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ACAMPAMENTO                                          Tudo a postos                                                        ...
MÚSICAO contacto coma natureza e os«sons orgânicos»são apreciadospelos participantesbrancas e janelas debruadas a azul, ia...
SOCIEDADE            l   BOOM 2000            O dia na Herdade do            Zambujal é passado            em trabalho árd...
SOCIEDADE                                                                                               Os gurus          ...
SOCIEDADE                TRIBO TRANSE                              go», desespera Mark, com um ar cansado.            v   ...
SOCIEDADE                                                                                                           ALUCIN...
SOCIEDADE                                         REFEIÇÃO                                         Ao pé do seu tipi,     ...
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Visão - johnnybgoodpt - a seita do transe

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Artigo da revista Visão sobre "A seita do transe" publicado em Agosto de 2000

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  1. 1. REPORTAGEM NUMA ALDEIA CERCADA PELO FOGO Nº 387 • 10 A 16 DE AGOSTO DE 2000 • 450$00 • €2,25 EXCLUSIVO Em Portugal, um movimento alternativo reúne milhares de jovens em festas musicais ao ar livre. Histórias de LSD, ecstasy e êxtase Nesta edição, o n.º24 WERTHER de GoetheTROCA DE CASAIS NA INTERNET Por apenas + 450$
  2. 2. ACAMPAMENTO Tudo a postos TRIBO para a grande festa transe portuguesa SOCIEDADE Viagem pela cultura de um movimento musical alternativo – que se reúne a partir de amanhã em Pinheiro, Palmela, num festival com gente de todo o globo – o qual reaviva os cultos hippie, crê em ovnis, adopta a simbologia hindu e tem os cogumelos, os ácidos e o ecstasy como drogas de eleiçãoJOÃO DIAS MIGUEL (TEXTO) • ANTÓNIO PEDRO VALENTE (FOTOS)O incêndio de terça-feira, 1 de Agosto, caiu mal. Já se esperava que acontecesse algo assim. Não se tinha, afinal, descontrolado um Concorde a 25 de Julho, dia da Ponte dos Arco-Íris no calen-dário Maia? Pois este era, como bem no-tou António Monteiro, um trancer de ca-belo preto rapado, rabo de cavalo louro euma infinidade de brincos na orelha direi-ta, «o dia do fogo, da morte e das altera-ções electromagnéticas». Ia acontecer des-graça, estava-se mesmo a ver. E aconteceu.«Bad vibes», no fundo. Assim, o festival Boom — um dos maioresfestivais europeus do movimento musical Transe (do inglês Trance) que todos os anos reúne milhares de pessoas perto da localidade de Pinheiro, na Marateca — podia não ter acontecido. A casa típi- ca alentejana que lhe serve de quar- tel-general, com as suas paredes
  3. 3. MÚSICAO contacto coma natureza e os«sons orgânicos»são apreciadospelos participantesbrancas e janelas debruadas a azul, ia arden- de vídeo: a trilogia da Guerra das Estrelas, que montaram ao lado de um sobreiro, ou-do toda. Foi necessário criar um longo cor- o Matrix e o Dark City. Com as revistas vidos concentrados nas gravações de rit-dão humano entre 40 pessoas para trans- dos X-men da Marvel foi o mesmo, nem as mos cardíacos que subliminarmente inun-portar os baldes de água. Por fim, já noite garras titânicas de Wolverine, nem os po- dam as músicas Transe. E saudaram a vin-dentro, evitaram o pior, sem nunca recorre- derosos óculos laser de Cyclops as protege- da do festival que se aproxima.rem aos bombeiros de Águas de Moura. ram do fogo e da água. O saldo foi pesado: o telhado partido, Mas salvou-se o essencial. O enorme pa- Festas da Lua Cheiauma das cinco divisões daquele pequeno no com uma representação dos chakras São arquitectos, jornalistas, jovens, altosmonte da enorme herdade do Zambujal, do tantrismo sobreviveu intocado e a re- quadros da administração pública, técni-propriedade da família Vinhas, destruída. presentação do deus hindu Ganesh esca- cos de imagem, especialistas em gestão dePerderam-se, alagadas, algumas cassetes pou quase milagrosamente às labaredas. sistemas informáticos. Gente de dinheiro As revistas alternativas, como a Mus- que se mistura com hippies, neo-hippies e PEDRO CARVALHO hroom, a Dream Creation e a PLUR travellers, como chamam aos andarilhos E SILVIA (Peace, Unity, Love and Respect), ale- aventureiros. Ele é um dos mãs, inglesas e tibetanas safaram-se, Guardaram influências do rock psicadé- organizadores da ficando apenas ligeiramente amarfa- lico dos anos 70, da música electrónica dos festa na Herdade nhadas. Mas, mais importante, as no- anos 80 e desiludiram-se com a música do Zambujal; ela vas tecnologias como o computador, techno, por ser «demasiado comercial». participa e foi num destes o DAT (Digital Audio Tape), o Mini- Adoptaram uma filosofia que vai buscar encontros que o disc, a impressora e o próprio vídeo fi- muitas das suas raízes ao movimento hip- actual namorado caram incólumes. pie, herdaram-lhes por exemplo toda a ico- a conquistou... Numa das noites seguintes, a quase- nografia hindu. Representações de Shiva, oferecendo-lhe tragédia foi exorcizada da maneira ha- deus que, conta Susana Oliveira, uma uma maçã bitual: os mesmos que apagaram o fo- adepta do movimento, «é azul porque ab- go dançaram, eléctricos, num ritual na sorve todas as drogas do mundo», do seu «floresta», como chamam simbolica- filho, Ganesh, «deus bebé, meio homem mente ao local da planície alentejana meio elefante» e da sua mulher Parvati onde, a partir de amanhã, sexta-feira, não faltam num ambiente transe. 11, estarão montadas cerca de 40 tas- Vestem de forma própria, peculiar: sim- quinhas com comida de todo o ples T-shirts brancas com fractais (imagens mundo. Dançaram noite den- que variam consoante o ângulo de inci- tro, olhos pregados no extra- dência da luz) alternam com largas saias terrestre verde-fluorescente tribais de algodão, camisas largas sem v
  4. 4. SOCIEDADE l BOOM 2000 O dia na Herdade do Zambujal é passado em trabalho árduo, na montagem dos palcos, na pintura das bancas dos restaurantes. Já à noite, o tempo é de festa e de dança, num espectáculo visual que parece montado para favorecer alucinações TRIBO TRANSE v colarinho, calças radicais de costuras fluo- rescentes. O símbolo Om — que, acredi- tam, simboliza o som que deu início a tu- do — está presente nos colares e o moder- no titânio nos piercings. Muitos são adeptos do vegetarianismo, do nudismo, da agrobiologia; outros dedi- cam-se ao yoga, ao tantrismo. Se não acre- ditam em tudo, aceitam quase tudo como parte do movimento. Têm ídolos culturais próprios: «Terence McKenna, pai do LSD, Timothy Leary e, de certa forma, William Burroughs», aponta Artur Silva, 23 anos, crítico de música transe numa pequena re- vista portuguesa. Se se juntam no campo, é porque os an- tigos druídas o faziam; se amam a nature- za, também é porque a sociedade ociden- tal — a Igreja — fechou os olhos aos conhe- cimentos ancestrais sobre plantas e cogu- melos alucinogéneos, retirando assim a possibilidade de entrar em transe, de esta-62 VISÃO 10 de Agosto de 2000
  5. 5. SOCIEDADE Os gurus Foram vidas cheias, passadas a AP/WALT WEIS correr, antes que o tempo se esgo- tasse. E que tornaram William Bur- roughs, Timothy Leary e Terence McKenna em figuras de culto. Quando uma crise cardíaca derru- bou William Burroughs (1914- 1997), muitos se interrogaram so- bre a capacidade de resistência de um homem que, tendo experi- mentado todo o tipo de drogas, vi- veu até aos 83 anos. Fundador, com Jack Kerouac e Allen Gins- berg, do movimento beatnick, desde cedo se revelou incapaz de se adaptar às regras da so- ciedade americana dos anos 50. Pintor, cantor e escritor (autor do Festim Nu) refugiou-se no Texas, cultivando algodão, laranjas e marijua- na. Burroughs mudou depois para o México, fugido à Justiça.Aí, enquanto imitava Guilher- me Tell, matou, de um só tiro, a sua mulher. Para Timothy Leary (1920-1996), o «pai» do LSD, a morte merecia atenção idêntica à vida. Só isso pode explicar a «extravagância» que se permitiu – tornar mediática a sua lenta agonia, difundindo-a em directo no seu site. Professor de Psicologia em Harvard, foi dos primeiros a defender o psicadelismo como terapia, mas as suas experiências foram interrompidas quando os efeitos secundários do LSD começaram a ser l CRENÇA Quartel-General do festival: representação dos Chakras do Tantrismo divulgados e o ácido tornado ilegal. Depois de cumprir pena por consumo e tráfico de drogas, mudou-se para a Califórnia e tornou-se num entusiasta da Internet e da cibercultura.belecer contacto com o mundo espiritual, se está ali a passar é uma batida rítmica Após se ter dedicado ao estudo do shamanis-com as várias dimensões que o hinduísmo distante. Mas numa fool moon party pas- mo e da etnofarmacologia, também Terenceensina coexistirem na Terra. Mas não fe- sa-se muita coisa. Boa e má. McKenna (1946-2000) se rendeu, no final dacham os olhos ao mundo moderno. Ser- vida, aos encantos das novas tecnologias. Gra-vem-se das mais recentes tecnologias para O DNA de Deus duado pela Universidade de Berkeley (Califór-criarem melodias de construção matemáti- Desde há vários meses que na Herdade nia), foi o autor da Teoria da Novidade (umaca. Usam, por exemplo, os mesmos pro- do Zambujal se prepara o Boom. Pedro teoria cíclica da História) e escreveu sobre ogramas de computador utilizados por cen- Carvalho, um dos donos da Good Mood, impacto de certas plantas no humano, nomea-tros de investigação de vida extraterrestre, não vai a casa há oito semanas. «Eu sou o damente True Hallucinations (Alucinações ver-para tentar descobrir uma linguagem alie- criativo, o Diogo é o produtivo», conta Pe- dadeiras), uma narrativa sobre a sua «viagemnígena nos ciclos das nebulosas do espaço, dro, enquanto orienta as pinturas das ban- espiritual» no meio da selva colombiana.um pouco como acontece no filme Con- cas da zona de restaurantes, uma das SARA BELO LUÍStacto, com Jodie Foster. «Estes ciclos são várias zonas em que se vai dividirtransformados em sons e introduzidos na o evento.música. É isso que lhe dá uma atmosfera Diogo Rui, o «produtivo»,‘galáctica’», explica ainda Artur, que está a é o homem que resolve asterminar o último ano de Psicologia. Da coisas — a quem toda amesma forma utilizam gravações reais das gente pergunta o que fa-batidas do coração para obter um ritmo zer antes de o fazer. Ain-«orgânico». da faltava quase uma se- Só dançam no campo, naquilo a que mana para o festival co-chamam fool moon parties (festas da lua meçar e havia já umcheia), longe de tudo e de todos. O máxi- acampamento de dez amo que a aldeia mais próxima ouve do que 15 tendas de gente que vVISÃO 10 de Agosto de 2000
  6. 6. SOCIEDADE TRIBO TRANSE go», desespera Mark, com um ar cansado. v «Andei o dia todo para cá chegar.» viera porque queria ajudar. «Hi, o meu no- Diogo cede, o holandês ficará, primeiro me é Mark, venho de Amesterdão e queria com a promessa de que será só por 24 ho- saber se posso acampar aqui e se precisam ras, depois logo se vê. À noite, Mark janta de mim para alguma coisa», diz um holan- no típi (tenda índia) da Manu (Manuela), dês de 30 anos, largas entradas no cabelo senhora dos seus quarentas e tais, mãe de e pontas de espuma branca nos cantos da um dos primeiros adeptos transe portu- boca. «A melhor ajuda que podes dar de gueses. Dias antes chegara do Nepal um is- momento é não estares aqui», responde raelita com haxixe, um condensado de Diogo, no seu inglês perfeito — ele que ti- uma erva local que se diria druídica. E as- rou Engenharia de Sistemas de Som em sim o número de tendas tem crescido. Inglaterra. «Mandaram-me vir ter conti- Passam os dias em trabalho árduo, a montar um festival que tem uma dimensão tal que admira que seja praticamente des-64
  7. 7. SOCIEDADE ALUCINAÇÕES Os cogumelos ilegais, a cultura maia, hindu e druídica são algumas das influências do colorido movimento transe. As fluorescências e os fractais estão presentes nas roupas e nos adereçosconhecido. A área do Flea Market ( à letra, te horas na tenda do chill out — uma área vida na Bahia (Brasil). «Às vezes sente-semercado das pulgas — e não é uma metá- para descansar, ouvir música mais calma, mesmo que se consegue levar as pessoas afora...) vai reunir cerca de 40 bancas de to- tocar Didgeridoo (instrumento aborígena), uma união de espíritos, a esse momento Mdo o mundo, das massagens asiáticas às lo- ter uma boa «aterragem» das drogas que que é o transe, em que as pessoas se abs-jas de discos, roupa e artesanato. A zona se consomem — com a garantia de que, traem delas próprias para se fundiremdos restaurantes alberga desde comida is- mesmo não havendo sítio para os comprar num colectivo, num estado colectivo deraelita a japonesa, de casas de chás preten- em quilómetros, não desaparece nem um. consciência modificado pela... muitas ve-samente alucinogéneos a cibercafés. Não há violência, não há encontrões na zes pela acção da dança», vacila. Para decorar o Boom, vieram artistas de pista de dança e também não há engates, É que, noutras vezes, o momento M étodo o mundo. Feijão, um português do ‘bocas’. «Nós, raparigas, sentimo-nos bem, conseguido de outras formas. transe e alu-Barreiro — louro, de barba, olhos azuis, ca- ninguém olha para nós, cada um está co- cinogéneos são quase indissociáveis. Masbelo atado atrás — faz pinturas de «livre mo quer», explica Paula Ferreira, uma es- talvez seja melhor começar pelo que nãoinspiração maia» e sobrevive quase só dis- tudante da Guarda. «Por isso é que se há: heroína e álcool, de certa forma os es-so. No caso, pintou a estrutura do Banco vêem tantas mulheres nestas festas.» tupefacientes da base e do topo. De resto,Boom, onde toda a gente irá trocar escu- Não há engates, não há ‘esquemas’. Ou quase tudo é permitido.dos pela nota oficial do festival. (Nas ante- se os há, são feitos de forma diferente. P. As drogas de eleição do movimento sãoriores edições, os organizadores concluí- Mac, um jovem paramédico de 27 anos os cogumelos alucinogéneos, os ácidosram que os donos das tasquinhas não «de- que se tornou num dos bons DJ’s portu- (compostos de LSD, como reza a cançãoclaravam» a maior parte dos seus lucros, gueses do movimento, conquistou a com- dos Beatles, Lucy in the Sky with Dia-fugindo à entrega da percentagem acorda- panheira oferecendo-lhe uma maçã, pri- monds) ou o mais moderno ecstasy. vda. A solução foi criarem uma nota pró- meiro, e um charro, depois. Sem palavras,pria para o festival.) apaixonaram-se. «Foi lindo», recorda a MOICANO Avi Kal, nome que esconde um italiano, namorada, Sílvia. Rapar o cabeloreproduz elipses gigantes rendilhadas em É suposto, portanto, falar-se pouco. antes da festacores fortes, de luminosidade fluorescente. O transe, dizem os seus adeptos, podeEstá numa tenda como toda a gente, é an- ser, num mesmo momento, altamente in-tipático, insiste em não dizer palavra. Mas trospectivo e de grande união tribal. «Nãoleva cerca de 300 contos por cada traba- havia grandes diálogos nos primórdios»,lho, viagens e estadia à parte. E no fim de frisa um rapaz pedrado de mais pa-cada festa, queima o que criou, para des- ra se lhe perguntar o nome. «Ha-gosto dos organizadores. via o riso, o choro e pouco K.C., um artista japonês, reproduziu fisi- mais. E no entanto as pessoascamente, um pouco por todo o perímetro, entendiam-se, comungavam»,instalações que, a partir de cálculos com- explica, enquanto enrola maisputadorizados, replicam as estruturas geo- um charro de haxixe nepalês.métricas em que a visão humana decom- «O momento M, consegui-o em duasporia as formas, se elas pudessem ser redu- ou três ocasiões», reforça por suazidas a equações matemáticas. Numa pin- vez Paulo Cego, um DJ invisualtura, disse ele a um dos trancers portugue- com residência em Paris e meiases, tentou mesmo «reproduzir oDNA de Deus».‘Uma maçã e um charro’ Um verdadeiro ambientetranse é algo de diferente.Por exemplo, podem deixar-se maços de cigarros duran-VISÃO 10 de Agosto de 2000
  8. 8. SOCIEDADE REFEIÇÃO Ao pé do seu tipi, Manu, mãe de um dos trancers, prepara a refeição vegetariana DESCANSO Feijão, artista plástico que se «inspira livremente» na cultura maia, toca um instrumento oriental TRIBO TRANSE estrada não saberia, com toda a certeza, a do bastante negro. «Essa noite foi um badv que se devia aquele inusitado movimento flight», dirão depois.Aliás, todo o espectáculo visual de uma automóvel. «Uma coisa que me impressionou bem,festa transe parece montado de forma a Foram quilómetros de cerejeiras antes de princípio, foi a paz de espírito que sefacilitar alucinações. de lá chegar e nada garantia que a ponte sentia, toda aquela boa onda», recorda aguentasse o peso de um carro. Junto a um uma jornalista de uma rádio de projecção‘Sair da Beira vivo’ pequeno casario começam a avistar-se os nacional que esteve de baixa vários meses Um fim-de-semana de Julho, muito an- BMW, os Volkswagens e os Land Rover. por causa do ecstasy e dos ácidos. «Só de-tes do festival. Para esta festa, ninguém fez No bar, improvisado numa ruína abando- pois vi o resto. As pastilhas não são comopublicidade, não havia quaisquer indica- nada, cheira a haxixe — um cheiro forte, a heroína, não são drogas que tenham umções. Foram pequenas mensagens escritas bem mais forte do que o habitual. Está lá momento alto em que se sobe e desce empassadas por telemóvel — às vezes em tro- tudo: as fluorescências, os fractais, as luzes pouco tempo», explica.ca de uma palavra-chave — que os fizeram negras, os símbolos hindus. Mas qualquer Uma «pedra» destas pode durar 24 ho-lá chegar. Foram quase secretistas. No fim coisa não corre bem. Há imensa droga a ras e o problema não é a dependência físi-de uma aldeia, na estrada que liga a Covi- rodar, nomeadamente cocaína. Há muita ca. «Aquilo absorve-te completamente, olhã à Guarda, há uma cancela branca de gente também bêbeda e muita gente «pas- ambiente fascina-te, só pensas na próximauma propriedade agrícola: «Está fechada e tilhada». O clima é agressivo. festa, não consegues trabalhar. Aí, vês queé para continuar fechada. Levanta-a, bai- Um dos adeptos do movimento diz que aquilo mexeu com a tua cabeça. Mas se es-xa-a, anda uns quilómetros, passa uma os flashes da máquina fotográfica interfe- tás de mal contigo, nem tu lá vais fazer na-ponte de madeira, anda um pouco mais e rem com a «onda» de uma festa transe. da, nem eles te querem lá.»hás-de começar a ver os outros carros.» Uma questão de ciclos, esclarece. Diferen- É então que vem o pesadelo. «NinguémFoi a única pista, de voz que se quis anó- ciam-se da música, interferem com os rit- está no transe mais de um ano», reforçanima, para chegar a esta festa. mos dela. Mas isso não explica tudo. Há um colega desta mulher de trinta e poucos É meia-noite. A aldeia — que não pode violência no ar, os estados de espírito va- anos. «Só os ‘carolas’, os que vivem daqui-ser identificada para não denunciar o pro- riam da euforia, ao ódio, à tristeza. «Pira- lo — os outros, ao fim desse tempo, ou seprietário da enorme quinta onde decorreu te que ainda não sais da Beira vivo», dizem vêm embora ou precisam de tratamentoo encontro — está completamente deserta a um dos elementos da equipa de reporta- psiquiátrico.» Para lidar com os problemase mesmo que alguém passeasse à beira da gem da VISÃO. O transe tem afinal um la- da vida real. s MÚSICA LUCÍLIA MONTIRO LUÍS BARRA Paulo, DJ invisual: «O momento M, em que a multidão comunga em transe, consegui-o muito poucas vezes» DROGA Festa numa «floresta», algures na Beira. Nem para todos o transe é inocente. Há drogas duras e também há quem arranje sérios problemas66

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