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2Bahia e fotos da escola e dos alunos pertencentes ao arquivo da biblioteca da Faculdade deAgronomia da UFBa., no municípi...
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  1. 1. 1 O IMPERIAL INSTITUTO BAHIANO DE AGRICULTURA E A ESCHOLA AGRÍCOLA DA BAHIA. MARIA ANTONIETA DE CAMPOS TOURINHO1 FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA Ã mingua de capitaes, de braços, de instrução e de instrumentos aratorios, a nossa lavoura luta contra um mal que a corroe como ferrugem ao ferro, a rotina.. (Fala do Presidente da Província de 1863). A Eschola Agrícola da Bahia, inaugurada em 1877, é construída e mantida peloImperial Instituto Bahiano de Agricultura, instituição criada em 1859 por personalidadesligadas à agro-indústria açucareira com a pretensão de “salvar do aniquilamento a lavouranacional”, em S. Bento das Lages, município de S. Francisco do Conde, recôncavo da Bahia.Nessa escola, que é a primeira da América Latina, funciona um curso elementar para formaroperários agrícolas e um curso superior destinado à formação de engenheiros agrônomos. Opresente trabalho, que é um recorte da dissertação de mestrado intitulada “ O ImperialInstituto Bahiano de Agricultura - a instrução agrícola e a crise da economia açucareira nasegunda metade do século XIX”, historia as referidas instituições no contexto mais amplo daeconomia açucareira particularmente no que se refere à formação de mão de obraespecializada e à modernização da tecnologia. Para construir as relações nas quais as duasinstituições se movimentam as categorias históricas mais significativas são: exploraçãocolonial; economia açucareira; sistema escravista; trabalho escravo; trabalho livre (nacional eestrangeiro); tecnologia; modernização; educação; ideologia. A primeira e principal fonte da pesquisa é a correspondência do Instituto com aPresidência da Província, documentação manuscrita (relatórios, ofícios e mapasdemonstrativos da situação financeira) arquivada na Série Agricultura da Seção Histórica doArquivo Público da Bahia. Foram consultados também: as Falas dos Presidentes dasProvíncias e Mensagens dos Governadores do Estado referentes à segunda metade do séculoXIX; as Atas da Congregação dos Professores, o livro de Matrículas da Eschola Agrícola da1 Professora de Metodologia da História – Faced / UFBa; Mestra em Ciências Sociais - FFCH/ UFBa;Doutoranda em educação – Faced / UFBa
  2. 2. 2Bahia e fotos da escola e dos alunos pertencentes ao arquivo da biblioteca da Faculdade deAgronomia da UFBa., no município de Cruz das Almas. O contato com esses documentospermitiu a aproximação com a vida e o cotidiano dessas Instituições: os arrastados eturbulentos anos de construção da escola; o seu funcionamento; a relação do Instituto com ogoverno Provincial e Imperial; a sua organização administrativa e financeira; asconsiderações, decisões e ações da instituição diante dos problemas da economia açucareiraquando se torna porta-voz das principais questões que afligem a oligarquia açucareira nasegunda metade do século XIX. Outra fonte significativa, também pertencente ao acervo da Faculdade, são as tesespara conclusão do curso defendidas pelos formandos do curso superior no período de 1880 a1904. Foram localizadas na biblioteca da referida faculdade cento e setenta e oito tesestratando de temas amplos e diversos mas ao trabalho foram incorporadas apenas aquelas queretomam as questões – a falta de braços, de capitais e atraso da técnica na lavoura baiana –que motivaram a criação do instituto e sua escola, vistas agora sob prismas maismodernizadores e aquelas que tratam mais especificamente das questões da educação, as quaisgeralmente defendem a educação agrícola como fator de desenvolvimento e solução para osproblemas da economia açucareira. No trabalho intitulado “Idéias Socialistas na Eschola Agrícola da Bahia”, Maria doSocorro Fraga analisa essas teses, procurando demonstrar a existência de idéias socialistasainda não aprofundadas no universo ideológico dos alunos de S. Bento das Lages. Referênciasao Imperial Instituto e à sua Escola também aparecem em alguns outros autores. Pang (1947)e Riding (1970) nos seus estudos sobre a economia baiana no século XIX focalizam oInstituto como uma tentativa frustrada dos lavradores de criarem uma associação querepresentasse os interesses da agricultura. Pedreira (1976) transcreve o Decreto de 1o denovembro de 1859 que estabelece as bases para o funcionamento do Imperial Instituto e traçaresumidamente o histórico da Escola Agrícola desde a inauguração até sua transferência paraSalvador em l930. Guimarães (1974) no livro “Esplendor e Agonia do Instituto Bahiano deAgricultura 1859—1902” relata os momentos de glória e decadência dos quarenta e cincoanos de vida da instituição através da transcrição das Atas das Sessões do Instituto,documentação que se inicia com a Ata Inaugural assinada pelo Imperador D. Pedro II. Nocapítulo intitulado “Do Imperial Instituto Bahiano de Agricultura à Escola de Agronomia daUniversidade Federal da Bahia”, Cunha (1977) amplia o relato até a instalação da escola, em1943, na cidade de Cruz das Almas e lamentando a “ruinaria majestosa” em que se
  3. 3. 3transformou o prédio construído em S.Bento das Lages, transcreve apelos para a suarestauração como monumento histórico. A criação do Imperial Instituto de Agricultura faz parte do clima de prosperidade e dedisseminação de ideias progressistas, reinantes no país após a proclamação da maioridade deD. Pedro II. Linhares (1979; p. 149) caracteriza a década de 50-60 “como uma época deotimismo continuado que se prolongará até 1873, momento de sua primeira crise”. Almeida(1951) observa que a partir de 1840 há uma certa reanimação na economia baiana que seprolonga pela década de 50, apesar da cólera de 1855 e da seca de 57 e 61. Azevedo (1969;p.14,15) analisando as contradições deste período marcado pela supressão do tráfico deescravos em 1850, considera que apesar dos vários fatores que desequilibraram a economiabaiana há, nesta década, uma recuperação do “mal-estar econômico dos anos 30, provocadapela utilização dos capitais, liberados pela supressão do tráfico e pela criação deestabelecimentos bancários”. Na Província da Bahia, o contexto acima descrito, propício a empreendimentosmodernizadores, convive com dificuldades, conflitos e contradições que exigem soluçõesmodernizadoras. Na segunda metade do século XIX a agro-indústria açucareira no Brasil lutacom dificuldades internas e externas que acabam por reduzir um produto essencialmente deexportação como o açúcar a um lugar secundário no comércio mundial e a levar as regiõesprodutoras a uma situação de decadência. As implicações desse quadro se prendemprincipalmente aos problemas de mercado, preço, técnica e mão-de-obra. No planointernacional, essas implicações se relacionam com a concorrência de outros centrosprodutores, o que provoca a restrição do mercado consumidor e a diminuição do preço doaçúcar. Com a supressão do tráfico em 1850 agrava-se o problema da mão-de-obra e a técnicanão pode suprir essa deficiência, pois se encontra obsoleta atuando quase que nas mesmasbases do inicio da colonização. Assim, a modernização passa a ser a saída para a crise e, naBahia, se expressa no Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, cuja atuação, particularmentecom a criação e manutenção da Escola Agrícola, demonstra o esforço de setores maisprogressistas da elite baiana de superar os problemas da economia açucareira, tentandoadaptar-se aos novos tempos que exigiam referenciais mais modernos. Nas reuniões do Instituto discute-se: a falta de braços para o trabalho agrícolarelacionada não apenas à supressão do tráfico negreiro mas também à migração interna paraas lavouras do Sul; a reação ao trabalho livre particularmente ao trabalhador livre nacionalconsiderado inapto e preguiçoso; as tentativas de utilização do trabalhador estrangeiro; a
  4. 4. 4incompatibilidade entre trabalho livre e escravo; a necessidade de técnicas mais modernas,mas é fundamentalmente na criação de uma escola agrícola que se focalizam as possibilidadesde soluções para as dificuldades da economia açucareira. Dessa maneira, escolhido o local, oengenho de S. Bento das Lages pertencente à Ordem dos Beneditinos, todos os recursos eatenções do Imperial Instituto de Agricultura são canalizados para a construção da escola.Durante mais de dez anos as obras arrastam-se, os empreiteiros cobram, o abade de São Bentoreclama o aluguel atrasado, as reuniões são adiadas por falta de número suficiente demembros. O único órgão que funciona regularmente é a Diretoria, que leva adiante o projetoda Escola, equilibrando a receita e a despesa na medida do possível, cobrando as sempreatrasadas subvenções Provincial e Imperial e pagando aos credores, quando os recursospermitem. Finalmente com o edifício pronto, o material vindo da Europa instalado, osestatutos aprovados pelo Governo Imperial, iniciam-se, em 1877, as aulas da primeira escolaagrícola do Brasil, destinada a formar no curso elementar operários especializados paratrabalharem nas propriedades agro-açucareiras, disseminando entre os outros trabalhadoresuma técnica mais avançada e no curso superior uma nova elite técnica que liderasse astransformações necessárias à recuperação da economia açucareira, difundindo conhecimentostecnológicos mais avançados. O curso elementar, que conta com uma clientela composta de filhos de pequenoslavradores, de órfãos de São Joaquim e de meninos abandonados da capital, tem a duração detrês anos e admite alunos entre doze e quinze anos, que estudam noções elementares dearitmética, gramática, geografia, contabilidade, desenho linear e mecânico, ministrados porum professor primário contratado pelo Instituto de Agricultura. Também aprendem catecismoe música com o capelão e praticam trabalhos rurais, durante cinco horas por dia, nos campos.Esta formação básica é garantida pela escola, que também fornece “alimentação, vestuário,livros, instrumentos de botica”. O curso se inicia em março de 1877 com treze alunos - novefilhos de lavradores e quatro orfãos de S. Joaquim - não preenchendo as vinte vagas iniciais.A sua frequência é irregular e marcada por problemas disciplinares, fugas e evasões dealunos. No relatório do Instituto transcrito na Fala de 1889, o Diretor informa que “da Escholateem sahido promptos 25 operários agrícolas : 4 em 1881; 2 em 1882; 2em 1883; 2 em 1884;2em 1886; 3 em 1887; 3 em 1888”. Os diversos tipos de conflitos e os retornos poucocompensadores demonstram que o propósito de se formar operários agrícolas como uma dasvias para modernizar a economia açucareira baiana não encontra receptividade no contexto dorecôncavo na segunda metade do XIX.
  5. 5. 5 A tentativa de modernização da agricultura através da formação de um operariadoagrícola, defronta-se também com a resistência das famílias que percebem que oencaminhamento dos seus filhos para o trabalho nos engenhos, prejudica a renda familiar epor isso, demonstram um total desinteresse pela escola porque “poucos são os pais querenunciam ao trabalho de seus filhos mormente quando estes atingem a idade de 10 a 12 anos,época em que já lhes podem prestar alguns serviços ou os retiram do curso antes que sejamengajados na força de trabalho”.2 Frustada a tentativa transformar os filhos de pequenosproprietários, de meeiros e de moradores nas grandes propriedades da região, em operários eregentes agrícolas, habilitados, sábios e moralizados, que soubessem por “em movimento osnovos apparelhos de que a agricultura moderna se serve”,3 o curso elementar adquire umaspecto de casa de “recuperação de menores”, com sua clientela reduzida a meninosabandonados e é assim que se apresenta em 1896, ano que cessam as informações sobre aformação do operariado, apesar de continuarem as informações relativas ao curso superior. O curso superior forma várias turmas de engenheiros agrônomos no período de 1880,ano da primeira formatura, a 1902 e sua clientela se compõe de alunos pensionistas egratuitos, que são selecionados pelos seguintes critérios: provar que não têm meios; pertencera famílias que exerçam a profissão de agricultura, ser orfão de pai e mãe, ser filho de viúva,ser filho de funcionários púb1icos civis ou militares. Para serem admitidos, os alunos devemter completado dezesseis anos e mostrarem-se habilitados nas disciplinas: português, francês,geografia, aritmética, álgebra, geometria, trigonometria. A escola oferece 20 vagas: 10 paraalunos pensionistas e 10 para gratuitos. Essas vagas são posteriormente ampliadas para 40 e àmedida que se agrava a situação financeira vai diminuindo o número de pensionistas. AMensagem do Governador de 1895 registra que, de 1880 até esta data, concluem o curso 148alunos. Fraga (1976) refere-se a “cerca de trezentas teses” das quais foram localizados napesquisa cento e setenta e oito que estão reunidas em volumes de acordo com os temas:Agricultura, Mecanização da Agricultura, Agrologia, Economia Política, Economia Rural,Engenharia Rural, Química Agrícola. Mais do que indicar o número de formandos, essas tesessão fundamentais para o entendimento das idéias e projetos que perpassaram o curso superior,dando uma visão mais abrangente do significado da atuação dessa escola agrícola. Uma das condições para que o aluno concluinte da Escola Agrícola da Bahia receba ograu de Engenheiro Agrônomo é a defesa de uma tese. Durante a existência do2 Atas das Sessões da Diretoria – Relatório do Diretor da Escola Agrícola, 1886.3 Mensagem do Governador, 1896.
  6. 6. 6estabelecimento, vários acadêmicos sustentam teses sobre os mais variados assuntos, expondopontos de vista em relação aos problemas da economia baiana. A natureza desses discursosreflete o posicionamento de uma geração, que analisa a realidade não mais empiricamente esim, através de uma base científica adquirida durante o aprendizado na Escola Agrícola. Oatraso da técnica, a falta de braços e de capitais, a ignorância e conservadorismo doslavradores, que são assuntos exaustivamente discutidos nas reuniões do Imperial Instituto, noperíodo anterior ao funcionamento da Escola Agrícola, são retomados sistematicamente emquase todos os trabalhos elaborados por seus formandos. A retomada desses grandes temas,entretanto, não significa uma mera repetição do que foi dito, defendido e combatido pelosprodutores de açúcar. Apesar de diferenças ideológicas mais amplas, que vão desde posiçõesconservadoras até defesas pouco consistentes de ideias socialistas, inclusive na abordagem deassuntos controvertidos como a questão salarial, as vantagens da cultura intensiva e atransformação do regime de propriedade da terra, existe nos discursos dos alunos formadospela Escola Agrícola uma relativa unanimidade de pensamento expressa em críticas àrealidade brasileira particularmente do Recôncavo da Bahia. Na luta pelo espaço profissional, seja o filho de representantes da economiaaçucareira, seja um forasteiro vindo do Rio Grande do Sul, o acadêmico de agronomiadefende reivindicações fundamentadas no princípio do desenvolvimento da agricultura para aprosperidade do Brasil; na defesa da agricultura como ciência que compreende uma parteteórica e uma parte prática, a teoria sendo consequência da prática refletida; na necessidade davalorização da profissão de Agrônomo e em críticas à valorização do “Bacharelismo” e do“Funcionalismo”, frequentemente demonstrada pela elite brasileira. Em um paísessencialmente agrícola, os produtores de açúcar, por preconceito, menosprezam a profissãode agrónomo escolhendo para os filhos, seus prováveis substitutos na gerência das fazendas,carreiras de bacharéis e por temor de mudanças, reagem contra inovações tecnológicas eimpedem a formação de uma classe trabalhadora livre, competente e disciplinada. Assim, os acadêmicos da Escola Agrícola, lutando também por um reconhecimentoprofissional, propõem constantemente em suas teses a valorização da educação agrícola. Ocírculo vicioso da ignorância dos lavradores de açúcar, de uma tecnologia atrasada e de umamão-de-obra despreparada deve ser quebrado pela disseminação de escolas, campos deexperimentação, comícios e fazendas modelos. No trabalho intitulado Ensino Agrícola, de1890, Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque, republicano e positivista, teoriza sobre aimportância da organização do ensino agrícola para o progresso da economia açucareira,
  7. 7. 7sugerindo que o ensino elementar tome como exemplo o método criado por HenriquePestalozzi e que o ensino superior se submeta a algumas reformas, inclusive, com a mudançada Escola Agrícola para um dos subúrbios da capital, porque a localização em S. Bento dasLages, local monótono, sombrio e tristemente solitário é um dos obstáculos para o seufuncionamento. Marçal Pereira Silva, autor da dissertação Instrução Agrícola no Brasil de1887, também republicano e positivista, coloca a instrução agrícola como fator de ordem eprogresso e criticando a vadiagem da população rural do recôncavo defende a educação pelaforça, através da criação de asilos agrícolas para corrigir maus costumes e formar uma mão-de-obra ordeira e pacata. Em 1886 João Regis de Lima Valverde, no trabalho Classificação eEscolha dos Instrumentos e Machinas Agrícolas, defendendo a necessidade de utilização demáquinas na agricultura acredita que a instrução agrícola é a base para a transformaçãoporque só através dela a classe agrícola estaria apta a introduzir e utilizar os instrumentosmais aperfeiçoados. Na dissertação Capital Rodante da Propriedade Agrícola, ChristovãoCampos (1887) refere-se à difusão do ensino profissional, inclusive como maneira dosagricultores aprenderem a racionalizar a aplicação dos capitais. Joaquim Pinto de Sá,dissertando sobre as Qualidades e Disposições Inerentes ao Empreendedor de IndústriaAgrícola (1887), coloca que somente uma instrução racional e metódica transformaria oagricultor em um bom empreendedor o que lhe permitiria conhecer a terra, os instrumentosagrícolas, os processos e as épocas mais vantajosas de plantações e colheitas, o movimentocomercial e a contabilidade de uma fazenda. Nos trabalhos Resolução da Crise Agrícola peloBraço Nacional ( (1894) e Lavoira e Despovoamento dos Campos (1895), os acadêmicos JoséMaria Neves e Alexandrino José de Santanna reivindicam escolas como forma de suprir afalta de braços, reivindicação que também se expressa na dissertação de Abílio Moncorvo daSilva intitulada A Rotina Permanente e a Falta de Braços na Agricultura Brasileira (1898)quando sugere que o “Estado deve abrir escolas em todas as freguezias, cappelas, pequenospovoados, especialmente escolas praticas especiaes de agricultura, para os orphãos e para osingenuos entregues ao Governo, que devem ser distribuídos pelos lugares habitados comrelativa egualdade...” Em 1900, Durval Gonçalves no seu Estudo Analítico da AgriculturaBrasileira, considera que a instrução agrícola, divulgada por escolas e associações agrícolas, éa base da prosperidade da agricultura, afirmando que “apenas com escolas e mais escolas,ensino e mais ensino, vigorará a divisão do trabalho, a rotina será banida como daninha ehaverá paz, progresso e prosperidade”.
  8. 8. 8 Apesar da diversidade de interesses, expressas nos títulos das dissertações, apropagação da instrução agrícola como agente transformador de uma realidade sintetiza opensamento da nova elite técnica, formada pela escola, o que desvia o enfoque de outrasinstâncias de análise. As constantes referências à falta de capitais, escassez de mão de obra eatraso da técnica e da consciência de que para promover inovações o lavrador precisa derecursos, não impedem que as tentativas de modernização efetivem-se apenas na áreaeducacional. Os acadêmicos tentam minimizar a ignorância da maioria dos lavradores, comorientações técnicas sobre agricultura e pecuária e neste aspecto não trazem inovaçõessignificativas. A publicação dessas dissertações, provavelmente divulgadas precariamentecomo os volumes do Fazendeiro do Brasil, que no começo do século apodreceram nosarmazéns do governo e os exemplares do Manual do fabricante do assucar e do LavradorPratico da Canna de Assucar publicados na década de 1850, repete o velho costume dedisseminação de informações com os mesmos resultados, pouco compensadores porquepraticamente não devem ter influído para a transformação da lavoura açucareira. A tradição de se tentar resolver parte dos problemas através da disseminação deinformações e pela super valorização da educação, colocada como fator básico dedesenvolvimento, permite empreendimentos como o Instituto de Agricultura e a EscolaAgrícola, criados em um contexto no qual referências à necessidade da educação agrícolacomo meio de resolver problemas da agricultura aparecem constantemente nos discursos dossetores mais progressistas da sociedade baiana, da segunda metade do século XIX, paraquem a disseminação de teorias e práticas avançadas transformaria lavradores ignorantes emprodutores aptos a dirigirem suas fazendas e a criação de escolas, asilos e penitenciáriaspermitiria o engajamento, como mão-de-obra disciplinada e responsável, da população rurallivre que no recôncavo reage firmemente a um trabalho sistemático. A escola, construída em S. Bento das Lages, às margens de um braço de mar em umlocal de difícil acesso, reflete as expectativas, os equívocos e provavelmente a megalomaniadesses discursos. É uma escola de proporções majestosas composta de: um edifício destinadoà moradia e atividades pedagógicas dos alunos; casas dos professores; uma área externadestinada aos trabalhos práticos na qual estão os campos de ensaio, o curral, a estrebaria e oscercados. O edifício dividido em dois andares, "com 190 palmos em quadro, com duzentos ecinqüenta e duas janelas e portas e quatro portões”, compõe-se de salões, salas de aulas,dormitórios, banheiros, cozinha, capela, museus: de história natural com 3.462 exemplares deanatomia – asteologia, paleontologia, esqueletos, imitações em gesso, pneumatologia,
  9. 9. 9neurologia, mamíferos, aves, galináceos, pernaltas, peixes, crustáceos, moluscos; de físicacom 170 instrumentos; de química com vasilhames, produtos químicos e 372 objetos para asmanipulações. A biblioteca possui 1517 obras em 3813 volumes de ciência, artes e indústriaque se relacionam com a agricultura. Para os trabalhos nos campos de ensaio, a Escola dispõede instrumentos e máquinas modernas comprados, em 1871, na Europa. Todo esse aparato físico técnico/pedagógico, entretanto, não garante umfuncionamento satisfatório. Um dos obstáculos enfrentados é a carência de pessoalqualificado. A Escola deveria funcionar, com recursos humanos formados por um diretor,professores em numero suficiente para ministrar todas as disciplinas do currículo, condutoresde trabalhos do campo e um professor para o curso elementar, todavia, principalmente no quediz respeito ao pessoal da área pedagógica, o funcionamento da escola é caracterizado pelonúmero insuficiente de profissionais que possam suprir as necessidades do estabelecimento.Diante de um currículo pretensioso que inclui mais disciplinas do que a das escolas européiase que exige um corpo docente quantitativamente suficiente e qualitativamente capacitado, aEscola Agrícola conta apenas em seus melhores momentos com sete professores, algunsnomeados provisoriamente esperando a realização de concursos. A escola enfrenta aindasérios problemas de disciplina. Os alunos do curso elementar reagem ao esquema disciplinarfugindo da escola e os do curso superior cometem atos de indisciplina em São Bento dasLages e provocam arruaças na Vila de são Francisco do Conde, local onde passam seusmomentos de lazer e onde acontece o assassinato de um aluno como está registrado nacomunicação de 30/11/1889 do Diretor da Escola à Diretoria do Instituto de Agricultura. O clima de otimismo no qual se realiza a inauguração da Escola, em 15 de fevereiro de1877, vai se modificando à medida em que aparecem os conflitos e as contradições seaguçam. Surgem críticas em relação à qualidade do seu ensino, à validade de seufuncionamento, ao seu currículo que privilegia a formação teórica em detrimento da prática, àsua localização e à competência dos professores, da direção da escola e da diretoria doInstituto de Agricultura. Dois anos depois da inauguração, o seu diretor, deputado ArthurRios, ocupa a tribuna da Assembléia Provincial para refutar às acusações feitas peloPresidente da Província que na Fala de 1979 critica o presidente do Instituto, o Visconde deSergimirim, o diretor e a congregação de professores que considera “uma diretoriaincompetente e sem habilitações, vivendo amigavelmente na mais santa paz numacongregação de família”. A Escola Agrícola, apesar de pertencer a uma entidade particular,vive exclusivamente dos cofres públicos e não corresponde ao objetivo inicial de formar
  10. 10. 10técnicos especializados, pois o reduzido número de alunos não compensa o investimento feitopela Província. Em 1893 outro diretor, Arlindo Fragoso, escreve artigos no Jornal de Notícias,defendendo a escola de acusações semelhantes mas já sugerindo um programa de reformas,entre elas, a do currículo e a sua transferência de S. Bento das Lages para Salvador. As propostas iniciais da Escola Agrícola de formar uma mão-de-obra a nível deregentes agrícolas que disseminasse os conhecimentos adquiridos entre outros trabalhadores ede preparar uma elite técnica que orientasse as transformações tecnológicas na agro-indústriado açúcar não atingem os resultados esperados. O número de operários formados pela escolanão é significativo e a atuação como regentes agrícolas provavelmente não é exercida demaneira expressiva. Quanto ao curso superior, na Fala de 1889, se tem notícias do destinoprofissional de cinquenta e quatro engenheiros agrônomos formados no período de 1880 a1888. Como a maioria diversifica suas atividades – jornalismo, magistério, telegrafia,trabalhos em empresas - e apenas vinte e cinco se dedicam à lavoura em diversas localidadesda Bahia e em outras províncias e apenas dois são aproveitados no estabelecimento, apesarda Escola estar em permanente crise de professores, pode-se deduzir que o número dosegressos que se envolvem na dinâmica da sociedade açucareira é praticamente inexpressivo.Apesar da ausência de dados sobre egressos dos anos posteriores, provavelmente, a tendênciaé manter essa inexpressividade. Concluindo, os vinte cinco anos de vida da Eschola Agrícola da Bahia são marcadospor um funcionamento precário e problemático com carências de recursos e professores o queprovoca discussões sobre a validade de sua criação e de seu currículo, considerado muitoteórico e pouco prático; a sua transferência para um local de mais fácil acesso; a possibilidadede passar o seu controle para o Estado. Apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas ao longode seus quarenta e cinco anos de existência, que arrefecem a euforia inicial e esvaziam afrequência de suas reuniões, o Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, constrói em plenomassapê do recôncavo baiano uma escola superior de agronomia, a Eschola Agrícola daBahia que passa ao controle do Estado em 1904 e em 1905 reorganiza-se com o nome deInstituto Agrícola da Bahia. Em 1911, o Governo Federal se responsabiliza pela suaadministração e a transforma na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária quecontinua em S.Bento das Lages até 1930, quando é transferida para Salvador e em 1943 para acidade de Cruz das Almas, onde funciona atualmente a Faculdade de Agronomia daUniversidade Federal da Bahia.
  11. 11. 11BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Rômulo. Traços da História Econômica da Bahia no Último Século e Meio. Salvador: Instituto de educação e finanças da Bahia, 1951. .AZEVEDO, Thales de e LINS, E.Q. Vieira. História do Banco da Bahia 18581958. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969. CUNHA, Mário Pinto. Memorial de S. Francisco do Conde. Salvador: Gráfica Central, 1977. D’ ARAGÃO, F. M. B. Manual do Fabrico do assucar. Paris: 1853. EISENBERG, Peter. Modernizações sem mudanças: a indústria açucareira em Pernambuco, 1840-1910. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. FRAGA, Maria do Socorro. Idéias Socialistas na Escola Agrícola da Bahia. Salvador: 1976. mim. FRAGOSO, Arlindo. Escola Agrícola da Bahia. Bahia: Jornal de Notícias, 1893. FURTADO. Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1968. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. Esplendor e Agonia do Instituto Bahiano de Agricultura 1859-1902. Bahia: 1974. (Publicação n. 26) HUTCHINSON, Harry William. Vila Recôncavo. Village and plantation life in Noreastern Brazil. Washington: American Ethmological Society, 1975. LISBOA, J.E. da Silva. O Lavrador prático da cana de assucar. Bahia: Camillo de Lelliz Masson, 1858. LINHARES, Maria Yedda. História do Abastecimento; uma problemática em questão (1530-1918.) Brasília: Binagri, 1979. MATTOSO, Kátia M. de Queirós. A Cidade do salvador no século XIX. Salvador: Hucitec, 1978. MOTT, Luiz Roberto de Barros. O Imperial Instituto de Sergipano de Agricultura e a Ideologia do Progresso. Sergipe: Simpósio de História do Nordeste, 1973. Mim. NOVAIS, Fernando. Portugal e o Brasil na crise do antigo sistema colonial. São Paulo: Hucitec, 1979.
  12. 12. 12PANG, Eul Soo. Bahia’s Planter elites and their attempt to modernize agriculture, 1842/1889 — Vanderbilt University, 1974 .PANG, Eul Soo. O engenho Central de Bom Jardim na economia baiana: alguns aspectos de sua história, 1875 – 1891. Rio de Janeiro, 1979.PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1967.PEDREIRA, Pedro Thomas. Notícia Histórica de São Francisco do Conde. Bahia: Estudos Baianos, 1976.RIDING, Eugene Ware. The Bahian Commercial Association 1840/1889. Universidade da Flórida, l970.TOURINHO, Maria Antonieta de Campos. O Imperial Instituto Bahiano de Agricultura : A instrução agrícola e a crise açucareira. Salvador: Universidade Federal da Bahia. 1982. Dissertação de Mestrado, Mim.TOURINHO, Maria Antonieta de Campos. O Imperial Instituto Bahiano de Agricultura: uma experiência e um exemplo histórico. Salvador: Correio da Bahia, 28/7/1980.

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