Pra Ser Sincero - Humberto Gessinger [Livro]

5.531 visualizações

Publicada em

Título: PRA SER SINCERO - 123 VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA

Autor: Gessinger, Humberto
Editora: Belas Letras
Gênero: Artes/Música
Dimensões: 21 cm X 15 cm X 1 cm.
Ano: 2009
Edição: 1ª/2009
Paginas: 304

Sinopse:
Em 11 de janeiro de 1985, mesmo dia da abertura da primeira edição do Rock in Rio, Humberto Gessinger subia ao palco do auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS de cabelo new wave e bombacha, para o primeiro show de uma banda que tinha nascido para durar uma noite só. Era para ter se chamado Frumelo & Os Sete Belos, mas ninguém gostou, então os integrantes da banda resolveram fazer uma brincadeira com os estudantes de Engenharia e os surfistas que frequentavam o bar da universidade, que estava a pelo menos 100 quilômetros do mar. Engenheiros do Hawaii.
Vinte e cinco anos depois dessa estreia, Humberto Gessinger – que acompanhou todas as formações desde o primeiro show – lança neste livro seu olhar sobre a trajetória do grupo, sobre cada uma das composições e revela curiosidades e bastidores das gravações. Com fotografias inéditas, informações sobre cada um dos discos, letras comentadas e um diário de 1984 a 2009, Pra Ser Sincero é um livro sobre uma banda que era para ter durado uma noite só, mas que acabou escrevendo um capítulo da história do rock brasileiro, mesmo estando longe demais das capitais

Publicada em: Educação
1 comentário
13 gostaram
Estatísticas
Notas
Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
5.531
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
13
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
214
Comentários
1
Gostaram
13
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Pra Ser Sincero - Humberto Gessinger [Livro]

  1. 1. Humberto Gessinger
  2. 2. não me pergunte em que dia eu nasci não me pergunte em que cidade eu nasci o filme favorito, o time do coração o lugar mais esquisito em que escrevi uma canção se tu quiseres saber quem eu sou vem ver com os próprios olhos vem ver a vida como ela é
  3. 3. Humberto Gessinger 1ª Edição/2ª Reimpressão 2012
  4. 4. copyright 2009 Humberto Gessinger Editor | Gustavo Guertler Assistente editorial | Aline C. Orso Projeto gráfico | Melissa Mattos Luis Saguar Revisão | Alessandra Rech Karina de Castilhos Lucena Luís Augusto Fischer Capa | Melissa Mattos, sobre foto de Marco de Bari/Editora Abril [2010] © Todos os direitos desta edição reservados à Editora Belas-Letras Ltda. Rua Coronel Camisão, 167 CEP 95020-420 – Caxias do Sul – RS Fone: (54) 3025.3888 www.belasletras.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Fonte (CIP) Biblioteca Pública Municipal Dr.Demetrio Niederauer Caxias do Sul, RS G392c Gessinger, Humberto Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema / Humberto Gessinger. _Caxias do Sul, RS: Belas-Letras, 2010. 304 p. ISBN 978-85-60174-45-4 1. Autobiografia. I. Título 09/34 CDU : 869.0(81)-94 1. Autobiografia 869.0(81)-94 Catalogação na fonte elaborada pela bibliotecária Maria Nair Sodré Monteiro da Cruz CRB 10/904
  5. 5. Humberto Gessinger 123 Letras Luís Augusto Fischer
  6. 6. Humberto Gessinger (ao som de baquetas contando o início da canção: 1… 2… 3…)
  7. 7. Nasci em Porto Alegre, misturando famílias com origem no interior. Colonos italianos por parte de mãe, colonos alemães por parte de pai. Geral-mente falam dos gaúchos como se fôssemos um povo homogêneo, os branque-los do fim do mapa. Até pode ser assim, visto de longe. Visto de dentro, tudo é maior. Só entre a gringalhada da Serra e a alemoada do Vale já há um abismo de diferenças. Sem falar das outras peças do quebra-cabeça. Não havia nenhum músico na família da minha mãe. Havia músi-ca. Lembro de uma canção que meus tios cantavam quando me colocavam a esmagar uvas com os pés. A tradução poderia ser: Itália tá doente / desen-ganada pelos doutores / para salvar a Itália / tem que cortar a cabeça dos ricos. Não que fosse um pessoal politizado. Só eram sempre contra. E eram muito católicos. Eram muito católicos, também, na família do meu pai. Reza a lenda que todos tocavam algum instrumento. Piano, acordeón, violino, cítara alemã. Dez irmãos, uma pequena orquestra para quando chegasse visita naquelas noi-tes do interior gaúcho. Noites de tempos sem TV. Não cheguei a vê-los tocar. Herdei o acordeón da tia Hildegard. No dia em que ela recebeu o diploma, fechou a tampa e nunca mais tocou. 10
  8. 8. Nasci no dia 24 de dezembro, o que me deixou sem festa de aniversá-rio a vida inteira. A vida inteira estudei numa mesma escola de classe alta. Só porque meu pai trabalhava lá. Ele vivia correndo de colégio em colégio, dando aulas de latim, depois francês, depois português. Enquanto os currículos esco-lares eliminavam idiomas, o professor Huberto corria atrás do leite das crian-ças. Quatro filhos pra criar. Nunca nos faltou nada, material ou espiritual. Minha mãe também lecionava. Eram dela os livros mais bacanas da casa. Grandes, com capa dura e muito mais figuras do que texto. Infeliz-mente, em vez de aprender geografia nesses livros, tomei gosto por gráficos e tabelas. Deve ser o que chamam de efeito colateral. Dona Casilda tem seus mistérios. Um motor que não faz barulho. E anda! Na próxima encarnação, quero ser neto dela. Não tenho nada muito interessante pra contar dos tempos de colégio. Quem não me conhecia me achava antipático. Ninguém me conhecia. Nenhum dos meus colegas frequentava as mesmas ruas, quadras e esquinas que eu. A cidade devia ser bem pequena vista de um avião. Por dentro, era enorme. nossa cidade é muito grande e tão pequena estamos longe demais das capitais 11
  9. 9. 12 Da escola não tenho nada muito interessante pra contar, a não ser que eu era goleiro. Uma pequena vaidade. Sofrer solitariamente? Sim, mas com fardamento diferente. Luva, bandana e joelheira. Do gol, passei a jogar tênis. Bjorn Borg era o cara. E era frio, o Ice-borg. Podia jogar 123 horas, ganhar ou perder, sem que seu rosto revelasse al-guma emoção. Parecia saber algo que ninguém mais sabia. E parecia não poder dividir o segredo com mais ninguém. Com seu jeito de goleiro argentino, Borg parou de jogar no auge da carreira. Há lendas nebulosas sobre tentativas de suicídio. Um tango nórdico escrito por Wagner. Como geralmente acontece na dança dos ci-clos, as características dele ficaram mais nítidas contrastadas com a manei-ra de ser do cara que o sucedeu no topo do tênis mundial: John McEnroe, um fanfarrão. Eu nunca tive muito saco nem talento para competição. Depois de al-guns minutos, me parecia absurdo ficar correndo atrás de uma bolinha que ou-tro cara teimava em jogar cada vez mais longe. Treinar, eu achava legal. Passava horas no paredão, só ouvindo minha respiração e os três sons que a bolinha fazia: raquete-parede-chão, raquete-parede-chão. Um compasso ternário, uma valsa, um chamamé, um-dois-três, 1-2-3, raquete-parede-chão. Resumindo minha carreira tenística, desenvolvi um saque muito bom. Acima de qualquer outro golpe, pois era o único que eu podia aperfeiçoar sozinho. O golpe que começa e termina em si mesmo. Cordel Kill Bill.
  10. 10. Cordel Kill Bill. Mente desligada. Hoje, consigo essa boa sensação es-tranha percorrendo, mecanicamente, sem emoção, escalas no piano ou violão. 13 Lavar louça ou pregar botões também funciona, algumas vezes. se Capricórnio fosse Câncer se Califórnia fosse França a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão se eu fosse um cara diferente, sabe lá como eu seria Nasci no fim de dezembro, o que me aprisionou a um signo zodiacal pouco glamouroso. Dizem que a hora também é importante, pode desenhar ou-tros elementos no mapa, suavizar o diálogo entre os astros. Nasci às 18h30min. Meia hora antes, aos trinta minutos negativos da minha vida, freiras passaram pelo quarto cantando ave-maria. Imagino que fossem freiras com fardamento completo. Como tia Rosina, que viveu 123 anos, sempre de hábito. Ela contava histórias de quando esteve na Itália em plena Segunda Guerra Mundial. Sempre me trazia um licor de anis que ela mesma fazia. Para cuidar da voz. 123%, o teor de álcool. enfermeiras em filmes de guerra violinos nas canções de amor Nasci em 1963. Tinha seis anos e uma camiseta do Jairzinho quando o Brasil foi tri na Copa do México. Minha camiseta era verde e amarela, a da Seleção foi cinza até a Copa de 74, quando uma Telefunken trouxe cores para os jogos. Aí eu já tinha onze anos e a TV, ainda, só três canais. Uma TV, colorida ou não, não era nada comparada ao toca-discos que apareceu lá em casa quando eu tinha cinco anos. A Eletrola. Tudo nela era fascinante: os pés-palito, o pano ortofônico, os enormes botões, a luz dentro da logomarca da Philips, o mecanismo de empilhar vários discos, o seletor de velocidades, 33, 45, 78 rpm… Uma joia.
  11. 11. 14 Um conhecido dos meus pais trabalhava numa sociedade arrecadadora de direitos autorais, por isso ganhava uma quantidade enorme de discos. Sem ter o que fazer com eles, deixou todos com a gente. Era uma coleção fascinante por ser completamente aleatória. Ninguém compraria aqueles, e só aqueles, discos. No meio de todas as possibilidades musicais que os LPs ofereciam, eu voltava sempre para Os Incríveis, conjunto da Jovem Guarda, e José Mendes, cantor missioneiro. A causa do fascínio eram duas canções com uma caracterís-tica comum: narravam uma história. Como um filme ou uma ópera. Histórias tristes, sem final feliz. Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones começava com uma rajada de metralhadora e contava a história de um jovem morto na guerra. Em Picaço Velho, era um cavalo que morria. Culpa de um boi brasino. Foi por querer muito tocar essas duas músicas que ganhei meu primeiro violão.
  12. 12. Quem me deu o presente foi tia Bambina. Eu adorava esse nome até o dia em que ela me explicou por que não gostava dele: Bambina quer dizer “menina” em italiano. Era um antinome, nome nenhum. Desde sempre escrevi, com a pior caligrafia da turma, letras de músicas que não existiam. O violão foi ficando pra trás, acumulando poeira. Quando eu tinha doze anos, meu pai adoeceu. Faleceu quando eu tinha catorze. Tudo ficou em stand-by, nesse período, lá em casa. Acumulando poeira. Muita coisa ficou em stand-by pra sempre. Não deu tempo pra ele me ensi-nar 15 a fazer a barba. Enquanto meus colegas brigavam com seus pais na saudável busca de identidade, à noite, eu colocava os chinelos do meu pai para andar no escuro da casa. Fisicamente não nos parecíamos, mas o som dos chinelos caminhando era igual. Matava um pouco da saudade. toda vez que falta luz toda vez que algo nos falta (alguém que parte e não volta) o invisível nos salta aos olhos um salto no escuro da piscina O que havia de bom nessa época era ouvir música. Descobrir no-vos grupos nas revistas compradas no segundo andar do mercado público. Mais do que ouvintes, éramos torcedores das bandas. Quanto mais obscura e menos conhecida, mais gostávamos. O ideal de todo fã é ter uma banda só para si. Pelo menos era. Em algum ponto da estrada, vender mais discos e dar mais entrevistas passou a ter valor, mesmo nas tribos que deveriam oferecer alternativas. Até no minúsculo mundo do rock inglês havia territórios e fronteiras, uma divisão bem nítida entre estilos. Rock Pesado versus Rock Progressivo. Este último era o meu time. Apesar de também gostarmos de outras bandas, não podíamos admitir. Tínhamos que fazer pose de maduros defensores do rock mais cabeça, desdenhando os cantores que só ficavam no baby, baby, baby...
  13. 13. 16 Concordávamos todos no pavor à Disco Music. É engraçado: o que considerávamos mais superficial vingou e influencia o pop de hoje. O que achávamos perene, micou. Continuo resistindo, achando que isso é só uma con-sequência matemática da maior exposição do que chamávamos de som comer-cial. Certamente não estou com a razão. Meu coração de fã continua intacto. Não é pouca coisa, manter as ilusões depois de ver a máquina por dentro. Sou completista: quando gosto de algum artista, quero saber tudo sobre seu trabalho. Adoro as fases estranhas pelas quais todos os artistas de longa carreira passam. Sempre tive um pé atrás com as novas ondas, por isso, frequentemente me atraso. Fui o último cara da minha turma a me dar conta de que Bob Marley era o que é. pra entender é preciso fé cega e pé atrás uma canção da banda preferida, uma descida ao porão seis cordas pra guitarra, seis sentidos na mesma direção 600 anos de estudos ou seis segundos de atenção Meu presente de quinze anos foi dinheiro suficiente pra comprar uma guitarra e um amplificador. Faltou pro táxi e tive que levar a tralha pra casa de ônibus. Decepção total com a guitarra. Não era um instrumento introspectivo. Resolvi tomar aulas de violão. Cordas de náilon. Yankees go home! Quando cheguei, na primeira aula, o professor estava tocando um choro ao bandolim. Foi o fim do violão. Falei que queria aprender aquilo. Ele disse que eu deveria formar um regional para me acompanhar. Consegui três colegas, dois violões e um cavaquinho. O chorinho virou uma paixão. Nos sábados, o professor nos passava uma música e eu ia direto para as lojas de disco do centro catar tudo que eu achava de Jacob do Bandolim e Valdir Azevedo. Os álbuns do Arthur Moreira Lima interpretando Ernesto Nazareth estavam no topo de qualquer lista. Fui ficando sozinho na paixão pelo choro. O regional de um homem só. Na época, abriu-se uma janela de receptividade, até comercial, para uma música instrumental bem mais complexa: jazz, Gismonti, Jean Luc-Ponty, Pat
  14. 14. Metheny, Stanley Clarke, Weather Report... Assisti a John McLauglin num Gi-gantinho quase lotado! Ainda que maravilhosa, essa música trazia uma sensa-ção desestimulante. Tocar parecia algo reservado a poucos eleitos. Segui ouvin-do meus discos e tocando meu violãozinho no quarto fechado. 17 interessa o que não foi impresso e continua sendo escrito à mão escrito à luz de velas, quase na escuridão, longe da multidão Resolvi cursar Arquitetura, não sei bem por quê. Até não descarto uma influência inconsciente de músicos que fizeram esse curso. Alguns da Bossa Nova, outros da MPB. Até os caras do Pink Floyd, em biografias mal traduzidas, estudaram Arquitetura. Meu traço não era bom, mas eu gostava das matérias teóricas, história da arte, história das cidades. Aquela esquina entre Artes Plásticas e Engenharia era um lugar legal pra ficar olhando o movimento. Entrei na Escola de Arquitetura da UFRGS em 1981. Havia dois gru-pos de professores ideologicamente opostos. Dependendo de quem avaliasse os nossos trabalhos, poderíamos tirar a melhor nota ou sermos reprovados. Bela lição de relativismo cultural. Me foi muito útil fora da escola. o sonho é popular eu li isso em algum lugar se não me engano, é Ferreira Gullar falando da arquitetura de um Oscar o concreto paira no ar mais aqui do que em Chandigarh o sonho é popular No fim de 1984 rolou uma greve que fez as aulas se estenderem ja-neiro adentro. Sem muito o que fazer no verão porto-alegrense, a estudantada inventava atividades paralelas: exposições, festas, happenings… Numa des-sas, me juntei a três colegas para fazer um show no auditório da fa culdade.
  15. 15. 18 O baterista era Carlos Maltz, figuraça. Muito inteligente. A piada que diz serem necessários dois bateristas pra trocar uma lâmpada (um pra segurar a lâmpada e outro pra beber até a sala girar) não se aplica a ele. Mais inquieto e rodado do que eu, Carlos já era casado e havia passado um tempo em Israel e na Europa. Nossas diferenças ajudavam muito na invenção de uma banda. Seguimos tocando juntos por muito tempo. Até brigarmos sem brigar. Cada um foi pro seu canto e cada canto virou um mundo à parte. De-pois de um tempo, voltamos a fazer algumas coisas juntos. Carlos é um dos responsáveis por eu ter seguido escrevendo e tocando. 123 vezes resolvi largar tudo e ele sempre me dizia, às vezes sem falar nada, pra continuar. seguir viagem, tirar os pés do chão já vi o fim do mundo algumas vezes e, na manhã seguinte, tava tudo bem No início, escrever releases pretensiosos e desenhar cartazes espertos nos interessava tanto quanto fazer música. Estou mentindo: os cartazes eram nossa preferência. Sempre ensaiávamos na casa da família Maltz. Na garagem ou na sala, dependendo da moral da banda no momento. Flap, o irmão me-nor, sempre ficava por ali. Era muito engraçado na sua incorreção polí-tica. Se não era um profundo conhecedor de aviões e carros antigos, nos enganava muito bem. Estreia e despedida dos Engenheiros do Hawaii aconteceriam no dia 11 de janeiro de 1985, dia da abertura do primeiro Rock in Rio. Tentamos con-vencer algumas pessoas de que seria melhor nos ver tocar ao vivo do que assis-tir aos monstros sagrados pela TV. Eu tinha alguns cadernos de canções que incluíam trechos do que viria a ser Infinita Highway, Nada a Ver, e outras músicas que eu gravaria depois. Não mostrei nenhuma delas. Escrevi uma dúzia de canções no espírito da época, pós-punk. Tinham aquele humor nonsense, niilista. Engenheiros do Hawaii, uma delas, acabou dando nome ao grupo.
  16. 16. Lembro de ter sugerido Frumelo & Os 7 Belos, brincando com o nome das balas. Todo o mundo odiou. Engenheiros do Hawaii era uma brin-cadeira com os estudantes de Engenharia e surfistas que frequentavam nosso bar atrás das nossas colegas. Péssima escolha. Até hoje não sei nadar. Até hoje tenho que explicar que nunca estudei Engenharia pra gente que não acredita e jura que conhece outralguém que estudou comigo, Engenharia. Mas há uma autoironia, no nome, que me agrada. 19 to be or not to be engenheiros do Havaí eles odeiam Albert Camus eles só querem ler gibi Li, em algum lugar, que, no início da banda Metallica, falaram para os músicos que eles nunca fariam sucesso com aquele nome, porque era uni-dimensional. Péssima previsão. Aqui rolou algo parecido, ao contrário. Ban-das com nomes unidimensionais e heroicos como Ratos do Porão e Legião Urbana tendiam a ser levadas mais a sério. Os Titãs, que no início eram “do Iê-Iê-Iê”, deixaram essa questão explícita quando simplificaram o nome para se adequar aos ares menos sutis que se aproximavam com os anos 90. meninos de engenho santa ingenuidade santíssima trindade sexo, drogas, rock’n’roll Voltando ao primeiro show, encontraremos minha guitarra Giannini Diamond fingindo ser uma Gibson 335. Eu, de bombacha e ca-belo new wave, não sei o que fingia ser. O repertório era meio performá-tico. Além das músicas que escrevi, tocamos uma versão reggae de Lady Laura, do Roberto Carlos, e jingles dos biscoitos Sem Parar e do Extrato de Tomate Elefante.
  17. 17. Não lembro bem do show, pois estava bêbado. Era a primeira vez que eu tocava em público. Tracei uma linha na lista das músicas que ficava aos meus pés, exatamente no que seria a metade do show. Enquanto tocava, olhava o roteiro e pensava que, se chegasse até aquela linha vivo, iria até o fim. Essa mania me acompanhou por alguns anos. Em princípio, eu nem deveria cantar todas as canções, mas, no pro-cesso, o pessoal foi tirando o corpo e sobrou pra mim. Cantar não era algo que me dava prazer. O que eu queria fazer era tocar algum instrumento. E compor. Esse primeiro show parece ter ido bem. Pintaram convites pra apresen-tações em outras faculdades e alguns bares. A banda que montamos pra durar uma única noite estava virando uma banda pra durar algumas semanas. Já como um trio, tocávamos onde dava pra tocar. Onde não dava, também tocávamos. O repertório ia mudando rapidamente. As colagens performáticas foram dando lugar a um material mais pessoal, saído do velho caderno. Dos bares, começamos a andar pelo interior. Era algo que as outras bandas menos-prezavam. Ficavam umas tocando para as outras, no mesmo bar. Dizem as más línguas que são necessários 100 guitarristas gaúchos para gravar um solo (um para tocar e 99 para dizer que fariam melhor). Não é bem assim, mas é quase.
  18. 18. 22 A agenda da época mandava ser completamente urbano e cos-mopolita, romper com qualquer influência da MPB ou de sua versão gaú-cha, a MPG. Inventou-se que o rock no Brasil foi inventado nos anos 80. Muita gente jogou fora seus discos antigos. Depois se arrependeu. Nós éramos estranhos porque tínhamos e mantínhamos um pé em cada um desses mundos: rock clássico, MPB, MPG e atitude punk do-it-yourself. Deve ter sido essa salada que chamou a atenção de uma gravadora do centro do país, que lançaria um disco com cinco bandas gaúchas. Éramos a banda na qual ninguém acreditava e a banda que es-tourou. O disco se chamou Rock Grande do Sul . Vendo em retrospectiva, acho que, sem querer, os caras fizeram uma seleção emblemática da cena local. Das cinco bandas, duas faziam um rock clássico, sessentista e setentista. Outras duas bandas tinham pretensões de pós-modernidade, rezavam pela cartilha das revistas e jornais de São Paulo.
  19. 19. 23 e nós ali no meio no meio da cegueira nós ali no meio no meio das bandeiras Os clássicos me pareciam mal informados para menos. Os moder-nos, mal informados para mais. Nós estávamos mais prontos para o que viria. O BRock acabou transcendendo as gracinhas do Rio e o mau humor de São Paulo, criando um ambiente que nos favoreceria. Com o sucesso da coletânea, pudemos gravar um disco só nosso. Durante as gravações, em São Paulo, ainda éramos o patinho feio. Gra-vávamos nas horas que sobravam de outros artistas. Infelizmente, quase sempre pela manhã. Toda Forma de Poder, primeira música do nosso primeiro disco, co-meteu quatro pecados capitais: colocou Fidel e Pinochet na mesma frase, tinha participação de um ícone da MPG, estourou no Brasil inteiro e entrou numa novela (nessa ordem). Eu era completamente despreparado para tudo o que estava acon-tecendo. Não sabia como me relacionar com outros artistas, gravadora, im-prensa e público. Só depois me dei conta de que rolava um subtexto nas rela-ções São Paulo/Rio/Província. Misteriosamente, sobrevivi sem aprender a fazer a coisa certa. Aquele destemor de quem não sabe onde está se metendo deve ter ajudado. Ganhamos um Disco de Ouro raro na cena e começamos a viajar pelo Brasil inteiro. No fim da turnê, Marcelo Pitz, nosso baixista, resolveu saltar fora. Peguei emprestado o baixo dele, um lindo Rickenbacker Sunburst, para gravar, com Carlos, a demo do que viria a ser o próximo disco. As músicas já estavam todas prontas.
  20. 20. 24 Sempre achei as limitações de um trio estimulantes. Compor, fazer arranjos e tocar nesse formato é estar numa interessante esquina entre arte e ofício. Um lugar bom para ficar ouvindo o movimento. Pensei que, se eu passasse para o baixo e encontrássemos alguém que também tocasse mais de um instrumento, estaríamos livres para explorar o trio de uma maneira mais versátil. Sem cair nas armadilhas de heroísmo dos power trios. Talvez eu esteja mentindo. O real motivo para eu ter virado baixis-ta pode ter sido aquele Rickenbacker Sunburst. E os Rickenbacker Creme e Madeira que vieram depois. E os Steinberger, fretless e de dois braços. Podem ter me feito baixista os Fender Precision do Roger Waters e do Phil Lynnot, o Fender Jazz Bass do Jaco Pastorius, os amplificadores do Chris Squire e do Jack Bruce, a palhetada do cara do New Model Army, de quem, até hoje, não sei o nome. Mais físico do que a guitarra, mais espiritual do que a bateria, o contrabaixo fica na esquina entre ritmo e harmonia. Lugar legal para ficar sentindo o movimento. Por acaso, virei baixista. Instrumento pelo qual a maior parte dos fãs me identifica, mais do que guitarra, violão, teclado, har-mônica ou viola caipira. Sou autodidata em todos esses instrumentos, mas é o baixo que deixa minha precariedade técnica mais evidente. Não deixa de ser constrangedor receber elogios nessa área. Talvez quem goste da maneira como toco baixo saiba mais da vida do que eu. É impossível ser, ao mesmo tempo, um coração e um cardiologista. Falei com Maltz sobre a mudança. Ele achou legal a atitude irres-ponsável de mexer no time que estava ganhando. Alguns dias depois, ao encontrar Augusto Licks, num show, no Rio, Carlos o convidou para tocar guitarra com a gente. Conhecíamos o Augusto de trabalhos com o pessoal da MPG e de um show, dos Engenheiros do Hawaii, no qual ele havia sido técnico de som. Além do grande talento musical, achávamos que ele traria um estranhamento legal, já que vinha de outro ambiente. As mudanças de formação se tornaram frequentes na história dos Engenheiros do Hawaii. Não que eu gostasse. Não que eu evitasse.
  21. 21. Num mundo ideal, as pessoas ficariam juntas para sempre. Mas, num mun-do 25 ideal, talvez não se precise de música. hoje eu sei, só a mudança é permanente de repente tudo está no seu lugar O disco que gravamos em seguida fez uma história bacana. No lança-mento, não repetiu o sucesso do anterior, mas seguiria vendendo até o fim da in-dústria fonográfica, no início do século seguinte. Saber que nossa música estava chegando a lugares que não imaginávamos existir era estranho. Não posso dizer que me sentisse muito à vontade com a perda de controle que essa nova escala trazia. Boa sensação estranha. Nossa gravadora, à época, era fraca no ambiente pop rock. O cast se baseava em artistas românticos e populares. Foi bom para nós. Fazíamos sucesso e os caras não entendiam como ou por quê. Então, nos deixavam em paz. Sempre gravei o que eu queria, da maneira que eu queria gravar. Os nú-meros que gerávamos eram confortáveis e nossa maneira de ser deixava claro que não queríamos, nem poderíamos, fazer outra coisa. Impossível nos trans-formar em dançarinos ou rostinhos bonitos. Isso nos protegeu. Claro que a divulgação sempre era mais leviana e grosseira do que eu gostaria que fosse. Eu me consolava pensando que, se Bach fizesse parte do cast, tratariam-no da mesma forma. Cabia ao trabalho sobreviver, ou não, às intempéries. Enquanto gravávamos nosso segundo disco, em São Paulo, o pes-soal da gravadora, no Rio, ficou sabendo que havia uma música com po-tencial para fazer sucesso. Era Terra de Gigantes. Os caras estavam apre-ensivos porque nosso arranjo não tinha bateria. Achavam um desperdício, nenhuma música sem bateria tocava nas rádios. Muito amigavelmente, nos sugeriram que seguíssemos a fórmula das baladas da época: que a canção começasse só com guitarra e voz e a bateria entrasse depois, seguindo até o fim. A música cresceria, os pés bateriam no ritmo e as lágrimas rolariam. Não estávamos muito interessados em fórmulas. Como uma brincadeira
  22. 22. interna, gravamos uma virada de bateria que caía no vazio. A levada não seguia, morria ali, na entrada. Além disso, tiramos a letra dessa música do encarte do LP. 26 Pode ser irrelevante, e certamente é ingênuo, mas algumas ati-tudes como essa reforçavam a mistura de teimosia e irresponsabilidade que fazia com que nossas impressões digitais sobrevivessem aos apertos de mão. É natural que, ao conhecer um artista, a indústria, os críticos e os fãs se perguntem com quem ele se parece. Mas é preciso que o artista se pergunte o que é que só ele tem. Na reunião em que mostramos o disco com Terra de Gigantes para a gravadora, o clima foi de decepção total. Lembro das palavras do chefão: “Esse disco é um Boeing com tanque cheio. Pode ir longe… Se não explodir na decolagem”. Não creio que ele acreditasse na pri-meira hipótese. Saí da reunião direto para o aeroporto, achando que havíamos grava-do nosso último disco. No voo para Porto Alegre, encontrei um grande artista pop que estava indo ao Sul fazer alguns shows. Ele me mostrou, na fita K7 do seu walkman, a música que lançaria em alguns dias. A canção, que seria um grande hit, era bacana, seguia o formato dos singles radiofônicos da época. Fiquei com a boa sensação estranha de que ele havia feito a coisa certa, nós havíamos feito a coisa certa, os caras da gravadora estavam certos, tudo es-tava certo. As luzes de Porto Alegre, lá embaixo, estavam certas, as estrelas, lá em cima, estavam certas. Cada um na sua. as chances estão contra nós mas nós estamos por aí a fim de sobreviver como um avião sobrevoa a cidade em chamas O disco saiu, a turnê seguiu, e minha conexão com o ambiente ex-terno foi nublando e minguando. A banda virou um casulo. Não consigo mais
  23. 23. situar o que fizemos nas correntes e tribos da época. Contribuiu para esse alheamento, além da minha introspecção, a preguiça de encarar os clichês que se realimentavam. No Sul, éramos a trena pela qual o possível sucesso de outras bandas era medido, o que gerava um justificado ciúme (são necessários 100 guitarristas gaúchos para gravar um solo…). Nunca quisemos ser por-ta- vozes de nada. Nossa viagem era extremamente pessoal. Mas, infeliz-mente, nos coube, no Sul, ser a banda que atravessou o Mampituba. Era muito pouco e era chato. No resto do país, depois de rock-chimarrão e rock de bombacha, caiu sobre nós o clichê de odiados-pela-crítica-amados-pelo-público. Nada disso era muito verdadeiro. Tudo isso era muito desestimulante. Não havia diálogo acima dos clichês. Enfim… Aproveitando a autonomia que conquistamos na indús-tria, fui me fechando no meu próprio trabalho, que foi ficando cada vez mais autorreferente. Era consciente disso e nunca me preocupei. Sempre achei que tua maior virtude e teu maior defeito são irmãos siameses. Discos compunham trilogias, melodias e capas se repetiam anos depois, letras de músicas voltavam transformadas. Duas letras na mesma melodia, duas melodias com a mesma letra… Um mundo à parte, um mun-dinho à parte. Daqui pra frente, acho que as músicas falam por si. tudo se resume a uma cruz e uma espada e o principal, fica fora do resumo (caberia aqui toda a letra de Camuflagem)
  24. 24. 28 P.S.: quando não quero perder tempo falando da minha trajetória, costumo dizer que tive muita sorte. É menos cansativo do que reviver todo o trabalho, as alegrias e as frustrações. Pra ser sincero, sorte mesmo, e sorte grande, foi casar com Adriane. Luz que não produz sombra. Estudamos no mesmo colégio e fomos colegas na Arquitetura. Uma das primeiras coisas que ela me disse foi que eu era diferente do que parecia ser. O tom de voz sugeria ser um elogio. Até hoje tenho dúvidas. Será que ver de perto ou de longe muda tanto as coisas? juntos para sempre objeto e observador física moderna velhas canções de amor Diga-se, a meu favor, que tenho o raríssimo dom da monogamia. Pelos meus cálculos, só 12,3% das pessoas deveriam se casar. E, destas, 12,3% deve-riam ter filhos. Coisas para iniciados. Segue sendo um mistério, para mim, que as pessoas achem que casar e ter filhos é o caminho normal. Ninguém é igual a nin-guém, né? Eu, por exemplo, não gosto de flores. E acho um tédio ir ao cinema.
  25. 25. Em 1992, nasceu minha filha, Clara. E o mundo se refez. Um dia, quando eu estava cantando uma das minhas músicas favoritas para fazê-la dormir (índia teus cabelos nos ombros caídos / negros como a noite que não tem luar), ela me perguntou por que a tal índia tinha os ombros caídos. Acostumada com CDs, quando Clara viu, pela primeira vez, meus LPs perguntou o que era aquilo. Respondi que eram discos, pra tocar música. Ela falou: “Que legal, agora os discos vão ser grandões!”. Um mundo novo pode ser uma nova forma de ver o velho mundo. 29 morte anunciada: direitos autorais pela tv a cabo uma baleia acaba de nascer nascer pode ser uma passagem violenta o futuro se impõe, o passado não se aguenta Por Deus Nosso Senhor, eu achava mesmo que o fim do texto era ali, no parágrafo anterior. O pessoal que me convenceu a fazer o livro me convenceu também de que seria legal o texto chegar aos dias de hoje. Enquanto eu explicava com belos argumentos por que não continuaria, de jeito nenhum, nem pensar, imagina, claro que não, comecei a achar que era pretensioso demais parar ali. Quantas vezes posso fazer o que fiz com a bateria de Terra de Gigantes? Não muitas, certamente. Prometo que, se me convencerem de mais alguma coisa, eu aviso. Fiquem tranquilos. No mais, os erros são todos meus. Daqui pra frente, vou me valer desta abstração que é a contagem do tempo em anos, pois me falta ciência para situar bem o que fiz em relação às tribos e ondas do momento. Efeito colateral dos coloridos livros de geografia da minha mãe, tenho gráficos e tabelas com todos os shows, gravações, videoclips e progra-mas que fiz. Por si só, dizem muito pouco, quase nada. Serão úteis para criar um quadro pontilhista. Impressões numa imagem sem linhas. Curioso caso em que quadro será moldura. Continuo achando que, falem bem ou falem mal, os discos falam por si. É só ouvir.
  26. 26. 31 • 1986 • Após o sucesso de Segurança e Sopa de Letrinhas, na coletânea Rock Grande do Sul, gravamos, em São Paulo, nosso primeiro LP, Longe Demais das Capitais. Não consigo me lembrar se a canção deu nome ao disco ou se o nome do disco sugeriu a canção. O que significa que canção e conceito nasceram mui-to próximos um do outro. Fizemos as fotos da capa perto de Porto Alegre, no lugar mais pare-cido com o Pampa que encontramos. Sinalizava nossa falta de interesse pela agenda da época, com suas paredes pichadas, latas de lixo em becos escuros e bússolas apontando para Nova Iorque e Londres. O disco teve Carlos Maltz na bateria, Marcelo Pitz no baixo e as participações de Nei Lisboa em Toda Forma de Poder e Manito, saxofinista d’Os Incríveis, em Segurança. MPG e Jovem Guarda engrossando nosso caldo. Não era fácil conseguir instrumentos importados, na época. Consegui que um-colega-do-primo-do-pai-da-irmã-do-vizinho-de-um-cara-que-tinha-uma- kombi trouxesse dos EUA uma Fender Telecaster. Encomendei um modelo clássico, anos 60. Para minha decepção, veio uma guitarra moderninha, pratea-da, de metaleiro. Mas era minha e eu a adorava. Gravei esse disco com ela. Surpresa foi a gravadora ter pintado a foto da capa, originalmen-te P&B. A estética new wave impunha um colorido atroz. Mas o tiro saiu pela culatra. A capa até ficou bacana com as cores artificiais. Parecia-se com aqueles retratos antigos, artificialmente coloridos. Bucólico. Na edição do CD restaurou-se o P&B outonal original. um cão sem dono uma árvore no outono o nono mês de gravidez eu perco o sono ao som de Yoko Ono telefono pra vocês
  27. 27. Longe Demais 1986 das Capitais Humberto Gessinger voz & guitarra Marcelo Pitz baixo & voz Carlos Maltz bateria
  28. 28. Longe Demais 1986 das Capitais TODA FORMA DE PODER SEGURANÇA EU LIGO PRA VOCÊ NOSSAS VIDAS FÉ NENHUMA BEIJOS PRA TORCIDA TODO MUNDO É UMA ILHA LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS SWEET BEGONIA NADA A VER CRÔNICA SOPA DE LETRINHAS 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/pitz Lado B Lado A A boa estranha Telecaster. Aquela mangueira presa ao segundo microfone faz parte do sistema Voice Box. Por ela vem o som da guitarra. A boca se transforma numa caixa de ressonância e o som é captado pelo microfone. Som de guitarra articulado como voz, mais ou menos isso… < Cartão-postal >
  29. 29. 36 • 1987 • Seguimos na estrada todo o primeiro semestre, até a saída do Pitz. Augusto, que assumiria a guitarra com minha passagem para o bai - xo, não teve muito tempo para se ambientar. Éramos dois neófitos. Eu no baixo, ele na banda. Isso fez muito bem ao disco que gravaríamos em São Paulo e se chamaria A Revolta dos Dândis. O nome veio de um capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus. Julio Reny, que circulava nos mesmos palcos que a gente, no início da carreira, dividia comigo os vocais em Guardas da Fronteira . O álbum tinha um som esparso e bem cru. Já começava a pintar a digitalização dos equipamentos, mas não usamos nada que fosse posterior ao início dos anos 70. Não por bravata ou estilo. Era o que nos bastava. Eu achava muito xinfrim nós, aqui no terceiro mundo, nos arvorarmos à ponta tecnológica. Não era o bom combate. Hoje é diferente, centro e periferia tecnológica já não desenham um mapa linear. As fotos da capa foram feitas no mesmo lugar do disco anterior. O projeto gráfico iria se repetir no disco posterior. Assim como trechos de músicas e letras reapareciam. Eterno retorno, pensando em loop. Minha ladainha, longa milonga. Lenga-lenga, lero-lero. Pensando em loop para sublinhar a continuidade. O mundo pop é muito novidadeiro. A onda é vir, a cada ano, com outra onda. Como se novidade fosse um valor em si. Sempre achei empobre-cedor pensar assim. Prefiro artistas que abrem poucas portas e se jogam na sala escura a artistas que abrem todas as portas só pra dar uma espiadinha. Simples preferência, não vai nenhum juízo aí. Questão de escolher a distância da qual se vai ver o quadro. Uma sinfonia de Berlioz, com aquele mundaréu de gente, pode ter o tamanho do violão e voz do João Gilberto. Depende de nós. Longe ou perto, dentro ou fora. há tantos quadros na parede há tantas formas de ver o mesmo quadro
  30. 30. A partir desse disco, começamos a usar engrenagens nas capas. Num ensaio na casa do Maltz, chegou correspondência para o pai dele, vinda do sin-dicato dos engenheiros. O símbolo era uma engrenagem. Carlos sugeriu criar uma, para usarmos como assinatura visual.
  31. 31. A Revolta dos Dândis Humberto Gessinger voz, baixo & guitarra Augusto Licks guitarra, violão, harmônica & voz Carlos Maltz bateria, percussão & voz 1987
  32. 32. A Revolta > Rickenbacker Sunburst 1987 dos Dândis A REVOLTA DOS DÂNDIS parte 1 TERRA DE GIGANTES INFINITA HIGHWAY REFRÃO DE BOLERO Gravação do disco FILMES DE GUERRA, CANÇÕES DE AMOR A REVOLTA DOS DÂNDIS parte 2 ALÉM DOS OUTDOORS VOZES QUEM TEM PRESSA NÃO SE INTERESSA DESD’AQUELE DIA GUARDAS DA FRONTEIRA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/maltz gessinger gessinger Lado B Escrevi, com Nei Lisboa, Deixa o Bixo. Está no disco Carecas da Jamaica. Neste mesmo disco participei da faixa Carecas da Jamaica. + > Lado A
  33. 33. 42 • 1988 • Continuava a rotina de muitos shows, quase sempre em ginásios, mesmo durante as gravações do Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém. Gravado na mesma época do ano e no mesmo estúdio em que gravamos o disco anterior, ambos compartilhavam, também, o mesmo estado de espírito. Não havíamos amadurecido muito, mas estávamos mais entrosados como banda, o que é bom, mas é ruim, mas é bom… O disco abre com a música de mesmo nome. Eu queria que começasse com um burburinho, vozes incompreensíveis. O produtor do disco estava me aju-dando a gravar essas vozes e, do nada, começou a falar palavrões ligados ao nome de pessoas bem conhecidas. Não me aguentei e comecei a rir. Na mixagem, ob-viamente, tiramos as ofensas. Até hoje, quando ouço a música, fico com medo de que elas voltem do além. Não seria nada engraçado, mas não me surpreenderia. Na real, o que me intriga é que sempre escutemos a mesma versão quando colocamos um disco. Me surpreende que a bola que estufou as redes, num estádio qualquer no domingo à tarde, continue entrando nas inúmeras repetições da TV à noite. Que, nas fotos das capas, não apareçam as rugas que eu vejo no espelho, me espanta. Segura a onda agora, Dorian Gray. A capa seguia a mesma matriz d’A Revolta dos Dândis, só mudava a cor, de amarela para vermelha. Nos amarrávamos em cores primárias, na lin-guagem de sinais de trânsito, placas de estrada e bandeiras. Viesse depois um disco com capa verde, e teríamos uma trilogia com as cores da bandeira rio-grandense. Mais do que um manifesto de regionalismo mal focado, um piscar de olhos para os dinossauros do rock progressivo. Um aceno aos seus pretensiosos álbuns conceituais a serem continuados, recheados de músicas com várias partes. Sigo nesse time. Perder a guerra não significa aderir. Éramos uma miniatura de dinossauro, o que deve ser uma lagartixa. eles têm razão mas a razão é só o que eles têm e a ilha não se curva às águas turvas desse mar
  34. 34. Sugeri que as engrenagens, em vez de um conteúdo original, tivessem, em seu interior, símbolos pré-existentes. O lance hippie, o céu da bandeira do Bra-sil, o ying-yang, a cobra mordendo o próprio rabo. Deixava a coisa mais divertida e menos aleatória. Os signos deveriam ter relação com o conceito do disco. Trazia uma boa sensação estranha vê-los subordinados a engrenagens. É provável que eu e Carlos tenhamos virado noites falando de Walter Gropius, Duchamp e Dalí, tecendo longas teses sobre bigodes na Mona Lisa, relógios derretendo e mictórios fora do lugar, enquanto especulávamos pequenas subversões visuais. 43 jagunço hi tech perua low profile cabelo vermelho ferrari joia rara para a multidão Marcante foi o show Alternativa Nativa, no Maracanazinho. Nesses shows coletivos, sempre rola um clima de competição, que nada tem a ver com música. É assim, não adianta. Quem foi melhor, a laranja ou o poema?, ne-nhum dos dois, preferi o mês de abril. Não adianta, é assim. Para nossa sorte, no dia seguinte, estava no jornal: “A Vitória dos Dândis”. Desde esse maracana-ço, começamos a nos chamar de “a maior banda do futebol uruguaio”. No fim desse ano, fui morar no Rio de Janeiro. Eu estava me casan-do, de qualquer forma teria que me mudar. Algumas centenas de quilômetros mais ao norte não fariam diferença. Nossos shows já eram, em sua maioria, fora do RS. Era mais cômodo ficar mais perto de onde nos queriam mais. Aluguei um apartamento em Copacabana. No primeiro dia como inqui-lino, encontrei, no elevador, João Saldanha, ex-técnico da Seleção e do Bota-fogo. Comentarista esportivo dos mais interessantes. Me declarei fã e pedi que ele escrevesse o release do nosso disco. Ele disse que não manjava nada do assunto. Estou quase certo de que o termo foi este mesmo, “manjar”. Falei que seria melhor assim, que ele escrevesse qualquer coisa. E assim foi.
  35. 35. Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém Humberto Gessinger voz, baixo & guitarra Augusto Licks guitarra, violão, teclados & voz Carlos Maltz bateria & percussão 1988
  36. 36. 16 de julho, o maracanaço. Minhas lembranças de shows nunca são visuais. Seja por ter olho claro ou por timidez, fico cego no palco. Talvez por isso tenha levado um tombo logo nas primeiras músicas. Tropecei em algo. Estava de botas, não era a chuteira certa para o tipo de gramado. Tenho mania de colar crucifixos nos meus instrumentos. No tombo, entortou uma cravelha do Rickenbacker e sumiu o crucifixo. Mau presságio. Será que levaríamos uma goleada? Que nada, o show decolou e foi uma maravilha. Um roadie achou o crucifixo embaixo do praticável da bateria. Ouça o Que Eu Digo: 1988 Não Ouça Ninguém < OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM CIDADE EM CHAMAS SOMOS QUEM PODEMOS SER SOB O TAPETE ? DESDE QUANDO ? NUNCA SE SABE A VERDADE A VER NAVIOS TRIBOS E TRIBUNAIS PRA ENTENDER ? QUEM DIRIA ? VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 gessinger gessinger gessinger gessinger / licks gessinger gessinger gessinger gessinger / licks gessinger gessinger gessinger / licks Lado A Lado B Escrevi a letra de O Que Você Faz à Noite, uma parceria com Dé, então baixista do Barão Vermelho. Está no disco Carnaval. +
  37. 37. 48 • 1989 • Pretendo tirar este parágrafo da edição gaúcha, pois vou falar que simpatizo com o Botafogo e vão me cobrar monogamia tricolor. Bah, nem falei do Grêmio ainda! Melhor pra vocês. Se começar a falar, não paro mais! Do Botafogo, é mais fácil falar, é só um namoro passageiro. Nesse ano, o Botafogo saiu de uma fila de 123 anos e foi campeão carioca. Com técnico e alguns jogadores gaúchos. Aos poucos, foi ficando alvinegro o meu ponto de vista nos bate-papos sobre o futebol do Rio. Se, hoje, os cariocas são supercentrados no futebol deles, imaginem nos jurássicos tempos de antes da internet. Será que foi o escudo do Botafogo que me fez adotá-lo como time filial? Nesse caso, desde minha infância, já estava escrito, não nas estre-las, mas nos meus cadernos. Adorava desenhar escudos de times. Eu divi-dia os distintivos em três tipos: os naturalistas (Vasco com sua caravela e Corinthians com sua âncora), os artísticos, com suas letras entrelaçadas (Inter, Flamengo e Fluminense) e os geométricos, feitos com esquadros e alguns pontos de compasso (São Paulo e Grêmio). A estrela solitária, mais do que as estrelas do Cruzeiro, fica num grupo particular, esquina entre poesia e geometria. Um lugar legal pra ver o jogo. Outro pecado capital para torcedor gaúcho: enquanto morava no Rio, comecei, gradualmente, a parar de secar o Internacional. Perdesse Grêmio ou perdesse Inter, algum carioca sempre pegava no meu pé. Não adiantava dizer que só torcia pra um dos times, a resposta era sempre “é tudo gaúcho!”. A si-tuação chegou ao máximo no dia em que o Figueirense perdeu para um time carioca e alguém pegou no meu pé. “Figueirense é de Florianópolis!”, protestei. Ouvi a frase de sempre: “É tudo gaúcho!”. Para desespero do meu lado racional, bastou eu voltar a morar em Porto Alegre para que o secador renascesse. Nesse ano, lançamos Alívio Imediato, que inauguraria o padrão de um disco ao vivo entre cada três de estúdio. Tínhamos só dois dias, no Canecão,
  38. 38. para gravar o show. Eu gosto dos altos e baixos de uma estreia. O pessoal da técnica sempre prefere a tranquilidade dos outros dias. Antes do segundo show, ouvindo as gravações do dia anterior, descobrimos que não poderíamos utilizar quase nada. Havia fãs com buzinas bem embaixo dos microfones que captavam a audiência. Assim, o segundo dia virou estreia de novo. Altos e baixos, tensão legal. O disco capturou bem o show. Comecei a usar os baixos Steinberger. Perdia um pouco da impetuo-sidade dos Rickenbacker, ganhava um pouco de chão, a âncora. Que maravilha, um trio! Parece que expulsaram dois jogadores de cada time. Um campo enor-me 49 para correr e mandar às favas esquemas táticos. Entre a gravação e o lançamento do disco, faríamos nossos primei-ros shows internacionais. EUA, Europa ou América Latina seria muito linear para uma banda como a nossa. Para onde o destino nos levou? URSS! Um sonho em extinção? Um pesadelo a minutos de o despertador tocar? Você decide. Já botei Fidel e Pinochet na mesma linha e, de lá para cá, só fiquei mais confuso. Na bagagem que levaríamos nessa expedição ao outro lado da cortina de ferro, levamos um material impresso sobre a banda. Nele, uma letra tradu-zida: a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes. No avião, eu pensava: que sentido isso pode fazer lá? Será que tem refri? E propaganda? Banda tem? Juventude deve ter. Foram cinco shows em Moscou, abrindo para uma banda russa bem conhecida lá. Eles viriam ao Brasil e retribuiríamos a acolhida. Mas caiu o muro antes, não rolou. Não sei se a banda sobreviveu às transformações que vieram com o colapso do império. O som deles era heavy metal clássico, aque-le bem cantado e bem tocado, com guitarras voando em escalas melódicas. O estranho é que tocavam baixinho. Mesmo nas músicas sem bateria, parecia que soávamos mais alto. Estavam acostumados a tocar em teatros e, nós, em ginásios, deve ser a causa.
  39. 39. 50 Os horários dos shows eram esquisitos. Num dia tocamos às 12h e às 16h30min. O teatro era muito bacana. No primeiro show, levei um esporro tão grande do zelador que, mesmo sem entender russo, entendi tudo o que ele ber-rava. Eu estava entrando no palco com um copo de conhaque e ele esbravejava que grandes bailarinos, atores e músicos tinham pisado naquele chão e nunca ninguém com um copo de bebida alcoólica na mão. Ponto para ele. Estava cer-to. Mas, cá pra nós, o conhaque era maravilhoso. Muito melhor do que a vodka. Vinha numa garrafinha despretensiosa como as nossas de guaraná. Ficamos hospedados num conjunto de vários prédios idênticos. Um dia me perdi, entrei no prédio errado. Fiquei tentando abrir uma porta que não era a minha. A enorme senhora que cuidava do corredor veio ver qual era. Não conseguíamos nos comunicar. Um monte de portas se abriram. Todos os filmes sobre espiões na Guerra Fria passaram pela minha cabeça. Um caos. Uma fita K7 do Roger Waters (Radio K.A.O.S) no meu bolso fez com que um cara falasse comigo no que parecia, remotamente, ser o idioma inglês. O cara ganhou a fita e eu, uma orientação para chegar ao meu quarto. Com cachê pago numa moeda que não poderia trazer para o Brasil, eu quis comprar uma camisa da Seleção ou de qualquer time russo. Não tinha pra vender. Quis comprar um instrumento. Eram intocáveis, vinham com o braço separado do corpo e pregos para juntar. O que eu trouxe foram uns pôsteres revolucionários e, na mente, imagens das estações do metrô, o barulho dos limpadores de para-brisa, o frio que era diferente do frio que eu conhecia. Trouxe também os olhos esbu-galhados na janela do Aeroflot quando o avião pousou em Moscou, o cheiro do cigarro russo, os pedidos de cigarro americano e a sensação de transe ao passar dez dias ouvindo um idioma tão diferente. Parecia uma fita tocada ao contrário, num velho álbum de rock progressivo. Restou uma contradição. Como se, num quadro pontilhista, cada ponto fosse cinza e a imagem formada fosse colorida.
  40. 40. Dizem que um especialista é um cara que está num lugar há mais de vinte anos, ou há menos de vinte minutos. É verdade. Em cada paralelepípedo de Moscou, eu via o Kremlin. Reverberava tudo que eu pensava saber sobre aquele povo. Drops de Dostoiévski. Como uma série de bonecas russas, umas dentro das outras, tudo depende de quão fundo queremos ou podemos ir. Perto ou longe, dentro ou fora. tudo que era certo, sólido tudo que era líquido e certo dissolve, desaba, dilui desmancha no ar De volta ao Brasil, promessas utópicas de um socialismo moreno. Era a primeira eleição direta para presidente, depois de 123 anos. Tocamos em qua-tro comícios do candidato Leonel Brizola. Não cobramos nada. Num deles, as atrações éramos nós e Arthur Moreira Lima, num palco mambembe. Do lado de lá, Collor tinha os artistas mais populares do momento, num palco de primeira. Não sei o que teria acontecido se Brizola tivesse ganhado. Talvez a mesma coisa que aconteceu com Collor, mas com sinal contrário. Vinte e seis anos atrás, não haviam derrubado outro? Há quem diga que, naquela vez, pelas virtudes e não pelos defeitos. À luz do que se viu depois, me parece que tudo fica mais tranqui-lo com um paulista na presidência. Seja de que lado for. esquerda e direita, direitos e deveres, os três patetas, os três poderes ascensão e queda são dois lados da mesma moeda
  41. 41. Alívio Imediato Humberto Gessinger voz, baixo & guitarra Augusto Licks guitarra & teclado Carlos Maltz bateria 1989
  42. 42. 1989 Alívio Imediato NAU À DERIVA ALÍVIO IMEDIATO A REVOLTA DOS DÂNDIS parte 1 A REVOLTA DOS DÂNDIS parte 2 INFINITA HIGHWAY A VERDADE A VER NAVIOS TODA FORMA DE PODER TERRA DE GIGANTES SOMOS QUEM PODEMOS SER OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger Lado B Lado A Também estavam programados shows em Leningrado mas, infelizmente, ficamos só em Moscou. Guardo na mente, então, a São Petersburgo dos livros de arquitetura. < Escrevi a letra de Olhos Abertos, música da banda Capital Inicial, gravada no disco Todos os Lados. +
  43. 43. 56 • 1990 • Começamos esse ano participando de um festival que reunia grandes bandas nacionais e gringas. No Estádio do Morumbi, em São Paulo, e na Praça da Apoteose, no Rio. Dezenas de milhares de pessoas ali, milhões de olhos e ouvidos pela TV. Numa das últimas músicas do show no Morumbi, tentei olhar o horizonte acima das pessoas e vi uma goleira (só gaúcho chama de golei-ra o que, para ser mais universal, deve ser a meta, o gol, o arco, a cida-dela adversária). Emocionado com a calorosa acolhida, agradeci mais ou menos assim: “Valeu, São Paulo! Foi um prazer tocar aqui, olhando para a goleira onde Baltazar fez o gol que deu ao Grêmio o título de Campeão Brasileiro de 1981”. Metade das pessoas vaiou, outra metade riu. Um ou outro gremis-ta perdido na terra da garoa deve ter aplaudido. Na hora, me arrependi de misturar futebol e música. Da mesma forma que não queria começar a falar do Grêmio, aqui, senão não paro. Olhei pra trás meio envergonhado e cru-zei olhares com Carlos, colorado convicto, descendo a lenha na bateria. Ele sorriu em aprovação. Talvez só nós dois, ganhando fora de casa, entendês-semos a analogia. Alguns meses depois, eu estava em São Paulo e resolvi assistir à se-mifinal do Campeonato Brasileiro: Grêmio e São Paulo. Quarta-feira à noite, no Morumbi. Na chegada ao estádio, algumas pessoas apontavam para mim. Legal, sou famoso! Nada disso, começaram a me ofender! Caramba, eram tor-cedores que estavam naquele show do festival! Entrei no estádio, tudo tranquilo. Aquelas piadas normais, pega-ção de pé de torcida sobre gaúchos. Começa o jogo, São Paulo 1 a 0. Mais pegação de pé. São Paulo 2 a 0, um olé. Mais pegação de pé. Foi então que começou uma briga generalizada entre os jogadores. Aquele baixo-astral foi saindo do campo, contaminando a arquibancada. A pegação de pé virou ameaça e eu saí, corrido, do estádio. Sem conseguir tirar o carro do estacionamento nem pegar táxi, na rua deserta, eu e meus parceiros rolávamos de rir. Que bela noite! Ecos de
  44. 44. um show. Irradiação fóssil. Eu vi a nuvem de baixo astral vinda do gramado envolver tudo. Quando penso no ofício de estar do lado de cá do microfone, sempre lembro dessa imagem. Afinal, que frequências estamos emitindo? Uma questão interessante para a cena rock’n’roll, tantas vezes gigolô da transgressão e prisioneira da pose. No grande esquema geral das coisas, era ano de início de mandato. Obviamente, o dito “Caçador de Marajás” venceu aquela eleição. Bateu, em se-gundo turno, um Lula parecido com o que veio a ser presidente, anos depois. Lá pelas tantas, no início de seu reinado, o cara segurou a grana de todo mundo no banco! O motivo seria uma inflação surreal que fazia andar de táxi ser mais barato do que andar de ônibus (porque se paga depois). Estávamos fazendo uma temporada em São Paulo, no Anhembi. Na noite do anúncio da chinelagem financeira, só cheques na bilheteria. O dinheiro sumiu. Os mercados, em geral, e a indústria fonográfica, em particular, ficaram bem perdidos. Números despencando. Nós, pela fidelidade dos fãs, seguráva-mos a onda. Assim, sem mudar nada, acabamos virando o grupo que mais ven-dia no cast da gravadora. Surreal. Salvamos o Natal dos caras. O Papa É Pop, disco deste ano, foi o primeiro a também sair em CD. Desde o início, esse formato parecia transitório. Já nasceu morrendo. Uma vez digitalizados, obviamente, os arquivos de áudio achariam um meio mais ele-gante de chegar às pessoas. Sem o irritante estojo de acrílico, que sempre vinha com os dentes que prendiam o disco já quebrados. Sem o plástico irritante-mente difícil de romper (problema que qualquer embalagem de cigarro barato já tinha resolvido, com uma pequena fita vermelha). Mesmo com toda a moral que tínhamos na gravadora, nunca conseguimos uma capa de papel, se possí-vel, reciclado. As grandes estruturas têm raciocínios que só fazem sentido fora 57 da escala humana.
  45. 45. 58 É lugar-comum reclamar da redução de possibilidades gráficas do CD comparado ao LP. Acho que é só uma questão de distância em relação ao qua-dro. Sinto mais falta das duas aberturas e dos dois finais que o LP oferecia. Lado A e lado B. Montar esses dois programas envolvia arte e ofício. Além do lance musical, havia a matemática de fazer com que os dois lados tivessem a menor diferença de tempo possível. Para equilibrar os sulcos no vinil e evitar que, na fita K7, um dos lados ficasse muito tempo girando em silêncio. O CD oferece mais tempo de música do que o LP, mas, com a facilidade de, apertando um botão, irmos direto à faixa desejada, acho que se ouve menos o disco na sua totalidade. A música que abria o lado B, espaço nobre num LP, fica no meio de uma longa lista no CD. Co-meçou a se desfazer a magia do álbum, que teve início nos anos 60 e apogeu no meio dos 70. Deixando de lado os discos em geral e voltando ao nosso, em particular, havia um conceito legal alinhavando todo o projeto. Um bailado entre profano e profundo. Várias simetrias. Pelo menos para mim, olhando de dentro, vendo de perto. Essas sutilezas foram encobertas pelo enorme sucesso do disco. Era um Garoto…, que começamos a tocar, por acaso, num comí-cio, era, para mim, quase uma sessão de análise. Virou, simplesmente, a regravação de um hit da Jovem Guarda. Ainda não eram muito bem vistas citações a esse período da MPB. A simultaneidade com a Guerra do Golfo deixou tudo mais confuso. Seria uma canção de protesto? Mas de quem era aquela guerra, afinal? U2 ainda não tinha resgatado do limbo o termo pop. Acreditem se puderem: ser pop ou rock era uma questão. E nós, ali no meio. A foto do papa tomando chimarrão desagradou crentes e ateus. Quando comecei a receber elogios emocionados aos vocais que simulavam um jingle nos refrões da faixa-título, aprendi uma lição: deixar Andy Warhol quieto. Acho que hoje já dá pra ouvir o disco como ele é.
  46. 46. 59 eu entendo você que não me entende encare a ilusão da sua ótica Minhas faixas favoritas são as longas: Anoiteceu em POA e A Violên-cia Travestida Faz seu Trottoir. Colagens épicas que estariam bem em um LP de alguma banda progressiva obscura, gravado em setenta e poucos, com uma capa de surrealismo barato. Tocamos elas pouco, em shows. Mesmo entre os fãs, são mais valorizadas agora do que naquele momento. Se não me engano, foi por essa época que chegou ao Brasil a MTV, reforçando, por algum tempo, a utilidade desta inutilidade que é o videoclip. Diretores bacanas como Cacá Diegues (O Exército de um Homem Só, Her-deiro da Pampa Pobre) e Zelito Viana (Piano Bar) fizeram clips com a gente. Depois pintou uma gurizada especializada na linguagem, muito legal. Tudo certo, bons trabalhos. Mesmo assim, nunca vi nexo no formato. Problema meu, certamente. Descubro mais significados quando revejo antigas gravações de pro-gramas de auditório, do tipo Chacrinha. Só se fazia uma dublagem rudimentar, mas, pelo menos, o risco era maior. Para Terceira do Plural e O Papa É Pop lembro de ter escrito roteiros, motivado pelas possibilidades que as letras ofe-recem. Me disseram que eram inviáveis. Deviam ser mesmo, coisa de quem está acostumado a depender só de lápis e papel para criar um mundo. Tudo bem, tudo certo. Cada um na sua. na outra janela o sol sempre brilha o risco é calculado vídeo-guerra, vídeo-reino-dos-céus
  47. 47. O Papa É Pop Humberto Gessinger voz, baixo & teclados Augusto Licks violão, guitarra & teclados Carlos Maltz bateria 1990
  48. 48. Singles Era um Garoto... e O Papa É Pop 1990 O Papa É Pop O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ parte 1 ERA UM GAROTO… O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ parte 2 NUNCA MAIS PODER PRA SER SINCERO OLHOS IGUAIS AOS SEUS O PAPA É POP A VIOLÊNCIA TRAVESTIDA FAZ SEU TROTTOIR ANOITECEU EM PORTO ALEGRE ILUSÃO DE ÓTICA PERFEITA SIMETRIA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 gessinger/licks luzini/migliaci/vs: brancato gessinger/licks gessinger/licks gessinger/licks gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger Lado B Lado A <
  49. 49. 64 • 1991 • Desnecessário dizer que, entre um disco e outro, seguimos na estrada. Sempre foi assim. Logo no início do ano, tocamos na segunda edição do Rock in Rio. Durante o show, eu ficava imaginando se haveria alguma banda em alguma escola de Arquitetura fazendo seu primeiro e úl-timo show. O cachorro correndo atrás do próprio rabo, a cobra engolindo o próprio rabo. Gravamos, no Rio, Várias Variáveis, o disco com capa verde que fe-charia a trilogia da tricolor bandeira pampeana. Paradoxalmente, é nosso disco mais paulista. A beleza de flutuar num país do tamanho e com a diversidade do nosso é que os centros gravitacionais vão se alternando, girando pelo salão. Além de Rio e São Paulo, Belo Horizonte entraria nesse bailado em breve. E Fortaleza. E Porto Alegre voltaria… Paradoxalmente, no nosso disco mais paulista, gravamos Herdeiro da Pampa Pobre, do Gaúcho da Fronteira. Não é bem o filtro pelo qual a inteligência gaúcha gosta de se ver, mas sempre me amarrei nos tradicio-nalistas mais populares, como Gildo de Freitas. Da mesma forma, gosto de Astor Piazzolla e Athauapa Yupanqui, dois dos melhores shows da minha vida. Na esquina de onde vejo o movimento, laranjas, poemas e o mês de abril convivem bem. Paradoxalmente, somos mais gaúchos fora do RS. No estado de ori-gem, somos só mais um. Se não te deixar insensível, a distância pode colocar tudo em perspectiva. Na capa, estou de bombacha. Fiz toda a turnê assim. Um gaúcho “para exportação”, ainda assim, um gaúcho. Pelo terceiro ano consecutivo, o ginásio Gigantinho foi o lu-gar onde tocamos em Porto Alegre. Acho que nenhum artista gaúcho conseguiu isso. O mais legal foi ter chegado ali passando por todos os outros degraus. Bares, danceterias, teatros, auditório Araújo Viana.
  50. 50. Era comum, na maioria das cidades, tocarmos no maior espaço. Mas só em Porto Alegre tocamos em todos os espaços. 65 da janela do avião eu vejo Porto Alegre vejo o futuro em flash-back meu pai, minha filha, nossa casa da janela do avião eu vejo por acaso Foi por essa época que desenvolvi um terrível defeito: aprendi todas as piadas de gaúcho a que tive acesso. Basta o estrangeiro contar uma, esperan-do uma reação mal humorada, eu disparo todas as outras. Infalivelmente, meu interlocutor fica com cara de criança cujo balão foi estourado. Também pos-so usar meu arsenal de piadas de gaúcho contra gauchistas. Paradoxalmente. Quase um fogo amigo. Quase sempre divertido.
  51. 51. Várias Variáveis Humberto Gessinger voz, baixo & teclado Augusto Licks guitarra, violão & teclado Carlos Maltz bateria & percussão 1991
  52. 52. 1991 Várias Variáveis O SONHO É POPULAR HERDEIRO DA PAMPA POBRE SALA VIP PIANO BAR ANDO SÓ QUARTOS DE HOTEL VÁRIAS VARIÁVEIS SAMPA NO WALKMAN MUROS E GRADES MUSEU DE CERA CURTAMETRAGEM DESCENDO A SERRA NÃO É SEMPRE NUNCA É SEMPRE 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 gessinger gaúcho da fronteira/darde gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/licks/maltz gessinger gessinger/licks gessinger/licks gessinger/licks gessinger gessinger gessinger Lado B Escrevi Onde Menos Se Espera, gravada por Patrícia Marx no disco Incertezas. Lado A +
  53. 53. 70 • 1992 • O início do ano trouxe Clara. Eu e Adriane a esperávamos desde 1963. Nenhuma mudança radical, ela estava desde sempre nas entrelinhas do horizonte. Escrevi a letra de Parabólica para ela, num quarto de hotel. Havia uma antena ao lado da janela e eu, tri a fim de que ela me levasse para casa. Saudade. longe, longe, longe, aqui do lado paradoxo: nada nos separa Natural que o disco em que menos trabalhamos juntos levasse nossos nomes e suas muitas consoantes no título. Gessinger, Licks & Maltz foi o lança-mento desse ano. Nossos parceiros da indústria reclamaram por ser impronun-ciável, o que nos deu a certeza de que era o nome certo. Nunca gostei de compor no estúdio. Herança dos tempos de vacas magras em que os estúdios, em Porto Alegre, eram poucos e, para um estu-dante sem grana, caros. Entrávamos de costas para sair mais rápido. Sempre superensaiados. Com o GL&M foi diferente. Escrevi febrilmente, não conseguia parar. Gravávamos alguma coisa, vinham outras ideias, eu refazia, remontava. Na época, as gravadoras tinham seus próprios estúdios. Era legal pas-sar pelas portas de vidro que tinham, estampado, o logotipo do cachorrinho ouvindo gramofone. Mas os horários eram rígidos e caretas. Comecei a chegar ao estúdio cada vez mais cedo. Quando o resto do pessoal chegava, eu já estava acabado. Numa segunda-feira, cheguei tão cedo que tive que esperar abrirem o prédio. Havia passado o fim de semana inteiro escrevendo e reescrevendo coisas. Entrei no estúdio junto com o pessoal da limpeza e tive uma visão ines-quecível quando acendi as luzes: a sala, que sempre víamos limpa e brilhante, estava coberta de pó de madeira e asas de cupim. Estúdios são os lugares ideais para eles. Fizeram um banquete no fim de semana. Até hoje essa imagem me volta em alguns sonhos. Descobri algo que não sabia, por acordar normalmente muito tarde: as principais avenidas da Zona Sul do Rio mudavam de sentido nas primeiras
  54. 54. horas da manhã. Por pouco não descobri da pior maneira possível. Por sorte, as únicas consequências foram as buzinas e os palavrões que ouvi. Injusta fama de indisciplinados têm os cariocas. Não sei em que outra cidade do mun-do seria possível, por algumas horas, mudar o sentido de quase tudo sem que o caos se instaurasse. Percebo que esse é o disco favorito de uma segunda geração de fãs. Minhas influências do rock progressivo estão mais explícitas aqui e, por incrível que pareça, encontraram ressonância num pessoal bem mais moço. Estávamos bem expostos, do título ao desenho do palco, que tinha nossos rostos cobrindo os amplificadores. Se o cara quiser fazer um lance verdadeiro, não há como
  55. 55. fugir do risco de se tornar muito pessoal. Era pra ser uma afirmação da vida real. Nome e sobrenome, foto 3x4. Acabou imprimindo um tom heroico ao pro-jeto. 72 Descambar para egotrip é ruim, mas é bom, mas é ruim, mas é a vida… O som da época era dominado pelas guitarras. Esse disco, para nos-sos parâmetros, tem muito teclado. Li numa resenha, um tempo depois, um cara nos elogiando por termos antecipado a volta dos sintetizadores analógi-cos. Adoraria que fosse assim, mas, na verdade, eu não estava um par de anos adiantado. Estava uns vinte anos atrasado. Em meio a shows por todo o país, voltamos ao Maracanazinho, ago-ra num show só nosso. Maravilha. No inconsciente de todo gaúcho espreita uma necessidade de validação por parte do chamado “centro do país”. Somos um tanto oficialistas, é só ver como cantamos nosso hino. Parecia que séculos haviam se passado desde o maracanaço de 88. Nesse pouco tempo, havíamos passado de zebras a favoritos. Entrei em contato com algo que não imaginava existir: a sombra do passado, aumentando como se fosse fim de tarde. Observando as longas carreiras de artistas consagrados, eu imaginava a delícia de ter um grande repertório pelo qual passear. Desconhecia o efeito colateral, a ocasional falta de sintonia entre nossa vontade de avançar e o amor conservador dos fãs. Nunca imaginei que pudessem querer menos do que tínhamos a dar. Feitas as contas, acho que consegui, ao longo dos anos, equacionar as várias variáveis de forma legal. Revisitar os clássicos e trazer a novidade.
  56. 56. Gessinger, Licks & Maltz Humberto Gessinger voz, baixo, violão & teclado Augusto Licks guitarra, violão & teclado Carlos Maltz bateria & percussão 1992
  57. 57. 1992 Gessinger, Licks & Maltz NINGUÉM = NINGUÉM ?ATÉ QUANDO VOCÊ VAI FICAR? PAMPA NO WALKMAN TÚNEL DO TEMPO CHUVA DE CONTAINERS POSE NO INVERNO FICA TARDE + CEDO CANIBAL VEGETARIANO DEVORA PLANTA CARNÍVORA PARABÓLICA A CONQUISTA DO ESPELHO PROBLEMAS… SEMPRE EXISTIRAM A CONQUISTA DO ESPAÇO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/licks gessinger/licks gessinger gessinger gessinger Lado B Lado A Meus primeiros anos como baixista passei com vários Rickenbacker. Sunburst, creme ou cor de madeira como o que está pendurado na foto. Com a histeria de renovação de equipamentos que rolava na época, eram difíceis de encontrar. Estavam fora de linha. Melhor assim, os que eu tinha já vinham com muitas horas de voo, sabe-se lá em que palcos, fazendo qual som… O pêndulo foi para o outro extremo quando comecei a tocar com instrumentos Steinberger. High tech, com um novo sistema de afinação que dispensava a cravelha e feito de carbono. Os puristas torciam o nariz, as árvores que deixavam de ser cortadas agradeciam. Inspirado por antigas duplas caipiras como Tonico e Tinoco, que tocavam sempre com instrumentos iguais, convenci Augusto a também usá-los. <
  58. 58. 78 • 1993 • Voltamos a participar daquele grande festival com bandas nacio-nais e gringas, no Rio e em São Paulo. O show no Morumbi, novamente, foi emblemático. É cíclico, no mundo pop, pintarem algumas ondas mais selvagens. Era o auge do grunge com suas camisas de flanela xadrez, calças rasgadas, sangue nas paredes e guitarras Fender Jaguar. Abrimos para a melhor banda do movimento, Nirvana. A imprensa fez a papagaiada de sempre. Nós fizemos o show de sempre. A onda era escarrar? Sinto muito, aí vai uma canção que eu fiz pra minha filha. Com meu violãozinho de cordas de náilon. Pra que se monta uma banda, senão para noites como esta? tô fora vodoo, ranço, baixo astral não vou perder meu tempo brincando de ser mau não vou viver pra sempre nem morrer a toda hora feito rasgos pré-fabricados num novo velho blue jeans Não aderir a um movimento pode ser um sinal de respeito a ele. Pensassem todos assim e não afundariam, por excesso de peso, tantas ideias bacanas. Ser datado é legal. Ser ultrapassado também pode ser, pois não se trata de uma corrida. O carro que tu vias pelo retrovisor te ultra-passa, tu vês o caroneiro de perfil, depois uma criança te abana pelo vidro traseiro. Nunca te aconteceu? É bonito. Algumas crianças mostram a lín-gua, depois sorriem. É bonito. Depois eles param pra tomar um refri, ir ao banheiro, tu passas pelo carro parado, assim vai… Na verdade, ninguém ultrapassa ninguém. Isso aqui é um imenso transporte coletivo. Estamos no mesmo barco e ele ainda flutua. todo mundo é moderno, todo mundo é eterno como um relógio antigo como a Holanda de 74 um símbolo sexual dos anos 60
  59. 59. Se a agenda da cena manda requentar a rebeldia, qual a coisa certa a fazer? O contrário. Raspei meu cabelo. O próximo disco seria o mais leve pos-sível, com orquestra, gravado ao vivo na sala Cecília Meireles. Este é o Filmes de Guerra, Canções de Amor. Arranjos e regência de Wagner Tiso, um mestre. Participação muito especial de Paulo Moura. Dei um tempo no baixo, Carlos deu um tempo na bateria. O trio ficou com duas guitarras semiacústicas e per-cussão. Também toquei acordeón. O show foi lançado em LP, CD, K7 e VHS. Anos depois, em DVD. Boa sensação estranha de sobreviver aos suportes. Acho que é por isso que não me fascino por novos formatos, convergência, essa espuma toda. São ferramentas, instrumentos. O cerne está onde sempre esteve, desde antes das palavras, em volta de uma fogueira pré-histórica. O repertório não era muito óbvio, mesmo para os fãs. Os arranjos eram bem diferentes, cheguei a reescrever algumas letras. Era muito bacana ver o estranhamento do público se transformando em cumplicidade enquanto o show avançava. As adaptações que rolam quando dois seres vivos começam a se relacionar podem ser uma pegada de Deus. Aquele que, se não existisse, teríamos que criar. 79 novos horizontes, se não for isso, o que será? quem constrói a ponte não conhece o lado de lá No meio do ano nos apresentamos, pela segunda vez, fora do Brasil. EUA, Europa ou América Latina seria muito linear para uma banda como a nossa. Para onde o destino nos levou? Lá para o outro lado da esfera: Japão. Volto ao papel de especialista que conhece o assunto há menos de vinte minutos. Tudo que eu esperava sentir em Moscou, senti em Nagoya e Iwita, ci-dades onde fizemos cinco shows. Me senti em casa, no Japão. Apesar de, quando criança, ter mais medo de japoneses em filmes de guerra do que de índios em filmes de cowboy (estranhas fobias os estadunidenses exportam via película).
  60. 60. 80 Todo país tem seus problemas. Quanto mais avançado, mais pessoais são esses problemas. O que não os torna problemas menores. Defeito ou virtu-de, achei a formalidade japonesa muito liberadora. Disciplina não é liberdade? Aqui nos trópicos, temos o vezo de nos acharmos muito íntimos e chegados. Infantilmente informais, vivemos nos tocando. Se fosse tão bom, estaríamos no paraíso. Estamos? se as cores vão berrando num sol ensurdecedor fecho os olhos, outro mundo, vou morar no interior Dia 6 de agosto, aniversário da estupidez em Hiroshima, eu estava parado numa esquina de Nagoya, sacando o movimento. Encantado com o si-lêncio, mesmo em ruas movimentadíssimas. A luz dos semáforos era comple-mentada por gravações de sons suaves que ajudavam deficientes visuais a atra-vessar a rua em segurança. Olho para o lado e vejo um mendigo. Não pode ser! Esse cara deveria ser o único mendigo em todo o Japão. Ele começa a me fazer sinais. Caramba, acho que está me ofendendo. Deve achar que sou americano. Deve estar se lembrando da bomba! Fiquei chateado e apressei o passo para chegar ao hotel. Ele me seguia, juntando as pontas do polegar e indicador. Só no dia seguinte, quando nosso intérprete avisou que era um simples pedido de moeda, a fumaça da bomba se desfez na minha mente. Nesses tempos, futebol fazia o maior sucesso no Japão. Na TV, o tem-po inteiro. Vi dois meninos jogando bola numa quadra sob um viaduto. Um ficava cobrando lateral para o outro. Não usavam os pés. Arremesso lateral deve ser um lance emocionante para quem vem da cultura do beisebol. Voltamos ao Brasil via EUA. Tocamos em Los Angeles e San Diego. Gravamos imagens para um clip no deserto Mojave. Esses shows internacionais eram divulgados, principalmente, nas comunidades de brasileiros. Era emocio-nante entrar em contato com um pessoal que tinha saído mundo afora atrás de vida digna, sem certeza de que a encontraria. Ajudá-los a matar um pouco da sau-dade era muito bom. A viagem dentro da viagem era sentir que canções escritas na solidão escura de um quarto poderiam fazer sentido no outro lado do planeta.
  61. 61. Filmes de Guerra, Canções de Amor Humberto Gessinger voz, baixo, guitarra, acordeón & teclado Augusto Licks guitarra, harmônica & violão Carlos Maltz bateria & percussão 1993
  62. 62. Filmes de Guerra, 1993 Canções de Amor MAPAS DO ACASO ALÉM DOS OUTDOORS PRA ENTENDER ? QUANTO VALE A VIDA ? * PARABÓLICA * NINGUÉM = NINGUÉM * REFRÃO DE BOLERO * TODO MUNDO É UMA ILHA CRÔNICA ÀS VEZES NUNCA MUROS E GRADES ALÍVIO IMEDIATO * PERFEITA SIMETRIA ANDO SÓ O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ 1 e 2 REALIDADE VIRTUAL * ? ATÉ QUANDO VOCÊ VAI FICAR ? PRA SER SINCERO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/licks gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/licks gessinger gessinger gessinger gessinger/licks gessinger gessinger gessinger/licks * Faixas que só entraram nas versões em vídeo Musiquei Amor Quente, uma letra de Cazuza, para uma campanha de prevenção à AIDS. +
  63. 63. • 1994 • Augustinho saiu da banda. Brigamos sem brigar, cada um foi ficando no seu canto. A culpa deve ter sido minha. Enquanto ele via a árvore e Carlos via a floresta, eu deveria ter sido mais maduro para guiar aquela nau. tenho feito meu caminho, volta e meia fico só reconheço meus defeitos e o efeito dominó Não ter tido festas de aniversário a vida inteira não me redime, pois, mesmo sem apagar as velinhas, a gente envelhece. Deveria aproveitar para amadurecer. O lado bom é que fizemos, juntos, o que tínhamos que fazer e só o que deveríamos fazer. O que emitimos continua a soar. Irradiação fóssil? Pode ser, mas o que é o presente? Existe? agora que o tempo é relativo não há tempo perdido, não há tempo a perder num piscar de olhos, tudo se transforma tá vendo? já passou… Ficamos um tempo parados e voltamos na metade do ano. Na gui-tarra, Ricardo Horn, que fazia parte do grupo que montei para tocar chori-nho, no colégio.
  64. 64. Trago sempre comigo a lembrança de um show desse ano. Mais na boca do que na memória: um dente de ouro. Tocávamos na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Lugar mágico, show ao ar livre, um mar de gente. No fim da primeira música, subi no praticável da bateria. Adorava me jogar de lá, a sensação de aterrissar no exato momento da última nota da canção é muito boa. Os saltos viraram uma marca dos shows, rendendo, até hoje, ótimas fotos. Nesse dia, não me dei conta de que havia um tirante de ferro ligando duas colunas, acima da bateria. No voo, dei, literalmente, de cara com o ferro. Quando pousei, uns três ou quatro dentes estavam esmigalha-dos. Cuspi os cacos e, não sei como, consegui levar o show até o fim. Só a adrenalina do palco explica. Lembro de pedir para reposicionarem uma das câmeras de TV que cobriam o show, a que estava no lado atingido. Nunca fi-quei nu na frente de milhares de pessoas, suponho que a sensação não deva 87 ser pior do que aparecer sem dentes. No avião, voltando para casa, a dor era terrível. Para piorar a situação, era domingo e eu havia combinado de participar de um show do Lulu Santos. Sem chance de passar num dentista antes. Não queria can-celar, pois já havia rolado uns mal-entendidos entre a gente. Seria bacana participar do show. Toquei Parabólica, numa versão desproporcionalmen-te emocionada, pois, cada que vez que passava ar pelos dentes quebrados, eu via estrelas. planos de voo tava tudo em cima, céu de brigadeiro sobre nós pane, pânico perdemos altura, puxaram o tapete voador Pela segunda vez, toquei num comício. Pela candidatura de Olívio Dutra ao governo do RS. Eu, e certamente só eu, acho ele parecido com Brizola. Mas o clima era bem mais racional, o que é bom, mas é ruim, mas é melhor assim…
  65. 65. 88 • 1995 • Nunca estive tão perto do mainstream quanto nesse ano. Me faltou saco. Ou culhões. Apesar de anatomicamente próximos, são coisas opostas. Algo me faltou para que esse ano desse mais frutos. Um clima estranho no ar culminou num acidente de carro, a cami-nho de um show no Espírito Santo. De repente, os pneus seguiram em frente sem girar. Os faróis apontaram para o lado direito, para trás, para o lado es-querdo, para frente, para o lado direito… Os dois fachos de luz já não eram paralelos ao chão. O asfalto ficou mais perto da cabeça do que dos pés. Dois giros, duas voltas. Dois pra lá e dois pra cá. No fim da dança, silêncio total, total escuridão. Quem viu a foto do carro depois do acidente não acreditou que al-guém tivesse sobrevivido. Algum projetista da BMW, que nunca conhecerei, salvou minha vida. Só machuquei a mão, fiquei sem tocar um mês. Não faltou quem dissesse que era algo sintomático. Nessas horas, o que menos precisa-mos é ouvir papos esotéricos tecendo mitos entre causa e efeito . no fundo tudo é ritmo a dança foge do salão e invade a autoestrada do átomo ao caminhão O show para o qual eu estava indo já tinha músicas do Simples de Coração, disco que gravamos em Los Angeles depois que me restabeleci do acidente. O projeto teve as participações de Fernando Deluqui (guitarra) e Pau-lo Casarin (teclados). Nossa gravadora fez tudo certo. Tava tudo certo. Talvez certo demais. Demorou para que eu entendesse o disco. Foram os fãs que me deram a chave pra entrar na onda dele. Por algum tempo, suspeitei que ele ti-vesse sido superproduzido. Simples de coração teria virado simples decoração. Bobagem. O disco tá certo, é como deveria ser. O que eu acho mais legal, ouvindo agora, é um erro que cometi: ten-tar escrever certo. O culpado é você. Quer dizer, o pronome “você”. Eu sempre
  66. 66. começo a frase com “você” e sigo errando a concordância. Na hora de cantar “consigo”, não consigo. Canto “contigo”. Até aí, tudo bem. Rima com alguns pequenos pecados harmôni-cos que gosto de cometer. O que mais me intriga é que, na vida real, na vida falada, nunca uso “você”. Só falo “tu”. Quando uso “você”, soa como palavrões falados em filmes brasileiros dos anos 70. Naturalidade zero. Quando canto, ocorre o inverso. Cantando “tu”, me sinto como a estátua do Laçador: olhar no horizonte, insensível aos aviões que pousam e deco-lam no aeroporto ali ao lado. Será porque “tu” é muito duro? Será porque “você” rima com qual-quer verbo que acabe em “er”? Será só macaquice, de tanto ouvir os outros? Hoje, quando ouço o disco, sinto uma boa sensação estranha. Nem todo o mundo pode ser gilchicaetano, juntar forma e conteúdo, correção política e gramatical. Nem todo colombiano escreve 123 anos de solidão. Se psicanálise fosse uma possibilidade, falaria sobre isso n’alguma sessão. às vezes nunca sei se “às vezes” leva crase às vezes nunca sei em que ponto acaba a frase “ao encontro de”, “de encontro a” o bom português não vai nos salvar
  67. 67. Simples de Coração Humberto Gessinger voz, baixo & violão Carlos Maltz bateria & percussão Ricardo Horn guitarra, violão, viola & bandolim Fernando Deluqui guitarra Paulo Casarin teclado & acordeón 1995
  68. 68. 1995 Simples de Coração HORA DO MERGULHO A PERIGO SIMPLES DE CORAÇÃO LANCE DE DADOS A PROMESSA POR ACASO ILEX PARAGUARIENSIS O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS VÍCIOS DE LINGUAGEM ALGO POR VOCÊ LADO A LADO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/casarin gessinger gessinger maltz/horn/lúcio gessinger gessinger/deluqui gessinger/casarin Lado B Lado A
  69. 69. 94 • 1996 • O pêndulo, que havia viajado a um dos extremos com o quinteto beirando o mainstream, dispara, mola encolhida, para o outro lado. Com Lu-ciano Granja (guitarra) e Adal Fonseca (bateria), gravei, no Rio de Janeiro, o Humberto Gessinger Trio. Mixei em Nova Iorque com um técnico de som que, vez por outra, ficava melancólico e repetia uma história triste: ele havia chama-do o elevador para John Lennon sair do estúdio minutos antes da estupidez. John Lennon levou um tiro à queima-roupa o pop não poupa ninguém Mais do que uma mudança no som, o HG3 era fruto da vontade de circular por outros ambientes, recomeçar. Nem pensava em gravar. Em prin-cípio, ficaríamos só na estrada. Foi legal ter virado disco. O lançamento foi no Teatro Ipanema, no Rio, local significativo por remeter a grandes temporadas que fizemos ali em 1986 e 1987. O disco tem músicas das quais gosto muito e pareço ser o único (Bola da Vez, Irradiação Fóssil), músicas que não precisam explicação (Vida Real, O Preço, A Onda), músicas que parecem ter dado voz a sentimentos de quem é fã de fé (Freud Flintstone, De Fé) e uma música dos primeiros meses de carreira (Causa Mortis). Hoje, vendo daqui pra lá, HG3 é mais um disco dos Engenheiros do Hawaii. Mais continuidade do que ruptura. Como alfinetavam os críticos, mu-dava para não mudar. Deixei os Steinberger em casa e gravei quase todo o disco com um baixo Yamaha de seis cordas. Modelo que, teoricamente, não tinha nada a ver comigo. São desenhados para jazzistas virtuoses. Inventei um encordoamento estranho para ele. Usava as quatro cordas de um baixo normal e acrescentava duas cordas de guitarra.
  70. 70. Sempre desconfiei dos atalhos. Não gosto de seguir literalmente carti-lhas. As indústrias que crescem na periferia da produção artística têm os mesmos vícios de qualquer indústria. Vivem criando seus presets. Camisas pretas e gui-tarras pontudas para o heavy metal. Meninas tocando baixo para os alternativos. Guitarras semiacústicas e terninhos para os retrôs. Bonés dos Yankees e Adidas pros rappers. Se vacilar, até o tipo de droga, ou a não-utilização de drogas, já vem no cardápio do estilo. Quando eu acabar de escrever essa frase, os modelos podem ter mudado, mas a existência de um modelo certamente persistirá. 95 não sermos literais às vezes faz nossa beleza Esses atalhos seriam bons se chegar mais rápido fosse o objetivo. Há objetivo? Por que não uma bailarina de coturno? Alguém vibrando em outras frequências, um canibal vegetariano devorando planta carnívora, por que não? Sair desses escaninhos faz a beleza de um duo como White Stripes. Até pinta-rem 123 mil réplicas. Turistas que afundarão o barco por excesso de peso. a vida imita o vídeo garotos inventam um novo inglês Uma coletânea de videoclips dos Engenheiros do Hawaii foi lançada nesse ano. Não tenho a menor ideia do que representam, se representam algo. No início, eram feitos por uma grande rede de TV, para passar no seu programa de domingo. Depois, viraram simples peças promocionais. Não sei se deixaram de ser, se agora são obras de arte em si. Nunca vi muito nexo no formato. Eu paro de zapear, na hora, para ver qualquer músico tocar ao vivo. Mas colar ou-tras imagens numa música, acho que só a empobrece. Convergência? Divirjo. Obra de arte total me parece uma contradição. Me interessa mais o que é parcial. Não quero ser uma colcha de retalhos. Quero ser só um retalho na colcha. A soma pode ser menor do que as partes. Não se trata de empilhar sentidos (Cinco? Bingo!). Se a pomba desenhada por Picasso voasse, seria um fracasso.
  71. 71. 1996 Humberto Gessinger Trio Humberto Gessinger voz & baixo Luciano Granja guitarra & violão Adal Fonseca bateria & percussão
  72. 72. 1996 Humberto Gessinger Trio IRRADIAÇÃO FÓSSIL SEM VOCÊ (!É FODA!) A ONDA O PREÇO FREUD FLINTSTONE VIDA REAL CAUSA MORTIS ?PRA QUÊ? DE FÉ BOLA DA VEZ ELA SABE A FERRO E FOGO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger/granja/adal gessinger gessinger gessinger/granja gessinger/granja Há palcos especiais espalhados pelas cidades por onde passamos. Em São Paulo, o Pallace, onde gravamos dois discos e que já teve tantos nomes que nem sei como se chama hoje. A Concha do Teatro Castro Alves em Salvador. Teatro Guaíra em Curitiba. Auditório Araujo Vianna em Porto Alegre. Palácio da Artes ou qualquer lugar em Belo Horizonte… Nesta foto, eu e Clara estamos no Teatro Ipanema. Além do Gessinger Trio, Longe Demais das Capitais e A Revolta dos Dândis foram lançados neste pequeno teatro. Lembro com carinho do som do público aumentando enquanto subíamos as escadas que levavam ao palco, da parede de tijolos, do ar-condicionado no máximo, do Libertango de Piazzolla que tocava antes dos shows, da eterna dúvida sobre meu pequeno amplificador, da peça Artaud que dividia o teatro com a gente e tinha uma camiseta bacana, do cheiro do mar depois dos shows… <
  73. 73. 100 • 1997 • Com a saída do Carlos dos Engenheiros do Hawaii, mantive o pes-soal do Trio. Com adição de Lúcio Dorfman, nos teclados, gravamos Minuano. O disco tem várias referências ao Sul: a capa, o próprio nome, a participação de Kleiton Ramil no violino de A Montanha. Algumas letras e melodias são bem sulinas. Sob tudo isso, a vontade, que se concretizaria, de voltar a morar em Porto Alegre. Simétrica à ida, minha volta não teve nenhum grande motivo. Nem pessoal, nem profissional. Como um quadro pontilhista do qual estou mui-to perto, lembro só de motivos irrelevantes. Caminhar por Porto Alegre, por exemplo. Ouvir os jogos do Grêmio (sim, leitor, houve um breve período da história em que o homem viveu sem internet). outono em Porto Alegre sou o dono dos meus passos sobre folhas mortas o mundo fica para outro dia andar por aí era tudo que eu queria Clara, desde que começou a falar, tinha um sotaque fascinan-te. Misturava Porto Alegre, Rio e Fortaleza, influência de sua babá. Uma fala muito musical e afetuosa, era o único motivo que, talvez, me fizesse permanecer. Por outro lado, em Porto Alegre ela ficaria mais perto da família. Foi fundamental para mim conviver com pessoas mais velhas. Mi-nha mãe era a caçula de uma família de dez irmãos. Só ali, tive vários avôs e avós. Acho muito empobrecedor quando pessoas só se relacionam num gru-po de mesma idade. Adolescentes com adolescentes, velhos com velhos, gre-mistas com gremistas, metaleiros com metaleiros, baixistas com baixistas, ateus com ateus, goleiros com goleiros, fascistas de direita com fascistas de esquerda. Há quem diga que um prato de comida saudável deve ser colorido (desde que não seja composto só por M&Ms).
  74. 74. Quando eu deveria ficar mais no eixo Rio-São Paulo para gravar e divulgar o disco, voltei para o Sul. Meu apartamento, na Lagoa, só tinha cama, TV e telefone. A família e as tralhas todas já estavam em Porto Alegre. 101 a bandeira tricolor na sacada em frente ao mar tudo aqui parece estar fora do lugar no pampa o vento violino minuano na fria janela de um apartamento O estúdio onde eu ensaiava ficava em Botafogo, eu ia para casa a pé. Gosto muito de caminhar. As baterias dos meus carros sempre morrem antes que eles percam o cheiro de carro novo. Uma dessas caminhadas eu fiz no fim da tarde de um dia especial. No Maracanã, Flamengo e Grêmio disputariam o título da Copa do Brasil. Passavam ônibus cheios de flamenguistas. Os que me reconheciam mandavam recados pouco amigáveis, extensivos a todos os habitantes do RS.
  75. 75. Assisti ao jogo sozinho, no apartamento escuro, só iluminado pela TV. A cidade, parada. Excepcionalmente silenciosa. Abrimos o mar-cador, Grêmio 1 a 0. Uma gritaria de vascaínos vinda dos prédios vizinhos dialogou com meus próprios gritos. Segue o jogo, 1 a 1. Euforia na noite carioca, só superada pelo carnaval de vozes que explodiu quando Romário virou o jogo. Flamengo 2 a 1. Faltando alguns minutos para terminar a partida, desliguei a TV. Sempre acho que, se eu não estiver assistindo ao jogo, o tempo passará mais lentamente. Mais tempo de jogo aumentaria as chances de acontecer o empate que daria o título ao Grêmio. Uma visão otimista da covardia da avestruz. Tinha dúvida de que o gol aconteceria, mas tinha certeza de que, se acontecesse, a vizinhança vascaína me avisaria. Passava o tempo e eu não olhava para o relógio. A velha esperança de que, se não olhasse, o tem-po passaria mais devagar. Silêncio total. Quantos minutos teriam passado? Mais silêncio, tempo demais. Por que ninguém gritava, nem vascaínos se-cadores nem flamenguistas campeões? Não resisto, ligo a TV. Já não esta-vam transmitindo o jogo. Toca o telefone, minha irmã, chorando, desfaz o suspense: éramos campeões. Havia mais de quinze minutos! Os vascaínos 102
  76. 76. devem ter ido dormir antes do fim do jogo. Não me avisaram. Sofri quinze minutos desnecessários, já campeão. Futebol é uma bobagem, né? Vendo a vida como um maravilhoso quadro pontilhista, cada ponto em si é uma bobagem. Os pontos se misturam e se transformam. Lá vai a aranha tecendo sua inescapável tapeçaria. Minha irmã certamente não chorava só por um bando de caras com camisas iguais corren-do atrás de uma bola. Projetamos muitas coisas sobre muitas outras coisas. Se misturam e se transformam. Um dos grenais de que me lembro com mais carinho foi o de 1977. Ganhamos por 1 a 0, quebrando uma série de 123 anos correndo atrás. Meu pai estava internado num hospital perto do Estádio Olímpico. No fim do jogo, assisti, pela janela do quarto, à caravana das bandeiras tricolores. Carros e tor-cedores silenciosos por respeito. Sensação boa de pertencimento. Consolo de não estar sozinho. A vida seria uma bobagem sem essas bobagens. 103
  77. 77. 1997 Minuano Humberto Gessinger voz & baixo Luciano Granja guitarra & violão Lúcio Dorfman teclado Adal Fonseca bateria & percussão
  78. 78. 1997 Minuano BANCO A MONTANHA FAZ PARTE SEM PROBLEMA 3 MINUTOS NUVEM NOVE ZERO CINCO UM DESERTO FREEZER ALUCINAÇÃO A ILHA NÃO SE CURVA HUMANO DEMAIS OUTROS TEMPOS 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger gessinger belchior gessinger/granja/adal gessinger/granja/adal gessinger
  79. 79. 108 • 1998 • Ano sem disco, mas com muitos shows. Tocamos, pela primeira vez, na Argentina e no Uruguai. Nos mapas, esses países parecem estar mais próxi-mos de nós do que Japão e Rússia. Na vida real, vieram depois. 123 mil anjos sempre me guardaram e guiaram. Mundo afora, noite adentro. Reto por linhas tortas, como nenhum GPS faria. 123 mil anjos. Alguns me fazendo seguir viagem, uma me dizendo que eu era diferente do que parecia ser, outra simplesmente nascendo. Um desses anjos é fumante e tem barba sempre mal feita. O último existencialista, Alexandre Master, nunca leu escritores franceses. Trabalha co-migo desde sempre. Deve ter sido técnico de som da orquestra familiar do meu avô, lá no interior do RS, na primeira metade do século passado. Deve ter sido roadie das freiras que cantaram ave-maria meia hora antes de eu nascer. Certo é que gravou a primeira demo da banda. 123 vezes nos mandamos, reciproca-mente, pastar. Passa um tempo, lá está ele de volta na mesa de som. Em Belém, na manhã seguinte a um show, acordei com alguém gritando “Arara! Arara! Fala comigo, arara!”. Era Alexandre, agarrado às grades de um viveiro de pássaros do hotel, querendo dialogar com o bicho. Tá fora, tá fora! No longo voo noturno de volta a Porto Alegre, eu achava que era o único acordado, quando ouvi uma voz beirando o choro. Olho para o fim do corredor e vejo o que parecia ser Jesus Menino no colo de Nossa Senhora. Era Master, sentado no chão, com a cabeça sobre os joelhos de uma aeromoça. Desolado, ele repetia: “Meu pai acha que o que faço não é trabalho…” A aero-moça só parava de fazer cafuné nele para secar algumas lágrimas. Surreal. Tá dentro, tá dentro! A alcunha “Master” eu coloquei porque ele sabe tudo. Além disso, o nome dele é hilário. Alexandre Hilário. Não dá pra levar a sério. um anjo caído procura alguém pra guardar e dança um tango sem par e sem parar
  80. 80. Um anjo me conectou à rede mundial de computadores. Melissa me conta que era fã desde pequena. Quando a conheci, já era web designer e fo-tógrafa. Hoje é arquiteta, professora. Traduziu Pouca Vogal para traços, cores 109 e telas de computadores. Putz, as crianças vão crescendo! De 1998 a 2003, Melissa organizou, no site www.engenheirosdo-hawaii. com.br, chats mensais. Sempre no dia 11, para lembrar a data do pri-meiro show. Às vezes eu estava em casa, às vezes, na estrada. Ela, sempre em Florianópolis. Outros anjos, espalhados pelo mundo, se encontravam na rede. As perguntas variavam de “Que tipo de cordas você usa?” a “Qual é o sentido da vida?”. Rolavam, também, as inevitáveis “Quem foi Ana?” e “O que quer dizer trottoir?”. Eu respondia todas com a mesma falta de ciência. Cordel Kill Bill. Sem pensar, com a rapidez que meus dedos nas teclas permitissem. Papo de boteco virtual.
  81. 81. >>> 11.08.1998 – Tocar aos 60 anos deve ser o máximo. Acho que a vida deve começar a ficar boa depois dos 58. Tomara que eu chegue lá. 11.10.1998 – Ouço vozes, tenho pavor de cobras e às vezes tenho medo de começar a flutuar e não conseguir descer. Fico atento às árvores e aos fios elétricos para me agarrar caso aconteça. 11.11.1998 – A pirataria de bootlegs é algo necessário, eu diria. 11.12.1998 – Acho que sou o último fã de rock progressivo do mundo. 11.02.1999 – Uma possível medida de felicidade seria o número de relações não capitalistas que um cara tem… tem gente que até com a mãe tem uma relação de custo/benefício. 11.04.1999 – Hoje, acho que a obra de arte não pode ser só o disco… tem que ser a vida, 24 horas por dia. 11.06.1999 – Cada dia é mais percentagem da minha vida. E cada vez me sinto menos profis-sional. 11.07.1999 – Acho que sou meio de lua e muito exigente em relação à banda. Não passo tanto tempo fora de casa para fazer a coisa mal feita. Quero a perfeição sabendo que é impossível. 11.08.1999 – Minha única dúvida é se eu deveria ter continuado depois de gravar o Longe Demais das Capitais. 11.09.1999 – O medo do medo é uma merda… o medo de ser frágil, sincero... medo de depender. E depender de alguém é o limite máximo do amor. 11.10.1999 – Ser livre cansa mais, né? Mas não adianta, não dá pra escolher. 11.01.2000 – Política tá me dando nos nervos… nin-guém sonha mais… parece que todo o mundo descobriu que vai morrer amanhã… não há mais a noção de transcendência, inclusive na arte. 11.02.2000 – Não sei me expressar bem, tenho aquela ética silenciosa do cowboy numa cidade estranha… não faço juras de amor. 11.04.2000 – A ten-tativa de autoconhecimento é o que me faz cair na estrada, a busca de um espelho que não esteja embaçado pela minha própria respiração. 11.05.2000 – Jogo horas de tênis tentando compreender algumas canções que eu não alcancei por outras vias… vou dormir muito cansado e não tenho so-nhado. 24.06.2000 – Destino? Essa é a questão, tava escrito ou nós é que escrevemos? Acho que nós escrevemos com a caneta que nos foi dada e suas limitações… de fato, é lápis e não caneta… qualquer coisa, o tempo apaga. 11.08.2000 – Não há mais juventude… todos são jovens: Clara e a vó dela têm a mesma idade, são os tempos pós-modernos… eu sou o último velho do mundo. 11.10.2000 – O sentido da vida é aprender a respirar certo. 24.12.2000 – Vamos descobrir que o que enxergamos são as sombras do fogo na caverna. 11.01.2001 – Dá vontade de ser menor, invi-sível, algumas vezes… se transformar em pura passagem de tempo… estranhar o tamanho e a voz da filha ao telefone. 11.02.2001 – Não sei falar e agradecer entre as músicas, muita gente me acha frio por isso. Sou do tempo em que entreter, mais do que objetivo, era consequência da tentativa de comunicar. Somos todos peixes, cada um num aquário diferente. Cantar é tentar trazer todos para o mesmo mar, eu acho. 13.04.2001 – De cada 10 palavras, sete se perdem. 11.06.2001 – Sobre >>>

×