? – digo com expressão de surpresa. – O quê? – O que o seu sorriso fez. – E o que foi? – Luz. Seria muito bom ficar para sempre aqui, assim – solto e ao mesmo tempo contido – no breve aconchego do seu abraço, das mãos que deslizam dentro do meu cabelo, descobrem as linhas invisíveis deixadas por carinhos esquecidos, que acordam discretas energias que se irradiam em ondas boas por lugares incertos de um corpo cansado. Como sonâmbulo, estendo as mãos em direção ao seu rosto. As pontas dos dedos vacilantes percorrem o desenho macio da sua boca, nariz, sobrancelhas. Até flutuarem na luz do seu sorriso que, num segundo de fascínio, acende reflexos nas retinas dos meus olhos. Bem próximos, na penumbra da luz fosca projetada pelo abajur de canto, a alegria de Márcia e Eduardo. Marcos segura a câmera, tira várias fotos em seqüência. Isabel convida para um brinde – ao encontro, à despedida de Mar11
  9. 9. cos (que aceitou o convite para trabalhos de fotografia em São Paulo) ou outra coisa que mal escuto. Erguemos copos em direção à luminária com a tênue luz alaranjada no centro da sala. Márcia e Eduardo riem. Tentam acompanhar a dança meio maluca de Isabel, a música que Danilo tenta tirar no violão desafinado, o atabaque animado de Edinho. As fotos de Marcos registrariam aquela seqüência de momentos? Os breves instantes que poderiam conduzir a um outro imprevisível tempo? Um tempo onde não haveria apenas mais uma noite de sábado, ainda contaminada por vestígios das costumeiras ansiedades. Restos das ansiedades de quase sempre – que ficavam evidentes na gesticulação de Márcia, indignada com outro massacre de meninos de rua, indignada com o sangue esparramado na calçada suja, mostrado nos closes sensacionalistas dos telejornais. Os meninos tratados como pobres-porque-eram-vagabundos, a exploração do espetáculo sórdido do sofrimento, exaustivamente repetido, banalizado. Ou ainda ansiedades menores, agruras triviais – os contratempos da chuva forte na quinta-feira, por exemplo. A cidade ficou parcialmente paralisada no começo da manhã e houve muitos atrasos que encurtaram agradavelmente o dia. E assim ficamos à espera de alguma coisa indefinida – que um dia, na falta de palavra melhor (e palavras muitas vezes nos faltavam), você chamou de momentos meio-místicos-meio-mágicos-meio-loucos. Momentos que, em certas noites de sábado, simplesmente se faziam. Bastava ficarmos receptivos a uma espécie de ritual espontâneo, alheios a qualquer artifício. Bastava ficarmos entregues ao sortilégio (e sortilégio era outra palavra sua, palavra de estranho 12
  10. 10. fascínio, cujo significado combinamos não procurar, temendo uma compreensão que desvanecesse o encanto). Sim, o incerto exercício de abandonar o mundo no qual tudo acontecia muito rápido. O mundo no qual muitos de nós – no abrigo de véus e máscaras quase invisíveis – escondiam uma pedra fria na palma da mão. Ninguém gostava de mostrar a pedra escura. O que fazer com ela? Como se livrar dos temores adensados em pedra? Como revelar o desconforto por detrás dos gestos, colado às palavras, à seqüência interminável das imagens perdidas no dia-a-dia? Quem entregaria um olhar mais intenso, o olhar que não se habituava às paisagens de sempre? Marcos fotografa Danilo, que agora acerta no violão e toca para Márcia O segundo sol. E a voz de Márcia percorre intensa cada palavra dos versos, especialmente quando canta a vida que ardia sem explicação. Sim, a espera por alguma coisa indefinida e, ao mesmo tempo, a resignação dissimulada de quem atravessa mais um fim de semana. Mais um que se vai. Alguma coisa como todos reunidos, conduzidos pelo fio daquela melodia, tenuemente suspensos, envolvidos numa sensação única. As fotos de Marcos registrariam o lento processo em que o antes vai se transformando no esperado agora? Conseguiriam capturar o avanço da noite que se desdobra num tempo incerto? Capturar o momento em que não era preciso dizer nada, apenas o encontro dos olhares para estarmos novamente próximos? Capturar o momento em que seu sorriso sinaliza que agora você está distante de massacres, tempestades, agruras? As fotos registrariam a seqüência em que ajeito a mecha do seu cabelo, deito a cabeça em suas pernas e sou aco13
  11. 11. lhido num abraço terno? O momento em que percebo no seu sorriso a magia capaz de transportar o apartamento para um lugar remoto, no remoto lugar de uma cidade perdida no mundo? Eu gostaria de ficar para sempre aqui (não começava assim um conto do Caio?), para escutar o som ritmado do seu coração, sentir seu peito oscilar com os movimentos da respiração, no abrigo da terna energia que a impulsiona por dias e noites e noites e dias e todos os outros tempos que não se deixam medir. Nestes momentos você seria capaz de adivinhar a pergunta que flutuava na superfície silenciosa dos meus olhos – quem sou eu quando não há você? E adivinharia também as palavras que digo perto do seu ouvido – quando não há você, sou o espectador de uma vida que não era senão a minha. Avançando automático, inconsciente, ao longo das horas, dias, meses, anos. Algumas vezes quase um personagem da Clarice, atordoado com a voracidade por uma vida real que tardava. Voracidade que muitas vezes desaparecia feito relâmpago e ficava adormecida por muito tempo, um interminável e absurdo tempo. Gostaria de ficar para sempre assim, preso no seu abraço, anestesiado pelo vinho, imobilizado na fotografia que Marcos depois mostrou na TV. A fotografia em preto e branco revelaria o intraduzível, o que estava além da seqüência dos rostos configurados por milhares de pontinhos eletrônicos, a dimensão meio-mística-meio-mágica-meio-louca que tentamos encontrar. Até que as horas finalmente esquecidas no relógio mais uma vez escapam e avançam inexoráveis para a dispersão de um resto de noite, início de amanhecer. 14
  12. 12. Nas fotos que Marcos não tirou – mas que já estavam para sempre na minha memória – deslizamos sobre as luzes refletidas no asfalto molhado, você dirige entre os grandes caminhos vazios da cidade, as sombras dos edifícios que se confundem com as nuvens escondidas dentro da noite. Nas fotos que Marcos não tirou também não haveria nosso acordar pela manhã, no centro do discreto espanto de quem está novamente ali. Nem fotografias do abraço na maciez do seu corpo, do receio da claridade que fere os olhos, dos pequenos e maravilhosos acontecimentos que nasceriam naturalmente a partir de você. Agora estou distante de um certo script, uma certa vida na qual o tempo se transformaria no ritmo morno em que tudo apenas e simplesmente parecia se repetir, numa seqüência inacessível. Agora era mais fácil lidar com a breve inquietação no ar invisível ao redor e também num canto incerto do peito. Certa inquietação com as perguntas recorrentes que se formulam e desvanecem, quase imediatamente, quando seu abraço se faz um pouco mais forte em volta do meu peito. Perguntas agora tão remotas como: o que está acontecendo? O que foi que aconteceu e não percebemos? Perguntas que terminam por se diluir como uma névoa, quando minhas mãos percorrem o contorno dos seus ombros, quando beijo sua boca ainda sonolenta, entreaberta num esboço de sorriso. E então era como estar no centro de um filme, realizado em tempo real, um filme sem atores, que mostra a vida que queremos sem nenhuma edição. Um filme que movimenta e descongela as fotografias que, de outro modo, ficariam paralisadas para sempre. Um filme com as cenas 15
  13. 13. no lugar certo, a música adequada, um ritmo envolvente. Neste filme, a atmosfera sugere que, lá fora e aqui dentro, logo acima dos nossos corpos, há uma espécie de céu que nos protege, uma espécie de céu que naturalmente se desprende do sonho que você me faz sonhar acordado. 16
  14. 14. Nós, que amávamos a Nina Simone Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura GUIMARÃES ROSA, Grande Sertão: Veredas – Confusão de novo! Vou à janela onde Marília está. Lá embaixo, na avenida, um homem sem camisa é empurrado para dentro do carro da polícia. Há muita gente ao redor da pessoa caída de bruços na calçada. – Segunda vez esta semana – Marília diz. Depois me dá um beijo e vai trocar de roupa. A fumaça do incenso flutua na sala e se desmancha no calor da noite. No edifício em frente, na janela de um apartamento mais próximo, consigo ver a mulher que gesticula para crianças pulando no sofá. Em outro retângulo iluminado, o homem gordo, em pé, segura o copo diante da televisão. Mais acima, o casal janta com as cabeças inclinadas sobre os pratos, como se tivessem iniciado um cumprimento oriental. Há muitas pessoas em outras janelas, mas na posição em que ficam não são mais que silhuetas, sombras recortadas contra as luzes dos apartamentos. Acompanham a massagem cardíaca no que parece ser um homem estendido no chão, lá embaixo. 17
  15. 15. No décimo andar de outro edifício que parece um dia ter sido azul, à esquerda, posso distingui-la uma vez mais – uma silhueta quase imóvel, a não ser pelo movimento da mão que conduz o cigarro à boca e depois, num gesto lento, quase um clichê cinematográfico, ao cinzeiro no parapeito. Aparentemente distante do que acontece na avenida. Apenas está ali, como em todas as outras noites. Quantas vezes, mais ou menos neste horário, me distraí com a trajetória regular daquele movimento, com a mão brevemente suspensa sobre o abismo de fuligem e ruídos daquela parte da cidade? Certa noite, mostrei a silhueta para Marília. Mas Marília vivia demais para suas próprias coisas. Para ela jamais haveria o gesto, muito menos a mão suspensa sobre o precipício. E, sem o gesto, a silhueta era apenas mais uma sombra na janela, dessas que se pode encontrar em qualquer janela de edifício de cidade grande, quase todas as noites. Para Marília jamais haveria a inevitável e estranha familiaridade que, depois de certo tempo, se pode adquirir com uma sombra, mesmo à distância. Sem o gesto, não haveria todas as outras coisas – como as estórias que, depois de algum tempo, comecei a inventar para a silhueta. Uma mulher acende uma vela e coloca um pano branco sobre a cabeça do cara estirado no chão. As sombras nas janelas, por um momento, parecem estáticas, mudas. O cara estirado no chão de repente não era mais um estranho que se deu mal. Era um morto. E mesmo com a banalização da morte, dos corpos anônimos avistados das distâncias das janelas, por uma fração de segundo as sombras parecem imersas numa fugidia lucidez, uma fugaz e aterradora visão 18
  16. 16. de finitude, de repente tão próxima quanto a calçada suja da avenida. O aroma do incenso de Marília se diluiu por inteiro no ar pesado da noite. Depois de algum tempo, comecei a inventar muitas estórias para a silhueta, mas uma delas tornou-se obsessiva, não me saía da cabeça, uma estória que recebia pequenas ou grandes variações, cada vez que a recontava. Uma estória mais ou menos assim: Vez ou outra você sai da janela. Desaparece no apartamento para esvaziar o cinzeiro, servir-se de bebida, ir ao banheiro ou dar um jeito no aparelho de CD, que repete partes aleatórias das músicas, cria seqüências eventualmente interessantes, não fossem as súbitas e caóticas mudanças nas frases melódicas. Houve uma noite em que parecia possível distinguir algo como uma inteligência musical operando a seqüência de fragmentos. E você foi capaz de jurar que aquilo fazia parte de um recurso misterioso do aparelho. Você liga e desliga o aparelho, aperta novamente o play: Nina Simone canta Do I move you? Olha a foto da cantora na capa do CD e uma vez mais e inevitavelmente lembra de Márcia, da noite em que ela trouxe o disco de presente, da noite em que jantaram no chão da sala, à luz de tocos de velas encontrados na cozinha. A noite em que, sentada na poltrona amarela, Márcia abriu a bolsa e tirou a câmera de vídeo minúscula, emprestada de uma amiga. Estava bem-humorada. Vocês riram quando ela imitou Ingrid, a professora de que disciplina mesmo? Ingrid era formal e rebuscada, mas simpática, engraçada. 19
  17. 17. Márcia imitou Ingrid: “esta música (Nina Simone tocava You’ll never walk alone) não é maravilhosa, não mistura melancolia e exaltação à vida? E esta variação? Não vai da resignação a uma impulsividade contagiante? Vocês não acham?” Márcia arregalou os olhos com a solenidade divertida de Ingrid e continuou: “a vida é coerente e contraditória, triste e alegre. Cada dia, uma pequena vida e uma pequena morte. Será que todo encantamento é fugaz?” Vocês riram mais um pouco. Ingrid tendia para uma visão intelectual sobre pessoas, músicas, filmes, mas era sempre ótima companhia. Com o zoom da câmera, você ampliou o olho direito de Márcia. Ela ficou séria, de repente. Naquela tarde, visitou Guto no hospital. – Ele piorou – o olho gigante, triste e bonito de Márcia de repente ficou úmido na tela minúscula. Todo encantamento é fugaz? A pergunta ressurgia com as lembranças das caminhadas, cinemas, bares, corpos suados e os perfumes de Márcia – surpreendentes, discretos – entranhados nos travesseiros. – Estou quase pronta – Marília fala do quarto. Na estória que me conto, há a cena recorrente da despedida no aeroporto. Foi um longo abraço, seguido de beijos aflitos e tristes. Havia muita gente naquele horário, além da mãe de Márcia, sufocando-a com solicitudes e os pequenos pacotes de última hora. Até que só restaram as palavras, que você não disse como queria, guardadas com o gosto do último beijo. A mímica tola através das paredes de vidro. Até que o avião finalmente desapareceu, num minúsculo ponto escuro, engolido por um céu terrivelmente azul. 20
  18. 18. Um ano fora. As primeiras cartas de Márcia misturavam entusiasmos e pequenas depressões. Não era difícil imaginá-la relendo inúmeras vezes as cartas que você escrevia – você, uma pessoa subitamente transformada no correspondente involuntário de um mundo que ficou para trás, incrustado numa dobra de tempo em que nada parecia acontecer. Não era difícil imaginá-la, sem conter as lágrimas, esquecida dos textos, os muitos e muitos textos e livros que precisava estudar. Até que os dias foram se acumulando em semanas e, aos poucos, se empilharam em meses. O trabalho intenso e a convivência com os colegas envolveram Márcia e o desânimo desapareceu. Ela descrevia pessoas como Lars, o sueco, que às vezes incorporava personagens dos livros que lia (o que só perceberam depois). Lars só dormia depois de ler algum texto de Cortázar. Lia dezenas de vezes os mesmos livros. Não se cansava? Lars sorria, condescendente: – O leitor nunca é o mesmo – dizia. Irônico, distante, espirituoso, com opiniões definitivas sobre qualquer assunto. – Estou pronta, vamos? – Marília reaparece na sala. – Só vou terminar o disco, o cigarro. Não consigo me desgrudar do movimento silencioso e elegante da silhueta na janela. Era inevitável que o interesse de Márcia pelas cartas diminuísse. Só restava incentivá-la, quando ela se culpava por não responder com a mesma freqüência. Foi assim por três meses. Até que houve uma rápida menção “às longas cartas que se tornaram uma espécie de obrigação”. Uma brincadeira, você pensou na hora. Mas aquilo ficou feito espinho escondido na palma da mão – o desconforto irradiado para lugares incertos do seu corpo. 21
  19. 19. Semanas depois, ela insinuou que “as cartas se tornaram repetitivas”. Referência sutil? Referência que ampliava muito suas dúvidas. E, naqueles momentos, mais do que nunca, a distância e a dúvida se transformavam em lentes tortuosas, acentuavam detalhes insignificantes, abriam a alma para a inquietação e o tormento. Até que ela se tornou reticente. E passou a sinalizar que ficaria mais. Quanto tempo mais? Márcia não sabia. Lá embaixo, a rua sórdida. A ambulância espalha uma ciranda de luzes azuis e vermelhas nas caras dos curiosos ao redor. Dois homens recolhem o morto. O néon encardido e quebrado do bar pisca vacilante: Night Fever Bar. Os mendigos, alheios ao movimento, se enrolam em jornais e trapos na porta da joalheria ao lado. – Se não quiser sair, tudo bem. – Marília diz. – Só terminar o disco. – O disco está repetindo a mesma parte faz um tempão. – Vou mandar consertar. A silhueta se movimentou um pouco. Está de perfil, agora. Com o tempo, sem perceber, você foi se transformando numa sombra inerte na janela, no décimo andar de um edifício caindo aos pedaços. Uma sombra com receio de olhar para trás, para dentro do apartamento. Com receio de encontrar as lembranças de uma pessoa que se foi. Reencontrar o mesmo silêncio de Márcia que, depois de algum tempo, virou a marca do seu distanciamento e apatia. Distanciamento que aparecia ainda mais quando lembrava da imagem de Márcia, na sua postura de gata arisca enrodilhada na poltrona amarela. 22
  20. 20. Você se transformou numa sombra com receio de olhar para trás e encontrar a imagem de uma outra pessoa muito parecida com Márcia? Não adiantou você falar em vender o carro, conseguir uma licença ou demitir-se da editora, Márcia não demonstrou entusiasmo quando você disse que gostaria de ir junto. Então, no tortuoso aprendizado para aliviar a tristeza, quantas vezes você se imaginou caminhando por ruas estranhas, o sol frio do entardecer refletido nos óculos escuros, enquanto Márcia se entregava às leituras que remetiam a leituras sem fim? Quantas vezes se imaginou apenas acompanhante circunstancial de uma viagem e aventura que jamais seriam suas? Quantas vezes anteviu o desinteresse crescente que sentiria pelas conversas nas mesas dos bares? Era muito fácil imaginar-se desconfortável na cadeira, assistindo as discussões alegres e verborrágicas, contagiadas por uma deliciosa impetuosidade ainda meio adolescente, que você perdeu talvez cedo demais. Especificidades aborrecidas, você se diria, sentindo seu envelhecimento e sedentarismo, precocemente instalados. E Márcia cada vez mais distante, também ela entendendo o erro. Em nenhuma das cartas para Márcia você se referiu a Helena. Bonita, Helena. Até perceber a empolgação dela pelas histórias frívolas da editora, quando se desfez o esboço de encanto, o breve fascínio da primeira impressão. Linda, Helena. Mas eram simples olhos redondos e vazios. Em nenhuma das cartas se referiu a Marília, a que gesticulava demais. Havia qualquer coisa que lhe agradava na voz, no cabelo de Marília. Numa das noites em que se sentiu mais desconfortável, sem saber por que, pediu que ela sentasse na poltrona amarela. 23
  21. 21. – Assim, com a luz deste lado – disse para ela. Feito aura, espectro, para sua surpresa, Marília se transformou no perfil esmaecido de Márcia. Tão parecida que você compreendeu, naquela noite também marcada por outra morte na avenida lá embaixo. Marília era tão distantemente parecida com Márcia que você compreendeu, sentindo pena de si mesmo: não havia luz adequada, nem ângulo possível – apenas um jogo interminável e sinistro. A memória às vezes é também uma lente tortuosa, acentua detalhes insignificantes, acorda energias adormecidas, abre a alma para a inquietação e o desejo. Sinto as pernas dormentes. Há quanto tempo estou nesta janela? Levo o cigarro à boca e depois ao cinzeiro no parapeito, onde desaparece a brasa vermelha. – Você voltou a fumar? – Marília me abraça. – Este foi o último, espero. Uma vez mostrei a silhueta para Marília, mas para ela não havia o gesto, e não havendo o gesto não haveria as outras coisas que podem surgir quando se observa uma sombra, quase todos os dias, e com quem se pode adquirir certa familiaridade, mesmo à distância. Não haveria as estórias que me conto, assim, sem querer, assim – por nada. – Se você não quiser sair tudo bem! – Marília fica impaciente. – Não, vamos. Acho que o disco acabou. 24
  22. 22. Reprise Não era uma personagem de ninguém, embora às vezes, mais por comodismo ou para não se sentir desamparado como obra de autor anônimo, quisesse achar que sim. CAIO FERNANDO ABREU, Aconteceu na Praça XV Como pode um homem suportar certas coisas? Um homem como Anselmo, gerente de loja. Uma pequena loja, é bem certo, mas um homem como Anselmo, cheio de compromissos. Como pode um homem chegar em casa e encontrar a mulher em silêncio, com o olhar perdido no tapete da sala? – A TV quebrou – ela diz – Foi agora há pouco. A imagem foi sumindo. Até que só ficou um pontinho. Tão cansado ele está, teve um dia difícil. Hoje seria a partida de futebol, depois aquela reprise do Último Imperador. A mulher continua ali, inerte. – Não me diga que esperava por isto? – Anselmo suspira. – Eu não disse nada. – Você sempre pensa coisas deste tipo. Anselmo se irrita com ela. Apanha um cigarro no casaco. Imagina que ela deve estar pensando nos filhos que não tiveram. – Não me fale em crianças. – Não falei. Ela vai para o quarto. 25
  23. 23. Anselmo fica mais irritado. Abre a boca para se lamentar e percebe-se ridículo. Fica uma fração de segundo ali, o gesto interrompido, a boca entreaberta para ninguém. Como pode um homem suportar certas coisas? Anselmo se pergunta, enquanto pega uma garrafa de conhaque. Anselmo não está bem. Sente um vazio no estômago. Lembra que nem almoçou direito. Mas não tem fome. Abre a geladeira mesmo assim. E vê seu rosto, mais ou menos como naquela cena do filme exibido semana passada: focado de dentro da geladeira. Fica algum tempo ali, olhos fechados, sentindo o frio no nariz. Anselmo não está bem. O chão de repente parece se mover. Seu coração parece uma fruta miúda pulando em algum lugar do peito. Sente falta de ar. Anselmo vai cair. Senta-se na mesa. Vê suas mãos crispadas na toalha de plástico amarela. Tenta gritar. A voz escorre pelo canto da boca. O que ouve não é mais que um estertor. E começa a cair. O chão parece estar longe. Estica os braços e se debate com o súbito espaço. Sente que a cabeça vai bater primeiro. O som denso, o rápido gemido, o sangue escorrendo lentamente pelos vincos dos ladrilhos, um movimento rápido nos dedos, antes que os olhos fixassem em definitivo o outro lado, a cena final de um corpo inerte e a poça vermelha ao lado da cabeça. Não este filme, não. É demais para Anselmo. E então lhe ocorre a cena de outro filme, em que a mulher está encolhida em seu quarto. O homem abre a porta com delicadeza e se aproxima dela. A mulher se encolhe. Ele passa a mão sobre sua cabeça. Fala com uma voz tranqüila, que ela não sabia que ele tinha. 26
  24. 24. – Como foi o dia hoje? Pelo que Anselmo lembrava, ela devia sorrir amistosa. Ela treme. Então ele lembra de outro filme em que uma menina estava numa situação parecida. A mulher se acalma. Entende que Anselmo está numa cena boa agora. Neste filme, ela pode conversar com ele, neste filme ela sabe que Anselmo é outra pessoa, um homem capaz de suportar certas coisas. Isso tudo é o que dirá se a mulher sair do quarto, se conseguir mexer com a mão e bater na porta da geladeira. Isso é o que dirá para a mulher, se sair dali. Mas tudo o que consegue é fixar os olhos no filete vermelho que escorre quase em câmera lenta pelas juntas dos ladrilhos gastos da cozinha, na formiga que hesita um segundo antes de mudar a sua trajetória. 27
  25. 25. Salto no pensaba en nada, nada más y caí que al fin esto es un juego todo empieza siempre una vez más y a rodar, y a rodar mi vida, y a rodar, y a rodar mi amor FITO PAEZ, A Rodar Mi Vida – Qual lugar você prefere? Bia não ouve. Estão muito perto das caixas de som. Passam entre velhos pôsteres de cinema – Rita Hayworth, em Gilda, despe lânguida a luva preta. Mastroianni parece assistir à cena atônito, por trás das grades na Cidade das Mulheres, preso na imagem da parede oposta. O chapéu de Bia mal esconde o cabelo desgrenhado. Bia sorri para a cantora, que faz um cover razoável de Elis: as aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam. Escolhem uma mesa perto do palco. – Saudades da Elis. – O quê? – Saudades da Elis – fala perto do rosto de André, que sente o hálito de uísque. Tiram os casacos. Um garçom aparece. – Vou continuar no uísque. – Continuar? – Bebi um ou dois em casa, pra esquentar. – Um chope, por favor. 28
  26. 26. Pouco depois, os músicos fazem um intervalo. – O baterista parece o Tavinho. – Bia diz. – Não sei quem é. – Da minha antiga banda de rock. – Ah. – O cara engordou. Os músicos passam perto da mesa. Bia faz um sinal de aprovação para a cantora. – Como foi o trabalho? – André pergunta. – O de sempre. – Você parecia animada. – Estava me enganando. – Pelo menos o lugar era agradável. – Trabalhamos muito além do horário. Estou um caco. – Agora você vai descansar. – Eu sempre penso isso. – E como foi? – Diferente mesmo, só o jantar de confraternização. A namorada-não-sei-de-quem sentou do meu lado. Bebeu pra caramba. Papo sem pé nem cabeça. De repente, apertou meu braço, e meio vesga tascou: você também não tá feliz, né? O garçom serve as bebidas. – Obrigado. – Imagine a minha cara! Uma bêbada farejando minha suposta infelicidade no meio daquele povo todo. Em outra época seria só uma piada de bêbada. André segura as mãos de Bia. Percebe o anel de prata novo, com pequenos símbolos que não reconhece. – Mãos frias – André diz. Bia toma mais um gole de uísque. Os olhos se contraem. – O que querem dizer? 29
  27. 27. – O quê? – No anel. – A divindade que há em mim, saúda a divindade que há em ti, algo assim. – Bonito. Ao lado de Bia, um pôster de Ingrid Bergman e Humphrey Bogard, frente a frente, na cena final de Casablanca, a troca de olhares resignados e tristes. – E você, como foram essas semanas? – O de sempre – André faz um sorriso torto. – E as caminhadas? – Poucas. – E o colesterol? – Comecei com os remédios. – Lembra da Scarlet, que conhecemos em Salvador? – Sim. – Publicou um livro, por conta própria. Adivinha o nome? – Como fazer festa uma semana sem dormir. – Não. A última e a primeira noite. Recebi um exemplar pelo correio. Era um blog que virou livro. Tem umas histórias engraçadas e outras que pegam assim, de repente. A mão de Bia estremece. – Numa das histórias, reencontrou uma prima pela internet, que a convidou para um almoço. Aceitou o convite para experimentar uma tal especialidade da prima. Quando o almoço foi servido, Scarlet embestou que a especialidade tinha cheiro de carne de fígado, seu prato intragável número um. – Meu também. 30
  28. 28. – Lembrei de você. Numa outra situação, Scarlet teria se desculpado. Mas a prima estava tão contente com a visita. Parecia uma mulher resgatada de uma ilha deserta. Quando Scarlet viu, aquele negócio fumegante estava no prato. A salvação veio quando tocou o telefone. A prima pediu licença e foi atender em outra parte da casa. Scarlet percebeu que a janela dava para a rua. Pegou a tal especialidade, enrolou num guardanapo e vupt! Colocou mais salada no prato. A prima voltou cheia de desculpas e fez um comentário. Scarlet achou que devia ser engraçado. Caiu numa gargalhada incontrolável. Não conseguia parar. A outra não entendeu nada. Bia dá uma risada. Engasga, tosse. Respira fundo. Bebe mais uísque e percebe que André acompanha com apreensão o movimento do copo até a boca. Bia chama o garçom. Pede mais um uísque. André força um sorriso. Bia enxuga os olhos com um guardanapo. – Por que é mesmo que estava contando isso? – Scarlet. – Ah, é. Na verdade, ia contar que Scarlet estava muito mal, com vontade de largar tudo. Os músicos voltam para o palco. – Sentiu saudade? – Senti, Bia. Silêncio. Apenas os sons dissonantes dos músicos afinando os instrumentos. O murmúrio das conversas nas outras mesas. Um silêncio do qual demoram para se libertar. O olhar de Bia torna-se distante. – O que foi, Bia? 31
  29. 29. – Às vezes você não se sente num filme? – Como assim? – A vida como se fosse um filme. – E como é? – Um filme cuja graça às vezes escapa. E o pior: não consigo mudar o enredo, nem o ritmo. Não há como mudar scripts, papéis, joguinhos de cena, premeditados ou não. Às vezes é fácil se manter no papel. E mesmo quando saio do papel, descubro que nada é muito diferente. Como naquela música antiga do Nei Lisboa, lembra: altas maneiras de se chegar, ao mesmo nenhum lugar. – Bia. – Esta cena, por exemplo. Um casal se encontra num bar, depois de semanas sem se ver. Parece que vai acontecer alguma coisa. Mas não vai. Estão cansados um do outro. O que eles fazem? Nada. Não admitem. Não querem admitir. Para quê? Para não sofrer? Isso só aumenta o sofrimento. Faz de conta que não está acontecendo nada. – Bia. – Não querem a dor, têm medo da solidão. E o que encontram? – Bia. – Pensei muito nisso na viagem. Só que foi necessário uma bêbada para dizer o que eu precisava ouvir? – Bia, gosto de você. – Bia, gosto de você. Parece tão automático. – Bia. – Não vê o que está acontecendo? Não vê o que estamos fazendo? Olhe o casal daquela mesa. A cena de outro filme, agora. Um contraponto. Veja os movimentos, o brilho nos olhares, a sedução, mensagens subliminares, sorrisos lindos. 32
  30. 30. A cantora recomeça com Dos Gardênias para ti, agora um cover da Maria Rita. – Quero é dançar – Bia diz. – Só se formos a outro lugar. – Não, aqui mesmo. – Aqui não dá pra dançar. – Claro que dá. – Não tem lugar. – Olha aquele palco lá! – Lá não dá, Bia. – Sempre quis dançar num palco. Não exatamente como este. Coisa melhor, mas quebra o galho. André sente o perigo rondando, como um pequeno demônio subitamente desperto. – Não é o palco que sempre quis. Bia levanta. André tenta segurá-la. Ela escapa. Um segurança a espreita. Fareja a situação à distância. Bia sobe no palco e começa a dançar. Os músicos se surpreendem. Mas a aceitam, quando percebem as palmas tímidas que a acompanham da platéia. Ela toma um grande gole do uísque do baterista, que entra no clima e começa a marcar uma batida mais surda, imitando tambores. Alguns assovios e as mãos de Bia deslizam pelo peito. Joga o chapéu para a platéia. O cabelo esvoaça. As mãos escorregam até as pernas, puxam um pouco o vestido. As palmas se entusiasmam ainda mais. André receia que ela desabe a qualquer momento. – E vocês? Por que não dançam também? – tenta dizer, mas quase ninguém a escuta. 33
  31. 31. André se aproxima. Pede que desça. Bia o empurra e dá mais alguns rodopios. Sente uma rápida tontura. Vê luzes girando, braços em sua direção que parecem de náufragos ansiosos. – Alguém pode salvá-los do vazio? Da falta de amor e de tesão, da vida pesada que vocês levam? – Bia tenta gritar. As luzes giram mais depressa. Criam uma maré de ondas que se movimentam em grandes arcos, em véus luminosos que se enlaçam ao corpo de Bia e a enchem de energia. De repente, sente que irradia a luz que poderia ressuscitálos. Tenta dizer qualquer coisa, mas a língua mal se move. Até que as luzes vão ficando mais lentas. O som das palmas e os olhares radiantes se distanciam. E tudo vai tranqüilamente girando, girando com toda tranqüilidade, como se fossem planetas na órbita de uma estrela. Fica solta, como quem flutua – asa-delta esquecida no céu, alheia às trajetórias do espaço. E cai. André a segura com dificuldade. Recebe ajuda de outra pessoa. Bia abre um pouco os olhos. – Viu como eles aplaudiram? – o olhar de Bia é desfocado e terno. – Vi, Bia. – Como gostaram da dança? – Você tomou algum remédio? – Tomei. – Qual? – Uísque. André a carrega até o carro. – Ressuscitei você com minha luz. 34
  32. 32. – Vamos pra casa. – Não é mais um morto-vivo. – Você vai ficar bem. – Descobriu seu próprio brilho. – – Não consegue disfarçar o amor por mim. – – Sabe de uma coisa, André? Este nome nunca combinou com você. Não sei por quê. – Você precisa descansar. – Sabe de uma coisa, André? A tal mulher que disse que eu era infeliz. – – Era eu. – Como assim? – Encarnei que estava infeliz. Inventei a tal bêbada pra ver sua reação. – – Sabe a Scarlet? – Que que tem? – Também sou eu. – Você precisa descansar. – Já viu os planetas? – Que planetas? – Os planetas, as estrelas. – Que que tem? – Você é o maior dos planetas, André. – O quê? – O maior dos planetas. – Ok. – O maior dos planetas. 35
  33. 33. – Ok, Bia. – O maior dos planetas na órbita da estrela. – Que estrela? – Eu, porra! – Sim, Bia, você é minha estrela. André abre a porta do carro. Tem dificuldade para acomodá-la no banco. Antes de dar a partida, olha para o rosto meio desmaiado de Bia. E uma vez mais se surpreende com sua beleza. A beleza no formato da boca, nas coisas adoráveis e malucas que dizia, nos lábios entreabertos e agora relaxados que, aos poucos, parecem mergulhar no sono mais profundo. 36
  34. 34. O silêncio das estrelas Somos, todos nós, criaturas das estrelas e das suas forças, elas nos fazem, nós as fazemos DÓRIS LESSING, Shikasta Trouxe um presente pra você. Esta flor que achei lá no canto do muro. Não é bonito o amarelo? Vou colocar aqui na sua cabeceira. Pronto. Assim ficou bom. Hoje de manhã, quando a campainha tocou para o passeio, pensei: logo você também vai junto. Quando você ficar boa... Repito sempre isto, não é, Alice? Quando você ficar boa, vamos passear juntos. A cidade mudou tanto desde a última vez, que você nem imagina. Tem um edifício todo espelhado aqui perto. A gente olha e parece que não tem edifício nenhum. Só o céu e as outras coisas em volta refletidas. O edifício é igual a um que aparecia na TV, antes do China estourar com ela. Daí, quando chegamos perto, sabe o que a gente viu? Nós mesmos. Foi meio estranho, aquela gente toda se olhando no espelho, como se nunca tivessem se visto. Fizeram também uma confeitaria. Enorme. A vitrine é colorida e iluminada, cheia de bolos e tortas, como nas revistas. Até guardei esta página da revista, que a Martinha 37
  35. 35. ganhou, só pra te mostrar. Tá vendo? Uma torta parecida com esta: vermelha, assim. Sei o que você está pensando. Não quer saber de edifício coisa nenhuma, só quer é sair daqui. Eu sei, Alice. Eu sei. Mas pra sair, temos que melhorar. Quer que eu leia pra você? Em que parte paramos mesmo? Aqui. Descemos do carro. Caminhamos até um lugar de onde se vê o horizonte. Busco apoio em seu abraço. Você sorri com a expressão de quem se entrega à breve vertigem do ar puro e do pôr-do-sol. Seu cabelo cheira a ervas. Anoitece. O frio nos aproxima da fogueira. A lenha úmida estala em faíscas aflitas. Você me embala num movimento quase imperceptível. O movimento silencioso de um rito, cerimônia de passagem. As estrelas começam a aparecer, cada vez mais nítidas, sobre nossas cabeças. Tão nítidas e absurdas quanto as estrelas de um planetário que visitamos. – São de verdade – você diz, conversando com meu pensamento – E parecem maiores e mais próximas a cada minuto. Sim, às vezes você conversa com meus pensamentos, como se pudesse ouvi-los e responde a eles da maneira mais natural possível. As estrelas pulsam devagar, maiores e mais próximas a cada instante, como se pudessem ser provocadas por nossos olhares hipnotizados. Você gostou Alice? Foi essa parte que o Fernando leu ontem. Alguns não ouviram, como sempre. Ele não liga. Fernando gosta mesmo é de escrever e de ler, quando está disposto, pra mim, pro Edinho e pra Cida. 38
  36. 36. O que você achou da parte em que ela adivinha o pensamento dele? Pensei nas vezes em que também adivinho seus pensamentos, nas palavras que você parece me dizer, em como seria bom ouvir você de novo. Às vezes me confundo um pouco. Não sei se as palavras vieram da minha cabeça ou de você. Não tem importância. Talvez você não perceba, mas agora posso ouvir você dizer que sim, que, apesar de tudo, está contente por eu estar aqui. Hoje está meio nublado, mas não deve chover, como na semana passada. Lembra que não teve passeio? Tem gente que não se importa, pra eles tanto faz estar aqui ou lá fora. O Heitor, naquele dia, ficou olhando as árvores pela janela e, pela cara dele, vi que ia ter aquilo de novo. Disse que as folhas estavam paradas no ar, que tudo estava parando. Começou a gritar. – Tudo parou, tudo parou! O tempo, meu coração, tudo! Depois ficou horas no corredor, feito estátua. Levou muitos dias pra melhorar. Ele não mostra, mas a gente sabe como fica contente quando pode sair, dá pra ver nos olhos dele: é como se sorrissem um pouco. Deixa ver o que mais anotei no caderno. Já contei que só escrevo escondido do Ivan? Ele inventou que construiu um muro enorme em volta do hospital. E acha que o muro nunca está alto o bastante. Vive repetindo que vai colocar mais uma fileira de tijolos, arame farpado, concreto, aquela conversa maluca. Quer a nossa proteção, o doido. – Diga que o muro é bem alto! – Pede pra quase todo mundo que repita o que disse. Quando alguém repete, começa a gritar. 39
  37. 37. – Não disse, não disse! O muro é bem alto, mas o céu é aberto! – Ele mesmo responde. Caminha agitado pelos corredores. Grita. Berra pras paredes. – Quem voa vai onde quer, os passarinhos entram aqui quando querem. Vou fazer uma cobertura de concreto! Ivan não pode me ver anotando nada. Sábado passado, perguntou o que eu estava fazendo. – Gosto de escrever antes de dormir, respondi. Minha memória anda fraca e, depois, quando sair daqui, vou lembrar das coisas boas que vivi. – Tua memória é fraca porque tu engole as porcarias que te dão, cara! Ivan pensa que tomo os comprimidos. – Muita gente não vê o que a vida tem de bom. – E o que é que a vida tem de bom? – disse pra me provocar. – As coisas que o Fernando escreve e lê, por exemplo. As pessoas que têm esperança, as pessoas que querem melhorar, aproveitar a vida, sair daqui, como eu e Alice. Deu uma gargalhada e não gostei. Contei da vez que arrebentei a cabeça do Saulo com um cabo de vassoura, quando roubou meu caderno. Ivan nem deu bola. Deu outra gargalhada, debochou de mim. – Tu ainda acha que vai sair daqui? Ninguém vai te tirar daqui, nunca! E aquela tua Alice... Quando falou aquilo não agüentei. Agarrei o pescoço do Ivan. Levei um soco, mas bati também. Depois nos amarraram e fiquei esses dias sem aparecer. Me perdoe, Alice. Sabe o que o Dr. Marcelo me disse outro dia? – antes da briga, claro – disse que logo eu teria alta. Fiquei anima- 40
  38. 38. do, mas depois fiquei triste. Falei que só saio quando você melhorar. Você não acredita, não é? Contei pra ele que vejo sempre um jeito diferente nos seus olhos. Como agora. Você parece gostar do que digo, parece feliz. Não é por nada não, mas é muito bonita esta flor. É bonito e vivo o amarelo. Quando achei esta flor, pensei: gosto-muito-da-Alice-muito-mais-do-que-tudo-neste-mundo. Ouviu, Alice? Todos os dias, vou falar isto pra você. Mesmo que você não escute, que ninguém mais acredite que você vai melhorar. Eu acredito! Está escurecendo. Fernando vai começar outra leitura daqui a pouco. Tenho que levar o caderno de volta. Você gostou da parte que li antes? Vou ler de novo. Meio tonto, me apóio no seu abraço. Posso cair, digo. Você sorri, entregue também à breve vertigem – seu corpo balança e parece inspirar-se nas chamas em volta da lenha, que estala em faíscas azuis e vermelhas. Você me mostra as estrelas que pulsam devagar, maiores e mais próximas a cada instante, talvez atraídas por nossos olhares alucinados. Lembrei do que sentia quando era menino e olhava as estrelas. Tinha a impressão de que alguém nos observava lá de cima. E esse alguém, lá desse lugar, também nos via num ponto brilhante do céu. Sempre gostei de pensar que vivemos numa das estrelas do céu. São muitas, infinitas, mas uma é nossa. Não importa que não seja estrela, que seja um planeta ou qualquer outra coisa. Importa é que vivemos num dos pontos brilhantes do céu. Alguns não sabem, nunca 41
  39. 39. vão saber. Para eles, a vida será sempre a mesma. Não sabem disso, nem das outras pessoas e coisas que estão ao seu redor. Eles se isolaram, sem saber, e não conseguem ver as estrelas que vivem por perto. Eu tenho você e eu vejo, Alice. Você é a estrela que precisou descansar um pouco. Mas logo sua luz voltará. Tenho certeza. E vou estar aqui, esperando, leve o tempo que levar. Não tem importância. Nada tem importância sem você. Preciso ir, agora. Durma bem, meu amor. 42
  40. 40. Flor Ah, a flor do amor tem muitos nomes. GUIMARÃES ROSA, Grande Sertão: Veredas Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa... GERTRUD STEIN O pai lê jornal quando Nina chega em casa. – Como foi o dia na escola? – ele pergunta. – Aprendi uma coisa nova, aprendi a desenhar uma flor. – E rapidamente retira o desenho da pasta. O rosto sorridente do pai se recolhe, contraído, diante do desenho. Inclina um pouco a cabeça – fica um instante em silêncio. Aperta os olhos, mordisca o lábio superior. Depois pede o lápis. Faz outra flor – linhas firmes, rápidas – ao lado da primeira. – Tente igual a esta. Nina emudece. Junta as coisas e vai para seu quarto. O pai retoma o caderno de economia. Nina rabisca durante horas. O lápis enorme, na mão ainda gorducha e branca. Os farelos da borracha se acumulam mais e mais ao redor do papel. No final do dia, apesar do cansaço, os traços são ainda mais nervosos. A mão está dolorida. Até que, exausta, leva os desenhos para o pai. 43
  41. 41. Ele interrompe a leitura da revista com a foto de um homem gordo e sorridente na capa. Examina as duas flores. Sorri. Mais pelo esforço da filha, pois os desenhos continuam bem diferentes. No silêncio interminável do sorriso, Nina ouve as palavras caladas do pai. Naquele momento, sente, de modo assustador, o quanto espera dela. E Nina continua desenhando, em segredo, pelos anos seguintes. Produz muitos desenhos, milhares de flores quase idênticas às do pai. Não é mais menina quando, numa tarde fria de agosto, descobre com indiferença: conseguiu, afinal, uma cópia perfeita, um desenho idêntico ao dele. Sempre pensou que ficaria contente. Mas, para sua surpresa, não fica. Não importa mais. De repente, uma luz fria sobe por seu corpo, revela o desconforto aprisionado num canto escuro do peito. Não importa mais. O pai está morto. Morreu na sala, há alguns meses. Óculos atravessados no rosto, olhos abertos em direção ao jornal desfolhado. Um braço estendido na lateral da poltrona – pêndulo de um relógio parado. Aliviada, pode enfim dormir. Sonha. – As borboletas voltaram – diz uma voz atrás do seu ombro. – O quê? – seu rosto branco procura a voz. A claridade aperta os olhos. Mesmo assim, vê o sorriso de Vera, sua professora mais bonita. – As borboletas – Vera diz. E faz um gesto largo que descortina o jardim coberto por uma névoa de borboletas. 44
  42. 42. Nina lembra, então, de antigas lições escolares – lições de Vera, mais ou menos assim: – As borboletas são insetos alados que se alimentam de néctar. Além das cores do arco-íris, apresentam qualquer combinação imaginável. Seus ovos são freqüentemente verdes, algumas vezes amarelos, vermelhos ou azuis e têm a superfície recoberta por desenhos peculiares. Podem mudar sete vezes de pele, enquanto lagartas, até a transformação em crisálidas, que pendem das árvores sustentadas por fios de seda. Acorda com uma sede imensa. Vai beber água na cozinha e pensa e sente, talvez pela primeira vez – não pela primeira vez, mas pela primeira vez com tanta intensidade – pensa e sente o quanto foram tristes seus dias. Tosse, sufocada. Olha para os desenhos espalhados por todos os cantos da casa. Eram flores ridículas, quase traçadas a régua, uma única folha presa ao caule, como um peixe descamado, as pétalas são figuras quase geométricas superpostas – quadrados, triângulos, hipotenusas. A imagem de Vera ressurge. – As grandes borboletas tropicais do Novo Mundo chamam-se mórfos. Na sua maioria são azuis – um azul-celestemetálico – ou então irisadas, segundo a posição em que se colocam diante do observador. As ágrias possuem grandes manchas escarlates, vermelho-sangue. A última aparição de Vera não lhe sai da mente. Borboletas. Torna-se obcecada por elas. E começa a pintá-las por todos os cantos. Tenta reproduzir as borboletas que apareceram no jardim luminoso do sonho. Mais alguns anos se passam. Milhares de telas e tintas foram usadas. Não é mais jovem, agora. 45
  43. 43. Desiste das borboletas. Só consegue pintar flores – de uma determinada espécie de flores solitárias – que jamais se destacariam daquilo que, um dia, se convencionou chamar para sempre uma flor. Flores artificiais e sem graça, flores acabadas e mortas. – Mortas! Todas mortas! – geme às vezes para ninguém. Morta – escreve embaixo das telas. Até que começa a pintar no escuro, com medo do controle dos olhos. Medo do que a mão seria capaz de fazer. Não dorme nem se alimenta direito. Lambuza-se com as tintas. Foi numa madrugada como outra qualquer. A mão parece correr solta em meio a tubos de tinta amassados pedaços de telas cavaletes espatifados. A mão começa a correr solta. Tenta não pensar. A respiração acelera, a boca e os lábios ressecam e o sangue pulsa oco surdo quente noaceleradocoração até que tateando no escuro hesita antes de Acende a luz. Abre a boca para um grito. 46
  44. 44. Para um som impossível, para uma voz que há muito se foi. Então vê – feito selo, feito marca eterna – a cópia idêntica à da flor do pai. Vai à garagem. Abre velhas latas com restos de tintas, no depósito. Pinta flores por todos os cantos – nos lugares por onde ele andava, na poltrona em que lia jornal, nas paredes sombrias da casa antiga. Nem morfos, nem ágrias. Jamais um primeiro lírio branco. Apenas flores idênticas. Nada que pudesse destacálas do que se convencionou chamar para sempre uma flor. E com o passar das horas, com a febre que sente ao pintar flores repletas de tinta, com a tinta que jorra por todos os lados, no teto, no chão, com a tinta que joga nas paredes, despreocupada de qualquer coisa que pudesse representar flores, somente depois disso consegue chorar as lágrimas miúdas e grossas do amor torto que lhe dedicou. Dias depois, quando os olhos secam, percebe uma flor diferente entre tantas flores parecidas. Não muito, mas enfim diferente. Outra pessoa talvez nem notasse. Sente-se mal com a roupa imunda. Arrebenta os botões e toca a pele do corpo esquecido. Sua pele – e era tão bom que parecia inacreditável não ter se tocado por anos e anos. Grita e sorri e grita de novo – e reconhece a voz. Acende a fogueira no meio da sala. Fica um longo tempo olhando as chamas amarelas, vermelhas, laranjas e azuis que consomem a poltrona gasta. Uma mulher que passa vê a fumaça. Bate na porta. 47
  45. 45. Nina abre, sem medo. A mulher é muito parecida com ela. Tão parecida que era inevitável o longo abraço. Depois descobrem que não conseguem parar de se olhar, de sorrir. E assim ficam por muitas horas de um tempo que não cabia nos relógios. Se alguém as visse abraçadas daquele modo, na afeição e semelhança, diria que só podiam ser gêmeas. E as gêmeas-para-quem-quisesse (e esta era a última coisa com que se preocupariam, agora) percebem com alegria que, desde aquele momento, não era mais agosto. 48
  46. 46. O doce vermelho das beterrabas Meus dentes estão vermelhos das beterrabas que acabei de comer. Gosto de comê-las todas as manhãs, na hora do café. – Nosso vizinho vai soltar mais um balão negro – meu irmão vem avisar, correndo. Todas as manhãs acontece assim: meu irmão fica observando o vizinho e avisa quando ele solta seus balões. Algumas pessoas estranham, meu irmão adora. Minha irmã está na mesa, comigo. Perdeu o sono. Contou carneirinhos a noite toda. – Carneirinhos? – pergunto, desinteressado. – É. Contei quase trinta mil. – E adormeceu? – Não. Amanheceu. Ela tenta sorrir, o olhar escuro de quem ficou muito tempo acordada. – Eram todos tão brancos – diz, acompanhando uma formiga perdida na toalha da mesa. Mastigo outra beterraba. Mais doce que a anterior. Meu irmão grita outra vez da janela. Nosso pai geme no seu quarto. Ficou assim desde que foi assaltado na rua. Encostaram uma faca no pescoço dele. Não sai da cama faz três dias. Descobriu que pode morrer, imagino. Sempre acompanhou com interesse a morte de familiares e conhecidos. Ou então é a saudade de nossa mãe que bateu de novo. 49
  47. 47. Nossa mãe morou nesta casa. Ela foi embora há quatro anos. Um dia ficou muito nervosa e raspou o cabelo. Não gritou, como disseram os vizinhos maldosos. Apenas raspou os lindos e longos cabelos, que ficaram espalhados pela sala. Lembro de ouvi-la repetir diante do espelho, quase todos os dias: – Preciso dar um jeito no meu cabelo. Um dia desses, ainda dou um jeito no meu cabelo. Sempre dizia isso. A tristeza de ficar sem nossa mãe foi grande. Não entendia por que não quis que a gente fosse com ela. Foi pior do que se tivesse morrido. Meu irmão grita mais alto da janela. Minha irmã corta no meio a formiga perdida na toalha. Agora são dois pedaços perdidos na toalha. Ela ri das metades tentando se reencontrar. – A faca está sem fio – reclama – É de tanto cortar beterrabas – e retoma uma de nossas discussões desanimadas. – São todas cozidas e macias – respondo, mostrando uma parte de meus dentes cobertos de vermelho. É assim que costumo mostrar meu desagrado. Ela muda de assunto. – Alguém precisa tirar a poeira dos olhos abertos de nosso pai. Finjo que não é comigo. Meu irmão faz silêncio, agora. O balão negro subiu, com certeza. Meu irmão descobriu a alegria dos balões. É outra pessoa de uns tempos para cá. Fico feliz por ele. No banheiro, olhando meu cabelo, lembro de nossa mãe. Talvez um dia também dê um jeito no meu cabelo. 50
  48. 48. Mas ainda não chegou a hora. Semeei muitas beterrabas em nosso quintal e a colheita será grande, melhor do que no ano passado. Eu cuido da casa, de meu pai – escondido no quarto –, de minha irmã, que às vezes nos maltrata. Cuido de tudo. Quando todos dormem, às vezes parece que escuto as beterrabas crescendo no escuro. Nestas horas, penso mais do que nunca em nossa mãe, na alegria de meu irmão e em deixar a casa. A cada noite que passa, sinto que está perto o dia em que vou pegar nossas coisas, parte do que resta do nosso dinheiro, acordar meu irmão e lhe contar aquela história, tantas vezes repetida, da viagem para um lugar cheio de balões. Sei que ele vai estar com sono, mas vai segurar a minha mão e me acompanhar. Vou mostrar o bilhete em cima da mesa, escrito para nossa irmã: Agora é sua vez de cuidar do nosso pai e da casa. Não se preocupe, a gente vai ficar bem. A gente vai mandar notícias. Sinto que nossa partida está mais próxima. Talvez hoje. De noite. De noite vai ser mais fácil. 51
  49. 49. Leveza Júlia está sentada na sauna a vapor. Júlia, a mulher enorme, é uma pessoa doce. Tem mãos pequenas, buliçosas. Mãos desajeitadas, que destoam da sua calma habitual. Mãos de criança que parecem agir por conta própria, quando tecem bordados, tapeçarias, pinturas. Mãos que perseguem estranhas e repentinas coceiras em lugares distantes do seu corpo. No ano passado, Dr. Carlos, o médico com cara de menino, pediu-lhe uns exames. Ao receber os resultados, ele comentou: – Os exames não indicaram nada. Vou lhe recomendar uma pessoa – E tirou da gaveta o cartão de uma psicóloga. Todas as quintas-feiras, dez da manhã, Júlia conversa com Débora, a psicóloga dos olhos castanhos e claros. – Posso falar o que quiser? – Pode. – E você não vai se aborrecer? Débora sorri e seu olhar fica ainda mais claro. Algumas semanas depois, Júlia começa a falar de coisas que nunca contou para ninguém – disfarçava seus suspiros pois a mãe lhe dizia que suspiros revelam desejos tristezas ou algo assim se sentia distante da filha sua vida foi perdendo a graça as pessoas a achavam uma pessoa doce apesar de tudo mas sua doçura às vezes se perdia bastava uma distração bastava qualquer coisa que a fizesse pensar no-tempo-de-sua-vida-que-se-foi aprendeu a conviver com isso quando descobriu que as coceiras e as distrações chegavam e desde que não se afligisse muito também passavam. 52
  50. 50. Domingo. Acompanha Cíntia, sua filha, a uma festa de aniversário. Sem disposição. Um parente distante do qual Júlia nem lembrava. A festa é num clube afastado, no meio do mato. O lugar é agradável, com muito verde e um lago com patos e peixes. Foge dos parabéns-a-você e descobre, sem querer, uma sauna. Sempre quis experimentar uma sauna. O moço cheio de brincos informa o preço e depois lhe oferece um roupão e toalhas brancas. Explica o funcionamento da sauna seca e a vapor, os tempos adequados, o chuveiro, as cadeiras com as revistas, os sucos, refrigerantes, cervejas. A sauna é uma bela surpresa, mesmo com o suor intenso. O cheiro de pinho melhora sua respiração, mas também a sufoca um pouco. Podia desaparecer em meio aos vapores. Volta a si com a água fria do chuveiro. Refresca-se com o banho demorado. Após alguns minutos, sente-se estranhamente leve, quase invisível. Sai da sauna. Caminha como outra pessoa, alheia ao desconforto habitual de quem gostaria de ser carregada, poupar-se da complexa articulação de músculos inimagináveis, do quase escândalo de seus movimentos. À noite, Júlia pede ajuda ao genro para levantar-se do sofá. Ele cai por cima dela e ficam abraçados por um breve instante. Ela ri muito. Cíntia e o genro nem tanto. Então, com orgulho misterioso, Júlia pensa na sua enormidade e força incompreensíveis. Até que o riso se esvai. E ela se confunde toda. Não sabe o que significa aquilo. 53
  51. 51. Mais tarde, escondida, bebe o uísque do genro, pela primeira vez. Liga a televisão do seu quarto. Silvio Santos não parece engraçado hoje. Até que dorme, num relaxamento intenso. Pela manhã, para sua surpresa, acorda idêntica. Apenas a cabeça um pouco dolorida, a sede e a aspereza na boca. No sábado seguinte, pede para ir ao clube do qual eram sócios, mas que há muito não freqüentavam. A filha estranha. Júlia não diz nada. Apenas pede: – Me leva?!?! No caminho, em voz baixa, comenta com a filha: – Seria tão bom descansar. A filha, óculos escuros, está concentrada demais no trânsito, no vermelho do semáforo, no homem que ajeita o cabelo no carro parado ao lado, nos dois quilos que engordou no último mês. Quando chegam à portaria do clube, Cíntia descobre que esqueceu a carteirinha da mãe. Vai ao guichê de atendimento para pedir uma carteirinha provisória. Júlia senta-se para esperar no banco ao lado das quadras de tênis. Uma bolinha amarela vem parar nos seus pés. Ela a apanha, sem saber a quem devolver. – Acho que é minha, diz uma menina. Júlia tenta alcançá-la, mas a bolinha lhe escorrega da mão. Apanha-a novamente e mais uma vez a deixa cair. Riem. A menina, raquete na mão, é muito parecida com sua filha quando adolescente. O formato da testa, o nariz. A menina agradece, com simpatia. E Júlia sente uma saudade imensa da época em que a filha tinha a idade da menina. Cíntia demora a voltar. Júlia vai até o guichê de atendimento. Vê que a filha gesticula e discute com o atendente. 54
  52. 52. Quando chega mais perto, Cíntia bate no vidro, nervosa. O atendente chama o segurança. Júlia toca no ombro da filha e depois a segura com firmeza. Cíntia tenta se soltar. Júlia não cede. Seus rostos ficam bem próximos, como há anos não acontecia, como na época em que a filha era criança, como em algumas vezes em que seus olhares se encontraram de verdade. Júlia revê, nos olhos dela, os traços do marido morto. O mesmo medo, a mesma aflição sem causa aparente. Por trás das lágrimas, certa beleza escondida, que só a custo aparecia. E, no abraço, de repente, a natureza enorme de Júlia parece fazer sentido. A enormidade de Júlia parece corresponder ao tamanho de um amor que, enfim, alcança novamente a filha. Um amor guardado que reencontra a mulher com quem Júlia só trocava palavras ásperas nos últimos anos. As mãos de Júlia agora perdem a agitação buliçosa, não são mais desajeitadas, pequenas. As mãos de Júlia agora deslizam pelo cabelo da filha com movimentos suaves, fluidos. Mãos que se acalmaram. Ainda que por um breve momento. 55
  53. 53. Pênalti É claro que vou bater! Que história é essa, agora? A gente não decidiu isso ontem? As torcidas assoviam, vaiam. O juiz grita com os jogadores que avançam pra cima dele, mete a mão no bolso, ameaça tirar um cartão. Enxugo o suor da testa. A manga da camisa rasgou. Sacanagem do Evaldo, pedir pra bater o pênalti no meu lugar. Ele pede pra eu ter calma. É metido a espertinho, desde o início do campeonato não esconde que quer a minha posição. E um babaca da TV vive falando isso. Ontem o babaca falou do meu contrato que vence no mês que vem, deu a entender um joguinho de desinteresse do Grêmio pra não aumentar o meu salário. Fico puto. O goleiro está nervoso, tenta me intimidar. O juiz diz pra ele ficar quieto, senão vai voltar a cobrança. Passo a camisa no lábio inchado por uma cotovelada. O sangue só estancou com muito gelo, mas ficou uma mancha vermelha no azul da camisa. Que droga é essa do Evaldo pedir pra bater de novo? Não estava decidido pelo Nelsinho que eu bateria? Eu sou o artilheiro do time ou não sou? O juiz grita de novo com o goleiro, que continua pulando embaixo da trave. Quando Evaldo me diz vai com calma pela segunda vez, olho bem pra ele – se tu disser isso de novo o pau vai quebrar aqui na frente de todo mundo! 56
  54. 54. Adilson, o capitão, escuta e tira o Evaldo de perto de mim. Evaldo mostra aquela cara de bunda de sempre, mas vai pra trás. O pessoal do banco faz o sinal dos sete minutos pra terminar o jogo. Atrás do gol, um repórter grita no microfone que o placar está 2x2, que o empate dá o título pro Inter. Olho para o lugar onde vou chutar. Lado esquerdo. Lado contrário ao do ano passado, quando errei um pênalti, também decisivo. Sete minutos. Um chute. O campeonato, a tietagem, as fotos nas primeiras páginas, os convites e contratos que vêm depois, o assédio das mulheres. O goleiro leva cartão amarelo. Fecha outro bolo em volta do juiz. Vou acabar contigo, seu goleirinho empetecado! Tá vendo esta bola laranja aqui na sua frente? Ela vai passar perto da tua orelha e tu vai lembrar deste dia pro resto da vida. Alguém grita: Lembra do ano passado! Quase mando ele se foder. O juiz está de costas. Me seguro por causa da TV. Vou acabar logo com vocês. Esperem só um minutinho. Isso, meus amiguinhos fotógrafos, meus amiguinhos câmeras de televisão. Preparem-se. Não vou dar porrada não. Só colocar a bola, ignorar o goleiro. Amanhã vai sair no jornal que bati com calma, despreocupado das provocações. Amanhã a Beth vai chorar outra vez ao ver minhas fotos nas capas dos jornais. O choro de alegria que ela engoliu no ano passado. Eu prometi, não prometi te dar esta alegria hoje, Beth? Pra acabar com as humilhações que você sentiu mais do que eu. 57
  55. 55. Vocês me tiraram sangue, seus desgraçados! Vaias e gritos não me assustam. Depois vocês vão acompanhar a repetição na TV. Que peninha vocês voltando pra casa com as bandeirinhas enroladinhas. Que peninha! O destino de vocês estava traçado e vocês não sabiam. O juiz apita. Olho para a bola. Para o goleiro. Os olhos aflitos dele tentam adivinhar o canto. A língua dele corre rápida por cima dos lábios. Inicio os seis passos até o chute. E, de repente, parece que não sou eu quem está ali, me sinto uma outra pessoa. São outras pernas que comandam o início da rápida corrida, um outro jogador, concentrado no lugar para onde enviar a bola, alheio ao tumulto e à gritaria. Até que sinto a pancada seca da chuteira contra a bola. 58
  56. 56. Lucidez Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer. FERNANDO PESSOA, Tabacaria Antônio, o escritor, sonha com o Anjo da Morte. – Você tem três meses – sentencia o Anjo. – O quê? – espanta-se o escritor. – Três meses. – Mas sou tão jovem! – Eu não diria isso. – Claro que sou! – – Tenho escolha? – Não é bem uma escolha. – O quê, então? – Duas opções. – Quais? – Você pode esquecer que me viu e partir em paz. – E a outra? – Realizar um último desejo, mas com uma condição. – Qual? – Ficará consciente do fim que se aproxima. – Caramba! – – E o que as pessoas escolhem? – A maioria prefere esquecer que me viu. 59
  57. 57. – Normal. – – Como vou confiar em você? – É simples. – Como? – Nunca faltei com ninguém. Antônio acorda suado. Parecia real, o sonho. Duas noites depois. O Anjo reaparece. – E então? – pergunta o Anjo. – Você de novo? – – Três meses é pouco! – Não posso negociar. – É pouco! – – Talvez possamos conversar. – Não. Estou cansado de tentarem me convencer. Sempre dá pano pra manga. Lembra do filme do Bergman, O Sétimo Selo – do desafio para a partida de xadrez? Lembra do conto do Borges, como era o nome? Pra não falar da Sherazade, nas Mil e Uma Noites. – Três meses é pouco. – O que você quer fazer? – Escrevi muitos livros, mas não serei lembrado. – – Quero ser lembrado. – Ah, a posteridade! – É, a posteridade. – Kafka escreveu A Metamorfose em vinte dias. – Não tenho o gênio de Kafka. – Como é mesmo o seu nome? 60
  58. 58. – Antônio. – – Quero escrever um livro para a posteridade. – Antônio acorda assustado. Mais molhado de suor do que no primeiro encontro com o Anjo. É um sonho, sabe. Mas não se convence. Na dúvida, vai para o computador. Seu bloqueio habitual, para sua surpresa, parece menor. Surgem imagens, idéias. Pensamentos que se desdobram em sensações e sentimentos que alimentam outros pensamentos e, de repente, parece entregue a uma sucessão de imagens velozes e instigantes. Rapidamente revê seu crescimento de menino, suas descobertas, a transformação em adulto, alegrias, decepções, encantamentos fugazes, o amor, a compaixão, a crueldade – mundo podre e sublime, cheio de paradoxos, ambigüidades, tudo muito rápido, claro. E tudo, de repente, faz sentido. – Como não percebi isso antes? – pensa em voz alta. Tão simples. Praticamente óbvio. Fica eufórico. Sua própria vida. Sim, ele mesmo. Está tudo ali. Começa a rir. A princípio uma risada amarga. Depois o riso se transforma em gargalhada, os olhos ficam úmidos, rola no chão de tanto rir. Um belo dia, liga o computador e nada acontece. Desespera-se. Fica deprimido por dois dias. Até que se dá conta: mais importantes eram suas descobertas. Se emociona. Chora. Então lembra: o tempo é curto. Cada hora renderia muito, agora. Coloca um relógio sobre a mesa. Mas precisa ser rápido, não tem muito tempo. Escreverá à mão, a partir de agora, como nos velhos tempos. 61
  59. 59. Atravessa madrugadas sem dormir. Escreve sem parar. Bebe litros de café. O fluxo não se interrompe, nem quando a mão está amortecida e o quarto parece oscilar lentamente, de um lado para outro, como um corpo que balança diante das chamas de uma fogueira. Vez ou outra, nas estórias que cria, se depara com o rosto do Anjo da Morte. Ele aparece próximo aos personagens que estão prestes a partir. O Anjo sorri. Antônio desvia o olhar. Mesmo assim, fica paralisado. O lápis suspenso. No final do primeiro mês, o Anjo reaparece no sonho: – E então, como vai o trabalho? – Perdi tudo no computador. – – Estou escrevendo à mão. Na última estória de Antônio, um dos personagens é extremamente cético. É um personagem forte. Antônio se deixa contaminar por suas dúvidas. De que vale passar os últimos dias colocando tinta no papel? De que vale a posteridade, se não estará aqui para ver? Melhor se fosse aproveitar seus últimos momentos. Rever as pessoas, a vida que ainda respira ao seu redor. De que vale aquilo tudo, se está perto do fim? Antônio fica completamente dominado pelo personagem de Vitor. Vitor assumiu o comando e ordena que ele vá até a janela e jogue seus manuscritos. Um a um. Quando joga a última folha de papel, já é noite alta. E a noite, de alguma forma, o faz entrar em contato com a enorme solidão das luzes brilhando opacas lá embaixo. Uma solidão que se estendia como manto silencioso e triste sobre aquela parte da cidade. A noite o faz entrar em contato com sua própria solidão. Quem, afinal, ele poderia encontrar nos 62
  60. 60. seus últimos dias? Não havia ninguém. Uma dor fria o invade e também a certeza de que não sabe viver sem escrever, mesmo nos seus últimos dias. É assim que se sente mais vivo, é assim que retoma o trabalho com avidez, no meio da madrugada. O tempo é ainda mais curto, as imagens e os sentimentos, mais velozes. Lembra passagens de livros queridos, de autores que se associam de modo misterioso ao seu espírito – Clarice, Cortázar. Sente-se ligado a todos, numa espécie de curto-circuito. Sua letra vai ficando cada vez mais ilegível. Na data marcada, o Anjo não aparece. – O Anjo não veio? – ele diz para si mesmo, enquanto contempla a longa barba por fazer, diante da imagem pálida no espelho do banheiro. – Não veio – ele mesmo responde. Antônio está esgotado. Emagreceu muito. Tosse sem parar. Olha para os montes de cadernos ao seu redor. Apanha um: mal consegue ler as frases. Outro: garranchos incompreensíveis. Até perceber que aquilo tudo não tem importância. Mais importante, agora, era atender a porta. Ver aquela mulher com uma folha de papel manuscrita, com uma letra muito parecida com a sua, que lhe pergunta com expressão e um tom de voz que ele nem nos melhores sonhos havia sonhado: – Foi você quem escreveu isto? Ele a convida para entrar. Sente-se como se estivesse para morrer. 63
  61. 61. Mistérios Não nos une o amor, mas o espanto. Será por isso que a amo tanto? JORGE LUIS BORGES Pobre Osvaldinho, foi se apaixonar logo pela Rosana. Osvaldinho trabalha como boy no escritório de um contador sovina. Tem cara de adulto precoce, quase sempre assustada. Usa óculos de armação escura. Rói as unhas, esconde as mãos. O cabelo parece sempre sujo, mesmo quando chega com a cabeça molhada, cheirando a xampu. Tem sopro cardíaco e, por mais que os médicos digam que o tal sopro é benigno, o diagnóstico de prolapso-da-válvula-mitral soou como o prenúncio de uma vida de dificuldades. Fala pouco. Mesmo assim, é fácil gostar dele. Gente boa, o Osvaldinho. Mas, pobre Osvaldinho, foi se apaixonar logo pela Rosana. Bonita, sim, mas esnobe no limite do insuportável. Quando abre a boca, socorro: é o carro luxuoso da família, as viagens para a Europa, Estados Unidos, os amigos importantes. E o pior: fala interrompendo os outros. Ninguém a convida para as festinhas, mas ela sempre aparece. Sábado à noite, Rosana surge na porta do apartamento da Regina. Osvaldinho pula de um canto, como se tivessem ligado um botão nas suas costas. – Oi – ele diz – e sorri. Normalmente não sabe continuar a conversa e sente-se feio quando sorri. 64
  62. 62. – Que frio, meu Deus. Escolhi a roupa errada. Estou me odiando por isso – diz Rosana. – Pegue minha jaqueta – diz Osvaldinho e até esquece o rasgão no forro, o cuidado que tinha para escondê-lo. – Não se incomode, lá dentro melhora – ela resmunga. – Não, pode pegar – ele ficaria encarangado, só para vê-la dentro da jaqueta, tentando imaginar como seria sentir o perfume dela impregnado, depois. – Não se incomode – e exagera na irritação que se permite com ele. Osvaldinho continua solícito, enquanto ela o aluga, como sempre. – Ainda faltam três anos para o vestibular e meu pai já me enche pra fazer Medicina. Detesto sangue. Deus me livre decorar cinqüenta mil nomes de nervos, cinqüenta mil nomes de músculos, abrir cadáveres, acordar de madrugada e tudo mais. – A Rosana está meio nervosa, hoje – ele comenta depois, com Otávio. Os outros se olham. – Ela nunca está bem! – E Zeca não deixa por menos – Duvido que alguém agüente viver com aquela coisa! Os anos passam. Osvaldinho dá duro, muito duro. Sofre, mas consegue o que quer. Osvaldinho hoje é o Dr. Osvaldo. Cardiologista bem sucedido. Aposentado há dois anos. Ainda esbelto, apesar da idade. Rosana não passou no vestibular para Medicina. Tentou por quatro anos. Depois desistiu. E nunca trabalhou. Aquela falando alto lá dentro? É a Rosana. Reclama da faxineira, da passadeira, da cozinheira, de mim. Até os fi65
  63. 63. lhos perdem a paciência. Este aqui deitado na rede? Sou eu: Dr. Osvaldo. Nos fins de semana, gosto de ficar aqui no terraço. Tomo sol, converso com meu filho, Rubens, que nos visita regularmente. Gosto dele, cardiologista como eu. Denise, nossa filha, infelizmente mora no Canadá. Mas acompanho meus netos, de vez em quando, pela internet. Eles fazem caretas para meu rosto no vídeo. Um avô remoto e sorridente, que mora na televisão. Daqui quase sempre avisto os navios que deslizam pelo Guaíba. Agora tenho tempo para pensar em muitas coisas, enquanto leio meus livros preferidos. – Agora posso pensar nos mistérios da vida, Rubens. – Mistérios da vida, pai? – É. – Como assim? – Rubens, me sirva um pouco mais de cerveja, por favor. Ouvimos novamente a voz alta de Rosana. Agora já se parece com um grito. Reclama da poeira na sala. Rubens arregala os olhos, divertido. Os mesmos olhos da mãe. Levantamos os copos para um brinde. Bebemos. – Mistérios, Rubens. Agora que tenho tempo posso pensar mais neles. – Quais mistérios? – Mistérios do coração, por exemplo. 66
  64. 64. Máximo divisor comum – Um pouco de ousadia não faz mal a ninguém. – A sua ousadia é um tanto... – Um tanto o quê? – Você perdeu a noção dos limites. – Que limites, meu bem? – Ora, você sabe. – Falando assim, você parece muito controlada. – Sabe aquela noção do ridículo... – Esqueci que você é cheia de noções. – Só as que podem salvar os amigos. – Você é minha amiga? – Daqui a pouco, nem isso. – Puxa, desculpe, amiga. – Guarde sua ironia. – Tá bem. – Eu não devia ter vindo. – Relaxe, beba um pouco. – Se soubesse que você ficaria assim. – Relaxe. – Mas você quase implorou. – Implorei? – É, deprimido por causa da indicação. – Era importante. – Eu sei. – Sempre sonhei cobrir uma Copa do Mundo. – Você não tem jeito pra fazer lobbizinhos. – Aquele miserável do Garcia! 67
  65. 65. – Fale baixo. – E o Osvaldo, um tremendo puxa-saco! – Sorte sua ter ficado nesta mesa distante. – Que se danem! – Amanhã você vai me ligar, todo meloso. – Não vou não. – Arrependido. – Não vou. – Antes que as coisas piorem, podíamos cair fora. – Preciso cair fora é do jornal. – Ah, o doce martírio. Há quantos anos você fala isso? – Depois me chama de irônico. – Vou embora. – Fique comigo. – Vou, sim. – Por favor! – Tchau. – Eu já te disse muitas vezes, não é? – O quê? – Muitas e muitas vezes. – O quê? – Gosto muito de você, Raquel. – Não disse que ia ficar meloso? – Muito, Raquel. – Você mal consegue falar. – Muito mesmo. – Vou te levar pra casa. – É o seu lado Madre Tereza. – Vai começar de novo? – Me perdoe! – Melhor eu te deixar aqui. 68
  66. 66. – Puxa, Raquel. – Queria ouvir as piadinhas que vão te mandar amanhã. – Você é muito sensível. – Sensível é você. – Conte pra mim da sua análise. – Que patético! – Desculpe. – Vamos? – Já te disse muitas vezes, não é? – Beijinho, tchau. – Você precisa das minhas pequenas loucuras. – E você precisa ir pra casa. – Minhas pequenas loucuras adolescentes. – Vamos, você está caindo. – Preciso de você. – Vamos! – Preciso do seu lado maternal. – Vamos, meu neném. – Ainda quer filhos? – Acabo de ganhar um, agora. – Puxa! – E sou uma péssima mãe. – Não. – Daquelas que abandonam os filhos quando a barra pesa. – Não, não. – Adeus, filhinho. 69
  67. 67. Vidente Amaral e José se reencontram, depois de anos. Foram grandes amigos na escola. Amaral tem aparência jovial. Prosperou na pequena loja herdada do pai. José não, José está um caco. – Dá cá um abraço, José! – Amaral sente a magreza do outro, as roupas gastas – Como vai? – Levando, Amaral, levando. – Você parece triste, homem. – Um pouco, Amaral, um pouco. – O que houve? – Tenho os dias contados, Amaral. – Não diga isso! – É sério, Amaral. – Doença? – Não, não. Consultei uma vidente. – Ah, pra mim isto é tudo bobagem. – Não é. Ela já acertou comigo outras vezes. – O que ela disse? – Onze meses, Amaral. Tenho onze meses. Não passo do Natal. – Não é possível! – É sim, Amaral. Já acertou outras vezes. – Deixe disso, José! – Não ia contar, vi você tão contente. – Que é isso, José! – Não quero que sintam pena de mim. – Pare com isso. 70
  68. 68. – Vivo só. E a situação está difícil, Amaral. – Ora, ora. – Não quero mais aborrecê-lo, Amaral. Me perdoe. – Deixe disso. – Tenho pensado coisas horríveis. – Não diga isso. – Mas também num último gesto. Em ajudar as pessoas que precisam. – Como, José? – Fiz um seguro de vida e a beneficiária era minha mãe – que Deus a tenha –, que faleceu há três meses. – Puxa José, meus sentimentos. – Obrigado Amaral, obrigado. – O que houve com ela? – Velhice, Amaral, era o fim. Agora não tenho mais ninguém. Para não perder tudo o que paguei, quero encontrar uma pessoa de bem para transferir o benefício, que se comprometa a doar pelo menos parte do dinheiro para uma instituição de caridade, caso me aconteça alguma coisa. – Não diga uma coisa dessas, José! – Só que mal tenho dinheiro para pagar o seguro, Amaral. Até para outras despesas às vezes falta. – Não fique assim. Podemos dar um jeito. – Obrigado, Amaral. – Dá cá um abraço. – Você é generoso, Amaral. Não tive coragem de pedir. – O que é isso! – Você poderia ficar com uma parte do seguro, Amaral. – Pare com isso! – Uma pequena parte, digamos. – Fora de questão, José. 71
  69. 69. – Estou muito angustiado. Até o resto de vida será de dificuldades. Você poderia me adiantar uma parte, uma pequena parte que fosse? Dez por cento, talvez vinte? – Não faria isso, José. Não me sentiria bem. – Pense neste seu amigo, Amaral. Por caridade. – Sinto muito. – Veja como eu estou, Amaral. – – – Muito bem, José. Você me parte o coração. As coisas não vão muito bem, mas podemos dar um jeito. – Você é um homem bom, Amaral – José enxugou as lágrimas. – Confio em você, José – e colocou a mão pesada no ombro de José, quando se despediram. Bem mais pesada do que poderia supor – Confio em você, José. Dois dias depois, José pegou o dinheiro e sumiu. Passados onze meses, reaparece. Os negócios de Amaral, que já não iam bem, pioraram – juros altos, excesso de estoques, concorrência cada vez maior, falta de modernização. Amaral está abatido. Nem a proximidade do Natal melhorou a situação. E o que vê José, quando entra porta adentro, eufórico? Vê o que parece ser uma arma sobre a mesa de Amaral, ao lado de uma garrafa de uísque, quase vazia. – Ela se enganou, Amaral, se enganou! Era ontem. Fiquei deitado, esperando. Não aconteceu nada, nada. – Como é que é, José? Fale devagar. – Liguei pra ela hoje. Ela disse que pode ter cometido um erro. Um pequeno erro, Amaral. Me pediu desculpas. – Que erro, José? 72
  70. 70. – Talvez sejam onze anos, Amaral, onze anos! Onze anos! Não é uma maravilha? – É, maravilhoso. – O que há com você, Amaral? – Dívidas, José. Dívidas e mais dívidas. Mas isso não é o pior. – O que foi? – Tereza me deixou. – Nossa, Amaral! – Tereza se foi. A minha morena. A mulher da minha vida. – Da cá um abraço, Amaral. – Um abraço... pois é... – Amaral sente que José está mais gordo. Veste roupas boas. Até perfume usa. – Fiquei feliz ao conversar com a vidente, Amaral. Muito feliz. Mas depois pensei, acho que estou com um problema. – Problema? E José sente que Amaral parece não soltá-lo do abraço. – É, um problema que tem me tirado o sono. Como posso devolver o dinheiro ao meu bom amigo? – É uma boa idéia, José, uma boa idéia. Era também o que eu pensava, agora há pouco. Ainda mais que te adiantei mais que o combinado, não foi? – É o que tenho me perguntado: como devolver, se gastei quase tudo? – Quase tudo? – Amaral olha transtornado. – Você está bem, Amaral? – Estou pensando bobagens, José, bobagens. – Você não está pensando em... – Bobagens, José. 73
  71. 71. – Suicídio? – Não, José, não. – Que bobagens, Amaral? – Não me pergunte, José, não me pergunte. 74
  72. 72. Iceberg O espírito julga, a alma vive. ERNESTO SÁBATO O professor Lopes concluiu o último capítulo do seu romance. Está exultante. Há anos trabalhava no livro. Abre a garrafa de vinho que guarda, também há anos, para este momento. Relê mais uma vez o último parágrafo do capítulo. Não contém as lágrimas. Fica emocionado. Muitas vezes repetiu para os alunos: sentir é mais importante do que entender. Entender o que estava fazendo era também muito importante para a criação. Gostava de citar uma imagem de Bergman para se referir ao processo criativo – primeiro jogava o dardo no escuro, depois tentava descobrir onde acertou. Gostava de pensar nas técnicas narrativas que podem ser usadas para contar uma história. Sim, o leitor deve sentir mais do que entender. Era um deleite para o professor Lopes imaginar a sensação descrita por Hemingway ao omitir o final de seus contos. O essencial não se conta. A essência deve ficar oculta, como a parte submersa de um iceberg. Gostava de imaginar os possíveis sentimentos de Juan Rulfo, ao eliminar páginas e páginas do romance Pedro Páramo. Limpou as explicações e, assim, abriu o romance à imaginação do leitor. 75
  73. 73. Sem falar nos escritores que fazem inúmeras versões de seus trabalhos, até encontrar o tom satisfatório. Abreviam, amplificam. Esta técnica de composição servia apenas para a literatura? Não para o professor Lopes. O professor Lopes acha que pode aplicá-la na vida. Ainda não descobriu como, mas alguma coisa lhe diz que é possível. Pensa nisso, talvez para fugir do martírio do trabalho. O professor Lopes precisa corrigir dezenas de redações escolares. Redações nada boas. Trabalho cansativo. Mas o senso de responsabilidade o impede de ser relapso. Sente dores nas costas. Tenta se distrair com as possíveis aplicações da teoria do iceberg. Pode aplicá-la à vida de seus conhecidos? E para ele mesmo? Hoje, no entanto, está mais inspirado, como se estivesse prestes a descobrir alguma coisa. A conclusão do romance o deixou assim. Uma das primeiras coisas que o intrigavam ao tentar aplicar a teoria do iceberg a si mesmo eram as perguntas. Sua vida era o rascunho de um romance, cuja versão final lhe escapava? Sua vida era um eterno rascunho ou não? E, mesmo como rascunho, certos capítulos eram melhores que outros? Sim, eram. E nos capítulos melhores, alguns parágrafos especiais? Sim, sim. E nestes parágrafos, frases inspiradas, instantes inesquecíveis? Sem dúvida. E nos instantes inesquecíveis, aqueles sublimes, que justificam uma existência? Sim. Um dos instantes mais sublimes chamava-se Helena. Jamais esqueceu Helena. Helena dos olhos amendoados. O que isto tem a ver com o iceberg? Não sabe. Quando chega nesta parte se confunde todo. 76
  74. 74. A teoria não funciona. Às vezes é assim mesmo, o que parecia um momento de iluminação se apaga feito um tímido fósforo. No dia seguinte, o professor Lopes está novamente diante de redações confusas. Haverá alguma razoável? É o que procura. Até que encontra uma redação melhorzinha. Há sentimento nas palavras, calor nas frases. Está em forma de carta. Uma carta de amor! É de uma aluna, que se diz apaixonada por alguém... e este alguém é... um professor. Quem? Quem? Ela não diz quem. E são tantos os professores, muito mais jovens do que ele. Olha o nome da aluna: Helena. Não a mesma Helena, claro. Tenta lembrar do rosto da aluna. Ela senta na primeira fila. Tem olhos bonitos, não tão bonitos como os da primeira Helena. Ela o olhava de um modo estranho, ficava embaraçado. Seria ele? O professor se comove. Se isto fosse parte de uma história, o que deveria ser omitido no final para alçá-la a outra dimensão? Se fosse o personagem de um conto, qual seria seu último gesto ou pensamento elíptico? Não sabe. E o pior era isso. Para sua tristeza, a teoria não funciona de jeito nenhum. Outra redação descreve uma garrafa jogada ao mar, com uma mensagem. A garrafa foi encontrada numa ilha do Atlântico. O que havia na mensagem? E uma garrafa flutuando nas águas salgadas, entregue ao curso das marés, de certa forma se parece com um pequeno iceberg. O professor sente uma dor aguda na coluna. Levanta, estica as costas. Olha para as páginas do último capítulo do 77
  75. 75. seu livro. Sim, havia muitas referências indiretas a Helena. O livro era todo escrito para ela. De certa forma, era como um grande bilhete numa garrafa, que depois seria jogada ao mar. 78
  76. 76. Aniversário Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse. FERNANDO PESSOA, O Guardador de Rebanhos Luíza abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. Vê o rosto sem a moldura familiar do cabelo crespo – agora úmido e sem volume –, sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar. Com os dedos enrugados, sente o contorno da boca e do nariz. Olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro. De repente fica imóvel. Perde o fluxo natural dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O reflexo no espelho revela outra imagem: outra Luíza, encolhida no casaco, dentro do frio da noite anterior, que sai do edifício onde trabalha para o caminho até a parada de ônibus. Vê mendigos enroscados em jornais e trapos, diante de uma joalheria, pessoas ao redor de um corpo no chão com o rosto coberto, a vela acesa, a polícia. Mais adiante sente o cheiro enjoativo de fritura – uma mini-van de cachorroquente. Passa por prostitutas que gritam com o motorista do carro que arranca rápido. Uma outra Luíza, que pára diante da vitrine da loja elegante. Aprecia uma vez mais o blazer de micro-fibra. O 79
  77. 77. preço ainda está fora do orçamento. Mas, quem sabe? Sim, tudo se ajeitava bem nos últimos meses e conseguiu, afinal, algum progresso. Sim, outra Luíza – retoma a caminhada, sente-se segura com o toc-toc dos sapatos na calçada, quer acordar disposta no dia seguinte. Afinal, comemoraria dois aniversários especiais na mesma data: quarenta anos de idade, vinte de trabalho. O duplo ciclo de números redondos, vagamente mágicos e assustadores, que enfim se completavam. O que falaria para os outros? Não escaparia das palavras de agradecimento, do breve discurso ao final da tarde. Falaria certamente do começo, da época em que nem se pensava em computador. Naquele tempo, datilografava os resultados sozinha. Disfarçaria o orgulho? Não, claro que não. No ônibus, deixou que o cobrador ficasse com o troco. Na manhã seguinte, chega animada e ansiosa ao escritório. Dr. Sarmento logo aparece, sorridente, para cumprimentá-la. Os outros percebem do que se trata e fazem o mesmo, mas sem muita animação. Luíza liga para uma confeitaria. Discreta, confirma a encomenda, o horário de entrega dos pedidos: uma torta doce, uma salgada, os salgadinhos, refrigerantes, sucos, cervejas. As três garrafas de vinho, que comprou no supermercado no mês passado, estavam guardadas no armário de aço. Depois tenta entregar-se ao habitual corre-corre do escritório. Vez ou outra olha para o relógio, repentinamente consciente da passagem do dia. Cada vez que o telefone toca, a respiração se interrompe por alguns segundos. – É pra você, Luíza. – Alô! Como vai, Roberto? Ainda não localizaram o malote? Roberto, veja se acompanha isso pessoalmente, por 80
  78. 78. favor. Tem um relatório confidencial naquele malote. Ok! Ok! Obrigada. Um abraço. A novidade vem pouco antes do almoço. Dr. Sarmento aparece na porta da sala e diz, com sorriso cansado que não disfarça a contrariedade: – A Câmara Municipal finalmente aprovou a criação do feriado religioso para amanhã. Não vamos trabalhar. Há semanas aguardavam uma definição. Luíza emudece. Os outros batem palmas, entusiasmados. Almoça inquieta entre vapores e ruídos, enquanto as pessoas parecem mascar a carne e respirar aos sobressaltos. O cheiro do pequeno restaurante causa-lhe indisposição. A cabeça lateja na parte da tarde. Os telefonemas permanecem com os assuntos de sempre. Quando um boy apresenta uma prestação de contas errada, Luíza se descontrola. – Será que você não faz nada certo? – grita. As pessoas olham para ela. Luíza vai ao banheiro. Molha o rosto. Faz exercícios rápidos de relaxamento e algumas mentalizações positivas, que aprendeu no curso do último final de semana. Um pouco depois, chegam as encomendas da confeitaria. Luíza se envolve na preparação da mesa. Derruba refrigerante na tolha e, quando vai enxugá-la, encosta o cotovelo na cobertura da torta. No parabéns-a-você, quando todos batem palmas, ela chora. Muito. Dr. Sarmento a beija. Luíza se confunde com os movimentos dos rostos e os lábios quase se encostam aos dele. Abraçam-se. Sente o perfume masculino com uma intensidade dolorosa. Mesmo sem olhar, sabe que as lágrimas ficaram no rosto dele. 81
  79. 79. Os beijos e abraços se sucedem. Sente vontade de falar o quanto está agradecida. Mas a boca seca não consegue dizer nada. Até que anoitece e todos vão embora, exultantes. – Você está abatida – diz Dr. Sarmento, na saída – Algum problema? – A mãe doente no interior – inventa. – Quer uma dispensa? – Não, obrigada, já está melhorando. Ele se despede e sai. Luíza fica sob as luzes do escritório, entregue a um estranho desconforto. Não sabe o que fazer. Então, como se estivesse distraída, descobre um micro ligado, alguns relatórios que deveriam ficar guardados, pastas trocadas no arquivo. – Como podem ser tão relapsos? Gostava do trabalho, não entendia os outros. Não era uma frustrada. Se fosse, odiaria o escritório, Dr. Sarmento, os colegas. Tinha ambição, é claro, queria uma vida digna, um futuro tranqüilo, não eram poucas as oportunidades? Bastava ver os mendigos e as prostitutas na rua. Era um pouco chata, reconhecia. Mas os chefes não são sempre assim? Bem que tentou aproximar-se das colegas, fazer-se amiga. Contava do sapato barato numa loja do subúrbio, falava dos próximos capítulos da novela das oito. Amenidades, sim, mas procurava sempre melhorar o clima no escritório. Não adiantava. Não gostavam dela. Tornavam-se grosseiros com a intimidade. Uma vez surpreendeu Silvino, um boy de aparência doentia, escarrapachado na mesa dela, imitando-a com voz pastosa. 82
  80. 80. O olhar distraído ainda encontra documentos amassados, vários clipes no chão, umas plantas secas, um quadro torto e empoeirado, que comprou toda animada e foi recebido com indiferença pelos demais. De repente, está arrumando e limpando tudo, varrendo o chão. Não percebe a passagem do tempo. Até que, espantada, descobre no relógio da parede os ponteiros espetados: meia-noite. Fica imóvel no meio da sala, entre 8 armários, 3 arquivos, 9 mesas, 5 telefones, 1 fotocopiadora, 6 micros, 1 mulher, 1 relógio de parede, 3 quadros de parede, 1 máquina de triturar papel. Depois o instante se rompe. Luíza tenta um movimento. Meia-noite e ainda está ali. Corre para a bolsa, apanha as chaves e sai. O barulho oco da porta se fecha na escuridão. Tateia até o botão reluzente do interruptor. Pressiona-o. A luz esbranquiçada, dolorosa, ensaia flashes intensos e indecisos e por fim se despeja no corredor. Chama o elevador. Silêncio. Respira com dificuldade. Sente um pouco de tontura, talvez queda de pressão. Entra no elevador. As portas se fecham. Por que o mal-estar? Não estava tudo arranjado? E as impressões positivas recolhidas nos últimos meses? Sente-se só, confusa, nem forte, nem digna. Por quê? Talvez porque não encontraria ninguém quando chegasse ao apartamento. Não encontraria Augusto, o vendedor de enciclopédias, o que não perdia a chance para um galanteio. Elogios forçados, percebia, elogiava o cabelo de Luíza, o perfume, o colar preferido – o mesmo que se 83
  81. 81. partiu certa vez num motel. Ficaram quase uma hora procurando continhas no carpete com cheiro de mofo. Mesmo assim, elogiava o colar, como se nunca o tivesse visto. Apesar disso, sabia ser carinhoso. Nas entrelinhas das conversas, no entanto, havia os pedidos freqüentes de dinheiro emprestado. Tornou-se esquivo quando ela começou a cobrálo. Até desaparecer, deixando a dívida enorme. Também não encontraria Júlio, de quem comprou a TV de 29 polegadas numa loja do Shopping. Romântico, até ela descobrir que era casado. Tiveram noites de amor ardente. Depois a mulher dele adoeceu, não podia se separar. Meses, assim. Cada vez mais abrutalhado no amor. Já perto do fim, ele virava para o lado e roncava. As meias frouxas nos pés. Acordava assustado, perguntando as horas. – Meu Deus, o churrasco do cunhado. E outras desculpas. Um dia, chorando muito, não deixou mais que ele entrasse. Júlio esmurrou a porta, gritou que voltaria, que a amava. Não voltou. Fazia quase dois anos. Luíza vira o rosto, como se as lembranças fossem uma ofensa. O que está errado? Por que pensa tanto? São apenas bobagens, preocupações inúteis que às vezes atormentam as pessoas. Nada a ver com ela. Nunca se imaginou como a pessoa errada, na história errada, num papel que jamais seria o seu. As portas do elevador se abrem. Não cumprimenta o vigia na portaria – talvez pela primeira vez em vinte anos. A caminhada até o táxi, entre bêbados e prostitutas, parece interminável. 84
  82. 82. Quando chega ao apartamento toma comprimidos para dormir. Acorda tarde. As pálpebras inchadas descobrem olhos que observam o silêncio dos móveis, a parede marcada pela umidade, o fiapo de sol que escapa da cortina e desenha um retalho de luz próximo à cama. Luíza respira o ar abafado e a sensação familiar de estar em casa. Levanta, sonolenta. Gosto amargo na boca. Escova os dentes com força maior que a habitual. Um filete vermelho escorre no canino esquerdo. Entra no chuveiro. A água morna e boa desliza na pele. Depois abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. O rosto surge do outro lado, sem a moldura familiar do cabelo crespo, agora úmido e sem volume, sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar. O rosto. O corpo nu. Os dedos enrugados percorrem o contorno da boca, olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro. Perde o fluxo dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O que vem depois? Continuar ali parada, deixando que o vento gelado que escapa por baixo da porta arrepie a pele. Ou prosseguir com o que normalmente se faz após um banho – enxugar a água que escorre do cabelo e todas as outras coisas. Foi ela quem viveu aquilo? Aquela mulher correndo à procura de táxi, enquanto uma sensação de febre atravessava o corpo? O telefone toca, estridente. Luíza se desprende da imagem no espelho. 85
  83. 83. – Alô? Júlio? Obrigada. É, foi ontem, sim. O dia está lindo? Sei que tem sol, ainda não olhei pra rua. Almoçar? Daqui a uma hora? Sim, Júlio, sim. Sim! Júlio não percebe o súbito tremor e alegria na voz de Luíza, nem o repentino movimento de ar que brota do lugar onde se confundem as primeiras cores e aflições da alma. O som quase inaudível, que talvez pudesse se transformar em palavras. Palavras que, mesmo se Luíza as pronunciasse, Júlio não entenderia – porque assim eram os homens, muitas vezes desatentos. Palavras que, muitos anos antes, Luíza escreveu no seu diário, quando se apaixonou pela primeira vez. Palavras e versos que tentavam descrever sentimentos que viviam num lugar misterioso – o espaço estreito, infinito, incerto que pode existir entre amor e dor, dor e amor. Uma das primeiras rimas, logo nos primeiros versos, que desenhou com letra caprichosa no diário perdido no tempo. 86
  84. 84. Palcos O refletor, situado no fundo do palco, ilumina os cabelos crespos de Anabela, que se transformam em uma névoa azulada ao redor da cabeça. Anabel faz um movimento com a mão direita. O ponto de luz, escondido na palma da mão, produz uma elipse amarela que fica suspensa por um instante no centro da penumbra. Olha para a platéia com expressão de prazer, com a expressão fascinada de quem observa a si mesma num gesto novo. E o olhar, aos poucos, produz um silêncio tenso, que parece projetar uma espécie de imobilidade sobre a platéia. E, com espanto crescente, as pessoas vão ficando coladas às poltronas. Um silêncio tenso que ao estagnar os movimentos vai gerando uma aflição contida no meio das luzes, que variam entre o vermelho e o laranja. Uma dimensão que se transforma num breve e incômodo espaço diante do inusitado. Anabel está com os pés firmes no tablado. Imóvel. As pessoas procuram uma melhor posição nas cadeiras, que rangem no ritmo desencontrado dos movimentos quase involuntários das pernas. Algumas risadas esparsas, quase nervosas, arrastadas pela inércia das gargalhadas anteriores, provocadas pelo palhaço que apareceu antes, o palhaço que fazia tão bem o papel, pela expectativa de alguma graça oculta por trás daquela inesperada aridez cênica. 87

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