Manuel da cachaca contos & casos de boteco

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Manuel da cachaca contos & casos de boteco

  1. 1. MANUEL DA CACHAÇA(CONTOS & CASOS DE BOTECO) CONTOS RECOLHIDOS DO TROPEIRO/ALAMBIQUEIRO DA FAZENDA BANANEIRAS, EMANUEL DORCELINO AMÉRICO, FILHO DE ESCRAVOS, QUE AQUI VIVEU NO SÉCULO PASSADO. CONTOS DE: FERNANDO ANDRÉ CARNEIRO PEIXOTO
  2. 2. 001DEDICO ESTE LIVROÀ MEMÓRIA DE ROQUE SOARES, ZINHO DIOGO E ZÉFERNANDINHOPARA AQUELES QUE LABUTAM NOS ALAMBIQUES,FABRICANDO A NOSSA BOA CACHAÇA, DE MANEIRAARTESANAL, PREOCUPANDO-SE, ANTES DE TUDO, COM ASUA QUALIDADE.
  3. 3. 002 APRESENTAÇÃO Na verdade, “MANUEL DA CACHAÇA” nasceu em 1994,quando recebi de meu amigo Marcus Silvério Machado, o“MANUAL DA CACHAÇA ARTESANAL”, de Carlos EduardoGravatá. Lembro-me muito bem. Era domingo e estávamos noBoteco do Renato. Ao receber o presente, com dedicatória e tudo mais,disse ao Marcus que um dia lhe daria um livro, cujo título seria,“MANUEL DA CACHAÇA”. Fica aqui, pois, o meu agradecimento ao saudoso amigoMarcus, ciclista de Bike-Aventura e BikeCana, hoje pedalando nocéu, que foi o “mandante culposo”, do nascimento de Manuel daCachaça. Manuel da Cachaça, personagem fictício, na realidadeexiste. Existe nos botecos, onde se pratica a verdadeira “Terapiade Grupo”, regada com a boa cachaça, tira-gosto e um bom“bate-papo”. Os casos contados por Manuel da Cachaça, em partesão fictícios como ele próprio. Outros realmente aconteceram,mas foram alterados para melhor se adaptar às personagens(cujos nomes, na maioria, são também fictícios), local e época doacontecimento. Vale aqui ressaltar que estes casos foramrecolhidos, em parte, no tempo em que trabalhei no comérciocom meu sogro, Antônio de Freitas Soares – Idu – que foi semdúvida, o maior contador de casos de PresidenteBernardes/Calambau. O leitor vai observar que nem todos os casos têm oManuel da Cachaça como narrador, bastando para tal observar olinguajar popular do Manuel, que fala com a naturalidadedaqueles que não tiveram acesso à escola, que eram rarasnaquele tempo no velho Calambau. Por essas Minas Gerais, por esse Brasil afora, nascidadezinhas do interior, sempre iremos encontrar os contadoresde casos. E se algum dia, você leitor amigo, encontrar um pretovelho, sentado num banquinho de boteco, fazendo seu
  4. 4. 003cigarrinho de palha, se tiver a fala macia e o sorriso matreiro, nãotenha dúvida, é ele, o Manuel da Cachaça!... FernandoESTE LIVRO É ESPECIALMENTE DEDICADO A ANTÔNIO DEFREITAS SOARES – IDU – MEU SOGRO, QUE FOI SEMDÚVIDA ALGUMA, O MAIOR CONTADOR DE “CASOS” DENOSSA TERRA.
  5. 5. 004 PREFACIANDO O legado folclórico de um povo não se anula ou se esvai,como alguns valores que se perdem. Ao contrário, permaneceformando o rico universo da cultura de tradição popular. Um exemplo de que muitas tradições se firmam, apesarde todos os avanços da modernidade, são os relatos em formade “causos” que encontramos neste livro, com suas envolventesestórias nascidas da imaginação e cultivadas no coração dopovo. É o elemento fantástico que vai, de geração em geração,construindo a imagem de um lugar, enquanto desenha a suaprópria identidade, através de um agradável testemunho. Trata-se de pequenas estórias nascidas do meio popular e gentilmentenarradas, de maneira informal, por Manuel da Cachaça que –acreditem se quiser – foi um dos moradores mais populares denosso município. Com uma linguagem singela, encantadora e envolvente,própria do mundo da contação de “causos”, somos apresentadosaos personagens e conduzidos ao mundo encantado das lendase dos mitos que povoam o imaginário dos habitantes deCalambau - “lugar onde o mato é ralo e o rio faz curvas” e a“Água Limpa” conduz à inspiração. Nada mais prazeroso do que poder transformar um pontofinal em uma vírgula e, assim, ir reconstruindo a história nossa decada dia. Como já diziam os antigos contadores de “causos”:Quem conta um conto, aumenta um ponto. As estórias contadas neste livro seguem uma tradiçãooral transmitida por muitas gerações. Trata-se, portanto, de umelemento extremamente rico da cultura popular. Estórias queouvimos e que levamos conosco pela vida afora permeando onosso universo lúdico cultural. Cabe agora, a você que tem este livro em mãos,aproximar-se da simpática figura do Manuel da Cachaça eexperimentar todas as diferentes emoções que permeiam suasfantásticas narrativas. É indispensável fazer chegar a todos umlivro como este, capaz de redimensionar a fantasia enquanto nos
  6. 6. 005aproxima do conhecimento de nossa gente. Gente criativa ecomprometida com suas origens. Todo mundo tem uma história para contar e todos osassuntos cabem na imaginação fértil do narrador Manuel que –entre uma cachacinha e outra – com seu jeitinho maneiro elinguagem saborosa, vai conduzindo-nos ao fantástico universodas pequenas estórias, ao mesmo tempo em que vai construindoa memória de um povo. Ao Manuel da Cachaça todo o nosso apreço e admiraçãoe, ao seu criador, o nosso muito obrigado. Maria Goretti Guimarães Carneiro (26 de Agosto de 2010) MANUEL DA CACHAÇA
  7. 7. 006 MANUEL DA CACHAÇA Chamava-se Emanuel Dorcelino Américo. Por ter sido, durante muitos anos, “alambiqueiro” na Fazenda Bananeiras, tornou-se popularmente conhecido por Manuel da Cachaça. Era preto, baixo e magro. Sua idade, ninguém sabia. Diziam que passava dosnoventa e sete. Uma coisa era certa, não dispensava, diariamente, a boa“pinguinha”, coisa que fazia, assim dizia, desde os sete anos deidade, quando sua mãe lhe dava numa colher pela manhã, paraservir de remédio. Seu ponto preferido, todos sabiam, era o boteco do ZéCirilo. Toda tarde ali chegava. Chapéu de feltro – um presenteque dizia ter ganhado de um comerciante em Ouro Preto, quandoera tropeiro – paletó xadrez, camisa branca abotoada até aocolarinho, meias brancas de algodão e as inseparáveisalpercatas. Esta figura ímpar transformou-se em folclore local. Seus casos foram ouvidos de geração em geração. No fim da tarde, era o costume, todos se acotovelavamno Boteco do Zé Cirilo, para ouvir, entre um trago e outro, oscasos de Manuel da Cachaça. Numa dessas tardes foi que ele contou o seguinte caso: _ “Quando eu ainda era tropeiro da Fazenda Bananeirase viajava levando cachaça e rapadura pra Ouro Preto e Marianafoi que me “assucedeu” este caso. Nós tava arranchado numa fazenda que ficava lá proslado de Mainarte. Tava eu, compadre Mané Gomes, Tião das Dores, ChicoDutra e Zé do Bento, mocinho ainda com seus dezoito anos. Nós tava já deitados e, pelas gretas do telhado dorancho, a gente podia ver a lua cheia e as estrelas no céu. Foi aí que se ouviu o miado! Zé do Bento morria demedo! Ele tinha a mania de cobrir a cabeça com o cobertor,
  8. 8. 007deixando o nariz de fora. Cutuquei nele, desta vez ele tapou atéo nariz! Tião das Dores e Chico Dutra dormiam a sono solto. Aprocheguei de compadre Mané Gomes pra acordá ele,quando ele, abrindo um olho me falou em voz baixa: _ “Tô ouvino, compadre! Preocupa não, Sô! Tô com o“berro” debaixo do trabisseiro! Vamo esperá pra vê!” Peguei minha espingarda “La Porte” que estavacarregada e me cheguei na janela. Pela claridade da lua pudever a bicha! Era uma baita onça, cês precisava ver! Devia medirmais de dois metros! Tremi da cabeça aos pés! CompadreMané Gomes esticou o pescoço para fora e foi aí que ela mioufeio! Feio e alto como eu nunca mais ouvi igual!” Neste ponto, Manuel da Cachaça interrompeu anarração, acendeu um cigarro de palha, tomou uma pinguinha,raspou a garganta e continuou: _ “Olha, Zé Cirilo, o miado da bicha foi tão alto, que nemos “amprificadô” da Festa da Cana faz mais barulho! Foi aí que compadre Mané Gomes fez aquela besteira,Sô! Pegou o revólve e deu seis tiros pra cima! Acho até que foide susto! A bicha caiu no mato e nós não foi macho de arrear asmulas enquanto não amanheceu de tudo! Dia seguinte, ainda assustados, botamos o pé na estradarumo a Ouro Preto. Lá pras bandas do Sumidouro nós vimos a bicha! Nós havia parado prum descanso e Zé do Bento levou osanimal pra beber água. Quando Zé do Bento viu a danada ele não sabia o quefazer! Borrou pelas pernas abaixo e tentou correr, ela correuatrás! Aí eu peguei minha espingarda, fiquei atrás de uma pedrae gritei pra ele: _ “Para Zé! Para e faz careta pra ela! Onça tem medode careta!” E não é que o Zé me atendeu?! Parou e fez a caretamais feia que já vi no mundo! Pôs os dentes pra fora, arregalou
  9. 9. 008os olhos e como se não bastasse, ainda uivou como um lobo!Tava puro um “lobisome” com os cabelos arrepiados pelo medo! A bicha levou tanto susto com a careta do Zé do Bentoque parou! Mas ele continuou avançando em direção a ela! Eu gritava pra ele parar, mas ele parecia doido econtinuava! Aí ele torceu o pé num buraco e caiu! A danada retesou olombo preparando o bote! Levantei a espingarda e mirei bem! Foi um tiro só! Umtiro como eu nunca mais dei! Cês precisava ver! No meio dosdois zóios dela! E ela ficou lá, esticadinha no chão! Do couro dela eu fiz esta caparonga que aqui está. Comuma metade fiz um tapete bonito que ficava na sala da FazendaBananeiras. A outra metade eu dei pro Bispo de Mariana esegundo ouvi dizer, deu pra fazer um sofá de dois lugar! É umapena que os meus companheiros tejam todos mortos pra aprováeste fato!...” Manuel da Cachaça levantou-se, tomou mais umapinguinha, raspou a garganta, foi até a porta, voltou-se para nóse disse: _ “Tava esquecendo. Zé do Bento, desde essa épocaficou conhecido por “Zé Careta”. Depois de algum tempo elemudou lá pro “Mata Onça”. Dizem que morreu, fazendo careta,tentando matar uma onça que assustava o povo da região! Boanoite prô cês! Se Deus quiser eu volto outro dia!...”
  10. 10. 009 A ESCRITURA Lorico havia comprado umas terras. Vai daqui, vai dali, eele acabou tendo uns problemas de divisas com uns vizinhos. Certo dia tava eu em sua casa, quando o assunto dasdivisas saiu. Ele, pegando a escritura do terreno, falou: _ “Olha, Manuel! É besteira a teimosia daquela gente!Aqui na escritura tá escrito! Já até decorei! Veja bem:”Daslombadas de Juca Miné, desce em linha reta até o Pau de JoãoMaria, que sobe passando no Rego de Tia Chica, seguindo atéentrar no Buraco do Garimpeiro. Do Buraco do Garimpeirosegue até o Fedegoso do Rosado passando pelo Rachado daManuela, indo em direção ao Córrego do Jacu, até entrar naVarginha da Bernadete...” Aí, então eu falei: _ “Ôh, Lorico?! O Sinhô num tá brincando, não?! Estasua escritura tá muito esquisita!...”
  11. 11. 010 A “BOCA DA ENCRENCA” Sô Lívio havia adquirido um bidê pro banheiro de suacasa! Coisa nova! Puro luxo! Coisa que ninguém tinha por aquinos anos cinquenta! Certo dia, Zico Altino, lá do Retiro, veio visitar ele. Depois de um bom bate-papo na sala, a esposa de SôLívio chamou pra um reforçado café. Zico, sentindo a bexiga pesada, pediu ao amigo para ir aobanheiro. Lá entrando, vendo aquele estranho aparelho, logopensou que era ali que devia esvaziar a bexiga! “Coisa de rico!Pra que um vaso e um troço deste?” Pensou consigo. Quando ele saiu do banheiro, Sô Lívio entrou e, vendo obidê todo molhado, logo concluiu que o amigo havia urinado ali. Após o café, refastelados no sofá pra mais um bate-papo,Sô Lívio resolveu tocar no assunto do bidê, pra ensinar o amigo: _ “O amigo deve ter visto aquele aparelho novo lá nobanheiro, não viu? Chama-se bidê! Adivinha pra que ele serve?” Zico foi logo respondendo: _ “O vaso eu sei que é pra soltar as fezes... Agora,aquele negócio que ocê diz que chama bidê deve ser pra gentemijar, não é?” Sô Lívio, rindo: _ “Não, não é pra mijar, não!...” E então, Zico foi lá falando um punhado de utilidades aque poderia servir o tal bidê. Foi quando Sô Lívio, levando oamigo novamente ao banheiro, abriu a torneira, fazendo a águasubir pelo esguicho, dizendo: _ “Agora é fácil, você vai saber...” Zico, rindo, bateu no ombro do amigo e disse: _ “Ah!!! Já sei!!! Não é pra mijar e nem pra defecar! Épra lavar a “Boca da encrenca”!...”…..................................................................................................
  12. 12. 011 E por falar em “Boca da encrenca”, me alembrei de umoutro caso engraçado. Maria Antonina, conhecida por “Maria Toninha”,frequentadora de forrós, conhecedora de todos os botecos deroça e também apreciadora da “branquinha”, certo dia se meteunuma confusão de briga, onde saiu até tiro, lá pros lados das“Três Barras”. Levados à Delegacia, o Delegado, um tal de Dr.Pedra, ao vê-la perguntou: _ “Então é a senhora que levou o tiro na encrenca?” Ela, levantando a saia rodada e comprida, respondeu: _ “Sim dotô! Sou eu mema! Mais num acertô nela não! Otiro passô raspano aqui na frente!!!...”
  13. 13. 012 A CAÇADA O cigano falou tanta mentira sobre pescaria e caçada, láno Boteco do Zé Cirilo, que quando ele saiu, Manuel daCachaça, resmungou: _ “Hum!... Até a onça que eu matei no caminho de OuroPreto ficou “fichinha” perto dos feitos deste cigano! Ôh, homemmentiroso, Sô! Ele precisava era ter conhecido o meu amigo SôAmâncio, lá do Sapé! Aquele, sim! Aquele era mentiroso deprimeira laia! Olha, Zé Cirilo, teve uma vez que nós tava numavenda de roça, num domingo, tomando pinga e jogando baralho.Aí os assuntos partiu pros lado de pescaria e caçada. Eu já tavaproibido de contar o caso da onça, cê sabe, né! Todos morriamde inveja!... Mas foi surgindo tanto caso, que o nome do SôAmâncio foi citado na conversa. Foi então que ele chegou. Aoentrar eu logo perguntei: _ “Ôh, Amâncio, nós tava falando da sua caçada.Quantas pombas cê matou mesmo com um só tiro de espingardachumbeira?” Ele, assumindo ar de importante, respondeu: _ “Tem uns mentirosos por aí, uns invejosos, que andamdizendo que foi noventa e sete pombas! Isto é mentira! Naverdade foi NOVENTA E OITO POMBAS, SEM CONTAR COMUM PAPAGAIO BESTA QUE TAVA PATETANO NO MEIODELAS!...”
  14. 14. 013 JOÃO DA CRUZ E O “ECRIPES” DA LUA Manuel da Cachaça tomou a pinguinha, acendeu ocigarro de palha, raspou a garganta e começou mais um caso: _ “O povo é cheio de crendices e simpatias! Olha que temmuita coisa de verdade em tudo isso! Vou contar um caso queassucedeu com João da Cruz, pretinho espigado e simplório quetrabalhou muito tempo na Fazenda Bananeiras no tempo em queeu já era alambiqueiro. O forró tava animado. Já era tarde da noite e o povo nãosaía do terreiro da casa de Juca Carneiro. Juca Carneiro era umtipo de capataz na Fazenda. Era um sujeito alto, forte, corado,bigode largo, bonachão. Era casado, mas não podia ver um rabo-de-saia que se metia a conquistador. Gostava muito de cantarmodinhas nos forrós. Me alembro bem da modinha que ele maisgostava de cantar: “Olé lê carneiro dê olá lá carneiro dá quem quisé carneiro manso manda vaqueiro amansá...” E foi nesta noite de forró que João da Cruz viu Isaurapela primeira vez! Nega bonita, corpo de violão, igualzinha aessas que a gente vê na televisão! O neguinho ficou doidoolhando aquela mulher que não tirava os olhos de cima dele.Dançou com ela a noite inteira e não adiantava Juca Carneirogritar que “par-perpétuo” não era permitido! João da Cruz depois daquele dia só tinha olhos praIsaura. E não demorou muito eles já estavam noivos e compouco tempo casados. Uns quatro meses depois do casamento, tava nós todosna venda do João Eufrázio, jogando baralho e bebendo cachaça.Foi aí que Juca Carneiro falou pra João da Cruz: _ “João, hoje é dia de “ecripes” da lua. Se eu fosse ocê eu ia lána sua casa e não deixava que Isaura visse o “ecripes” não!Olha, João, eu andei muito nas beiras do São Francisco antesde vim pra cá, e dizem por lá que se muié grávida vê
  15. 15. 014 “ecripes”, se ela for preta, o filho nasce branco! Cê já pensounum filho branquinho na sua casa, João?!” João da Cruz largou o baralho e correu pra casa. Láchegando fechou as janelas e foi logo dizendo pra Isaura que elatava proibida de ver o “ecripes” da lua pelo que Juca Carneirofalou. Isaura falou que isso era bobagem, que se o filho tivesseque nascê pretinho ou branquinho dependia de Deus querê! Maso fato é que João fechou tudo e foram dormir. Dia seguinte Juca Carneiro encontrou com o João eainda perguntou: _ “E então, João? Isaura viu o “ecripes”?” _ “Viu não! Fechei a casa toda!” _ “Tem certeza, João? Nem uma gretinha na janela?” _ “Já disse que fechei tudo home! Mas que diabo tem ocêcom isso, Sô?!” _ “Oh, nada não, João! Eu só estou dizendo porque souseu amigo! Até logo!” O tempo passou e João da Cruz se esqueceu do fato. Um dia nós tava tudo na roça quando Dona Fiinha, aparteira, gritou chamando por João! Ele largou tudo e correu feitoum doido! O bebê tinha nascido, e era macho! À noite o pessoal foi visitá o João da Cruz pra conhecer oneném. Uma cachacinha, um bate-papo, vai daqui, vai dali eJoão da Cruz não mostrava o menino de jeito nenhum! Aí chegou Juca Carneiro. Cumprimentou a todos, deu umabraço no João e foi logo perguntando: _ “E aí, João? E o minino? A gente pode vê ele?” _ “Vai bem, ta lá dentro! Daqui a pouco Dona Fiinha trazele prô cês vê!” Volta e meia Dona Fiinha trouxe o neném. Todos olhamoe num dissemo nada! Só Juca Carneiro falou: _ “É, João! Cê teve sorte! Ele não é branquinho! Ele épardo! Isaura viu o “ecripes” pela greta da janela! Sorte sua!Quero ser o padrinho!” Manuel da Cachaça fez uma pausa para acender ocigarro e logo a seguir concluiu o caso: _ “Pra dizer a verdade,até hoje, quando alembro daquele neném, quase branco, ficopensando se foi mesmo culpa da greta da janela ou se Juca
  16. 16. 015Carneiro tinha “culpa no cartório”, como diziam as más línguasda região!...” TÁ NA MESA... É SÓ SERVIR!... Manuel da Cachaça, voltando-se para mim, disse, apóstomar a tradicional dose da branquinha: _ “Sô Fernando, outro dia eu contei um caso, como oSinhô não tava aqui, vou contar de novo. É um caso engraçado.Quem gostava deste caso era o Sô Sebastião de Nenerso, lá daCasa Soareza, que ria a valer toda vez que se lembrava dele.” Manuel pigarreou levemente e continuou: _ “Anita Feliciano era uma mulher interessante. Era umaviúva fogosa. Trabalhava muito. Apanhava café, lavava roupa,plantava roça, fazia coisas que até homem não fazia. A semanainteira era na labuta, mas no sábado e domingo, Anita era aprimeira a chegar no forró de Juca Carneiro e a última a sair. Cabelo sempre oleado, pó de arroz no rosto e batomvermelho nos lábios. Dançava com todos, mas no final da noiteescolhia um companheiro pra dormir com ela. Juca Salatiel tinha um sítio lá pras bandas do CórregoGrande. Homem sério, casado, pai de três filhos, levava a vidaentre o trabalho e a família. Anita Feliciano sentia por ele uma paixão secreta esonhava em ter ele um dia, no mato ou em sua casa!... Certo dia Juca foi à Fazenda Bananeiras negociar unsbezerros com meu antigo patrão. Conversa vai, conversa vem,Juca Salatiel acabou ficando pro jantar, e entre uma pinguinha eoutra, saiu já bem tarde em direção à sua casa. Anita, sabendo que o Juca tava na Fazenda, resolveuesperá ele na porteira do boqueirão. _ “Boa noite, Anita. Tudo bem?” Cumprimentou Jucachegando na porteira. _ “... Noite, Juca. Tá com pressa?” Respondeu Anitaabrindo a porteira.
  17. 17. 016 _ “Já é tarde e estou um pouco atrasado!” Disse Jucapassando devagar. Anita, sentindo que a hora era aquela oununca mais, disse: _ “Sô Juca, tem um tempão que eu tô te esperandoaqui...” Encostou na porteira, apoiou a perna no batente,colocando à mostra a coxa roliça e morena, e batendo nelalevemente com a mão, completou: _ “... Sô Juca, tá na mesa... É só servir!...” Manuel da Cachaça interrompeu o caso com aquelarisadinha matreira. Tomou mais uma “branquinha”, raspou agarganta e concluiu: _ “Tião das Dores, que passou lá pouco depois, só viu amula do Juca amarrada no batente da porteira... Sô Sebastião, láda venda, toda vez que os filhos do Juca, já rapazes, iam lá,servia a cachaça pra eles, batia levemente no balcão e dizia: _ “Rapazes, tá na mesa... É só servir!...” A CADEIA Era tempo de quaresma. Como sempre, Manuel daCachaça ficava de “quarentena”, sem cachaça e sem fumo derolo. Naquela noite tinha pouca gente no Zé Cirilo. Manuel,tomando guaraná e comendo Amendoim torrado espantava ovício de toda forma que podia. Olhando para mim perguntou: _ “Sô Fernando, o Sinhô conheceu Sô Amantino Diogo?” _ “Claro, Sô Manuel! Conheci e muito!” _ “Pois vou contá um caso muito engraçado que envolveuo meu amigo Amantino Diogo, de saudosa lembrança, quedurante um certo tempo respondeu pelo cargo de DelegadoMunicipal aqui em Calambau. Além da função de Delegado, Sô Amantino trabalhavacomo pedreiro, que era, na verdade, a sua profissão. Homem enérgico, procurava manter a ordem e atranquilidade na cidade e, devido à sua amizade, raramenteprecisava usar a Polícia Militar para ser obedecido quandonecessário.
  18. 18. 017 Certa vez, tava ele trabalhando em uma construção,quando passou um sujeito desconhecido. Sô Amantino correu os olhos no caboclo e falou pra umcompanheiro de serviço: _ “Taí, oh! Um andarilho na cidade! Vai ver que vai dartrabalho! Esses homens desconhecidos, que vêm não se sabedonde!... Sei lá... E ele passou olhando pra mim... Vão versó!...” Volta e meia o andarilho torna a passar por ele. Sô Amantino coçou a cabeça preocupado e assim que oandarilho afastou ele disse: _ “Olha só! Ele passou outra vez e me olhando! Vai darcoisa!... Espera só! Se ele voltar eu abordo ele! E se ele meafrontar, prendo ele lá na Rua Nova!” Pouco depois vem de novo o andarilho! Sô Amantino largou a colher de pedreiro, pôs as mãos àcintura e ficou esperando o tal sujeito chegar. Quando elechegou perto, Sô Amantino gritou: _ “Para aí, Sô! Não chega mais perto não! Quem é vocêe o que quer comigo?! Tá só me olhando!... Fala logo!” Então o homem parou e perguntou: _ “O Sinhô é o Sô Amantino, o Delegado?” _ “Sim, sou eu! Por que?” Coçando a nuca. O andarilho continuou: _ “Bem... É que eu queria um favô do Sinhô... É só intéamanhã...” Impaciente, Sô Amantino falou: _ “Fala logo! Não vê que estou ocupado? Ou será quevocê quer que eu te meta no xadrez?” Aí o andarilho arrematou a conversa: _ “É mais ou meno isto, Sô Amantino! Eu não quero sêpreso, não! Mas eu queria que o Sinhô me emprestasse a chaveda cadeia pra eu passá a noite lá... É que eu não tenho dinheiroe nem lugá pra ficá!...”
  19. 19. 018 A CANTADA Manuel da Cachaça, após tomar um trago da“branquinha”, como sempre, raspou a garganta, tirou um tragoprofundo do cigarro de palha e iniciou o caso: _ “Certo dia, pela manhã, quando ia pro serviço, deenxada ao ombro, Sô Zé Maria, um pretinho espigado e treteiro,passou perto da casa de sua comadre Sá Marina, que lavavaroupa no terreiro, agachada sobre a bacia, deixando à mostra, ascoxas morenas e roliças”. Sô Zé Maria, que há tempos vinha pensando em dar uma“cantada” na comadre, foi logo dizendo, de “zóio-comprido”: _ “Bom dia, comadre! Como vão as coisas?” _ “Tudo bem, compadre! Indo pro serviço?” _ “É isso mesmo! Olha comadre, vou fazê uma pergunta,uma adivinhação, num precisa respondê agora, não! De noite eupasso pra comadre dar a resposta!” _ “Fala então, compadre! Qualé a pergunta?” _ “O que é o que é, que a comadre tem, que se dé procompadre, compadre qué! E o que é o que é, que o compadretem, que se comadre quisé, compadre dá, é só falá? Até logo,comadre, de noite eu pego a resposta!” Disse e foi andando, certo de que a “cantada” foi bemdada. Assobiando feliz, ele passou pela cerca da horta e nemviu que o compadre Bastião, marido da comadre, ouvira tudo! Na sua cabeça ele fazia os planos: Compadre Bastiãobebia muito e dormia cedo, aterrizado pelo efeito da“branquinha”! Ia ser fácil! Bastava ter paciência! Quando ele sumiu na curva do caminho, Sá Marinaperguntou pro Bastião: _ “Ôh, Bastião! Cê ouviu a pergunta do compadre? Cêsabe o que é que é?” _ “Ôh, Sá besta! Ele tá é quereno te “cantá”! Aquelesafado! Mas ele vai vê a resposta logo!”
  20. 20. 019 De noitinha, Sô Zé Maria chegou à casa da comadre.Banho tomado, botou até “Extrato Dyrce” pra ficar maisagradável à comadre Sá Marina. Compadre Bastião, sentindo o cheiro do perfume, disse: _ “Uai, compadre! Que foi que houve? Banho de “corpo-inteiro” em dia de semana? E ainda perfumado?” Sô Zé Maria, meio sem jeito, respondeu: _ “ É que eu caí na esterqueira hoje, sabe como é, né...Num caso desse só banho de “corpo inteiro” e perfume é queresolve!” Aí os dois começaram a beber junto. Sô Zé Maria, malandro, fingia que bebia e procurava ummeio de sempre encher o copo do compadre Bastião. Mas nãoadiantou! Os dois ficaram até tarde bebendo e batendo papo enada do compadre Bastião “arrear”! Então, vendo que naquela noite não “arranjaria” nada,resolveu ir embora e ao sair da cozinha pra sala, disse àcomadre: _ “Bem, comadre. Tô indo embora! Outro dia eu volto praouvi a resposta da comadre à minha pergunta... Boa noite!...” Aí o compadre Bastião, pegando um porrete atrás daporta, falou pra Sô Zé Maria: _ “Carece não, compadre! A resposta da comadre tá aqui!Seu safado! Toma!” Disse e desceu o porrete no lombo de Sô Zé Maria, quegritando, desceu a escada sem ver os degraus, sumindo nacurva do caminho!...”
  21. 21. 020 A “DISGRAÇA” DE SÁ MARIETA Comadre Marieta, que morava lá nas Três Cruzes, tinhao costume de não usar calcinha! O compadre falava, as filhasfalavam, mas ela dizia que não suportava o calor e as “coisas”tinham que ficar ventiladas pra fazer bem à saúde! Quando o compadre Zefa morreu, que Deus o tenha,passado uns sete dias, Sô Jovino, também compadre, foi fazeruma visita. Ela recebeu a visita na sala, chorando muito! Conversa vai, conversa vem, o Jovino sempre lembrandode um caso do amigo. Num certo momento, Sá Marieta, esquecendo que estavasem calcinha, levantou a saia, rodada e comprida, pra enxugaros olhos! Aí o Jovino viu tudo! Aí Sá Marieta falou: _ “Pois é, compadre Jovino, cê já viu “disgraça” maiorque esta?” Jovino, distraído, respondeu: _ “Já não, comadre! Só quando vaca tá no cio!...” “LARI LARÔ” Dona Miru, viúva fogosa, vivia aproveitando a ausênciados filhos que trabalhavam fora, para receber as “visitas” de SôAntonino, seu compadre. Pra anunciar que a casa estava vazia,Dona Miru colocava uma toalha vermelha na janela e, SôAntonino, ao ver o “sinal”, arranjava logo uma desculpa pra ir àcasa da comadre e assistir ela em safadezas! Pra ver se a rua estava deserta, pro compadre sair, DonaMiru abria a janela, esticava o pescoço, olhava a rua pra baixo epra cima e cantarolava: _ “Lari larô... Lari larô...” Isto indicava que Sô Antonino, já perto da porta, podia daro fora!
  22. 22. 021 A vizinhança, com pouco tempo, percebeu a “mandraca”dos dois e logo, logo, a cidade já sabia de tudo! Aconteceu de chegar na cidade um Circo. Com poucosdias os rapazes da época fizeram amizade com o palhaço, quegostava de tomar umas biritas e fazer serenatas. Bastou umarodada de pinga e uma seresta pra ele se inteirar do caso deDona Miru e Sô Antonino. Então ele prometeu pra rapaziada quena apresentação do sábado, o “Lari larô” de Dona Miru ficariafamoso! E chegou o sábado! Circo cheio! O palhaço lá estava fazendo o papel de um empregado,cuja patroa, na ausência do marido namorava outro! A patroarecomendou ao palhaço que ficasse fora da casa e se o maridochegasse, que desse um sinal de aviso! E a cena desenrolou: Os dois namorando no sofá e opalhaço, fora do picadeiro, vigiando a chegada do marido. Derepente ele vem chegando. O palhaço mete os dedos na boca eassovia em sinal. Os dois se separam no sofá e o palhaço,mexendo o pé direito, calçado com um sapato enorme e bicudo,completa o sinal cantarolando: _ “LARI LARÔ... LARI LARÔ!...” A platéia explode em risadas e Dona Miru, envergonhada,esconde o rosto com a saia, esquecendo que estava semcalcinha!... A DISTRAÇÃO DE COMADRE JOANA Já era o décimo filho que comadre Joana tinha e ocompadre Zé Arlindo, com desculpa de que estava esperando vira “mocinha”, não dava trégua pra coitada da comadre! Um dia comadre Joana reclamou com Dora, minha finadaesposa, que Deus a tenha, de que já não aguentava parir filhotodo ano. Precisava dar um jeito, mas o compadre Zé Arlindo“queria” todos os dias e ficava difícil controlar! Dora, com aquele seu jeitinho de falar disse à comadre: _ “Joana, cê tem que ficar esperta! Na hora do “bem-bom”, tem que “rachá fora”! É o único meio seguro de evitá filho!
  23. 23. 022 Ou então fala com o compadre pra usá as tal “camisinha” lá dafarmácia!” _ “Ih, comadre! Camisinha não! O Padre disse que épecado e o Zé Arlindo disse que é mesma coisa que chupá balasem tirá o papel!” Apesar de tudo, comadre Joana prometeu que ia fazer deum modo que não mais ficasse grávida. O tempo passou... Uns seis meses depois, Doraencontrou com a comadre Joana numa procissão do Santíssimo. Olhou pra comadre e vendo a barriga grande, falou: _ “Comadre Joana, outra vez?! Cê esqueceu do meuconselho?!” Meio sem graça, a comadre respondeu: _ “Êh, comadre! Eu não sei como explicá! Mas toda vezque eu mais o Zé ia fazê as “coisas”, eu ficava DISTRAIIIIDA!...” A DOR DE DENTE Oto Silva era dentista prático no Distrito de Calambau.Era um PSD de “papo amarelo”, como se dizia na época. Quando o Distrito se emancipou e foram marcadas aseleições municipais, ele entrou firme na campanha! Baixinho, bigode fino, bom de prosa, defendia comunhas-e-dentes a candidatura de Ninico Carneiro à PrefeituraMunicipal. No seu gabinete, situado lá na Rua Nova (SiqueiraAfonso), extraiu dente e fez dentadura de graça para o povo,mas nada adiantou, o PSD perdeu as eleições, a vitória foi doPR! Zé da Iria tinha um pequeno sítio lá pras bandas daLimeira. Ao contrário de Oto Silva ele era um PR de “amargar”,desses de riscar faca no passeio ou passar a noite inteiravigiando as urnas na eleição, sem comer nada, apenas peloprazer de defender o seu partido!
  24. 24. 023 Com a derrota nas urnas, o martírio de Oto Silvacomeçou: Todas as vezes que vinha à cidade, Zé da Iriapassava pela Rua Nova e cantarolava: “Chora “pessidê” Que é seu tempo de perdê Chora “pessidê” Tampa o ouvido pra num sofrê!”E lá vinha o refrão: de nada adiantou rancá dente de graça que o “pessidê” caiu foi na disgraça!” Aquilo doía em Oto Silva. Ele chegava à porta de seugabinete e olhava o Zé da Iria passando. Calça arregaçada nacanela, chapéu de palha desfiado, faca na cintura, pé espanado,tipo “dez pras duas”, lá ia ele, a imagem do valentão protegido. Oto Silva ia até a venda de Geraldo Henriques, que nestaépoca funcionava na Rua São José, ao lado da tradicional loja deZé Fernandes, tomava uma pinga e dizia: _ “Nada melhor que um dia após o outro. Tá vendo estepuxa-saco do PR, Geraldo? Um dia o dente dele vai doer, ora sevai! Todo mundo tem dor de dente e não vai ser Zé da Iria que játem os dele brocado, que não vai sentir dor! Mas nesse dia...Não quero nem pensar!...” E não deu outra! A praga lançada por Oto Silva pegou Zé da Iria numbrejo, plantando arroz! No princípio foi aquela dorzinha, depois foi apertando eele teve que ir pra casa! Bebeu cachaça, nada! Bochechou com cachaça quente,nada! Esfarelou comprimido de Melhoral e pôs no buraco do
  25. 25. 024dente, nada! O diabo do dente latejava! Zé da Iria já nãoaguentava mais! Dia seguinte, bem cedo, Zé da Iria chegou na Loja de SôLívio, chefe local do PR. Explicou pra ele a situação e Sô Lívio,passou um bilhete pra Oto Silva resolver o problema de Zé daIria. Zé da Iria estava sentado na cadeira de dentista, suandoà bicas, com a boca recheada de algodão! Oto Silva, feliz, assobiando as musiquinhas que Zé da Iriagostava de cantar em frente ao seu gabinete, alisava o boticão,como se fosse um açougueiro alisando a faca na hora dedestrinchar um porco! Meteu mais algodão na boca de Zé da Iria e faloubaixinho em seu ouvido: _ “Então, Zé. Você é PR de “amargar”, né?” Zé da Iria, tremendo, balançou a cabeça negando. _ “Mas o bilhete pra te atender é de Sô Lívio... Ih, quebroca danada de dente, Sô! E tem mais um punhado que aindavai doer!... E então, que que você me diz?...” Falou Oto Silva,abrindo bem a boca do Zé. Aí, aquela vozinha saiu lá do fundo da garganta de Zé daIria, puxando “xis”, devido ao algodão na boca, e fininha, bemfininha, como se tivesse pedindo perdão: _ “EU XÔ PEXIDÊ! TÔ FINXINO COM ÊX. TE XURO!...” Não é preciso dizer que Oto Silva arrancou o dente semanestesia e nem tão pouco cobrou o serviço. Foi por puroprazer!...
  26. 26. 025 A MISSA CANTADA Sá Ana, lá do Galo era uma rezadeira de mão cheia! NaIgreja, participava de tudo! Com aquela voz esganiçada, puxavacantos sem parar! Não era fácil aguentá-la nas cerimôniasreligiosas! E tinha mais! Quando o terço acabava, lá vinha Sá Anapuxando ladainhas e cantos que se prolongavam, às vezes, atépor horas! Certo dia, Padre Chiquinho, após uma Missa Cantada,muito demorada e cansativa, terminou a cerimônia cantando atão esperada frase em latim: _ “ET MISSA EST!” Ali mesmo no altar, muito cansado, começou a tirar osparamentos litúrgicos, quando lá do fundo da Igreja, a vozesganiçada de Sá Ana puxou o canto: _ “Eu cantarei ao Meu Senhor Eternamente...”Padre Chiquinho, irritado, retrucou cantando: _ “Não canta, não, Óh, imprudente!...” E saiu rumo à sacristia!...
  27. 27. 026 A PESCARIA DE CHISPIM Desde cedo o reboliço na casa de Sô João Fernandesera de notar: Mataram um porco enorme e o trabalho de fritar eempanelar as carnes e torresmos não dava trégua. Sobre o fogão de lenha, um varal de bambu estavarepleto de linguiça e nas gamelas chouriços ! Compadre Chispim tinha saído pra pescar na pedra dorebojo. Volta e meia tava ele chegando com uma piaba de doisquilos e quatrocentos gramas! Ao entrar em casa, sentindo aquele cheiro de carne deporco frita que saía da casa de João Fernandes, ficou a pensar:“Diacho, Sô! Como peixe quase todo dia... E esse cheirinho deporco frito... Vou levar esta piaba pra Sô João Fernandes...Quem sabe ele me dá um bom pedaço de carne ou linguiça...Sim, é isso mesmo! Vou já pra lá!...” E levou a piaba para acasa do amigo! Lá chegando, foi entrando casa a fora, dizendo: _ “Ô, Sô João! Trouxe um presente pro amigo! Olha só!Dois quilos e quatrocentos! Num é uma bichona?!...” Sô João Fernandes não estava em casa. A mulher delerecebeu o presente, agradeceu e disse que depois mostraria opeixe ao João Fernandes. Chispim olhava o varal de linguiça com água na boca eenquanto tomava o cafezinho que a mulher serviu dizia: _ “Que fartura, hein? Quanta linguiça e chouriço!... Deveestar uma delícia!... A senhora sabe fazer as coisas!... Benza óDeus! Que beleza!...” Depois do café esperou um pouco. Como ninguém falavanada e nem tão pouco Sô João Fernandes chegava, despediu efoi pra casa. Lá chegando não teve paz! Ficou matutando nabesteira que fizera: “Agora, come pedra se quiser!... Mas é umabsurdo! Com aquela fartura, aqueles miserentos não me deramnada em troca da piaba!... Não!... Isso não vai ficá dessejeito!...” Assim pensando, Chispim foi de novo à casa de JoãoFernandes. João Fernandes, que já estava em casa, ao ver oChispim, foi logo dizendo:
  28. 28. 027 _ “Ôh, Chispim! Que beleza de piaba! Muito obrigado!Agradeço de coração!” Chispim ainda tentou uma “cartada” pra ver se ganhavaalguma coisa: _ “Coisa de nada, meu amigo! Um peixico atoa! Coisaboa mesmo é o porcão que o amigo matou! Benza ò Deus! Quefartura!” E pôs-se a esperar para ver se ganhava alguma coisa.Depois de um certo tempo, vendo que “daquele mato não saiacoelho”, falou pra João Fernandes: _ “Olha, Sô João! Eu estou com uma “duda” aqui nacabeça... Eu queria dar uma olhada na piaba pra ver de que ladoeu fisguei a boca dela... Se foi do lado direito ou do ladoesquerdo... Dá pra trazer ela pra eu ver?...” João Fernandes foi até a cozinha e voltou com a piaba namão. Chispim pegou, remexeu a boca, balançou a cabeça,caminhou em direção à porta, olhou pra João Fernandes e disse: _ “Já que eu não vou comer nada do seu porco, vocêtambém não vai comer do meu peixe! Se quiser peixe vaipescar! Inté!...” E jogou o peixe na rua, que foi abocanhado pelo cachorrode Sá Varina, que por ali rondava à cata de um pedaço deosso!...
  29. 29. 028 A SEMANA SANTA A cerimônia acontecia no palco armado em frente àIgreja Matriz. O povo ouvia atentamente o sermão pregado por umpadre que falava com forte sotaque estrangeiro, mal dando paraentender as palavras. No momento em que Nicodemos e Arimateia iniciaram adescida do corpo de Cristo da cruz, um conterrâneo que haviachegado de São Paulo, aproximou-se de Zé Naná, que fazia opapel de soldado romano e perguntou: _ “Ô, rapaz! Estou tentando me lembrar do nome dosdois personagens que estão descendo o corpo de Jesus, masnão consigo, além do mais, este padre que está pregando nãofala direito a nossa língua... Você sabe o nome bíblico deles?” Zé Naná, com naturalidade, respondeu: _ “Ô, Sô! Cê não tá reconhecendo eles não?! O grandãoé o Patiagua, que jogava na U.S.E, o outro é Chico Matias, lá doGalo!...” A SERENATA A serenata fora programada em seus mínimos detalhes. Arranjou-se a cachaça – peça principal da seresta, maisimportante que o violão – e arranjou-se a “licença” com oDelegado, que naquela época, para controlar as arruaças darapaziada, cobrava uma taxa para se fazer serenatas. Pelomenos, como dizia o Delegado, qualquer coisa errada queacontecesse naquela noite, já tinha os nomes dos prováveisautores. Aí um dos “seresteiros” lembrou-se de uma coisaimportante que estava esquecida: A GALINHADA! Ondearranjar as “penosas” para se fazer a bendita galinhada na casade Tio Antônio, após a serenata!
  30. 30. 029 Madalena, versado nas artes “galináceas”, foi logodizendo: _ “Deixa comigo! No quintal de Sô Olívio tem muitasgalinhas! Lá não tem galinheiro, as bichinhas dormem numpoleiro próximo ao muro da rua! Vai ser sopa! Vocês vãoaprender como se rouba galinha sem fazer barulho!" O que ninguém se lembrou é que em frente ao muro dacasa de Sô Olívio, morava Sô Mané, um velho soldado da PM,que sofria de insônia! Tudo preparado, tudo acertado, aguardou-se a hora decomeçar a serenata. Naquele tempo, a luz elétrica da cidade era provenientede um gerador diesel, que exatamente às 22:00 horas eradesligado. Portanto, às 23:00 horas já não haveria mais ninguémnas ruas, era a hora ideal de se começar a seresta. E ela teve inicio na Praça União, em frente ao cemitériovelho, subindo em seguida pela São José. O litro de pinga ia passando de boca-em-boca e os“cantores”, em frente às casas das “doce amadas”, cantavamvalsas, boleros e sambas-canções... Chegou-se ao muro da casa de Sô Olívio! Madalenapediu silêncio e falou em voz baixa: _ “Ô turma, agora nada de música! Vou mostrar pravocês como se rouba galinha sem fazer barulho! Prestaatenção!” Atravessou a rua, arrancou um bambu de uma cerca – dacasa de Sô Mané – subiu no muro e foi falando baixinho: _ “Agora, é só cutucar com o bambu nas pernas dasgalinhas, que elas, dormindo, sobem do poleiro para o bambu...E aí, oh, é sopa!... Olha as duas “penosas” que peguei... Ah,deliciosas...” E foi voltando-se para a turma mostrando as duasgalinhas, quando deu de cara com Sô Mané, que com as mãoscruzadas, calmamente assistia à cena da janela de sua casa! A turma, neste instante já havia dado o fora!... Madalena, com um riso amarelo, calmamente voltou asgalinhas para o poleiro enquanto dizia:
  31. 31. 030 _ “É isso aí, Sô Mané! Eu tava mostrando pra turma,como esse pessoal que cria galinha sem prender no galinheiro,corre o risco de ser roubado! Isto é só uma demonstração! Eunão estava roubando, não! O senhor me conhece, né?!...” Desceu do muro, atravessou a rua, colocou o bambu nacerca e de longe, ainda disse pro velho soldado, que estavaboquiaberto com a cara de pau do Madalena: _ “Boa noite, Sô Mané... Foi só uma demonstração praturma... Boa noite!...” E “fechou” num galope rua abaixo em direção à casa deTio Antônio, onde a turma esperava, “rolando” de tanto rir!... A SIMPLICIDADE DE SÔ MANUEL Outra pessoa engraçada era o meu amigo, Sô Manuel, ládo Salto. Era muito simplório e tinha a mania de falar alto,gritado! Certo dia tava eu plantando uma roça de milho lá pertoda ponte de arame do Salto, quando ele chegou e parou pra umdedo de prosa! Concersa-vai, conversa-vem e ele se lembrou de passarumas recomendações à sua mulher que lavava roupa na outramargem do rio. Pôs as mãos em concha à boca e gritou: _ “Ô Maria! Ô Maria! O dinheiro da venda do porco tádebaixo do “trabisseiro”! Põe ele debaixo do colchão e põe umcobertor dobrado sobre a cama pra despistar! Se ocê fô sair,fecha toda a casa e põe a chave debaixo do vaso de flô perto dapia do terreiro!” Vendo que Barbosa, que tinha fama de larápio tavapescando debaixo da ponte, recomendou: _ “Óia, tem rato de dois pé rondando a área! Amarracanela (o nome da cachorra) na porta da frente que é pra dárespeito! Toma cuidado! Inté!...”
  32. 32. 031 A VISITA DO COMPADRE CANDIDATO Na campanha política do ano de 1996, um certocandidato a Prefeito foi visitar o eleitorado do Salto, Mateus evizinhanças. Ao chegar próximo a uma porteira, o candidato desceu docarro para abri-la, quando um bando de meninos o cercou. Brincando com os meninos o candidato deu-lhes umasmoedas, perguntando de quem eram filhos. Um delesrespondeu: _ “Nós é filho de Nega de João Balança!” O candidato falou: _ “Ora, então um de vocês é meu afilhado, cadê a mãede vocês?” Antes que os meninos falassem alguma coisa, umamulher, descendo o morro, veio gritando de braços abertos: _ “Óia, gente! É o compadre! Deix’eu te dá um abraço!Vão lá em casa que o João tá lá!” Depois de abraçar a comadre, o candidato, olhando ameninada, perguntou à comadre qual deles era o seu afilhado. A comadre, apontando para um menino lourinho,respondeu: _ “É aquele ali, compadre! Já tá com oito anos... Cêacha que ele parece com o pai?” O candidato, depois de dar uma nota de dez reais para omenino, que saiu pulando igual a um cabrito, balançando a nota,apoiou-se no ombro da comadre e caminhando em direção àcasa, sussurrou-lhe no ouvido: _ “Olha, comadre. Me explica uma coisa... Como é que acomadre que é mulata foi ter este filho lourinho, se o compadre équase preto?” A comadre, rindo, respondeu: _ “Eh, compadre... Num dá pra explicá... Acontece cadamilagre nesta banda do rio que num tem nem explicação!...”
  33. 33. 032 AO BOBO?!... Sô Teco tomou umas biritas e foi pra casa. Com acabeça cheia ele aprontou bastante, importunando a vizinhança! E não deu outra! Um vizinho chamou a Polícia! O Cabo, acompanhado por dois soldados chegaram àcasa de Sô Teco. O Cabo bateu à porta e lá de dentro Sô Tecopergunta: _ “Quem tá batendo aí?” _ “É a Autoridade! Faça o favor de abrir, Sô Teco! Sóqueremos conversar!” Sô Teco responde: _ “Autoridade?! Abro não!!! Num sou bobo?! Podedormir aí fora que não abro! Ao bobo?!...” Após várias tentativas, o Cabo teve a ideia! Disse a umdos soldados: _ “Você se esconde atrás da casa enquanto nósdescemos o morro! Sô Teco vai sair pra ver... e então você pegao bicho!...” Chegando-se à janela o Cabo falou: _ “Nós estamos indo embora, Sô Teco! Amanhã a gentevolta para conversar! Vamos pessoal!” Pouco depois Sô Teco abriu a janela e, não vendo aPolícia, abriu a porta e saiu pra rua, rindo e falando: _ “Autoridade!... Me prender?!... Ao bobo?!... Vai comDeus e Nossa Senhora e o “Demo” atrás tocando viola!...” Foi então que ele sentiu alguém tocando seu ombro evoltando-se pra ver, deu de cara com o soldado de algemas namão! _ “Xiii!... O véio dançou!... Ao bobo?!...”
  34. 34. 033 AS CAMISINHAS FURADAS Manuel da Cachaça enrolou com cuidado o cigarro depalha. Depois de acendê-lo, deu uma tragada e começou: _ “Certo dia, um viajante de laboratório, passou numafarmácia daqui, e entre vários remédios que vendeu aofarmacêutico, incluiu um novo produto que estava sendo lançadono mercado. Tratava-se, nada mais, nada menos, que asfamosas “Camisinhas de Vênus”! Com receio, o farmacêutico comprou o novo produto! Sua consciência religiosa ia contra tais produtos, mas ostempos estavam mudados e alguns fregueses já haviam feito,por vária vezes, tal encomenda! O certo é que o farmacêutico mantinha as camisinhasnuma gaveta fechada a chave e fazia um controle rigoroso dasque vendia! Mas apesar de todo esse cuidado, começaram aaparecer camisinhas usadas, na porta da Igreja, no antigo prédiodo Patrimônio, na pedra de banho e até na porta da CasaParoquial! O padre não demorou a falar do assunto nas práticasdominicais e um dia foi procurar o farmacêutico. _ “Meu filho, você tem que parar de vender este produto!O lugar tá virando uma promiscuidade! É essa tal camisinha portodo lado! Você tem que dar um jeito nisso! Além do mais, o usodesse produto vai contra a Lei de Deus! “Crescei e multiplicai”,assim diz a Bíblia, e você, vendendo isto está contra a palavra deDeus! Está pecando!” O farmacêutico coçou a cabeça preocupado, abriu agaveta e mostrando para o Padre, que olhava boquiaberto aquantidade de camisinhas, falou: _ “Tudo bem, Padre! Eu vou controlar a venda, mas nãoposso ficar com o prejuízo! Vou seguir a Lei de Deus furandoalgumas delas com alfinete! Vai ser uma questão de sorte denascer ou não alguma criança por parte dos usuários!” O Padre concordou, mediante a promessa de que oproduto não seria vendido pra rapaz solteiro!”
  35. 35. 034 Manuel da Cachaça interrompeu o caso em meio à risadageral. Tomou a cachacinha, raspou a garganta e arrematou ocaso rindo à valer: _ “Eu posso lhes garantir, Sôs Moços, que muitos devocês estão aqui hoje, graças às camisinhas furadas do talfarmacêutico!... AS LUZES DA PONTE Quando Manuel da Cachaça se dispunha a contar umcaso de seu amigo Antônio Maurício, ele o fazia com prazer: _ “Sô Antônio Maurício morava lá na Isabel! “Pessedista”e “Niniquista” como ele ainda não vi ninguém! Acho até que eleera mais “Niniquista” que o próprio Ninico Carneiro, candidato aPrefeito pelo PSD! Corria o ano de 1958. A política “pegava fogo”, como sediz! O povo se preparava pra eleger o segundo Prefeito domunicípio, visto que Sô Juquinha da Água Limpa foi eleitoPrefeito na primeira eleição. As coisas pareciam muito boas pro PR! A construção da“ponte de cimento armado” sobre o Rio Piranga e a construçãodo prédio do Grupo Escolar pesavam na balança, como obrasde vulto do PR! Aí houve a inauguração da ponte! Um festão que atraiumuita gente! De noite, a ponte iluminada fazia os “pessedistas” “engulirseco”, tentando colocar algum defeito. E surgiram os defeitos:“É muito estreita” – “Não passam dois carros” – “Tem que sefazer obras pensando no futuro” – “Economizaram para sobrardinheiro pra comprar votos” – etc, etc, etc... Mas tudo motivadopelo ciúme da grande obra feita na cidade! Mas não adiantava!A ponte iluminada estava lá! Bonita e boa pra todo mundopassar! Então, uma certa noite, aconteceu o que ninguémesperava... Quebraram as luz da ponte! Só podia ser coisa dos“pessedistas”!... Foi um “sururu” danado na cidade!
  36. 36. 035 A polícia “metia fuzil” em qualquer grupinho de pessoasque ficasse pelas ruas tarde da noite! Parecia até época derevolução! Aí, Antônio Gato e Zé de Lucas chegaram à casa de SôAntônio Maurício. _ “Bom dia Sô Antônio! Como tem passado?” _ “Bom dia meus amigos! Vai indo tudo bem! Enquantoeu termino este servicinho aqui, os amigos não se acanhem.Vão lá dentro, na cozinha e sirvam-se à vontade! Maricota fezum franguinho com quiabo. Ela foi lá na Fazenda de Sô Guilé.Podem servir. A pinga está no garrafão, debaixo da mesa.Agorinha mesmo eu vou!” Aquilo foi jogar “sapo n’água” pros dois! Entraram nacozinha, beberam cachaça, comeram o franguinho e só deixaramos ossos com quiabo!... Volta e meia Sô Antônio entrou na cozinha. Pegou oprato, destampou a panela, remexeu o frango, e vendo que sótinha ossos, falou: _ “Gozado... Maricota fez um frango que era puro osso...Olhou pros dois, coçou a cabeça, tomou uma pinguinha esentando-se na ponta do banco, perguntou: _ “Mas que novidades os amigos me trazem?” Zé de Lucas, sempre mais prosa e com aquele estilomeio carioca e paulista – ele havia trabalhado fora – falou: _ “Olha, Sô Antônio... Vou falar contigo uma coisa. Lá naRua as coisas tão pretas! Tem polícia “metendo o fuzil” em todomundo! Num tá fácil, não!...” _ “Mas o que aconteceu? Fala logo homem! Mataramalguém?” _ “Não! Pior que isso! Quebraram as luz da ponte!...”Falou Antônio Gato servindo mais uma pinguinha. Sô Antônio riu satisfeito: _ “Há, Há, Há! Quebraram as luz da ponte? Há, Há,Há!Já sei! Vai vê que foi aquele bando de “perristas” mequetrefeque fizeram isso só pra jogar a culpa nos “pessidê”! Só pode ser!Há, Há, Há! Sô Ulisse, Delegado, tem que “exemplá” eles!Cambada de mequetrefe! Há, Há, Há!” Aí Zé de Lucas falou:
  37. 37. 036 _ “Éh... Mas tão falando que foi gente da alta... Políticosfortes do PSD!...” Sô Antônio parou de rir e perguntou: _ “Quem?... Quem foi?... Eu sei que é fofoca do PR!...Fala!” Zé de Lucas, puxando Antônio Gato pela manga dacamisa, saiu pela porta da cozinha e respondeu: _ “Tão falando que foi Ninico... Zé Fernandes... Idú...Sérvulo... Zizinho Peixoto... Sô Benigue...” Sô Antônio, chegando-se à porta falou, ou melhor, gritou: _ “Fora! Fora seus transmitidô de notícia farsa! Fora!Onde já se viu uma coisa dessas? Ninico, Zé Fernandes, Idú,Sérvulo, Zizinho Peixoto, Sô Benigue!... Ês são lá homem defazê uma coisa dessas?!” Entrando em casa, topou com Maricota que acabara dechegar: _ “Que foi Antônio? Que que aconteceu?” Sô Antônio respondeu servindo mais uma pinguinha: _ “É aqueles transmitidô de notícia farsa! Aqueles beija-flô-do-rabo-preto! Onde já se viu? Ninico, Zé Fernandes, Idú...Quebrá luz da ponte?!...” Bebeu a cachaça, estalou a língua e arrematou: _ “Bão! Se foi ês, foi muito bem feito! Aquelas luz tavammeio fracas... Num tavam valendo muito nada! Se foi ês, foibem feito!...” Saiu e foi pendurar os retratos de propaganda doscandidatos a Prefeito e Vice, Ninico e Sô Guilé, na porteira,justamente na hora em que um “perrista” do Xopotó passou dejeep e gritou: _ “Aí, hein puxa-saco! Botando os homens pra tomarsol!...”
  38. 38. 037 AS RAPADURAS Sô Belito, cachacista militante e treteiro, certo dia tavatomando umas biritas no boteco de Sô Dote, lá nas Cruzes. Conversa-vai, conversa-vem, uma pinguinha pra espicharo papo, um cigarrinho de palha e as horas passando. Aconteceu que Sô Dote precisou de sair e deixou oboteco por conta de Sô Belito por alguns minutos. Foi o temposuficiente para ele ufanar duas rapaduras e colocar no bornal,deixando ele pendurado em um prego do lado de fora do boteco. Sô Dote ao voltar, logo notou a falta das rapaduras.Despistadamente, verificou o bornal de Sô Belito, encontrando láas dita-cujas. Com rapidez trocou elas por dois tijolos, deixando obornal no mesmo lugar. Já mais tarde, bem “alto”, devido o efeito das“branquinhas” que havia tomado, Sô Belito tomou o rumo decasa, feliz com as duas rapaduras que levava. Pelo caminho ele foi pensando: “Hoje a mulher vai ficarsastifeita! Duas rapaduras! E ela que sempre diz que eu gastotudo em cachaça!...” Chegando em casa, jogou o bornal sobre a mesa dacozinha e foi logo gritando para a mulher: _ “Ô Maria! Dá seu jeito e faz logo um café! Tô doido pratomá um café fresquinho!” A mulher, logo respondeu: _ “Faço, sim! Mas ocê vai lá no terreiro cortar a cana epassar na engenhoca pra fazê a garapa!” Belito, rindo satisfeito, mostrou o bornal: _ “Precisa de cana não, muié! Comprei duas rapaduraslá no boteco de Sô Dote! Taqui no bornal!” A mulher atiçou o fogo no fogão, pôs mais água pra fervere pegando o bornal, falou: _ “Tá pesado! Até que enfim ocê trouxe alguma coisa pracasa sem ser litro de pinga!” Tirando as “rapaduras” do bornal, exclamou surpresa: _ “Belito!!! Olha aqui!!! Isso é tijolo!!!”
  39. 39. 038 Ele, esfregando os olhos, disse: _ “Num acredito!!! Cumé que Sô Dote pôde fazê umabrincadeira dessas comigo?!...” COISAS DE BÊBADOS Aprino e Mané Fostino, dois cachacistas militantes, certodia se encontraram na encruzilhada da Fazenda do Baía, já sobo efeito da “branquinha”. _ “Tá voltando, Mané?” Perguntou Aprino. _ “Não, tô ino!” Respondeu Mané Fostino. _ “Ino pra onde? Pra Presidente ou pra Piranga?” _ “Pra Presidente, uai!” _ “Ora, será que eu tô bebo? Aí ocê vai é pra Piranga!” _ Será?! Eu tô é ino!” _ “Não! Cê tá é voltano! Vão trocá de lugar pra vê! Eagora, cê tá ino ou tá voltano?” _ “Eh, acho que eu tô voltano!... Bão, lá vem ChicoVazio. Vão perguntá pra ele?” Chico Vazio, de nome Francisco Washington, outrocachacista declarado, chegou-se aos dois perguntando: _ “Cês tão ino ou vino?” _ “Ih!... É isso que nós qué sabê!... Que que ocê acha?Olha a posição do Mané. Cê acha que ele tá ino ou tá voltano dePiranga?” Chico Vazio, olhou a posição do Mané, fechou um olho eolhando bem pra encruzilhada da Fazenda, disse: _ “Tá difícil!... Essa encruzilhada num para de andá!...Lá vem Zé Pinheiro, vão perguntá pra ele...” Zé Pinheiro chegou até onde estavam. Fez o “sinal-da-cruz” – uma mania que ele tinha – e cumprimentou-os: _ “Bom dia prô cês! Algum problema?” Aprino foi logo dizendo: _ “Sô Zé, diz pra gente, pra tirá a duda. Pela posição doMané, ele tá ino ou voltano de Piranga?” _ “Ele tá ino!” Respondeu Zé Pinheiro.
  40. 40. 039 _ “Eu num falei, Mané? Aquela hora cê tava era vino deCalambau!” Mané Fostino, coçando a cabeça, falou: _ “Bão, já que tá arresolvida a questão, eu vou pra Rua!Té logo prô cês!” _ “Nós vai junto, uai! Num tem nada mesmo pra gentefazê! Que que ocê vai fazê na Rua?” _ “Bão, primeiro a gente passa na venda do Brás, lá atrásda Igreja, toma umas pingas...” _ “... Depois vai no Bar de Chico Borges...” _ “... Bebe mais outras...” _ “... Depois vai no Boteco Tomba Copo...” _ “... Toma outras pingas...” _ “... Passa no Vicente Ferreira... No Zé Fernandes...” _ “... Na venda do Idú...” _ “... No Boteco da Biri...” _ “... No Zé Salomé...” _ “... No Antônio Toninho...” _ “... No Mário Venâncio...” _ “... No Joaquim Pascoal...” _ “... Entra na Rua Nova...” _ “... Na Farmácia de Zécelmino, num passa não! Lánum tem pinga!...” _ “... Passa na venda de Sô Gentil... Desce o morro daponte e vai no Sô Caquim...” _ “... Volta pra Praça e vai no Leonídio...” _ “... No Silvério e no Ladinho Vidigal, num passa não!Lá também num tem pinga!...” _ “... Aí chega atrás da Igreja outra vez e entra noBrás...” _ “... Bebe mais pinga... e...” _ “... Xiiii!... Vai começá tudo de novo!...”
  41. 41. 040 AS ENXADAS DA POLÍTICA Com a emancipação política do Município veio o “prego-no-sapato” dos pessedistas: A mudança do histórico nome deCalambau para Presidente Bernardes! A partir daí a política localtomou outros rumos. Pais contra filhos, irmão contra irmão e atéesposas contra maridos! Famílias separadas, tudo em nome doPR e do PSD! Manuel da Cachaça acendeu o cigarro de palha, deu umabaforada, tomou uma pinguinha, raspou a garganta e começou acontar: _ “A separação política era tão grande na segundaeleição municipal, que o PR distribuiu enxadas “Jacaré” e o PSDdistribuiu enxadas “Tarza”, para os eleitores da zona rural. Um dia tava eu no Bar do Chico Borges, lá na praça,quando Zé Grilo, um trabalhador avulso, destes que pegamserviço de capinar quintal e plantar horta, chegou ao Bar comsua enxada às costas. Volta e meia chegou Zé Martinho, um preto forte quetrabalhava como diarista na Fazenda da Água Limpa. Zé Griloera do PSD e Zé Martinho do PR. Conversa-vai, conversa-vem, e entre uma cachacinha eoutra, o assunto chegou onde não devia: Política! Zé Martinho olhou pra enxada de Zé Grilo e falou: _ “Enxada Tarza... Muito boa pro seu tipo de serviço, ZéGrilo. Fofar canteiro de horta e terra macia! Enxada boa éJacaré, que aguenta terra dura sem desbeiçar!” Zé Grilo sentiu a provocação do outro e logo disse: _ “Já tive uma Jacaré, Zé Martinho. Engraçado, não medei bem com ela não! Com seis meses de uso ela tavadesbeiçada! Virou um “cacumbu” dei ela pro meu filho de seisanos brincar! Ainda tá la em casa! Ultimamente cortei o cabo delapra usar como martelo! Só pra isso que ela serve!” Zé Martinho sentiu que estava perdendo terreno e foi logoretrucando: _ “Cê deve ter capinado pedra com ela pra desbeiçar tãofácil! Enxada Jacaré é melhor que Tarza, todo mundo sabedisso!”
  42. 42. 041 Zé Grilo pegou a enxada de Zé Martinho, passou o dedopelo corte, deu uma estocada com a unha do polegar praverificar o tinido e disse: _ “Olha aí, nem tinir ela tine! Parece mais um sinorachado! E além do mais já está trincada, vai partir no meio enem vai servir pra martelo! Enxada boa é Tarza, que além detudo é PSD!” Zé Martinho não gostou da provocação e foi logodizendo: _ “Que PSD que nada, sô! Bão mesmo é enxada Jacaré,que é PR! Olha a sua aí, já está desbeiçando! Bão será se quemtá usando não desbundá!” Foi falar e levar! Zé Grilo meteu o olho da enxada natesta de Zé Martinho! Foi bater, sangue esguichar e o homemcair desacordado! Chico Borges veio logo acudir dizendo: _ “Dá o fora Zé Grilo! O Sargento vai chegar já! Cê sabeque ele é puxa-saco do PR! A coisa pode engrossar pro seulado!” Antes de sair, Zé Grilo olhou pra Zé Martinho ainda zonzono chão e disse: _ “Seu merda, cê vai ficar muito tempo com este “galo” natesta! Isto é pra aprender que enxada boa é Tarza! Viva o PSD!” Zé Grilo ficou acoitado algum tempo na Fazenda doSeringa, de Sô Zé Maria Carneiro, pai de Sô Ninico, candidato aPrefeito do PSD! Quando o PSD ganhou a eleição, ele pendurouuma enxada Tarza novinha na janela de sua casa, e quando ZéMartinho passava, ele batia na enxada com o cacumbu daJacaré e gritava: _ “Óia o tinido da bicha! Óia o som do PSD!” Zé Martinho, que ficou com um fundo na testa, com otempo acabou mudando pra Porto Firme.
  43. 43. 042 COPARRA Certo dia encontrei o João Pedro no açougue do MárcioPinto. Vendo-o cabisbaixo, de blusa de frio em pleno calor, coma cara de quem está doente, perguntei-lhe: _ “O que foi, João Pedro? Tá perrengue?” Ele, esfregando as mãos, respondeu: _ “Xiii!... Tô ruim! Tô vino do médio! Tô mar!...” _ “ Vindo de onde, João Pedro?” _ “Do médio, do dotôre, fui consurtá! As coisas num tãoboas pra mim, não!” _ “Por que, João Pedro?” _ “Óia, eu tava dum jeito que cê pricisava vê!... Numdizano danado, sem contá com um piriri que num sarava! Euchegava em casa, a muié fazia aquela comidinha gostosa, eudistampava a panela e dizia: Qué não, tá ruim! Ela fazia aquelabroa cheirosa, eu punha na boca e "guspia" dizendo: Qué não, táruim! Leite, então?! Nem pensá! Só de vê, enjoava! Mascachaça?! Ôbaaa! SÓ COPARRA!... NA RISCA!...” EFEMÉRIDES CACHACISTAS Lolô dos Costas, cachacista de carteirinha, foi levado aoHospital, todo arranhado de arame farpado, devido a um tomboque tomara, indo pra casa, sob o efeito da branquinha, lá proslados do Pai Domingos. No Hospital, perguntaram-lhe o que acontecera, no queele respondeu, na maior cara de pau: _ “Olha, ontem quando ia pra casa, um baita tamanduáme acercou na estrada, me dando um abraço forte e mearranhando todo!...” Já nosso amigo “Quinca Fubá”, vindo de bicicleta lá doCampo da Limeira, também “alto” pelo efeito da “branquinha”, aofazer uma curva, perdeu o equilíbrio caindo da bicicleta. No
  44. 44. 043meio do mato um passarinho piou alto: “PIAU!... PIAU!... PIAU!...” “Quinca Fubá”, levantando-se, batendo a poeira, olhoupros lados e pensando que era alguém escondido no mato quegritava: “MIAU!... MIAU!... MIAU!...” gritou: _ “MIAU É A PQP!!!...” Dias depois, topei com Narcísio Catarina, outrocachacista de carteira. Vendo-o com o olho esquerdomachucado, perguntei-lhe o que acontecera, no que merespondeu: _ “Ontem eu fui buscá lenha no mato e um macaco mejogou um tolete de pau no olho!...” A esposa dele, que ouviu a conversa, retrucou: _ “Deve ser daqueles “macacos” que Toninho da ÁguaLimpa põe dentro do litro!!!...” Prá terminar a conversa eu completei: _ “E este macaco deve ser parente do tamanduá queabraçou Lolô dos Costas lá no Pai Domingos e do passarinhoque “miou” pra “Quinca Fubá”!...” EU COMO... CÊ COME... TERRA COME!... O certo é que o caso já vinha acontecendo há tempos!Toda a região sabia e comentava! Mas o diabo é que o coitadodo Joaquim Altino, ou não sabia, ou não acreditava ou tinhamesmo vocação pra “corno”! Era público e notório o caso de Sá Maria com o seucompadre Quirino Pereira. Era Joaquim Altino sair de casa e lá chegava QuirinoPereira pra dar “assistência à comadre”! Certo dia, Joaquim Altino disse à mulher que iria até acidade de Piranga, pra resolver uns problemas de escrituras eque só voltaria no dia seguinte. Foi Joaquim Altino sair e Quirino Pereira chegar! E láficou, “assistindo” à comadre, nas maiores safadezas!
  45. 45. 044 Mas não se sabe “por quê”, Joaquim Altino, já chegandona rua resolveu voltar pra casa! Já era noite quando ele chegou! Soltou o animal, tirou asbotas ali mesmo no curral, como era de seu costume, subiu aescada e vendo a casa em silêncio, tomou o rumo do quarto. Ao abrir a porta, deu de cara com os dois na maior sem-vergonhice! Fechou a porta, foi pra varanda, acendeu o cigarro depalha e ficou esperando. Quirino Pereira vestiu rapidamente a roupa, pôs o chapéue aproximou-se do compadre, abrindo a camisa e mostrando opeito, dizendo: _ “Pode me matar, compadre! Pega o revólver e me dáum tiro bem aqui no coração! Sou um safado sem-vergonha!Num mereço viver! Me mata compadre! Então, Joaquim Altino, soltando a fumaça do cigarro,falou tranquilo: _ “Carece não, compadre!... Matá pra que?!... EUCOMO... CÊ COME... TERRA COME!!!...” GARRAPIA Fui comer pato no Zé Cirilo E quando o pato já vinha, Zé Cirilo, prestativo, Me serviu uma “branquinha” À guisa de aperitivo! De tão gostosa a pinguinha, Não tive outra alternativa: Pedi dez engarrafadas Pra poder levar pra casa E beber no dia a dia! Mas quando em casa cheguei Já na porta deparei Com Dona Patroa cismada
  46. 46. 045 Que de cara quis saber Pra que tanta “pingaiada”!Com a mão cheia eu conduzia O arsenal bebericante Em direção à cozinha, Enquanto lhe respondiaQue era só umas “pinguinhas”Pra beber de vez em quando E que não era todo dia!Mas Dona Patroa que é brava, Não quis conversa fiada, E enquanto me empurrava, No meu ouvido dizia: _ “Joga tudo naquela pia!” Sem ter como retrucar, Abri a primeira garrafa, E enquanto um copo bebia Despejava o resto na pia E a Patroa ria! Abri a segunda garrafa,De novo outro copo eu bebia Despejando o resto na pia Enquanto a Patroa ria! Abri a terceira garrafaE enquanto o resto eu bebia, Joguei o copo na pia E a Patroa já não ria! Quando a quarta eu abria, Joguei o resto no copo, Bebi na pia E já a Patroa eu não via!Quando da quinta eu bebia, A garrafa ria na pia E a rolha eu já comia! Peguei a sexta pia, Joguei o copo no resto Enquanto na garrafa bebia!
  47. 47. 046 Com a sétima garrafa vazia, Eu bebia sem copo E lambia a pia! Na oitava, à toa eu ria, E jogava a garrafa no copo E a mão já tremia! Peguei o nono copo, Misturei na garrafa, E na pia xixi já fazia! O décimo copo e o resto, Me jogou na “garrapia”, Não sei o que com a Patroa fazia, Só sei que quando acordei, Tava preso na Delegacia!... MANEZINHO DO PR Manezinho, perrista de “amargar,” embriagado, chegou àSessão Eleitoral para votar. O Presidente da Sessão, por sinalum pessedista de “papo amarelo”, vendo-o naquela situação,coçou a cabeça e pediu-lhe o Título de Eleitor. Manezinho, contorcendo-se, falou: _ “Titlo?! Pra que titlo?” O Presidente respondeu: _ “Ora, pra você votar! Sem ele, nada de voto!” Então, Manezinho, arrematou a conversa: _ “Acá! Antão vancê num sabe?! Pra votá no PR numpricisa de titlo não, Sô!...”
  48. 48. 047 MINEIRINHO FOLGADO Zezé da Silva, mais conhecido por Zezé Gabornate, foipra São Paulo, com o fim de trabalhar. Por lá ficou uns bons meses, mas esta experiência emSão Paulo, em nada mudou os costumes simplórios de ZezéGabornate. Certo dia, estava ele no BAGACINHAS BAR, que eramuito frequentado pelo pessoal daqui que lá reside, quandochegou a Polícia. O pessoal, já acostumado àquela rotina de cidadegrande, foi logo colocando as mãos para cima, aguardando a“revista” da PM. Zezé Gabornate, simplório como sempre, continuou comas mãos nos bolsos sem se preocupar. Um soldado se aproximou dele, dizendo: _ “Ponha as mãos pra cima, cara! Rápido!” Zezé, sem entender, perguntou: _ “Pra que por as mãos pra cima, Sô Guarda?” O soldado, ainda com um pouco de paciência, falou: _ “Pra que eu possa lhe dar a “revista”, entendeu?” Rindo, Zezé falou: _ “Me dar revista? Perde tempo não, Sô! Eu não sei lê,nadinha, nadinha!... Só se fô pra vê gravura!...” O soldado, empurrando-o, foi pedindo: _ “Seus documentos! Sua carteira de identidade!Vamos!” Zezé Gabornate, calmamente retrucou: _ “dicumento?! Tá aqui não, Sô! Tá em casa!Dicumento eu num ando com ele não! É pirigoso perdê e seperdê dá um trabaião danado pra tirá outro!” Então o soldado, já com a paciência esgotada, colocandoas mãos à cintura, encarou-o, dizendo: _ “Êh, mineiro! Você é bem folgado, não é?!” Zezé respondeu: _ “Bem, pra dizê a verdade, a gente num passa aperto,não! Meu pai tem um sitiozinho lá no Calambau, que produz umpouquinho de tudo... Dá pra vivê com certa forga, sim,
  49. 49. 048Sinhô! Você entende, né?... Mas voltando ao caso dosdicumento, vou te contar que um amigo meu perdeu os dele e...” Nesta altura dos fatos, o soldado já estava entrando naviatura, comentando com os colegas: _ “A gente encontra cada tipo nesta vida!... Ô mineirinhofolgado, Sô!...” A PRESA Manuel da Cachaça esfregou bem o fumo antes decolocá-lo na palha. Com mestria de muitos anos de prática,enrolou o cigarro e depois de acendê-lo, tossiu levementeperguntando a seguir: _ “Os moços se lembram bem de Roque Soares, não é?Irmão de Sô Idu e Sô Bastião, que trabalhava junto com eles naCasa Soareza, tão lembrados? Pois bem, o caso que vou contaraconteceu quando a venda de Sô Idu era na Rua São José, nacasa velha. Havia um Tenente do Exército que sempre vinha aquipara fiscalizar o Serviço de Alistamento Militar na Prefeitura, etoda vez que aqui chegava, passava na venda de Sô Idu ondetomava um guaraná. Roque, já acostumado com o Tenente, sempre o atendiacom presteza. Certa vez ele aqui chegou, como sempre, num jipão doExército. Parou em frente à venda de Sô Idu, entrou e Roque foilogo lhe servindo o guaraná. O Tenente tomou o primeiro gole e antes que falassealguma coisa, Roque, vendo que havia uma mulher no carro,perguntou: _ “E pra “presa”, o senhor não vai dar nada, não?” O Tenente, não entendendo, perguntou: _ “Pra quem?!...” Roque respondeu: _ “Pra presa! A mulher feia que está no carro!... O senhornão vai dar a ela um gole pra matar a sede?!”
  50. 50. 049 O Tenente, rindo, respondeu: _ “Não é presa, não! É a minha mulher!...” Roque, sem saber como se desculpar, limpava as lentesdos óculos enquanto a mulher que tudo ouvira, gritou do carro: _ “Presa é a mãe e mulher feia é a vó!!!...” MISERICÓRDIA! MIJÁ NA CORDA! Era época de Missões! A Igreja estava cheia! Pareciaque toda a população do Velho Distrito de Calambau estava alireunida! Padre Arlindo acabara de pregar e era aguardada apalavra de mais um Missionário! Sô Teodomiro acabara de chegar com mulher e filhos!Arranjou um canto pra se acomodar e tirando do ombro oinseparável bodoque, colocou-o próximo a uma coluna da igreja. O Missionário iniciou um longo sermão, pregando sobre asalvação da alma, chegando até ao Final dos Tempos, sobre aRessurreição dos Mortos! Sô Teodomiro, cansado da longa caminhada, encostou-se num canto e “pegou” no sono! A Igreja Velha tinha o piso de tábuas largas e diziam queali já fora enterrada muita gente, conforme costume antigo. OMissionário, ao pregar sobre a Ressurreição dos Mortos, já decomum acordo com alguém que se alojara sob o piso de tábua,gritava ameaçando os pecadores com o Fogo Eterno, enquantose escutavam batidas secas no piso da Igreja! O povo assustado, clamava gritando sem parar: _ “Meu Jesus! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!” Sô Teodomiro, acordando em meio àquela gritaria,esfregou os olhos sonolento, e então, prestando atenção aosgritos, começou a entender: “MISERICÓRDIA! MISERICÓRDIA!MIJÁ NA CORDA! MIJÁ NA CORDA!...” Então ele abriu osolhos, procurou pelo bodoque e pegando-o, disse:
  51. 51. 050 _ “Hum!... MIJÁ NA CORDA?!... MIJÁ NA CORDA DOMEU BODOQUE?!!!! ISSO NUNCA!!! VÃO BORA MUIÉ!!!...” A DENTADURA NOVA Joaquim Martins foi ao Jubileu de Congonhas e voltou dedentadura nova! Daquelas que se compravam no balde,experimentando uma a uma! Como ele era muito falante, com poucos dias todos jásabiam que a dentadura, nova, fazia com que ele pronunciasseas palavras carregadas nos “SSS”!... E aconteceu dele ir a Barbacena levar um vizinho, denome Maurício, para ser internado no Hospício. Mais tarde, após internar o amigo, foi o Joaquim Martinsao Bar do Levi e Jairo, nossos conterrâneos, gente fina, que ficalá na Colônia Rodrigo Silva, tomar uma cerveja. Jairo providenciou uma mesa, serviu-lhe a cerveja, voltoupara o balcão de onde lhe perguntou o que fora fazer emBarbacena. No fundo do bar havia um casal de namorados queestavam discutindo! A moça levantou-se para ir ao banheiro. Joaquim Martins, de olho nela, respondeu ao Jairo: _ “Eu vim na ambulânCIA(SSS), junto com aPolíCIA(SSS), trazendo o MauríCIO(SSS), para ser internado noHospíCIO(SSS)!” Foi então que o namorado que brigava com a namoradaaproximou-se do Joaquim dizendo: _ “Olha aqui, ôh meu! Vão parar de fazer ‘PSIU’ praminha namorada?!...”
  52. 52. 051 INÁCIO Manuel da Cachaça, vendo o cartaz que anunciava umForró nas Cruzes, falou: _ “Forró nas Cruzes! Sou capaz de apostar que o Ináciovai estar lá! Ô caboclo pra gostar de um forró! Aliás, ele gostamesmo é de forró, mulher e futebol! De certa feita ele estava no Forró da U.S.E, quando umde seus filhos chegou e lhe falou: _ “Ôh, pai. Me empresta “cinco mangos” aí! Segunda-feira eu lhe pago!” Inácio pediu licença à dama, com quem dançava,chamou o filho num canto do Salão, deu-lhe o dinheiro e disse: _ “Tá aqui o dinheiro! Agora vê se não me chama de paiaqui dentro, não! Principalmente se eu estiver junto com algumadama! Entendeu?!” Horas depois, do lado de fora do Salão, o filho lheperguntou: _ “Ôh, Inácio! Cê vai demorar muito pra ir pra casa?” E Inácio respondeu: _ “Olha lá cumé que fala!... Olha o respeito!... Eu sou seupai!...”...................................................................................................... Mas foi numa partida de futebol que o Inácio fez a maiorde sua vida! O Juiz havia marcado um pênalti contra o seu time!Confusão formada! Ninguém concordava com o pênalti! O Juiz pôs a bola na marca, os jogadores o cercaram! Bate! Não bate! Não bate! Bate! Na confusão, alguém gritou: _ “Chuta Inácio!” E ele, “fominha” pra bola,“pimba”! Mandou a bola probarbante!!!... E saiu corrido de campo!!!
  53. 53. 052 A RODA DA CARROÇA VELHA O Ministro da Eucaristia passou rumo ao Hospital paradar comunhão a um enfermo. Manuel da Cachaça saudou-o com o chapéu e entroupara o boteco do Zé Cirilo. Acendeu o cigarro, tragou, riumatreiramente e começou a contar: _ “Vi o Ministro da Eucaristia e me alembrei de um caso.Hê! Hê! Hê! Não vou dizer o nome de quem foi pra nãocomplicar! Hê! Hê! Hê! O povo sabe de cada coisa!... Sô Fulano era um homem sério, religioso ao extremo,conhecedor dos “latinorum” da Igreja tal qual um Padre. Só nãofoi Ministro da Eucaristia porque naquele tempo não havia estecargo! Cuidava das coisas da Igreja, rezava terços, ladainhas esó não celebrava Missa porque não era permitido. Todo mundo tinha confiança nele. Era, como se dizia, umhomem íntegro! Um dia, Sô Fulano começou a sentir umas complicaçõese resolveu consultar com um doutor lá de Viçosa. No consultório, com muito jeito, explicou que estavasentindo uma “comichãozinha” naquele “negócio” e que estavaincomodando muito. O doutor, que já conhecia muito bem Sô Fulano,respeitosamente examinou o “dito-cujo”. Em seguida, sentando-se, rabiscou a receita enquantofalava: _ “Êh, Sô Fulano! O senhor está com uma “baita”blenorragia, isto é, está com gonorreia!” Sô Fulano, surpreso, disse: _ “Eu?! Eu com gonorreia?! Mas como?! O senhor meconhece... Sabe que eu sou um homem íntegro!... Onde já se viuisto?! Como é que pude pegar um negócio deste?! Hein,doutor?!...” O médico respondeu, terminando a receita: _ “Como o senhor pegou eu não quero nem saber, masque é gonorreia, isto eu tenho certeza!” Então Sô Fulano pôs as mãos à testa, em atitude dequem está pensando e falou:
  54. 54. 053 _ “Ãh... Agora tô me alembrando!... Lá atras da Igreja temuma roda de carroça velha, na qual o povo tem o costume demijar... Outro dia eu mijei nela... Só pode ser lá que eu pegueiesta doença... É a única explicação... Só pode ser... Bem, e areceita? Que que o senhor vai me receitar?” O médico passou-lhe a receita. Ele leu e perguntou: _ “Tá aqui o nome do remédio... certo... mas o senhorpôs aqui pra ir ao oculista? Pra que oculista?!” O médico respondeu: _ “Ora, é muito simples! É para o senhor não ficarconfundindo “B...” de mulher com “RODA DE CARROÇAVELHA”!!!...” NO ELEVADOR Meu amigo Vivaldino, quando foi pela primeira vez a BeloHorizonte, resolver uns problemas na FETAEMG, ao usar oelevador, chegando ao andar pretendido, perguntou aoascensorista: _ “Sô moço, quanto é a corrida?” O ascensorista riu dizendo que não era nada e antes quea porta fechasse para o elevador descer, Vivaldino ainda falou: _ “Cê não querer receber, tudo bem! Mas quanto ocêcobra pra me levá na rodoviária?!...”
  55. 55. 054 “NOSCO” Sô Amantino Diogo estava trabalhando como pedreiro naconstrução da Igreja lá de Cruzes. Por lá ficava a semana toda, somente retornando àcidade aos sábados. Num certo sábado, estava ele e Tererê – seu ajudante –passando em frente à casa de Sô Zé Soares, lá no Xopotó,quando resolveu parar pra matar a sede. Sô Zé Soares, vendo-os, foi logo gritando: _ “Ôh, gente! Cês chegaram na hora certa! Vem tomarum café conosco!” Sô Amantino agradeceu, alegando pressa e dizendo quesó queria mesmo era matar a sede. Sô Zé Soares serviu-lhes a água e ainda insistiu: _ “Ôh, gente! Tá na hora, não faz cerimônia! Vem tomarum café conosco!” Apesar da insistência, Sô Amantino agradeceu e sedespediu seguindo estrada afora, acompanhado por Tererê. Ao se afastar da casa, Tererê falou: _ “Ôh, Amantino! D’ocê num querê o café, tudo bem!Mas eu tava doido é pra comê um pedaço do tal de “NOSCO”!...” O AGOURENTO (Dedicado ao amigo Ivã Moura que me contou este caso) Geraldo Coruja tinha fama de agourento! Se alguémestivesse doente, de cama, após a visita do Geraldo, piorava ouentão, morria!... Toda vez que ele visitava um doente, ao sair da casa, elepunha a mão em concha à boca e dizia em voz baixa: _ “Coitado! Num vai longe! Amanhã, quando ospássaros cantarolarem, oh! Já voôu!...” Certa vez ele foi visitar um amigo doente. Este, tão logotomou conhecimento de que o Geraldo Coruja estava na sala,
  56. 56. 055mandou a mulher escorá-lo com um travesseiro e passar-lhe póde arroz no rosto para ficar mais corado! _ “Manda entrar o agourento! Desta vez ele vai se darmal!” Disse o doente, firmemente apoiado no travesseiro! Geraldo Coruja entrou, cumprimentou o amigo e ali ficoubatendo papo. Quando saiu da casa e chegou ao bar, as pessoas,curiosas, foram logo saber: _ “E então?! Como está o doente?! Dizem que ele tácorado!...” Geraldo Coruja, pondo a mão em concha à boca,respondeu com aquela fala macia: _ “Se tirá o pó de arroz, tá sem cor! Mas se tirá otrabisseiro, oh! Ele pimba!... Coitado! Num vai longe! Amanhã,quando os pássaros cantarolarem, oh! Já voou!...” O BICHO QUE JÁ COMEU TERRA Meu amigo Valdivino de Oliveira foi quem me contouesta, tomando uma pinga empalhada, lá na Loja SOVIPEL, de SôIdu. Foi na primeira viagem que ele fez a Congonhas, emépoca de jubileu, lá pelos idos de 1950... Lá chegando, nosso amigo Valdivino, visitou como bomromeiro, em primeiro lugar, o Senhor do Bonfim. Simples como opovo do Calambau Velho, pôs-se a andar pelas ruas da cidade, enum beco estreito, viu uma multidão se aglomerando numa porta.Aproximou-se curioso quando um sujeito anunciou: _ “Venham, Senhores e senhoras! Venham ver o bichoque já comeu terra mas agora não come mais! É só Cr$ 1,00(um cruzeiro), entrem pra ver!” Valdivino curioso, meteu a mão no bolso, pagou e entroupuxando a fila. Andou por um corredor escuro e lá na frente,numa sala, um homem mostrava o tal “bicho”, que estava cobertocom um lençol, pra quem chegava:
  57. 57. 056 _ “Vejam meus Senhores e minhas Senhoras! Aí está obicho que já comeu terra e agora não come mais!” Puxou o lençol que cobria o “bicho” e lá estava ele: UMVELHO ARADO, QUEBRADO E DESMONTADO!... O RESGUARDO Zé Jorge era muito safado. Bebedor inveterado, na casados sessenta anos, não se cansava de falar sobre suas“qualidades” de machão. A mulher, Sá Ana, na casa dos cinquenta e tantos nãodava orência aos casos do marido. Certo dia, na rodada de pinga num boteco, Zé Jorge,eufórico, convidou uns amigos pra comer uma galinhada em suacasa. Os amigos duvidaram, e o Ladico até argumentou que nacasa do amigo não havia galinheiro! Zé Jorge, estufando o peito, falou: _ “Posso não ter galinheiro, Ladico! Mas no sábado, àsnove da noite, nós vamos comer uma galinhada lá em casa!Conto com a presença d’ocês tudo!” No outro dia, sexta-feira, Zé Jorge levantou pensandoonde arranjar as “penosas” para o sábado. Depois de matutar bastante, teve a ideia! Foi correndo àcasa de Sá Vitalina, lá no Maquixe, que além de ser comadre,tinha um galinheiro “recheado” de “penosas”! Lá chegando, de tardinha, foi logo falando pra comadreSá Vitalina: _ “Êh, comadre! Tô aperreado hoje, mas tô feliz! Lá emcasa chegou mais um infante, um mininão, só vendo!” Sá Vitalina, não entendendo direito, perguntou: _ “Chegou mais um “o quê”, compadre Zé Jorge?” _ “Um infante! Mais um minino, comadre! Mais um filho!” Sá Vitalina, pondo as mãos à cabeça, falou incrédula: _ “Mas é impossível, compadre! Como é que a comadreSá Ana, naquela idade... Não é possível!...”
  58. 58. 057 _ “Mas é a verdade comadre! Não sei como! Tavaescondido debaixo da saia dela!... A comadre sabe!... Aquelassaias compridas... Até eu num sabia até onte!... Mas, óia,comadre. Tô com pressa e vim pra avisá e pedi pra comadreduas galinhas, “muncado” de farinha de milho e dois litros depinga!... Eu preciso comemorá e cuidar do resguardo da Ana coma sopa de galinha!...” _ “Tá certo compadre! Vai lá no galinheiro, pega logo treisgalinhas enquanto eu ajeito a farinha e a pinga, que vai nogarrafão mesmo, só que é pro compadre devolvê o cascodepois!...” Mais tarde, ao chegar em casa, Ana, vendo aquelafartura, perguntou: _ “Onde ocê arrumou tudo isso, home? Olha só o queocê aprontou dessa vez! Num é trem roubado não, Izé?!...” _ “Que isso muié! As galinhas eu comprei no Sô ZéVicente, lá do fim da rua, a farinha e a pinga eu comprei com o“cobre” que eu ganhei descarregando o caminhão de SôBenigue!...” Dia seguinte, sábado, a galinhada foi das boas!... No domingo, Sá Vitalina topou com a comadre Sá Ana,na Missa das onze e foi logo falando: _ “Comadre Sá Ana, cê num tá doida não?! Cadê oresguardo, muié?! Nessa idade!... Cê tá é doida!...” Sá Ana, sem entender, falou: _ “Resguardo?!... Que isso comadre?!... Ficou doida éocê?!... Eu cá sou muié de ainda pari filho?! Além do mais o queIzé fala sobre seus “dotes” de machão, é pura “rastação-de-papo”!... Eu ter filho?!... Nessa idade?!...” _ “Mas compadre Zé Jorge teve lá em casa e falou queocê tinha ganhado mais um infante...” E Sá Ana foi logo completando a fala da amiga: _ “... E te pediu galinha e farinha pro resguardo... E pingapra comemorá... Ele é muito safado!... Ele vai me pagá!... Ora, sevai!...”
  59. 59. 058 O CARNAVAL Era Carnaval. A rapaziada entrou no boteco do Zé Cirilo fazendo omaior barulho, fantasiados. Depois que eles saíram, Manuel da Cachaça, rindomatreiramente, falou: _ “Tô me “alembrando” do tempo antigo, quando carnavalera coisa proibida pelo Padre aqui em Calambau. Hê! Hê! Hê!Mas tinham uns corajosos! Gente igual a Zico de Gusta e TecoPaula! Eles não eram brincadeira! Era chegar o Carnaval, os doisvestiam aquela roupa de saco de Mauá, que já estava atéparando em pé, que nem aquela fantasia de baralho que o IrmãoDiogo vestia todos os anos, pra desfilar no Carnaval, cês tãolembrados? Pois bem, o Padre faltava só excomungar os dois eeles nem ligavam! Cachaça na cuca, violão e pandeiro, roupa desaco e o povoado inteiro, principalmente por parte das beatas,reprovando sem parar! Então o Padre, vendo que não adiantava nada, foi àPiranga e denunciou os dois com o Delegado, um tal de Zé deTé! Ao receberem a intimação, os dois, não seamedrontaram! Por ser o último dia de Carnaval, prepararam uma“seresta” pro Padre! De noite, bem tarde, com a cidade sem luz, foram prafrente da Casa Paroquial. Zico de Gusta no violão e Teco Paula no pandeiro: _ “A denúncia tá formada pelo tal Padre José, Agora é tomá cuidado Com o tal de Zé de Té!” A janela da Casa Paroquial se abriu! A lanterna de seispilhas varreu a escuridão da rua, fazendo com que os doissaíssem em correria, procurando esconderijo!...”
  60. 60. 059 COMPADRE “CRISTO” E COMPADRE “CENTURIÃO” (Dedicado ao amigo Chiquinho Fernandes) Os dois compadres, todos os anos participavam, comoatores, das encenações da Semana Santa. Naquele ano os dois estavam “meio brigados” e um delesfoi interpretar o papel de Cristo, enquanto o outro foi ser oCenturião romano. Na praça principal havia um lote vago, morrado, no altodo qual sempre se encenava o Calvário. O cortejo seguia subindo o morro. “Compadre Cristo” na frente carregando a cruz e o“Compadre Centurião”, ao seu lado, surrando-o com um chicotede barbante! Então o “Compadre Cristo” falou: _ “Compadre, cê tá batendo com força, “diminói” aforça!...” O “Compadre Centurião” retrucou dando mais umachicotada: _ “Jesus sofreu muito mais e ocê moleza, num táaguentando umas “lambadinhas” de nada? Toma mais uma praaprender!” “Compadre Cristo” tornou a falar: _ “Compadre, eu não tô brincando... Se ocê me batermais uma vez com força, eu largo a cruz e lhe dou uma surra!...” O “Compadre Centurião” riu e disse: _ “Cristo não reagiu aos ferimentos recebidos, e ocompadre agora é como o Cristo, não pode reagir! Toma maisuma, seu safado!...” Foi bater e o “Compadre Cristo” parar! Jogou a cruz aochão, agarrou o “Compadre Centurião” pelo pescoço, deu-lhe ummurro no queixo, tomou-lhe o chicote, botando-o a correr morroabaixo, gritando: _ “Seu “fedaputa”! Centurião de merda! Vai bater na suamãe!...” O povo, surpreso, aplaudia, enquanto alguns maisexaltados gritavam:

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