Centro Universitário Adventista de São Paulo
Fundado em 1915 - www.unasp.edu.br
Missão: Educar no contexto dos valores bíb...
Introdução 7
O retrato de Deus 11
A parábola do filho perdido.................................................................
Introdução
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Um autor anônimo, no século 19, escreveu uma belíssima página sobre
Jesus Cristo, sob o título One Solitary L...
IntroduçãoO Incomparável Jesus Cristo
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os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram,
todos os parlam...
1CAPÍTULO
O r e t r a t o d e
D e u s
“Os judeus ensinavam que o pecador devia arrepender-se antes de
lhe ser oferecido o ...
O retrato de Deus
13
Como é Deus? Para muitas pessoas, Deus é apenas uma ideia abstrata.
Outros o confundem com um severo ...
O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo
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muitos pais conhecem o sofrimento por saberem que um filho ou uma filha...
O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo
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menos compreendidas. Ela representa a grande e final pincelada no quadr...
O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo
18 19
Foi empregado por um gentio para apascentar porcos, uma atividade nem
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afeições ou arrancado o rapaz da sua memória e do seu coraçã o — embora...
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99 nomes para Deus do Islamismo, no budismo ou no hinduísmo. Abba é o t...
O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo
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neste mesmo instante, com júbilo que invade o universo: “bem vindo ao l...
O Incomparável Jesus Cristo
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para todo tipo de confusão. Sobre a fé devemos entender:
▶ A fé não é a base da salvação, m...
O irmão do filho pródigo
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Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao apro-
ximar-se da casa, ouviu ...
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Ele é mencionado duas vezes na abertura da cena. Primeiro, o vers...
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so por juntar-se à celebração, qualquer que fosse a razão. Mas es...
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ção do seu irmão, não significa nada para ele. Ele deseja organiz...
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todos os seus mandamentos.”
Mas ambos são pecadores e rebeldes. O...
O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo
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uma lista de regras de conduta, enquanto que a definição de pecad...
3CAPÍTULO
O F a r i s e u e o
P u b l i c a n o
“Os que têm a mais profunda experiência nas coisas de Deus são os
que estã...
O Fariseu e o Publicano
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Propôs [Jesus] também esta parábola a alguns que confiavam em si
mesmos, por se considerarem ju...
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em que Cristo viveu (o judaísmo do primeiro século), a autoimagem...
O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo
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outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidad...
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exigido, e se orgulhavam disto!
Jesus não sugere que as reivindic...
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cada um extrair sua própria conclusão. Ele não deseja que haja qu...
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justiça própria (Rm 10:3) e, portanto, perdeu de vista a justiça ...
4CAPÍTULO
Q u e m é o m e u
p r ó x i m o ?
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”
Levíticos 19:18
“Amarás, pois, o Senhor...
O Incomparável Jesus Cristo - Amir Rodor
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Quem é Jesus Cristo? Essa é uma pergunta para a qual existem diversas respostas. Por todos os critérios de avaliação, contudo. Jesus é incomparável. Ele foi e continua sendo alguém de quem devemos ler e ouvir. Este livro não discute primariamente a existência desse incrível Homem, apenas mostra porque depois dele a história nunca foi a mesma.

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  1. 1. Centro Universitário Adventista de São Paulo Fundado em 1915 - www.unasp.edu.br Missão: Educar no contexto dos valores bíblico-cristãos para o viver pleno e a excelência no servir. Visão: Ser um centro universitário reconhecido através da excelência dos serviços prestados, seus elevados padrões éticos e da qualidade pessoal e profissional de seus egressos. Unasp, Engenheiro Coelho Diretor Geral: José Paulo Martini Diretor Acadêmico: Afonso L. Cardoso Diretor Administrativo: Elizeu José de Sousa Unasp, São Paulo Diretor Geral: Helio Carnassale Diretora Acadêmica: Silvia Cristina Quadros Diretor Administrativo: Evaldo Zorzim Reitor: Euler Pereira Bahia Pró-Reitora Acadêmica: Tânia Kuntze Pró-Reitor Administrativo: Élnio Freitas Unasp, Hortolândia Diretor Geral: Alacy Mendes Barbosa Diretor Acadêmico: Ilson Tercio Caetano Diretor Administrativo: Ivan Albuquerque de Almeida Imprenssa Universitária Adventista Editor: Renato Groger Editor Associado: Rodrigo Follis Conselho Editorial: José Paulo Martini, Afonso Cardoso, Eliseu de Souza, Emilson dos Reis, Wilson Paroschi, Amin A. Rodor A Unaspress está sediada no Unasp, Engenheiro Coelho.
  2. 2. Introdução 7 O retrato de Deus 11 A parábola do filho perdido................................................................................................. 16 Para ponderar........................................................................................................................ 25 O irmão do filho pródigo 27 A segunda parte da parábola.............................................................................................. 31 Para ponderar........................................................................................................................ 36 O Fariseu e o Publicano 41 A oração do “justo”............................................................................................................... 46 Quem é o meu próximo? 55 Jesus e o mestre da lei......................................................................................................... 58 Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Rodor, Amin A. O incomparável Jesus Cristo / Amin A. Rodor. -- 1. ed. -- Engenheiro Coelho, SP : Unaspress - Imprensa Universitária Adventista, 2011. Bibliografia 1. Glória de Deus 2. Jesus Cristo - Pessoa e missão I. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Jesus Cristo : Glória de Deus : Divindade e humanidade : Cristologia 232.8 2. Jesus Cristo : Pessoa e missão : Divindade e humanidade : Cristologia 232.8 11-08063 CDD-232.8 Caixa Postal 11 - Unasp Engenheiro Coelho-SP 13.165-000 (19) 3858-9055 www.unaspress.unasp.edu.br Imprenssa Universitária Adventista Editoração: Renato Groger, Rodrigo Follis Programação visual: Flávio Luís Capa e Ilustrações: Felipe Carmo O incomparável Jesus Cristo 1ª edição - 2011 3.000 exemplares Todos os direitos em língua portuguesa reserva- dos para a Unaspress. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações, com indicação da fonte. Todo o texto, incluindo as citações, foi adap- tado segundo o Acordo Ortográfico da Lingua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009. Índices para catálogo sistemático: S u m á r i o
  3. 3. Introdução 7 Um autor anônimo, no século 19, escreveu uma belíssima página sobre Jesus Cristo, sob o título One Solitary Life [Uma vida solitária], que desde então tem capturado a atenção de pessoas em muitas partes do mundo. Ele nasceu numa vila obscura, filho de uma camponesa. Cresceu em outra vila, onde trabalhou numa carpintaria até os 30 anos. Então, por três anos, foi um pregador itinerante. Ele nunca escreveu um livro. Nunca assumiu qualquer posição. Nunca teve uma família ou possuiu uma casa. Ele não cursou uma faculdade. Nunca visitou uma cidade grande. Nunca viajou mais do que 160 quilômetros do lugar onde nascera. Não fez qualquer uma daquelas coisas que usu- almente associamos com grandeza.Tinha apenas 33 anos quando a maré da opinião pública se ergueu contra Ele. Seus amigos o aban- donaram. Foi entregue aos seus inimigos e suportou o escárnio de um julgamento injusto. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Enquanto morria, seus executores disputavam o seu manto, a única propriedade que Ele possuía. Depois de morto, foi colocado em um túmulo emprestado, pela piedade de um amigo. Dezenove séculos vieram e se foram, e hoje Ele permanece como o personagem cen- tral da raça humana, o líder de todo avanço da humanidade. Todos I n t r o d u ç ã o O relato do bom samaritano............................................................................................... 62 Para ponderar........................................................................................................................ 67 Abre-me os olhos 69 Segundo ato........................................................................................................................... 75 Para ponderar........................................................................................................................ 79 Jesus Cristo segundo o evangelho de Marcos 81 Marcos e sua audiência........................................................................................................ 85 O Cristo compassivo e misericordioso............................................................................... 86 Encontros............................................................................................................................... 88 Jesus e o endemoninhado geraseno...................................................................... 88 A mulher enferma...................................................................................................... 92 A ressurreição da filha de Jairo................................................................................ 96 Para ponderar........................................................................................................................ 98 O incomparável Cristo 101 Politicamente incorreto.....................................................................................................108 Ele era Deus?.......................................................................................................................113 Evidências de sua divindade.............................................................................................117 Para ponderar......................................................................................................................120 Sua identidade.........................................................................................................120 Sua missão................................................................................................................125 Referências bibliográficas 127
  4. 4. IntroduçãoO Incomparável Jesus Cristo 8 9 os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis que já rei- naram, colocados juntos, não tiveram o impacto sobre a vida dos homens neste planeta como essa única vida solitária (autor desco- nhecido apud GREEN, 1992, p. 2). Desde tempos imemoriais, pelos corredores da história, passaram coman- dantes, caudilhos, ditadores, governantes, líderes militares, presidentes, políti- cos, poetas, gênios, artistas, filósofos e teólogos. A maioria deles passou sem deixar qualquer informação sobre suas realizações, destruídas pela mão ferru- ginosa do tempo. Mas o transcorrer das eras não exerceu nenhum efeito sobre Jesus Cristo. Sua vida, conforme registrada nos evangelhos, permanece hoje tão atual como nos dias em que Ele viveu. Por qualquer critério que adotemos, Ele é o personagem central da história. Sua vida e ensinos ainda causam enorme impacto transformador em todos aqueles que se detêm para considerar sua ca- rismática e irresistível pessoa. Seus inimigos têm, de muitas formas, tentado transformá-lo em mito ou descaracterizar sua identidade com base em descobertas arqueológicas forçadas ou interpretações sensacionalistas delas; filmes e canções irreverentes, produtos da ficção humana, surgem de tempos em tempos. Nisso, eles não ficam muito lon- ge dos inimigos clássicos, os antigos fariseus, saduceus, herodianos, Anás, Caifás, o sinédrio, Herodes e Pilatos, que, inutilmente, também tentaram destruí-lo e silenciá-lo. Contudo, os inimigos passam e seus esforços terminam desacredita- dos, apenas despertando em muitos o desejo de conhecer melhor a Jesus Cristo. Jesus continua com a palavra final sobre Deus, a vida, a morte, nós próprios e a vida eterna. Em última instância, como escreveu Julie Cameron (1999, p 7), de Noranda, Austrália, diagnosticada com câncer terminal: Jesus é o meu consolador; protetor; escudo nos meus medos; o co- nhecimento que me faz distinguir o certo do errado […] o grande músico na orquestra da vida. Jesus é o verdadeiro arquiteto; a luz que brilha em mim; a rocha na qual eu me ergo; o constante companhei- ro; o único mestre; a fé dentro de mim; a benção e a minha vida eter- na. Ele morreu; assim eu poderei viver. Ele é a minha firme segurança. A força quando me sinto fraca. O poder dentro do meu coração, do qual eu sinto os batimentos. Ele é a sombra que me acompanha. Ele é o grande autor, pois escreveu o livro da vida […] Ele é a resposta para nossas lutas e provações Jesus não precisa de defesa ou de testemunhas, Ele disse. O li- vro que o leitor tem em mãos é um pequeno testemunho. Um pequeno tributo à sua incomparável pessoa e o que Ele signifi- ca para mim. O propósito, ao escrevê-lo, não foi primariamente acadêmico, mas inspiracional. Assim, as notas de rodapé, refe- rências e citações foram reduzidas ao nível mínimo. A intenção foi manter o que escrevi próximo de suas parábolas, para que o leitor possa encontrar para si novos significados e aplicações, adequados à sua própria vida e circunstâncias pessoais.
  5. 5. 1CAPÍTULO O r e t r a t o d e D e u s “Os judeus ensinavam que o pecador devia arrepender-se antes de lhe ser oferecido o amor de Deus. A seu parecer, o arrependimento é obra pela qual os homens ganham o favor do Céu. Foi este pensamento que induziu os fariseus atônitos e irados a exclamarem: ‘Este homem recebe pecadores!’ (Lc 15:2). Conforme sua suposição, não devia permitir que pessoa alguma a Ele se achegasse sem se ter arrependido […] Cristo ensina que a salvação não é alcançada por procurarmos a Deus, mas porque Deus nos procura […] Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos revela seu amor para que nos arrependamos.” Ellen G. White
  6. 6. O retrato de Deus 13 Como é Deus? Para muitas pessoas, Deus é apenas uma ideia abstrata. Outros o confundem com um severo juiz, distribuindo sentenças às suas cria- turas. Para outros, Deus é um caprichoso policial cósmico, buscando nossos erros. Há, ainda, aqueles que o veem como um tipo de Papai Noel complacen- te distribuindo presentes uma vez por ano. Como é Deus, ou quem é Deus? Deus tem sido em muitas circunstâncias ca- ricaturado pela religião e pelos religiosos. As respostas podem variar de pessoa para pessoa,masprovavelmenteelasdirãomaisanossorespeito doquearespeito deDeus. UmdosensinosmaisevidentesdoNovoTestamentoéqueJesusCristoveioparareve- lar a pessoa do Pai (Jo 14:9-13). Em várias ocasiões, o próprio Jesus fez a mais comple- taeabsolutaidentificaçãoentreEleeDeus:perdooupecados,aceitoucultoeadoração, fez promessas que apenas Deus poderia fazer (Lc 5:21; 24:52; Jo 14:12-14 ). Provavelmente, um dos quadros mais claros a respeito de Deus pintado por Jesus aparece em Lucas 15, o capítulo conhecido como “evangelho den- tro do evangelho”. “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecado- res para o ouvir. E murmuravam os fariseus e escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15:1 e 2). Em resposta à acusação que lhe é feita pelos austeros representantes do estabelecimento religioso dos seus dias, Jesus conta três parábolas. Tais histórias não são primariamente uma exposição do evangelho, mas uma defesa dele. Elas representam o poderoso contra-ataque de Jesus diante daqueles para quem a graça de Deus parecia um desperdício. Aqueles que se sentiam indignados ante a afirmação de que Deus se interessa pelos pecadores. As palavras e ações de Jesus chocaram e ofenderam os líderes religiosos do judaísmo do primeiro século. E provavelmente elas ofendem ainda hoje muitos que se julgam conhecedores de Deus. Uma das surpresas do minis- tério de Cristo é que Ele atraiu pessoas das quais os religiosos nem se apro- ximavam: enfermos, pobres, samaritanos, mulheres e coletores de impostos. Todos eles marginalizados dentro do sistema religioso e social dos judeus. O desdém da elite religiosa por essas pessoas de quem Jesus se aproximou e por quem Ele se interessou e manifestou respeito, não é porque elas fossem mais pecadoras do que as outras. Mas porque eram pessoas ordinárias, ignorantes das intrincadas cerimônias religiosas e, por isso, consideradas impuras.
  7. 7. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 14 15 muitos pais conhecem o sofrimento por saberem que um filho ou uma filha, adul- tos, encontram-se perdidos moral ou espiritualmente. Nesse caso, pode-se saber onde eles estão e o que estão fazendo, mas não se sabe o que fazer para recuperá- -los. Sabemos que eles estão longe, no “país distante”, desperdiçando seus recursos, seu potencial, sua vida. Provavelmente apenas um pai ou uma mãe que conheça tal dor pode realmente entrar no espírito da parábola contada por Jesus. A lição clara é a de que, em cada caso, os bens perdidos não foram es- quecidos e não perderam o seu valor, o que é indicado pela intensidade da busca. No caso da ovelha (uma em cem), o pastor deixa as noventa e nove e sai em busca da única extraviada. No ocaso da moeda perdida (uma em dez), a mulher acende uma luz, ajoelha-se no chão da casa e procura até encontrá-la. No caso do filho perdido (um em dois), a lição é evidente: o perdido passa a absorver toda a atenção do proprietário. Há alguns anos, viajando de ônibus de Toronto para Nova York, parei na cidade de Buffalo. Chamou-me a atenção toda uma enorme parede, como um mural enorme, naquele terminal rodoviário. Ali estava uma grande quantidade de fotografias de pessoas desaparecidas. Dezenas de fotos. Homens, mulheres, rapazes, moças e, principalmente, crianças. Todos eles, filhos, filhas, esposos, esposas, netos de alguém! Acima das fotos, escrita em letras enormes, havia a seguinte frase: “Perdidos, mas não esquecidos!” Não pude deixar de fazer a associação entre aquele quadro e as histórias de Jesus sobre os perdidos! Um outro aspecto pungente das parábolas de Lucas 15 é o caráter pessoal do envolvimento. Nos três casos, não é um servo que é mandado para buscar o bem perdido, mas o próprio dono é quem toma a iniciativa da busca. Assim é Deus. Ele próprio, em pessoa, entrou em cena para recuperar o que se havia perdido. Aqui, também o perdido não foi esquecido. O que ofendeu os representantes do judaísmo do primeiro século não foi tanto a resposta dessas pessoas a Jesus, mas a resposta de Jesus para elas. “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15:1-2) era a acusação dupla dos oposi- tores de Cristo. Aqueles que diziam conhecer a Deus, se ofenderam com o tipo de pessoas com quem Jesus se associou. No centro do confronto entre Jesus e os fariseus está a compreensão da doutrina de Deus. Afinal, pode Deus associar-se com os pecadores? Os fariseus diziam que não. Jesus então contou três parábolas para demonstrar o contrário. Estas são histórias de Deus, na linguagem humana: ▶ A parábola da ovelha perdida (Lc 15:3-7); ▶ A parábola da moeda perdida (Lc 15:8-10); ▶ A parábola do filho perdido (Lc 15:11-32). Essas histórias têm uma estrutura comum: elas enfatizam a tragédia da perda, a diligência da busca e o regozijo da recuperação. Não podemos dizer que conhecemos a Deus se não sabemos o que lhe causa dor, ou o que lhe traz alegria. Jesus deseja demonstrar que o coração do Pai se parte por aqueles que se perdem e exulta em abundante alegria por aqueles que são encontrados. Como se sente você ao perder qualquer coisa considerada valiosa? Jesus utiliza um conceito que facilmente podemos compreender. É óbvio que os seres humanos se sentem frustrados, deprimidos e tristes quando perdem aquilo a que dão valor, e se alegram quando encontram o que foi perdido. A estupenda revelação que Jesus faz é que Deus também se sente assim. O ponto principal dessas histórias não é falar da ovelha, da moeda ou do filho, isto é, daquilo que fora perdido. O propósito dessas parábolas é focalizar o caráter do pastor que perdeu a ovelha, da mulher que perdeu a moeda e do pai que perdeu o filho. Essas parábolas revelam como Deus é. Em termos literais, eu nunca perdi uma ovelha, mas já participei da agonia de minhafilhapequena,vagandopelavizinhançaembuscadoseucãozinhoperdido.Eu nuncaperdiumamoedavaliosa,masjáperdiminhaaliançadecasamento,cartõesde crédito ou a carteira de motorista. Recordo-me perfeitamente do pânico, do retorno aos lugares onde estivera, dos telefonemas dados na tentativa de recuperar esses bens. Em semelhantes circunstâncias, muitos já experimentaram a agonia de ter um filho perdido por algum tempo. O desespero inexprimível quando não o en- contramos em meio a uma multidão. Em nível diferente, mas não menos real, Não podemos dizer que conhecemos a Deus se não sabemos o que lhe causa dor, ou o que lhe traz alegria. Jesus deseja demonstrar que o coração do Pai se parte por aqueles que se perdem e exulta em abundante alegria por aqueles que são encontrados.
  8. 8. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 16 17 menos compreendidas. Ela representa a grande e final pincelada no quadro que Jesus pinta de Deus. “Certo homem tinha dois filhos”, inicia Ele a sua história. “O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe” (Lc 15:12). O pedido desse filho é, no mínimo, desrespeitoso. Especialistas na cultura oriental sugerem que o pedido do filho equivale a um “desejo de morte”, porque só depois da morte do seu pai ele poderia receber sua herança. O pedido do filho parte o coração do pai, porque a única preocupação desse filho era com a propriedade. O pai poderia ter negado o pedido, poderia ter obrigado seu filho a ficar, mas de que isso adiantaria? Seu filho já estava emocionalmente distante. Aqui está o ponto vulnerável do amor: o amor pode ser rejeitado e desprezado! Mais tarde, em seu retorno, ele não seria açoitado apenas pelo fato de que ele “não fora bom,” mas também que ele “havia desprezado a bondade.” A parábola revela que Deus não viola nossa vontade. Ele oferece espaço para nossas escolhas, mesmo sabendo que aquilo que queremos muitas vezes é preci- samente o que nos destrói. “Liberdade” é a fantasia de milhões na busca do desco- nhecido. Eles querem “se encontrar”. Sem perceber que os seres humanos não têm nenhum “eu” para ser “encontrado”. Apenas temos um “eu” para ser desenvolvido. O jovem da parábola havia decidido viver de maneira independente, se- guir o seu próprio caminho em busca da felicidade e da emancipação. Antes das ideias de Freud e de Nietzsche sobre as grandes forças propulsoras na vida das pessoas, Blaise Pascal concluiu que o fator mais importante por trás das decisões humanas é a busca da felicidade. Sem dúvida, esta é a grande busca do coração humano. Mesmo no sexo (Freud) e no poder (Nietzsche), as pessoas buscam a felicidade. A tragédia é que frequentemente buscamos a felicidade nos lugares errados, onde ela não pode ser encontrada. Nas buscas erradas da vida (e isso é o que não vemos) já estamos permitindo que os fios dos ventos comecem a tecer a capa de nossas maiores agonias. A parábola do filho perdido Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres. Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntan- do tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naque- la terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava en- cher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e nin- guém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empre- gados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata- -me como um dos teus empregados. Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti- -lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se. Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando vol- tava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgrediummandamentoteu;contudonuncamedesteumcabritopara eu me regozijar com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lheopai:Filho,tusempreestáscomigo,etudooqueémeuéteu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. (Lc 15:11-32) A terceira história, a parábola do filho pródigo, é a mais longa, a mais conhe- cida, a mais amada, a mais citada das parábolas de Jesus e, provavelmente, uma das “Liberdade” é a fantasia de milhões na busca do desconhecido. Eles querem “se encontrar”. Sem perceber que os seres humanos não têm nenhum “eu” para ser “encontrado”. Apenas temos um “eu” para ser desenvolvido.
  9. 9. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 18 19 Foi empregado por um gentio para apascentar porcos, uma atividade nem mesmo imaginável para um judeu. A guarda do sábado, a observância dos rituais de pureza (Lv 11; 23:3; ver Lc 15:15-16) ou aderência aos detalhes das leis judaicas, dificilmente observáveis agora. Seu estágio final no país distante, sugere completa apostasia de sua identidade, que aparece desfigurada e esquecida. Mas o seu de- sespero desconhece o orgulho! A fome desconhece escrúpulos! Suas ilusões passa- ram como um fogo de artifício. Ele, que havia sonhado com liberdade e felicidade distantes, termina poluído, em companhia imunda. “Mas ninguém lhe dava nada”, conclui o relato! Neste ponto, associamos a narrativa com um quadro comum, que pintaojovemmalvestidoassentado,cabeçapendidanosjoelhos,cercadodeporcos. Praticamente, muito pouco sobrara do rapaz que saíra da casa paterna. Se Jesus tivesse parado neste ponto da história, seus críticos teriam batido palmas de entusiasmo, como sinal de aprovação. “Você está correto”, eles teriam dito. “Isto é precisamente o que acontece com o pecador. Ele recebe o que me- rece. Na companhia dos porcos.” Mas não é aí que Jesus termina. O Salvador deseja ter o filho perdido de volta, na casa do Pai! O ponto de retorno na parábola é extraordinário. Jesus diz que o moço “caiu em si” (v. 17). As palavras de Cristo são profundamente reveladoras. “Cain- do em si.” Isso significa que quando ele abandonou o pai, o jovem estava fora de si. Todo abandono de Deus é um ato de insanidade. Está fora de si todo aquele que busca ser feliz longe de Deus, e cria substitutos precários. Tal busca é uma forma de demência, pois o “país distante” nunca pode ser o nosso lar. Ele será sempre terra estranha! Observe-se que Jesus não trata o pecado com levianda- de. Ele pintou suas trágicas consequências com terrível fidelidade. Mas Ele não podia crer que a separação de Deus é um ato de genuína humanidade. “Caindo A audiência judaica teria esperado que o pai da história, irado, recusasse a exigên- cia do seu filho. Mas este não era um pai típico. Generosamente ele oferece posse ime- diataaoseufilhomaisjovem,suapartedapropriedade.Geralmenteissoseriaumterço, embora em circunstâncias especiais, pudesse ser menos. Apenas alguns dias depois, o filhojáhaviatransformadoemdinheirosuapartilhadosbens.E,“ajuntandotudooque era seu, partiu para uma terra distante” (Lc 15:13). Além de sua atitude de desrespeito e insulto ao seu pai, uma vez que, em uma sociedade agrária como a de Jesus, a terra era parte da identidade das pessoas e, portanto, nunca vendida, o jovem também deixa claroquenãopretendiavoltar.Oqueplanejavaele?Tentarsuasortenoprósperomundo comercialdosgentios?Talvez.Masissoaindaestánoventredofuturo! A realidade, em geral, tem sua forma cruel de surpreender nossas fantasias e acordar-nos de nossos sonhos. Até onde a busca de emancipação e felicidade con- duz o jovem filho da parábola? Segundo Jesus, ao “país distante”. Onde fica tal país? Geograficamente o “país distante”, provavelmente, ficava entre os gentios, caracteri- zado pelos valores pagãos, marcado pela moralidade pagã. Espiritualmente, “o país distante” é a inconsciência e a distância de Deus. Viver como se Deus não existisse! Distante, o jovem persegue a sua fantasia. “E lá dissipou todos os seus bens, vi- vendo dissolutamente” (Lc 15:13). No país distante, o rapaz passou a viver sua liber- dade ilusória. Como atestado em fontes da antiguidade a respeito de muitos jovens, a fortuna herdada foi consumida em vinho, mulheres e canções. No judaísmo, a condu- ta deste filho era duplamente reprovável. Não apenas pelo estilo de vida de dissipação, mas também pela perda dos meios de suporte ao pai em sua velhice. Dos filhos se esperava assistirem financeiramente os pais idosos em casos de necessidade. Gradualmente, o jovem desceu ao seu próprio inferno. Os amigos duraram enquanto durou o dinheiro. Observe a sequência trágica: ele perdeu o dinheiro, começou a padecer necessidade, mas ninguém lhe dava nada (Lc 15:14-16). O jovem filho fizera da vida um carnaval, dias alegres e noites deslumbrantes. Mas já tinha um encontro marcado com o desastre! Sua aparência radiante de príncipe tornou-se imersa em depressão e tris- teza. Suas roupas custosas converteram-se em trapos. As leis, os conselhos, a sabedoria que desprezamos, tornam-se anjos vingadores. “Há caminhos que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte”, diz o sábio (Pv 14:12). A história desse filho é a nossa história, a nossa biografia! Uma descrição exata da família humana. Todos nós nos desviamos como ovelhas desgarra- das. Em nossa cegueira e rebelião, tentamos criar os nossos pequenos paraísos, nossa felicidade própria, baseada em prazeres, aquisições e realizações pessoais, apenas para descobrir o sabor amargo da decepção e do engano de nossas esco- lhas. E, assim, terminamos apenas com o gosto de cinza nos lábios. A tragédia é que frequentemente buscamos a felicidade nos lugares errados, onde ela não pode ser encontrada. Nas buscas erradas da vida (e isso é o que não vemos) já estamos permitindo que os fios dos ventos comecem a tecer a capa de nossas maiores agonias.
  10. 10. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 20 21 afeições ou arrancado o rapaz da sua memória e do seu coraçã o — embora isso fosse precisamente o que ele podia merecer. Não se trata aqui de nenhum pai neurótico, incapaz de sentir os arranhões e machucaduras do filho! “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lc 15:20). O pai o vê à distância. A implicação é extraordinária: aqui está um pai que não apenas deseja receber o filho, mas espera por ele. Dia após dia, ele nunca deixou de esperar pelo filho. Apenas o amor do pai poderia reconhecer o filho sob os andrajos que o cobrem, porque, “o amor tem bons olhos”. O pai discerne o seu filho enquanto ele caminha à distância. Devemos notar o momento: o filho ainda estava longe para expressar a seu arrependimento, como os judeus esperariam, mas a graça do pai já estava presente e atuante! A doutrina do arrependimento na religião judaica provia a expiação, des- de que ele fosse sincero e acompanhado pela determinação de separação do pe- cado. No judaísmo posterior, os rabis passaram a ensinar que Deus e o homem operam juntos no arrependimento. Para cada passo, que é tomado em sua dire- ção, Deus toma um passo em direção ao homem. Aparentemente, o arrependi- mento do filho pródigo parece preceder o perdão do pai. Isso é porque o jovem procede de acordo com o conceito judaico de arrependimento. Entretanto, a conduta do pai revela um princípio diferente. Para entender a história, devemos lembrar que no oriente um homem idoso, respeitado, não devia correr publicamente. Tal ato era considerado inapropriado e indigno. Mesmo nos nossos dias, a maioria das pessoas que se julga importante reprime suas emoções em público, considerando tal ato como um sinal de fraqueza. Mas o pai da parábola de Jesus, apode- rado pela compaixão, desconsidera todos os protocolos e etiquetas de sua em si.” Esse é o extraordinário e invencível otimismo de Cristo! “Cair em si” é voltar-se para uma compreensão realista de Deus, de nós próprios e do pecado. O jovem começa a ver as coisas com clareza, pela primeira vez. Afinal, o lar não era um lugar tão ruim assim. E começa a compreender o que havia perdido: o status de filho. Uma resolução incon- trolável explode em seu peito. “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai.” O filho então, prepara o seu conficteor, o seu discurso de admissão de culpa. Sua demonstração de arrependimento. “Direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho […] trata-me como um dos teus trabalhadores” (Lc 15:18-19). Os “trabalhadores” ou “jornalei- ros,” eram diaristas, em condição inferior aos servos da casa, que gozavam de maior grau de intimidade. Ele saíra de casa dizendo “dá-me”; agora, em seu retorno ele pretende dizer, “trata-me”. À distancia, ele se lembra do seu pai; seu amor e bondade emergem em sua mente. Fragmentos de memórias vêm à sua lembrança. Esta é a base da sua iniciativa de retorno: as memórias do pai. As lágrima não podem ser evitadas. O pai que não manda perseguir o filho nem vai atrás dele, está presente na lembrança do rapaz, quando este, sofrendo miséria e fome junto a sua vara de porcos. Sem escusas, ele assume responsabilidade por suas ações. Reconhe- ce seus erros. Ele havia saído de casa pensando “eu tenho que ser eu mesmo”, mas descobre que nossa verdadeira identidade não é encontrada à distancia, em indulgência com as nossas fantasias. Ele havia partido para encontrar sua liberdade, e termina algemado à falta de esperança. E é à distancia, entre os porcos, que ele chega a compreender a glória da casa do pai. Ele perdera o status de filho, imagina ele, mas mesmo como um diarista, lar é lar! Ele não esperava ou mesmo nem desejava qualquer tratamento preferencial, apenas uma oportunidade de provar que mudara. “Levantar-me-ei e irei ter com o meu pai” (Lc 15:18). Não há lugar mais difícil para se retornar do que aquele onde falhamos. Os lugares de nossos fra- cassos são lugares cruéis. As ações do moço haviam sido objeto das conversas na pequena vila. Ele sabia que voltar seria assinar sua admissão do engano, e ser forçado a enfrentar a crítica, sem ter nada para dizer em sua defesa. Ser forçado a deparar-se com sua vergonha. Voltar para casa, com o cheiro dos porcos, com os trapos do seu fracasso, esta era, provavelmente, a humilhação final. Note, porém, que Jesus não diz que o jovem decide voltar para a vila, ou mesmo para o seu antigo lar. “E, levantando-se, foi para seu pai” (Lc 15:20). Então, quando Jesus descreve o pai, percebemos o mais surpreendente dos fatos. Esse pai não é uma figura austera que tinha deserdado o filho, banido-o de suas Todo abandono de Deus é um ato de insanidade. Está fora de si todo aquele que busca ser feliz longe de Deus, e cria substitutos precários. Tal busca é uma forma de demência, pois o “país distante” nunca pode ser o nosso lar. Ele será sempre terra estranha!
  11. 11. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 22 23 99 nomes para Deus do Islamismo, no budismo ou no hinduísmo. Abba é o ter- mo aramaico, frequentemente utilizado por Cristo para descrever Deus. O ter- mo reflete extrema intimidade, equivalente ao nosso “paizinho” ou “painho” ou, ainda, ao carinhoso e íntimo termo “daddy” do inglês. No Antigo Testamento e no judaísmo, Deus é chamado de pai, mas em um sentido totalmente diferente. Deus é pai, mas da nação, no contexto da eleição de Israel. A relação “pai-filho”, descrita por Jesus tem sempre características pessoais. Nunca é utilizada em re- ferencia ao povo. Tampouco a filiação constitui uma prerrogativa exclusiva dos piedosos. Deus é pai “para bons e maus, justos e injustos” (Mt 5:45; 21:28-32). A parábola de Jesus não coloca ênfase na indignidade do filho, mas no amor do Pai. Tudo perdoado. Tudo esquecido! Os dias de fome e de conví- vio com os porcos estão no passado. Com um toque de mestre, Jesus leva a história ao clímax final: uma festa é preparada para celebrar o retorno do seu filho. Nenhuma palavra de recriminação moralista. Nenhuma exigên- cia de prestação de contas. Nenhuma condição imposta. Nenhum tempo de prova. Nenhum período de disciplina, para observação! Nenhuma “quaren- tena” ou penitência é exigida. O clímax da história contada por Jesus é, no mínimo, ofensiva à sua audi- ência judaica. Os fariseus teriam aplaudido a narrativa se o pai tivesse deman- dado arrependimento e prova positiva de mudança e emenda antes de receber de volta o filho dissoluto. Arrependimento era o coração da teologia farisaica. Ele precedia a aceitação e o perdão divinos, envolvendo um período de “prova” e “separação” para tornar evidente a sua autenticidade. Os “sinceramente reli- giosos” se sentiram chocados pelo ensino deste jovem rabi, que parece subverter a ideia de Deus da doutrina farisaica. A história do filho pródigo, a última do trio de parábolas que Jesus conta cultura, corre ao encontro do seu filho. Aqui nós encontramos o elemento redentivo da história. Correndo, lançou-se ao pescoço do filho e o beijou. “Ternamente” ou “muitas vezes”, os dois significados são possíveis na leitura do original. O pai quer ter certeza de que ele é o primeiro na vila a encontrar-se com seu filho, para protegê-lo das críticas ou das atitudes hostis e julgadoras de outros, das fa- ces que não expressam qualquer atitude de boas vindas. O pai não quer correr o risco de que seu filho seja desencorajado pela zombaria ou desdém, e acabe de- sistindo. O gesto do pai deixa os observadores atônitos; ele se lança ao pescoço desse estranho vestido em trapos e o cobre de beijos. Os moradores do vilarejo não poderiam ter antecipado a cena do dramático reencontro entre pai e filho.1 O pai segura o rapaz e o aperta contra o seu peito, impedindo que ele caia de joelhos, posição de subserviência. Ele nem mesmo permite que seu filho complete o discurso que havia ensaiado. A confissão e pedido do filho que retorna são sufocados pela mesma bondade do pai que os despertara (Lc 15:19, 21). Surpreendentemente, o pai e não pronuncia nenhuma palavra ao filho. Mas suas ações dizem tudo. Depressa ele ordena aos servos que tra- gam a melhor veste, roupa festiva, usada em grandes ocasiões. O seu garoto é o hospede de honra. Coloca-lhe na mão um anel. Não um anel de ornamen- to, mas um anel-sinete, símbolo de autoridade. Coloca-lhe sandálias nos pés, porque apenas os servos andam descalços. Ele ordena que preparem o “novilho cevado” e comecem a celebração, justificando sua atitude com palavras que explodem de gozo. “Comamos e re- gozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lc 15:23-24). Observe-se como nesse ponto, e justamente nele, a alegria é pintada com as cores mais fartas e abundantes. As alegrias ilusórias do país distante não poderiam se comparar com o gozo exuberante que irrompe na celebração do pai. Este é o tipo de Deus revelado por Jesus Cristo. A proximidade de Deus é o mistério do nome “pai”, nos lábios de Jesus, uma noção ausente em todas as religiões. Não a encontramos mesmo entre os 1 Provavelmente Rembrandt, que pintou várias vezes a parábola do filho perdido, pode ser considerado seu interprete mais autêntico. Em uma gravura de 1630, veem-se pai e filho, ambos voltados para o espectador, o filho em sua figura miserável, prostra- do de joelhos, o pai andando a passadas largas e impetuosas ao encontro do filho. No entanto, em um quadro a óleo, pintado posteriormente no eremitério de Petesburgo, o artista retratou só o vulto e o rosto do pai que estão voltados para o espectador; diante dele, o filho de joelhos, de costas para o espectador, esconde seu rosto no colo do pai, amparado pelas mãos deste. Tão importantes quanto sejam “reforma”, “transformação” e “arrependimento”, eles não são a base pela qual somos aceitos por Deus, mas o resultado. Em outras palavras, é a aceitação divina que causa o arrependimento, não o contrário.
  12. 12. O retrato de DeusO Incomparável Jesus Cristo 24 25 neste mesmo instante, com júbilo que invade o universo: “bem vindo ao lar!” Para ponderar O jornal USA Today, em 1997, publicou uma entrevista feita com os norte- -americanos mais ricos: cerca de 1 milhão de famílias, com renda anual superior a US$ 250.000 e patrimônio líquido de pelo menos US$ 2.5 milhões. O que estes ricos disseram estar dispostos a comprar e por quanto. Leia a surpreendente lista de baixo para cima: Um lugar no Céu US$ 640.000 Verdadeiro amor US$ 467.000 Grande Intelecto US$ 407.000 Talento US$ 285.000 Juventude eterna US$ 259.000 Reencontro com um amor perdido US$ 206.000 Por grande beleza US$ 83.000 Para ser presidente US$ 55.000 Em primeiro lugar, seiscentos e quarenta mil dólares por um lugar no céu. O irônico é que as pessoas desejam pagar uma enorme soma de dinheiro por aquilo que, em primeiro lugar, não tem preço, e, em segundo, é oferecido de graça! Não é estranho que a religião e os religiosos, como os judeus dos dias de Je- sus tenham confundido a oferta de salvação a tal ponto que ela dificilmente se tor- na compreensível para a maioria das pessoas? A salvação é baseada na graça, dom imerecido de Deus. Qualquer outro elemento, tal como arrependimento, recon- ciliação, regeneração, reforma, novo nascimento, ou santificação, não constituem a base da salvação. A base da salvação é a graça de Deus, estes outros elementos são, pela ação do Espírito Santo, resultados de nossa aceitação de sua graça e amor. Devemos entender ainda que a justiça de Deus, não é primariamente uma exigên- cia, mas um dom. Não é o que Ele pede, mas o que Ele oferece. Com frequência utilizamos a expressão “justificação pela fé”, mas se isto não for entendido claramente, tornamos a fé um outro tipo de obra. Segundo Efésios 2:8, “pela graça sois salvos, mediante a fé”. A graça é a base da salvação, a fé é o seu instrumento, ou o meio. Quando eliminamos a graça de Deus de nossa compreensão da salvação, como o elemento primário, a porta está aberta em sua defesa por aceitar e comer com os pecadores antes mesmo do arrependi- mento deles. Ela subverte o retrato de Deus pintado pela tradição do judaísmo. Segundo Jesus, Deus não exige “reforma” e “santificação” antes de aceitar os que o buscam. Ele não espera “transformação moral” ou mesmo nosso arre- pendimento para nos receber. Tão importantes quanto sejam “reforma”, “trans- formação” e “arrependimento”, eles não são a base pela qual somos aceitos por Deus, mas o resultado. Em outras palavras, é a aceitação divina que causa o ar- rependimento, não o contrário. Deus opera sempre com base na graça. Fazemos apenas uma contribuição para nossa salvação. Nossa única contribuição para a salvação é o pecado, do qual devemos ser libertos. Nada mais! Como Ellen G. White (2007, p. 189) observa: Os judeus ensinavam que o pecador devia arrepender-se antes de lhe ser oferecido o amor de Deus. A seu parecer, o arrependimento é obra pela qual os homens ganham o favor do Céu. Foi este pen- samento que induziu os fariseus atônitos e irados a exclamarem: ‘Este homem recebe pecadores!’ (Lc 15:2). Conforme sua suposição, não devia permitir que pessoa alguma a Ele se achegasse sem se ter arrependido […] Cristo ensina que a salvação não é alcançada por procurarmos a Deus, mas porque Deus nos procura […] Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos revela seu amor para que nos arrependamos. Em comovente simplicidade, Jesus descreve como Deus é. Sua bondade, sua graça, sua infinita misericórdia. Este é o Deus a quem Jesus representou. O Deus que recebe os envergonhados, cegos, leprosos, surdos, imundos. Que não nega a culpa, mas a perdoa e cura. Querido leitor encontra-se você hoje no país distante? Alienado de Deus e de si mesmo? Chegou você ao fim de suas ilusões? Sua jornada parece ter chegado ao final, numa viela sem saída? Está você desa- nimado, deprimido pelos descaminhos da vida que o levaram a viver longe do Pai, imaginando que não há esperança para o seu caso? Aqui está o Deus que Jesus veio revelar. Aquele que “justifica o ímpio” (Rm 4:5). Que purifica e restaura, que não apenas oferece roupas de puro linho, mas que “deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). Aqui está o Deus do Evangelho, que celebra e se regozija com a volta dos perdidos. Que corre ao encontro deles! Que estende os seus braços para recebê-los e abraçá-los. O Deus que agora mesmo pode torná- -lo uma nova criatura, um novo homem, uma nova mulher. Que pode dizer-lhe
  13. 13. O Incomparável Jesus Cristo 26 para todo tipo de confusão. Sobre a fé devemos entender: ▶ A fé não é a base da salvação, mas o meio, o instrumento pelo qual nos apropriamos dela (Rm 3:21-22, 25, 31; Ef 2:8). ▶ A fé não é autogerada. A fé também é um dom. Segundo o livro de Ro- manos, (10:17), “a fé vem pelo ouvir da Palavra de Deus”. ▶ A fé não é meritória (Ef 2:8-10). Para Ellen G. White (2004, p. 174), “mediante a fé recebemos a graça de Deus; mas a fé não é o nosso Salvador. Ela não obtém nada (Tg. 2:24). É a mão que se apega a Cristo e se apodera de seus méritos, o remédio contra o pecado.” ▶ A fé não depende do seu tamanho, mas do seu objeto (Lc 17:6). Mui- tos, por exemplo, têm grande fé no dinheiro, em posições, na ciência, em prestígio, na aparência, no preparo acadêmico. Mas essa fé, grande como ela possa ser, nada vale para a salvação. A fé vale pelo seu funda- mento, que deve ser única e exclusivamente a pessoa de Jesus Cristo, o seu autor e consumador (Hb 12:2). ▶ A fé bíblica não está em oposição às boas obras. As únicas obras contra as quais a fé se opõe, são aquelas entendidas ou praticadas como método de salvação (Rm 3:20, 28). A fé não é contra a observância da lei, como alguns pensam. A fé se opõe à observância da lei como meio de salvação (Gl 3:1-5, 11). A lei deve ser observada como norma da conduta cristã, como a expressão da vontade de Deus, para aqueles que receberam sua graça. ▶ A fé bíblica é basicamente “transferência de confiança” (Hb 4:14-16). Aquele que confiava em si, ou em qualquer recurso humano, passa a con- fiar sem reservas em Cristo. 2CAPÍTULO O i r m ã o d o f i l h o p r ó d i g o Foi levado o irmão mais velho a ver seu espírito mesquinho e ingrato? Chegou a reconhecer que embora o irmão tivesse agido impiamente, era ainda e sempre o seu irmão? Arrependeu-se o irmão mais velho de seu amor próprio e dureza de coração? Com referência a isso, Jesus guardou silêncio. A parábola ainda não terminara e restava que os ouvintes determinassem qual seria o epílogo Pelo irmão mais velho foram representados os impenitentes judeus contemporâneos de Cristo, como também os fariseus de todas as épocas, que olhavam com desprezo aqueles que consideravam publicanos e pecadores Ellen G. White
  14. 14. O irmão do filho pródigo 29 Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao apro- ximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu. Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão esta- va morto e reviveu, estava perdido e foi achado (Lc 15:25-32). A conclusão idêntica nos versos 24 e 32 (“porque esse teu irmão [“meu fi- lho”, v. 24] “estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado”) indica a divisão natural da parábola em duas partes. Na segunda seção, Jesus expõe a atitude dos fariseus. Seu ensino de que a misericórdia divina é espontânea, livre, abundante, os ofendia. A atitude de Cristo de aceitar pecadores e comer com eles (Lc 15:2) antes de reforma e sem a exigência de qualquer período de “observação” era particularmente vista como questionável. O irmão mais velho da história de Jesus reflete a atitude dos fariseus antigos e modernos. A grande maioria de sermões sobre o filho pródigo termina com o verso 24, como se a sessão que segue não fizesse parte da história original de Jesus. Devemos, contudo, notar que o irmão mais velho do rapaz que abandona o lar e viaja para o “país distante” é parte integral da parábola. No primeiro nível, ele reflete a atitude dos murmuradores fariseus, a audiência primária de Jesus, para quem a graça divina oferecida aos “publicanos e pecadores” é um desperdício. Mas num nível mais profundo, o filho mais velho representa um grupo que está muito mais perto de nós. Em última instância, ele trai sentimentos que estão dentro de todos nós. Embora o caráter do irmão mais velho fique exposto apenas no final da história, alguns traços já podem ser percebidos nas entrelinhas da narrativa.
  15. 15. O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo 30 31 Ele é mencionado duas vezes na abertura da cena. Primeiro, o versículo 11 nos informa que o pai tinha dois filhos, e segundo, no versículo 12 lemos que a sua parte da herança lhe é assegurada, porque o texto diz que o pai “lhes repartiu os haveres”. Teria ele também recebido a parte dos bens que lhe cabia? Talvez. Se esse foi o caso, os contornos do seu caráter começam a se delinear! Quais foram as implicações da demanda do filho mais novo? Pelos pa- drões culturais, sua atitude é completamente absurda. No contexto judaico ou helênico da época, seu pedido nem deveria ser considerado. Mais que uma afronta, tal pedido equivalia virtualmente a um desejo de morte do seu pai, como já mencionado anteriormente. Nós esperaríamos que o irmão mais velho reagisse ao pedido do seu irmão mais novo de duas formas: primeiro, ele deveria recusar vigorosamente acei- tar sua parte da herança, em protesto às implicações da demanda. Seu silêncio fortemente sugere que seu relacionamento com o pai também não é muito di- ferente. Então, em segundo lugar, o ouvinte oriental esperaria que o irmão mais velho entrasse verbalmente na história e assumisse o seu tradicional papel de conciliador. Entre os orientais, o rompimento de relações era restaurado pela figura de uma terceira parte, que era sempre escolhida em termos de proxi- midade de relacionamento com cada uma das partes envolvidas. Nesse caso, a função de conciliador caia naturalmente sobre ele, o primogênito, como parte do costume da comunidade (BAILEY, 1978, p. 168). Seu silêncio significa consentimento. O Talmude, a codificação das tradi- ções judaicas, especifica que os filhos tinham a responsabilidade de reconcilia- ção nas questões familiares. Mesmo que o filho mais velho odiasse seu irmão mais novo, ele deveria tentar a reconciliação por amor do seu pai. Mas esse filho permanece em silêncio. E seu silêncio deixa transparecer seu problema de rela- cionamento com o pai. A essa altura, o suspeito passa a parecer culpado. O filho mais velho sabe que o pedido do seu irmão é impróprio e dele se esperava no mínimo a recusa em partilhar de tal demanda, em clara afirmação de lealdade ao seu pai. Mas, ao contrário, ele aceita a transação em silêncio e provavelmente se beneficia dela. Significantemente, os filhos mais velhos no Antigo Testamento são em geral descritos como mesquinhos, exteriormente or- todoxos e hipócritas. Assim, torna-se fácil perceber no perfil desse filho mais velho um quadro já visível nos versos iniciais. Alguns intérpretes têm sugerido reformular o título da parábola e cha- má-la de “a história dos dois filhos perdidos”. Há uma certo sentido nisso, porque se o filho mais novo estava perdido no “país distante”, o mais velho está igualmente perdido, mas em “casa”. Perdido por trás da fortaleza de sua religião, hipocrisia e justiça própria. Mas o título “os dois filhos” tiraria do en- sino de Jesus o seu verdadeiro centro, pois o principal personagem da história não é nenhum dos dois filhos, mas o pai. Lucas 15:25-32, apresenta a segunda metade da parábola. Essa seção, de certa forma, corresponde a uma repetição da primeira metade. Os detalhes são dessemelhantes, mas em natureza essencial as duas partes se completam. A segunda parte da parábola Énaúltimacenaqueoverdadeirocaráterdofilhomaisvelhosetornaevidente. O texto (v. 25), bem no estilo de Lucas, extremamente observador quanto aos deta- lhes importantes, informa que ele vem do trabalho e, mais tarde, é o trabalho que ele usa como evidência dos seus méritos. Esse filho vive exteriormente com seu pai e o serve também exteriormente. Interiormente, porém, ele está tão distante quanto o irmão e sua condição talvez seja pior, uma vez que ele não tem consciência dela. A tragédia daqueles que são representados pelo filho mais velho na pa- rábola é mais sutil, pois eles se escudam sob a inconsciência da culpa. Eles não só esperam, mas reclamam recompensa com base nos méritos próprios, enquanto estão alienados de Deus. Na verdade, estão mais longe de Deus. Na história de Jesus, não temos nos dois filhos duas categorias: um culpado porque saiu de casa e outro justo porque ficou. Apenas há culpados aqui: o filho mais moço, a quem o pai aceita e perdoa a culpa, e o filho mais velho, que não tem consciência de sua distância do pai. Ao se aproximar de casa (Lc 15:26), ele ouve os sons do festejo. Um filho em relacionamento normal com sua família entraria imediatamente em casa, ansio- Alguns intérpretes têm sugerido reformular o título da parábola e chamá-la de “a história dos dois filhos perdidos”. Há uma certo sentido nisso, porque se o filho mais novo estava perdido no “país distante”, o mais velho está igualmente perdido, mas em “casa”.
  16. 16. O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo 32 33 so por juntar-se à celebração, qualquer que fosse a razão. Mas esse filho, não! Ele recusa entrar e exige uma explicação. A resposta do servo é cuidadosamente elaborada. Ele informa que o seu irmão que estivera fora havia retornado e que seu pai estava dando uma festa porque o jovem voltara são e salvo. Note que a ênfase novamente é colocada nos sentimentos e atitudes do pai. A nossa habi- lidade de nos regozijar pelo retorno do perdido mede a sinceridade de nossa profissão de entender e conhecer a Deus. Segundo o versículo 28, o filho mais velho não se interessa por aquilo que está no coração do seu pai, sua preocupação se centraliza nele próprio. O filho mais velho reflete sobre a questão e resolve ficar do lado de fora. O costume exigia sua presença. Em semelhante banquete, o filho mais velho tinha uma po- sição particular e semi oficial. A cultura esperava que ele se movimentasse entre os convidados, cumprimentando-os, e certificando-se de que nada faltava a eles. Dele se esperava que entrasse, abraçasse seu irmão, apresentasse publicamente as boas vindas e se congratulasse com o seu pai pelo retorno do irmão mais novo. As reclamações poderiam ser tratadas depois que todos saíssem. O filho mais velho, entretanto, escolhe humilhar o seu pai publicamente, discutindo a questão enquanto os convidados estão presentes. O pai preparara um banquete, o que implica na presença de todas as pessoas importantes da vila. Assim, a ira do filho mais velho é um público desacato. O costume oriental, que coloca alta consideração na autoridade do pai, torna a atitude insolente desse filho um vexame. Se no início da parábola é o filho mais novo que rompe as relações com o pai, agora é o filho mais velho que o faz. Novamente o pai vem para fora, pela segunda vez no mesmo dia, ofere- cendo em pública humilhação uma demonstração de inesperado amor. Aqui também o pai vem para fora, não menos ansioso pelo filho mais velho do que quando saíra pelo filho mais novo. Ele sai, mas não para repreender esse filho, como se poderia esperar. Entramos aqui no clímax da segunda parte da história. “Saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo” (Lc 15:28). Ao contrário de uma confissão, o filho mais velho faz uma dupla queixa. Note em primeiro lugar que ele se dirige ao seu pai sem usar nenhum título, nenhum tipo de tratamento respeitoso. Títulos são utilizados ao longo da narrativa até este ponto. Entretanto, na queixa regis- trada nos versos 29 e 30 notamos a ausência de qualquer indicação de respeito. O filho mais velho demonstra a atitude e o espírito de um escravo, não de um filho. “Olha, tenho trabalhado como um escravo há tantos anos.” Aqui a máscara cai completamente, revelando a distância do seu coração. O pai pen- sara que tinha um filho, mas para o filho mais velho a casa do pai equivalia à escravidão. Ele tem vivido na casa com o espírito de escravo, não com a familia- ridade de um filho. Para ele, um cabrito lhe era devido em pagamento por causa dos seus serviços. Sua atitude é clara: “eu tenho trabalhado, onde está a minha recompensa?” Ele reflete a atmosfera de uma disputa por salário. Como o seu irmão mais novo, no início da história, ele demonstra mais interesse nas posses do seu pai do que no próprio pai. Ele insulta o pai publicamente e ainda é capaz de afirmar que nunca havia transgredido um mandamento dele (Lc. 15:29). Ironicamente, o filho mais ve- lho viola o mandamento da honra devida aos pais precisamente na reivindica- ção de que observava os mandamentos. Ele se considera justo e, portanto, não necessita de arrependimento. Essa é a tragédia do legalismo. Esse é o espírito do farisaísmo, dos noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Em sua arrogância, ele é capaz de afirmar que nunca transgrediu o mandamen- to do seu pai, mas sua obediência é mera questão de formalismo exterior. Essen- cialmente ele reclama que o pai recompensa o que não merece e negligencia o diligente. A questão não é tanto a generosidade do pai, mas o objeto dela. O pai, na sua compreensão, recompensa a pessoa errada! A diferença entre ele e o seu irmão mais novo é que aquele demonstrou re- beldia ao partir de casa em direção ao país distante. O filho mais velho é rebelde no coração, enquanto permanece dentro de casa. A rebelião do filho mais novo foi evidente em sua decisão de deixar a casa do pai, mas a rebelião e alienação do mais velho é mais sutil, uma vez que ela atua no interior, invisível aos olhos. Ele acusa seu pai de favoritismo e nega qualquer favor estendido a ele, mesmo o que ele merecia. Ao anunciar sua noção de alegria (“nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos” (Lc. 15:29)), ele revela que alegria para ele se resume em divertir-se na companhia dos amigos. A recupera- Novamente o pai vem para fora, pela segunda vez no mesmo dia, oferecendo em pública humilhação uma demonstração de inesperado amor. Aqui também o pai vem para fora, não menos ansioso pelo filho mais velho do que quando saíra pelo filho mais novo.
  17. 17. O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo 34 35 ção do seu irmão, não significa nada para ele. Ele deseja organizar a sua própria festa e fruir a sua própria concepção de alegria, a qual não inclui o seu pai ou seu irmão. Emocionalmente, a sua comunidade está lá fora, entre os amigos. Virtualmente, esse filho declara não ser parte da família. Assim, ele não é me- lhor do que irmão mais novo. A diferença entre eles é que o mais novo é “um pecador confesso”, enquanto o mais velho é “um santo hipócrita”. Ele permane- ceu em casa enquanto alienado do seu pai. O filho mais velho recusa considerar o pródigo, seu irmão, limitando-se a referir-se a ele como “este teu filho”, negando, assim, qualquer relacionamento com seu irmão ou com o seu pai. Ele ataca seu irmão e o acusa de desperdiçar os bens do pai com as meretrizes. Mas como ele sabe? Provavelmente porque isso é precisamente o que ele faria. Aparentemente, sua tese é a de estabelecer que seu irmão mais novo caiu na categoria de um filho rebelde e, sendo esse o caso, deveria ser apedrejado de acordo com a lei (Dt 21:18-21). Em suma, seu discurso é uma extravasão de rancor e rebelião reprimidos. Como o seu pai responde, diante de tal cena? A festa certamente havia parado. A música e a dança haviam cessado e pesado silêncio tomara o ambiente. Os convidados esperavam uma violenta re- ação paterna. Contudo, pela segunda vez no dia, o pai se humilha. Sua resposta explode em profundo amor. O pai poderia silenciar o filho. Fazê-lo entrar, se ne- cessário com a ajuda de alguns servos, caso sua autoridade não fosse suficiente. Ele poderia humilhar o filho e obrigá-lo a assumir sua função na festividade. Mas o que ele ganharia com isso? Ele já tem um escravo na pessoa desse filho. O pai esquece a omissão de um tratamento respeitoso, a amargura, a arrogância, o insulto, a distorção dos fatos e as acusações injustas. Não en- contramos em sua resposta nenhuma crítica ou rejeição. Em agudo contraste com o filho mais velho, ele começa com um título afetivo: “filho”. A língua portuguesa aqui não captura a profunda afeição envolvida no termo grego utilizado. A conciliatória palavra “filho” é extraordinariamente significativa à luz do amor rejeitado que o pai tem que tolerar. As palavras finais, registradas nos versos 31 e 32, são palavras que procedem do coração ferido, porque esse pai ansiava ter a alegria completa e ver seus dois filhos em sua casa, na sua festa de celebração. O pai afirma que os direitos do seu filho mais velho estão plenamente garantidos, mesmo quando a graça foi esten- dida ao pródigo. “Tudo o que é meu é teu.” O retorno do seu irmão não afeta em nenhum grau a sua posição. Extraordinárias palavras: “Tudo o que é meu é teu.” De forma sutil, o pai observa que a categoria de servo expressa por seu filho é inapropriada para o relacionamento deles. O filho dissera: “há tantos anos sou teu servo […] e nunca me deste um cabrito sequer” (Lc 15:29). O pai responde: “tu és o herdeiro e nesta posição tudo já lhe pertence” (Lc 15:31). Gentilmente, o pai o lembra de que o pródigo é seu irmão, e de que ele deveria agir como parte da família. A inesperada oferta de amor diante do ato de pública humilhação tem sua contrapartida na cruz. O Deus descrito por Jesus na parábola transcende o mesquinho, vingativo e autoritário deus de nossa própria criação. O Deus de Jesus não necessita possuir nada, nem controlar ninguém. O que Ele tem, Ele oferta, e para Ele, a única resposta satisfatória é aquela que brota do amor. Livre e espontaneamente. Entretanto, na oferta de amor do pai e na resposta do filho mais velho, nos encontramos mais uma vez com o ponto fraco do amor: o amor pode ser rejeitado! Embora a parábola represente os fariseus e os publicanos, a real identi- ficação é muito mais profunda. Jesus, em última análise, está discutindo dois tipos básicos de pessoas. Um que vive fora da lei, sem a lei, e outro que vive sem lei, mas “dentro da lei.” Um que está perdido por ser “mau”. O outro que está perdido por ser “bom”, “muito bom”. A lei está presente na parábola. O fi- lho mais novo a transgride, o mais velho a “guarda”. Ironicamente, o filho mais velho representa aqueles que transgridem a lei por “guardarem a lei”. Se pecado é apenas “transgressão da lei”, eles não se sentem pecadores, por que “guardam A inesperada oferta de amor diante do ato de pública humilhação tem sua contrapartida na cruz. O Deus descrito por Jesus na parábola transcende o mesquinho, vingativo e autoritário deus de nossa própria criação. O Deus de Jesus não necessita possuir nada, nem controlar ninguém. O que Ele tem, Ele oferta, e para Ele, a única resposta satisfatória é aquela que brota do amor.
  18. 18. O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo 36 37 todos os seus mandamentos.” Mas ambos são pecadores e rebeldes. O mais novo é culpado de sua injus- tiça e o mais velho é culpado por sua “justiça”. Ambos partem o coração do pai. Ambos terminam no país distante. Um fisicamente, o outro emocional e espiri- tualmente. O mesmo amor é demonstrado em humilhação em cada caso. Para ambos, o amor é crucial, porque só o amor pode transformar servos em filhos. Não temos na parábola a ideia de que um filho é tratado com favoritismo e o ou- tro repudiado. O mesmo amor paterno estende a ambos o privilégio da filiação. Perceptivamente, Ellen G. White (2004, p. 209) observa: Foi levado o irmão mais velho a ver seu espírito mesquinho e ingrato? Chegou a reconhecer que embora o irmão tivesse agido impiamente, era ainda e sempre o seu irmão? Arrependeu-se o irmão mais velho de seu amor próprio e dureza de coração? Com referência a isso, Jesus guardou silêncio. A parábola ainda não terminara e restava que os ou- vintes determinassem qual seria o epílogo. Ellen G. White, claro, tem ampla percepção da audiência original da pará- bola e seus desdobramentos ao longo da história. “Pelo irmão mais velho foram representados os impenitentes judeus contemporâneos de Cristo, como tam- bém os fariseus de todas as épocas, que olhavam com desprezo aqueles que consideravam publicanos e pecadores (WHITE, 2004, p. 209). O irônico na história de Jesus é que também corresponde a uma séria advertência às vítimas do legalismo religioso, os “justos” dentro da igreja, que se julgam merecedores de recompensa especial por seus atos de justiça própria. É quando a cortina desce sobre esse drama que encontramos uma poderosa inversão. O filho mais novo, que estava fora, termina dentro da casa do pai. O mais velho, que pretendia estar dentro, permanece fora. A parábola chega a uma conclusão inimaginável. Deliberadamente, Jesus deixa o irmão mais velho em seu estado alienado. O filho mais novo, “o mau caráter” da história, entra na festa do seu pai, enquanto o filho “bom” permanece fora. Podemos quase ouvir o pigarro dos fariseus quando a história termina com essa completa inversão de tudo aquilo que eles haviam aprendido e ensinado! Para ponderar Para quem o ensino de Jesus nessa parábola é dirigido? Primariamente para os escribas e fariseus. É em resposta à atitude deles, criticando o fato de Jesus receber “pecadores”, que Ele inicia a história dos dois filhos. A parábola provê uma visão ampla da alma do filho mais velho e termina com um podero- so apelo para que ele também mude seu coração. Do lado de quem Jesus está? Em termos concretos, do lado de ninguém, porque, na realidade, ninguém está completamente do seu lado. Contudo, nos evangelhos (particularmente no Evangelho de Lucas), aqueles que eram estra- nhos ao mundo religioso e às suas observâncias moralistas nos dias de Cristo foram especialmente atraídos ao Salvador. Nos casos em que Jesus se encontra com alguém religioso e um excluí- do sexual, como em Lucas 7 (a pecadora que lava e perfuma os seus pés), ou com um religioso e uma pessoa marginalizada por racismo, como em João 3 e 4 (Nicodemos e a mulher samaritana), ou ainda com um religioso e alguém socialmente excluído, como em Lucas 19 (Zaqueu), são as pessoas excluídas e marginalizadas da religião que mais facilmente se conectam com Cristo. Aque- les simbolizados pelo irmão mais velho, os representantes da religiosidade, per- manecem afastados e distantes. Não é por acaso que aos respeitáveis líderes religiosos dos seus dias, Jesus dirige um poderoso julgamento: “publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus” (Mt 21:31). Os ensinos de Cristo consistentemente atraíram os não religiosos, os que pertenciam à “prateleira de baixo” do judaísmo, enquanto ofenderam a religio- sidade de muitos dos “santos” de então. A razão para tal ofensa é que Jesus redefiniu tudo o que os fariseus (tanto os antigos como os modernos) pensavam e sabiam acerca da conexão com Deus. Ele redefiniu a noção de pecado e tam- bém o que significa estar perdido e ser salvo. O irmão mais velho se orgulha diante do pai de nunca haver quebrado ne- nhum dos seus mandamentos, portanto não há nele verdadeira consciência de pecado. Pecado, para os “irmãos mais velhos” é basicamente falhar em guardar Podemos evitar a Jesus como Salvador, enquanto guardamos todas as regras, simplesmente porque as regras passam a funcionar como um salvador substituto.
  19. 19. O irmão do filho pródigoO Incomparável Jesus Cristo 38 39 uma lista de regras de conduta, enquanto que a definição de pecado de Jesus vai muito além de mero desempenho humano exterior. Podemos evitar a Jesus como Salvador, enquanto guardamos todas as regras, simplesmente porque as regras passam a funcionar como um salvador substituto. Muitas pessoas religio- sas correm esse sério risco. Passam a confiar em sua “obediência”. Concentram- -se na lista do “faça e não faça” e, dessa forma, se tornam orgulhosos do seu desempenho, julgando ter controle sobre Deus. É obvio que a confusão sobre a noção de pecado engendra, além de confusão sobre a salvação, espírito de comparação competitiva como a prin- cipal maneira pela qual “irmãos mais velhos” alcançam o seu senso de signi- ficado e superioridade espiritual. Em Romanos 14:23, a revelação define pecado em termos de relaciona- mento e motivação: “tudo o que não provém de fé é pecado.” Isso vai muito além de todas as regras que podemos observar exteriormente. A questão não é apenas o que fazemos, mas por que fazemos! Dessa forma, mesmo uma pessoa que virtualmente não viola nenhum dos mandamentos na lista do “mau comportamento” pode, como o filho mais velho da parábola, estar espiritualmente perdido, tanto quanto os imorais, condenados por eles. Por quê? Porque confiam neles mesmos como salvador, senhor e juiz, em vez de confiar na pura graça de Deus. Membros da igreja com a “síndrome do irmão mais velho”, justos e su- periores aos seus próprios olhos, na idolatria das formas sem essência e exi- gentes, se tornam frios, acusadores e julgadores de todos os outros que não alcançam o seu “padrão” de justiça própria. Provavelmente, a atitude deles tem sido responsável pelo fato de muitos “irmãos mais novos” deixarem a casa do Pai. E certamente eles se tornam um grande obstáculo para o retorno desses. Contudo, os “irmãos mais velhos” se tornam obstáculo ainda maior para aqueles que nunca conheceram a casa do Pai, cuja impressão que têm dela é inteiramente negativa face ao moralismo patológico e “santidade” vazia daqueles que dizem conhecer a Deus. Os “irmãos mais velhos” da igreja facilmente se tornam irados com aqueles que discordam deles e, em sua defesa, passam a citar seu desempenho. Como os fariseus dos tempos de Jesus, eles “dizimam o endro, o cominho e a hortelã” em termos do perfeccionismo atual, escorado em uma enorme quantidade de textos de Ellen G. White, lidos equivocadamente. Esquecem- -se, porém, de que “o cristão está no mundo como representante de Cristo, para a salvação dos outros” e que “na vida que se centraliza no eu não pode haver crescimento nem frutificação” (WHITE, 2004, p. 67 e 68). Esquecem-se, ainda, de que é “recebendo o Espírito Cristo — o espírito de amor abnega- do e do sacrifício por outrem […] [que] mais e mais refletirão a semelhança com Cristo.” (WHITE, 2004, p. 68). Assim, o caráter de Cristo se reproduzirá perfeitamente em seu povo, não por obediência legalista e perfeccionismo enfermo, mas pelo amor e pelo serviço abnegado. Só “então [Cristo] virá para reclamá-los como seus” (WHITE, 2004, p. 69).
  20. 20. 3CAPÍTULO O F a r i s e u e o P u b l i c a n o “Os que têm a mais profunda experiência nas coisas de Deus são os que estão mais longe do orgulho e da presunção”. Ellen G. White “Quando um homem está se tornando verdadeiramente melhor, ele entende mais e mais claramente o mal que ainda permanece nele. Quando um homem está se tornando pior, menos e menos ele entende sua própria malignidade.” C. S. Lewis
  21. 21. O Fariseu e o Publicano 43 Propôs [Jesus] também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: ‘Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este pu- blicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.’ O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, sê propício a mim, pecador!’ Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado (Lc 18:9-14). Jesus era mestre em arrancar máscaras e destruir pretensões infundadas. Desde os seus dias, os pretensiosos de todas as épocas têm encontrado nele o poderoso desafio de se ver como na verdade são, sem os corretivos cosméti- cos dos quais tanto gostamos. O “serviço”, a “santidade”, a “perfeição” e a “jus- tiça” baseados em distorcidas avaliações próprias enfrentam o seu devastador contra-ataque. E isto porque Jesus sabe que se existe alguma esperança para as vítimas de ilusões patológicas sobre si mesmos, essa tem que ver com o chama- do dele para que se enxerguem sob ótica realista. O grande problema com a mentira (e a pior forma de mentira é aquela que nos engana a nosso respeito) é que quanto mais repetida, ela cria enormes raízes e passa a se transformar em verdade, na nossa verdade. Dessa forma, a probabilidade de restauração torna-se praticamente impossível. Por outro lado, aqueles que ge- nuinamente passam a ver sua verdadeira condição já estão parcialmente curados! Autoimagem negativa, bem como sentimento crônico de culpa e inferiori- dade, são distorções associadas com inúmeras atitudes doentias. Por outro lado, contudo, menos criticado ou avaliado é o outro extremo destes comportamen- tos. Complexo de superioridade e autoavaliação inflacionada de justiça própria geram outras formas de males, em última análise até mais sérios e sutis, menos discutidos, menos vistos e de cura mais difícil. Tais atitudes frequentemente são vistas como “autoimagem positiva”, passando-se, assim, por virtudes. Na cultura
  22. 22. O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo 44 45 em que Cristo viveu (o judaísmo do primeiro século), a autoimagem, em gran- de medida, passou a ser determinada pelo desempenho religioso. Os fariseus não tinham rival em “autoestima positiva”. Ninguém poderia amá-los mais do que eles se amavam. Eles eram como Edith, na descrição do novelista (CAR- ROL, 2006, p. 16): “Edith estava cercada no leste, oeste, norte e sul por Edith.” A história de Jesus nesta parábola, como Ele costumeiramente faz, coloca em contraste duas figuras clássicas dos seus dias1 . Em geral, fazemos um julga- mento negativo nos fariseus, considerando-os como consumados hipócritas, e facilmente os condenamos ao apedrejamento privado. Sem dúvida, os fariseus aparecem como vilões nas narrativas dos Evangelhos. Eles são descritos como cheios de justiça própria, cobiça, inveja e hipocrisia. As ocasionais exceções não afetam essa imagem dominante que deixaram. Eles eram os atores dos dias de Jesus. As megacelebridades religiosas. Quem poderia competir com eles? Contudo, esse não é o quadro completo. Longe de ser apenas modelos de falsa piedade, corrompidos por justiça própria e orgulho, os fariseus represen- tavam também um modelo de piedade e virtude, dignos do padrão que eles haviam estabelecido. Os fariseus não formavam um corpo separado, como uma denominação. Ao contrário, eles permeavam todo o judaísmo. O grupo era unido por severas regras de conduta. O farisaísmo era um tipo de irmandade exclusiva, evitando contato com aqueles que eram considerados imundos ou desobedientes à lei. O ideal religioso deles era cumprir a integridade da Torah (as leis do Pentateuco), e aplicar os detalhes legais a cada aspecto da vida diária (alimento, associação na mesa de refeições, jejum, oração, guarda do sábado, sacrifício, dízimo e ofertas, nascimento e funeral). De fato, os fariseus não eram o pior, mas o melhor que o esforço humano podia produzir. Embora não fossem muitos. em número, eles formavam um corpo religioso de extremo poder.2 1 Em várias de suas histórias e nos seus ensinos, encontramos o contraste entre duas figuras: os dois filhos (Lc 15:11), os dois devedores (Lc 7:41), os dois construtores (Mt 7:24-27), dois caminhos (Mt 7:13,14) dois senhores (Mt 6:24) etc. 2 Flavio Josefo, o historiador judeu do primeiro século, descreve os fariseus de ma- neira que coincide com as impressões que extraímos dos Evangelhos. Ele fala de um corpo de judeus que professava ser mais religioso do que o resto da nação, explicando as leis mais detalhadamente, e que se orgulhava do seu zelo, pela exata interpretação delas (Guerra Judaica II.VIII.14; Antiguidades XVIII.13). O Talmude reconhece a existência de vários tipos de fariseus e faz diferença entre sete grupos deles, caracterizando-os com adjetivos descritivos que os expunham ao ridículo: 1) os fariseus do tipo “espere- -um-pouco”: os que sempre encontravam uma desculpa para adiarem uma boa ação; 2) os do tipo “machucado e sangrento”: para evitar olhar para uma mulher, fechavam O problema teológico da atitude dos fariseus em busca pessoal de acei- tação diante de Deus é que ela passava a desconsiderar a graça divina, ou mesmo a vê-la como supérflua. O que Jesus condena não é tanto a busca da justiça, mas o tipo de justiça que se isola da oferta de graça. Uma justiça falsa, que se torna um método de salvação, e que, ao mesmo tempo, des- considera a profundidade e gravidade do pecado. Este é o problema do per- feccionismo, antigo e atual. Visão errada do pecado e, consequentemente, visão errada da graça. A grande ironia no ensino paulino presente no início da carta aos Romanos é que, se por um lado, os gentios estão sob a ira de Deus por sua injustiça (Rm 1:18-32), por outro, a religiosidade judaica é condenada tanto pelo pecado quanto por sua justiça (Rm 2:1–3:18). E assim, a conclusão é a de que todos estão debaixo da condenação da ira de Deus (Rm 3:9-19): injustos e “justos”. Os fariseus eram obcecados pela perfeição religiosa. “Perfeccionistas” inveterados, absorvidos por uma enorme e exaustiva quantidade de detalhes externos de práticas piedosas, em si mesmas até louváveis. Entre eles encon- tramos homens como Nicodemos e Saulo de Tarso, o posterior apóstolo aos gentios. Paulo, depois de seu dramático encontro com Cristo, descreve sua experiência passada de maneira reveladora e quase pungente: “se qualquer seus olhos e tropeçavam e caíam, machucando-se e sangrando; 3) o tipo de fariseus que usavam “ombreiras”: suas boas ações eram ostentadas nos ombros, onde todos podiam ver; 4) os do tipo “corcunda”: caminhavam curvados, demonstrando humildade; 5) os do tipo “contador”: contando continuamente suas boas ações para fazer o balanço dos seus atos; 6) os fariseus “tementes a Deus”, que se portavam como amedrontados e ater- rorizados por Deus, e, finalmente, 7) aqueles que “amam a Deus”, ou seja, os que eram verdadeiros filhos de Abraão e, portanto, genuínos fariseus. Eque qui poerdius An Itas ad facit. Ad condeli caverum tandienam la prit. Batorun traequi ssedessil hici publius dero ut aucondam notiaelaris foriciis? Endam quitrum pes Multuroxim Romnemo ritustorum tervirmilis atum.
  23. 23. O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo 46 47 outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp 3:4-6). Paulo foi curado, por uma radical transforma- ção na maneira pela qual, como fariseu, ele se via. Não é de admirar que na introdução da parábola somos informados pelo comentário editorial de Lucas que Jesus “propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e des- prezavam os outros” (Lc 18:9). A confiança dos fariseus era baseada neles próprios. Essa é a característica comum de todo sistema de autoestima cen- tralizado nos homens e na dependência deles. A história de Jesus refere-se a dois relacionamentos truncados: primeiro, o relacionamento confuso com Deus; segundo, o resultado natural desse engano, o relacionamento distor- cido consigo e com os outros. Todos necessitamos de autoimagem positiva, contudo é necessário enten- der claramente que existe uma diferença crucial entre a autoimagem baseada em nossa própria avaliação, em nossas realizações e desempenho, e a autoi- magem positiva baseada em Deus e no valor que Ele nos atribui. Neste caso, a autoimagem realista se coloca acima de complexos, quer de inferioridade ou de superioridade, porque passamos a depender da revelação sobre quem real- mente somos como criaturas de Deus. Por um lado, pecadores, mas por outro, objetos do infinito amor e da graça de Deus, que “não faz acepção de pessoas” (At 10:34). O resultado pode parecer ambivalente, mas em última análise e a única solução final para uma percepção realista de nós mesmos.3 A oração do “justo” O autor da carta de Tiago escreve que “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16). Na parábola do fariseu e do publicano, Jesus fala sobre a oração de um outro tipo de “homem justo”, afetado por seu próprio julgamento. Por que? Parece que para Jesus existe uma justiça que exclui a vida proveniente da graça de Deus. O farisaísmo era a presunção religiosa em frontal oposição à graça. Bons cidadãos, bons vizinhos, excelentes membros da igreja, colunas da comunidade, observadores meticulosos das regras e exigência, mas tudo isso na busca da santidade em termos de estilo de vida, o que em última 3 O psicólogo cristão Paul Tournier (1985) escreveu um livro extraordinário sobre tal ambivalência: Culpa e Graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho. instância não acrescenta absolutamente nada para a salvação em Cristo. O le- galismo é incrivelmente ingênuo, porque subestima os efeitos do pecado nos seres humanos. Como corretamente observado por Richard Rice (1997, p. 243), “mais do que ingênuo, [o legalismo] é diretamente pecaminoso. Ele surge da orgulhosa pressuposição de que seres humanos caídos, neles próprios, podem merecer o favor divino, quando nada poderia estar mais longe da verdade.” O fariseu da história de Jesus vem ao templo e, em pé, passa a orar com fervor, separado de outros adoradores. Mas Jesus, num diagnóstico simples, desmascara sua pretensão. Ele orava consigo, acerca de si mesmo ou para si mesmo. A oração, que deveria ser primariamente centralizada em Deus, acima da idolatria das formas, no intuito de se buscar a essência, aqui se centraliza no ser humano. Ele ora para si e não para Deus. Nas suas palavras faltam expres- são de louvor, agradecimento genuíno ou verdadeira adoração. Tal oração se apresenta sem qualquer preocupação verdadeira com aquilo que Deus é ou faz. Sua oração é apenas uma forma de autocongratulação. Com as mãos le- vantadas, ele apenas dá “tapinhas” de reconhecimento pessoal em suas próprias costas. Embora ele agradeça a Deus por “não ser como os demais homens”, apa- rentemente não há nenhum senso de estar na presença de Deus. Isso certamen- te o poria em espírito contrito de reverência e submissão. Ele permanece de pé, convencido de que faz parte de uma classe especial, acima de todos os outros. O fariseu tem tudo documentado, preto no branco, e a lista é impressiva! Ele, entretanto, não está impressionado por aquilo que ele é comparado com Deus, mas com o que ele é comparado com os outros, descritos como “rouba- dores”, “injustos”, “adúlteros” e “coletores de impostos”. Ele não se concentra em falar o que é, mas o que ele não é. Sua personalidade é negativa. É claro que qualquer um descrevendo o que ele não é, pode gastar muito tempo discursan- do. Sua oração poderia impressionar os membros de sua sociedade religiosa. Se o Antigo Testamento requeria cinco dias de jejum por ano, ele jejuava duas vezes por semana. Se o dízimo era requerido das rendas, ele dizima tudo o que possui. Estas eram a marca de sua piedade: os fariseus faziam muito mais que o Por um lado, pecadores, mas por outro, objetos do infinito amor e da graça de Deus, que “não faz acepção de pessoas” (At 10:34)
  24. 24. O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo 48 49 exigido, e se orgulhavam disto! Jesus não sugere que as reivindicações do fariseu sejam mentira. O seu problema é um inflacionado conceito de si por um lado, e, por outro, um de- flacionado conceito de Deus. Ele, em última análise, não estava na presença de Deus. Ele ora para si mesmo, cercado no leste, oeste, norte e sul, por ele mesmo. Este ator do primeiro século poderia concordar com Joseph Kennedy, que cos- tumava dizer aos seus filhos: “o que você é, não é nem de perto tão importante como aquilo que você parece ser.” Mas esta é a ética dos políticos, em aberta negação da ética cristã e bíblica. O publicano O que está errado com a oração do fariseu? Ela poderia até ser conside- rada sincera e verdadeira. Ele andou a segunda milha no cumprimento da lei. A falha da sua oração, contudo, torna-se aparente apenas em contraste com a súplica do coletor de impostos. O outro personagem, segundo Jesus, também veio ao templo para orar. Sua reputação é o extremo oposto em relação à do fariseu. A palavra publicano, no português, vem do latim publicanus, que significava “um oficial romano de impostos”. O termo sofreu ao longo do tempo desdobramentos semânticos e históricos. Assim, os homens que encontramos nos evangelhos como publica- nos eram geralmente judeus a serviço de Roma. Eles eram apenas agentes me- nores do sistema, contudo, ainda assim odiados pela população. Para a nação escolhida, os coletores de impostos eram o último elo de uma corrente intolerá- vel. A maioria dos judeus cria que os publicanos haviam desertado o judaísmo para servirem os odiados romanos. O estigma acrescentado pelos judeus a essa desprezada atividade é ilus- trado pelo tipo de pessoas geralmente associado com os coletores de impostos, nas fontes judaicas. Na Mishnah, por exemplo, eles aparecem ligados a ladrões, cambistas, gentios e assassinos. Nos evangelhos, eles aparecem mencionados com as prostitutas (Mt 21:31), ladrões, trapaceiros, adúlteros (Lc 18:11) e pe- cadores (Mt 9:11; Lc 19:7). De fato, os coletores de impostos tornaram-se si- nônimo de pecadores (Lc 15:1). Os publicanos não podiam ser membros da comunidade farisaica, e se um fariseu se tornasse coletor de impostos, ele era automaticamente expelido. Socialmente, os publicanos passavam a viver em ostracismo, privados mesmo de direitos civis, concedidos até aos bastardos. Não sendo político ou membro do clero, Jesus tornou-se amigo deles. E certamente Ele chocou o senso de de- cência dos seus contemporâneos, chamando um coletor de impostos para ser um dos seus discípulos (Levi Mateus), e livremente se associando a coletores de impostos e partilhando refeições com eles. Se o publicano da parábola de Jesus merecia a reputação do seu grupo profissional, não é declarado. Mas sua posição e comportamento revelam a atitude de alguém que ao mesmo tempo em que quer vir à presença de Deus, também se sente profundamente desqualificado para isso. Ele permanece à distancia, “longe” (Lc 18:13). Tão longe quanto possível do altar ou do lu- gar onde o confiante fariseu se havia posto. O fariseu se colocava separado a fim de evitar contaminação. O publicano ficou longe porque se sentia impuro. Seus olhos fitam o chão, incapaz mesmo de levantar a cabeça. A linguagem do seu corpo revela culpa. Ele bate no peito num bem conhecido gesto de ar- rependimento e tristeza.4 Ele age como se estivesse na presença da morte (Lc 23:48). O publicano não tem nenhuma ilusão a respeito de si. Tudo a seu res- peito fala de arrependimento e da plena falência humana. Aqui encontramos um homem sem qualquer pretensão a seu respeito. Sua oração dificilmente é uma prece, mas um grito do coração. Como Lutero, o grande reformador do século XVI, que no leito de morte foi ouvido dizer com frequência e em voz baixa, dirigindo-se ao Senhor: “ó Deus, tem misericórdia deste pecador fedorento.” O publicano não se dirigiu para o tem- plo a fim de lembrar a Deus dos seus méritos, mas para encontrar-se com Ele. Há um senso de desespero nesse personagem. Sem mencionar suas falhas, ele se limita a descrever a si próprio como um “pecador”. Não há em sua oração, nenhuma escusa, porque ele sabe que Deus não perdoa escusas, apenas pecados. Rejeitado pelos outros judeus, e condenado por si mesmo, ele faz a única oração que lhe resta — a súplica pela misericórdia de Deus. Ele implora a Deus em linguagem penitencial, aparentemente extraída do Salmo 51:1. Jesus não permite que a parábola termine com as pontas soltas, para 4 O costume judeu durante a oração era levantar os olhos (Jo 11:14; 17:1; Sl 121:1) e as mãos (Is 1:15), em direção ao céu. O senso de culpa do publicano, o impede de levan- tar os olhos para o céu (Lc 18:13). Não há em sua oração, nenhuma escusa, porque ele sabe que Deus não perdoa escusas, apenas pecados.
  25. 25. O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo 50 51 cada um extrair sua própria conclusão. Ele não deseja que haja qualquer confusão ou dúvida sobre sua mensagem. A inversão é estarrecedora e ines- perada: “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aque- le” (Lc 18:14). O texto não diz que o publicano desceu “sentido-se justi- ficado”, num tipo de “ficção legal”. Ele “desceu justificado”. “Justificar” ou “justificação” são grandes termos das Escrituras. Não significa primariamen- te “fazer/tornar justo”, como no latim justificare, mas “declarar justo”, como no grego dikaiŏ. Aquele que é justificado é declarado (ato forense) justo pelo Juiz do Universo. Como é dito de Abraão, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Rm 4:3). Imputar, significa atribuir, creditar. Isto é, à conta falida do fariseu é creditada a enorme riqueza da graça de Deus. Jesus não está dizendo apenas que o coletor de impostos foi perdoado, mas justificado, colocado em correto relacionamento com Deus. O que Jesus está dizendo é de profundo significado e nos deveria fazer pensar seriamente. As pretensões humanas de justiça, nada significam. Nossa lista de virtudes e práticas não tem qualquer mérito. Nossa folha de serviço nada vale para a nossa justificação. Jesus aqui inverte todo o sistema de valores, uma vez que, segundo as Escrituras, Deus não justifica os justos (Rm 4:5). A justificação é impossível para os que estão confiantes em sua justiça própria, em seu desempenho religioso e mérito pessoal. Isso simplesmente porque aqueles que se sentem assim têm outra justiça que não a única que realmente é efetiva, aquela que é baseada na graça divina. Muitos religiosos podem ter autoimagem vigorosa e autoconfiança impressiva. Mas o pro- blema é que tais noções estão construídas sobre o fundamento errado, e o resultado final é uma grande decepção. O fariseu, na verdade, perdera o seu tempo construindo em fundamen- to falso, “porque todo o que se exalta será humilhado” (Lc 18:14). Sua reli- gião era vazia. Sua oração inútil, sua arrogância, uma tolice. A menos que nos prostremos em genuína atitude de humildade e absoluta dependência da graça, nosso caso está perdido diante do tribunal de Deus. Ele pode jus- tificar apenas aqueles que nada têm a reclamar com base nos seus méritos. Nada a reivindicar, senão misericórdia. A parábola não foi intencionada para nos oferecer uma fórmula de oração a ser usada perante Deus. O que Deus espera é atitude semelhante à do publi- cano. Um coração sensível ao pecado sob a ação do Espírito, dependente intei- ramente do dom gratuito de Deus. É aí que a salvação começa — em humilde aceitação do dom divino. Mas não é aí que a salvação termina. O espírito de fé e humildade que nos qualifica para a justificação torna-se o princípio ativo no crescimento cristão, na santificação e no serviço. Longe de ser complexo de inferioridade, tal espírito é uma realística acei- tação da avaliação divina da condição humana. Aquele que aceita a justiça de Cristo sabe que é um pecador, sem qualquer esperança em si. Mas, ao mesmo tempo, tem consciência de que, justificado pela graça, ele é exaltado por Deus à plena participação na família celestial. É apenas quando nos vemos pelo prisma divino que nossa autoimagem pode ser restaurada plenamente. Autoimagem positiva não é resultado da idolatria do eu, ou da autodeificação, mas da consci- ência da soberania da graça de Deus. Para ponderar John T. Carroll (1996) menciona que quando foi pastor numa cidade do estado de Nova York, costumava colocar semanalmente uma frase no quadro externo de anúncios para chamar a atenção de pessoas que passavam pela frente da igreja. Em certa ocasião, a frase dizia: “Esta Igreja é apenas para pecadores.” No final daquela semana, ele recebeu pelo correio uma carta na qual um mem- bro anônimo escrevia indignado: “Eu estou chocado em saber que nossa igreja é apenas para pecadores. Eu tenho sido membro desta igreja por vinte e cinco anos e nunca percebi que eu estava no lugar errado e não era bem-vindo.” Na semana seguinte, o pastor Carroll escreveu no quadro de anúncios um texto bíblico: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). A conclusão da parábola de Jesus deve ter estarrecido e irado os seus devotos ouvintes. Um piedoso judeu e um ganancioso publicano, acostu- mado a extorquir os outros, sobem ao templo para orar, mas é o último que desce justificado. Qual o problema? O fariseu procurou estabelecer a sua Aquele que aceita a justiça de Cristo sabe que é um pecador, sem qualquer esperança em si. Mas, ao mesmo tempo, tem consciência de que, justificado pela graça, ele é exaltado por Deus à plena participação na família celestial.
  26. 26. O Fariseu e o PublicanoO Incomparável Jesus Cristo 52 53 justiça própria (Rm 10:3) e, portanto, perdeu de vista a justiça divina (Rm 9:30, 31). O coletor de impostos, não tendo nada do que se gloriar perante Deus (Rm 4:2), confiou naquele que “justifica o ímpio” (Rm 4:5). O escândalo da graça, expresso nessa história de dois homens em oração, é que o “justo” não está mais perto de Deus (como ele poderia pensar), do que os injustos que reconhecem a presença divina (a verdadeira santidade) que envergonha todo o desempenho humano erradamente motivado. Porque, em última análise, mais que “transgressão da lei”, o pecado tem uma dimensão relacional, que desce ao nível das motivações. E como o apóstolo relembra, “O que não provém de fé é pecado” (Rm 14:23). Assim, a questão não é apenas o que fazemos, mas por que o fazemos. Nessa parábola, Jesus condena todo o elitismo religioso daqueles que se julgam melhores por causa de suas práticas ostentadas como realizações hu- manas superiores, mesmo quando externamente atribuídas a Deus. Perfeccio- nismo religioso é divisivo, precisamente porque ele cria a noção de que alguns na Igreja são melhores que outros. Enquanto a consciência de nossa verdadeira condição pecaminosa e permanente necessidade é o grande fator de aproxima- ção com os demais conservos, o orgulho separa as pessoas porque desenvolve a noção de superioridade e competitividade. Junto à cruz, entretanto, todos se erguem no mesmo nível. Não está disponível aí nenhum pedestal, escadas, tro- nos ou altas patentes para acomodar justos pretensiosos. A parábola é para todos. Para pregadores e líderes eclesiásticos também. Porque aqueles que proclamam a Palavra do púlpito, ou ocupam cadeiras de responsabilidade religiosa são susceptíveis a grandes ilusões a respeito de si mesmos. Os que, por desempenho ou por serviço, pensam que são superiores ou mais importantes, desconhecem a Deus e não conhecem a si mesmos. Os que julgam que em algum ponto da experiência cristã serão tão justos e santos que não precisarão mais de Cristo, estão ironicamente afirmando que a santidade acaba tendo o mesmo resultado do pecado: separa-nos de Deus (Is 59:2). Em nenhuma circunstância chegaremos a um ponto onde não mais precisaremos orar a Deus “perdoa as nossas dívidas”. Verdadeira santificação é crescente dependência de Deus, não independência dele. C. S. Lewis (apud WALLENKAMPF, p.81) corretamente observa: “quando um homem está se tor- nando verdadeiramente melhor, ele entende mais e mais claramente o mal que ainda permanece nele. Quando um homem está se tornando pior, menos e me- nos ele entende sua própria malignidade.” Nas palavras de Ellen G. White (1993, p. 323), “os que têm a mais profunda experiência nas coisas de Deus são os que estão mais longe do orgulho e da presunção”. Devemos lembrar que o leitor moderno pode aplaudir a repreensão de Cris- to aos fariseus e ser vítima da mesma atitude deles. Como certo professor de uma escola cristã, que, depois de contar a parábola do fariseu e do publicano para as crianças em sua classe, disse ao concluí-la: “agora vamos inclinar a cabeça e agradecer a Deus porque nós não somos como o fariseu.” Facilmente, também podemos pensar que nós não somos como o fariseu ou como aquele professor, tal é a condição infecciosa e enganadora do pecado em nós. Publicanos modernos podem, por outro lado, se julgar superiores, orando: “graças te dou ó Deus, por- que eu sou livre da obediência da tua lei”, ou “eu como e bebo como quero, vivo como quero e nunca dou um centavo à igreja.” Quando coletores de impostos desprezam outros ou a importância da submissão a Deus, com semelhante tom de superioridade, eles estão apenas repetindo a oração do fariseu. Finalmente, a graça de Deus parece ofensiva a todos nós, porque ela é naturalmente contrária à nossa natureza e naturalmente incompreensível à nos- sa miopia e astigmatismo espirituais. Não é por acaso que Jesus advertiu: “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus” (Mt 21:31). Será que tais palavras também nos deixam ofendidos e irados? En- tão, que nos tornemos mais irados ainda, até que nos sintamos envergonhados e supliquemos em sinceridade como o publicano da história de Jesus: “ó Deus, sê propício a mim, pecador!”
  27. 27. 4CAPÍTULO Q u e m é o m e u p r ó x i m o ? “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Levíticos 19:18 “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda as tuas forças” Deuteronômio 6:5

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