Missiologia
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Missiologia Document Transcript

  • 1. SEMINÁRIO PRESBITERIANO “REV. JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO” MISSIOLOGIAMISSIOLOGIAMISSIOLOGIAMISSIOLOGIA “Declare sua glória entre as nações” Salmo 96:3 "Deus é o Senhor Soberano das Missões" John Eliot “Deus não pode ser invocado por ninguém, exceto por aqueles que conheceram sua misericórdia por meio do Evangelho” João Calvino GILDÁSIO JESUS B. DOS REIS 2006
  • 2. 2 O ESTUDO DA MISSIOLOGIA QQQQuando olhamos para a Igreja Evangélica Brasileira e o movimento missionário atual, percebemos como ao longo dos anos teologia e missão tem andado por caminhos diferentes, completamente divorciados. Trata-se de uma dicotomia que precisa ser corrigida. Nós precisamos das duas: Precisamos da teologia, pois ela nos dá o embasamento para a tarefa missionária, e é especialmente importante por causa da dependência que a igreja tem dela para medir os nossos esforços com o padrão divino. E precisamos da missiologia pois ela é o meio pelo qual Deus faz nascer a Igreja, ela é resultado da ação não somente de Deus ao enviar seu Filho ao mundo como também do esforço de irmãos que divulgam o Evangelho de Cristo. Missiologia é a soma de duas palavras: do latim, “missione” significando função ou poder que se confere a alguém para fazer algo, encargo, incumbência; e do grego, “logia”, que significa estudo, conhecimento. Portanto, podemos definir Missiologia como a ciência que estuda os diferentes aspectos da missão que Deus deu ao homem. Carlos Del Pino, em seu artigo "Missiologia e Educação Teológica", diz que a “nossa educação teológica não tem se preocupado com o aspecto missiológico e missionário na formação dos nossos alunos"1 , reforçando o fato de que existe, mesmo que inconsciente, uma tentativa de divorciar a Missiologia da Teologia. Esta dicotomia trás algumas implicações para a vida da igreja: 1) Dificuldades para identificar de maneira global a "obra de Deus", que acaba sendo confundida com a manutenção do status quo, dando a entender que o Reino de Deus2 está contido em uma estrutura eclesiástica. 2) As prioridades ministeriais são via de regra, voltadas para dentro, a fim de satisfazer todas as necessidades que foram criadas “em nome de Deus” dentro das estruturas eclesiásticas, em prejuízo da missão integral3 . 3) O treinamento dos líderes sempre se torna diferenciado, pastores e missionários não tem a mesma excelência em seu preparo acadêmico. Com o objetivo de romper com este dualismo entre teologia e missiologia, vamos neste curso abordar o tema sob 5 perspectivas: I. Perspectiva Teológica: Estudaremos a conceituação da tarefa missionária da Igreja e os fundamentos teológicos, abordando os diversos pressupostos que sustentam uma teologia reformada de missões. II. Perspectiva Cultural: É praticamente impossível transmitir uma mensagem do evangelho que faça sentido em situações transculturais sem que seus comunicadores 1 PINO, Carlos Del. Capacitando para Missões Transculturais; Revista Missiológica da Associação de Professores de Missões no Brasil, Vol.1, n.2; 1995 2 O Cristo que a Igreja reconhece como Senhor é o Senhor de todo universo. Nesta afirmação de seu senhorio universal, a Igreja encontra a base para sua missão. Cristo foi coroado como Rei, e sua soberania se estende sobre a totalidade da criação. Como tal, ele comissiona os seus discípulos a fazerem discípulos de todas as nações (Mt 28.18- 20) 3 O conceito de missão integral propõe um modelo d missão que vai além da experiência religiosa pessoal para incluir também auxílio aos pobres e marginalizados.
  • 3. 3 conheçam os receptores da mensagem em seu ambiente cultural e histórico e sem que conheçam a si mesmos. Portanto, nossa proposta aqui objetiva mostrar a importância em se determinar os pontos de tensão cultural a partir de uma abordagem natural (não crítica) dos costumes, cosmologias e cosmovisões comuns em diferentes povos. III. Perspectiva Urbana: Nesta parte do curso, estudaremos as cidades e seus desafios para as missões; desafiando os alunos a desenvolver uma estratégia para o ministério urbano, focalizando os desafios sociais e espirituais que o ambiente provoca. Examina diversos modelos de ministérios urbanos, inclusive através de estudos de campo, e fornece critérios para a elaboração de um ministério bíblico de impacto na cidade. IV. Perspectiva Bíblica: Nosso objetivo aqui é estudar de maneira panorâmica, as bases bíbicas do Antigo e Novo Testamentos de Missões. A matéria apresenta a Bíblia como o relato da "história da salvação" e como inspirada por Deus para o desempenho da Igreja no mundo. V. Perspectiva Histórica: Analisaremos o desenvolvimento e a expansão da fé cristã ao longo dos séculos, compreendendo os seus principais personagens, métodos e povos alcançados. Rev. Gildásio Reis
  • 4. 4 MISSIOLOGIA UMA PERSPECTIVA TEOLÓGICA-REFORMADA “Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo, que é soberano de tudo, não declare: é minha” Kuiper I. Conceituando a Missão AAAA questão da definição e conceituação da missão, há muito tem sido uma das questões mais discutidas no estudo da missiologia. Nem sempre tem havido consenso sobre o que se deve entender por missões. O que é missão? Qual é a sua natureza? Quais os objetivos das missões cristãs? A considerar os diferentes pressupostos teológicos, uma gama muito grande de respostas pode ser dada a estas questões. Não obstante, este ser um assunto controvertido, ele é também muito importante para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve ser e fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu propósito na sociedade e no mundo? Desde o começo da História da Igreja muitas derivações de termos têm aparecido nas traduções latinas procedentes do verbo grego ‘apostolein’, significando ‘a arte de exercer o apostolado, o ofício de um apóstolo’. As palavras mais usadas são: Missio e Missiones. A terminologia ‘Missio’ somente veio a aparecer no século XVI quando as ordens de monge Jesuítas e Carmelitas enviaram ao novo mundo de então centenas de missionários. Inácio de Loyola e Jacob Loyonez consistentemente empregaram o termo ‘Missio’. Eles, os jesuitas foram os primeiros a utilizarem a terminologia “Missão”, como a propagação da fé Cristã entre os povos não-cristãos, ou seja, a disseminação da fé entre os povos não-católicos (os protestantes foram vistos como indivíduos a serem alcançados). Este sentido estava intimamente associado com a expansão colonial do mundo ocidental aos demais povos (atualmente chamado de terceiro mundo).4 Desde meados do século XX, vários sentidos têm sido aplicados ao termo “Missão”, alguns mais estreitos, outros, mais amplos. É importante que iniciemos nosso curso de missiologia dando alguns conceitos de missão. 1.1. DEFINIÇÕES GENERALIZADAS DE MISSÃO Em sua obra Mission Theology: An Introduction,5 o missiólogo Karl Muller apresenta uma lista com os seguintes de conceitos: 1. Missão é o envio de missionários para um designado território; 4 Dr. Antônio José, op cit. 5 Karl Muller. Mission Theology: An Introduction (Nettetal, Germany: Eteyler Verlag, 1987), 31-34. (citadas por Dr. Antônio José do Nascimento Filho, material utilizado no curso de mestrado em Missiologia no CPPGAJ em 2001)
  • 5. 5 2. Missão tem a ver com as atividades realizadas por tais missionários; 3. Missão é a área geográfica aonde os missionários realizam seus ministérios; 4. Missão é a agência missionária responsável pela logística e pelo envio dos missionários aos seus respectivos campos; 5. Missão é a propagação do evangelho aos povos não alcançados; 6. Missão é o centro do qual os missionários irradiam o evangelho; 7. Missão é uma série de serviços religiosos com o propósito de despertar vocações missionárias; 8. Missão é a propagação da fé Cristã; 9. Missão é a expansão do reino de Deus; 10. Missão é a conversão dos povos pagãos; 11. Missão é a plantação de novas igrejas. Dr. Antônio José nos informa que até o século XVI, o termo “Missão”, foi usado exclusivamente com referência à doutrina trinitária, isto é, ao papel da trindade na história da redenção.6 O envio do filho pelo Pai, e por sua vez, o envio do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho, cuja interpretação missiológica deu origem à doutrina chamada na história de “Filioque”.7 Esta interpretação, contanto que aceita como doutrina básica da Igreja Cristã, foi um dos motivos da cisão do Cristianismo medieval no ano de 1054. 1.2. UMA DEFINIÇÃO DE MISSÃO Em seu sentido mais amplo, a missão é tudo o que a igreja faz a serviço do Reino de Deus (Missões no plural). Em sentido mais restrito, contudo, a missão refere-se à atividade missionária, a pregação do evangelho entre povos e culturas em cujo meio ele não é conhecido (Missão no singular). A seguir, duas definições: J.H. Bavinck define assim: Missões é aquela atividade da igreja, essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo, realizada por meio da igreja, pela qual a igreja, neste período intermediário, chama os povos da terra ao arrependimento e à fé em Cristo, de modo que se tornem seus discípulos e, pelo batismo, sejam incorporados a comunhão daqueles que esperam a vinda do Reino8 Carlos Del Pino, em artigo publicado diz que “a missão da igreja não pode ser algo independente de Deus e de Cristo, como se a igreja pudesse realizá-la por si só”.9 É exatamente este o ponto da definição de Bavinck quando ele diz que “Missões é aquela atividade da igreja, essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo”10 6 Dr. Antônio José do Nascimento Filho, Op Cit., p. 24 7 A Igreja Cristã tem uma declaração histórica sobre o Espírito Santo, estabelecida no Concílio de Toledo (589 DC). O credo que emanou daquele concílio dizia que o Espírito Santo "procede tanto do Pai como do Filho". Longe de estabelecer uma subordinação em essência, a declaração apenas reflete o ensinamento bíblico que na administração das interações entre Deus e o Homem, cada pessoa da Trindade cumpre um papel específico. No caso do Espírito Santo, Ele procede do Pai e do Filho e testemunha de Cristo-não fala de si próprio. Este é o critério primário de reconhecimento do trabalho do Espírito - As ações supostamente realizadas pelo Espírito apontam para Cristo, ou para os agentes humanos? Os supostos porta-vozes do Espírito falam de Cristo, ou falam de si mesmos ou do próprio Espírito? A grande maioria das maravilhas e fenômenos contemporâneos atribuídos ao Espírito Santo não passa por este crivo. O credo do Concílio de Toledo, apenas expandia e particularizava a doutrina já exposta no Credo Niceno. O Concílio de Nicéia havia indicado a "processão do Pai", para o Espírito Santo. Concílio de Toledo (que para alguns não foi um concílio, mas um mero Sínodo - perdendo, portanto em autoridade) ampliou, indicando a procedência também do Filho (Jesus Cristo) para o Espírito Santo. Essa expressão "e do Filho" foi grafada com a palavra latina filioque. 8 J.H. Bavinck, An Introduction to the Science of Missions - citada por R.B.Kuiper in: Evangelização Teocêntrica, São Paulo, SP: Ed. PES, 1976 p.5 9 Cf. Fides Reformata, 5/01/2000 in: O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja 10 J.H. Bavinck, Op Cit., p. 5
  • 6. 6 Bosch11 nos oferece também uma definição de missão: A missão constitui um ministério multifacetado em termos de testemunho e serviço, justiça, cura, reconciliação, paz, evangelização, comunhão, implantação de igrejas, contextualização, etc..Inlcusive o intento de arrolar algunas dimensões da missão, porèm está repleto de perigo, porque de novo sugere que nos é possível definir o que é infinito. Quem quer que sejamos, espreita-nos a tentação de enclausurar a Missio Dei nos estreitos confins de nossas próprias predileções, voltando, necesariamente, à unilateralidade e ao reducionismo”12 Labieno Palmeira dá sua definição de missões: Fazer missões é procurar estar em sintonia com Deus, empenhando-se ao máximo para ver o que Deus vê, ouvir o que Deus ouve e conhecer como Deus conhece, e não apenas isto, é estar disponível para descer onde Deus quer descer, livrar aqueles que Deus deseja libertar e fazer subir aqueles que Deus deseja levar para a terra que mana leite e mel13 1.3. O Conceito de Missões na Confissão de Fé de Westminster. A Confissão de Fé de Westminster, no seu capítulo XXXV, que trata do “DO AMOR DE DEUS E DAS MISSÕES, assim prescreve: I. Em seu amor infinito e perfeito - e tendo provido no pacto da graça, pela mediação e sacrifício do Senhor Jesus Cristo, um caminho de vida e salvação suficiente e adaptado a toda a raça humana decaída como está - Deus determinou que a todos os homens esta salvação de graça seja anunciada no Evangelho. (Ref. Jo.3:16; I Tim.4:10; Mc.16:15).-A Universalidade do Evangelho (Inclusivista) II. No Evangelho Deus proclama o seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e crêem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça. ( ef. Jo.3:16 e 14:6; At.4:12; I Jo.5:12; Mc.16:15; Ef.2:4,8,9.) - A Necessidade da Fé Consciente, ou seja, há uma posição restritivista quanto ao destino daqueles que nunca ouviram falar de Jesus. III. As Escrituras nos asseguram que os que ouvem o Evangelho e aceitam imediatamente os seus misericordiosos oferecimentos, gozam os eternos benefícios da salvação: porém, os que continuam impenitentes e incrédulos agravam a sua falta e são os únicos culpados pela sua perdição. ( Ref. Jo.5:24 e 3:18.) - A certeza do Sucesso na Pregação O ponto aqui é o seguinte: Como pode a igreja em geral, e o cristão individual, estar segura de que não está assumindo uma obra que é intrinsecamente impossível de ser realizada? W.G.T. Shedd, D.D. (1820 – 1894) diz que “a pregação do evangelho encontra sua justificação, sua sabedoria, e seu triunfo, somente na atitude e relação com o infinito e todo-poderoso Deus que a sustenta”14 Sobre a certeza do sucesso da Igreja na pregação, Kuiper assim se expressa: 11 David Bosch serviu como missionário numa universidade da África do Sul até 1971, falecendo aos 63 anos. 12 BOSCH, David J. Missão Transformadora – Mudanças de paradigma na teologia da Missão. São Leopoldo, RS. Ed. Sinodal. 2002. 13 PALMEIRA FILHO, Labieno Moura. O Caráter Missionário de Deus. Goiânia – Go.: Série Nasce, 2001. p. 62. (O autor é pastor presbiteriano e missionário da Junta de Missões Estrangeira da Igreja Presbiteriana do Brasil, e está atuando como missionário em Moçambique) 14 W.G.T. Shedd, O Sucesso Certo do Evangelismo – extraído www.monergismo.com; capturado em 21/11/2003
  • 7. 7 A fé salvadora não é dom do evangelista ao seu ouvinte não salvo; "é dom de Deus" (Efésios 2:8). Nenhum evangelista jamais deu fé em Cristo a uma única alma. Ela é produzida nos corações humanos pelo Espírito Santo, pois "ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor" senão pelo Espírito Santo" (1 Coríntios 12:3). Nenhum pecador jamais foi convertido por um evangelista; o autor da conversão é Deus15 IV. A Comissão por Jesus Cristo: Visto não haver outro caminho de salvação a não ser o revelado no Evangelho e visto que, conforme o usual método de graça divinamente estabelecido, a fé vem pelo ouvido que atende à Palavra de Deus, Cristo comissionou a sua Igreja para ir por todo o mundo e ensinar a todas as nações. Todos os crentes, portanto, têm por obrigação sustentar as ordenanças religiosas onde já estiverem estabelecidas e contribuir, por meio de suas orações e ofertas e por seus esforços, para a dilatação do Reino de Cristo por todo o mundo. ( Ref. Jo.14:6; At.4:12; Rom.10:17; Mt.28:19,20; I Cor.4:2; II Cor.9:6,7,10. ) 1.4. O CONCEITO DE MISSÕES EM JOÃO CALVINO. Veremos um pouco mais adiante e de maneira mais detalhada, a visão que o reformador tinha de missões. Por hora, basta apenas uma síntese do seu pensamento missionário. Uma crítica que tem sido levantada à Calvino e à outros reformadores, é que os mesmos não possuíam uma visão missionária. Veja o que Gustav Warneck escreveu: Nós perdemos com os Reformadores não apenas a ação missionária, mas mesmo a idéia de missões... [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma direção missionária16 Missiólogos mais recentes, como Ralph D. Winter, perpetua o errro de Warneck. Ele afirma: A despeito do fato de que os protestantes ganharam no fronte político, e, em grande medida, alcançaram a capacidade de reformular sua própria tradição cristã, eles nem mesmo falaram sobre missões, e aquele período terminou com a expansão católica européia nos sete mares, tanto política como religiosa.17 Mas o que realmente querem estes críticos dizer quando afirmam desinteresse dos reformadores por missões? Qual conceito tinham eles de missões e por qual padrão estavam julgado os reformadores? É certo que Calvino não escreveu, entre suas muitas obras teológicas, nenhum tratado sobre missões, mas é certo também que ninguém pode afirmar que ele tenha escrito algo contra a idéia de missões. O ponto que precisa ser ressaltado aqui é que se Calvino não escreveu especificamente um tratado sobre missões, isso não significa dizer que ele não possuía visão missionária. Entre os Reformadores, nenhum tem falado com mais clareza do que João Calvino a respeito de toda a questão do alcance da mensagem da fé cristã. Calvino apela repetidas vezes aos crentes a mostrarem interesse por seu próximo descrente. No contexto da época (século XVI), descrentes eram as pessoas simples do rebanho católico ou aquele que se livrara da dominação romana, 15 KUIPER, R.B.. Evangelização Teocêntrica, São Paulo, SP: Ed. PES, 1976 p.179 16 Gustav Warneck, History of Protestant Missions, trans. G. Robinson (Edinburgh: Oliphant Anderson & Ferrier, 1906), 9, citado em Fred H. Klooster, “Missions—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological Journal 7 (Nov. 1972): 182. 17 Ralph D. Winter, "The Kingdom Strikes Back: The Ten Epochs of Redemptive History," em Perspectives on the World Christian Movement, eds. Ralph D. Winter e Steven C. Hawthorne (Pasadena: William Carey Library, 1981), 153. Minha tradução.
  • 8. 8 mas não aderira à Reforma. As admoestações de Calvino são aplicáveis a todas as situações em que o crente se torna vizinho de um descrente. Em um sermão sobre 1 Timóteo 2.5,6, Segundo comenta Forbes, Calvino declara: “Quando vemos homens destruindo-se, não tendo Deus sido tão gracioso para juntá-los a nós pela fé do evangelho, devemos apiedar-nos deles e esforçar- nos para trazê-los ao caminho reto.”18 Veja ainda a visão missionária de Calvino em suas palavras lembradas por Forbes: Nosso Senhor Jesus Cristo foi feito um como nós, e sofreu a morte para que pudesse tornar-se um advogado e mediador entre Deus e nós, e abrir um caminho pelo qual possamos chegar a Deus. Aqueles que não se empenham em trazer seu próximo e descrentes ao caminho da salvação mostram abertamente que não têm em conta a honra de Deus, e que tentam diminuir o imenso poder de seu império, e estabelecem limites para que Ele não possa governar todo o mundo, de igual modo obscurecem a virtude e morte de nosso Senhor Jesus Cristo e diminuem a dignidade dada a Ele pelo Pai.19 Em um sermão baseado em I Timóteo 2.3-5, Calvino demonstra a preocupação que os cristãos precisam ter com os descrentes. Conforme Forbes, Calvino assim afirma: Portanto, podemos estar cada vez mais certos de que Deus nos aceita e fortalece dentre seus filhos, se nos empenharmos em trazer aqueles que estão afastados dele. Confortemo-nos e tenhamos coragem neste chamado: embora haja nestes tempos um grande desamparo, e embora pareçamos ser miseráveis criaturas completamente arraigadas e condenadas, ainda assim devemos labutar tanto quanto possível para atrair aqueles que estão afastados da salvação. E, acima de todas as coisas, oremos a Deus por eles, esperando pacientemente que Ele se digne mostrar boa vontade para com eles, assim como tem mostrado para conosco.20 Calvino ensinou com firmeza que a Salvação é dom de Deus somente para os seus eleitos. Não obstante, isto não o impede de insistir para que os membros da igreja procurem trazer um grande número de pessoas a Cristo. Parker, elucidando o pensamento de Calvino sobre a igreja, registra a seguinte declaração de Calvino em um sermão sobre Isaías 53.12: Se desejamos pertencer à igreja e ser reconhecidos como rebanho de Deus, devemos admitir que isto ocorre porque Jesus Cristo é o nosso Redentor. Não receemos ir a Ele em grande número, e cada um de nós traga seu próximo, considerando que Ele é suficiente para salvar a todos.21 Calvino entendia que os cristãos têm a grande responsabilidade de espalhar as Boas Novas do Evangelho. Ele escreve: “porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as nações... a obra não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares”22 . Deus poderia ter escolhido outros meios, no entanto, ele escolheu “empregar a ação de homens” para a pregação do Evangelho.23 II. CONCEITUANDO A EVANGELIZAÇÃO No debate contemporâneo entre missão e evangelização, a maioria dos missiólogos sustentam a visão que evangelização é um indispensável componente da missão da igreja. Missão, dizem eles, inclui tudo o que a igreja é chamada por Deus para fazer no mundo visando 18 J. Forbe, The Mystery of Godliness and Other Sermons (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing House, 1950), 199. 19 Ibid., 200. 20 Ibid., 110. 21 T. H. L. Parker, Sermons on Isaiah’s Profecy of the Passion and Death of Christ (London, England: Lames Clarck and Co. Ltd., 1956), 144. 22 Calvino, João. Comentário sobre Isaías 12:5, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 403. 23 Calvino, João. Comentário sobre Isaías 2:3, em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” 28.
  • 9. 9 a manifestação de sua glória. Evangelização refere-se ao específico processo de espalhar as boas novas acerca de Jesus Cristo como a salvação de Deus aos povos.24 O missiólogo J. D. Douglas em seu livro Let the Earth Hear His Voice apresenta-nos a definição do pacto de Lausanne (1974) sobre evangelização: Evangelizar é espalhar as boas novas que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou da morte segundo as Escrituras, e que agora, ele concede perdão dos pecados e o Dom do Espírito para todos que se arrependem e crêem. Portanto, evangelização é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o propósito de persuadir as pessoas a vir a Ele pessoalmente e assim ser reconciliado com Deus. Jesus continua ainda convidando a todos para seguí-lo, negar a si mesmos, tomar a sua cruz e identificar a si mesmos com a comunidade dos remidos. O resultado do evangelismo inclui obediência a Cristo, incorporação na vida da igreja, e responsável serviço para o mundo.25 Orlando Costas, conhecido teólogo latino-americano, afirma: Evangelizar é participar de uma ação transformadora, isto é, as boas-novas da salvação. Neste sentido, a evangelização não é um conceito, mas sim uma tarefa dinâmica, encarnada primeiro na vida e ação salvífica de Jesus Cristo. Portanto, ela não pode ser reduzida a uma fórmula verbal. Evangelizar é reproduzir pelo poder do Espírito Santo a salvação que foi revelada em Jesus Cristo. 26 John Stott, em sua obra The Biblical Basis of Evangelism, comenta: O tema central dos evangelhos e das cartas apostólicas é a natureza e o significado de Jesus Cristo. Ele é o Deus encarnado, o Messias esperado, o Senhor do universo. Através dele Deus tem pessoalmente entrado na história e provido salvação27 III. OS MOTIVOS PARA MISSÕES Roger Greenway nos ajuda a entender por que devemos fazer missões?28 A. Motivos errados: Devemos admitir que sempre houve pessoas que ingressaram no trabalho do Senhor por razões equivocadas. Até os missionários que têm os motivos corretos podem cometer erros. At 13.13, At 15.37-40 e 2Tm 4.10. Podem existir motivos errados escondidos nas mentes dos mais sinceros missionários. 1. O desejo de ser admirdado e louvado por outros 2. A busca por “auto-realização”, sem levar em consideração o esvaziar-se a si mesmo(Fp 2.5-7); 24 Bavinck não vê razões para diferenciar estes dois termos. (Cf. Evangelização teocêntrica, p. 5) 825 J. D. Douglas, Let the Earth Hear His Voice (Minneapolis, Minnesota: World Wide Publications, 1974), 4. 26 Orlando Costas. Liberating News (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1989), p. 133 (Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados Unidos, vitimado por um câncer, aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo batista. Graduou-se doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos. Foi reitor e professor do Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou o Centro Evangélico Latino- Americano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em San José, Costa Rica. Atuou como administrador da faculdade do Eastern Baptist Theological Seminary, na Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e diretor de estudos hispânicos) 27 John Stott, The Biblical Basis of Evangelism (Minneapolis, Minnesota: World Wide Publications, 1975), 65. 28 GREENWAY, Roger . Ide e Fazei Discípulos. São Paulo,SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. p.30-34
  • 10. 10 3. A busca por aventura e excitação; 4. A ambição em expandir a glória e influência de uma igreja ou denominação em particular, ou mesmo de um país; 5. A fuga das situações desagradáveis do lar; 6. A esperança de sucesso profissional após um curto período de serviço missionário. 7. A culpa e o anseio pela paz com Deus por meio do serviço missionário. B. Motivos corretos Os motivos corretos para missões são ensinados na Palavra de Deus e aplicados nos corações dos crentes por meio do Espírito Santo. 1. O desejo de que Deus seja adorado e sua glória conhecida entre todos os povos da terra: A glória de Deus diz respeito a tudo o que foi revelado sobre ele: seu nome, sua santidade, seu poder, seu amor por meio de Jesus Cristo, sua misericórdia, sua grsaça e sua justiça. Entretanto, mais de três bilhões de pessoas no mundo não aodram ao verdadeiro Deus. Este pensamento é que inspira os missionários! Eles sentem uma divina compulsão em pregar o evangelho 1Co 9.16. 2. O desejo de obedecer a Deus por amor e gratidão, por meio do cumprimento da Comissão de Cristo: “Ide fazei discípulos de todas as nações”. (Mt 28.19): O amor genuíno por Deus produz obediência à sua Palavra cf.: Jo 14.15; A obediência cristã toma forma e o povo de Deus é ungido com o Espírito Santo a servi-lo numa variedade de ministérios 1Co 12.4,5; Ef 3.10. 3. O desejo ardente de usar todos os meios legítimos para salvar os perdidos e ganhar não- crentes para a fé em Cristo: A paixão missionária pela glória de Deus é acompanhada pela paixão pelas pessoas que, por ignorãncia e descrença, estão morrendo em seus pecados. 4. A preocupação de que as igrejas cresçam e se nultipliquem e de que o reino de Cristo seja estendido por meio de palavras e ações que proclamem a compaixõ e a justiça de Cristo a um mundo de sofrimento e injustiça.
  • 11. 11 II. O PROPÓSITO DA MISSÃO: A GLÓRIA DE DEUS ______________________________ “Deus é o Senhor soberano das missões” John Eliot (Missionário entre os índios americanos -1690) Introdução Tendo já conceituado a Missão, precisamos agora tratar da questão sobre a a prioridade ou principal missão da igreja.29 Qual é a Missão principal e última da Igreja? Muitos missiólogos afirmam que a prioridade última da igreja é evangelizar e fazer missões ao redor do mundo30 . Quem não ouviu a famosa frase atribuída a Alexandre Duff: “A Igreja que não evangeliza não é evangélica”31 ?. Dizer que a tarefa principal da igreja é evangelizar não encontra respaldo nas Escrituras e óbviamente, também não encontra eco na teologia reformada de missões. Se por “prioridade” queremos dizer “o alvo último” da igreja, nossa resposta deve ser “não”. Como reformados entendemos que a obra missionária não é o alvo último da igreja. Martyn Lloyd-Jones assim se expressa: O objetivo supremo desta obra é glorificar a Deus. Esse é o ponto central. Esse ;é o objetivo que deve dominar e sobrepujar todos os demais. O primeiro objetivo da pregação do evangelho não é salvar almas; É GLORIFICAR A DEUS. Não se tolerará que nenhuma outra coisa, por melhor que seja nem por mais nobre, usurpe esse primeiro lugar. 32 Neste ponto de nosso curso de missiologia, vamos ver á luz da Palavra de Deus, que é o culto a Deus e não a obra missionária, deve ser a preocupação principal da igreja do Senhor. Conforme vemos nos argumentos de John Piper, “o desafio missionário existe e persiste porque o culto pleno a Deus ainda não existe”.33 O culto é o alvo último da igreja. O culto a Deus deve ter prioridade na igreja, não a obra missionária, porque Deus é último, e não o ser humano. Quando esta era terminar e representantes de toda raça, tribo e nação se dobrarem diante do Cordeiro de Deus, a obra missionária não mais exisitirá na igreja. Mas existirá o louvor e a adoração. Permanecerá na igreja o culto. ( Paixão de Deus por sua própria glória : Isaías 48:9-11 ). O homem natural busca a sua própria glória, mas Deus, a sua.34 A adoração é o combustível e a meta das missões. É a meta das missões porque nelas simplesmente procuramos levar as nações ao júbilo inflamado da glória de Deus. O alvo das missões é a alegria dos povos na grandiosidade de Deus. “Reina o Senhor. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas” (Sl 97.1). “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes” (Sl 67.3-4). Quando a chama da adoração arder com o calor da verdadeira excelência de Deus, a luz das missões brilhará para os 29 Este capítulo faz parte de um artigo do Dr. C. Timóteo Carriker, adaptado por mim para ser utilizado no Curso de Missiologia no JMC. As idéias principais que se seguem são grandemente fruto da leitura recente que o Dr. Timóteo fez do livro de John Piper, Alegrem-se os Povos! A Supremacia de Deus em Missões. (Livro este que está sendo resenhado pelos alunos do curso de missiologia doJMC) 30 Apenas para citar um: Charles Van Engen in: Povo Missionário, Povo de Deus, Edições Vida Nova, São Paulo, 1996 31 Cf. www.editoraaleluia.com.br/estudos_biblicos/estudos_1-50/est16.htm 32 Texto extraido do site: http://www.geocities.com/Athens/Delphi/7162/ . Acesso em 12/11/2003 33 PIPER, John. Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã: 2001 ) p. 13 34 Idem, p.13
  • 12. 12 povos mais remotos da terra.35 ( Ef 1:4-6; cf 12-14; Sl 106:7,8; Rm 9:17; Ex. 14:4,17,18; Ez 36:22,23,32)36 Por mais que queiramos afirmar a prioridade da obra missionária, creio que uma análise honesta da revelação bíblica leve à conclusão que o culto é o fim último da igreja e o desejo máximo de Deus para toda a humanidade. A primeira pergunta do Catecismo de Westminster diz: “Qual é o fim principal do ser humano?” E a resposta acertada é: “O fim principal do ser humano é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre.” É dentro desta perspectiva reformada e bíblica maior da prioridade última da glória de Deus que nossa reflexão a respeito da obra missionária se encontra. Missões começam e terminam na adoração. Há alguns pontos a serem destacados com relação a isso: I. O Amor de Deus por Ele mesmo é a Base para o nosso amor. A ordem bíblica da evangelização dos povos, precisa ser vista no contexto do deleite divino. Não podemos nos esquecer que o motivo por trás de todas as ações deve objetivar agradar a Deus (Sl 115:3; Is. 48:9-11). Deus tem prazer nele mesmo. Esta última afirmação por nos soar um tanto estranha, mas vamos buscar entender o que isso significa. Deus nos ensina que nosso objetivo supremo deve ser amá-lo e glorificá-lo para sempre, como, então, isso poderia ser diferente para ele mesmo? O fundamento para nosso deleite em ver Deus glorificado é seu próprio deleite em ser glorificado. Deus é central e supremo em todas as suas afeições. Não há rivais para a soberania de Deus em seu próprio coração. Deus não é um idólatra.37 Isso tudo pode nos parecer um tanto confuso, talvez porque nunca tenhamos parado para pensar desse modo. O coração mais apaixonado por Deus em todo o universo é o coração do próprio Deus. Essa verdade sela a convicção de que adoração é o combustível e o objetivo de missões. O amor de Deus por si mesmo é justo, pois ele é justo, é reto, é amor. Podemos ver de modo claro essa paixão da qual estamos falando em Isaías 48.9-11: Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem. As expressões desse texto deixam claro que Deus agiu “por amor do seu nome”, por amor de si mesmo ele não exterminou o povo de Israel. É isso, também, o que demonstra uma série de outros textos. Deus escolheu seu povo para sua glória (Ef 1.4- 6); nos criou para sua glória (Is 43.6-7); libertou Israel do Egito para sua glória (Sl 106.7-8); Jesus disse que responde às orações para que o nome de Deus seja glorificado (Jo 14.13); Jesus nos acolheu para a glória de Deus (Rm 15.7); o plano de Deus é encher a terra com o conhecimento da glória do Senhor (Hc 2.14). Esses e tantos outros textos da palavra de Deus não deixam dúvida de que Deus ama a si mesmo, e esse deve ser também o nosso objetivo e nossa motivação para missões. Por esse motivo é que... 35 Idem, p. 13 36 Idem, p.14 37 Piper, op cit., p. 17
  • 13. 13 II. A Centralidade de Deus na Vida da Igreja Quando as pessoas não estão maravilhadas pela grandiosidade de Deus, como poderão ser enviadas para proclamar a mensagem: “grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível mais que todos os deuses” (Sl 96.4)? É essencial que em missões haja centralidade de Deus na vida da igreja. A paixão por Deus no culto precede a oferta de Deus na pregação. Não podemos pregar com convicção aquilo que não estimamos com paixão. “Quando a chama do culto queima com o calor da verdadeira dignidade de Deus, a luz da obra missionária brilhará até os povos mais distantes da terra”38 Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por missões certamente será fraco também. As igrejas que não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão acender um desejo afervescente para “anunciar entre as nações a sua glória” (Salmo 96.3). O zelo pela glória de Deus no culto é a grande força motivadora para a obra missionária. John Piper, cita o seguinte pronunciamento de Andrew Murray há mais que cem anos: Enquanto buscamos a Deus sobre por que, com tantos milhões de cristãos, o verdadeiro exército de Deus que está combatendo os exércitos da escuridão é tão pequeno, a única resposta é C falta de coragem e entusiasmo. O entusiasmo pelo reino de Deus está faltando. E isto é porque há tão pouco entusiasmo pelo Rei. Ninguém poderá se dispor à causa missionária se não experimentar a magnificiência de Cristo (Apocalipse 15.3-4; cf. Salmos 9.11; 18.49; 45.17; 57.9; 96.10; 105.1; 108.3; e Isaías: 12.4; 49.6; 55.5) Quero acrescentar ao que Piper e Carriker já disseram que, Calvino também tem este foco em sua teologia de missões. Para ele tudo na vida deve ser vivido para a glória de Deus.39 Para Calvino, o fator que deveria motivar as missões mundiais era a glória de Deus. Charles Chaney escreve sobre Calvino: o fato de que a glória de Deus era o motivo primordial nas primeiras missões protestantes e isto ter se tornado, mais tarde, uma parte vital do pensamento e atividade missionárias, pode ser traçado diretamente em direção à teologia de Calvino.40 Precisamos nos voltar para o Todo-Poderoso e buscar a sua glorificação em primeiro lugar. Deus deve estar no centro de toda e qualquer atividade da igreja. Missões não são o primeiro e o último, Deus o é. Essa verdade é a vida da inspiração e da perseverança missionária. O missionário William Carey, chamado de “Pai das missões modernas”, foi enviado para a Índia em 1793 e expressou assim essa conexão: 38 PIPER, John. Op Cit., p.12 39 J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between Calvinism and Missions.” Evangelical Quarterly 22 (Jul. 1950): 177. 40 Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964): 36-37. See also Samuel Zwemer, “Calvinism and the Missionary Enterprise,” Theology Today 7 (Jul. 1950): 211.
  • 14. 14 Quando eu deixei a Inglaterra minha esperança na conversão da Índia era muito forte, mas, em meio a tantos obstáculos, ela poderia morrer a não ser que fosse sustentada por Deus: Eu tenho a Deus e sua palavra é verdadeira. Apesar de as superstições dos pagãos serem milhares de vezes mais fortes do que eles e o exemplo dos europeus milhares de vezes pior; embora eu tenha sido abandonado e perseguido por todos, ainda assim esta é minha Fé, firmada na certeza da palavra, que se elevará acima de todos os obstáculos e superará cada provação. A causa de Deus irá triunfar41 William Carey e milhares como ele têm sido movidos pela visão de um grande e triunfante Deus. Isso significa ter Deus no centro da vida. A centralidade de Deus deve ser evidente na vida da igreja e isso é motivação para realização de missões. III. A glorificação de Deus é o alvo de missões O culto é o alvo da obra missionária simplesmente porque nosso propósito é levar as nações a regozijarem-se em Deus e glorificá-Lo acima de tudo. O alvo da obra missionária é a alegria dos povos na grandeza de Deus (Salmo 97.1; 67.3-4; cf. 47.1; 66.1; 72. 11, 17; 86.9; 102.15; 117.1; e Isaías 25.6-9; 52.15; 56.7; 66.18-19. Penso que o culto a Deus como o alvo da obra missionária já se tornou patente como decorrente de toda a nossa reflexão até este momento. Mas há um aspecto desta verdade que precisamos explorar mais. É o seguinte: O culto a Deus como alvo da obra missionária ajuda a entender a própria definição da obra missionária. Pois a obra missionária enfatiza a prioridade de alcançar povos, ou etnias não alcançadas. Isto se evidencia na repetida descrição bíblica da tarefa missionária em termos de etnias (Mateus 24.14; 28.18-20; Romanos 15.19-21). Na Bíblia, a frase, pa,nta ta. e;qnh significa “todas as nações” ou “todas as etnias”. A palavra na forma singular,εθνοσ de fato, sempre se refere a coletividade dum povo ou duma nação. Nunca se refere a indivíduos gentílicos. O mesmo é geralmente verdade em relação a εεεεθθθθνοσνοσνοσνοσ,,,, na forma plural. A frase pa,nta ta. e;qnhpa,nta ta. e;qnhpa,nta ta. e;qnhpa,nta ta. e;qnh quase sempre denota esta referência coletiva na Bíblia, também. Que a estratégia bíblica seja de alcançar especialmente as etnias não alcançadas é claro em Romanos 15.19-21. Para muitos cristãos, talvez até a maioria, esta estratégia não parece muito lógica. Antes alcançar todos os indivíduos ao nosso alcance e semelhantes culturalmente a nós, que procurar alcançar representantes de etnias que podem ser geografica ou culturalmente distantes. Parece uma questão de mordomia de esforços.42 Conclusão: A obra missionária começa e termina com o culto prestado à glória de Deus. Começa, porque somente o culto genuíno e profundo pode motivar adequadamente a igreja para assumir sua vocação missionária. E termina, porque o alvo último e o fim principal de toda humanidade é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. E na obra missionária, procuramos levar as nações à mesma alegria e exaltação que carateriza o nosso culto a Deus. Portanto, quando afirmamos que a obra missionária é a prioridade penúltima na igreja não estamos diminuindo a sua importância. Estamos meramente fazendo o que devemos, maximizando a tarefa de glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. E assim, enxergamos a verdadeira importância da obra missionária, certamente acima de outras atividades na igreja, isto é estender e diversificar, e assim intensificar o culto que glorifica e goza Deus entre todas as nações da terra (Apocalipse 5.9-10; 7.9-10). 41 Citado em Alegre-se os Povos de John Piper, Editora Cultura Cristã, a ser lançado. 42 PIPER, John. Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã: 2001 ) p. 184
  • 15. 15 III. A NATUREZA DA TAREFA MISSIONÁRIA _________________________ “Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem” Rm 15.11 Qual é a tarefa das missões cristãs?43 Se toda a raça humana está sob condenação por causa do pecado e excluídas da vida eterna (Ef 2.2-3, 12; 4.17; 5.6) e se invocar a Jesus é sua única esperança para a comunhão eterna e jubilosa com Deus, então podemos entender que se amamos estas pessoas, devemos fazer missões? Amor pelos perdidos é uma elevada e sublime motivação para a obra missionária. Sem isso perdemos a doce humildade de repartir um tesouro que recebemos de graça. Mas a compaixão pelas pessoas não pode ser separada do amor a Deus. John Piper nos fornece um motivo adicional do porquê o amor aos perdidos não pode ser o nosso combustível em missões. Ele afirma que é impossível amar verdadeiramente aos “perdidos”, pois não conseguimos cultivar um amor profundo por alguém que conhecemos somente por meio de fotos ou quando colocados, de um modo mais geral, como uma nação ou um povo, ou algo tão vago como “todos os perdidos”.44 Vejamos então o que a Escritura nos ensina sobre a natureza da obra missionária: 1) Territórios Não-Alcançados ou Povos Não-Alcançados ? Desde 197445 , a tarefa das missões tem sido focalizada crescentemente na evangelização de povos não-alcançados46 em oposição à evangelização de territórios não-alcançados. Naquele ano, no Congresso de Evangelização Mundial de Lausanne, Ralph Winter acusou o empreendimento missionário ocidental do que ele chamou de “cegueira dos povos”. Desde aquele tempo, ele e outros têm pressionado incessantemente a focalização do “grupo de pessoas” no planejamento da maioria das igrejas e organizações similares voltadas para as missões. A “verdade destrutiva” que ele revelou em Lausanne foi esta: apesar de o evangelho ter chegado a todos os países do mundo, quatro de cada cinco não-cristãos estão ainda excluídos da pregação do evangelho devido não a barreiras geográficas, mas a barreiras culturais e lingüísticas. Por que esse fato não mais é amplamente conhecido? Receio que toda nossa exultação pelo fato de todos os países terem sido transpostos permitiu que muitos supusessem que todas as culturas também foram alcançadas. Esse mal-entendido é uma doença tão disseminada que merece um nome especial. Vamos chamá-la “cegueira dos povos”, isto é, cegueira para a existência de povos separados dentro de países – uma cegueira, posso acrescentar, que parece mais predominante nos Estados Unidos e entre os missionários norte-americanos do que em qualquer outro47 43 O presente capítulo foi adaptado da obra de John Piper - Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã: 2001 ) pp. 177 a 230. 44 Piper, Op Cit., p. 178 45 Neste ano foi realizado o Congresso Mundial de Evangelização em Lausane na Suíça. 46 A definição de “povos não-alcançados” é: grupos de pessoas que não possuem entre si um movimento cristão atuante e/ou números suficientes de cristãos com recursos adequados para evangelizar o restante do grupo ( Winter em Missões Transculturais – Uma Perspectiva Estratégica. São Paulo, SP Ed Mundo Cristão. 1987 p.712 47 WINTER, RALPH. The New Macedônia: A Revolutinary New Era in Mission Begins, em Ralph Winter e Steven Hawthorne, eds.; Perspectives on the World Missions Movement ( Pasadena: William Carey Library, 1981, p. 302
  • 16. 16 A mensagem de Winter serviu como um alerta para a igreja de Cristo, reorientando seu pensamento para que as missões fossem vistas como a tarefa de evangelização dos povos não- alcançados e não meramente como a tarefa de evangelização de mais territórios. Extraordinariamente, nos 15 anos seguintes, o empreendimento missionário respondeu a esse chamado. Em 1989, Winter foi capaz de escrever: “Agora que o conceito de Povos Não- Alcançados foi aceito amplamente, é possível elaborar planos imediatamente... com muito maior confiança e precisão”.48 Definição de Povos não-alcançados: O chamado de Deus para missões não pode ser definido em termos de atingir outras culturas para aumentar o número de indivíduos salvos. Antes, a vontade de Deus para missões é que cada grupo de pessoas seja alcançado com o testemunho de Cristo, e que as pessoas sejam chamadas, em seu nome, de todas as nações. Assim é demonstrada a soberania de Deus entre todas as nações. Somos comissionados para cumprir essa tarefa. Se a tarefa de missões é alcançar todos os grupos de pessoas não-alcançados do mundo, necessitamos ter idéia do que significa “alcançado”, de modo que as pessoas chamadas para a tarefa missionária da igreja conheçam quais os grupos de pessoas a que devem se dirigir e quais deixar. Paulo deve ter tido alguma idéia do que significava “alcançado”, quando disse em Romanos 15.23: “ ...não tendo já campo de atividade nestas regiões”. Ele deve ter entendido o que significava completar a tarefa missionária, quando afirmou em Romanos 15.19: “desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo”. Ele sabia que sua obra estava concluída naquela região. Eis por que ele dirigiu-se à Espanha. O Encontro dos Povos Não-Alcançados de 1982, a que nos referimos anteriormente, definiu “não- alcançados” desta forma: Um grupo de pessoas não-alcançadas é “um grupo de pessoas dentro do qual não há comunidade nativa de crentes cristãos capazes de evangelizá-los”. Assim, um grupo seria alcançado quando os esforços da missão tiverem estabelecido uma igreja nativa que tenha força e recurso para evangelizar o restante do grupo. (Ap 5:9; 7:9; 10:11; 11:9; 13:7; 14:6; 17:15) fulh/j: descendentes físicos glw,sshj: comunicação idiomática49 . laou/: grupo etnico50 . 24 mil grupos étnicos – 8 mil ainda não alcançados. e;qnouj: entidade política, fronteiras geográficas 48 RALPH WINTER, Unreached Peoples: Recent Developments in the Concept, Missions Frontiers, Agosto- setembro, 1989, p. 18 49 Ronaldo Lidório diz que convivemos hoje com 6528 línguas vivas. 336 possuem a Bíblia completa, 928 o Novo Testamento completo e 918 grandes porções bíblicas, ou seja a Palavra está expressivamente presente em 2212 línguas. Deixa-nos com mais de 4.000 línguas, minoritárias e faladas por apenas 6% da população mundial, sem nada da Palavra de Deus. Entretanto tudo isto acontece em um mundo onde 1 bilhão e meio de pessoas, segundo a ONU, não sabe ler ou escrever. Não poderiam ler a Palavra mesmo se a tivessem em sua própria língua http://www.monergismo.com/textos/missoes/restaurando_lidorio.htm ). Na Índia com 940 milhões de habitantes tem 17 línguas oficiais e mais de 400 castas relacionadas. Ronaldo Lidório afirma que só em Gana, África entre os Konkombas há 23 dialetos diferentes. (Cf. Lidório em O Desafio Continua, p. 43) 50 Segundo a Word Mission International há no mundo hoje 2.227 povos que desconhecem totalmente o evangelho de Jesus em suas vidas.Mas não apenas esses; há outros 4000 povos que possuem igreja, testemunhos, alguma conversão, mas que não possuem uma igreja forte suficiente para comunicar o evangelho ao restante daquela própria etnia; temos perante nós um desafio étnico. Dentre as 258 tribos indígenas brasileiras, eu falo isso com muita vergonha e constrangimento em meu coração, há hoje 103 tribos em nosso país, na nossa circunferência nacional, totalmente não alcançadas pelo evangelho de Jesus e sem presença missionária. E 40 destas tribos estão com as portas abertas para alguém que lhes fale de Jesus, mas não há. Estão na espera de uma igreja que, muitas vezes, nunca envia ou ora por um missionário. (cf. http://www.mhorizontes.org.br/Docs/transparencias/11-tarefainacabada.pdf)
  • 17. 17 II. A Esperança do Antigo Testamento: Todas as Famílias Serão Abençoadas Essa é uma promessa presente no Antigo Testamento. Na verdade, o Antigo Testamento está repleto de promessas e expectativas de que Deus será, um dia, adorado por nações de todo o mundo. Fundamental para a visão missionária do Novo Testamento foi a promessa que Deus fez a Abraão em Gênesis 12.1-3: Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei urna grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu urna bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. Essa promessa de benção universal às “famílias” da terra51 é essencialmente repetida em Gênesis 18.18; 22.18; 26.4 e 28.14. Em 12.3 e 28.14 a frase hebraica para “todas as famílias” (kol mishpahot) é traduzida no grego do Antigo Testamento por pasai hai phulai. A palavra phulai significa “tribos” em muitos contextos. Porém mishpaha pode ser, e usualmente é, menor que uma tribo. Por exemplo, quando Acã pecou, Israel é investigado em ordem decrescente de tamanho: primeiro por tribo, em seguida por mishpaha (família) e por fim por pessoa (Js 7.14). Assim, a bênção de Abraão decorre do propósito divino de alcançar eqüitativamente pequenos agrupamentos de pessoas. Não precisamos definir esses grupos com precisão para sentir o impacto dessa promessa. A palavra hebraica para o termo "família" dá a idéia de uma tenda, um grupo não de muitas pessoas. Podemos, por meio disso, afirmar que a promessa de alcançar cada tribo, povo ou nação já está presente no Antigo Testamento. O evangelho não é apenas para as grandes nações, mas para os pequenos grupos de pessoas também, como as tribos. Isso deixa claro que nosso empenho evangelístico deve ser muito maior, pois temos o mandamento de alcançar não somente as nações, mas os pequenos grupos que as formam. O que podemos concluir de Gênesis 12.3 e de seu uso no Novo Testamento é que o propósito de Deus para o mundo é a bênção de Abraão, ou seja, que a salvação alcançada por Jesus Cristo, a semente de Abraão, possa alcançar todos os grupos étnicos do mundo. Isso acontecerá quando as pessoas de cada grupo colocarem sua fé em Jesus Cristo e tornarem-se "filhas de Abraão" e "herdeiros da promessa" (Gl 3.7,29). Há vários textos que expressam a esperança de que todas as nações louvem ao Senhor: "Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos" (Sl 67.1-5). "E todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam" (Sl 72.11). "Subsista para sempre o seu nome e prospere enquanto resplandecer o sol; nele sejam abençoados todos os homens, e as nações lhe chamem bem-aventurado" (Sl 72.17). Há outros textos que expressam a esperança das nações, anunciando os planos do salmista em fazer sua parte para tornar a grandeza de Deus conhecida entre elas: 51 Ver a exposição de Gn. 12 feita por Gerard Van Groningen. In: Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas, SP: Ed. Luz Para o Caminho. 1995 p.123-132
  • 18. 18 “Glorificar-te-ei, pois, entre os gentios, ó SENHOR, e cantarei louvores ao teu nome” (Sl 18.49). "Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações" (Sl 57.9). "Render-te-ei graças entre os povos, ó SENHOR! Cantar-te-ei louvores entre as nações" (Sl 108.3). Esses textos deixam clara a responsabilidade do povo de Deus em proclamar a sua glória entre as nações. O povo de Deus deve ser canal de bênção para todas as famílias.52 III. A Prioridade de Paulo por Povos Não-Alcançados. Isso é notavelmente confirmado em Romanos 15. Aqui se torna evidente que Paulo via o seu chamado especificamente missionário para alcançar cada vez mais grupos de pessoas e não apenas mais e mais indivíduos gentios. Em Romanos 15.8-9 Paulo afirma o duplo propósito para a vinda de Cristo: “Digo, pois, que Cristo foi constituído ministro da circuncisão [isto é, tornou-se encarnado como um judeu], em prol da verdade de Deu, para [1] confirmar as promessas feitas aos nossos pais; e para que [2] os gentios (ta ethne) glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia”. Portanto, o primeiro propósito para a vinda de Cristo foi provar que Deus é verdadeiro e fiel em manter, por exemplo, as promessas feitas a Abraão. E o segundo, foi para que as nações pudessem glorificar a Deus por sua misericórdia. Esses dois propósitos sobrepõem-se, uma vez que, claramente, uma das promessas feitas aos patriarcas foi que a bênção de Abraão viria a “todas as famílias da terra”. Isso está em perfeita harmonia com o que vimos na esperança do Antigo Testamento. Israel é abençoado para que as nações possam ser abençoadas (Sl 67). De igual modo, Cristo vem a Israel para que as nações possam receber misericórdia e dar glória a Deus. IV. A Visão de João sobre a Tarefa Missionária. A visão da tarefa missionária nos escritos do apóstolo João confirma que a percepção de Paulo sobre a esperança do Antigo Testamento de alcançar todos os povos não era única entre os apóstolos. O que transparece do Apocalipse e do Evangelho de João é uma visão que admite a tarefa missionária principal de alcançar grupos de pessoas, não apenas indivíduos gentios. O texto decisivo é Apocalipse 5.8-10. João teve um vislumbre do clímax da redenção com a adoração de pessoas redimidas diante do trono de Deus. A composição daquele grupo é essencial. Os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos... entoavam novo cântico, dizendo: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra”. A visão missionária por trás dessa cena é que a tarefa da igreja é reunir os redimidos de todos os povos, língua, tribos e nações (fulh/j kai. glw,sshj kai. laou/ kai. e;qnouj ). Todos os povos devem ser alcançados porque Deus designou pessoas a crerem no evangelho, as quais ele redimiu pela morte de seu Filho. O desígnio da redenção prescreve o desígnio da estratégia da missão. E o desígnio da redenção ( a redenção de Cristo, versículo 9) é universal, pois se estende a todos os povos, e definitivo, uma vez que efetivamente redime alguns de cada um 52 É esclarecedor o estudo exegético feito por Piper com u uso Singular e Plural de Ethnos no Novo Testamento ( ver Piper pp. 85-188 ) e o Uso de Pantha Ta Ethne ( ver Piper pp. 188 a 191 )
  • 19. 19 desses povos. Portanto, a tarefa missionária é reunir os redimidos de todos os povos por meio da pregação do evangelho. ( João 10:16; 11;51,52, Ap 5:9 ) V. Uma Casa de Oração para Todas as Nações. Outro indicador do modo como Jesus imaginava os propósitos missionários universais de Deus vem de Marcos 11.17. Quando Jesus limpa o templo, ele cita Isaías 56.7: Não está escrito: “A minha casa será chamada cada de oração para todas as nações (pa/sin toi/jpa/sin toi/jpa/sin toi/jpa/sin toi/j e;qnesine;qnesine;qnesine;qnesin)”? A razão disso ser importante para nós é que ela mostra Jesus buscando no Antigo Testamento (exatamente como ele faz em Lucas 24.45-47) para interpretar os propósitos universais de Deus. Ele cita Isaías 56.7, que, em hebraico, diz explicitamente: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos ( kol ha’ ammim). “Assim está escrito” no VT - Sl 22:27 cf. At 1:8; Lc 24:47 O significado de grupo de pessoas é inconfundível. A posição de Isaías não é que todo indivíduo gentio tinha o direito de permanecer na presença de Deus, mas que haja convertidos de “todos os povos” que entrarão no templo para adorar. O fato de Jesus estar familiarizado com essa esperança do Antigo Testamento e ter baseado suas expectativas universais referindo-se a ela (Mc 11.17; Lc 24.45-47), sugere que devemos interpretar sua “Grande Comissão” nesta mesma direção – a mesma que encontramos nos escritos de Paulo e João. VI. Como a Diversidade Magnífica a Glória de Deus. O grande objetivo de Deus é sustentar e demonstrar a glória de seu nome para o regozijo de seu povo entre todas as nações. A questão agora é: "Por que Deus mantém o objetivo de mostrar sua glória por meio da obra missionária entre todas as pessoas do mundo. Corno o objetivo missionário serve melhor ao propósito de Deus?" Refletindo bib1icamente sobre o assunto, quatro respostas emergem: 1. Primeiro, há uma beleza e poder no louvor que vem da unidade na diversidade, que é maior do que aquele vindo da unidade exclusiva. O Salmo 96.3-4 conecta a evangelização das pessoas com a qualidade de louvor de que Deus é merecedor. “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas. Porque grande é o Senhor e muito digno de ser louvado, temível mais que todos os deuses”. Observe a palavra “porque”. A grandeza extraordinária do louvor que o Senhor deve receber é a base e o ímpeto da nossa missão. 2. segundo, a fama, grandeza e valor de um objeto de beleza aumenta em proporção à diversidade daqueles que reconhecem sua beleza. Se uma obra de arte é considerada excelente por um grupo de pessoas pequeno e de mesma opinião e por ninguém mais, a arte com toda certeza não é verdadeiramente grande. Suas qualidades são tais que não alcançam as profundezas universais de nossos corações, mas apenas as tendências provinciais. Porém, se uma obra de arte continua ganhando cada vez mais admiradores, não somente através de culturas mas também de décadas e séculos, então sua grandeza é irresistivelmente manifesta. Assim, quando Paulo diz: “Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem” (Rm 15.11), ele está expondo que há alguma coisa acerca de Deus que é tão universalmente digna de louvor, tão profundamente bela, tão compreensivelmente valiosa e tão profundamente satisfatória que ele encontrará admiradores apaixonados em todo grupo diverso de pessoas no mundo. A sua verdadeira grandeza será manifesta na amplitude da diversidade daqueles que percebem e apreciam a sua beleza. Sua excelência será mostrada para ser mais alta e mais profunda que as preferências limitadas que nos fazem felizes a maior parte do tempo.
  • 20. 20 Seu apelo será para as mais profundas, mais elevadas e mais amplas capacidades da alma humana. Portanto, a diversidade da fonte de admiração testificará a sua incomparável glória. 3. Terceiro, a força, a sabedoria e amor de um líder são magnificados em proporção à diversidade de pessoas que ele pode inspirar para segui-lo com alegria. Se você pode liderar somente um grupo pequeno e uniforme de pessoas, suas qualidades de liderança não são tão grandes como as que teria se pudesse conquistar seguidores de um grande grupo de pessoas muito diferentes. O entendimento de Paulo do que está acontecendo em sua obra missionária entre as nações é que Cristo está demonstrando sua grandeza, conquistando obediência de todos os povos do mundo: “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras” magnificada à medida que cada vez mais pessoas diferentes decidem seguir a cristo. É a grandeza de Cristo. Ele está mostrando-se superior a todos os outros líderes. 4. Por focalizar todos os grupos de pessoas no mundo, Deus eliminou o orgulho etnocêntrico e recolocou todos os povos sob sua livre graça, em vez de qualquer característica que possam ter. Conclusão: O objetivo de Deus em toda a história é sustentar e demonstrar sua glória para o regozijo dos redimidos de cada tribo, povo, língua e nação. Seu objetivo é a alegria de seu povo, porque “Deus é mais glorificado em nós quando nós estamos mais satisfeitos nele”. A maior boa-nova em todo o mundo é que o objetivo de Deus é ser glorificado, e o objetivo do homem estar satisfeito não são probabilidades, mas verdades da Palavra de Deus. A igreja deve engajar-se com o Senhor da glória em sua causa. É nosso grande privilégio alcançar com ele, no maior movimento da história, a reunião dos eleitos "de toda tribo, língua, povo e nação" até que se complete o número dos eleitos e todo Israel seja salvo, e o Filho do homem desça com poder e grande glória, como Rei dos reis e Senhor dos senhores, e a terra esteja cheia de sua glória, assim como as águas cobrem o mar para sempre e sempre. Então, a soberania de Cristo será manifesta a todos, e ele entregará o Reino a Deus, o Pai, e Deus será tudo em todos.
  • 21. 21 IV. A NECESSIDADE DAS MISSÕES ____________________________ Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos. At 4:12 Questão para debate: Há pessoas devotas em outras religiões, as quais coinfiam humildemente na graça de Deus que conhecem por meio da Revelação geral (Rm 1:19-21) e assim recebem a salvação eterna? As Pessoas Devem Ouvir o Evangelho de Jesus Cristo para Serem Salvas?53 Quem nunca fez uma destas perguntas: “os que jamais ouviram o Evangelho estão perdidos?”; ou então “os índios vão ser salvos?”. Em nossas classes de escolas dominicais, ou nas conversas sobre evangelismo e missões, sempre surgem dúvidas como essas. Normalmente nossas respostas são muito evasivas, se é que temos alguma. Não refletimos sequer nas implicações que elas possam vir a ter. Teólogos, pastores e seminaristas fazem a mesma indagação e procuram investigar o assunto sob uma perspectiva bíblica, teológica e filosófica. Três pontos de vista sobre o destino dos não-evangelizados54 . 1) Inclusivismo: Alguns teólogos acreditam que mesmo aquelas pessoas que nunca ouviram o evangelho podem ser salvas. Se, através da criação – revelação geral – vierem a crer em Deus, ainda que não conheçam a Jesus, serão redimidas de seus pecados. Dizem que qualquer religião pode ser um instrumento útil para aproximar a pessoa de Deus. Isso é chamado de “inclusivismo”, porque Deus inclui todos em sua graça, antes de excluí-las no julgamento. Mas a fundamentação bíblica desse ponto de vista é muito questionável. Este posicionamento é fruto da ambiência pós-moderna e do mundo globalizado. Ricardo Barbosa explica este ponto: Vivemos o risco de um novo modelo de intolerância. Afirmar a centralidade da obra de Cristo já pode ser visto como preconceito.Uma das contradições da cultura pós-moderna e globalizada é sua capacidade de romper fronteiras e preconceitos, tornando-a mais inclusiva e, ao mesmo tempo, criar outras fronteiras e preconceitos, tornando-a extremamente exclusiva e violenta. Nas últimas décadas, a civilização ocidental tem feito um enorme esforço para diminuir as distâncias entre as raças, romper com os preconceitos e a discriminação sociais e criar uma sociedade menos violenta e mais aberta à inclusão das minorias55 O que o chamado inclusivismo defende é que uma tolerância perigosa para o cristianismo. Como bem afirmou James Houston, o que ele chamou de uma nova forma de fundamentalismo, o da “democracia liberal”, que impõe sobre nós a obrigação de aceitar e admirar tudo aquilo que contraria princípios e valores que fazem parte da consciência cristã. Esta tolerância oriunda do cenário globalizado, também agora está questionando a questão da centralidade da morte e ressurreição de Cristo para a vida e a necessidade das pessoas ouvirem sobre Cristo para serem salvas. Imagino que, mais cedo do que pensamos, enfrentaremos uma forte resistência à afirmação bíblica de que Jesus é “o caminho”, “a verdade”, “a vida”, de que ele é “o único Senhor”, de que “não há salvação fora dele” e de que ele é o “único que pode perdoar nossos 53 Texto extraído e adaptado do livro de John Piper – Alegrem-se os Povos: A Supremacia de Deus em Missões, São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. pp. 124-176 54 Sobre este tema há um livro que sugiro seja consultado por aqueles que queiram aprofundar um pouco mais esta três posições: Donald E. Price, org. Que Será dos Que Nunca Ouviram? São Paulo, SP: Ed. Vida Nova. 2004. 55 Cf. http://www.monergismo.com/textos/pos_modernismo/pos_modernidade_singularidade_cristo.htm capturado em 27/01/2006.
  • 22. 22 pecados”. Todas essas afirmações são, por si, uma agressão ao espírito “democrático” da sociedade pós-moderna. Como vamos ver no terceiro ponto de vista sobre a necessidade de se ouvir sobre Jesus, afirmar a exclusividade de Cristo implica na negação e rejeição de qualquer outro nome que possa nos reconciliar com Deus, e isso soa como um preconceito, uma forma de discriminação inaceitável. Afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus e que só ela traz a revelação do propósito redentor de Jesus é também uma afirmação que pode ser considerada preconceituosa, uma vez que nega todas as outras formas de revelação. 2) Perseverança Divina: Outros dizem que ninguém será salvo com base no conhecimento que possam ter de Deus através da natureza. No entanto, chegam ao absurdo de afirmar que, logo após a morte, aqueles que nunca ouviram o Evangelho terão uma oportunidade de dizer “sim” ou “não” a Jesus. Deus concederá a todos os homens a chance de ouvir o evangelho e optar, ou não, pela redenção trazida por Jesus. Tomam por base alguns textos difíceis de 1 Pedro (como o cap. 3: 18ss). Dão ao seu ponto de vista o nome de “perseverança divina” ou “evangelismo post-mortem” 3) Exclusivismo (restritivismo):56 Há também os teólogos que ensinam não haver qualquer oportunidade de salvação para o homem, se não existir conhecimento de Cristo e uma resposta pessoal e consciente ao seu chamado. Essa posição é conhecida como “exclusivismo”; às vezes também “restritivismo”. Para que alguém seja salvo, é fundamental ouvir o Evangelho nesta vida e fazer uma decisão por Jesus. Essa é a interpretação que mais parece se afinar ao ensino geral das Escrituras Sagradas. Essas três opiniões têm alguns pontos interessantes de semelhança bem como diferenças. Como já foi observado, todas as três afirmam que a salvação em Jesus é a palavra final bem como a singularidade dessa salvação. O restritivismo e o inclusivismo concordam, numa posição contrária à defendida pela perseverança divina, que nosso destino já está selado no momento da morte e que não existe nenhuma oportunidade de salvação após ela. O restritivismo e a perseverança divina concordam, contrariamente ao inclusivismo, que o conhecimento da mensagem do evangelho é uma condição necessária para a salvação. Mas discordam sobre se a mensagem deve ser apresentada por um agente humano antes da morte. O inclusivismo diverge das duas outras opiniões ao sustentar que Deus concede salvação mesmo onde o Evangelho é desconhecido. O inclusivismo e a perseverança divina afirmam que Deus, em Jesus Cristo, torna a salvação disponível a todas as pessoas que já viveram, ao passo que o restritivismo nega isso. Deve-se observar que há outras opiniões quanto ao destino dos não- evangelizados que não estamos discutindo aqui. Podem ser resumidas assim: • Alguns advogam um completo agnosticismo, dizendo que nós não temos informação bíblica suficiente para justificar uma conclusão sobre o assunto. • Alguns teólogos católicos romanos propõem uma versão da evangelização post- mortem chamada de teoria da opção final. Eles crêem que Cristo encontra todas as pessoas no momento em que estão morrendo – não depois da morte – dando- lhes uma oportunidade de conversão. 56 Cf. Artigo de Ronald Nash “Restritivismo”
  • 23. 23 • Alguns, como John R. W. Stott, são otimistas de que Deus irá salvar a grande maioria da raça humana, muito embora eles não saibam como Deus irá realizar isso. Isto é, eles se recusam a tomar uma posição quanto ao método que Deus usa para salvar os não-evangelizados, embora afirmem que Ele o faz. • Outros, como J. I. Packer, têm uma posição mais pessimista, asseverando que, embora talvez seja possível que Deus proveja um meio de salvação para alguns dos não-evangelizados, o melhor é permanecer negando essa possibilidade. Isto é, pode ser que Deus o faça, mas não temos razão para pensar que Ele o fará. Pontos de Vista Sobre o Destino dos Não-Evangelizados Restritivismo Inclusivismo Perseverança Divina ou Evangelismo Post-mortem Definição: Deus não provê salvação para aqueles que não ouvem acerca de Jesus e, conseqüentemente, não crêem nEle antes da morte. Definição: Os não-evangelizados podem vir a ser salvos, se responderem a Deus em fé, baseados na revelação que possuem. Definição: Os não-evangelizados recebem uma oportunidade de crer em Jesus depois da morte. Textos-chaves: Jo 14.6 At 4.12 1Jo 5.11-12 Textos-chaves: Jo 12.32 At 10.43 1Tm 4.10 Textos-chaves: Jo 3.18 1Pe 3.18 – 4.6 Representantes: Agostinho João Calvino Jonathan Edwards Carl Henry R. C. Sproul Ronald Nash Representantes: Justino Mártir John Wesley C. S. Lewis Clark Pinnock Wolfhart Pannenberg John Sanders Representantes: Clemente de Alexandria George MacDonald Donald Bloesch George Lindbeck Stephen Davis Gabriel Fackre OBS: Todos os representantes mencionados desses pontos de vista concordam que Jesus é único Salvador. A supremacia de Deus nas missões é confirmada biblicamente pela afirmação da supremacia de seu Filho, Jesus Cristo. É uma verdade surpreendente do Novo Testamento que, desde a encarnação do Filho de Deus, toda fé salvadora deve, dali por diante, se fixar nele. Isso nem sempre foi verdade, por isso aqueles tempos eram chamados “tempos da ignorância” (At 17.30). Mas agora é e Cristo tornou-se o centro consciente da missão da igreja. O objetivo das missões é levar “graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios” (Rm 1.5). Isso é mais uma coisa nova que ocorreu com a vinda de Cristo. A vontade de Deus é glorificar seu Filho, fazendo-o foco consciente de toda a fé salvadora. 1. Há Necessidade de Consciência da Fé em Cristo? Poderia alguma pessoa ser salva sem que tivesse sido evangelizada e tivesse consciência de ter obtido salvação cm Cristo Jesus? Alguns evangélicos afirmam somente que não sabem responder a essa pergunta, enquanto outros dizem que Cristo é o único meio de salvação, mas que salva alguns que nunca ouviram dele por meio de uma fé que não tem a Cristo como foco consciente. Será, então, realmente necessário que as pessoas ouçam de Cristo para que sejam salvas? Esse tipo de pensamento elimina a idéia de urgência na evangelização. Se as pessoas podem ser salvas sem que tenham ouvido de Cristo, por que sair por aí evangelizando, fazendo missões? Deus salvará aqueles que quer de um modo ou de outro. Mas não é isso o que nos ensina a Palavra de Deus.
  • 24. 24 Haverá um inferno de tormento consciente para aqueles que possuem uma fé cujo foco não seja o Senhor Jesus Cristo. Veja o que diz Daniel 12.2: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno". Apren demos ainda que haverá um castigo eterno: “A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em logo inextinguível" (Mt 3.12); "...se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno" (Mt 18.8). O fogo é eterno, sem fim. Não há como negar sua existência. O inferno é uma terrível realidade. Por quê? Porque os infinitos horrores do inferno têm o objetivo de demonstrar o infinito valor da glória de Deus, a qual eles rejeitaram. A compreensão bíblica da justiça do inferno é um claro testemunho de que o pecado deixou de glorificar a Deus. Se não houver fé consciente no Senhor Jesus, o resultado será o castigo eterno. 2. A Necessidade da Redenção de Cristo para a Salvação. Há pessoas que podem ser salvas de outras maneiras do que pela eficácia da obra de Cristo? As outras religiões e as provisões que elas oferecem são suficientes para levar as pessoas à felicidade eterna com Deus? Os seguintes textos bíblicos levam-nos a crer que a redenção de Cristo é necessária para a salvação de todo aquele que é salvo. Não há salvação fora daquela que Cristo conquistou com sua morte e ressurreição. Se pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundancia da graça e o dom da justiça, reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos. ( Rm 5:17-19 ) O aspecto fundamental aqui é a universidade da obra de Cristo, ou seja, não se limita meramente aos judeus. A obra de Cristo, o segundo Adão, corresponde à obra do primeiro Adão. Assim como o pecado de Adão leva à condenação de toda a humanidade que se uniu a ele como seu cabeça, assim a obediência a Cristo conduz à justiça de toda a humanidade que está unida a ele como seu cabeça – “os que recebem a abundância da graça” (v. 17). A obra de Cristo na obediência da cruz é retratada como a resposta divina para a condição de toda a raça humana. ( Cf.: I Co 15:21-23; I Tm 2:5; Ap 5:9-10; At 4:12; Rm 3:23-25 ) 4. “Abaixo do Céu não Existe Nenhum Outro Nome”, Atos 4.12 A razão dessa mensagem salvar é que ela proclama o nome que salva-o de Jesus. Pedro disse que Deus visitou os gentios “a fim de construir dentre eles um povo para o seu nome” (At 15.14). É evidente, pois, que a proclamação pela qual Deus escolhe um povo para o seu nome seria a mensagem que depende do nome do seu Filho Jesus. Isso é, na verdade, o que vimos na pregação de Pedro na casa de Cornélio. O sermão atinge seu clímax com estas palavras sobre Jesus: “Por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (At 10.43). A necessidade implícita de ouvir a aceitar o nome de Jesus que vemos na história de Cornélio é tornada explicita em Atos 4.12, no clímax de outro sermão de Pedro, desta vez perante os líderes judeus em Jerusalém. A situação por trás dessa famosa declaração é que o Jesus ressurreto curou um homem por meio de Pedro e João. O homem era coxo de nascença, mas se levantou e correu pelo Templo louvando a Deus. Juntou-se uma multidão e Pedro pregou. Sua mensagem tornou
  • 25. 25 evidente que o que estava em jogo aqui não era meramente um fenômeno religioso. Aquilo dizia respeito a qualquer um no mundo. Então, de acordo com Atos 4.1, os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus vieram e prenderam Pedro e João, colocando-os em um cárcere até o dia seguinte. Na manhã seguinte as autoridades, os anciãos e os escribas reuniram-se e interrogaram Pedro e João. No curso do interrogatório, Pedro expôs a implicação do senhorio universal de Jesus: “Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Precisamos sentir a força dessa alegação universal atentando para as várias expressões muito seriamente. A razão de não haver salvação em nenhum outro é que “abaixo do céu não existe nenhum outro nome (não apenas nenhum outro nome em Israel, mas nenhum outro nome abaixo do céu, incluindo o céu sobre a Grécia, Roma, Espanha etc), dado entre os homens (não apenas entre os judeus, mas entre todos os humanos de todos os lugares), pelo qual importa que sejamos salvos”. Essas duas frases, “abaixo do céu” e “entre os homens”, reforçam a alegação da universalidade em sua extensão mais plena. Porém, há ainda aqui mais coisas que precisamos ver. Geralmente a interpretação dos comentaristas de Atos 4.12 é que, sem a crença em Jesus, uma pessoa não pode ser salva. Em outras palavras, Atos 4.12 é visto como um texto essencial para responder à indagação de que aqueles que nunca ouviram o evangelho de Jesus podem ser salvos. Mas Clark Pinnock representa outros que dizem que “Atos .12 não diz coisa alguma sobre [essa questão]. ... ele não faz nenhuma observação sobre o destino do pagão. Embora essa seja uma questão de grande importância para nós não há ninguém a respeito de quem Atos 4.12 expresse um julgamento, quer positivo ou negativo”. Pelo contrário, o que Atos 4.12 diz é que “a salvação em sua plenitude é disponível à humanidade somente porque Deus, na pessoa de seu Filho Jesus, proveu-a”. Em outras palavras, o versículo afirma que a salvação vem somente por meio da obra de Jesus e não apenas pela fé em Jesus. Sua obra pode beneficiar aqueles que têm um relacionamento particularmente com Deus sem ele, por exemplo, com fundamento na revelação geral na natureza. O problema com a interpretação de Pinnock é que ela não considera o verdadeiro significado da focalização de Pedro sobre o “nome” de Jesus. “Abaixo do céu não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos”. Pedro está dizendo alguma coisa a mais do que não haver outra fonte de poder salvador e que você pode ser salvo por algum outro nome. O fato de dizer que “não existe nenhum outro nome” significa que somos salvos por invocar o nome do Senhor Jesus. Invocar seu nome é a nossa entrada na comunhão com Deus. Se alguém é salvo por Jesus incógnito, não pode falar que foi salvo por seu nome. Observamos anteriormente que Pedro afirmou em Atos 10.43: “Por meio de seu nome, todo o que nele crê recebe remissão de pecados”. O nome de Jesus é o foco da fé e do arrependimento. A fim de crer em Jesus para obter o perdão dos pecados, você deve crer em seu nome. O que significa que você precisa ouvir a respeito. Dele e saber que ele é um homem especial que fez uma obra salvadora especifica e levantou-se dentre os mortos. A finalidade de Atos 4.12 para as missões é tornada explicita pelo modo como Paulo colocou a questão do “nome do Senhor” Jesus em Romanos 10.13-15. Voltaremos a essa passagem agora e veremos que as missões são essenciais precisamente porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” Algo de imenso significado histórico aconteceu com a vinda do Filho de Deus ao mundo. Tão grande foi o significado desse evento que o foco da fé salvadora, desde então, teve seu centro em Jesus somente. Tão repleto estava Cristo da revelação de Deus e de todas as
  • 26. 26 esperanças do povo de Deus que, desde então, seria urna desonra para ele que a fé salvadora repousasse em qualquer outro que não nele. Havia uma verdade que não estava completa e claramente revelada antes da vinda de Cristo. Essa verdade, agora revelada, é chamada de mistério de Cristo, porque é a verdade, vinda por meio do evangelho, o qual está sobre Cristo. O evangelho não é a revelação de que as nações já pertencem ao Senhor. Ele é o instrumento para trazer as nações para o estado de salvação. O mistério de Cristo está acontecendo por meio da pregação do evangelho. Portanto, ninguém pode ser salvo se não tiver ouvido o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. 5. Como Crerão Nele? Vimos que há necessidade da consciência de fé em Cristo para salvação e de que há somente um mediador entre Deus e os homens, e estes não podem ser salvos sem ter ouvido de Jesus. Se há necessidade de ouvir, é preciso que haja quem pregue. Em Romanos 9.30-10.21, o apóstolo Paulo apresenta Jesus como sendo o foco da fé salvadora. É nesse contexto que ele cita o profeta Joel: "... acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo" (10.9); e, depois, como cita Isaías 28.16: “Todo aquele que nele crê não será confundido" (10.11). Paulo quer deixar claro que nessa nova era da história da redenção, Jesus é o objetivo e o clímax do ensino do Antigo Testamento e, então, é o Mediador entre o homem e Deus como objeto da fé salvadora. A seqüência de versos é muito familiar e com freqüência é citada em relação á obra missionária: "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (Km 10.14-15). Mas como esses versículos se encaixam na linha de pensamento de Paulo. Por que no seu inicio há a expressão "porém"? Por que o verso seguinte (16) começa assim: “Mas nem todos obedeceram ao evangelho"? A resposta parece ser a seguinte: O "porém" no inicio do verso 14 e o "mas" no inicio do verso 16 apontam para o fato de que a série de questões nos versos 14 e 15 são realmente o relato de que Deus já havia trabalhado para trazer, sob essas condições, o chamado para a salvação no Senhor Jesus. Portanto, o ponto principal nos versos 14-16 é que, embora Deus tenha providenciado os pré-requisitos para o chamado no Senhor, eles, entretanto, não obedeceram. O que fica claro é que o povo do Antigo Testamento pôde ouvir de Jesus, ou da promessa da sua vinda, mas não deu crédito á Palavra de Deus. Eles também ouviram do evangelho. A salvação já implicava na necessidade de ouvir sobre Cristo, e nele crer. Mas para que isso aconteça, é preciso que alguém pregue. É necessário que os pregadores do evangelho sejam enviados. Isso é a realização da obra missionária. Conclusão: Jesus Cristo é o foco consciente da fé salvadora. Não há meio de as pessoas serem salvas, senão por intermédio de sua obra expiatória. É preciso que as pessoas ouçam a mensagem do evangelho e creiam em Jesus para que sejam salvas. Nesse contexto, a igreja possui a função de pregar o evangelho, de levar a mensagem de salvação ás pessoas. Essa é uma grande responsabilidade, pois sabemos que não há como ser salvo sem ouvir o evangelho do Senhor Jesus Cristo. "E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?"
  • 27. 27 MISSIOLOGIA Uma Perspectiva Cultural Rev. Gildásio Reis DDDDificilmente uma pessoa poderá sentir as dificuldades do trabalho missionário a menos que esteja envolvida ativamente neste campo. Tais dificuldades parecem ser maiores quando o trabalho missionário se dá em uma outra cultura que não a do missionário. As diferenças culturais e as surpresas são incalculáveis. De maneira nenhuma, o missionário pode comunicar bem o evangelho, se ele desconhecer a cultura das pessoas que irão ouvi-lo. Bruce Niholls afirma o seguinte: Os comunicadores evangélicos frequentemente substimam a importância dos fatores culturais na comunicação. Alguns se preocupam tanto com a preservação da pureza do evangelho e das suas formulações doutrinárias que têm sido insensíveis aos padrões de pensamento e comportamento culturais das pessoas às quais proclamam o evangelho.57 É inquestionavelmente e universalmente aceito entre os missiólogos e missionários, que é praticamente impossível comunicar o evangelho de maneira que faça sentido em circunstâncias transculturais sem que seus comunicadores conheçam a cultura daqueles que eles desejam alcançar. Nesta parte do nosso curso de missiologia pretendemos dar uma visão geral dos fatores envolvidos na comunicação transcultural do evangelho. Um Modelo tricultural de Comunicação Missionária58 I. QUEM É O HOMEM? Para começarmos a entender o que significa a expressão “ser humano”, é preciso alargar nossa visão para contemplar toda a diversidade de tipos, costumes e valores que constitui nossa espécie. As pessoas se diferenciam biológica e psicologicamente. Distinguem-se nas sociedades que organizam, nas culturas que criam; e essas diferenças levantam questões filosóficas e teológicas profundas. 57 NICHOLLS, Bruce. Contextualização: Uma teologia do Evangelho e Cultura. São Paulo, SP: Edições Vida Nova. 1983. p. 8 58 HESSELGRAVE, David J. in: A Comunicação Transcultural do Evangelho. São Paulo. Vida Nova, 1995. Vol. 1 p. 92 CULTURA DA BÍBLIA CULTURA DO MISSIONÁRIO CULTURA DO RECEPTOR
  • 28. 28 Apesar das muitas diferenças temos também que admitir que existem muitos pontos em comum entre os grupos humanos, caso contrário seria impossível culturas diferentes se relacionarem entre si. Por exemplo: compartilhamos a maior parte das funções fisiológicas; respondemos aos mais diferentes estímulos da mesma forma; experimentamos alegrias e sofrimentos, etc. Além disso, o cristianismo acrescenta outros aspectos universais aos já mencionados: fomos feitos à imagem e semelhança de Deus nosso criador (Gn.1:26), todavia todos pecamos e carecemos de Deus mas a salvação está ao alcance de todos através de Jesus Cristo (Rm. 3:21- 26). Essa unidade na diversidade se reflete na essência e natureza da Igreja, onde apesar de todas as diferenças possíveis e imagináveis há uma só mensagem e um só Deus. 1) O ser humano a partir de uma abordagem integrada (ciência + teologia) Uma abordagem holística do homem: Aprender o que a ciência e a teologia têm para nos ensinar acerca das pessoas e entrelaçar essas idéias em um entendimento amplo do homem como ser integral, percebendo que o nosso conhecimento sempre é imperfeito e incompleto.59 Paul G. Hiebert, O Evangelho e a Diversidade das Cultura. Infelizmente, no último século ciência e teologia têm se confrontado em várias frentes, cada uma tendendo a reivindicar uma visão ampla e clara da realidade e, propositadamente, ignorando os achados de uma e outra parte. Mas ocorre que cada vez mais se toma consciência de que a realidade é muito mais complexa do que podemos captar ou explicar e, na melhor das hipóteses, ciência e teologia estão a vê-la de perspectivas diferentes. A ciência nos oferece idéias sobre várias estruturas da realidade empírica. A teologia nos oferece uma visão geral da construção, do construtor, dos acontecimentos-chaves na sua história.60 É bom lembrar, porém, que a essa complementaridade nem sempre significará concordância entre a ciência e a teologia. Quando surgem divergências, precisamos reexaminar nossa ciência e nossa teologia à luz das Escrituras e da criação, visto que Deus é a fonte de ambas. 2) O Homem criado à Imagem e Semelhança de Deus. O homem distingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma maneira singular. Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus61 . Esta expressão descreve o homem na totalidade de sua existência, ele é um ser que reflete e espelha Deus. ( Gn 1:26-28). O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã. 59 HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas. São Paulo, SP: Ed. Vida Nova 1999. p. 25 60 HIEBERT Paul G. Op Cit., p. 26 61 TIL, Cornelius Van. Apologética. Apostila traduzida por João Alves dos Santos. P. 11
  • 29. 29 Dr. Van Groningen assevera que: Ao criar a humanidade à sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na qual a humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito Rei-Criador. A humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais como "retidão e verdadeira santidade"... e seu "conhecimento" ( Cl 3:10 ). A humanidade deveria dar expressão ás funções divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra, cultivá-la e governar sobre o mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as próprias capacidades do Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar e interagir 62 Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus como tendo uma tríplice relação: Relação com Deus,Relação com o próximo Relação e com a criação. Quando lidamos como o homem, não importa a cultura em que está inserido, ele terá alguns atributos da Imagem de Deus nele. Todo homem, em qualquer parte do planeta, reflete alguns atributos “essenciais” sem os quais ele não poderia continuar sendo o que é, homem 63 : a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras capacidades intelectivas em geral, que refletem aquilo que Deus tem. b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente e afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade. c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a princípios morais. d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado “alma vivente” (Gn 2:7). É a natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num certo sentido, o homem tem traços desta espiritualidade. e) Imortalidade: Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte não é para o corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de existência. A imortalidade é essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num caráter secundário derivado, passa a Ter a imortalidade. 3) A queda e a Imagem Desfigurada Como sabemos, este estado de integridade ("posso não pecar") não foi mantido até o fim pelos nossos primeiros pais. Veio a desobediência e consequentemente a queda. Nossos primeiros pais, criados para refletir e representar Deus não passaram no teste. Provados, caíram e deformaram a imagem de Deus neles. Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a Imago Dei ? Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico ( aquilo que o homem é ), não foi eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o aspecto funcional (aquilo que o homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e habilidades passaram a ser usados para afrontar a Deus. Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas foi terrivelmente deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como "uma imagem deformada, doentia e desfigurada" .64 O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta condição restaurada. Restauração esta que se estenderá por todo o processo da redenção. Esta renovação 62 GRONINGEN, Gerard Van, Revelação Messiânica no Velho Testamento . São paulo, Campinas: Editora Luz para o Caminho. 1995 63 Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos, Antropologia em curso ministrado no CPPGAJ. 64 CALVINO, João. As Institutas, I, XV, 3
  • 30. 30 da imagem original de Deus no homem significa que o homem é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para o próximo e também voltar-se para a criação para governá-la. 4) Cristo e a Imagem Renovada Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas também num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem. Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornar- se mais semelhante a Cristo. Lemos em Cl. 1:15 "Ele é a imagem do Deus invisível" e em Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos "Conforme a imagem de Seu Filho ..." ( I Jo 3:2; II Co 3:18 ) 5) A Imagem Aperfeiçoada A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final glorificação de Cristo Jesus. Não somos apenas herdeiros de Deus, mas também co-herdeiros com Cristo, "Se com ele sofremos, para que também com ele sejamos glorificados" ( Rm 8:17 ). Não podemos pensar em Cristo separado de seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a glorificação dos cristãos ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É exatamente isto que Paulo nos ensina em Cl 3:4 : "Quando Cristo que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele, em glória" A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar a imagem de Deus. Este é o propósito último de nossa redenção. Esta perfeição da imagem será o auge, a consumação do plano redentivo de Deus para o seu povo. E isto só é possível em Cristo. Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um pouco mais à frente: Note as palavras de Anthony Hoekema: Devemos ver o homem à luz de seu destino final (...) Adão ainda podia perder a impecabilidade e bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá mais ocorrer. Adão era "Capaz de não pecar e morrer"(posse non peccare et mori), os santos na glória, porém "não serão capazes de pecar e morrer" (non posse peccare et mori). Esta perfeição, que não se poderá perder, é aquilo para o qual o homem foi destinado e nada menos do que isto 65 Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem morrer. Várias passagens das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor. 15:42,54 ; Ef. 5:27 ; Ap. 21:4) Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua igreja, é apresentá- la "a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito" (cf. Ef. 5:27) Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme lemos em I Cor. 15:49, a "imagem do que é terreno", mas na glorificação, teremos plena e perfeitamente a "imagem do celestial", ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque teremos a imagem de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de Deus, teremos a imagem de Deus de volta em nós de forma completa e perfeita. 65 HOEKEMA, Anthony. Criados Á Imagem de Deus. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã , 1999, 108
  • 31. 31 Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz: Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela diária e paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual. Mas depois seremos restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa alma, o que agora teve início será levado à completação, e alcançaremos, em realidade, o que agora esperamos 66 Note ainda as palavras de João: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-lo como ele é" I Jo. 3:2 O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos assemelhados a Ele, perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus invisível, os santos glorificados terão a imagem de Cristo. Isto significa dizer que a nossa imagem na glorificação, será restaurada à imagem de Deus. Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da nossa redenção, ou seja, a glorificação. Por enquanto, a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos diz Paulo em II Cor. 3:18 que estamos "sendo transformados de glória em glória" , mas após a nossa ressurreição, poderemos refletir a perfeição desta imagem, que Deus começou em nós, e assim, só então, poderemos ser tudo aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai. Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo, chamamos de santificação que é a "conformidade progressiva à imagem de Cristo aqui e agora (...); a glória é a conformidade perfeita a imagem de Cristo lá e então, Santificação é a glória começada; glória é a santificação completada" 67 Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de Deus se pode conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus. Ser renovado á imagem de Deus é tornar-se parecido com Jesus68 Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus por toda a eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor. Todos nossos atos serão enfim feitos sem pecado com perfeição e aí o propósito que Deus estabeleceu para seus remidos terá sido alcançado. II. A CULTURA 1) O que não é cultura? Cultura é uma palavra comum! Normalmente nos referimos a uma pessoa como culta porque possui um elevado grau de estudo, ou porque ouve música clássica e ópera, ou porque fala várias línguas, ou por vários outros motivos que, via de regra excluem pessoas comuns e consagram os costumes e ideais de membros da elite de uma sociedade geralmente rica, poderosa e estudada. A permanecer tal idéia de cultura, implicitamente estamos pressupondo que pessoas comuns, particularmente as pobres e marginalizadas, não tem “cultura” exceto quando tentam se igualar à elite. 2) O conceito de cultura Dezenas de definições de cultura foram elaboradas pela antropologia e outras ciências sociais, ao tentar estudar o comportamento humano Definir cultura não é uma tarefa fácil. Ricardo 66 CALVINO, João, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo, 1996), 488 67 BRUCE, F. F., citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos - Um Resumo de Pensamento Reformado, (SP - PES) 130 68 G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107
  • 32. 32 Gondim69 indica que os antropólogos já criaram mais de trezentas definições. Mas como poderíamos definir esse conceito? A palavra em si vem do latim e significa “trabalhar o solo” ou “cultivar”70 Uma boa compreensão do significado de cultura é um pré-requisito para qualquer comunicação eficaz das boas novas do Evangelho a um grupo distinto de pessoas. Não obstante a dificuldade de dar uma definição final para cultura, alguns missiólogos deram uma definição. Vejam algumas: A cultura é um sistema integrado de crenças (sobre Deus, a realidade e o significado da vida), de valores (sobre o que é verdadeiro, bom, bonito e normativo), de costumes ( como nos comportamos, como nos relacionamos com os outros, falar, orar, trabalhar, jogar, comer, etc..), e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes ( governo, tribunais, templos, igrejas, famílias, escolas, hospitais, fábricas, sindicatos, lojas, clubes, etc..), que unem a sociedade e lhe proporciona um sentido de identidade, de dignidade, de segurança, e de continuidade71 Os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valores e seus padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados por um grupo de pessoas que organiza e regulamenta o que pensa, sente e faz.72 Conjunto de comportamentos e idéias característicos de um povo, que se transmite de uma geração a outra e que resulta da socialização e aculturação verificadas no decorrer da sua história73 Cultura é um sistema integrado de padrões comportamentais aprendidos, compartilhados e transmitidos de geração em geração, que distinguem as características de uma determinada sociedade74 O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.75 69 Ricardo Gondim, É Proibido ( S. Paulo: Mundo Cristão, 1998) p. 12 70 HORTON, Michael S., O Cristão e a Cultura (S. Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998). p. 40 71 Série Lausane. O Evangelho e a Cultura. A Contextualização da Palavra de Deus. Belo Horizonte, MG. Editora ABU. 1983. p. 10-11 72 HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas, Ed. Vida Nova 1999. p. 30 73 NIDA, E.A. Costumes e Culturas, Uma Introdução à Antropologia Missionária. São Paulo, SP: Edições Vida Nova. 1985. p. 10 74 FREITAS, Maria Ester de. Cultura Organizacional: formação, tipologias e impacto. São Paulo: Makron, McGraw- Hill, 1991. p. XIX-XXVI. 75 Pacto de Lausane, Evangelização e Cultura
  • 33. 33 3) As dimensões da Cultura: Para efeito desse estudo vamos abordar o conceito bem mais amplo e multidimensional de cultura, o qual leva em conta a própria natureza complexa e integrada do ser humano, conforme apresentado anteriormente. Segundo Paul Hiebert, são três as dimensões da cultura:76 A. A Dimensão Cognitiva (conhecimento, lógica e sabedoria) Esse aspecto da cultura relaciona-se ao conhecimento compartilhado pelos membros de um grupo ou de uma sociedade. Sem ele fica impossível a comunicação e a vida em comunidade. O conhecimento fornece o conteúdo conceitual da cultura. Reúne as experiências das pessoas em categorias e organiza as categorias em sistemas maiores de conhecimento. É o conhecimento quem diz às pessoas o que existe e o que não existe. O conhecimento cultural é mais do que categorias que utilizamos para entender a realidade, a natureza do mundo e como ele funciona. Ele molda a própria percepção da realidade. B. A Dimensão Afetiva (sentimentos e estética) Aspecto que engloba os sentimentos das pessoas – suas atitudes, noções de beleza, preferências alimentares e de vestuário, seus gostos pessoais e a maneira com que alegram ou sofrem. As culturas variam muito na forma de lidar com o componente emocional do ser humano. A dimensão afetiva da cultura se reflete na maioria das áreas da vida: padrões de beleza, moda, culinária, bens de consumo, etc. Se imaginarmos uma cultura onde tudo seja pelo funcional a monotonia iria imperar em praticamente tudo. As emoções também moldam as relações humanas, pois determinamos padrões comportamentais (expressões faciais, tom de voz, gestos, etc) para expressar ódio, escárnio e inúmeros outros sentimentos. C. A Dimensão Avaliadora (valores e fidelidade) Engloba os valores pelos quais as relações humanas são julgadas como morais ou imorais. Define o comportamento e escolhas tidas por certas ou erradas. Impõe seu próprio código moral e seus pecados definidos culturalmente. Cada cultura tem seus próprios valores supremos e suas devoções fundamentais, e seus próprios objetivos culturalmente definidos (e.g. sucesso econômico, ou honra e fama, ou poder político, ou méritos ancestrais ou divinos, etc). 4) O Evangelho nas 3 dimensões O evangelho se relaciona com todas as 3 dimensões: cognitiva, afetiva e avaliadora. No nível cognitivo relaciona-se com o conhecimento da verdade, o conhecimento e aceitação da informação bíblica e teológica e o conhecimento de Deus. Afeta também a dimensão afetiva, dos sentimentos. Sentimos temor e mistério na presença de Deus. Sentimos vergonha e culpa pelos nossos pecados. Sentimos felicidade e alívio pela presença de Deus e pelo perdão dos pecados. Sentimos conforto na comunhão com o povo de Deus. O evangelho também tem a ver com a dimensão avaliadora, na medida que Jesus proclamou as boas novas do Reino de Deus, o qual governa com retidão. Suas “leis” contrastam com as dos reinos e governos humanos, e sua perfeição julga nossos pecados culturais. Ser cristão também é 76 Hiebert, Op Cit, pp. 30-34
  • 34. 34 ser chamado a seguir a Jesus incondicionalmente, a ser totalmente fiel a ele. Qualquer outra coisa é definida como idolatria. O conceito bíblico de conversão abarca todas as 3 dimensões: precisamos saber (I Co 2:2) que Jesus Cristo é o Filho de Deus, mas só esse conhecimento não é suficiente. Precisamos dos sentimentos de afeição (I Co. 8:1-3) e aceitação da obra de Cristo por nós. Mas também isso só não é suficiente! Tanto o conhecimento quanto os sentimentos devem nos levar à adoração, submissão e obediência a Cristo (Jo. 14:15; 23; I Jo 2:3-6), transformando-nos em seguidores plenos e comprometidos do Mestre. 5) Manifestações de cultura Há a parte da cultura que podemos ver, ouvir e experimentar através de outros sentidos. É manifestada através do que chamamos de: A. Comportamentos: Geralmente aprendemos a nos comportar através da nossa cultura. Mas nem todo comportamento é aprendido culturalmente. Nossas escolhas e decisões no dia-a-dia são influenciadas por circunstâncias políticas, econômicas, sociais e religiosas. Podemos tentar quebrar ou contornar as regras sociais e sermos punidos ou não por isso, pois toda cultura tem seus próprios meios para impor esses regras. Quando não há punição pela quebra de regra e essa regra tende a generalizar-se, as leis culturais tendem a morrer e ocorre mudança social. As pessoas de uma mesma cultura nem sempre concordam com as mesmas regras. B. Produtos: A cultura inclui objetos materiais – resultado de nossa interação e adaptação ao meio ambiente e do poder transformador que exercemos na natureza. A cultura material inclui mais do que respostas humanas ao ambiente. As pessoas fazem muitas coisas para seu uso próprio e para expressarem suas habilidades criativas. O comportamento humano e os objetos materiais derivados são prontamente observáveis. Consequentemente, são meios importantes para compreendermos e estudarmos uma determinada cultura. C. Símbolos: forma e significado: O comportamento e os produtos culturais do homem não são partes independentes de uma cultura; eles estão intimamente ligados às idéias, aos sentimentos e valores presentes dentro de seu povo. HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas Essa associação entre um significado, uma emoção ou um valor específico e um certo comportamento ou produto cultural é chamada de símbolo. Num certo sentido a cultura é
  • 35. 35 formada por um conjunto de símbolos. Ex. a fala, a escrita, os sinais de trânsito, a moeda, os selos, sirenes e alarmes sonoros, perfumes, etc 6) Cultura e Cosmovisão As pessoas percebem o mundo de maneiras diferentes porque constróem pressupostos diferentes da realidade. Juntos, os pressupostos básicos sobre a realidade que se encontram atrás das crenças e comportamentos de uma cultura são, algumas vezes, chamados de Cosmovisão77 . As pessoas acreditam que o mundo é realmente da maneira como o vêem. Raramente estão cientes de que a maneira que vêem é moldada por sua Cosmovisão. Há pressupostos básicos implícitos em cada uma das 3 dimensões da cultura. Os pressupostos existenciais dão à cultura estruturas cognitivas fundamentais que as pessoas utilizam para explicar a realidade. Essas estruturas definem o que é “real”. As suposições existenciais ou cognitivas também munem as pessoas com os conceitos de tempo, espaço e outros mundos. Os pressupostos cognitivos também modelam as categorias mentais que usamos para pensar, para reconhecer e acatar determinados tipos de autoridade e o tipo de lógica utilizada. Juntos estes pressupostos dão ordem e significado à vida e à realidade. Os pressupostos afetivos permeiam as noções de beleza, estilo e estética encontradas em uma cultura. Influenciam o gosto das pessoas em música, arte, vestuário, comida, arquitetura, e o sentimento mútuo em relação à vida. Os pressupostos de avaliação fornecem os padrões que as pessoas utilizam para realizar julgamentos, incluindo critérios para determinar verdade e mentira, gostos e preferências, e o certo e o errado. Essas hipóteses de avaliação também determinam as prioridades de uma cultura e, por sua vez, moldam as vontades e as obrigações das pessoas. Reunidos, os pressupostos cognitivos, afetivos e avaliadores fornecem às pessoas uma maneira coerente de ver o mundo, a qual faz que se sintam em casa e lhes garante estarem corretos. Essa Cosmovisão serve de fundamento para que edifiquem suas crenças e sistemas de valores explícitos, e as instituições sociais dentro das quais vivem no dia-a-dia. 7) Cultura compartilhada Como afirmado anteriormente, uma cultura é “compartilhada por um grupo de pessoas” e simboliza suas crenças, símbolos e produtos dessa sociedade. O homem foi criado para ser um ser social (Gn 1:28ª ; 2:18) e sua sobrevivência depende de seu relacionamento com seus semelhantes. Todas as relações humanas exigem uma grande soma de entendimentos compartilhados entre as pessoas – linguagem (verbal e não-verbal), um conjunto mínimo de expectativas, um certo consenso de crenças, etc. Quanto mais tiverem em comum, maior a chance e possibilidade de inter-relação. É preciso ter claro como “sociedade” se relaciona com “cultura”. Sociedade é um grupo de pessoas que se relaciona mutuamente de maneira ordenada em ambientes diferentes. A ordem básica implícita nessas relações é chamada de organização ou estrutura social. É na estrutura social que as pessoas verdadeiramente se relacionam umas com as outras. A estrutura social está ligada à cultura, mas é diferente dela: a cultura inclui o que as pessoas crêem sobre relacionamentos. 77 O termo cosmovisão [worldview] veio da língua Inglesa como uma tradução da palavra alemã Wel-tanschauung [percepção (de mundo), ponto-de-vista, concepção (de mundo), cosmovisão]
  • 36. 36 A relação entre uma sociedade e uma cultura é dialética - as pessoas desenvolvem estruturas para conduzir suas vidas. Com o tempo, ensinam essas estruturas aos filhos como parte da cultura que modelará suas vidas. Os limites sociais e culturais são claramente definidos nas sociedades tribais. No entanto, em áreas urbanas e rurais complexas, os limites culturais e sociais se tornam confusos e a relação entre eles é mais complicada; por exemplo, nas metrópoles habitadas por diferentes grupos étnicos (São Paulo, Nova Iorque, Londres, etc), onde são nítidas a sub-culturas que têm que conviver debaixo de uma cultura mais ampla. Em tais situações, o que constitui uma cultura ou uma sociedade? Aqui temos que retornar ao conceito das estruturas culturais (uma escola, um hospital, um banco, em clube, etc) com seu próprio grupo de pessoas, hierarquia social, conjunto de conhecimentos e regras e valores. Os indivíduos em sociedades complexas se mudam de uma estrutura para outra , de um grupo para outro e de uma cultura para outra “trocando engrenagens” à medida que se mudam. Essas culturas locais, por sua vez, são integradas a culturas regionais e nacionais maiores compartilhando uma história cultural, crenças e valores comuns mais amplos. FORMAÇÃO DA CULTURA78 1a Camada 2a Camada 3a Camada 4a Camada 1º)Comportamento: Aquilo que as pessoas fazem. É a 1a camada da cultura e é superficial. 2º)Valores: São as decisões preestabelecidas. Escolhas sobre o que é “bom” ou “melhor”. 3º)Crenças: É a reflexão dos valores. Aquilo que de fato as pessoas acreditam. 4º) Cosmovisão: A forma como vêem a realidade. Geralmente não é questionada. Aí está o verdadeiro motivo para as crenças, valores e comportamento. 8) O EVANGELHO E A CULTURA A. A cultura humana é do maligno? “...O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus...” 2 Co 4:4 A partir desse trecho, muitos têm concluído que o mundo está sob controle de Satanás e suas hostes, crendo num dualismo cósmico entre Deus e Satanás, luz e trevas, o bem e o mal. No 78 G.Linwood Barney. Citado por Nicholls in: Contextualização: Uma teologia do Evangelho e Cultura. P. 10 O que se faz? COMPORTAMENTO O que é bom ou melhor? VALORES O que é verdadeiro? CRENÇAS O que é real?
  • 37. 37 entanto, a Bíblia apresenta esse conflito tendo como palco esta terra, onde Satanás tenta confundir ou diminuir no crente a confiança em Cristo e sua justiça imputada como suficiente para a salvação. É uma batalha pelas mentes e corações dos homens e tem a ver com verdade x erro, fé x incredulidade, fé em Cristo x crença em qualquer outra coisa ou pessoa. Paulo jamais argumentou que um Deus bom reina na esfera espiritual enquanto um deus mau (Satanás) reina nas arenas “seculares e mundanas”. Satanás é citado como deus deste século apenas porque está sendo servido como se fosse um deus pelos homens. Como anjo caído, Satanás cegou tanto judeus como gentios, mas é sempre dentro da permissão divina, a qual é retirada sempre e quando Deus quiser. Não há razão, portanto, para ver o mundo como algo inerentemente mau ou o campo de batalha para o controle do planeta e do universo, cujo resultado depende da habilidade humana em se amarrar demônios. Embora a humanidade pecadora faça deste mundo um lugar de rebelião, maldade e desordem, Satanás jamais terá vitória final sobre os propósitos e intenções de Deus (Dn 4:34-37). “Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo, que é soberano de tudo, não declare: é minha” Kuiper A soberania de Deus é essencial para a fé cristã. É preciso traçar uma linha divisória clara entre aquilo que a Bíblia declara como “mundo” e aquilo contra o que lutamos nossa batalha espiritual. Ef. 6:10-19, não deixa dúvidas que nosso inimigo não é a cultura humana (as manifestações multiformes inerentes à nossa humanidade) mas contra os poderes e autoridades espirituais que dominam um mundo de trevas e de maldade e distorcem a beleza e originalidade da criação e da obra de Deus. São esses poderes que foram humilhados e expostos à vergonha por Cristo na cruz (Cl. 2:13-15) e não a obra criativa de Deus – os homens. A humanidade, com sua cultura, seu modo de ser e se relacionar entre si e com o mundo criado por Deus, não é má em si mesma e nem foi criada desta forma, mas contou com o planejamento e a aprovação de Deus (Gn 1:26-31). Esse texto não parece a descrição de algo ruim! Quatro maneiras como reagimos á Cultura É natural que o novo convertido rejeite muito do que se associa ao seu passado. Ele se retrai do seu ambiente social, abandonando todas as ligações e relacionamentos anteriores. O momento de afastamento e fechamento da cultura anterior é natural, visto que a experiência de ser uma nova criatura em Cristo freqüentemente causa uma grande mudança e conflito. Este momento inicial da vida cristã deve ser encarado como necessário para a maturidade do novo crente, mas o retorno à identificação com a cultura secular deve acontecer, à medida que sua maturidade aumenta. Analise a seguir quatro reações79 quanto a cultura, suas causas e conseqüências: 1) Rejeição: Mentalidade de Gueto. Um tipo de isolacionismo cristão. Causas: Medo da secularização e contaminação com o mundo. Conseqüências: Barreira a evangelização. As pontes não são construídas. 2) Imersão: Flexibilidade que permite uma identificação radical com a cultura humana. Causas: Necessidade forte de identificação com a cultura secular. Conseqüências: Tornam-se essencialmente indistinguíveis do mundo. O sal perde o sabor, tem receptores, mas não tem Mensagem. 79 Joseph C Aldrich., Amizade - a chave para a Evangelização, Ed. Vida Nova, São Paulo 1992 pp. 51-69
  • 38. 38 3) Adaptação dividida: Mistura rejeição e imersão. Seria uma espécie de esquizofrenia espiritual. Causa: Tem necessidade de estar a vontade nos dois mundos. Conseqüências: Fica em cima do muro, vida dupla. 4) Participação crítica (nossa proposta): Sabe que Deus o tem envolvido numa missão redentora com implicações culturais. Causa: Não acredita que o novo nascimento deva "desculturalizar" um novo cristão. Conseqüência: Possivelmente terá problemas com a colisão entre as culturas cristã e não- cristã. Vive sob a tensão constante entre a fé cristã e a cultura humana. B. Princípios básicos para entender a tensão dinâmica entre o evangelho e as culturas humanas: Está fora de cogitação qualquer tentativa para associarmos o cristianismo com a cultura ocidental, seja a de hoje ou do passado. Mesmo se quiséssemos associar o cristianismo com a cultura judaica da época de Cristo, teríamos dificuldades na fundamentação da idéia, visto que a própria Igreja Primitiva teve dificuldades com essa tentativa de associação e não seguiu por este caminho, embora o cristianismo nos fosse entregue dentro do contexto dessa cultura. Não era preciso tornar-se um judeu para se tornar um cristão! E bem sabemos que ainda não o é e nunca será. É preciso, portanto considerar pelo menos 3 princípios para entender essa tensão dinâmica entre evangelho e culturas humanas: 1º) O Evangelho deve ser separado de todas as culturas humanas. Ele é revelação divina e não mera expressão humana. A tendência de associarmos o cristianismo com nossa própria cultura (não importa quem ou onde) tem sido um desastre e um sério tropeço em muitas ações missionárias. 2º) O Evangelho se expressa em todas as culturas Embora o evangelho seja diferente das culturas humanas, ele sempre dever ser expresso em formas culturais. Os homens não podem recebê-lo fora de seus idiomas, símbolos e rituais. Se as pessoas devem ouvir e crer no evangelho, ele precisa ser apresentado em formas culturais. • No nível cognitivo as pessoas devem entender a verdade do evangelho. • No nível emocional devem experimentar o temor e o mistério de Deus. • No nível de avaliação o evangelho as desafia a responder à fé. A Bíblia está repleta de exemplos dessa “contextualização” do evangelho de Deus em relação aos homens: • Deus passeava no Jardim do Éden • Deus se manifestou multiformemente a muitas pessoas: Abraão, Moisés, Davi, os profetas, etc. • Deus finalmente se fez carne como nós para que conhecêssemos sua essência (Hb 1:1-3 a) Todas as culturas podem servir de canal para a comunicação do evangelho – não é preciso mudar de cultura para se tornar um cristão! Isso não significa que não haja maior grau de dificuldade para se comunicar o evangelho em algumas culturas.
  • 39. 39 3º) O Evangelho propõe mudanças para todas as culturas Assim como a vida de Cristo foi uma condenação para nossa natureza pecaminosa, assim também o Reino de Deus julga todas as culturas. Apesar de sermos criados por Deus à sua imagem nosso pecado impregna nossas culturas de maldade e pecado. Uma teologia verdadeiramente contextualizada deve não só reforçar os valores positivos (sob crivo bíblico) da cultura onde está sendo formulada, mas também deve desafiar aqueles aspectos dela que expressam o pecado e a maldade humanas. O evangelho exerce uma função profética, mostrando o caminho que Deus planejou para vivermos como seres humanos, julgando nossas vidas e nossas culturas por essas normas. Como cristãos, devemos lutar sempre com as questões sobre o que é o evangelho e sobre o que é cultura – e qual é a relação entre eles. Não fazer isso é correr o risco de perder as verdades do evangelho. III. A TENSÃO ENTRE CRISTO E A CULTURA H. R. Niebuhr classificou em cinco categorias as perspectivas defendidas por vários teólogos acerca da relação entre Cristo e a Cultura:80 (1) Cristo contra a Cultura. Segundo esse posicionamento, o conceito de “mundo” é amplamente negativo e o cristão é desafiado a escolher entre servir a Cristo ou servir ao mundo. Cristo, aqui, está em franca oposição ao mundo. Amplamente defendida por Tertuliano (c. 155-220),81 esta posição rejeita qualquer vínculo com as manifestações culturais (esportes, músicas, teatro e até mesmo a filosofia) por entender que o cristianismo não pode ser preterido sob quaisquer argumentos. Qualquer tentativa de um diálogo entre Cristo e a Cultura seria visto por Tertuliano como uma afronta aos ensinos de Cristo. Niebuhr apresenta três problemas teológicos com essa postura: (1) a conceituação de pecado como algo de cunho eminentemente social, em detrimento da consideração daquilo que se passa na alma do homem; (2) a há uma tendência ao legalismo, visto ser necessário e quase que inevitável que inúmeras regras sejam estabelecidas para se tentar definir o alcance do termo “cultura”; (3) há uma tendência na concepção do dualismo metafísico, como se o mundo fosse governado por dois deuses. Esta posição contra a cultura é considerada como sendo uma posição radical. (2) Cristo da Cultura. Para os defensores dessa posição, não há qualquer tensão entre a cultura e Cristo. Na verdade, afirmam, o que há é uma grande concordância entre ambos. Cristo é o próprio Messias social, e sua vida é o maior exemplo do empreendimento humano. Por isso a sua vida, enquanto Deus encarnado, deve ser transmitida às diferentes culturas e gerações. Cristo é explicado ou entendido à luz das diferentes manifestações culturais. Assim, os gnósticos procuraram uma conciliação entre o evangelho e as idéias gnósticas; os evolucionistas do séc. XIX interpretaram as doutrinas à luz da evolução das espécies. Hoje há tentativas de se conciliar o evangelho com a psiquiatria, psicologia, física, objetivando-se mostrar a harmonia entre ambos. A observação de Niebuhr é importante: não é que o cristão deva deixar o mundo, mas que deva permitir a presença de Cristo em todas as esferas sociais, pois, no final das contas, o mundo pertence a Cristo. Dentre os problemas com esta posição, Niebuhr lembra o perigo de Cristo ser abandonado, a fim de que as próprias manifestações culturais prevaleçam. Talvez essa é considerada uma posição radical. (3) Cristo acima da Cultura. Cristo é tanto concebido como sendo Deus como sendo homem; ele é Senhor, mas também é o Logos feito carne. Ele participa da cultura, mas está acima da cultura. Há uma espécie de síntese na compreensão do Cristo. Há aqui uma tendência na preservação dos aspectos culturais como legítimos elementos divinos. Nesse sentido a lei de Cristo é identificada ou 80 H. Richard Niebuhr. Christ and Culture. Nova Iorque: Harper & Row, Harper Torchbooks, 1956, citado por HESSELGRAVE, David J. in: A Comunicação Transcultural do Evangelho. São Paulo. Vida Nova, 1995. Vol. 1 p. 97 (Michael Horton em sua obra O Cristão e a Cultura faz uma análise destas categorias desenvolvidas por Niebrhr (cf. pp. 40-51 ) 81 HORTON, Michael Op Cit., p. 41
  • 40. 40 considerada como sendo a lei da igreja; o senhorio de Cristo é representado ou equiparado com os seus pseudos sucessores. Há sempre alguém nesse sistema tentando fazer uma síntese no relacionamento de Cristo com algum aspecto social, desde que tal síntese siga o pensamento particular de quem a elabora. Assim pode ser visto o pensamento de Tomás de Aquino, assim pode ser visto o argumento moderno sobre o que é de Deus e o que é de César. Esta posição é considerada por Niebuhr como sendo sinteticista. (4) Cristo e a Cultura em Paradoxo. A posição dualista que rejeita a tentativa de síntese das duas esferas e afirma a cidadania dupla do cristão, constitui-se na abordagem denominada “Cristo e a Cultura em Paradoxo”. O cristão possui duas cidadanias, ele é membro da Cidade do Homem e da Cidade de Deus. Sendo esferas diferentes de atuação, com propósitos diferentes, não há porque uma reger ou atacar a outra. Aqui o que se enfatiza é que a graça está em Deus e o pecado está no homem. A graça de Deus não está na cultura nem no cristão, mas o que ocorre é que deve ser feita distinção entre as esferas da criação e da redenção. Como a cultura jamais será um meio de encontrar a Deus, a abordagem “Cristo da Cultura” está descartada, por outro lado, a cultura não pode ser objeto de desprezo, porque ela não promete salvar ou redimir, isso elimina também a abordagem “Cristo Contra a Cultura”. O prazer que advém do envolvimento no trabalho, na vida familiar, na educação, nas artes ou no lazer, é um dom criacional de Deus e não redentivo. Essa visão foi iniciada por Agostinho, recuperada por Lutero e apoiada por Calvino. Calvino sustentava que a sociedade não precisa ser explicitamente cristã para ser justa e cheia de virtudes civis, pois que a lei moral de Deus está escrita nas consciências humanas. Niebuhr identifica Lutero, Kierkegaard, Marcião e Paulo de Tarso como possíveis exemplos dessa posição. (5) Cristo, o Transformador da Cultura.. Aqueles que sabem que este mundo nunca será transformado numa utopia pelo progresso humano e que, estão ansiosos por ver a mão de Deus nos avanços científicos, da medicina, das artes, e do conhecimento em geral, constituem-se na abordagem denominada “Cristo o Transformador da Cultura”. Os participantes dessa visão não querem ser apenas observadores, porém agentes de mudança, agentes transformacionais do mundo no qual estão inseridos, fazendo-o melhor. São aqueles que realmente crêem na soberania de Deus em todos os aspectos da vida do homem, aqueles que crêem que, embora decaído, o mundo continua sendo objeto do amor e do interesse de Deus. Três são as convicções teológicas que sustentam essa visão: 1) a importância da doutrina da criação (graça comum e a imago Dei): “o mundo é o teatro da glória de Deus”; 2) a humanidade é caída: porém a depravação total não se constitui no mal ontológico, isto é, o homem não é mal meramente porque é humano; e 3) o mundo aguarda completa redenção, podemos ter vitórias parciais ocasionais enquanto aguardamos a volta de Cristo. Há duas esferas distintas e Deus age em ambas: o transformador não adora e nem odeia a cultura. Alinham-se com essa abordagem Agostinho, Calvino e a tradição reformada. A proposta de abordagem que Horton faz, e que podemos abraçar é combinar os paradigmas “Cristo e a Cultura em Paradoxo” e “Cristo o Transformador da Cultura” para que os cristãos possam somar as vantagens de cada um. Nessa combinação o cristão reconheceria que esse mundo é do Senhor, e, contudo, aqui não é o seu lugar, ainda. Conclusões: A proporção que alcançamos maturidade, descobrimos que algumas de nossas regras precisam ceder ao machado do tempo. Contudo, como igreja de Cristo, temos pontos absolutos, intocáveis e não negociáveis, que não comprometeremos jamais. Estes estão enraizados solidamente na Palavra de Deus, são nossa doutrina e alicerce. O cristão precisa estar pronto para entrar numa outra cultura sem rejeitá-la, mas também não pode se render totalmente a ela. A tensão cultural vivida pela igreja é natural e reflete o choque entre coisas eternas e imutáveis, e portanto, divinas, e coisas temporais e humanas. As Boas Novas foram implementadas num contexto cultural, e o seu Autor utilizou-se fortemente deste elemento.
  • 41. 41 MISSIOLOGIA Uma Perspectiva Urbana Rev. Gildásio Reis “A vida não me é mais preciosa que o laço sagrado que a liga ao bem estar público de nossa cidade” Calvino Não há como negar que a cidade se apresenta como a próxima fronteira missionária82 , nos desafiando a entender a conjuntura sócio-cultural para que o trabalho missionário seja verdadeiramente salutar e produza frutos. É fato que no mundo inteiro as cidades estão enfrentando uma explosão demográfica. As cidades do hemisfério norte se apresentam mais urbana do que dos países do sul. 94% da população do Canadá e dos Estados Unidos já vivem na cidade, bem como 82% dos Europeus e 80% de todos os Russos. No entanto, apenas 36% de todos os Asiáticos e 45% de todos os Africanos morarão em cidades. Na América latina temos 73% de seus habitantes morando em cidades. A migração de mais de um bilhão de pessoas para as cidades nas últimas duas décadas representa o maior movimento populacional da história. As cidades representam o grande desafio para as missões cristãs devido ao seu tamanho, sua influência e suas necessidades. Naturalmente elas são centros de poder político, de atividade econômica, de comunicação, de pesquisa científica, de instrução acadêmica e de influência moral e religiosa. O que acontece nas cidades acaba por afetar uma nação inteira e o mundo caminha na direção que as cidades seguem. Os resultados de um crescimento de abrangência mundial tão rápido são evidentes em toda parte. Nas ruas de Nova Iorque vivem cinqüenta mil pessoas desabrigadas. Outras 27.000 vivem em abrigos temporários e estima-se que 100.000 famílias recebem abrigo em apartamentos de amigos e parentes. Em Bombaim, Índia, 1.000,000 de pessoas vivem em uma favela construída sobre um gigantesco depósito de lixo. Em Detroit, 72% dos adultos em idade de empregarem-se não encontram trabalho e provavelmente nunca o encontrarão. Esta é a cidade que Deus ama e pela qual Cristo morreu. Esta é a cidade onde está a igreja de Cristo e este é o lugar onde ela é chamada para ministrar. NNNNo Brasil, como em muitos países, 80% das pessoas vivem nas cidades, ao contrário do que havia há poucas décadas, quando a maior parte vivia nas áreas rurais. Este é um grande desafio para as igrejas. As cidades têm grandes e graves problemas, próprios do crescimento urbano desordenado a que são submetidas, tais como concentração excessiva de pessoas, desigualdades sociais, problemas de habitação, favelas, falta de saneamento, de saúde, etc. No que tange à evangelização, as cidades oferecem facilidades e dificuldades, como veremos adiante. As igrejas precisam ter estratégias de trabalho para alcançar as cidades. Há diferenças, entre evangelizar 82 Chamo a atenção para o título do livro sobre missões urbanas de Roger GREENWAY - “Cities – Mission´s New Frontier”. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House. 1989.
  • 42. 42 numa Metrópole e num lugar interiorano. Em nosso curso de missiologia urbana procuraremos refletir sobre este importante aspecto de nosso ministério pastoral. I. DEFINIÇÕES: 1.1. Definição de cidade: Não existe um padrão mundial que defina uma cidade. Esta definição pode variar de país para país: Na Dinamarca bastam 250 habitantes para uma comunidade urbana ser considerada uma cidade, e na Islândia, apenas 300 habitantes. Na França, um mínimo de 2 mil habitantes é necessário, e na Espanha, 10 mil habitantes. Organizações e empresas também podem possuir seus próprios critérios de "cidade". No Brasil, popularmente qualquer comunidade urbana com uma sede de município pode ser considerada uma cidade, independentemente de seu número de habitantes83 Não obstante esta complexidade para definir a cidade, muitos pensadores e historiadores a definiram, e achamos oportuno apenas citar algumas: No dicionário Michaelis (2002), cidade é definida como o centro urbano, sede de município, um aglomerado permanente, relativamente grande e denso, de indivíduos socialmente heterogêneos. 84 [Do lat. civitate.] Complexo demográfico formado, social e economicamente, por uma importante concentração populacional não agrícola, ie, dedicada a atividades de caráter mercantil, industrial, financeiro e cultural; urbe: "Cidade é a expressão palpável da necessidade humana de contato, comunicação, organização e troca, -- numa determinada circunstância físico-social e num contexto histórico"85 Uma cidade é uma área urbanizada, que se diferencia de vilas e outras entidades urbanas através de vários critérios, os quais incluem população, densidade populacional ou estatuto legal. A população de uma cidade varia entre as poucas centenas de habitantes até a dezena de milhão de habitantes. As cidades são as áreas mais densamente povoadas do mundo86 Cidades são concentrações de pessoas vivendo muito próximas e interagindo umas com as outras sob alguma forma de incorporação municipal e governamental87 1.2. Conceito de Missiologia urbana Missiologia urbana é a disciplina ou ciência que pesquisa, registra e aplica dados relacionados com a origem bíblica, a história, os princípios e técnicas antropológicas e a base teológica da missão cristã na cidade.88 II. A NECESSIDADE DE UMA MISSIOLOGIA URBANA 83 Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade. capturado em 04/05/2006 84 As três primeiras definições foram extraídas de www.ub.es/geocrit/sn/sn-170-36.htm, Capturado em 12 de julho de 2005 85 www.geocities.com/RainForest/Canopy/9555/glossario_ambiental.htm (Lúcio Costa: Registro de uma Vivência, p.277) 86 http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade. capturado em 04/05/2006 87 GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House. 1989. p. 8 88 GREENWAY, Roger; Op Cit, p. 7
  • 43. 43 O fenômeno da urbanização requer uma missiologia urbana. Urbanização é o processo pelo qual, em uma região particular, a porcentagem de pessoas vivendo em cidades tem um aumento relativo a população rural, com consequências na vida humana. Onde há rápida urbanização, há um declínio relativo na população rural.89 Os problemas relacionados com a missão da Igreja na cidade exigem uma missiologia urbana. As necessidades do homem urbano tornam imperativo o estudo de uma teologia e uma práxis de evangelização compatíveis com os princípios e modelos bíblicos. Isto é, faz-se mister o estudo de missiologia urbana. III. OBJETIVOS DO ESTUDO DE MISSIOLOGIA URBANA 1. Tomar consciência da realidade das cidades e seus desafios. 2. Considerar os fatos bíblicos e os princípios neles presentes, relacionados com missões urbanas. 3. Apreciar os métodos de missões urbanas, hoje adotados, com base nos princípios e modelos bíblicos. 4. Ensaiar a elaboração de um projeto de Missões urbanas, visando a evangelizaçào das cidades. IV. O FENÔMENO DA URBANIZAÇÃO O mundo passou por uma revolução profunda em termos demográficos nos dois últimos séculos, cujas mudanças populacionais acontecidas no campo e na cidade, alteraram completamente o quadro. O Dr. David Barret em sua obra World Christian Encyclopedia apresenta os dados estatísticos abaixo relacionados: Ano.................................................................................% População Urbana 1800 A.D........................................................................3% 1900 A.D.........................................................................15% 1950 A.D.........................................................................21% 1978 A.D.........................................................................40% 2000 A.D.........................................................................70-87% O século XX começou com 15% da população mundial vivendo nas cidades e terminou com 15% vivendo fora das cidades. Dentro de dezenove anos, o mundo sofrera uma mudança drástica. Pela primeira vez, desde que a história começou a ser registrada, a maior parte da população mundial viverá nas cidades principalmente nas cidades da Ásia, África, e América Latina. Essas cidades terão tamanho assustador e serão flageladas pelo desemprego, pela superpopulação e doença. Nelas os serviços tais como energia, água, saúde pública ou coleta de lixo, atingirão limites críticos.90 89 GREENWAY, Roger; Op Cit., p. 7 90 Rafael Salas, “Meeting the Challenge of Urban Explosion”, Indian Express, Madras, Índia, October 5, 1986 Citado pelo Dr. Antônio José em Apostila não publicada, material utilizado no CPPGAJ
  • 44. 44 Esta é uma lista das maiores cidades do mundo, por população (estimada para 2006): Fonte: Almanaque Abril 200591 Rank Cidade População 2005 País Continente 1 Tóquio 35,0 Japão Ásia 2 Cidade do México 18,7 México América do norte 3 Nova York 18,3 Estados Unidos América do Norte 4 São Paulo 17,9 Brasil América do Sul 5 Mumbai 17,4 Índia Ásia 6 Délhi 14,1 Índia Ásia 7 Calcutá 13,8 Índia Ásia 8 Buenos Aires 13,0 Argentina América do Sul 4.1. Cinco Fatores determinantes da urbanização 1. A industrialização: O processo de Industrialização provocou o crescimento das cidades, surgindo as cidades consideradas Megacidades. 2. O próprio crescimento natural da população (ver gráfico abaixo) 3. Desejo de melhores condições de vida: Estudo para os filhos, busca de melhores salários, busca de assistência médica,etc. 4. Atração dos grandes centros: A penetração da imagem das Tvs que iludem com expectativa de vida melhor nas cidades. 5. Mecanização da agricultura, trazendo a instabilidade Agrícola e o desemprego na zona rural. Brasil – Taxas de natalidade e mortalidade Períodos Natalidade % Mortalidade % Cresc. Vegetativo % 1872-1890 46,5 30,2 1,63 1891-1900 46,0 27,8 1,82 1901-1920 45,0 26,4 1,86 1921-1940 44,0 25,3 1,87 1941-43,5 43,5 19,7 2,38 1951-1960 44,0 15,0 2,90 1961-1970 37,7 9,4 2,83 1971-1980 34,0 8,0 2,60 1980-1991 26,9 8,0 1,89 1991-1996 21,8 8,0 1,38 Fonte: IBGE - Contagem da População 91 Retirado de "http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_das_maiores_cidades_do_mundo"
  • 45. 45 4.2. A cidade: Sua diversidade demográfica Há pelo menos cinco características que devemos considerar acerca das cidades, e que as torna fascinantes. 1. População: Crescimento urbano e das áreas periféricas. A cidade encontra parte do seu charme na mobilização. Nas oportunidades que abre, nas relações que se pode criar. Com uma sociedade em constante mobilização, atrai investimentos, exige um pensar criativo e causa um efeito periférico sensível e importante. 2. Cultura: abriga ainda os grandes centros internacionais. Culturas diferentes podem ser encontradas no meio dela. Pessoas de muitas raças e nacionalidades. Isto abre espaço para a ministração e exige uma atenção redobrada para os ministérios alternativos. Isto abriga também conflitos e tensões. "metade do crescimento das cidades no Brasil é gerado pelo êxodo rural, como a maioria dos migrantes vindo do campo é pobre, não tem dinheiro para alugar uma casa, o resultado é a explosão de cortiços e favelas". 92 3. Raças: Cidade é o local onde raças e culturas divergentes se tocam. A resistência aos diferentes e a tolerância facilitam a inserção de pessoas distintas, compartilhando os mesmos espaços. O preconceito não é tão acentuado, o que facilita o dialogo. Por outro lado revela também a indiferença e o individualismo que se torna marca da alienação e coisificação das pessoas nas grandes cidades. Não existe lugar tão bom para se esconder de uma pessoa que alugar um apartamento no mesmo prédio em que ela vive. Pode-se passar anos sem que você cruze com a pessoa que mora no apartamento acima ou ao lado do seu. 4. Idade: A cidade é um local onde a juventude predomina. Por dar mais oportunidade para o crescimento pessoal e fornecer melhores informações e acessos a meios de consumo, atrai de forma gravitacional a juventude. As melhores escolas, os melhores empregos, normalmente se concentram nas grandes cidades, e isto exerce um tropismo para a geração mais jovem. Os riscos e oportunidades são maiores. 5. Educação: Cidade é também lugar onde abriga a contradição e os paradoxos. Privilegiados e maltrapilhos convivem lado a lado. Afluência e pobreza... É para a cidade que o pobre e miserável flui em busca de melhores oportunidades, mas é o lugar onde as maiores oportunidades e conquistas aparecem. Cidades convivem com grandes condomínios, e ostentam riquezas exóticas, mas é o lugar dos becos, dos cortiços, dos favelados e daqueles que não tem voz e nem vez, sofrem a violência e vivem no anonimato. Grandes centro universitários atraem e são atraídos para grandes cidades. Pesquisas, industria, empresas high tech se concentram de forma singular nas grandes cidades. Implicações para missões urbanas: 1. A igreja, em meio à diversidade, consegue demonstrar a unidade do Evangelho. 2. A Igreja tem flexibilidade para alcançar diferentes idades e grupos culturais. 3. A Igreja consegue tornar-se um centro educacional. 4. A igreja transforma-se tem a capacidade de tornar-se uma agência de misericórdia. 92 Janice Perlman, entrevista revista Veja, 27 de Julho de 1994, pg 8
  • 46. 46 VI. AS CIDADES NA BÍBLIA O termo cidade na Bíblia ocorre mais de 1.600 vezes no Antigo Testamento e 160 vezes no Novo Testamento, sem contar as vezes em que nomes de cidades são usados. As primeiras cidades surgiram por volta do ano 3.500 a. C. A primeira cidade mencionada na Bíblia é a cidade fundada por Caim - “Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque”. (Gn 4:17). O contexto em que esta cidade é apresentada é muito importante. Caim estava discutindo com Deus sobre o que ele havia feito para com seu irmão e qual seria o julgamento de Deus sobre ele. Caim reclama de que ele não suportaria aquele castigo e Deus, cheio de compaixão em sua graça, permite que Caim não fique em completo desespero, sem nenhuma proteção. Caim ficou contente com a solução divina porque ele não ficou solto num mundo em anarquia total.93 A ele foi permitido se encontrar com outras pessoas e, inclusive, construir uma cidade. Conseqüentemente a cidade em si não era uma coisa ruim; ela surgiu diretamente da graça de Deus. Kline até argumenta que a construção de cidades era o propósito do “Mandado Cultural”94 Se o conceito da cidade não está errado em si próprio, qual é o problema então? O problema é o uso que foi feito dela pelo homem caído que estragou o propósito da cidade. Quando Caim inaugura a cidade ele a nomeia em homenagem a seu filho chamado Enoque. Desde o recomeço Caim comete o mesmo erro que o levou a matar a seu irmão. Ele estava mais preocupado em edificar seu próprio nome ao invés de dar glórias a Deus por aquilo que Deus havia feito por ele. A narrativa mostra uma situação até pior com o progresso da genealogia. Lameque, um descendente direto de Caim, usa sua autoridade de líder da cidade para quebrar os mandamentos de Deus em relação à família: ele toma para si duas esposas. Como se isto não bastasse, ele também abusa da sua autoridade e estabelece leis opressivas para lidar com aqueles que não concorda com ele. As palavras de Lameque às suas esposas, claramente demonstram sua rebelião contra Deus: “Sete vezes se tornará vingança de Caim, de Lameque, porém, 70 vezes sete” (Gn 4:24). Isto é uma perversão do propósito divino para o estado.95 Como Kline diz, também a cidade se torna o Templo do homem.96 Lameque, em suas próprias palavras está tentando ser como Deus. Na área do mandato social, a evidência da desobediência e rebelião tornou-se mais predominante. Lameque casou-se com duas mulheres (Gn 4.19), quebrando a determinação de um macho e uma fêmea tornarem-se uma só carne (Gn 2.24). Ele assassinou um jovem em vingança por ter sido ferido; Lameque, arrogantemente, escarneceu de Deus dizendo que estava preparado para aceitar a vingança divina em um grau muito maior do que a que Caim teve (Gn 4.34). Moisés registrou que como "os homens começaram a crescer em número" (Gn 6.1), a revolta social piorou. A violência tornou-se um modo de vida (Gn 6.11). Casamentos que não honravam a Deus foram 93 Kline, Meredith G. Images Of The Spirit. Baker Biblical Monograph Grand Rapids: Baker Book House.1980, p. 26 p. 72 94 Kline, Op Cit., p. 23 95 Kline, Op Cit., p. 71 96 Kline, Op Cit., p. 46
  • 47. 47 escriturados (Gn 6.1-2).8 Está claramente inferido que, no seu tempo, Noé era o único homem que tinha um casamento e uma família que honravam a Deus (Gn 6.9). A corrupção espiritual estava integralmente envolvida na deterioração social e violência dentro do domínio social. O mandato de comunhão que o Rei Criador tinha colocado diante dos seus vice gerentes, havia sido desobedecido no Éden. Yahweh tinha feito a restauração se tornar possível. Alguns invocaram e caminharam com Yahweh. Mas, assim como as pessoas cresceram em número, existia mais e mais maldade sobre a terra. A raiz desta maldade estava no coração das pessoas; toda a inclinação do pensamento originada do coração "era somente má todo o tempo" (Gn 6.5). Note que o texto usa o termo "todo" duas vezes e o termo "somente". O grau extremo de depravação espiritual nos é, então, revelado.97 A narrativa é interrompida neste ponto e a genealogia de Sete é apresentada, mas logo depois desta o autor volta ao tema da cidade dominada pelo homem. Em Gênesis 6, nós temos a razão porque Deus mandou dilúvio. O abuso de autoridade agora é ainda maior. O número de pessoas aumentou e o número de casamento também, e no versículo 5 nós vemos que a maldade continuava e o desígnio do coração era continuamente mau. Provavelmente a pior fase desta narrativa é a atitude dos lideres (Gn 6:2). Eles se chamavam a si mesmos Filhos de Deus.98 Eles falam como se Deus não estivesse no controle e também agem como Deus e tomam as responsabilidades de Deus, como se fossem seus filhos. Deus não poderia mais agüentar esta situação e então Ele os destrói com o dilúvio. Com o remanescente desta destruição, Noé e sua família, Deus começa aquilo que poderia ser chamado de a “re-criação”. Os paralelos entre a criação original e esta não é somente simbolismo, mas um paralelo nas próprias palavras de Deus. O mesmo caos em água aparece nos dois episódios. Mas o mais imprescindível é que o “Mandado Cultural” é repetido em Gn 9:1. Isto é um sinal claro de um novo começo. Infelizmente é a história do homem tentando tomar outra vez lugar de Deus. O propósito é claro: eles querem uma cidade que engrandeça o nome deles, ao invés de irem, através da Terra, como Deus ordenara (Gn 11:4). Este estado de apostasia se tornou mais uma vez insuportável para Deus. Entretanto, Ele se mantém fiel a sua Aliança com Noé e não destrói o povo. Deus apenas promove uma confusão na língua deles, de maneira que eles abandonam aquele projeto e fazem aquilo que eles deveriam ter feito desde o começo (Gn 11:6-7). Como podemos perceber, a Escritura fala amplamente da cidade. Ela é uma realidade com a qual a igreja deve se preocupar. A reflexão cristã sobre a cidade deve ser uma prioridade por parte da igreja. A história, a geografia, a sociologia, o urbanismo, para não mencionar as ciências afins, estudam a cidade. Penso que não seria muito que a teologia também a estudasse. A igreja é enviada também às cidades, não para assimilar-se a ela, mas para transformá-la, para libertá-la de seus pecados.99 8 Ver a minha discussão a respeito do casamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens em Revelação Messiânica no Velho Testamento, 109-110. 97 Van Groninger. Criação e Consumação. São Paulo, SP: Cultura Cristã. , p. 98 Kline, Op Cit., p. 83 99 COMBLIM, José. Teologia da Cidade. São Paulo, SP: Editora Paulinas. 1991. p.60
  • 48. 48 A missiologia urbana, num contexto religioso como o nosso, não pode dispensar a reflexão bíblica, mesmo que as cidades das quais falam os Textos Sagrados pouco ou nada tem a ver com as nossas metrópoles. Seria um erro de análise transpor características das cidades referidas na Bíblia, no entanto não podemos ignorar a história, se quisermos atuar numa perspectiva cristã. A seguir algumas cidades que se destacam nas páginas da Escritura, com alguma informação sobre elas: 1) Sodoma (Gn 18.19): Uma das cinco cidades da planície do Jordão. Estudando esta cidade, percebemos que existe uma relação entre a presença dos fiéis e a preservação da cidade. No caso de Sodoma, se houvessem nela 10 justos, Deus não a destruiria. Há um princípio aqui: o maior mal das cidades não é ambiental, mas sim espiritual e está dentro das pessoas. Em Ez 16. 49-50, temos a causa da destruição de Sodoma por Deus: “Soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre necessitado. Foram arrogantes, fizeram abominações diante de mim”. 2) Babilônia: A capital do império babilônico, fundada por Nimrod (Gn 10:10), localizada às margens do rio Eufrates. Pelos registros do Antigo Testamento sabemos que foi para esta cidade que Deus enviou os melhores jovens para exercerem atividades dentro das estruturas do palácio, durante o cativeiro babilônico. Estes jovens assimilam a cultura da cidade, mas separam perfeitamente sua fé e suas convicções das crenças e costumes desse reino (Dn 1.8-17). Daniel realiza uma obra de assessoria espiritual. Torna-se um estadista com princípios éticos elevados. A Babilônia simbolizava através das Escrituras a cidade completamente dominada por Satanás. Ela é citada pela primeira vez em Gêneses 11 na decisão humana de construir a Torre de Babel. No nosso contexto a cidade é Babilônia, símbolo da civilização com sua pompa e com tudo organizado para ser contra Deus, William Hendrisken comenta: “Uma cidade que fascina, que tenta, que seduz e arrasta as pessoas para longe de Deus”100 . Uma cidade mundana, louca por prazeres, arrogante e presunçosa. A descrição da Babilônia (Ap 17 a 19), nos faz lembrar de Tiro (Ez 26-28), um centro pagão de impiedade e sedução, uma grande metrópole industrial e comercial. Babilônia indica um mundo como um grande centro de progresso, de comércio, de arte, de cultura. Simboliza a concentração da luxúria, do vício, dos encantos deste mundo. É o mundo visto como a personificação da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida (I Jo 2.16) 3) Nínive: Era uma grande cidade para a época, com mais de 120 mil habitantes101 (Jn 4.11), capital de um poderoso império que durou por volta de 1.500 anos. Mas toda a riqueza e glória dessa cidade provocaram a ira de Deus, já que foram conseguidas através da opressão e da guerra. Roger Greenway comenta: Toda a vida política ou econômica da cidade se baseava na agressão militar, na exploração de nações mais fracas e no trabalho de escravos. O profeta Naum não poupou adjetivos negativos ao descrever esta traidora de nações e cidade de sensualidades (Na 3.4). Nínive era mestra de feitiçarias e uma capital do vício. Suas obras artísticas haviam sido pervertidas por obscenidades, sua cultura 100 HENDRIKSEN, William. Mais que Vencedores. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã. 1997 p.12 101 Samuel J. Schultz em História de Israel no Antigo Testamento, p.364, afirma que E.B.Pusey na obra The Minor Prophets, vol. I (Nova Iorque: Funk and Wagnalls, 1885), p.426, “calcula a população de Nínive em 600 mil habitantes” .
  • 49. 49 pelos ídolos, e sua beleza pela violência. Chamavam-na de cidade sanguinária` (Na 3.1), porque o despojo haviam-na enriquecido (tradução nossa).102 A maldade da cidade provocou a ira de Deus. Greenway acrescenta: O pecado da cidade era pessoal, pois o cometiam pessoalmente os milhares de habitantes de Nínive. Era também pecado coletivo, porque somada em sua totalidade a vida de Nínive, seu selo era: maldade. Ao sobrevir o castigo, afetaria a cada um.103 Lendo os livros dos profetas Jonas e Naum observamos dados importantes sobre Nínive. A preocupação de Deus de salvar a população dessa cidade, que estava fora da Palestina, é prova de que de fato a salvação é universal.104 Deus providencia o profeta Jonas com uma mensagem de chamada ao arrependimento. Embora não houvessem boas relações entre os israelitas e os assírios, Deus queria um missionário em Nínive, a qual era a principal cidade dos sistemas urbanos do mundo de então. O profeta foi e pregou percorrendo toda à cidade. Seus habitantes arrependeram-se de seus pecados e Deus aceitou o arrependimento, desistindo de destruir a cidade. 4)Jerusalém: Jerusalém é uma das cidades mais famosas do mundo. Data do segundo milênio A.C. no mínimo; e atualmente é considerada sagrada pelos adeptos das três grandes religiões monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.105 Embora Jesus tenha pregado em diversas cidades como Cafarnaum, Nazaré, Betânia, Jericó e outras, seu propósito final era Jerusalém (Lc 9:51), a cidade de Davi, a cidade da paz. O conceito de Jerusalém para os judeus como cidade santa, exige um estudo mais detalhado, mas este não faz parte do nosso propósito aqui. Contudo, é mister registrar que é em Jerusalém que Jesus enfrentou os poderes estabelecidos, tanto o religioso quanto o institucional. É a mesma Jerusalém que ele quis aconchegar com afeto materno (Mt 23:37), é nela que com Ele se repete o mesmo destino dos profetas (Mt 23:34). Sua morte se dá fora da cidade, mas o impacto causado não deixou o ambiente urbano sossegado. Guardas foram deslocados para o sepulcro, discípulos de trancam com medo, a cidade se contorce em comentários que depois se transformam em silêncio. Porém, tal silêncio é quebrado pela ressurreição. Jerusalém volta a ser atingida por Jesus, a notícia alvoroça a cidade e à seus líderes mais do que nunca. Em Jerusalém, cidade de Davi, o Messias acabava de implantar o seu reino e reconquistar o poder sobre tudo e todos. O Espírito Santo veio aos apóstolos em Jerusalém no dia de Pentecostes, dando-lhes a capacidade de pregar o evangelho. Em Apocalipse 21 lemos sobre a “Nova Jerusalém”, que é a Cidade Santa, a Noiva de Cristo, a Igreja Triunfante, a Esposa do Cordeiro. A Bíblia começa com um jardim e termina com uma cidade. O contraste entre estas duas cidades e a Nova Jerusalém é claro. Enquanto estes tiranos opressores usam as cidades para a sua própria glória e propósito, na Nova Jerusalém os reis da Terra vêm para apresentar a glóriade Deus. (Ap 21:24). O propósito de 102 GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House. 1989. p. 20 103 Greenway. Op Cit., 20 104 Universal no sentido de que a salvação é para todos os povos e não apenas para os judeus. 105 Cf. O Novo Dicionário da Bíblia.
  • 50. 50 Deus jamais falha. Na Nova Jerusalém Deus claramente demonstra o seu propósito escatológico para a cidade.106 A cidade era para ser um lugar onde os reis viriam para exaltar o Rei dos Reis e não para elevar a si próprios. Contraste Entre a Cidade dos Homens e A Cidade de Deus Na Nova Jerusalém “as nações andarão mediante a sua luz” (Ap 21:24). Jamais haverá noite naquela cidade (Ap 21:25). Que contraste em relação as cidades construídas pelos homens. Mesmo durante o dia era perigoso andar pelas ruas por causa do despotismo daqueles que tomaram o lugar de Deus naquela cidade. Não havia segurança para aqueles que estavam oprimidos. É inclusive possível dizer que até durante o dia na cidade dos homens, é sempre noite. As ameaças da noite estão sempre presentes. Na Nova Jerusalém, entretanto, as nações podem caminhar livremente, porque as luzes da cidade vêm daquele que a construiu: Deus. Não há ameaça nas ruas da Nova Jerusalém, por isto seus portões estão sempre abertos. Não há mal na cidade, somente aqueles que podem viver diante da glória de Deus a esta cidade pertence. Conseqüentemente, a Nova Jerusalém é somente para aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida.107 5) Antioquia da Síria: Antioquia foi a cidade onde a fundação para a missão mundial foi estabelecida para alcançar os confins da terra. Ela era uma cidade cosmopolitana, a metrópolis da Síria. Em 27 DC ela tornou-se a capital da Síria, sendo um importante centro comercial e ações militares, Antioquia tornou-se em um influente centro urbano, uma cidade (polis) Helenística e a terceira cidade do Império Romano. Ela era a terceira maior cidade do Império Romano. Sua população, no primeiro século, estava estimada entre 300.000 e 450.000 habitantes. Sua população era mista formada de gentios e de judeus. Após o martírio de Estevão, os cristãos fugiram para Antioquia e pregaram ali o evangelho, primeiramente aos judeus que falavam a língua aramaica e depois aos judeus que falavam o grego. Barnabé foi enviado pela igreja de Jerusalém para ali trabalhar. Depois de algum tempo, foi buscar Paulo em Tarso. Ambos evangelizaram em Antioquia por um ano e meio. Nessa cidade os seguidores de Cristo foram pela primeira vez chamados de cristãos (At 11.19-26). Boa liderança na igreja ali se desenvolveu (At 13.1). Em tempo de fome em Jerusalém, os cristãos de Antioquia enviaram ajuda (At 11.28-30) e nas questões sobre a circuncisão dos gentios convertidos, submeteram o assunto à igreja-mãe em Jerusalém (At 15). A igreja de Antioquia foi o ponto de saída e o ponto de chegada das viagens missionárias de Paulo. Ali Paulo repreendeu Pedro por discriminar os gentios. “A cidade conservou a sua grande opulência e a igreja continuou a crescer enquanto durou o Império Romano” 108 6) Corinto: Cidade portuária da Grécia. Extremamente cosmopolita. O comércio era muito desenvolvido. Os jogos atléticos, chamados Jogos Ístmicos, se sobressaiam aos das demais cidades. Os teatros abrigavam milhares de pessoas. “Templos, santuários e 106 Rissi, Mathias. The Future Of The World. Naperville: R. Allenson Inc. 1966, p. 53 107 Mounce, Robert H. The Book Of Revelation . The New International Commentary Of The New Testament. Grand Rapids: Eerdmans.1977, p. 385 108 DAVIS, John D. Dicionário da Bíblia. Rio de janeiro, RJ: Ed Juerp. 1985. p. 41
  • 51. 51 altares pontilhavam a cidade. Mil prostitutas sagradas se punham à disposição de qualquer um no templo da deusa Afrodite “109 . A vida imoral dos coríntios deu origem ao verbo “corintianizar”. No ano 52 d.C. o apóstolo Paulo chegou a Corinto e lá evangelizou por um ano e meio (Atos 18:1-18). Uma congregação foi fundada. Paulo residia na casa de Áquila e Priscila, líderes colaboradores. Apolo substituiu Paulo no trabalho da igreja. Não era de se admirar que uma igreja em meio a uma sociedade tão paganizada tivesse tantos problemas. Nessa congregação, entre todas as congregações fundadas por Paulo, surgiu a questão de falar em línguas. Paulo escreveu três cartas à congregação de Corinto, tendo uma se perdido. Apesar das dificuldades enfrentadas, a igreja cresceu. “No segundo século, o bispo dessa igreja exerceu grande influência na igreja em geral” 110 7) Atenas: Nome da capital da Ática, um dos estados da Grécia. “Esta cidade foi o centro luminoso da ciência, da filosofia, da literatura e da arte do mundo antigo”111 . Em Atenas a idolatria era excessiva. Havia muitos altares e, entre esses, um ao “deus desconhecido” (At 17.23), o que Paulo sabiamente usou para referir-se “ao Deus que fez o mundo” (At 17.24). Foi na segunda viagem missionária que Paulo esteve em Atenas. O evangelista Lucas narrou: Revoltava-se nele seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos. Argumentava, portanto, na sinagoga com os judeus e os gregos devotos, e na praça todos os dias com os que encontrava ali (At 17.16-17). Os filósofos epicureus e estóicos debateram com Paulo. Os epicureus não reconheciam um criador. A doutrina dos estóicos era panteísta. “Faziam distinção entre matéria e força e davam-nos como sendo o princípio das coisas, do universo. A matéria era o elemento passivo, e a força, um elemento ativo”112 . Os ouvintes de Paulo “chegaram a pensar que Jesus e a ´ressurreição` fossem duas divindades com as quais não estavam familiarizadas”113 . Em Atenas teve pouco resultado numérico o trabalho evangelístico realizado por Paulo, embora não sofresse nenhuma perseguição religiosa. 8) Roma: a Grande Metrópolis114 : Tradicionalmente fundada em 735 a.C.115 Tendo o apóstolo Paulo visto o seu trabalho pioneiro-estratégico praticamente concluído no eixo Jerusalém-Roma, ele agora volta os seus olhos para a capital do império com o intuito de torná-la o novo celeiro base de ação missionária (Rm 15:24). Roma, do primeiro século, era uma cidade incomum. Ela possuía mais de um milhão de habitantes e foi a primeira cidade na história a atingir este número. Registra-se que ali haviam bairros de mansões soladas, apartamentos de classe-média e "cerca de 4.600 prédios de aluguel, 109 GUNDRY, Robert H. Panorana d Novo Testamento. São Paulo, SP: Ed Vida Nova. 1985. p. 309 110 DAVIS, Op Cit. P. 128 111 DAVIS, Op Cit., p.61 112 Davis, Op Cit., pp.188-189 e 199 113 Gundry, Op Cit., p 268 114 Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra . Uma Teologia da Cidade Na Perspectiva do Novo Testamento. Extraído do site: http://www.missiodei.com.br/ capturado em 01 de novembro de 2004 115 O Novo Diciuonário da Bíblia.
  • 52. 52 muitos deles com oito ou dez andares". Apesar do tamanho da cidade de Roma, a sua igreja não era tão expressiva como a de Antioquia. Contudo marcou a sua presença na cidade. O Evangelho chegou até a capital, provavelmente, por meio de gentios romanos convertidos que estavam no dia de pentecostes em Jerusalém (At 2:10). Embora, inicialmente, não se tenha conhecimento de que Roma tenha sido impactada pelo evangelho, a cidade se tornaria o palco de grandes eventos da história do cristianismo. Quer seja pelas perseguições cruéis, martírios e crimes, quer seja pelo crescimento da igreja perseguida que depois de torna regio licita, e por fim se projeta como a igreja do imperador, com a conseqüente ascensão da importância e proeminência do cargo de bispo, principalmente o de Roma. Muito há o que se aprender em termos missiológicos com a cidade de Roma, e não foi à toa que Paulo a elegeu como nova fronteira missionária. A perversidade de instituições corruptas de uma cidade cosmopolita, egoístas e corrompidas pelo poder e pela dominação, se apresentam como um grande desfio e oposição à tarefa missionária. A expansão do cristianismo em uma cidade, transforma o modus vivendi, assim como se deu em Roma que antes perseguia, e matava cristãos até por diversão, se torna sua seguidora e divulgadora. Uma séria advertência aqui necessita ser feita, tais transformações na cidade não podem ser vista integralmente como verdadeiras, apenas pela ação do evangelho. A mesma cidade de antes, agora se disfarça, e suas instituições se "convertem" por conveniência ao status quo. O nominalismo e a hipocrisia escondem as mesmas perversas estruturas antes aterradoras, e agora atuantes, utilizando-se de outras e novas roupagens. Nas palavras do missiólogo Linthicum, passamos a ter a "cidade com aparência de Deus, mas com alma de Satanás". Assim, cidades são fronteiras missionárias onde, ao passo que o reino se expande, a resistência se acirra ou se disfarça para continuar presente. É em Roma, projeto da nova base missionária de Paulo, que ele fica preso, é julgado e executado. 9) As cidades no ministério de Jesus: As cidades tiveram uma grande importância em seu ministério. Jesus nasceu na vila de Belém. Foi criado na cidade de Nazaré, que na época teria de 15 a 20 mil habitantes.116 A maior parte da população de Nazaré era de gentios e por isso, uma cidade desprezada. Mas foi justamente numa sinagoga de Nazaré que “Jesus estabeleceu suas credenciais messiânicas” 117 ao apresentar seu programa de missão quando leu em Is 61.1-2 e 58.6: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19). Depois que Jesus tornou pública sua missão, “desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia” (Lc 4.31). Cafarnaum estava localizada junto ao Mar da Galiléia, tendo inúmeras indústrias ligadas à pesca. Era uma das mais importantes cidades da província. 116 BARRO, Jorge H. De Cidade Em Cidade – Elementos para uma teologia bíblica de missão urbana em Lucas- Atos. Paraná, Londrina: Ed. Descoberta, 2002. p. 47 117 Orlando Costas, em Christ Outside the Gate, NY: Orbys Books, 1982:55, citado por Barro, Op Cit., 46
  • 53. 53 “Estava localizada em um lugar extremamente estratégico, às margens de uma rota internacional de comércio que ligava Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia”118 . Em Cafarnaum Jesus ensinou, ajudou e curou pessoas. Nessa cidade ´fixou residência`, partindo dali para outros lugares. O ministério público de Jesus é resumido em Mt 9.35: “E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades”. Pregar a palavra do Pai nas cidades fazia parte da estratégia evangelística de Jesus. Ele disse: “É necessário que anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isto é que eu fui enviado” (Lc 4.43). Jesus era aquele “que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus” (Lc 8.1) e vinha “ter com ele gente de todas as cidades” (Lc 8.4). V. CARACTERÍSTICAS E PROBLEMAS DO HOMEM URBANO 5.1 Características do Homem Urbano 5.1.1 Características psico-sociais: • Anonimato – Esta é a primeira característica descrita por Cox no seu clássico "A cidade secular"119 ao se referir à face da cidade. Em geral as pessoas se horrorizam diante da impessoalidade e pela perda da identidade que a cidade traz. Pessoas podem perder toda sua identidade personalidade no meio da correria diária, e dos intermináveis números. "Solidão é indubitavelmente um sério problema na cidade"120 • Alienação – Neste caso, percebe-se que a pessoa não passa de um número, e que os encontros normalmente são feitos de forma esporádica e sem desejo de aproximação. O homem urbano se distancia facilmente do outro. A falta de intimidade e distanciamento nos grandes centros e grupos. Você pode morar no mesmo prédio e não conhecer quem mora em frente à sua casa. Exemplo pastor do Rio de Janeiro que mudou-se par ao interior por medo da alienação da grande cidade. • Isolamento – Diante da constante mobilização, as pessoas são sempre muito diferente mesmo na vizinhança. Muitas estão constantemente se mudando. Alguém por perto não significa "proximidade". • Despersonalização – individuo tratado como número e coisa. Tente acessar seu banco, sua conta na internet. Você estará sendo sempre identificado pelo número que tem. A Bíblia diz que mais vale o bom nome do que as muitas riquezas, mas na cidade, mais vale um bom número. 118 BARRO, Op Cit, p 54 119 Cox, Harvey – The secular City, pg 37 120 Cox, idem, pg. 39
  • 54. 54 A atmosfera impessoal dos grandes centros urbano, produzindo uma terrível solidão. Os lugares de maior solidão no mundo não são “o deserto Saara e a Amazônia, “ mas sim os grandes centros urbanos. Pessoas que moram nos grandes complexos de apartamentos não conhecem seus vizinhos e raramente conversam entre si. Proximidade geográfica, por si só, não produz comunhão ou relacionamentos fraternos ( Sl 25.16 ). 5.1.3 Características morais e religiosas : a) Ele tem a tendência a ser um cristão nominal. b) Ele é tendente a ter padrões morais relaxados. c) Ele tem inclinação à auto-suficiência. d) Posmoderno121 5.1.4 Características cívicas e políticas : a) Ele tem a consciência política mais acentuada. b) Ele tem a tendência de ser influenciado por grupos de pressão. 5.2 Problemas do Homem Urbano 5.2.1 Problemas econômicos: O grande êxodo rural tem inchado as cidades, provocando o baixo nível econômico de vida. O desemprego tem crescido e consequentemente as pessoas têm apelado para o emprego informal. A habitação não tem sido suficiente para todos, ocasionando o surgimento de casebres e favelas122 . O saneamento básico não tem acompanhado esta expansão rápida e descontrolada. Epidemias têm surgido com mais facilidades. ( Dados da FGV mostram que 33% da população brasileira é constituida de miseráveis e que para erradicar a pobreza bastaria apenas a contribuição de R$14,00 por cidadão que está acima da linha da pobreza). São Paulo também tem grande quantidade de favelas e as estimativas mais recentes indicam que há na cidade 2018 favelas cadastradas, nas quais vivem aproximadamente 1.160.516 habitantes. (Rocinha é a maior favela do Rio de Janeiro contando com mais de 60.000 habitantes)123 121 A pessoa urbana vive numa época denominada de pós-modernidade. Jair Ferreira dos Santos (1991:8) descreve assim a pós-modernidade: O nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção se encerra o modernismo (1900-l950) [...] Nasce com a arquitetura e a computação nos anos 50, toma corpo com a arte Pop nos anos 60, cresce ao entrar pela filosofia durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental e amadurece hoje, abstraindo-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecno-ciência (ciência + tecnologia) invadindo o cotidiano desde alimentos processados até microcomputadores. 122 A origem do termo se encontra no episódio histórico conhecido por Guerra de Canudos. A cidadela de Canudos foi construída junto a alguns morros, entre eles o Morro da Favela. O Morro de Favela possui este nome porquê o morro era coberto de uma planta, chamada de favela. Os soldados que foram lutar na região, ao voltar ao Rio de Janeiro, em um certo momento deixaram de receber seu soldo e passaram a morar em construções provisórias instaladas em alguns morros da cidade, juntamente de outros desabrigados. A partir daí, estes morros passaram a ser conhecidos como favelas, em referência à "favela" original.(Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Favela. capturado em 04/05/2006) 123 MINISTÉRIO DAS CIDADES. "Política Nacional de Habitação." Cadernos do MCidades Habitação vol 4. Brasília: MCidades, 2004. p.13
  • 55. 55 A migração da população rural para o espaço urbano em busca de trabalho, nem sempre bem remunerado, aliada à histórica dificuldade do poder público em criar políticas habitacionais adequadas são fatores que têm levado ao crescimento dos domicílios em favelas. Dados do Ministério das Cidades, apoiados nos números do Censo 2000 do IBGE, apontam que entre 1991 e 2000, enquanto a taxa de crescimento domiciliar foi de 2,8%, a de domicílios em favelas foi de 4,8% ao ano. Entre 1991 e 1996 houve um aumento de 16,6% (557 mil) do número de domicílios em favelas; entre 1991 e 2000 o aumento foi de 22,5% (717 mil). Dentro deste aspecto, vale citar a influência que Calvino teve na área social em Genebra. Tal influência e contribuição levou Graham a considerar Calvino como o teólogo de maior influência para o contexto urbano de sua época, ao defender que "todo empreendimento humano está marcado com o mal, contudo isto nos impulsiona com o propósito de fazer o evangelho relevante na cidade de comércio na qual vivemos e trabalhamos.". Dentre o muito que foi conseguido pela participação marcante do reformador em Genebra na área sócio-econômica podemos destacar 12 itens:124 • Assistência social aos necessitados sem discriminação de nacionalidade. • Ajuda e cuidado com a saúde popular através de um programa de visita médica domiciliar. • Esforços do governo na capacitação profissional. • Combate ao desemprego com oferta de trabalho pelo governo. • Ênfase no amparo aos pobres, idosos e desamparados. • Luta contra a insolência do luxo em relação aos pobres. • Exemplo de simplicidade por parte dos reformadores-líderes públicos. • Limitação dos juros nos empréstimos. • Forte combate à especulação. • Ataque frontal à escravidão. • Combate a bebedice e proliferação das tavernas. • Grande esforço na educação de todos. Rev. Sérgio Lira também faz breve menção sobre a liderança de Calvino na área da educação. Diz ele: Em Genebra a sua grande marca educacional ficou indelével através da criação da Academia. Essa escola possuía dois níveis, o fundamental que era conhecido como escola superior ou pública , e o segundo era o inferior ou escola privata equivalente ao nosso terceiro grau. A Academia de Genebra foi fundada em 1559 e Calvino convidou Teodoro Beza para ser o seu primeiro reitor. Essa escola veio a tornar-se o seminário do calvinismo e o modelo para várias outras universidades que foram lideradas por grandes nomes, ex-alunos da Academia de Genebra. No ano da morte de Calvino a escola tinha 1.500 alunos matriculados, onde a maioria era de estrangeiros. A escola de primeiro grau possuía 1.200 alunos, e a universidade 300 estudantes de teologia, direito e medicina125 . 124 LIRA, Sérgio Paulo Ribeiro. Em seu artigo João Calvino: Sua Influência na Vida Urbana de Genebra in: http://www.monergismo.com/textos/historia/calvino_genebra_sergio.htm capturado em 28/12/05 125 Idem
  • 56. 56 5.2.2. Problemas Sociais ou violência urbana: • Crimes contra a vida: homicídio - assassinato, infanticídio, aborto ,latrocínio (assassinato com objetivo de roubo), lesão corporal (ataque à integridade física de outra pessoa) • Crimes contra a honra: injúria (ofensa verbal, escrita ou encenada), calúnia (falsa atribuição de cometimento de crime a alguém), difamação (propagação desabonadora contra a boa fama de alguém). • Crimes contra o patrimônio: furto (subtração de coisa alheia), roubo (subtração de coisa alheia mediante violência), dano (danificação de coisa alheia), extorsão (extorsão mediante seqüestro • Crimes contra os costumes: estupro, corrupção de menores (indução de menor a práticas sexuais), rapto de mulher.126 Local Motivo Tempo Mortos Peru Guerrilha 7 anos 25.000 cidadãos Vietnã Guerra 7 anos 56.000 americanos Rio de Janeiro Violência urbana 7 anos (85-91) 70.000 cidadãos Revista Conjuntura Economica - Fundação G.V. 02/94 5.2.3 Problemas na Família: A desintegração da família tem aumentado com os meios de comunicação, incentivando a infidelidade conjugal. Os filhos pequenos, muitas vezes, ficam sós ou com pessoas que não têm condições de educá-los, enquanto os pais trabalham fora. Separações de casais têm crescido e se tornado algo comum.127 “A Igreja é chamada a assumir a sociedade urbana, não por oportunismo religioso, mas por vocação (...) Seu papel consiste em criar o povo de Deus a partir da cidade”. 128 5.2.4 Problemas psicológicos: Estes e outros problemas acarretam a instabilidade emocional. As pessoas sentem-se inseguras, ficam ansiosas, aumenta a incidência da depressão. 5.2.5 Problemas espirituais e morais: Nunca ocorreu com tão grande intensidade a proliferação de seitas religiosas. Muitas fazem promessas vãs, mais confundindo do que ajudando. Seitas espiritualistas têm recebido mais credibilidade. O esoterismo ganha cada vez mais adeptos. Pessoas, sem estruturas emocional e espiritual, tornam-se facilmente presas do alcoolismo, de drogas inaláveis e injetáveis e outros vícios desagregadores. A corrupção sexual aumenta e quadrilhas se organizam a fim de aliciar menores para o “turismo sexual”. Cidade é cenário de luta espiritual. Milhares de 126 Cf. MORAIS, Regis. Que é violência urbana. Sao Paulo : Brasiliense, 1985 p. 121 127 A Revista Isto É de setembro de 1994 traz uma reportagem de 6 páginas intitulada "Barriga de Anjo", na qual trata da gravidez na adolescência. Essa reportagem mostra os assombrosos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) dando conta de que: “...um milhão de meninas de 15 a 20 anos dão à luz no Brasil por ano.. Elas são responsáveis por 20% do total de nascimentos. Enquanto mulheres entre 21 e 49 anos diminuem a cada ano sua contribuição no total de nascimentos, os casos de mães precoces triplicaram da década de 80 para cá.(p.69) 128 Comblin, Jose – Teologia da Cidade. São Paulo, Paulinas, 1991, pg 19
  • 57. 57 pessoas são vitimas de religiões falsas, de seitas e grupos espiritualistas, em busca de sentido e identificação. 5.2.6. Problemas educacionais: Nem todos têm acesso a boas escolas. E quando têm, a necessidade de trabalhar fora do lar bem cedo impede de continuarem os estudos. A pessoa de pouca leitura e reflexão pode ser mais facilmente manipulada pelos meios de comunicação de massa, os quais podem influenciar com uma cultura enlatada as pessoas. Algumas dificuldades: • O baixo salário dos professores • Pressão econômica daqueles pais que necessitam do trabalho das crianças. • Falta de boas universidades e dificuldades no acesso a estas(principalmente nos países mais populosos e menos desenvolvidos). • Evasão escolar antes do término do ensino Ensino Fundamental. • Elevado número de jovens e adultos que não concluiram a escolarização em idade regular. VI. OBSTÁCULOS PARA O CRESCIMENTO DE IGREJAS URBANAS Nós concordamos que a evangelização é um imperativo de Cristo para a sua igreja, contudo, não são poucas às vezes que nos sentimos impotentes, desanimados e vencidos diante de tamanha responsabilidade. De fato, mesmo cônscios de nosso dever, da assistência divina e dos frutos, ainda assim, não deixamos de reconhecer as barreiras que se levantam e nos intimidam ou amedrontam quando pensamos em evangelizar. Precisamos reconhecer barreiras reais129 e contrapô-las com os recursos dispostos por Deus ao nosso alcance. Se muitas forem as barreiras, suficiente e superior será o auxílio divino para transpô-las, nos concedendo vitórias e nos fazendo efetivos instrumentos de proclamação das Boas Novas da Salvação em Jesus Cristo. 1. Diabo. Satanás, com seus anjos maus, procura impedir o crescimento da igreja em qualquer lugar. John T. Mueller exemplifica as artimanhas destes inimigos da igreja de Cristo: a) continuamente procuram destruí-la por investidas em geral (Mt 16.18); b) tentam impedir que os ouvintes recebam a Palavra de Deus (Lc 8.12); c) disseminam doutrina errônea (Mt 13.35; 1 Tm 4. 1s); e d) incitam perseguições ao reino de Cristo (Ap 12.7 [...] No intuito de arruinar a igreja, o diabo causa transtornos também ao estado político (!Cr 21.1; 1 Rs 22.21-22), e ao estado doméstico (1 Tm 4.1-3; 1 Co 7.5; Jó 1.11-19). 2. A Relativização de absolutos: Vivemos dias em que os absolutos são descartados. A verdade tornou-se subjetiva e pessoal, cada um tem sua própria verdade. A liberdade individual e a felicidade pessoal são o alvo buscado e a justificativa de qualquer meio para se alcançar este fim. A nossa cultura perdeu a perspectiva de que existe uma lei 129 As barreiras que estudaremos a seguir, algumas foram extraídas e adaptadas da obra de Jerram Barrs, A Essência da Evangelização, Editora Cultura Cristã. São Paulo. 2004
  • 58. 58 moral transcendental que se aplica a todos e que rege o próprio equilíbrio das partes. Diz o insensato no seu coração: não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem. (Salmo 14.1) “O Cristianismo é a única história que faz o nosso mundo ter sentido, que age como guia moral, que nos enche com uma esperança confiante dos nossos futuros individuais e o futuro da nossa raça e o deste mundo”, entretanto, a História Cristã perdeu seu significado para o homem moderno. Entrementes, a relativização de absolutos, ou seja, você decide o que é verdadeiro segundo suas próprias concepções, tem rodeado e até mesmo invadido a igreja. Muitas das nossas convicções e fundamentos sobre os quais lançávamos princípios de vida estão abalados e sob suspeição. As incertezas sobre o teor da mensagem do Evangelho nos fazem recuar. Será que de fato cremos numa verdade? Ela poderá mudar derrubar os muros da incredulidade? Já não nos sentimos tão seguros quanto ao conteúdo de nossa pregação. Como combater a incerteza com incertezas? “Devemos ter certeza de que nossa fé é de fato a verdade”. Para tanto, o conhecimento e estudo da Palavra de Deus é a fonte que nos prepara para que possamos estar “sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. (1 Pedro 3.15b), assim, “...procurai, com diligência, cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição...” (2 Pedro 1.10a). 3. Ausência de credibilidade da Igreja: Boa parte da população está decepcionada com erros diversos em igrejas como a exploração financeira, escândalos de líderes religiosos, o legalismo de certas igrejas que impõem aos seus adeptos leis humanas muito rígidas, tirando-lhes a alegria de viver.: Outra barreira que enfrentamos na evangelização urbana é o discurso da incoerência. A igreja tem desassociado a pregação do testemunho. A ética cristã tem se tornado extremamente maleável, adequando-se às circunstâncias. Os escândalos estão nos deixam constrangidos – porém, não envergonhados ou arrependidos – a nós já não pertence mais o “corar de vergonha” (Daniel 9.7b) O evangelho está desacreditado porque perdemos o crédito de nosso comportamento perante a sociedade. É certo que não somos perfeitos e ao olharmos para o passado, veremos manchas na História que até hoje são evocadas e simplesmente nos enchemos de desculpas. Devemos assumir os erros que se registraram nos anais da história, atitudes humanas desprovidas de aprovação divina. Mas, ao mesmo tempo em que devemos assumir nossos erros passados, devemos, também, tomar atitudes no presente para coroar o futuro, viver como luz do mundo e sal da terra, a fim de que os homens vejam nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mateus 5.13-16). 4. A perda da linguagem comum: A comunicação é uma importante conexão entre as pessoas e para que ela se efetive o transmissor da mensagem deve se fazer entender pelo seu receptor, ou seja, minhas palavras devem estar adequadas à linguagem do ouvinte. Como costumamos dizer: “agora, estamos falando a mesma língua” - referência ao fato de terem se entendido. Isto, porém, tem se perdido nos dias atuais. “Mais e mais pessoas são biblicamente analfabetas” – incluindo o meio evangélico. Devemos ter a
  • 59. 59 sensibilidade para fazermo-nos entender na pregação, na proclamação de uma mensagem universal que é “para todos as nações, tribos, povos e línguas” em qualquer tempo ou lugar. Devemos nos questionar sobre tais barreiras, reconhece-las tão somente não é suficiente, é preciso preparar-se para enfrenta-las, e temos recursos para isto, como afirma o apóstolo Paulo: “porque as armas de nossa milícia não são carnais e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando nós, sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo”. (2 Coríntios 10.4,5). Sendo, pois, praticantes da Palavra e não somente ouvintes (Tiago 1.22) o nosso testemunho falará mais alto que nossas palavras e esta é uma linguagem que todos compreendem, vida coerente. 5. Reação de Condenação: Quando nos sentimos acuados reagimos condenando a todos. A parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14) ilustra o cuidado que devemos ter em relação a julgarmo-nos melhores do que outros. Se do “lado de fora” sentimos o cheirinho de enxofre nos “pecadores” e agradecemos a Deus por não sermos como eles, um perigoso sinal nos alerta contra a vaidade e arrogância espirituais. Não devemos julgar nossos inimigos, antes, amá-los. Se fosse possível tirar uma fotografia da realidade espiritual da alma humana e guardássemos a nossa, antes da conversão, veríamos que somos tal qual aqueles que desprezamos ou condenamos. É neste tipo de arrogância que criamos uma subcultutra cristã (mera presunção) que finalmente vai mudar as coisas, pensamos nós. Nos propomos a preencher os espaços políticos, culturais, sociais para subjugar o “ímpio”, mas para isso vale tudo que estiver ao nosso alcance, seja ético ou não, seja lícito ou não, seja honesto ou verdadeiro ou não. Nos tornamos maiores tiranos do que aqueles que foram “demonizados” por nós. Devemos, como Cristãos, exercer nossa cidadania e contribuir ativa e conscientemente nossos direitos e deveres como cidadãos. Mas, também como Cristãos, devemos ter a percepção de que pertencemos uma “nacionalidade” que nos exige que vivamos segundo suas prerrogativas, como cidadãos do céu e neste exercício de cidadania a palavra amor e misericórdia estão entre os primeiros deveres. 6. Isolamento: Uma falsa idéia se opõe a uma evangelização ativa: “não pertencemos ao mundo devemos, simplesmente, nos isolar”. Somos a geração dos condomínios fechados, do shopping center, das grades de segurança, do espaço privado distante e protegido do espaço público. Reagimos, então, da mesma maneira, nos isolando em nossas casamatas (abrigos subterrâneos usados principalmente nas guerras) e criamos um novo conceito de “mosteiro social gospel” com uma placa na entrada: “proibida a entrada de estranhos”. Não devemos amar ao mundo, é certo, disse o apóstolo João, mas, também somos o sal da terra. Imaginemos se podemos temperar um feijão colocando o saleiro em frente à panela. Devemos por o sal no feijão e suas propriedades suscitarão o efeito desejado. Podemos criar espaços com certas peculiaridades, mas não nos escondermos em guetos evangélicos. 7. Separação: Uma outra barreira sutil e perigosa é a de nos separarmos das pessoas “de lá de fora” e restringir nosso círculo social aos “irmãos”. A senha poderia ser (e às
  • 60. 60 vezes é), “a paz do Senhor” em caso de resposta satisfatória, então é bem vindo ao nosso meio, de outra forma, “as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15.33 – interpretado fora do contexto). Olhemos para aquele que foi acusado de ser amigo de publicanos e pecadores (Lucas 7.34), que tocou em leprosos, que perdoou prostitutas, que se aproximou dos excluídos. Já tentou conversar com alguém que não te olha nos olhos? Que estranha sensação. Como podemos pregar o evangelho que tem características tão evidentes de amor, misericórdia, perdão, reconciliação, adoção, aceitação? Seria muito difícil uma família adotar uma criança órfã sem permiti-la entrar em sua casa. Nós fomos adotados e recebidos na presença do Pai, que não faz acepção de pessoas (por isso nos aceitou), como poderemos testemunhar disto praticando o oposto da mensagem? 8. Paganismo: O paganismo está de volta á essa geração pós-moderna. As seitas e religiões espiritualistas ganham novos adeptos e seus conceitos não são questionados se verdadeiros ou sensatos, basta que faça a pessoa se sentir espiritual e se lhe é sensata e moral. Interessante notar aqueles que chamam cristãos de fanáticos e incultos, e no ápice de sua própria arrogância veneram e acreditam em superstições, pirâmides, objetos, fetiches, gnomos e duendes. São, na verdade, pessoas carentes de uma espiritualidade verdadeira e de um amor profundo, coisas que só encontrarão no Evangelho que a nós foi confiada a proclamação. 9. A insegurança urbana: Como já vimos, a violência tem aumentado nas cidades. Estatísticas revelam que em São Paulo no ano de 2001, os sequestros envolvendo pessoas de qualquer camada social aumentaram 600%. Assaltos nas ruas, arrombamento de residências e tráfico de drogas têm levado as pessoas a se trancarem em suas casas e duvidarem de todos. Pelo poder da Palavra e do Espírito Santo, as pessoas são convertidas e integradas nas congregações. Porém, muitas vezes terão dificuldades para participarem de programações à noite, por falta de segurança. 10.Ativismo: O ativismo é outra barreira sutil e perigosa. Nos envolvemos em tantas atividades na igreja e ocupamos de maneira tal nosso tempo, que não nos sobra momentos de sociabilidade (muito importante no evangelismo pessoal). Falta-nos tempo para a família, parentes, vizinhos, etc. Algumas vezes, fazemos disso uma desculpa para “fugir” de determinadas atribuições. Mas, em meio à tantas “atividades inadiáveis”, somos exortados a buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (6.33). 11. Medo de testemunhar: Este medo pode se manifestar, por causa de algumas destas razões: a) Temor de ser rejeitado - ao falar de Cristo, você se expõe, define sua posição, mostra em que valores você crê. Obviamente, a possibilidade de rejeição existe, e é muito maior do que a possibilidade de ser respeitado em suas convicções cristãs. b) Temor de ser um fracasso - às vezes, não temos vergonha de testemunhar abertamente, mas tememos receber um "NÃO", ao tentarmos evangelizar alguém. Ou então, fracassarmos por não comunicarmos com clareza o plano da salvação.
  • 61. 61 c) Temor de se contaminar com os incrédulos - muitas pessoas, quando se converteram, foram erradamente instruídas a não cultivarem amizades com incrédulos. O desejo de santificação é muito positivo, mas algumas pessoas tem partido para radicalismos e exageros. O crente ser sal e luz, dentro da comunidade doente (Mt 5:13-16). Devemos ter muito cuidado com o conceito de sermos separados do mundo (Jo. 17:11, 14,15). O crente deve conhecer os problemas do seu tempo, para manter conversas inteligentes. Saiba dialogar sobre outros assuntos, além da Bíblia. Paulo, em Ef. 4:17 diz: "não andeis como andam os gentios". Mesmo andando entre os incrédulos, não devemos viver como eles, mas podemos viver entre eles. 12. Não saber como comunicar o evangelho: Muitas pessoas nunca prepararam seu testemunho escrito. Outras pessoas, nunca estudaram nenhum plano bíblico para evangelização. Pode ocorrer também a falta de capacidade, de como iniciar uma conversa, que viabilize a pregação do Evangelho. 13. Falta de confiança: Outra barreira é a falta de confiança. De certa forma, ela tem um aspecto positivo, pois nos ensina a humildade e a dependência de Deus. Outro aspecto, porém, precisa ser retirado de nossos pensamentos. Tal obra não é resultante de mero esforço humano, conseqüentemente, Aquele que nos comissionou, também nos capacitará. O apóstolo Paulo reconheceu-se fraco diante de tal missão. Escrevendo aos colossenses diz: Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou algemado; para que eu o manifeste, como devo fazer. Cl. 4:3,4 Se esta oração partiu dos lábios deste intrépido evangelista, não necessitaríamos também orar de maneira semelhante? Conhecer nossos temores e fraquezas é o ponto de partida para todo crescimento, porque esse conhecimento nos leva a orar por nós mesmos e requer de nós reconhecer, perante os outros, que não somos de maneira alguma adequados para as tarefas para as quais Deus nos chamou. A oração humilde tem que ser nosso ponto de partida. Deus é compreensivo e gracioso e certamente suprirá nossas limitações, nos dispondo a ajuda necessária para “dissipar nosso medo e nos dar ousadia de coração e palavra”. Quando vos levarem às sinagogas e perante os governadores e as autoridades, não vos preocupeis quanto ao modo por que respondereis, nem quanto às coisas que tiverdes de falar. Porque o Espírito vos ensinará, naquela mesma hora, as cousas que deveis dizer. (Lucas 12.11,12) XIII. ESTRATÉGIAS DE EVANGELIZAÇÃO URBANA Sabemos que a conversão de indivíduos ao Cristianismo, sua busca e transformação operados pela ação do Espírito Santo, se dá apenas mediante a pregação da Palavra e a
  • 62. 62 aplicação interna desta feita pelo Espírito Santo. Todavia devemos ter em mente que os meios que Deus utiliza para que a sua Palavra seja coloca e aplicada no coração dos seus eleitos faz uso de vários meios diferentes. Jerram Barrs sugere o seguinte quanto a este assunto: À medida que começamos a fazer perguntas àqueles que chegaram à fé, vamos descobrindo quão fiel e pacientemente Deus trabalhou na vida deles para conduzi-los ao ponto de compromisso. Descobrimos também que Deus usa de uma infinita variedade de meios para atrair as pessoas a ele130 Deus utiliza as características peculiares de cada um dos seus eleitos para chamá-los à salvação, afinal “como uma pessoa é única, assim também o caminho que Deus usa para atrair cada pessoa a ele é único”.131 A seguir descreveremos algumas estratégias de evangelização que poderão ser utilizadas nas cidades. 1. Formar Equipes de oração: O nosso primeiro passo na Evangelização deve ser a humildade diante de Deus em reconhecermos quem somos e quem Deus é, e isso nos leva a reconhecer a nossa dependência do Senhor. Em outras palavras, “Começamos com um apropriado senso de humildade sobre o nosso papel e sobre nossa capacitação para o trabalho diante de nós, e essa humildade deve nos levar à oração.”132. A Igreja precisa sentir o desejo de orar pelos ainda não convertidos.133 Um outro fator peculiarmente interessante é que Deus nos colocou em ‘famílias’134 e ele alegremente utiliza esse meio mais natural para a extensão de seu reino. Então, começamos a orar por aqueles com quem vivemos e amamos. Estes, acima de todos, devem ser as pessoas por quem nos importamos mais profundamente e oramos por eles.135 Uma outra frase interessante de Jerran Barrsé a que afirma que “Oração sincera, apaixonada, poderosa deve brotar dos nossos corações em favor daqueles a quem amamos, e daqueles cujas vidas são ligadas conosco, na teia da existência diária.” 136 Sem dúvidas um primeiro bom motivo para orarmos é “... pela obra do Espírito Santo nos corações e mentes daqueles que nos rodeiam. Sabemos que ele pode alcançar o íntimo, trabalhar suas mentes e corações, o que não podemos fazer.” 137 Mas, também devemos orar para que as portas se abram para nós, proclamadores da palavra de Deus. não devemos nos esquecer nunca que “Cristo prometeu reinar sobre as nações e sobre nossa vida pessoal por amor ao evangelho. Então podemos Ter certeza de que ele 130 BARRS, Jerram. A essência da evangelização. Editora Cultura Cristã. São Paulo. 2004. Página 95. 131 Ibid, página 95. 132 Jerram BARRS, A Essência da Evangelização, p. 44. 133 Cf. uma bela frase de PIPER sobre a oração na nota 15 desse trabalho. 134 A família tem um lugar de destaque na sociedade em geral. Essa verdade é reconhecida até por pessoas que não pertenciam a família cristã, como é o caso do filósofo J. J. ROUSSEAU (1712 – 1788) que afirma que “A mais antiga de todas as sociedades, e a única natural é a família.” (ROUSSEAU, Jean – Jacques, (s/d). Do Contrato Social e Discurso sobre a Economia Política. Tradução de Márcio Pugliesi & Norberto de Paula Lima. 7 ed., Curitiba – PR, Hermus Livraria. p. 18). 135 Jerram BARRS, op. cit., p. 44. 136 Ibid., p. 45. 137 BARRS, Jerram. A Essência da Evangelização. Tradução de Neuza B. da Silva. São Paulo – SP: Cultura Cristã. p. 47
  • 63. 63 responde nossas orações quando lhe pedimos para abrir as portas à medida que construímos relacionamentos com pessoas.” 138 Por mais que as vezes pensemos que Deus demora em responder nossas orações, não podemos jamais nos esquecer das palavras de Pedro que afirma que o Senhor não retarda a sua promessa. (Cf. II Pe. 3: 8 – 9). Isso é o que nos consola e fortalece quando desanimamos na missão de pregar o Evangelho ou em alguma outra questão de ansiedade que temos no dia a dia. É preciso orar por causa da extrema dureza do coração humano (Jr 3.17; 7.24; 11.8; 16.12; 18.12). O pecador tem “coração obstinado” (Is 46.12), “tendão de ferro no pescoço” e “testa de bronze” (Is 48.12). Ele carrega uma bagagem enorme de apatia, ignorância, cegueira, loucura, incredulidade, tradicionalismo, preconceito, soberba e servidão pecaminosa. É preciso orar porque só Deus é capaz de fazer o mais difícil de todos os transplantes: “Tirarei do peito deles o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” e “colocarei no íntimo deles um espírito novo” (Ez 11.19). 2. Testemunho pessoal: Cada cristão em particular, por ser parte da Igreja de Deus, tem a responsabilidade de se envolver no chamado missionário que Deus deu a Igreja.139 Duas passagens em particular me que observamos os apóstolos convidando aos crentes para participarem do trabalho de evangelização. ( Cl 4:5,6; I Pe 3:15,16) É preciso viver o que se prega, senão a evangelização torna-se uma hipocrisia. Essa incoerência entre conduta e mensagem gera indignação, desprezo, zombaria, escândalo, incredulidade e rejeição. Jesus deu muita ênfase à evangelização pelo exemplo, quando declarou francamente: “Vocês são o sal da terra para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser sal e não serve mais para nada; é jogado fora e pisado pelas pessoas que passam” (Mt 5.13, NTLH). No mesmo Sermão do Monte, Ele ensina que “uma cidade construída sobre a montanha não fica escondida” e “não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para todos os que estão em casa”. Em seguida, Jesus ordena: “Assim também, a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu” (Mt 5.14-16, CNBB e NTLH). Somos agora o que Jesus foi no passado: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9.5). A igualdade da missão de Jesus com a de seus discípulos aparece também na Grande Comissão: “Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei” (Jo 17.18). Aos coríntios, Paulo assume que, “como um perfume que se espalha por todos os lugares, somos usados por Deus para que Cristo seja conhecido por todas as pessoas” (2 Co 2.14, NTLH). Tornamos o evangelho conhecido mais pelo perfume do que pela palavra. Abusando da figura, é possível acrescentar: mais pelo olfato do que pela 138 Jerram BARRS, op. cit., p. 48. 139 Acertadamente sobre este assunto afirma PIPER: “Deus está nos chamando, acima de tudo, para sermos o tipo de pessoa cujos temas são a sua total supremacia em nossa vida. ninguém será capaz de elevar-se à magnificência da causa missionária, se não sentir a magnificência de Cristo. Não haverá nenhuma grande visão universal sem um grande Deus. Não haverá nenhuma paixão para atrair outros à adoração, se não houver nenhuma paixão pela adoração.” (PIPER, Jonh. Alegrem-se os Povos. A Supremacia de Deus em Missões. Tradução de Rubens Castilho. São Paulo – SP: Cultura Cristã, 2001. p. 43 – 44).
  • 64. 64 audição. Foi por isso que São Francisco de Assis disse: “Evangelize sempre; se necessário, use palavras”. Se o evangelho não alterou o nosso comportamento e continuamos iguais aos não convertidos, não temos como evangelizar, pois “a fé que não se traduz em ações é vã” (Tg 2.20) 3. Receptividade: Boa receptividade da parte dos membros é muito importante para com os visitantes à igreja. É necessário ter uma equipe treinada de recepcionistas, os quais darão atenção especial antes, durante e depois do culto aos visitantes e membros ausentes que retornam. Discretamente pode ser preenchida uma ficha com dados dos visitantes (nome, endereço, telefone, se aceita visita ou não) e esta ser entregue ao pastor ou à secretaria da igreja para que uma correspondência seja posteriormente enviada. Um cafezinho após o culto oportuniza a confraternização entre todos. 4. Grupos Familiares: É claro que os cristãos primitivos eram obrigados a fazer uso do lar, porque não lhes era permitido adquirir nenhuma propriedade, até o fim do século II. Não podiam, durante o governo de diversos imperadores, organizar grandes aglomerações públicas por causa das possíveis implicações políticas do ato. Em outras palavras, a Igreja nos três primeiros séculos de nossa era cresceu sem a ajuda de dois dos nossos mais estimados instrumentos: a evangelização de massa e a evangelização na igreja. Ao contrário disso, faziam uso do lar. No livro de Atos lemos acerca de lares usados extensivamente, como os de Jasão e Justo, de Filipe e da mãe de Marcos. Algumas vezes tratava-se de um culto devocional, outras vezes, de uma tarde de encontro e doutrinação, ou mesmo de um culto de comunhão. Podia ser também um encontro para reunir novos conversos, ou uma reunião com a casa cheia de novos interessados. Reuniões de improviso também aconteciam.140 O valor do lar em oposição ao culto mais formal da igreja, ou antes, como complemento dele, é óbvio. O lar possibilita fazer perguntas ao dirigente. Promove o diálogo. Torna possível distinguir as dificuldades. Facilita a comunhão. Pode, com extrema facilidade, desembocar numa ação e num serviço de caráter coletivo em que todos os diferentes membros do corpo desempenhem sua parte a contento.Igrejas iniciadas em casas é um dos modelos mais efetivos e comprovados para fazer crescer o Corpo de Cristo. Há múltiplas referências Bíblicas que apóiam o conceito da “Igreja em sua Casa”: (Atos 17:5; 16:15,32-34; 18:7; 21:8, I Co 16:19; Cl 4:15; Rm 16:5) 5. Equipe de visitação aos lares: Faz parte do testemunho pessoal. Porém aqui com a ênfase de ser feito periodicamente por um grupo de irmãos. Esta equipe de evangelização da igreja procurará semanalmente ir às casas dos visitantes (com dia e horário combinados) levando material de apoio, Bíblia, livretos, etc. 6. Plantação de igrejas: O crescimento das igrejas também acontece quando são iniciados pontos de pregação. Quantas igrejas têm expandido seu trabalho abrindo pontos de pregação em bairros onde residem vários membros ou às vezes apenas uma família, usando como local uma área simples, porém adequada. 140 CF. M. Green. Evangelização na Igreja Primitiva. São Paulo,SP: Vida Nova.
  • 65. 65 7. Distribuição de Folhetos: Ter disponíveis uma boa variedade de folhetos é o primeiro passo no hábito de distribuir folhetos. Oportunidades sem conta são perdidas porque não temos os folhetos na hora certa. Tenha folhetos no seu emprego, em sua casa, perto da porta, e na sua escrivaninha. O fato de você ter bons folhetos consigo a qualquer hora, capacitá-lo-á a aproveitar as muitas oportunidades de entregar a Palavra da Vida a uma criança, a um transeunte, a um companheiro de viagem. “Semeia pela manhã e tua semente, e à tarde não repouse a tua mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela, ou se ambas igualmente serão boas” (Ecl 11.6), 8. A Motivação Eis aqui um último aspecto que entendo ser de vital importância: A motivação é a chave para a evangelização. Se isso ardesse em nossas almas, não haveria necessidade de tantos congressos sobre evangelização. Michael Green141 diz que se perguntássemos aos cristãos primitivos, por que eles não perdiam a paixão para evangelizar, responde- riam: • O exemplo de Deus, que tanto se preocupou a ponto de mandar o seu próprio Filho ser missionário em nosso mundo. • O amor de Cristo, que nos constrange. Ele foi posto na cruz por nós. E nos diz para irmos em frente e passá-lo a outras pessoas. A evangelização é a resposta obediente ao amor de Cristo, que nos tem constrangido. • O dom do Espírito, que nos é dado especificamente para dar testemunho. A tarefa de evangelização do mundo e a cooperação do Espírito Santo são as duas características indica das por Jesus em relação à época entre a sua ascensão e a sua volta. Assim, os cristãos primitivos tinham por hábito basear a evangelização, clara e insofismavelmente, na natureza do Deus triúno. No coração dele repousa a missão. Mas havia mais três razões que os impeliam: 1. O privilégio de ser embaixador de Cristo, representante do Rei dos Reis. Nós recebemos esse ministério. Privilégio estupendo, esse! 2. A necessidade dos que não têm Cristo. Isso soa através do Novo Testamento e dos primeiros líderes da Igreja. Quando percebi que as pessoas sem Deus estão perdidas agora e também para todo o sempre, mesmo sendo gente boa, mesmo sendo minha família e meus amigos, foi então que fiz um propósito de gastar a minha vida em contar aos outros as fabulosas Boas Novas que Jesus trouxe ao mundo. 3. Finalmente, há o tremendo prazer da tarefa em si. Ela começa no Novo Testamento e é contagiosa. Os cristãos podiam ser presos, e cantavam louvores. Podiam mandá-los calar-se e eles falavam mais ainda. Se perseguidos, na próxima cidade divulgavam a mensagem. Se levados à morte, pereciam alegres, suplicando bênçãos para os seus algozes. É por essa razão que eu não trocaria essa missão de pregar o Evangelho por nenhuma outra ocupação no mundo. Isso é um privilégio enorme. A necessidade é urgente. Nessa tarefa, o homem se realiza totalmente. Fomos criados para isso. 141 GREEN, Op Cit. Pp.
  • 66. 66 VII. OITO DECISÕES PARA A IGREJA NO CONTEXTO URBANO: 1. Decidir fazer uma séria pesquisa sócio-demográfica do contexto onde a igreja encontra-se inserida. 2. Decidir desenvolver um ministério centrado na comunidade, no ministério do leigo e nos dons do Espírito. 3. Decidir saturar a comunidade local com o Evangelho de Cristo. 4. Decisão de mover para fora das quatro paredes da igreja local. (abandonar a mentalidade de gueto) 5. Decisão de proclamar o evangelho pela voz e pela vida, testemunhando em palavras e em obras, na missão integral da Igreja. 6. Decisão de mover para frente, mas somente em unidade. 7. Decisão de jamais barganhar o evangelho da Graça, em nenhuma circunstância. 8. Decisão de executar seriamente a tarefa da grande comissão do Senhor: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” (Mt 28:19). VIII. PRINCÍPIOS RELEVANTES PARA FAZER MISSÕES E EVANGELISMO EM UM CONTEXTO URBANO142 8.1. O reconhecimento de que o não cumprimento à Grande Comissão constitui-se num ato de desobediência a Deus (Mateus 28:18-20); 8.2. A premente necessidade de contemplar que os campos estão “brancos para a ceifa” (João 4:35); 8.3. Ênfase em um ministério eclesiástico que priorize a tarefa de fazer novos discípulos (Atos 1:8); 8.4. Multiplicação de líderes leigos que possam comunicar Cristo aos não salvos (Atos 8:1-4). 8.5. O Princípio da evangelização através do testemunho e do evangelismo pessoal: O índice de arrefecimento da fé entre os novos convertidos alcançados por evangelização em massa tende a ser 75%. Os esforços evangelísticos como grandes cruzadas, sem as raízes fincadas na igreja local, tende a ser movimentos com forte ênfase em decisões mais do que em discipulado. 8.6. O Princípio da Obediência: Um comum denominador na plantação de igrejas, é o inarredável compromisso de sermos a comunidade do compromisso com a Palavra. 8.7. O Princípio da pluralidade de lideranças locais: Nenhum homem é a expressão da mente de Deus... A pluralidade de líderes na Igreja local salvaguarda o ministro de toda e qualquer tendência de brincar de Deus sobre a comunidade. 8.8. O princípio de evitar Publicidade Sensacional: É importante que a igreja novamente imite o Senhor por aproximar do mundo evitando toda a publicidade sensacional. 8.9. O Princípio da Mobilidade: Nós precisamos enfrentar a verdade que Igrejas falham quando elas tornam-se prisioneiras de suas próprias estruturas e perdem sua mobilidade, confinando suas atividades dentro das paredes do santuário, sem visão evangelística e sem uma influência benfazeja dentro da sociedade. 142 Nascimento, Antônio José. Fundamentos Bíblicos e teológicos da Missão. (in: Apostila do curso de Missiologia do CPAJ – 2001 )
  • 67. 67 8.10. O Princípio de evitar quaisquer tipos de Sincretismos na tarefa de plantação de novas igrejas: Entre os inimigos da igreja incluem-se: a crença que cada um já é um cristão mesmo sem ter nascido de novo, e o relativismo moral e religioso. OS ELEMENTOS DA MISSÃO URBANA143 – MT. 9:35; 10:1 11.1. O Contexto da Missão Urbana : Lc 4:43; 8:1; 14:21,23 11.2. O Conteúdo da Missão urbana Jesus percorria as cidades e povoados fazendo três coisas: 1a ) Pregando (Kerigma ) : Salvação 2a ) Ensinando ( Didaskalia ) : Educação 3a ) Curando ( Diakonia ): Serviço 11.3. A Compaixão para a Missão Urbana (9:36) Segundo esta passagem existem três característica do homem urbano: 1a ) São pessoas aflitas: sentimento de angústia 2a ) São pessoas exaustas: cansadas 3a ) São pessoas desorientadas: sem rumo e direção 11.4. O Compromisso para a Missão Urbana – Mt 9:37,38 11.5. O Comissionamento para a Missão Urbana – Mt 9:37 – 10:1 XII. PASTOREANDO A CIDADE Roger Greenway144 sugere seis características que devemos ter no ministério urbano: 1. Aqueles que desejam servir na cidade devem aprender a amar a cidade. 2. Os trabalhadores cristãos devem conhecer a cidade 3. Os trabalhadores cristãos devem aprender a apreciar o corpo de Cristo existente na cidade. 4. Um trabalho bem sucedido implica em se condoer pela cidade. 5. Bons trabalhadores urbanos possuem uma paixão por evangelização profunda e genuína. 6. O trabalhador deve construir uma credibilidade genuína para ser eficaz no ministério urbano. 143 BARRO, Jorge Henrique. Ações Pastorais da Igreja com a Cidade. Londrina, Pr: Editora Descoberta. 2000. p. 24- 31 144 GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House. 1989. p.p. 246-260
  • 68. 68 MISSIOLOGIAMISSIOLOGIAMISSIOLOGIAMISSIOLOGIA Uma Perspectiva Bíblica-Reformada Perguntas para debate em classe: 1) Com relação a eleição de Israel, o autor faz três apontamentos. Quais? 2) Por que o autor fala da eleição de Israel como responsabilidade e não como privilégio ou favoritismo? 3) Com relação ao caráter missional, qual a diferença da prclamação e da presença? 4) Quais os meios que Israel iria cumprir sua missão ? 5) Quais as implicações para a missão da Igreja nos dias atuais? I. A NATUREZA E O PROPÓSITO MISSIONÁRIO DO POVO DE DEUS ANTIGO TESTAMENTO Ricardo Agreste da Silva Eleição e o Chamado de Israel Tendo em vista a proposta de redescoberta da natureza e do propósito do povo de Deus no Velho Testamento, somos naturalmente levados a olhar para Israel. A história de Israel tem seu início em Gênesis 12:1-3 quando Deus escolhe e chama Abraão com a finalidade de fazer, a partir dele, uma nova e grande nação.145 Embora esta promessa tenha colocado Abraão e seus descendentes num papel de grande visibilidade e importância na história da salvação, uma análise mais cuidadosa do evento que envolve sua eleição e chamado pode nos oferecer uma visão mais precisa acerca dos propósitos de Deus para com esta nova e grande nação que viria a surgir.146 Primeiramente, a eleição e o chamado de Abraão são inteiramente frutos da ação intencional de Deus. Como Hedlund observa, sendo Abraão um arameu de ascendência pagã (Gênesis 11:26-29) e originário de uma família idólatra (Josué 24:2), ele não poderia ter qualquer mérito na escolha de Deus.147 Assim, ao escolher e chamar Abraão, Deus estaria criando “um novo povo a partir da mais precisa realidade do que eram os demais povos do mundo”, escreve De Ridder .148 Da mesma forma que Abraão, seus descendentes deveriam lembrar-se constantemente que sua eleição e chamado não se baseavam em seus próprios méritos, mas na iniciativa de Deus em amá-los e chamá-los dentre as nações (Deuteronômio 7:6-8). Como Berkouwer afirma, “esta imerecida eleição excluia desde o princípio toda auto- confiança e toda pretensão dela derivada.”149 Em segundo lugar, a eleição e o chamado de Abraão são manifestações da graça de Deus para com um povo, mas visando todos os povos da terra. O contexto no qual Gênesis 12 está inserido, nos oferece um significado amplo e universal para o ato de Deus. Como Carriker demonstra, em Gênesis 12 encontramos a resposta de Deus para a dispersão humana (Gênesis 145 Johannes Blauw, The Missionary Nature of The Church: A Survey of The Biblicall Theology of Mission (Grand Rapids,: Eerdmans, 1974), 19. 146 Embora os termos hebraicos para eleição (Bahar ou Yadah) não estejam presentes em Gênesis 12: 1-3, Yadah aparece em Gênesis 18:19 indicando estar implícito no chamado de Abraão (Gênesis 12) sua eleição por Deus. 147 Roger E. Hedlund, The Mission of the Church in the World (Grand Rapids: Baker Book House, 1991), 37 148 Richard R. De Ridder, Discipling the Nations (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), 32 149 G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: The Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), 403
  • 69. 69 11:1-9), a qual é também o climax da história universal (Gênesis 1-11).150 Assim, podemos concordar com Blauw ao afirmar que toda a história de Israel nada mais é do que a continuação do interesse de Deus para com as nações, e portanto, a história de Israel pode ser entendida somente a partir do problema não resolvido na relação entre Deus e todas as nações.151 Desta forma, ao eleger e chamar Abraão, Deus não está lidando apenas com um homem ou um povo, mas com toda a criação e com toda humanidade. Através da escolha de Abraão, Deus está traçando o caminho para redimir todas as nações da terra. Como Verkuyl afirma que através de Israel, Deus prepara o caminho para alcançar Seus objetivos de abraçar o mundo. Escolhendo Israel, como um segmento de toda a humanidade, Deus nunca tira seus olhos das outras nações; Israel é o pars pro toto, a minoria chamada para servir à maioria.152 Em terceiro lugar, uma vez que a eleição e o chamado de Abraão apontam para o propósito universal de Deus, esta eleição e este chamado são para ser entendidos não como um mero privilégio, mas como uma responsabilidade para com as nações da terra.153 A eleição é um chamado para o serviço e envolve o dever de testemunhar entre as nações.154 Abraão e sua descendência foram comissionados para ser canal pelo qual outras nações seriam abençoadas. O mesmo Deus que em Gênesis 11 dispersa as nações sobre a terra, agora em Gênesis 12 comissiona Abraão para ser o instrumento pelo qual elas seriam novamente reunidas. Portanto, a eleição e o chamado não poderiam ser entendidos por Abraão e sua descendência como benefícios para seu próprio conforto e satisfação, mas para o serviço às nações junto a missão de Deus na história humana. Enfatizando isso, Newbigin escreve: Aqueles que são escolhidos para serem portadores das bençãos, são escolhidos em favor de todos… Novamente deve ser dito que eleição é para responsabilidade e não para privilégio… A Bíblia está cheia de referências ao propósito de Deus em abençoar todas as nações… há um processo de seleção: poucos são escolhidos para serem portadores do seu propósito; eles são escolhidos, não para benefício próprio, mas em favor de todos.155 Assim, podemos afirmar que a eleição e o chamado do povo de Deus no Velho Testamento têm sua base no propósito intencional, universal e missional de Deus na história da humanidade.156 Apesar de que o modo através do qual Israel viria a ser usado é desenvolvido ao longo da história da salvação, em Gênesis 12 podemos encontrar em forma embrionária a natureza e propósito do povo de Deus no mundo. Missão de Israel Embora o caráter intencional e universal do propósito de Deus na escolha e chamado de Israel sejam aceitos pela maioria dos teólogos e missiólogos, temos que reconhecer que o caráter missional deste propósito é assunto de grande controvérsia. Se entendermos “missional” como sendo exclusivamente a intenção de enviar um povo às nações para proclamar salvação nos moldes neo-testamentários, então devemos afirmar que o chamado e eleição de Israel não 150 Timóteo Carriker, Missão Integral (São Paulo: Editora Sepal, 1992), 45 151 Blauw, 19. O Deus que escolheu Abraão em Gênesis 12 é o mesmo único e poderoso Deus que no princípio criou os céus e a terra (Gênesis 1,2), que criou o homem à sua própria imagem como o centro de toda a criação (Gênesis 1,2), que prometeu, depois da queda humana, que um descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente (Gênesis 3), que enviou o dilúvio sobre a terra, que estabeleceu uma aliança com Noé e seus descendentes (Gênesis 5-10) e que dispersou as nações em Babel (Gênesis 11). De acordo com Blauw, a ligação entre o que é conhecido por Urgeschichte (Gênesis 1-11) e a origem de Israel (Gênesis 12) é convincentemente demonstrada por Gerhard Von Rad em Old Testament Theology Vol I (New York: Harper & Brothers, 1962), 136-175. 152 J. Verkuyl , Contemporary Missiology: An Introduction (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 91-92 153 Blauw, 23, e Hedlund, 37 154 Verkuyl, 94 155 Lesslie Newbigin, The Open Secret (Grand Rapids: Eerdamans, 1995), 32-34. Ênfase do autor. 156 Por “propósito universal de Deus” não quero dizer “salvação universal” sem a necessária resposta e compromisso de fé. Refiro-me aqui à intenção de Deus em levar a mensagem de reconciliação para todas as nações da terra.
  • 70. 70 possuem qualquer propósito missional. Com exceção de algumas porções encontradas em Isaías 40-55 e no livro de Jonas, não há qualquer ordem explícita para que Israel vá às nações e proclame salvação.157 No entanto, se considerarmos o caráter missional do chamado e eleição de Israel como algo que, apesar de não implicar explicitamente em “ir” exige o “testemunhar”, então estaremos concordando com a visão de que, apesar da missão do povo de Deus no Velho Testamento não ser estabelecida nas mesmas bases da missão da Igreja no Novo Testamento, isso não quer dizer que Israel não tenha missão. Existe na eleição e no chamado de Israel uma clara intenção de que sua existência no meio das nações seja um sinal que faça todos os povos se voltarem para Deus. Assim sendo, embora Israel não seja enviado a “ir”, é inquestionavelmente comissionado por Deus para “viver” entre as nações. Vendo Israel, as nações deveriam ser levadas a conhecer, temer, e servir a Deus. Como Hedlund afirma, Israel seria “servo, pregador e mediador de Deus em favor das nações… A existência de Israel era, então, para o serviço missionário.”158 Carriker também demonstra concordar com esta visão ao afirmar que embora a missão de Israel não implicasse em proclamação ou persuasão, sua presença evangelística entre as nações constituia-se em uma obrigação missionária.159 Portanto, em parte podemos concordar com Blauw ao caracterizar o propósito e a natureza missionária do povo de Deus no Velho Testamento por uma “consciência missionária centrípeta.”160 Entretanto, será sempre oportuno relembrar que esta ênfase “centrípeta” não significa ausência de missão, ou ainda, como Hahn entende, que a missão de Israel tinha “caráter completamente passivo.”161 Prefiro dizer que a missão do povo de Deus no Velho Testamento é dada em um padrão diferente daquele que a Igreja no Novo Testamento viria a receber, o qual é explicitamente “centrífugo” com uma clara ordem de proclamar salvação. Se concordarmos então que a eleição e o chamado de Israel possuem um propósito missional da parte de Deus, precisamos agora apontar os meios através dos quais Israel deveria cumprir sua missão como povo de Deus no mundo do Velho Testamento. Primeiramente, Israel é eleito e chamado para ser uma genuína teocracia e para assumir o papel sacerdotal entre todas as nações (Ex. 19:5-6). Como é bem colocado por Verkuyl, “Israel deveria ser um sinal para as outras nações que Yahweh é igualmente Criador e Libertador… e [Israel deveria ser] uma ponte para as outras nações.”162 Hedlund afirma que Israel estaria cumprindo seu papel missionário entre as nações ao viver como “um legítimo modelo do Reino de Deus no meio das nações.”163 Observando o estilo de vida social e moral de Israel (Dt 28:1,10), bem como sua dedicação exclusiva a Deus e seus mandamentos (Dt 10:12,13), outras nações chegariam ao reconhecimento de Deus como o único, verdadeiro e grande Deus (Dt 4:6-8).164 157 Blauw, 29-30. O propósito missionário no livro de Jonas tem sido amplamente questionado por muitos estudiosos. Para estes, ao invés de ser caracterizado como uma evidência no Velho Testamento de uma comissão missionária para ir às nações, o livro de Jonas nos apresenta a ira de Deus contra a tendência nacionalista de Israel (Veja Blauw, 41). Por outro lado, outros estudiosos entendem que, tendo sido Jonas enviado por Deus para proclamar salvação a outra nação, não podemos negar certa qualidade missionária inerente a este livro. (Veja Carriker, 155, Verkuyl, 96-100, e Roger Greenway, Apostoles a la Ciudad, Grand Rapids, Subcomision Literatura Cristiana - CRC, 198, 15-30) 158 Hedlund, 42 159 Carriker, 171 160 Blauw, 34 161 Ferdinand Hahn, Mission in the New Testament, (Londres: SCM, 1965), citado em Verkuyl, 94 162 Verkuyl, 94 163 Hedlund, 61 164 Idem, 39-40
  • 71. 71 Se cuidadosamente seguidos, os preceitos de Deus acerca da justiça, igualdade e ecologia trariam tamanha prosperidade e paz sobre Israel que outras nações iriam admitir a grande sabedoria da lei de Deus. Os preceitos sociais, econômicos e ecológicos da lei mosaica fariam de Israel uma maquete do Reino de Deus na terra. No entanto, como o Reino de Deus não deveria ser tido por acessível apenas a um povo, a mesma lei que, se obedecida, traria prosperidade e paz a Israel, também exortava Israel a não ser fechado para os outros povos da terra que viessem a viver sob a autoridade de Deus. É marcante na lei mosaica a constante preocupação acerca dos estrangeiros que viessem a viver entre Israel.165 Assim, se as leis sociais, econômicas e ecológicas dadas por Deus fossem observadas por Israel, estas seriam uma grande expressão não apenas de sabedoria, justiça e igualdade entre os Israelitas, mas também de graça e cuidado de Deus para com todos os povos da terra. Se, por um lado, através do estilo de vida de Israel as nações teriam a oportunidade de ver uma sociedade alternativa sob os valores e princípios de Deus, por outro lado, os atos poderosos de Deus na história de Israel mostrariam às nações quem realmente se encontrava no controle do curso da história humana. Os atos poderosos de Deus na história de Israel chamavam constantemente a atenção das nações para reconhecerem Yahweh como o único e verdadeiro Deus. Como Blauw observa, através da história de Israel, “Deus iria fazer seu poder conhecido, visível e tangível aos olhos de todas as nações e sob a vista de todos os povos.”166 Este propósito fica evidente ao observarmos alguns dos relatos das ações redentoras de Deus na história de Israel. Quando da libertação do cativeiro egípcio, Deus afirma que a intenção no envio das pragas era a de “mostrar-te o meu poder, e para que seja meu nome anunciado em toda a terra“ (Ex. 9:16). Quando relembrada a travessia do Mar Vermelho e do Rio Jordão, encontramos a explicação de que Deus havia feito isso “para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte: a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias” (Jos. 4:24). Antecedendo ao confronto entre Davi e Golias, a vitória de Davi é predita e aí “toda terra saberá que há um Deus em Israel” ( I Sam. 17:46). A consequência direta da libertação de Daniel da cova dos leões é o decreto real no qual o rei ordena: “em todo domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel“ (Dan. 6:25-27). E na reconstrução dos muros de Jerusalém, Neemias afirma que “todos os nossos inimigos temeram, todos os gentios nossos circunvizinhos … porque reconheceram que por intervenção de nosso Deus é que fizemos a obra” (Ne 6:15-16). Diretamente relacionada com os atos poderosos de Deus está a forma como Israel recorda e conta estes atos adorando ao Senhor. No livro dos Salmos encontramos inúmeras referências aos atos redentores de Deus os quais levam o salmista a proclamar a todas as nações o nome de Deus e convidá-las a vir a Jerusalém e reconhecer que Ele é o único Deus verdadeiro.167 Dessa forma, a adoração de Israel tem suas raízes na missão de Deus no mundo. A experiência da redenção leva Israel a adorar de forma missionária. A consequência disso, como Verkuyl afirma, é que “os gentios que também vêm a Israel e habitam como estrangeiros entre o povo de Deus, participam da adoração de Israel. Eles escutam dos feitos poderosos de Deus e juntam-se a Israel em canções de louvor.” 168 Este caráter da adoração de Israel é enfatizado por Orlando Costas quando escreve que a “adoração está intrinsicamente ligada às 165 A lei mosaica já previu a presença dos estrangeiros entre Israel. Por exemplo, eles eram explicitamente protegidos por algumas leis (Ex 22:21; 23:9; Lv 19:10,34; 23:22; 24:22; 25:6; Dt 10:19; 14:28ss; 24:14ss; 26:12ss),a observação dos dias sagrados e das festas os incluía (Ex 20:10; 23:12; Lv 16:29; Dt 5:14; 16:11,14) e muitas leis eram aplicadas igualmente para ambos o Israelita e o estrangeiro (Lv 17:8ss; 18:26; 22:18; 24:16; Dt 1:16; 26:11). Desta forma, De Ridder diz que “Israel não apenas vivia no meio das nações; os povos do mundo tinham também o direito de viver no seu meio… Deus sempre teve a visão de que estrangeiros seriam encontrados entre seu povo na terra em que habitava.” De Ridder, 41-42 166 Blauw, 37. 167 Por exemplo: Salmos 67, 96, 98, 100, 117, 148, etc. 168 Verkuyl, 94-95
  • 72. 72 ações de Deus na história e à conversão das nações a Deus. Adoração, em sua dimensão humana, surge da missão. É um resultado espontâneo da experiência de rendenção.”169 Portanto, podemos concluir dizendo que enquanto o estilo de vida de Israel deveria ser um modelo do Reino de Deus entre as nações, os atos poderosos de Deus na história de Israel seriam a demonstração da soberania de Deus sobre as nações e a adoração de Israel deveria ser o convite para que as nações viessem a Jerusalém e se rendessem ao único Deus verdadeiro. Aqui encontramos como a natureza e o propósito missionário do povo de Deus no Velho Testamento deveriam se expressar através da vida de Israel, como povo de Deus no mundo de então. Falha e Expectativa de Renovação Infelizmente o desenvolvimento da história de Israel nos mostra que ao invés de tornar o nome de Deus conhecido e temido entre os povos da terra, Israel o profanou aos olhos de todas as nações (Ez. 36:22-23). Ele se afastou de Deus para a presença dos ídolos (Jr. 5:19; 18:15; Ez. 14:5-6). Seus líderes e juízes tornaram-se corruptos, favorecendo o rico e oprimindo o pobre (Is. 3:14-15; Am. 2:6-8; 5:7,10-12; Mi. 3:1-4, 9-11). A desigualdade econômica e social prevaleceu (Is. 5:8; Am. 4:1, Mi. 2:1-5). Seus pastores eram falsos (Mi. 3:11; Os. 5:1) e os profetas profissionais mentirosos (Ez. 13:2, 17; Mi. 3:5-8, 11). Mesmo diante do chamado de Deus para o arrependimento, Israel gradualmente se esqueceu da sua natureza particular como povo de Deus e do seu propósito especial para servir entre as nações. A perda de foco e o consequente desvio dos propósitos de Deus podem ser exemplificados com a narrativa do livro de Jonas. Aqui, encontramos a visão desenvolvida por Israel na qual todas as outras nações eram compreendidas apenas como detalhes no propósito maior de Yahweh em relação a Israel. Como J.H.Stek comenta, “o povo escolhido tinha desenvolvido uma quase total cegueira para o fato fundamental de que Israel havia sido separado não para privilégio mas para serviço, de que Israel tinha sido escolhido como instrumento de Yahweh para seu testemunho ao mundo (Is. 43:10-12).”170 Isto leva Verkuyl a afirmar que “Jonas é o pai de todos os cristãos que desejam os benefícios e as bênçãos da eleição, mas recusam sua responsabilidade.”171 Consequentemente, como Bright aponta, “uma nação apóstata não pode ser povo de Deus.“172 Desde que o chamado e a eleição de Israel não eram para ser entendidos como privilégios mas como responsabilidade para com o mundo, “se a responsabilidade é recusada, a eleição torna-se um motivo ainda mais forte para punição divina: “De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades” (Am 3:2).”173 Israel, como entidade política, não poderia ser mais chamado “povo de Deus”. Portanto, começando com o reino do norte, e mais tarde alcançando Judá, o julgamento de Deus veio sobre ele (Am. 5:2, 8:2, 9:8-10; Is. 3:1ss, Mi. 3:12). Entretanto, é no mesmo contexto do anúncio da punição que emerge nos escritos proféticos o tema do “remanescente.” 174 O profeta declara, “Eis que os olhos do Senhor Deus estão contra este reino pecador, e eu o destruirei de sobre a face da terra; mas não destruirei de 169 Orlando Costas, The Integrity of Mission, The Inner Life and Outreach of the Church, (San Francisco: Happer & Row, 1979), 90 170 J. H. Stek, “The Message of the Book of Jonah”, Calvin Theological Journal 4, (1969): 23-50 171 Verkuyl, 100 172 J. Bright, The Kingdom of God: The Biblical Concept and Its Meaning for the Church (Nashville: Abingdon- Coresbury, 1953), 74, citado por Hedlund, 105 173 Blauw, 23. 174 Carriker nota que embora o conceito do remanescente é especialmente desenvolvido nos escritos proféticos, o conceito já está presente na história da salvação. Por exemplo: Noé, Abraão, Isaque e Jacó foram escolhidos dentre outros. Carriker, 142
  • 73. 73 todo a casa de Jacó, diz o Senhor” (Am 9:8). O remanescente de Israel torna-se parte da “redução progressiva” a qual Blauw define como sendo: Humanidade >>> Israel >>> Remanescente de Israel >>> Servo do Senhor175 Desde que Israel, como nação, havia falhado em sua missão, seria agora representado pelo remanescente que é, em última análise, apresentado na figura do Servo do Senhor em Isaías.176 Através de seu sofrimento ele traria o “fim dos tempos” dentro da história da salvação e os confins da terra seriam alcançados por sua mensagem de salvação. Desta forma, a “redução progressiva” se torna uma “expansão progressiva” caracterizada como: Messias >>> Apóstolos >>> Israel >>> Gentios >>> Humanidade177 Algumas Implicações 1. A Necessária Reavaliação da Natureza e do Propósito da Igreja Local Para igrejas em cidades brasileiras, a redescoberta do propósito intencional, universal, e missional de Deus para com seu povo pode causar grande impacto, tanto na sua forma de pensar, como também de agir como povo de Deus. Primeiramente, como aqueles que foram eleitos e chamados para ser parte integrante do povo de Deus nas cidades brasileiras, temos que reconhecer que a diferença entre nós e aqueles que ainda estão envolvidos pela idolatria, misticismo e sincretismo religioso, reside apenas na ação intencional que Deus teve um dia para conosco. Precisamos considerar que a distinção entre nós e aqueles que ainda estão envolvidos por toda forma de imoralidade, vícios e materialismo reside tão somente na graça de Deus. Esta compreensão nos levará, como igrejas, a evitar toda forma de orgulho religioso ou sentimento de superioridade, bem como a consequente separação geográfica em relação as pessoas que nos cercam. Como povo de Deus nas cidades brasileiras precisamos aprender acerca do sentimento de Jesus quando ora: “Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo.17:15). Em segundo lugar, precisamos perceber que a ação intencional de Deus nos dando “vida juntamente com Cristo” não é apenas um “dom de Deus”, mas também uma responsabilidade para com aqueles que nos cercam, pois somos agora “feitura dele, criados em Cristo para boas obras” (Ef.2:1-10). Como Abraão foi chamado para ser uma bênção para todas as nações da terra, em Jesus fomos escolhidos e chamados para sermos sal da terra e luz do mundo (Mat. 5:13-16). Assim como Israel, fomos eleitos e chamados não apenas para ser “depósito” das bêncãos de Deus, mas principalmente “canal” para que estas cheguem a todo homem e mulher residente nas cidades brasileiras. A correta compreensão acerca dos propósitos de Deus para seu povo nos protegerá da “síndrome de Jonas” a qual induz crentes a compreenderem os conceitos de eleição e de chamado apenas como fonte de benefícios exclusivos e não como base para responsabilidades. A percepção das implicações de nossa eleição e de nosso chamado para sermos povo de Deus nas cidades brasileiras fará de nossas igrejas locais comunidades de serviço onde pessoas cansadas encontram abrigo, pessoas feridas são curadas e pessoas perdidas encontram salvação. Em terceiro lugar, uma vez compreendido nosso papel como veículos das bênçãos de Deus aos povos da terra, precisamos reavaliar nossas atividades e estruturas comunitárias, tendo 175 Blauw, 91 176 Aqui temos o climax do propósito intencional, universal e missional de Deus no Velho Testamento. Muitos autores têm concordado que a identidade do Servo do Senhor aqui deve ser vista com certa “fluidez”. Veja H. H. Rowler, The Missionary Message of the Old Testament (London: Carey Kingsgate, 1945) citado em Hedlund, 111; Bright, 150-151 e Carriker, 146. O Servo é algumas vezes identificado como o resto de Israel chamado para ser uma comunidade missionária entre as nações. Mas, também o Servo é um indivíduo que encorpora a missão de Israel em si mesmo. Hedlund conclui que “é correto, então, entender o Servo como ambos, Cristo e Israel, enviado ao mundo das nações como um mensageiro de Yahweh. Hedlund, 111 177 Blauw, 91 e Carriker, 143
  • 74. 74 em vista uma postura missionária mais clara e objetiva em relação a população urbana brasileira. Assim como os primeiros discípulos foram chamados para ir e dar frutos, e frutos que permanecessem, nós também fomos chamados por Deus e enviados a gerar frutos nas cidades brasileiras (Jo.15:16). De acordo com as últimas palavras do nosso Senhor, “fazer discípulos” não é um detalhe ou apêndice na vida daqueles que o seguem ou nas estruturas das comunidades que chamam pelo seu nome (Mat.28:18-20). “Fazer discípulos” é um imperativo dado por aquele que recebeu “toda autoridade … no céu e na terra.” Assim, como igrejas nas cidades brasileiras, precisamos reavaliar-nos visando nos tornar comunidades evangelisticamente orientadas nas quais as pessoas sejam bem vindas e os crentes treinados para serem missionários no seu próprio contexto. 2. A “Presença” Como a Base Para a “Proclamação” Muitos são aqueles que falam de missões a partir da Igreja de Atos dos Apóstolos e entendem que nada temos para aprender dos moldes missionários estabelecidos por Deus para o povo de Israel. Parte desta rejeição encontra-se na argumentação de que a missão de Israel foi caracterizada por uma ênfase centrípeta ou, como é normalmente chamada nos meios missiológicos, pelo testemunho de presença; enquanto a Igreja do Novo Testamento recebe um mandamento caracterizado pela ação centrífuga e grandemente identificado com o testemunho verbal (Mt. 28:18-20). Entretanto, embora a igreja do Novo Testamento tenha recebido de fato um mandamento de “ir” e “proclamar” o evangelho para todas as nações, a importância do testemunho de presença nunca foi negada por Jesus, ou mesmo pela prática da igreja primitiva. Por exemplo, no sermão do monte, climax de seus ensinamentos, Jesus afirma: Vós sois o Sal da Terra… Vós sois a Luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” ( Mt. 5:13-17). Observando a comunidade cristã primitiva, podemos também constatar que esta testemunhava não apenas pela proclamação (At. 2:1-41), mas também pelas suas obras e estilo de vida (At. 2:44-47). A consequência disso é que a comunidade cristã contava com “ a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At. 2:47). Mais tarde, escrevendo para a Igreja em Filipos, Paulo encoraja aquela comunidade a ser como “filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fil. 2:14). Assim, creio que podemos afirmar que o testemunho cristão através do estilo de vida da igreja é parte essencial na sua missão e base para sua proclamação. Enquanto a mensagem da Igreja aponta para Jesus como Salvador e Senhor de todas as coisas e convida pessoas a renderem-se aos seus pés, seu estilo de vida funciona como a hermenêutica para compreensão de sua mensagem, ou a lente através da qual pode tornar-se conhecida e pela qual pode ser completamente interpretada.178 Como Berkouwer diz, porcausa da “distância entre suas palavras e seus atos, as palavras da Igreja podem não ter mais nenhum poder.”179 Parece me apropriado chamar a atenção para este aspecto da missão da Igreja num país onde os escandalos envolvendo evangélicos tem crescido tão rapidamente quanto a membresia das igrejas e onde o crescimento númerico não tem sido acompanhado por uma visível transformação de valores éticos e morais, tanto na vida dos crentes, como no contexto social em que vivem. É tempo de lembrarmos que, embora o crescimento numérico da igreja seja bíblico e importante, este é apenas uma dimensão do crescimento integral que uma igreja bíblica deve objetivar. Orlando Costas enfatiza que a igreja deve também buscar o crescimento “reflexivo”, “orgânico” e “estrutural.”180 Quando não há crecimento no envolvimento da Igreja nos problemas estruturais e históricos, nas lutas pessoais e coletivas da sociedade, então seu trabalho 178 Leslie Newbigin, Sign of the Kingdom, (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 19 179 Berkouwer, 413 180 Orlando Costas, Christ Outside the Gate (Marynoll, NY: Orbis, 1982), 43-54
  • 75. 75 evangelístico, seu desenvolvimento orgânico e sua reflexão teológica levam a missão a uma redução.181 Valdir Steuernagel também nos alerta para o fato de que o resultado da evangelização não pode ser apenas medido por números. Deve ser medido também pela qualidade de vida que é produzida, pela ação das igrejas que emergem, pelo impacto do testemunho que se dá diante da sociedade, pelo serviço que é prestado aos necessitados, pela coragem com que o evangelho é anunciado.182 As cidades brasileiras serão certamente impactadas quando as pessoas começarem a notar que o número de crianças de rua tem diminuído, as condições das escolas tem melhorado, homens e mulheres de rua tem sido treinadas e habilitadas a trabalhar e ter um lar, órfãos e viúvas têm tido suas necessidades supridas, vozes tem se levantado para exigir mudanças de leis injustas e atitudes objetivas contra a corrupção política e financeira nos meios governamentais. Que surpresa o povo brasileiro terá quando perceber que por detrás de cada uma dessas atitudes existe um cristão ou uma igreja comprometida não apenas com o discurso, mas com a prática da fé e com um estilo de vida coerente a mesma. 3. A Adoração como Evento Missionário Outro importante elemento da missão de Israel que deve ser cuidadosamente observado por nós nas cidades brasileiras é o lugar da adoração na vida do povo de Deus. Como vimos anteriormente, a adoração no Velho Testamento era um evento essencialmente missionário. Tempo de adoração era tempo de celebrar e anunciar o que Deus havia feito. Através da adoração as nações eram convidadas para vir e viver sob os princípios e valores deste Deus gracioso e poderoso. Além disso, através da adoração que relembrava o que Deus havia feito na história de Israel, adoradores eram encorajados diante dos novos desafios emergentes. Desta forma, a adoração em Israel era ao mesmo tempo, consequência da missão de Deus no mundo e fonte de encorajamento para o engajamento de adoradores nesta missão. Como Orlando Costas bem define esta relação missão-adoração: Missão é a culminação e a antecipação da adoração… Liturgia sem missão é como um rio sem uma fonte. Missão sem adoração é como um rio sem o mar… Sem um o outro perde sua vitalidade e seu significado. 183 Por um lado, esta perspectiva nos desafia como igrejas a termos um estilo litúrgico no qual a ação de Deus possa ser expressa como uma realidade presente na vida dos crentes. A adoração se torna mais viva e objetiva a medida que se declara e proclama o que Deus tem feito ao longo da história de seu povo e na vida daqueles que o servem. Esta ênfase implica também na habilidade do líder comunitário em identificar e sensibilizar sua comunidade para com a ação de Deus no mundo contemporâneo, bem como na vida da igreja local. Por outro lado, esta perspectiva nos dasafia como igrejas a termos um estilo litúrgico no qual a adoração a Deus se torne fonte motivadora para o engajamento missionário consciente da igreja no mundo. Num contexto histórico e social em que o “tempo de louvor” tem sido tão fortemente caracterizado pela dicotomia entre o que se canta e o que se vive, se faz necessário a redescoberta da adoração bíblica, através da qual, a adoração vigorosa e o engajamento missionário certamente serão reintegrados na vida do povo de Deus. Assim, como Costas afirma: “o teste de uma experiência vigorosa de adoração será uma participação dinâmica na missão. O teste de um envolvimento missional fiel será uma profunda experiência de adoração.“184 181 Idem, 47 182 Valdir R. Steuernagel, A Serviço do Reino, (Belo Horizonte, Missão Editora, 1992), 150 183 Orlando Costas, The Integrity of Mission (New York: Harper & Row, 1979), 91 184 Costas, Christ Outside the Gate, 13
  • 76. 76 Leituras Sugiro outras leituaras para ajudar a entender o texto do Ricardo Agreste: A Base Bíblica do Mandato Missionário Mundial, Johannes Verkuyl in: Winter, Ralph D. Missões Transculturais – Uma perspectiva Bíblica. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1996. pp. 40-53 A Chamada Missionária de Israel, Walter C. Kaiser Jr. In: Winter, Ralph D. Missões Transculturais – Uma perspectiva Bíblica. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1996. pp. 28-39
  • 77. 77 II. PARADIGMAS MISSIOLÓGICOS NO NOVO TESTAMENTO Gildásio J. B. dos Reis NNNNo Novo Testamento há vários paradigmas missiológicos185 que dão diferentes perspectivas de missão. Por exemplo, os primeiros quatro livros do Novo Testamento não são simplesmente biografias de Jesus e sim são "evangelhos", histórias com uma mensagem específica. Johannes Verkuyl186 , diz que: “Do começo ao fim, o Novo Testamento é um livro missionário. Ele deve sua própria existência ao trabalho missionário das igrejas cristãs primitivas, tanto a judia como a helenística.Os Evangelhos são ‘recordações vivas’ da pregação missionária, e as Epístolas, mais do que uma forma de apologética missionária, são instrumentos atuais e autênticos do trabalho missionário”187 O fato de que temos quatro destes, mostra que, sob a direção do Espírito Santo, os autores estão dando sua perspectiva sobre o evangelho e a missão. Cada "evangelho" é uma apresentação contextualizada com base na mensagem cristã para um grupo de leitores específico188 , trazendo a mensagem relevante a eles em sua situação em particular. Não dizemos que um se contradiz ao outro sendo que são como diferentes faces de uma mesma moeda. Quando a luz se põe em um lado, mostra um aspecto e quando se põe em outro lado se vê outro aspecto. Declarações complementares sobre a Grande Comissão189 Passagem Autoridade Capacitação Esfera Mensagem Atividades Mt 28:18-20 A autoridade dada a Cristo: Todo poder no céu e na terra Cristo está conosco até o fim da era As nações gentias Todas as coisas que Cristo ordenou Discipular por meio de: ir, batizar e ensinar Mc 16:15 Em Seu Nome A promessa do pai (poder) O Mundo Inteiro (toda a criatura ) O Evangelho Ide e pregai (proclamai) Lc 24:46-49 Todas as nações começando de Jerusalém Arrependimento de pecados Pregar e testemunhar João 20:21 Enviados por Cristo assim como Cristo foi enviado pelo Pai Atos 1:8 Poder do Espírito Jesrusalém, Judéia e samaria, e até os confins da terra, Cristo Testemunhar 185 BOSCH, David J. Missão Transformadora – Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 2002. São Leopoldo, RS. Ed Sinodal, p.15. 186 Johannes Verkuyl, foi prisioneiro durante a segunda guerra mundial na Indonésia, em 1963 retornou a Holanda e assumiu o cargo de secretário Geral do Conselho Missionário holandês. Dois anos mais tarde aceitou a nomeação como o sucessor a J. H. Bavinck na universidade reformada livre de Amsterdã. Aposentou-se lá em 1978 como o professor e chefe do Departamento de Missiologia e Evangelismo. 187 Em sua obra Comtemporary Missiology citado por Roger Greenway in: Ide e Fazei Discípulos. São Paulo,SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. p.49 (Cf. também CARRIKER, Timóteo. O Caminho Missionário de Deus Uma teologia bíblica de missões. 3. ed. Brasília – DF: Palavra, 2005. p. 201) 188 Mateus foi escrito para os judeus, para ensiná-los sobre Jesus e fazer deles o apoio para a missão da igreja junto aos gentios. Marcos era um “tratado” missionário para os gentios que precisavam de um breve relato sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. Lucas, um gentio convertido à fé em Jesus, escreveu para os gentios como ele, os quais precisavam saber que Jesus os queria em seu Reino tanto quanto os judeus. João abertamente declarou seu propósito missionário: “Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Jo 20.31. 189 Extraído de David J. Hesselgrave: Comunicação Transcultural. (Grand Rapids: Zondervan, 1978), p. 54.
  • 78. 78 I. Missão em Mateus: Fazendo discípulos Em Mateus, "a grande comissão" é o versículo mais citado, e tem sido o slogan para muitas conferencias missionárias e escritos de capacitação missionária. Mas, mesmo sendo muito importante, Mateus 28.16-20 não é tudo o que se pode dizer sobre a missão em Mateus. Hoje em dia se reconhece que esta última passagem é o clímax do evangelho e não somente por que contém os últimos versículos, sendo que os temas da grande comissão são como fios de ensino que correm ao longo do evangelho e se convergem nesta passagem.190 Natureza Trinitária da Missão A. Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra O Pai dá ao Filho a onipotência. B. Portanto, fazei discípulos de todas as nações Mandato: Fazer nas nações discípulos do Filho. batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Batizar as nações no nome trino. B. Ensinado-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado Mandato:Ensinando-lhes a obedecerem o ensino do Filho. A. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. O Filho promete sua onipresença por meio do Espírito Santo Antes de mostrar isto, quero destacar alguns elementos sobre a forma da comissão em si. Primeiro, podemos ver que se está escrito na forma de um 'quiasmus' com os três membros da Trindade envolvidos mais com o enfoque no Filho. Isto mostra a natureza trinitária da missão e a natureza missionária da Trindade e assinala que a missão não é, somente um mandato de Cristo sendo uma expressão do processo de envio entre o Pai, Filho e o Espírito Santo. A missão nasce, não da natureza da igreja e sim da de Deus. A missão para Mateus é primariamente a Missio Dei (a missão de Deus) não a missão da igreja. A missão da igreja provém de a Missio Dei e a serve. Observe o que Carriker afirma sobre a origem da missão: Através de toda a revelação bíblica se torna patente que o principal agente no drama é Deus. "No princípio criou Deus ..." É Deus quem cria, quem julga, quem age, quem escolhe, e quem se revela. Ele é ativo não só na criação, mas também nos julgamentos, na libertação do seu povo do Egito, nas exortações dos seus profetas e na promessa de restauração vindoura. Ele é o único e verdadeiro Deus e deseja que sua glória seja conhecida nos céus (Salmo 19) e nas extremidades da terra (Isaías 11.9). Portanto, "missão" é uma categoria que pertence a Deus. A missão, antes de ter uma conotação humana que fala da tarefa da igreja, antes de ser da igreja, é de Deus. Esta perspectiva nos guarda contra toda atitude de auto-suficiência e independência na tarefa missionária. Se a missão é de Deus, então é dEle que a igreja deve depender na sua participação na tarefa. Isto implica numa profunda atitude de humildade e de oração para a capacitação missionária, uma dependência confiante em Deus, em vez da independência característica da queda, do dilúvio, da torre de Babel e do próprio cativeiro. 190 Bosch, Missão Transformadora. 1991 p.57.
  • 79. 79 Por outro lado, se a missão é de Deus, temos a segurança de que é Deus quem está comandando a expansão do seu reino, nos seus termos, e isto nos dá plena convicção de que ele realizará os seus propósitos.191 Em segundo lugar, a grande comissão estabelece uma missão abrangente. Note-se o "todos". A autoridade que o Pai entrega ao Filho abrange "toda autoridade", a missão que Filho entrega a seus discípulos abrange "todas as nações", o ensino que deve ter abrange tudo o que Jesus lhes havia dado e a missão durará "todos os dias". 1. Grande Comissão como Clímax Todo o evangelho de Mateus tem haver com missão, porque, como já temos dito, cada elemento da grande comissão é um sumário do ensino que ocorre por todo o livro. A) A AUTORIDADE DA MISSÃO: Primeiro a autoridade que é dada a Cristo. É com a autoridade de Cristo ressuscitado que Jesus comissiona seus discípulos a realizarem a missão. Agora devido a morte obediente do servo de Deus, "toda autoridade no céu e na terra" foi dada a ele pelo Pai. Não é dizer que Jesus não tinha autoridade antes, "sua autoridade não é mais absoluta, e sim mais extensa"192 . Note o advérbio no início da sentença “Portanto”. Ou seja, a Missão é consequência natural da coroação do Senhor ressurreto e da autoridade que isto trás. Sobre a entrega da autoridade do Pai ao Filho tem sua referência em Daniel 7:13-14. Um como Filho do Homem se aproxima do Ancião de Dias "e se lhe deu autoridade, poder e majestade. Todos os povos, nações e línguas o adorarão! Seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e seu reino jamais será destruído!" Ao usar estas palavras de Jesus, Mateus nos ensina que a autoridade é para que o Filho do Homem193 reine sobre todas as nações e para sempre. A autoridade do Filho do Homem tem o elemento universal no sentido geográfico e cronológico. Missão ocorre em todo lugar onde o senhorio de Cristo não penetrou ainda.Missões é a manifestação de seu senhorio universal. Mas, a autoridade de Jesus se expressa claramente em várias formas ao longo de todo o evangelho. Se vê nos títulos usados para Jesus: Filho de Davi (1.1), Filho de Abraão (1.1), Senhor e Filho do Homem (8.20; 9.6; 10.23; 11.19; 12.8, 32, 40; 13.37, 41; 16.13, 27-28; 17.9, 12, 22; 19.28; 20.18; 20.28; 24.27, 30, 37, 39, 44; 25.31; 26.2, 24, 45, 64), e Filho de Deus (8.29; 14.33; 26.63; 27. 40, 54) todos mostram autoridade de uma forma ou outra. Também se vê nas narrativas de seu nascimento. Com a participação de pessoas importantes como o Espírito Santo, os anjos, os reis magos, etc. (1.20, 21, 23; 2.2, 6, 11-13) vemos que este bebe é especial. Sendo assim, Jesus tem autoridade em seu ministério para curar, expulsar demônios (4.10; 8.9, 13, 32; 9.8; 10.1; 17.18), tem autoridade para ensinar e re-interpretar as escrituras (5.22, 28, 32, 34, 39, 44; 7.29; 21.23-24), especialmente quanto ao Sábado (12.8) e ao perdão dos pecados (9.6). Então, a autoridade de Jesus em sua vida e no ministério, nos prepara para a autoridade completa que recebe depois da ressurreição (28.18). B) A TAREFA DA MISSÃO: O verbo principal na comissão de Mateus é fazer discípulos194 , não ir, nem batizar, nem ensinar. Fazer discípulos é o imperativo enquanto os outros são particípios. A construção gramatical nos leva à conclusão razoável que o objetivo principal da Grande Comissão é fazer discípulos; enquanto que ir, batizar e ensinar são meios essenciais para este fim, mas não são fins em si mesmos."195 É a tarefa e não a localidade que é importante. 191 Timóteo Carriker no capítulo nove do livro Missão Integral: Uma teologia bíblica, Ed. SEPAL, 1992. 192 CARSON, D. The gospel of John (Leicester: IVP, 1984 p.594) 193 Filho do Homem é usado 31 vezes em Mateus (Marcos 14x; Lucas 26x [João 12x]). 194 HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento - Mateus. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. 195 CARRIKER, Timóteo. O Caminho Missionário de Deus. São Paulo, SP: Ed. Sepal. 2000. p. 205
  • 80. 80 Nestes versículos temos quatro verbos: matheteusate (imperativo aoristo ativo), poreuthentes (particípio aoristo passivo), baptízontes (particípio presente ativo) e didaskontes (particípio presente ativo). O verbo principal e, também, aquele que constitui o coração da perícope, como dito acima, é matheteusate (BOSCH, 1996, p. 73). Os demais particípios, pelo simples fato de serem particípios, denotam o meio, "o modo de emprego relacionado a ação do verbo principal" (LASOR, 1990, p. 77; CHAMBERLAIM, 1989, p. 128). Bosch comenta que os particípios estão subordinados ao verbo principal e que estes descrevem a forma pelo qual o fazer discípulos será tomada. (BOSCH, 1996, p. 73).196 Definição de Discipulo: Se a tarefa da missão é fazer discípulos, como podemos definir “discipulo”? A palavra grega mathetes quer dizer alguém que aprende, pois no Novo Testamento um discípulo denota os homens que estão ligados a Jesus como seu mestre. Como diz Macarthur, “a essência do verdadeiro discipulado é um compromisso pessoal de ser como Jesus Cristo”197 . Os 'discípulos' são "cristãos verdadeiros...que se comprometem com Cristo sem condições, que contém na palavra...que levam sua cruz, que tem um testemunho cristão por toda sua vida. É dizer, demonstrar uma vida transformada e poder ser identificado por seu fruto Como realizar a missão: Se o verbo principal (fazer discípulos) nos mostra o que é a missão, os dois particípios (batizando e ensinando) nos mostra como fazê-la. Batizando: O batismo é importante por que foi mais que um testemunho pessoal do novo crente sendo um rito de passagem que assinala a inclusão do discípulo na comunidade de fé, ou seja, a igreja. Mateus enfatiza muito o rol da comunidade na missão e este rol sacerdotal do batismo se realiza pela comunidade. Mateus é o único evangelista que usa a palavra ekklesia (igreja) em seu evangelho (ver Mateus 16.18 e 18.17) e no quarto discurso de Jesus em Mateus o enfoque é na vida da comunidade missionária (18.1-35). A fórmula trinitaria do batismo é importante porque, como disse Barth, é no batismo que "um gentio se faz discípulo quando está seguro que pertence ao Pai, Filhoe Espírito Santo198 " e incorporado na igreja. Ensinando: O outro aspecto de ensinar é, para Mateus essencial para a obra missionária. Jesus dedica muito tempo em Mateus para ensinar a seus discípulos. Mateus inclui cinco discursos importantes de Jesus em seu evangelho que formam uma estrutura para todo o livro (5:3- 7:13- 27; 10:5-42; 13:1-46; 18.1-35; 23.1- 46)199 . Muito do ensino de Jesus foi sumamente ética e como já temos visto, no Antigo Testamento a ética é essencial se as nações passam a conhecer a Deus. Principalmente o que ensinava, foi a obediência que não se faz por discursos e sim por modelo. E a última instrução também se inclui no ensino, a de fazer discípulos. Então a missão para Mateus não termina até que o discípulo esteja fazendo discípulos. Então a missão é constante, discípulos fazendo discípulos, que fazem discípulos. C) A PROMESSA DA MISSÃO: Finalmente, Jesus promete sua presença por meio do Espírito Santo. A presença de Deus na missão de Jesus forma uma inclusão no evangelho de Mateus. A princípio Mateus registra que o anjo dá a Jesus o nome de Emanuel, e porém entenda-se que Mateus está escrevendo para os judeus onde se traduz “Deus conosco”, obviamente enfatizando o ponto. A presença permanente do Senhor ressuscitado em sua igreja missionaria a sustentará e animará até que termine a era e seja completo o triunfo do reino de Deus. Então desde o princípio e ao fim a presença de Deus se vê. 196 CARVALHO, Reginaldo Corrêa. O Discipulado em Mateus. Tese de mestrado apresentada no CPPGAJ mas ainda não publicada 197 MACARTHUR, John. O Evangelho Segundo Jesus. São José dos Campos, SP: Ed. Fiel. 1991. p. 229 198 Karl Barth, "An Exegetical Study of Matthew 28.16-20" en The Theology of the Christian Mission (Gerald Anderson ed. London: SCM Press, p.69). 199 Bosch, Op Cit., p.69.
  • 81. 81 Neste sentido, Mateus mostra que todo o evangelho nos fala da missão universal de Deus e da igreja e não somente a 'grande comissão'. Nos mostram além disso, com qual autoridade fazer a missão (a autoridade de Cristo ressuscitado), como faze-la (fazendo às nações discípulos de Cristo, incorporando-as na comunidade da fé e ensinando-lhes tudo o que Jesus ensinou), em que pode faze-la (o poder do Espírito Santo) e até quando faze-la (até o fim do mundo). D. O ALCANCE DA MISSÃO: E finalmente parece que há um entendimento de que as bênçãos irão alcançar aos gentios. Várias passagens mostram isto como a visita dos gentios reis magos (2.1-12) a expressão "Galileia dos Gentios (4.14-16), os crentes devem ser a luz do mundo (5.13-14), o incidente com o centurião (8.5-13) etc. (10.18, 22; 12:21 cf. Isaías 42:4; 13:38 cf. 13:32 e Dn 4:12; 16:13-28; 21:28 - 22:14 véase 21:43; 22:9; 24:9,14 e 25:31-46; 26:13, 28 cf. Isaías 52:15;53:11-12; 27:54; 28:19). Tudo em Mateus, fala da missão universal de Deus e a igreja. A visão missionária por trás dessa cena é que a tarefa da igreja é reunir os redimidos de todos os povos, língua, tribos e nações (fulh/j kai. glw,sshj kai. laou/ kai. e;qnouj ). Todos os povos devem ser alcançados porque Deus designou pessoas a crerem no evangelho, as quais ele redimiu pela morte de seu Filho. O desígnio da redenção prescreve o desígnio da estratégia da missão. E o desígnio da redenção ( a redenção de Cristo, versículo 9) é universal, pois se estende a todos os povos, e definitivo, uma vez que efetivamente redime alguns de cada um desses povos. Portanto, a tarefa missionária é reunir os redimidos de todos os povos por meio da pregação do evangelho. II. Missão em Marcos: a pregação do evangelho de Jesus Cristo Basicamente, a missiología de Marcos se pode resumir como "a pregação do evangelho de Jesus Cristo a toda criatura." Hedlund disse "O evangelho se deve pregar, e este fato se deve dizer a todos os homens de todos os lugares"200 . Pregação, evangelho e universalidade são os três elementos importantes. "A grande comissão" de Marcos se encontra em Marcos 16.15-18. "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." (Marcos 16.15). Esta comissão não se encontra nos manuscritos mais antigos e se supõe que Marcos 16.9-20 foi acrescentado após outra pessoa, resumindo as comissões nos outros evangelhos e em Atos. Por isso muitos eruditos tem evitado usá-la. Contudo, me parece que este texto tem resumido bem a missiología de Marcos porque contém os três elementos já mencionados; a pregação, o evangelho, e a universalidade. A) O evangelho de Marcos se intitula “o evangelho de Jesus Cristo”, é dizer que o evangelho é sobre Jesus Cristo201 e não o evangelho pregado por Jesus Cristo, ainda que se inicia com a pregação de Jesus. Seu conteúdo é o evangelho pregado pelos primeiros pregadores. Acredita-se que Marcos uniu a pregação de Pedro para formar seu evangelho. Então o que temos em Marcos não é somente uma história sobre a vida de Jesus e sim, literalmente "o evangelho de Jesus Cristo."202 200 Roger Hedlund The Mission of the Church in the World: A Biblical Theology (Grand Rapids: Baker books, p.155). Mí traducción. 201 CARRIKER, Timóteo. Op Cit., p. 207. 202 A palavra “evangelho” se usa oito vezes em Marcos onde usa somente 4 vezes em Mateus, onde sempre é "o evangelho do reino" e 3 vezes em Lucas, enfatizando a importância do evangelho.
  • 82. 82 Este evangelho está centrado em Jesus Cristo e em suas ações. Em Marcos não temos muitos discursos e ensinos de Jesus, como os temos em Mateus, sendo suas ações e os eventos de sua vida, incluindo sua morte e ressurreição. Jesus realmente É o evangelho que se deve pregar. Pregá-lo é o que temos que fazer com este evangelho. Em Marcos Jesus mesmo sempre se mostra, pregando o evangelho, chamando discípulos, curando gente enferma, expulsando demônios, perdoando pecados. (Marcos 1:14-15, 16-20, 21-45; 2:1-17). E desde o princípio designou os doze “para estarem com ele e para os enviar a pregar e as exercer a autoridade de expelir demônios.” (Marcos 3:14-15 cf 6:7-13) Pois, pregando o evangelho”(kerussein to euangelion) é a ênfase; proclamando as Boas Novas e chamando homens e mulheres a responder em fé e arrependimento. B) Este evangelho de Jesus Cristo se deve pregar a toda criatura. O elemento universal se vê em três formas203 . Primeiro, pela situação do ministério de Jesus. Em Marcos, Jesus começa seu ministério pregando o evangelho na Galiléia (1.1-8.21), um local de gentios e judeus, onde ganha muitos discípulos e tem uma grande popularidade. Termina seu ministério em Jerusalém (11.1-16.8) o centro do judaísmo onde encontra a oposição, o padecimento e a morte. A perspectiva positiva se fazia na área pagã em preparar a terra para a missão universal. Segundo, o elemento universal se vê pelo desprezo pelos judeus e a aceitação pelos gentios. Ao longo de Marcos os judeus não entendem a missão de Jesus e o desprezam, em troca os gentios o aceitam. Isto nos leva ao terceiro elemento, a purificação do templo (11.1-19). Como nos outros evangelhos Jesus faz uma limpeza no templo. E como Mateus e Lucas, citam as palavras de Isaías 56.7 e Jeremias 7.11 dizendo que os judeus haviam feito do templo um "covil de ladrões" onde deveria ser "uma casa de oração". Porém, Marcos associa a frase "uma casa de oração" às palavras "para todas as nações". Para Marcos, o templo é uma indicação da universalidade no plano de Deus. O templo judeu se deve destruir e um templo que não se faz por mãos se deve construir para que as nações possam agradar a Deus. Podemos concluir que para Marcos a missão de Jesus foi pregar o evangelho e a missão que entregou a seus discípulos foi a mesma, porém com a adição importante de que esta pregação foi sobre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. III. Missão em Lucas/Atos: o caminho segue até os confins da terra A importância da missiología de Lucas/Atos se vê de algumas maneiras. Primeiro, Lucas é o único dos evangelistas que continua a história da missão de Jesus à missão da igreja. Mostra a continuidade entre a missão que Jesus iniciou em sua missão e o que ele passou a fazer por meio da igreja (Atos 1.1.) Em segundo lugar, se pensa que Lucas é o único autor gentil do Novo Testamento. Então, o que Lucas nos conta são os primeiros passos na missão da igreja diante do ponto de vista gentio. Por isso, podemos ver como uma adiantada contextualizacão da historia de Jesus. E em terceiro lugar Lucas, com sua preocupação com os pobres, nos dá, uma visão, não somente da missão AOS pobres e sim a missão DOS pobres. Deste nosso ponto de vista nos pode inspirar, corrigir e dar pistas para nossa missão hoje em dia.204 Como sabemos Lucas/Atos é uma obra de dois tópicos, porém, veremos que cada um deles tem sua própria mensagem missionária. A. LUCAS Se tem argumentado que o tema do evangelho de Lucas se encontra em Lucas 3.4-6. 203 CARRIKER, Op. Cit., p. 208-209 204 Para uma descrição mais ampla da missiología de Lucas/Atos veja o capítulo "La misión en el Evangelio de Lucas y en los Hechos" com Bases bíblicas da missão: perspectivas latino americanas (Buenos aires: Nueva Creación, 1998)
  • 83. 83 Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; os caminhos tortuosos serão retificados , e os escabrosos, aplanados; e toda carne verá a salvação de Deus Ainda que Mateus e Marcos citem a passagem de Isaías 40.3-5, é somente Lucas que acrescenta o versículo 5, “E toda carne verá a salvação de Deus”. Parece que Lucas usa este versículo no seu contexto em todo seu evangelho. Neste primeiro livro, Lucas conta a história do caminho do Senhor (hodos kyrios). O evangelho de Lucas e todo livro de Atos é a história do caminho. Isto se vê claramente em "a narrativa da viagem" (9.51-19.44) onde Jesus menciona várias vezes a necessidade em ir para Jerusalém (Lucas 9.51; 10.22; 14.25; 17.11; 18.35; 19.28). E no princípio desta passagem temos o relato da transfiguração, Moisés e Elias estavam falando a Jesus de sua "partida" (NVI) que literalmente é a palavra ex-hodos ou "êxodo" - 9.31. Este termo não aparece nos outros evangelhos. A missão em Lucas é dinâmica por que está no caminho. Este caminho é o caminho do Senhor. Como Mateus, Lucas fala de Jesus como o Senhor. Nos relatos do nascimento se tem claro que esta criança é o Senhor (1.17, 76 e 1.43, 2.11), Jesus aceita o título quando se dirigem a ele (6:46; 7:6; 9:54, 59, 61), Lucas se refere a Jesus como "Senhor" (7:13,19; 10:1,39; 11:39), Jesus reivindica ser "o Senhor do sábado" (6.5) e depois da ressurreição a mensagem é Senhor já ressuscitado' (24.34). Fazer a missão em Lucas é estar com o Senhor no caminho do Senhor. Este caminho do Senhor supera todos os obstáculos como a oposição, que seja de demônios (4.33-35, 41-42), de seres Humanos (5.17-6.11; 13.31-35; 15.2), a intenção de matá-lo (4.29; 19.47-48; 20.19; 22.2) também veio a superar as barreiras da classe social (5.27-32; 7.36-50; 15.1-32; 19.1-10), de preconceito sexual (7.36; 8.3; 13.10-17) e de preconceito racial (10.29- 37; 17.11-21). Para Lucas não há dúvidas que o caminho do Senhor vá atingir seus objetivos. O caminho segue para que todo mortal veja a salvação do Senhor. O elemento universal está presente aqui. Todo mortal, todo tipo de pessoa e toda classe de condições. Homens, mulheres, velhos, jovens, classe alta baixa, ricos, pobres (sendo que os ricos devem usar bem sua sua riqueza [16.1-15, 19-31; 18.18-30; 19.1-10), crianças e leprosos, etc. O caminho do Senhor não terá terminado sua viagem até que todo mortal veja a salvação do Senhor. E finalmente é a salvação que vão ver. Para Lucas a salvação tem um amplo significado. Nos relatos do nascimento, a salvação também tem conseqüências políticas, a exaltação aos humildes (1.51-53), a libertarão do povo de Deus (1.71-74), luz para os que estão na escuridão e a paz, (1.77-79), a revelação e a glória (2.30-32) usa a linguagem de Jubileo. Jesus usa a mesmo linguagem quando descreve sua missão no sermão em Nazaré (Lucas 4:18-19 cf. Isaías 61:1-2; 58:6 cf. 7:21-23). Além disso, Lucas usa a palavra "salvar" para incluir a sanidade física, a libertação de demônios tanto como o perdão dos pecados (4:43; 7:36-50 esp. v 50; 8:1-3, 26-56; 17:19, 19:10 cf. v 9.) Isto se segue em Atos também (Hechos 2:38-41 cf. v 47., 4:12 cf. vv. 9-10; 13:26 vv. 38-39; 16:31.) Darío López postula seis dimensões da salvação em Lucas: "econômica, social, política, física, psicológica e espiritual."205 Tanto no Antigo Testamento como em Lucas, a salvação é de toda a pessoa e todas as pessoas. Pois no evangelho de Lucas a missão de Jesus é seguir o caminho do Senhor, superando todos os obstáculos para levar a salvação a todo mortal. B. ATOS Enquanto o livro de Atos as palavras no capítulo 1.8 se tem visto como uma ordem do dia para o livro. “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis 205 Darío López, "La misión liberadora de Jesús según Lucas" en Padilla, 1998, p.224.
  • 84. 84 minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. Nesta passagem, Lucas deixou duas coisas bem claras, conforme John Stott habilmente expõe: "que seu reino é internacional quanto a seus membros e gradual quanto á expansão".206 1) A internacionalidade dos membros Os discípulos de Jesus estavam pensando em um reino mais restrito a Israel, mas, em sua resposta, á pergunta deles (v.6), Jesus lhes expandiu os horizontes, demonstrando que seu reino e seu desejo se estendiam a todas as nações da terra. Tem sido corretamente observado pelos estudiosos que Atos 1.8 é como se fosse um índice do próprio livro de Atos. E, realmente, o evangelho começou a ser disseminado em Jerusalém (caps. 1-7), depois alcançou Samaria (cap. 8), e, finalmente, impulsionado pela conversão do "apóstolo dos gentios", expandiu até alcançar Roma e os confins da terra (caps. 9-28). 2) A expansão gradual Outro aspecto importante que Cristo enfatizou em Atos 1.8 é a expansão gradual da igreja. Da maneira como Jesus expôs, ele deixou bem claro que seus discípulos seriam testemunhas em círculos cada vez maiores. Veja as expressões: "tanto em... como em toda... e até aos...". Não pode haver barreiras para o reino de Deus. Nem raça, nacionalidade, costumes, ou mesmo distâncias podem impedir que o reino cresça por meio da graça de Deus presente no testemunho dos convertidos. A mensagem do evangelho começou em Jerusalém com um pequeno grupo dentro do judaísmo, reuniam-se no Templo, seguindo as tradições judaicas e esperando a restauração de Israel, pregando nas ruas e no Templo, vivendo uma vida em comum e lutando para sobreviver (1.1-8.1a). Depois, se estendeu ao mundo semi-judeu da Judéia e Samaria, começando a aceitar a possibilidade da conversão dos gentios. Felipe pregou em Samaria, se converteu em um homem que viria a ser o mais importante missionário dos gentios, Deus dirige a Pedro a pregar para a família de Cornélio (gentio, temente a Deus), estes gentios receberam o Espírito Santo, a igreja de Jerusalém aceita Cornélio como irmão e a igreja de Antioquía, que viria a ser a base da missão aos gentios é citada pela primeira vez (8.1b-12.25). Vemos um movimento, não somente geográfico do evangelho mas, também um movimento muito além do judaísmo, havia uma fé universal. Finalmente, desde o capítulo 13 até o fim do livro somos testemunhas da extensão do evangelho na Ásia Menor e Europa, testemunhamos a aceitação dos gentios como membros plenos da igreja e vemos como o evangelho chega ao centro do mundo daqueles dias. Atos termina com Paulo em Roma, pregando o evangelho sem “impedimento algum” (Atos 28.30.). O "caminho" percorreu um longo caminho da Galileia a Jerusalém e de Jerusalém, passando por Antioquía, chegando em Roma. Também percorreu um longo caminho de transformação de ser uma seita judia a uma fé universal. Quero mencionar outra coisa importante a cerca deste versículo. Em sua tradução de Atos 1.8, a NVI tem seguido o grego mais precisamente que as outras traduções ao sublinhar a forma coerente para missão em vez de uma forma consecutiva. E dizer que a missão se fez TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria e até aos confins da terra. A missão aos confins da terra não necessitava esperar que a missão a Jerusalém terminasse para receber a atenção dos crentes. Mas, parece que os Apóstolos não entendiam isto, tampouco por que, era o Espírito Santo que deu o impulso para cruzar as barreiras em cada etapa e não uma estratégia dos apóstolos. Em cada caso o Espírito Santo teve que lanca-los de sua "zona de conforto." Para que saísse de Jerusalém, usou a perseguição (8.1) para que pregasse aos gentios, tementes a Deus, usou visões (10.1ss), para que a igreja de Antioquía, mandasse uma equipe de missionários, outra vez usou visões (12.2), para que a igreja de Jerusalém aceitasse aos gentios 206 STOTT, John Scott. A Mensagem de Atos. São Paulo: Aliança Bíblica Universitária, 1994. p.41-2.
  • 85. 85 como membros da igreja, usou uma mensagem direta (15.28) e para que Paulo pregasse na Europa usou obstáculos, circunstancias e uma visão (16.6-10). Deus queria que a igreja missionária TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria e até os confins da terra se tornasse possível. Enfim, para Lucas a frase "mas há tanto que fazer aqui, sem pensar em outras partes do mundo" é uma negação da natureza universal do evangelho e da natureza bíblica da missão. Temos mostrado que cada livro, na obra de Lucas, tem sua própria mensagem missionária, mas também a obra inteira tem uma estrutura e uma mensagem missiológica. Para entender o livro inteiro, seguimos outra vez a Bosch quem propôs que Lucas 24.46-49 serve como a grande comissão em Lucas/Atos e serve como o clímax na mesma forma que a grande comissão em Mateus207 Esta passagem pode-se ver como o ponto em que convergem os ramais do Evangelho para logo disseminar-se com o fim de recorrer o caminho narrado em Atos. Bosch comenta, A totalidade da compreensão 'lucana' sobre a missão cristã: é o cumprimento das promessas bíblicas; chega a ser possível unicamente depois da morte e ressurreição do Messias de Israel; seu conteúdo é a mensagem do arrependimento e perdão; está destinado a "todas as nações"; começando "por Jerusalém"; se implementará através de "testemunhas"; e se levará a cabo pelo poder do Espírito Santo208 . Concluo que a missiología de Lucas encontrada no Evangelho e em Atos mostra que o sofrimento e o testemunho são a forma de missão, a salvação e a universalidade são a mensagem da missão e a segurança do progresso do caminho e a presença do Espírito Santo são o motivo da missão. Devemos “encarnar” o evangelho de Jesus em nossa vulnerabilidade e nosso testemunho humilde, pregando todo o evangelho, testemunhando a todas as nações, seguindo o "caminho" do Senhor com o Espirito Santo como nosso guia.209 IV. Missão em João: a revelacão de Deus em Jesus Cristo Ler e discutir em sala de aula o artigo do Rev. Carlos del Pino O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja, Fides Reformata 5/1/2000 As consequencias do apostolado de Cristo para a missão da Igreja sob a perpectiva do Quarto Evangelho O propósito do Evangelho de João é sumamente missionário. Está escrito "creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (João 20.31). Então é levar as pessoas a fé em Jesus Cristo e nutrir sus fé e para que levem outros a fé. O tema central é evangelistico e missionário. A mensagem central de João é o envio do Filho pelo Pai, impulsionado por seu amor infinito pela humanidade perdida para que, os que creem nele sejam salvos e tenham vida eterna. (João 3:16) Como disse em I João 4.14, “E nós temos visto e tertemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo.” A) O Filho foi enviado ao mundo. “Mundo” (ho kosmos) em João, geralmente se refere a humanidade caída em inimizade a Deus mas todavia é o objeto de amor de Deus. Bosch não trata o paradigma de João, somente aos de Mateus, Lucas e de Paulo210 e diz que estes tres autores, são "representantes do pensamento e prática missionária do primeiro século."211 Mas, estou de acordo com Philip Towner quando propõe que se Bosch houvesse usado o paradigma de João haveria tido uma perspectiva menos positiva ao mundo.212 A falta de Bosch é rara por 207 Bosch, Op Cit., p.91. 208 Bosch, Op Cit., 991, p.91. 209 Ibid, p.272.
  • 86. 86 que as palavras ho kosmos aparecem 96 vezes em João e somente 22 vezes nos sinóticos! Obviamente João pensava que foi um conceito bastante importante. O mundo é o enfoque do amor de Deus POR QUE está caído. Isto nos dá outra perspectiva quanto a missão. Me parece que o mundo no pensamento de João tem o mesmo rol que as nacões no Antigo Testamento (especialmente Deuteronômio). As nacões são más (Deuteronômio 12.31 por exemplo)mas é o desejo de Deus que o bendigam (Gênesis 12.3). O mundo é malvado (I João 2.15) mas é o objeto do amor de Deus (João 3.16). As nações são uma tentação para Israel (Deuteronômio 13) mas também é a existência da vida ética de Israel (Deuteronômio 4.5-8). O mundo nos pode contaminar (I João 2.15) mas é a existência do amor dos discípulos (João 13.35). B) A missão de Jesus: Jesus veio para revelar o Pai, para levar aos homens o Pai, para dar lhes a vida eterna. Veio ao “mundo” em seu pecado, obscuridade e alienacão. A profundidade cósmica no princípio do evangelho nos prepara para a extensão mundial da mensagem do amor de Deus para toda a humanidade. O “Filho” também é o “Logos” quem esteve com Deus antes da criacão, e que por meio dele, o mundo foi criado, e a fonte de toda luz e vida. Também Jesus é o único caminho ao Pai, a quem o Pai entregou a salvacão e o juizo. (Cf. as declaracões “Eu sou” - João 6:36; 9:5 etc. também João 1:18; 14:8.) Sua morte é o meio de revelacão do Pai e o meio de levar aos homens o Pai. Por sua morte retira as barreiras que nos impedem de conhecer ao Pai (João 1:29 e 12:31). Jesus é enviado pelo Pai (cf João 3:17, 34; 4:34; 5:23, 24 etc.) que tem a autoridade completa do Pai e veio para fazer a vontade do Pai (João 5:19-30; 8:29). C) A Missão dos Discípulos (cf. João 20:21-23). Paz seja convosco! Assim com o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espirito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos. 1) Façamos alguns comentários sobre os elementos desta comissão. “Paz seja convosco” Esta frase é mais que uma saudacão (João 20.19, 21, 26). Pela sua morte, Jesus deu a paz que o mundo não pode entender, dar nem tirar, que persiste até na tribulacão. A paz que Jesus lhes presenteia é SUA paz (João 14:27; 16:33). É a paz que se deve compartilhar com o mundo. 2) “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Este verbo indica um ato no passado que todavia tem efeitos no presente. Na mesma maneira em que foi enviado, os discípulos são enviados “ao mundo” (João 17.18). Não pertencem ao mundo da mesma maneira que Jesus não pertence ao mundo. Os escolhidos do mundo (João 15.19) e o mundo irá odiar como odiou a ele (João 15.18-25). O mundo ao qual os manda, primeiramente é o mundo caído mas também inclui a idéia de TODA a humanidade, não somente os judeus. (Cf. João 1.29 “o pecado do mundo” Ver também João 10:16; 11:52; 12:32 cf. vv. 20ff). O modelo da missão da comunidade de discípulos, é Jesus. Por isso, John Stott disse que esta comissão é a mais ignorada pois é a mais trabalhosa. 3) A promessa do Espírito Santo. O ato de soprar simbolizou que está entregando ou prometendo o Espírito Santo, que se cumprirá nas promessas de Jesus sobre o consolador. O Espírito Santo os fará lembrar das palavras de Jesus, interpretar o significado de sua obra e 210 ibid. Capítulos dois a quatro. 211 Ibid. P.55. 212 (Evangelical Quarterly 67/2 1995) (“Paradigms Lost: Mission to the Kosmos in John and in David Bosch’s Biblical Models of Mission”). ( “Paradigmas perdidos: A missão do Kosmos em João e nos modelos bíblicos da missão de David Bosch) Porém, ainda que Senior e Arana Quiroz tratam o evangelho de João, não menciona o kosmos como conceito. Senior, 1985 cap. 12 e Padilla, 1991, cap 273.
  • 87. 87 acompanha-los em seu testemunho e sua missão com o poder para convencer e converter (João 14:25-26; 15:26-27; 16:7-11, 12-15.). 4) Perdão dos pecados. O Espírito Santo também lhes dará autoridade para anunciar o evangelho e suas promessas de perdão dos pecados aos que creem e adverti aos que entrarão em juízo. A missão em João significa tanto o juízo como a salvacão. Enfim, a missão segundo João é a revelação do Pai por Jesus, e Jesus dá aos discípulos a mesma missão para fazer da mesma forma. Leitura Paulo, Plantador de Igrejas: Repensando Fundamentos Bíblicos da Obra Missionária. Augustus Nicodemus Lopes. FIDES REFORMATA 2/2 (1997)
  • 88. 88 III. Perspectiva de Missões no Ministério de Jesus213 _____________________________________________________________________ Nos últimos capítulos confirmamos que o mandato missionário se baseia no Velho Testamento como um fio que entrelaça toda a história de Israel. O escopo de missões sempre foi e sempre será universal, já que procura anunciar e promover o reino de Deus por todo o mundo. Na própria história de Israel, a mão forte e poderosa de Deus se estendeu ao povo não somente para seu benefício, e sim, como testemunho às nações a fim de levá-las a conhecerem o SENHOR dos Exércitos. No Novo Testamento esta preocupação universal de Deus se intensifica a partir do ministério de Jesus. O Evangelho segundo Lucas, mais que todos os outros enfativa a significância universal da vinda de Jesus. Entre os quatro Evangelhos, apenas Mateus e Lucas traçam a descendência de Jesus através da sua genealogia. Mateus, porém, começa a partir de Abraão a fim de destacar aos seus leitores judeus e gentios inquisidores da fé judia que Jesus, sendo filho de Abraão, é o prometido Rei de Israel. Lucas, entretanto, começa com a genealogia de Jesus a partir de Adão destacando-o como filho do pai de toda a humanidade. Assim Jesus se identifica com o plano-mestre e universal de Deus na história da criação de ter domínio sobre todas as coisas, e não somente o Israel. Em Lucas vemos Cristo como o Missionário de Deus, enquanto que em Mateus ele é visto mais como o Messias prometido de Israel. Lucas enfatiza a significância do ministério de Jesus. Isto é, tanto em termos geográficos, quanto em termos sociais e em termos culturais. Consideremos estes três aspectos do seu ministério. 1. Atravessando as Barreiras Geográficas Em Lucas 4, Jesus fora a Cafarnaum onde se centralizou o seu ministério no início. Foi lá que ele começara a pregar,ensinar e curar com autoridade. Foi até a casa de Simão e curou sua sogra. Nas altas horas da noite o povo lhe trazia os doentes e ele os curava. Deve ter ficado um tanto sobrecarregado com este ministério, pois lemos: “sendo dia, saiu e foi para um lugar deserto; as multidões o procuravam e foram até junto dele, e instavam para que não os deixasse” (Lc.4.42). Aparentemente o povo percebia que Jesus estava prestes a deixá-lo, e isto quando Jesus mal começara seu ministério lá! Imagine a reação das pessoas angustiadas como se estivessem na fila do INPS durante toda a noite e de repente o médico de plantão entrasse em férias. “Espere aí! Não diga que já vai! Acabou de começar seu ministério aqui. Esta cidade está cheia de corrupção e pobreza, pecado e doença. Ainda não pode nos deixar!” Qual era a resposta de Jesus? “é necessário que eu anuncie o Evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado”. O Evangelho deve se espalhar. Não pode ficar parado em lugar algum! Já que o Evangelho do reino tem isto dimensões as mais amplas e universais possíveis. Portanto é implícita sua divulgação por toda parte, atravessando todas as barreiras geográficas, sempre em movimento, até que todos recebam as Boas-Novas. O ministério de Jesus demonstra uma 213 Capítulo de autoria de Timóteo Carriker extraído do site: http://www.carriker.org/, capturado em agosto de 2003
  • 89. 89 preocupação missionária que cruza as fronteiras geográficas, convocando todos em todo lugar a assumirem a vida do reino. 2. Atravessando as Barreiras Sociais Contudo, a missão de Jesus não se reduziu a cruzar barreiras geogràficas. Jesus também atravessou barreiras sociais, pois ele incluiu novas faixas da sociedade antes negligenciadas. Por exemplo, observamos que três vezes Jesus foi à casa dum fariseu para jantar (7.36;11.37;14.1). Ele portanto não deixou de ministrar até à classe religiosa que mais se opunha a ele. Outra vez, uma mulher pecadora ungiu os pés de Jesus com perfume (7.36-50). Jesus não se preocupava com o estigma social que poderia ganhar por causa da sua simpatia e disponibilidade de ministrar a todos igualmente, tanto àqueles que deveriam ser seus maiores inimigos quanto àqueles que poderiam causar o maior escândalo para seu ministério. Aliás, pelo menos segundo Lucas, havia aparentemente até uma ênfase, se não preferência por este tipo de gente, embora Jesus também tenha atendido à alta classe de líderes religiosos. Ele ministrou ao desterrado, ao aflito e ao pecador. Até os publicanos foram o objeto de seu amor e da sua atenção. Eles eram as pessoas mais odiadas pelo povo, considerados exploradores, pelos altos impostos que coletavam, e traidores por ajudarem a enriquecer o estado político e romano. Jesus, apesar deste forte preconceito social, foi jantar na casa de Levi (5.27-32). Ainda mais, ele se convidou à casa de Zaqueu, um outro coletor de impostos (19.1-10). Desta forma, Jesus demonstrou concretamente que sua missão implicava em cruzar todas as barreiras sociais, dando atenção especial para as faixas da sociedade mais rejeitadas. Por isso mesmo Lucas revela com ênfase o alcance que Jesus teve entre os pobres e oprimidos, desde o princípio do seu ministério: “Vim para evangelizar os pobres, libertar os cativos e oprimidos e restaurar a vista aos cegos” (4.18). Nas bem-aventuranças pregadas na planície, o contraste proposital entre a pobreza e a riqueza exemplifica esta preocupação especial de Jesus pelos pobres, famintos, desesperados e oprimidos. Exemplifica-se também na ilustração dos dois devedores (7.4l-43, observe a quem Jesus ama mais), do amigo da meia- noite (ll.5-8), do rico e seus celeiros (l2.13-21, veja o último versículo), da moeda perdida (l5.8- 10), do administrador esperto (l6.1-13, repare de novo o último versículo) e do juiz iníquo (18.1-8) e a viúva. Achamos necessário fazer duas explicações nesta altura da nossa elaboração do ministério de Jesus. Em primeiro lugar, quando afirmamos a sua preocupação pelos pobres e oprimidos, não estamos nos baseando ou propagando nenhuma teologia contemporânea de libertação. Mas apenas pretendemos uma rigorosa, não obstante abreviada,base e interpretações bíblicas coerentes (julgue você mesmo!). Em segundo lugar, bem sabemos que muito se fala sobre uma opção preferencial pelos pobres. Sugiro que a própria evidência bíblica leve a esta conclusão. Se não, Jesus poderia dizer: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos ricos,” ou ainda mais, “Bem-aventurados os ricos”? e Paulo poderia descrever a composição da igreja coríntia como sendo de “não muitos analfabetos, nem muitos oprimidos, nem muitos de nascimento humilde” (1 Co. 1.26)? Para o intérprete espiritualizante, digo, portanto, que sim, há uma certa preferência bíblica pelo pobre e oprimido. Não é por acaso que nenhum dos textos citados descreve o pobre como alguém que não seja social e economicamente pobre. Por outro lado, para o intérprete liberacionista em termos apenas sócio-políticos, digo que esta preocupação pelo pobre não é por causa da sua pobreza em si, mas sempre em relação à justiça e à glória de Deus. O pobre é preferencialmente bem-aventurado porque ele não tem de quem pode depender para defendê-lo, a não ser o próprio Deus, se deste, de fato depende. Assim, o pobre bem-aventurado é de fato uma pessoa política e economicamente pobre, porém, é um pobre não só injustiçado pelos
  • 90. 90 homens como também justo diante de Deus. Esta idéia do pobre injustiçado e também justo se deriva da palavra ' ani no Antigo Testamento que se traduz tanto como “pobre” quanto “humilde” e também “piedoso” (Am. 2.6 e Is. 2. 6-12). Portanto, a postura do pobre é dificilmente conhecida pelo rico e a posição do pobre diante de Deus é preferenciada pela sua maior propensão a depender de Deus. A sua necessidade de dependência de Deus, então, vai além de dimensões espirituais, emocionais e de relacionamentos e inclue também as crises cotidianas financeiras, operárias e até políticas, crises estas que o rico sente bem menos. Entretanto, quando o rico consegue assumir esta mesma postura (isto não é o sentido da exortação ao jovem rico? Lc. 18.18-23), também pode gozar a bênção de Deus (como no caso da bem-aventurança para o “humilde” ou “pobre de espírito'ém Mateus 5.3). Demoramos nesta questão, primeiro por ela tanto necessitar de esclarecimento bíblico e, segundo, por ser tão pertinente no Brasil, cuja população, em grande parte, é pobre (e cada vez mais, proporcionalmente!). Decerto Jesus também ministrou aos ricos, pois, provavelmente, tanto Zaqueu quanto José de Arimatéia tenham tido bons recursos financeiros. (Porém, a sua orientação quanto às suas riquezas, tinha que mudar diante do seu compromisso com Jesus!). Assim, reparemos que se Jesus assumiu uma opção preferencial pelos pobres certamente esta opção não era exclusiva. O essencial era um compromisso a favor do Senhor, não deixando isto de ter manifestações concretas não só na vida devocional como também nas relações humanas. Um outro grupo desprezado pela sociedade que ganhou a atenção e preocupação de Jesus eram as mulheres. Lucas faz menção desta dimensão do seu ministério quarenta e três vezes, enquanto Marcos e Mateus juntos a fazem apenas quarenta e nove vezes. Além disto, Lucas dá especial ênfase ao fato dos primeiros missionários (quem testifica da ressurreição de Jesus) serem todos mulheres (23.55-24.12). Num mundo onde o papel da mulher não possuia prestígio nenhum, este fato é significante e revelador. Além disto, só Lucas destaca as mulheres que acompanhavam e sustentavam nosso Senhor na sua missão (8.1-3). A soma destas observações assinala convincentemente que o ministério de Jesus atravessou barreiras sociais. Sua missão atingiu todas as faixas da sociedade, especialmente as mais desprezadas e oprimidas e elogios da igreja neste sentido, tendemos a esquecer do modelo de Jesus e nos acomodar com a mobilidade ascendente que a nossa fé propicia. Não que a ascendência é negativa, mas apenas a acomodação e injustiças cometidas aos outros (não é este o sentido da parábola do rico e Lázaro? 16.19-31). 3. Atravessando as Barreiras Culturais e Religioas Jesus alcançou até os samaritanos, aqueles meio-judeus desprezados e marginalizados pelos judeus. Mas não só os alcançou como também fez deles heróis quando contou a história do bom samaritano (10.29-37). Imagine o aborrecimento dos fariseus quando contou esta história! Interessante que entre os dez leprosos que Jesus curou, aquele único que voltou para agradecer era samaritano (17.11-19). Um outro escândalo cultural e religioso que Jesus causou foi seu tratamento para com o centurião romano. Pois é claro que os judeus colocavam os gentios fora da esfera do amor e atividade de Deus (a não ser que se tornassem judeus!). Contudo, quando este guarda romano que mantinha a lei e a ordem na região, pediu que Jesus curasse seu servo e confiou apenas na palavra afirmativa de fazê-lo, Jesus afirmou: “nem mesmo em Israel achei fé como esta” (7.9).
  • 91. 91 Resumo Jesus, sendo filho de Adão (que significa “homem”), cumpre a imagem de Deus no homem-Adão, realizando o domínio de Deus atravessando todas as barreiras que limitam este domínio, as geográficas, as sociais e as culturais. Desta forma, o plano divino e salvador continua, sendo Jesus nosso precursor, nosso modelo, nossa autoridade e nosso poder. é um plano para o universo que nós temos que cumprir. Este peso da nossa responsabilidade pelo cumprimento da Missão de Deus aparece bem nítido quando Jesus falou: “Vós sois testemunhas destas coisas” (Lc. 24.48). A mesma passagem define este evangelho como tendo no seu centro a morte e ressurreição de Jesus. A fé se baseia num evento concreto da nossa história. Não é um misticismo das religiões orientais nem a magia das religiões animistas e nem a força mental das crenças do alto espiritismo. Nossa fé surge do fato da atuação concreta de Deus na nossa história e resulta na transformação integral do homem em todos os seus relacionamentos. O Evangelho também exige o arrependimento como pré-requisito para entrada no reino e o perdão como promessa e dom do seu ingresso. Onde deve ser pregado? — “a todas as nações” (24.47). Como Jesus não foi detido ou atrasado no início do seu ministério por barreiras geográficas, mas tinha que ir às outras cidades, semelhantemente, no final deste ministério ele exorta seus discípulos que fossem para todas as nações. E esta exortação nos pertence hoje em dia. A responsabilidade é nossa. Esperemos apenas até que “do alto sejamos revestidos do poder” (24.49). Em síntese, Lucas fornece ampla base para a obra missionária através do modelo do ministério de Jesus. Aliás, nestes estudos, temos destacado que as escrituras todas fornecem o extenso alicerce que apóia e prepara pela elucidação desta obra na grande comissão. A obra missionária da igreja não é uma pirâmide feita de cabeça para baixo, com seu ápice num texto isolado no Novo Testamento, da qual elaboramos uma grande estrutura conhecida como “missões”. Ao contrário, a obra missionária é uma pirâmide feita de cabeça para cima com sua base estendendo-se de Gênesis 1 até Apocalipse 22. Toda a escritura forma, então, o alicerce para um alcance do Evangelho ao mundo todo. A grande comissão entáo seria a maior explicação desta obra e assim poderia ser considerada um ápice da revelação divina quanto a esta obra para o lançamento da igreja nesta missão. Salientamos que a obra missionária não parte de um texto bíblico só, senão da Bíblia toda. Além disto, observemos que a dimensão da grande comissão é tão larga quanto toda a humanidade, isto é, em toda área geográfica, toda classe da sociedade e toda cultura. Finalmente, a responsabilidade está nos nossos ombros. “Vós sois testemunhas destas coisas” inclue todos os cristãos. é nossa responsabilidade levar o Evangelho a todas as nações. Se nós náo fizermos, deixamos até de ser a igreja, pois este envio para o mundo é da sua própria essência.
  • 92. 92 MISSÕES Uma Perspectiva Histórica Dr. Antônio José do Nascimento I. A EXPANSÃO NUMÉRICA E GEOGRÁFICA DO CRISTIANISMO DO Iº A0 Vº SÉCULOS A. D. 1. A Expansão Numérica O Cristianismo é verdadeiramente a única religião universal. Embora seu fundador nascera numa estrebaria, vivera na obscuridade, e morrera crucificado numa remota província do império romano, hoje, a Sua mensagem tem sido proclamada e difundida em toda a parte, e o cristianismo se faz presente em todos os países do mundo em menor ou maior escala. O livro de Atos começa com uma comunidade de 120 tímidos discípulos reunidos secretamente no cenáculo em Jerusalém. O N. T. e mais especificamente o livro de Atos, dá- nos uma projeção do movimento missionário da Igreja nos seus primórdios. Uma geração mais tarde, quando se fecha a narrativa do livro, o evangelho tinha se espalhado através do império ate Roma. O que era um tímido movimento no ano 30 A. D. estava agora em franca expansão por toda parte, por volta do ano 60 A. D. Durante os primeiros dias da missão Cristã "três mil novos discípulos" são mencionados como sendo batizados num só dia (At. 2:41). Registra-se que "enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos" (At. 2:47); Depois, menciona-se que o numero dos discípulos cresceu para "cinco mil" (At. 4:4); Faz-se alusão que, "creScia mais e mais a multidão dos que criam" (At. 5:14); Menciona-se que "se multiplicava o numero dos discípulos e muitíssimos sacerdotes obedeciam a fé" (At. 6:7). Uma coisa é certa: O livro de Atos dos Apóstolos não nos conta a história completa. O apóstolo Paulo nos informa que o "evangelho foi pregado a toda criatura debaixo do céu" (Col. 1:23); que a fé da Igreja de Roma "tem sido proclamada em todo o mundo" (Rom. 1:8); que "a fé dos cristãos de Tessalônica para com Deus tem sido divulgada por toda parte" (I Tes. 1:8). Durante o segundo século o Cristianismo continuou a crescer vigorosamente. Naquela época, os cristãos eram especialmente numerosos em toda a região da Ásia Menor. Na segunda década do segundo século, Plínio, governador da Bitínia queixou-se ao imperador romano, dizendo-lhe que os templos pagãos estavam completamente vazios por causa da influencia da nova superstição (a fé Crista) que invadiu toda a Bitínia (At. 16:7; I Ped. 1:1). Um pouco mais tarde, Justino o Mártir escreveu: "Não há um povo, grego ou bárbaro, ou nenhuma outra raça . . . entre os quais não se proclame a Jesus e não se faça orações ao Pai em seu Nome." Cerca do ano 200 A. D. Tertuliano declarou que "pessoas de todas as raças, condição e status social estão vindo para o Cristianismo." No começo do século terceiro quando o império romano começou a desmoronar-se, grande numero de pessoas vieram para o Cristianismo. Will Durant em sua obra Caesar and Christ, declara: "No caos e terror do terceiro século os homens fugiam da fraqueza do estado romano para consolar-se na religião, e a encontraram mais abundantemente no Cristianismo."214 No começo daquele século o Cristianismo era dominante na província da Frigia e através da Ásia Menor, formando uma larga minoria da população. Os historiadores informam que no 214 Will Durant. Caesar and Christ (Grand Rapids, Michigan: Wm. Eerdmans, 1977), 650.
  • 93. 93 norte da África as conversões eram tão numerosas que se transformava em um verdadeiro movimento de massa. Antioquia, a mais antiga Igreja do oriente depois de Jerusalém, e um exemplo notável. João Crisóstomo, no quarto século, disse que a Igreja de Antioquia, correspondia a dois tercos de uma população de 500 mil pessoas. O bispo Stephen Neill informa-nos que em grande parte do império romano a Igreja representava a metade da população no quarto século da era Cristâ. Durante o período de paz, de 260 a 300, a Igreja teve a oportunidade de extender largamente a sua influência por todo o império. Estas quatro décadas, justamente antes das perseguições movidas pelo imperador Deocleciano, foi um tempo de um crescimento sem prescedentes. O historiador Edward Gibbon, em sua obra The Triumph of Christendom in the Roman Empire, informa-nos: "Convertidos entraram aos milhares no Cristianismo. Em quase todas as cidades foram construídas Igrejas, as quais não cabiam as pessoas que afluiam, diante do rápido crescimento e da multidão e prosélitos."215 Naturalmente, um dos sérios problemas é que, em alguns casos, entravam no Cristianismo trazendo consigo o seu paganismo. 2 - A EXPANSÃO GEOGRÁFICA O silêncio do NT com respeito a entrada do Evangelho no Egito é algo deveras interessante. É difícil compreender que o Evangelho foi levado para o norte, de Jerusalém a Antioquia, Ásia Menor e assim por diante, sem ir em direção ao sul aonde estava situada a cidade de Alexandria, uma das maiores e mais importantes cidades do império romano. Pouco ou quase nada se conhece acerca da chegada do Cristianismo ali, exceto o que diz a tradição que descreve e atribui a João Marcos o trabalho de pioneirismo em Alexandria. Sabe-se que no tempo do imperador Adriano, havia já uma forte igreja em Alexandria. Sabe-se também que por volta do ano 180 A. D. havia uma ali uma escola teológica aonde ensinaram Clemente e Orígenes, pais da Igreja. A oeste do Egito estava "Cirene" e é possível que os cirênios levaram o evangelho para Alexandria (At. 2:10; 11:20). Cartago, no norte da África, tornou-se um grande centro do Cristianismo. É possível que eles tenham sido alcançados por cristãos de Roma ou de Éfeso que cruzaram o Mediterrâneo para proclamarem a fé cristã. Próximo do fim do século III a Ásia Menor e o Norte da África eram as províncias romanas com o maior numero de cristãos. Uma das características interessantes da Igreja do norte da África e que ela possuia um grande número de bispos e produziu larga literatura Cristã na língua latina. Agostinho (354 a 430) foi bispo de Hipona, norte da África, e o maior teólogo da Igreja depois do apóstolo Paulo. Sua teologia tem influenciado o Cristianismo nos últimos 1600 anos. Durante o terceiro século da era cristã, o Cristianismo tornou-se um movimento de massa no Ponto (Atos 2:8, 9; I Pe. 1:1), província romana, sob a liderança de Gregorio Traumaturgo. É dito que ele se tornou bispo de seu povo nativo, e quando morreu deixou somente 17 pessoas não cristãs. A mensagem do evangelho viajou atingindo também a Mesopotâmia (At. 2:8, 9), entre os rios Tigre e Eufrates. Uma importante cidade da Mesopotâmia chamada “Edessa,” tornou-se um nota´vel centro missionário. No fim do século II o Cristianismo tornou-se a religião do Estado. O Siríaco, a língua da Igreja ali, foi a primeira língua na qual o NT foi traduzido. O evangelho entrou na Armênia através da Capadócia. Como resultado, um forte movimento de massa surgiu sob a liderança de Gregório o iluminado, que eclodiu na conversão do rei Tirídates da Armênia, tornando-se assim um reino cristão. O Cristianismo, ainda hoje, é forte na Armênia. O NT foi traduzido para a língua armeniana por volta de 410 A. D. 215 Edward Gibbon. The Thriumph of Christendom in the Roman Empire (London, England: Allen and Unwin, 1981), 125.
  • 94. 94 Os godos foram os primeiros entre os povos do norte do Danúbio a adotarem o Cristianismo em larga escala. A evangelização sistemática entre os Godos, deve-se, graças a obra missionária de Úlfilas (311 a 380), cujo pai era um capadócio e sua mãe do povo godo. Após passar 10 anos em Constantinopla aonde se tornara um cristão, Úlfilas voltou para o seu povo "os godos" e os evangelizou. Seu trabalho mais importante foi a tradução da Bíblia para a língua gótica. Para fazer isto ele teve que criar a linguagem escrita ainda ate então não existente entre os godos. Ele foi o pioneiro entre os linguistas do mundo a criar a língua escrita com vistas a disseminar o evangelho. Quanto ao Francos, Scott Latourette, famoso historiador, em sua obra The First Five Centuries of Christianity, estabelece que "a conversão dos Francos no século V foi um dos mais importantes estágios da expansão do Cristianismo entre os povos não-romanos."216 Vários Francos já tinham tido contato com a fé crista, contudo, o movimento de massa para o Cristianismo entre os Francos, deu-se como consequência da conversão e batismo do Rei Clóvis no dia de Natal em 496 A. D. Sua decisão pelo Cristianismo influenciou a milhares de Francos a tomarem a mesma decisão de seu rei, embora não o haverem sido obrigados a isso. A ultima área a ser evangelizada neste período foi a Irlanda, a área mais ocidental e mais distante do mundo de então conhecido. O apóstolo e missionário que alcançou a Irlanda foi Patrício, que, ao contrário da crença popular, ele não nasceu na Irlanda, mas na Bretanha Romana cerca de 389 A. D. e tornou-se um dos maiores missionários de seu tempo. Patrício era um cristão de profunda piedade e intenso zelo missionário. Sofrendo muitas perseguições, ameaças e perigos de morte, e, sendo salvo milagrosamente muitas vezes, ele passou quatro décadas evangelizando os povos da Irlanda. Pelo fim do século V, o Cristianismo tinha alcançado todo o império Romano e vários outros povos não-romanos como os Godos, os Francos e os moradores da Irlanda, variando em sucesso e êxito missionário, indo do Norte da África até ao deserto Saara, da Índia até a Espanha. II. A CRISTIANIZACAO DA EUROPA: 500 A.D. ATE 1000 A. D. 1 - A IRLANDA: Durante este periodo da Idade Media a Irlanda comecou a destacar-se dos demais paises da Europa no que tange ao Cristianismo. Do sexto ao oitavo século, a Irlanda tornou-se o ponto mais avancado da fé Crista naquele continente. Livre das invasões dos bárbaros, a igreja ali guardou a luz do saber brilhando sobre toda a Europa, atraindo educadores e lideres cristãos de todo o continente. As grandes escolas monásticas da Irlanda e o zelo pelo saber por parte dos cristãos irlandeses ajudaram em muito a cristianização da Europa. “Os Celtas, mais conhecidos por irlandeses foram abençoadoramente notáveis na Idade Média, resultado da evangelização da Irlanda por Patrício. Ele nasceu numa famílai cristã na província romana da Bretanha, no ano 389 A.D. Ele chegou a Irlanda no ano 432 A.D. Os objetivos da vida monástica eram: adoração, trabalho, ascetismo, estudo, obediência e cooperativismo. Com o seu desenvolvimento, passou a ter objetivo missionário também: 216 Kenneth Scott Latourette, The First Five Centuries of Christianity, 208.
  • 95. 95 A missióloga Ruth Tucker, em sua obra Até aos Confins da Terra, declara: Os Celtas possuíam profunda paixão pelas missões estrangeiras, um entusiasmo impetuoso dos crentes irlandeses, zelo esse incomum em seus dias. Ardendo de amor por Cristo, sem temer qualquer perigo, pondo de lado toda dificuldade, eles iam a toda parte com o evangelho. “Os monges missionários celtas realizaram uma forma mais pura de trabalho missionário... do que o proveniente de Roma.217 Igualmente importante, o zelo missionário dos irlandeses foi uma outra importante caracteristica da Igreja Cristã. Desde os tempos de Patrício, a igreja ali tornou-se acentuadamente missionária. Durante os seculos VI e VII a igreja de Irlanda tornou-se a maior força missionária do muindo cristão. Com um profundo conhecimento das Escrituras e uma inegável experiência com Deus, os missionários irlandeses espalharam-se por toda a Europa com a mensagem do Cristianismo. Com um santo entusiasmo eles se entregaram a evangelização de outros povos. Os escoceses, os anglo-saxões e os frísios das regiões baixas (hoje Holanda e Bélgica) foram povos que receberam muitos missionarios irlandeses. Patrício foi o modelo de missionário para os cristãos da Irlanda. Não obstante as muitas perseguições, ele agiu com profunda tenacidade no cumprimento de sua tarefa missionária. O historiador Stephen Neill faz a seguinte assertiva sobre Patrício: Patrício (389 - 474) pagou o mal com o bem e teve um ministério muito frutífero. Era filho de um sacerdote celta, nascido na Inglaterra. Quando tinha 16 anos de idade foi raptado, escravizado e levado para a Irlanda. Após 6 anos de escravidão escapou e voltou para sua família por 10 anos, quando novamente é aprisionado e levado à França. Ao ser libertado voltou ao seu país, mas logo desejou voltar à Irlanda para evangelizar os pagãos. Preparou- se na França para seu retorno à Irlanda onde ficou conhecido como o apóstolo da Irlanda218 . Os métodos missionários de Patrício eram semelhantes de certo modo aos de tantos missionários antes e depois dele. Contudo, ao contrário de grande parte dos missionários católicos da época, os missionários celtas davam grande ênfase á questão da espiritualidade. O historiador Kenneth Scoth Latourette, informa-nos que “os convertidos recebiam instruções intensas sobre as Escrituras e eram encorajados a envolver-se no ministério da missão e evangelização de seu povo. As mulheres desempenhavam um papel imjportante as Igrejas Celtas, embora Patrício tivesse cuidado em seu relacionamento com elas, na sua condição de solteiro.”219 Segundo as palavras der Ekstrom, “estima-se que ele tenha fundado cerca de 200 igrejas com mais de 100.000 convertidos.220 A evangelização da Irlanda por Patrício e outros companheiros seus, resultou em um dos emprendimentos missionários mais esplêndisos da Idade Média. Trava-se de uma expansão missionária séria e responsável, levada a efeito por homens que estavam prontos a sofer o martírio para o cumprimento de sua missão. F.F. Bruce belamente registra a confissão de Patrício antes de sua morte: Oro para que os que crêem e temem a Deus, quem quer que se tenha dignado a examinar e aceitar as Escrituras, que tenha sido preparado por Patrício, o pecador, homem inculto como se sabe, para que ninguém jamais diga que foi minha ignorância que realizou qualquer coisa 217 Ruth Tucker. Tucker Até aos Confins da Terra. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1999), 41. 218 Stephen Niell, História das Missões Cristãs. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1997). 58. 219 Kenneth Scoth Latourette, The First Five Centuries of Christianity, 219. 220 Bertil ~Ekstrom. História de Missões. (Campinas, SP: CEMIBI, 1993) 16.
  • 96. 96 que fiz ou mostrei conforme a vontade de Deus; mas, julguem e seja verdadeiramente crido, que foi dom de Deus. E esta é a minha confissão antes que morra.221 2 - A Britânia (Inglaterra): A origem do Cristianismo na Britânia é um tanto obscuro. Nós não sabemos exatamente como o evangelho foi introduzido naquela região. Que as Igrejas Cristãs já existiam ali desde o século III é completamente plausivel. A primeira autêntica informação relata a presença de três bispos de Londres, York e Lincoln no Concilio de Arles no sul da França em 314 depois de Cristo. Quando os Anglo-Saxões invadiram a Britânia no quinto século, muitos dos primeiros cristãos foram perseguidos e mortos, deixando um pequeno remanescente deles isolados e inacessiveis a outros povos do continente. Foi a Irlanda, que muito antes havia sido cristianizada pelos cristãos da Britânia, e que agora envia para a Escocia e Britânia seu primeiro grande missionário chamado “Colombo.” Ele nasceu no ano 521 da era Cristã, de uma nobre família irlandesa e possuia vasto conhecimento. Colombo fundou muitas Igrejas e monastérios em seu país natal. Descrito por seus biógrafos como de “aparencia angelical, gracioso na fala, santo no viver, com talentos da mais alta ordem e prudência consumada,” ele saiu da Irlanda para a Escócia com doze companheiros para ser o maior missionario daquele periodo. Em Iona na Escócia, ele fundou um monastério que tornou-se um dos mais famosos centros de atividade missionária de todos os tempos. Segundo Raymond Edman em sua obra The Light in Dark Ages, Os membros do monastério foram divididos em três categorias:222 1) Os que se devotavam as atividades puramente espirituais e a cópia das Escrituras; 2) Os que se devotavam ao trabalho manual; 3) Os que se devotavam a aprender e a estar sob instrução, por serem neófitos. Colombo e seus companheiros viajaram extensivamente por toda a Escócia e Britânia ensinando os novos convertidos, construindo igrejas e estabelecendo monastérios, todos sob o controle central de Iona. Como um cristão de profundo zelo e piedade, Colombo deixou marcas indeléveis na vida dos povos por ele alcançados e cristianizados. Ele morreu no ano 596 A.D., mas o monastério de Iona continuou por mais duzentos anos a enviar missionários para todas as partes da Britânia e Escócia. A Missióloga e historiadora Ruth Tucker, em sua obra Até aos Confins da Terra, comenta: Colombo (521 - 597) foi um dos mais famosos missionários celtas. Nasceu na Irlanda e fundou um centro celta no litoral da Escócia, no qual fez sua base de trabalho. Na primeira fase de sua vida, foi uma pessoa contraditória. Ele era tanto um lutador quanto um santo, homem de proporções avantajadas e voz poderosa; seu gênio violento provocou muitas brigas e finalmente o levou a uma guerra com o rei da Irlanda.223 Após essa drástica experiência, Colombo mudou radicalmente, decidido a converter tantas almas quantas as que caíram nesta peleja (5.000 mortos). Foi um multiplicador. Buscava alto grau de piedade na vida monástica praticada em seu mosteiro. Ele preparava os evangelistas que eram enviados à Escócia para pregarem o evangelho, construírem igrejas e estabelecerem novos mosteiros. Os frutos do seu trabalho se espalharam por todo o país e em outros países da velha Europa. 221 F. F. Bruce. The Spreading Flame: The Rise and Progress of Christianity First Beginnings to the Conversion of the English (Grand Rapids, Michigan: Erdmans, 1979), 381. 222 Raymond Edman. The Light in Dark Ages (Wheaton, Illinois: Van Kampen Press, 1949), 150. 223 Ruth Tucker Até aos Confins da Terra (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1996),. 42.
  • 97. 97 Aida, um dos mais ilustres sucessores de Colombo na cristianização daqueles povos, estabeleceu um monastério em Lindsfarne, na costa ocidental da Inglaterra, e por 17 anos, ele e um grupo de monges, evangelizaram tenazmente os Anglos-Saxões com grande efeito. Ao mesmo tempo, uma segunda invasão Cristã da Inglaterra teve lugar. No ano em que o grande missionario Colombo morreu (596 A.D.), o papa Gregorio o Grande, enviou Agostinho com quarenta monges beneditinos para a Inglaterra. Enqujanto Agostinho e seu contingente de monges evangelizavam a Bretanha e batizavam milhares de pessoas, eles enfrentaram problemas complicados relativos às tradições pagãs. As cerimônias pagãs poderiam coexistir com a Crsitianismo católico e o que deveria ser feito com os templos os templos pagãos? Foi em resposta a essas questões que o papa Gregório estabeleceu certas regras de condutas para os missionários católico-romanos e insistiu em um padrão que foi seguiio durante séculos. Stephen Neill informa-nos: Os templos pagãos desse povos não precisam ser destruídos, apenas os ídolos neles encontrados. Se os templos forem bem construídos, será interessante desliga-los do serviço do diabo e adapta-los para o serviço de Deus. Como o povo está acostumado, quando se reúnem para o sacrifício, a matar muitos animais para oferta-los aos demônios, parece razoávelmarcar uma festa popular para substituir essa celebração. O povo precisda aprender a matar o gado em honra a Deus e para o seu alimento em lugar de homenagear ao diabo. Se lhes concedermos essas alegrias exteriores, terão maior possibilidade de descobrirem a verdadeira alegria interior. É sem dúvida, impossível cortar todos os abusos de uma só vez desses corações embrutecidos, da mesma forma que o homem que se decide a subir uma montanha não avança aos saltos, mas passo a passo, com regularidade.224 Conhecendo a selvageria dos Anglo-saxões, Agostinho foi com seus companheiros, mas logo retornou para a Gália, contudo o papa ordenou que retornassem para a Inglaterra, e agora, reduzidos a um grupo de sete monges, eles retornam e são bem recebidos pelo rei Etelberto, que já possuia algum conhecimento do evangelho através de sua esposa francesa, chamada Bertha, que era uma cristã. Ethelberto concedeu liberdade para pregar a nova religião e providenciou comida e morada para os monges em Canterbury. Dentro de um ano, em reposta a persuasao de sua esposa, Ethelberto tornou-se um cristão. Pouco tempo depois, o seu parlamento adotou a sua fé e dez mil pessoas foram batizadas em um só dia. Por um tempo, as formas de cristianismo do povo da Britãnia e de Roma estavam em conflito. Contudo, sob a liderança de Wilfrid, bispo de York (634-709), a forma romana prevaleceu. Theodoro de Tarso organizou a Inglaterra numa provincia eclesiástica regular de Roma, com a autoridade do arcebispo de Canterbury (Cantuária) sobre toda a Britânia. 3 - A GALIA: Desde o início, as missões católicas se ligaram intimamente às explorações políticas, sendo as conversões em massa o fator principal no crescimento da Igreja. Foi esse o caso do rei Clóvis, rei dos Francos, no quinto século. Ele casou-se com um princesa cristã, mas recusou deixar suas divindades pagãs,a te estar prestes a sofrer uma grande derrota. Nesse momento, afirma-se que fez Nesse momento, afirma-se que fez um voto de que serviria a Deus caso seu exército fosse vitorioso. No dia de natal de 496, ele comemorou a vitória recebendo o batismo cristão. A razão de sua conversão, conforme informa-nos Norman Cantor em sua obra Medieval History: The Life and Death of a Civilization, foi a seguinte: “O rei Clóvis viu que se aceitasse a religião Cristã Católica, ele seria o único rei cristão na Gália, e como paladino desta fé, ele teria maior possibilidade de ganhar a lealdade dos galo-romanos à medida que prosseguisse nas suas conquistas.”225 A conversão em massa do rei Clóvis foi a primeira dentre 224 Stephen Neill. History of the Christian Missions (New York, USA: Penguin, 1964), 68-69. 225 Norman F. Cantor. Medieval History: The Life and Death of a Civilization (Londres, England: McMilan,, 1969), 130.
  • 98. 98 muitas durante a Idade Média, sendo este um dos métodos que converteu a Europa Medieval. O conceito de conversão individual com ênfase no novo nascimento foi o métodlo utilizado pelas missões Protestantes , com especial ênfase na transformação individual do coração. Assim, a cristianização da Gália ficou tolhida e impedida de tornar-se realidade até o século sexto. Aquela região foi evangelizada e cristianizada por Columbano, que junto com os seus companheiros, ele com a idade de quarenta anos, entraram na Gália. Após vinte anos de árduo trabalho, semelhante a João batista, ele caiu na ira da corte ao denunciar a imoralidade da alta sociedade da Gália. Expelido dali, Columbano e seus monges celtas, cruzaram o rio Reno e pregaram o evangelho para os antigos habitantes da atual Suiça. Ele promoveu uma verdadeira guerra contra o paganismo, queimando imagens e templo pagãos, e, ao mesmo, promovendo a fé cristã, ensinando os conversos e construindo monastérios. É dito que Columbano estava sempre “aprendendo, ensinando, vagando, e pregando.” 4 - A FRÍSIA (HOLANDA E BÉLGICA): O primeiro contacto das missões cristãs com as terras baixas, conhecidas como Frísia, aconteceu quando o bispo Wilfrid parou naquela região, numa de suas viagens para Roma. Ele pregou o cristianismo com grande poder e batizou muitos dos líderes frísios e milhares do povo. Em 692 (A.D.) o missionário Willibrord, que tinha sido treinado por Wilfrid, cruzou o mar do norte juntamente com onze companheiros para se tornar o primeiro missionário entre os Frísios. Ele trabalhou durante quarenta anos através da Frísia e, mesmo suportando muitas vississitudes, ele fundou monastérios em Utrecht (Na atual Holanda) e Antwerp (Antuérpia, na atual Bélgica). Apesar das perseguições e procelas, as missões Cristãs foram bem sucedidas e uma igreja forte foi estabelecida entre os Frísios. 5 - A ALEMANHA: O Cristianismo veio para a Alemanha através dos monges Irlandeses e Ingleses. Reconhecido por muitos como o maior de todos os missionários da Idade Media, Bonifácio (680-754), um nobre Inglês e monge beneditino, foi para a Alemanha na metade da vida. Sua brilhante carreira missionária por quarenta anos na Alemanha, concedeu-lhe o título de apóstolo da Alemanaha. Em 722 (A. D.), ele foi consagrado pelo papa Gregorio II como bispo da Alemanha. Sendo um brilhante missionario de grande piedade, vasto conhecimento e ardor evangelístico, Bonifacio lançou os fundamentos da Igreja na Alemanha. Grandes monastérios foram estabelecidos em Reicenau (724), Fulda (744) e Lorsch (763). Em 741 (A. D.) Bonifácio foi nomeado Arcebispo de Mainz e dez anos mais tarde (751) ele presidiu a coroação de Pepino quando este se tornou rei dos Francos. Em seus últimos dias, o espirito de pioneirismo estava ainda nele. Deixando a Alemanha, ele foi para uma região da Holanda onde os Frísios ainda não tinham sido alcançados. Pregando ainda com grande poder ele ganhou muitos frísios para a fé Cristã. Como sucedeu muitas vezes antes, os pagãos promoveram a violéncia e em 05 de Junho de 755 (A. D.), Bonifácio e cinquenta de seus companheiros monges foram mortos. . III. A EXPANSÃO MISSIONARIA DO CRISTIANISMO NA SAXÔNIA E NOS PAÍSES ESCANDINAVOS 1 - Os Saxões: A conversão dos Saxões conincidiu com o reino de Carlos Magno (771-814). Os méritos deste acontecimento foi mais por uma conquista militar do que por uma persuasão moral ou religiosa. A profana aliança entre a igreja e o estado, a qual culminou no ano 800 (A.D.) na formação do Santo Império Romano, capacitou a Igreja para empregar meios carnais visando alcançar fins espirituais. Esta é uma das liçoes mais tristes na história da igreja no periodo das trevas (Idade Média).
  • 99. 99 Carlos Magno, o primeiro governante do assim chamado "Santo Imperio Romano", o qual durou por mil anos, foi um dos grandes imperadores da história. Ele misturou a religiao cristã com a política, e ofereceu as tribos bárbaras as quais ele subjugou, o conforto do Cristianismo bem como os benefícios da civilização. Uma vez que uma tribo ou povo era conquistado, estava incluso no tratado de rendição e termos de paz, a aceitação do cristianismo por parte do povo vencido. Os bárbaros não desejavam nem o Cristianismo nem a civilização. Ambos foram impostos pela força aos povos derrotados e muitas atrocidades foram cometidas neste processo. Vilas foram queimadas, as plantações destruidas, e comunidades ceifadas, tudo no propósito de impor o cristianismo sobre os povos bárbaros ou pagãos. Quase frequentemente, os missionarios foram alvos de ataques e muitos morreram. Gradualmente, com dores e orações, os missioanrios fizeram o seu caminho e o evangelho prevaleceu. Quando o imperador Alexandre Magno morreu, a cristianização dos Saxões estava completada. 2 – ESCANDINÁVIA: Os Vinkings da Escandinávia aterrorizaram a Inglaterra e o continente Europeu durante o nono século. Tão devastador foram suas investidas contra os monastérios e igrejas que, por um tempo, eles quase que exterminaram por completo, todo o esforço do Cristianismo naquela região. As coisas começaram a mudar quando Alfredo o grande ganhou uma decisiva batalha contra os Vikings em 878 e forçou trinta de seus líderes a aceitar o cristianismo. Após este tempo, intrépidos missionários começaram a invadir a Dinamarca, Noruega e Suécia com a mensagem Cristã, contudo, alcançando pouco êxito. Os escandinávios preferiam seu estilo de vida, incluindo seus deuses pagãos. O Imperador Luis o piedoso, teve um ativo interesse em espalhar a religinao cristã na Escandinávia. Em 823 (A.D.) ele enviou Ebo, arcebispo de Rheims na Alemanha, para a Dinamarca. Mais tarde, após a conversão do rei Haroldo da Dinamarca, o imperador Luis (Louis) enviou uma segunda missao Cristã, agora sob a liderança de Anskar (801-865), um monge francês treinado no monasteriod e Corbie, fundado por Colombo, missionário Irlandês. Anskar também realizou serviço missionário na Suécia aonde permaneceu por dezoito anos e conduziu muitos aoi conhecimento de Cristo. Ele também construiu a primeira igreja Cristã na Suécia. Quando ele retornou para a Alemanha, o imperador Luis arranjou com o papa Gregório IV, a concessão religiosa e direção espiritual de toda a Suécia, os povos da Dinamarca e os eslavos do norte da Europa. Neste tempo, cerca de 832 (A.D.) Anskar foi consagrado Arcebispo de Hamburgo na Alemanha. Prontamente, ele começou a treinar missionários e a enviá-los como missionários para a Escandinávia. Com muita habilidade e tato Anskar ganhiou a confiança do rei Horic da Dinamarca, o qual deu permissão para construir Igrejas em seu país. Como temos visto, a Dinamarca foi o primeiro país da Escandinavia a ser contactado pelos missionários Cristãos. Rimbert, um discipulo de Anskar, executou a missão Cristã na Suécia e Dinamarca; mas a inabiblidade em comunicar-se efetivamente com aqueles povos e a fraqueza da Igreja faziam também a missão extremamente dificil. No começo do décimo século, o rei Gorm da Dinamarca, opôs-se tenazmente ao Cristianismo, destruindo as Igrejas e conduzindo à morte muitos missionários. A mudança veio quando o imperador Henrique da Alemanha subjugou em 934, os povos da Dinamarca e compeliu os seus líderes a abraçar o cristianismo. A situacão da Igreja na Dinamarca variava de reino a reino. Sob o rei Harold sucessor de Gorm, o Cristianismo floresceu; sob o reino de seu filho, o Cristianismo esvaiu-se. Enfim, o cristianismo estabeleceu- se e fincou raizes na Dinamarca sob o reinado de Canute, um rei cristão da Inglaterra e Dinamarca entre 1018 a 1035. Neste periodo igrejas e monasterios foram construidos por toda a parte. A fase missionária da Dinamarca veio a concretizar-se completamente com o estabelecimento de uma arqui-bispazia em 1104.
  • 100. 100 3 – NORUEGA: O evangelho foi para a Noruega através da Inglaterra. A introdução da fé Cristã ali foi acompanhada pela violência. Os agentes do cristianismo não foram os missionários e sim os reis. O rei Haakon tornou-se um cristão e reuniu esforços para cristianizar a Noruega. Encontrando muita oposição por parte do povo e de muitos líderes, precipitou-se uma rebelião vindo o rei a morrer em 961 sem conseguir alcançar os seus intentos. O Cristinismo fincou raizes na Noruega durante o reino de Olaf Tryggvason (963-1000). Semelhante ao seu antecessor, ele havia morado algum tempo na Inglaterra aonde tornara-se cristão. A diferença é que Olaff foi bem sucedido aonde Haakon falhou. Ele muito fez pela evangelização de seu povo, tendo grande parte do mérito na historia da cristianização da Noruega. 4 - A CRISTIANIZAÇÃO DOS POVOS EUROPEUS Quando nós nos movemos para esta parte do mundo, permanece-se o fato de que o Cristianismo por muitos séculos tinha estado fluindo de duas fontes: Uma emanava de Roma e a outra de Constantinopla (antiga Bizâncio). Desde os tempos de Maomé (570-632 A.D.) até a queda de Constantinopla (1453A.D.) o grande imperio Bizantino foi a grande muralha contra os avanços do Islamismo no leste europeu. Mesmo nos piores dias daquele periodo, Constantinopla foi a mais importante e também a mais civilizada cidade do mundo cristão. O Império Bizantino durou onze séculos e vai desde a fundação de Constantinopla, por Constantino, como cidade Cristã , até a sua queda nas mãos dos Turcos em 1543. Contantinopla sofrera muitas vicissitudes. Desde o inicio do século VIII, o império começara a sentir-se seriamente ameaçado pelos muculmanos. Ao mesmo tempo, a sua unidade interna via-se abalada pelas amargas tensões da luta iconoclástica. Pode a Igreja usar pinturas e imagens na sua vida e oração? Os espiritos tradicionalistas respondiam: Sim. Um grupo mais puritano, chefiado pelo imperador Leão III (675-740), respondia: Nao. É possivel ver-se aqui a influência no espirito do Imperador, do puritanismo do Islamismo, com o qual manteve contacto nos seus primeiros dias, na fronteira oriental. Durante mais de um século (725-843) a Igreja e o Estado foram abalados por esta disputa e os recursos que deveriam ter sido empregados na defesa do mundo cristão e na propagacão da fé estavam sendo gastos em perseguições mútuas. Mas Constantinopla possuia poderes estraordinários de recuperação. Os séculos IX e X, em que o Ocidente atingiu o seu mais baixo nível de imundo barbarismo, representaram para Constantinopla um periodo de renascentismo militar, político, cultural e, numa certa medida, religioso. Em 863, a Universidade de Constantinopla foi restaurada. Houve uma redescoberta dos antigos clássicos gregos, tal como se verificou no renascentismo do Ocidente. A partir desse periodo Constantinopla foi o centro de uma cultura literária vigorosa, e mesmo nos dias piores da Idade Medieval, ela ainda resplandecia como a mais civilizada cidade do mundo cristão. O seu povo era aberto e inteligente, e apaixonado pelas discussões teológicas. Contudo, a Igreja ali tornara-se tão subserviente em relação ao estado, na pessoa do principe cristão, divinamente nomeado, que perdera grande parte da sua independência. Mas era ainda a representente de uma grande tradição cristã. Do ponto de vista missionário, pouco se fez nos consturbados séculos VIII e IX. Leão III, desejando a unidade do seu império, procurou converter os Judeus pela força, o que com dificuldade poderia considerar-se como uma “ação missionária". No entanto, com o revigoramento verificado noutras direções, assistiu-se também a um renovar do esforço missionário. 5 - A ESLÁVIA: No século IX, o interesse concentrou-se nos povos eslavos cujo poderio crescia cada vez mais, a norte e a ocidente. Tornar-se-iam cristãos? E se assim
  • 101. 101 sucedesse, sob que Igreja? A primeira grande missão aos Eslavos associa-se com os nomes de dois irmãos, Constantino (mais tarde Cirilo, 826-69) e Metódio(815-65). Estes dois irmãos foram enviados para a Eslávia a convite de Ratislav, o principe da Eslávia pelo patriarca de Constantinopla. Ratislav considerou prudente virar-se para o Oriente e pedir missionários ao imperador oriental. O imperador escolheu Constantino e Metódio, descendentes de uma familia nobre de Tessalônica. Cada um deles possuia educação teológica esmerada e grande paixão missionária. Eles também eram familiarizados com a lingua eslava. Eles decidiram que deveriam sempre pregar o Cristianismo ao povo na lingua eslava e não no grego. A língua cúltica seria a língua do povo alcançado e não latim. O passo seguinte consistiu em criar um alfabeto em que se pudessem escrever as linguas eslavas. Constantino produziu o alfabeto que até hoje é a base de quse todas as linguas eslavas no leste europeu. Os dois irmãos dedicaram-se a tradução e produção da liturgia eslava. Roma insistia sempre em que o latim era a única língua litúrgica do Ocidente. As linguas dos bárbaros incultos eram consideradas indígnas para serem utilizadas na liturgia cristã. Para a Igreja do Ocidente (de Roma), o latim possuia todo o prestígio da antiguidade e do poder civilizador. A vantagem desse método consistiu na criação duma certa unidade do mundo ocidental, em que o latim foi a língua comum, até ao fim do século XVIII pelo menos entre os eruditos e cultos, e uma grande força unificadora. A debilidade consistia em que os cristãos compreendiam pouco do que se passava na celebração liturgica. A atitude da Igreja de Constantinopla era intereiramente diferente. Os cristãos ortodoxos estavam familiarizados com os armênios e com os sirios, que tinham um alfabeto diferente e as suas próprias tradições litúrgicas. O desejo de centralização eclesiástica tão peculiar no Ocidente, nao afetava a Bizâncio (Constantinopla), que encorajava a Igreja do oriente no sentido de serem edificados na cultura nacional de cada povo, na base da prória língua. A questão dos limites entre os mundos oriental e ocidental não podia deixar de produzir atritos intermináveis. Tinham Constantino e Metódio algum o direito de evangelizar as regiões habitadas pelos povos eslavos? Eles decidiram ir a Roma para falar com o papa Nicolau I, contudo este veio a morrer no dia 13 de Novembro de 867, e eles não puderam encontrá-lo. A ortodoxia e a santidade dos dois irmãos eram geralmente reconhecidas. O trabalho na Eslávia foi aprovado pela liderança da Igreja oriental. Permitia-se o emprego de liturgia na língua eslava. Constantino morreu a 4 de Fevereiro de 869, mas o papa fez reviver a antiga sede de Esmirna e nomeou Metódio seu arcebispo e seu legado especial para os povos eslavos. O principe Ratislav da Eslávia estendeu os seus limites geográficos para a Galícia, Silésia e Saxônia, e aonde que o soberano ia, Metódio o seguia cristianizando aqueles povos e fundando Igrejas. Contudo, após a sua morte, a situação politica e religiosa sofreu uma profunda reversão e o eslavo voltou a ser proibido na adoração e na celebração litúrgica. Constantino e Metódio foram admiráveis pela sua visão, resistência e trabalho, mais do que pela duração de suas vidas. Contudo, da obras de ambos e da semente por eles lançada, Deus fez surgir uma grande árvore. Seus discípulos foram perseguidos na Eslávia e espalharam-se pelas regiões da Bulgária e outras partes da Europa oriental. Constantino e Metodio, podem ser considerados os primeiros missiólogos da contextualização na Idade Média entre os povos eslavos. III. - "A CRISTIANIZAÇÃO DO LESTE EUROPEU" 1 - A RUSSIA: A vasta área hoje denominada "Rússia" fora durante séculos a pátria de muitas tribos de várias origens raciais, sem unidade entre si e sem uma cultura própria. A criação da nação russa foi obra dos comerciantes escandinavos, em busca de riquezas. Os escandinavos
  • 102. 102 haviam descoberto duas novas vias comerciais: uma para sudeste, ao longo do rio Volga para o mar Cáspio e para Bagdá, a outra ao longo do rio Dnipre, para o mar negro. O patriarca Photius de Constantinopla enviara uma missão e um bispo a Kiev, cidade russa; mas esta cidade foi subjugada pelo príncipe de Novgorod, ainda pagão, e esta primeira tentativa de cristianizar o povo russo resultou em nada. A russia teria de aguardar outro século, antes de verificar-se a fundação da sua Igreja. O grande passo em frente foi dado pela princesa Olga que, após a morte do marido Igor, governou Kiev, de 945 a 964 A.D. Ela é enaltecida na historia russa por sua justiça e equidade. Em 975, a princesa Olga decidiu ir a Constantinopla e receber o batismo cristão das mãos do patriarca. O batismo foi celebrado numa cena de prodigioso esplendor. É caracteristico da confusão daqueles tempos que Olga, desejando fortalecer o seu poder, tenha enviado uma embaixada ao imperador ocidentental Otto, pedindo-lhe que lhe enviasse um bispo. Otto respondeu àsperamente; mas antes da embaixada voltar a Kiev, a situação mudara por completo. O filho de Olga, Sviatoslav, arrebatara o poder de sua mãe e lançara-se de corpo e alma numa reação anti-cristã. Houve um momento em que se pensou que Sviatoslav e toda a sua corte iriam se converter ao Islamismo. Ele havia conquistado uma raça de turcos do Volga que aceitavam o Islã e, enquanto permanecera com eles, sentira-se muito atraido pelo seu modo de vida. Se a Russia se convertesse ao Islamismo, toda a história ocidental teria sido notàvelmente diferente. A diplomacia bizantina deu-se conta da situação e o perigo muçulmano na Rússia não voltou a erguer a cabeça. Foi sob Vladmiro (980-1015), filho de Sviatoslov, que a Rússia se tornou profunda e permanentemente cristã. A historia cristã conta que Vladmiro enviou mensageiros aos povos vizinhos (subjugados ou não) para investigar as religiões por eles professadas, com o propósito de adotar para os seus súditos, aquela que provasse ser a mais sublime. O Islã não atraiu os mensageiros. Viraram-se para os Khazars, único exemplo de um povo que, na era cristã, aceitou em grande escala a fé judaica, e não encontraram o judaismo adaptado aos russos. As cerimônias da Igreja ocidental, como se praticavam na Alemanha não lhes agradara. Mas quando chegaram a Constantinopla, encontraram o que procuravam. Muita gratidão se deve aos missionários que a partir do ano 1000 difundiram a cultura cristã na Russia. Todos os bispos, e a maior parte do clero, eram gregos, embora muitos destes fossem da Criméia, antiga civilização grega que não se encontrava muito longe da Rússia. A obra cristã espalhou-se para lá de Kiev: para o norte, para Novgorod, para o nordeste, para a região de Moscou que seria mais tarde o centro da vida russa. Esta cultura era inteiramente bizantina, embora dotada da flexibilidade tão caracteristica de Bizâncio, que tornou possivel que uma importação estrangeira viesse a ser considerada como nativa e ganhasse gradualmente as qualidades da região para a qual fora transplantada. Assinalamos aqui o choque de interesse entre o Ocidente e o Oriente, cada um deles tentando aumentar o seu campo de influência entre as nações. A linha divisória entre o que chamamos hoje de católicos romanos e Cristãos Ortodoxos veio a ser marcada no próprio coração da Europa. Lugar após lugar, o processo é mais ou menos o mesmo. O primeiro bispo enviado é martirizado pelas tribos selvagens; o seu sangue forma então adequadamente a semente da Igreja. Os êxitos iniciais são seguidos de uma reação pagã; mas a Igreja revigora-se sob a égide de um governante convertido ao Cristianismo, com quem um ou vários bispos importantes podem trabalhar em harmonia. A primeira cristianização é evidentemente muito débil e superficial, e em geral seguida de um longo periodo de construção, em que a fé se torna parte da herança daquele povo. As alianças políticas, frequentemente cimentadas por casamentos, formam uma grande parte do quadro. E, nos casos dos reis Clóvis e de Etelberto, a influência das rainhas cristãs desempenharam um papel importante na sua conversão.
  • 103. 103 2 - Boêmia (Atual Tchecoslováquia): O Cristianismo entrou pela primeira vez na Boêmia através da Eslávia. No fim do século IX a Boêmia estabeleceu laços firmes com o Ocidente e com o que é hoje a Alemanha. Vratislav, que governou a Boêmia durante o fim do século, era nominalmente cristão, mas a sua morte foi seguida de uma reação pagã. E somente sob seu filho, o piedoso Václav (o bom Rei Venceslau dos contos de natal), educado desde a infância como cristão, começou a fé a progredir. Mas, em 929, numa ocasião em que Václav se dirigia à Igreja, foi assassinado por seu próprio irmão Boleslav. Boleslav sucedeu ao irmão assassinado, sem qualquer protesto da parte dos tchecos, e seguiu-se um periodo hostil ao Cristianismo. A evangelização do país só sae completou no tempo de seu sucessor, seu filho homômino, que reinou de 967 a 999. Boleslav II construiu muitas igrejas e mosteiros nos seus dominios. Boleslav II desejava possuir uma organização eclesiástica independente, isto é, no sentido de que o bispo dependesse apenas da vontade do príncipe. Contudo, ele não conseguiu o seu intento. Quando o bispado foi criado em 975, dependia do arcebispo de Mainz na Alemanha. 3 - A Polônia: A historia Cristã começa com o duque Mieszka, que em 963 D.C. fora obrigado a reconhecer a soberania do imperador Otto I. Mieszka casou-se com uma senhora cristã, Dobrawa, irmã de Boleslav II da Boêmia. Foi provavelmente sob a sua influência que em 967 concordou em ser batizado. A este acontecimento seguiu-se a criação de uma ordem episcopal na Polônia, em Poznam. Sob o filho de Mieszka, chamado de Boleslav - Chrobry, o bravo, que governou de 992 a 1025, a Polônia realizou grandes progressos, tanto no ponto de vista do poder político, como da estabilidade religiosa. Boleslav aumentou grandemente os seus dominios e fêz da Polônia o maior reino da Europa Oriental. Em 1024, ele recebeu do papa o título de rei e uma coroa real. Boleslav transformou a cidade de Gnesen, aonde Adalberto (bispo de Praga em 983), santo Polonês, fora sepultado, no centro eclesiástico do reino; o irmão de Adalberto foi feito arcebispo em seu lugar. Após a morte de Boleslav, tudo, durante um certo periodo, caiu na apatia, e só um século depois é que o Cristianismo acabou se completando na Polônia. 4 - A Bulgária: A conversão dos búlgaros ao Cristianismo foi grandemente acelerada pela conversão e batismo do rei Boris em 865. Logo após a sua recepção a religião cristâ, ele estabeleceu um monastério, o qual tornou-se o centrro de irradiação da cultura eslava. O Rei Bóris enviu a Constantinopla o seu filho herdeiro para ser educado como um monge. Mais tarde, ele enviou o famoso missionário "Clemente" para a Macedônia, onde ele fundou um centro de treinamento missionário. Pelo tempo da morte do Rei Bóris (907 A. D.) os Búlgaros tinham se tornado os líderes Cristãos do mundo eslavo. O Rei Simeão, filho do Rei Bóris, fez história quando persuadiu seus bispos para declarar a Igreja Búlgara uma igreja independente de controle externo, e que se elegesse um patriarca para a Bulgaria. Da Bulgária a fé Cristã se espalhou para o que foi chamado mais tarde de "Iugoslavia". 5 - A Hungria: Um povo de origem mongol, cuja língua e cultura os assemelham aos finlandeses ou aos turcos, começaram a surgir na Europa, no fim do século IX. Era um povo destrutivo e sem lei, cujos ataques, acompanhados pelos assassinatos de sacerdotes e a profanação de igrejas os tornaram temidos. Em 955 D.C. sofreram uma derrota esmagadora, às mãos do imperador Otto I, nas vizinhanças de Augsburgo. Isto marcou o limite da sua expansão ocidental, trazendo-os também para a esfera de influência dos poderes cristãos e ocidentais. Em 973 D.C., Geisa, príncipe da Hungria, casou-se com uma princesa cristã, Adelaide da Polônia. Dois anos mais tarde, ele foi batizado, juntamente com o seu filho Vajk, que recebeu o nome de Estevão. A partir de então, Geisa dedicou-se a cristianização de seu país. Quando a persuasão não era eficaz, recorria a outros métodos, menos agradáveis. As conversões multiplicaram-se em toda a nação..
  • 104. 104 Foi durante o reinado de Estevão (975-1038) que a Hungria se tornou realmente um país cristão. Estevão, que em 1001 recebera do papa o título de rei e uma coroa real, mostrou-se um príncipe cristão ideal. Devoto à fé cristã e sábio em suas decisões, ele mostrou ao povo o caminho da religião cristã e indicou que deviam seguir a Deus de forma vigorosa. Estabeleceu-se uma hierarquia, com dois arcebispos e oito bispos, tendo como o centro eclesiástico a cidade de Esztergom. Sob as novas leis cristãs, os bispos e os abades dos mosteiros beneditinos receberam um estatuto privilegiado entre a aristocracia, sendo também os bispos juízes em certos casos legais. Após a morte o rei Estevão, desencadeou-se uma reação pagã na Hungria contra os Cristãos. O Cristianismo sobreviveu às varias ameaças que afetaram a sua existência e, no fim do século XI, encontrara uma aceitação geral, como a religião nacional do povo húngaro. 6 - A China: Os êxitos dos muçulmanos haviam cortado o mundo em dois. Tendo-se apoderado do mar, tornaram o Mediterrâneo perigoso para a navegação cristã. E nas águas indianas eram o poder dominante. Este estado de coisas permaneceu inalterável até o fim do século XV, quando ∫artolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, contornando por trás as potencias muçulmanas. Por terra, a maior parte das vias encontravam-se nas suas mãos, embora algumas das vias nórdicas estivessem ainda abertas aos cristãos. A Europa ocidental como um todo, entretanto, estava quase completamente separada da Ásia e é pouco provável que, nesse tempo, alguém conhecesse uam das mais notáveis ações cristãs, a penetração da China pelos cristãos nestorianos, no século VII. Foi o cristianismo nestoriano que se espalhou ao longo das vias comerciais terrestres da Asia Central e, em 635 d. C., atingia o coração da China. Este país encontrava-se então sob o governo da dinastia T'ang (618-907), raça de governantes capazes e vigorosos, sob os quais restaurara a unidade do império e se restabelecera a ordem. O comércio florescia e eram muitos os visitantes. Sob T'ai Tsung, a China era provavelmente o império mais rico e mais civilizado de todo o mundo. Em 1623, foi descoberto um monumento nestoriano em Hsianfu, China, que data do ano 781, contendo informações admiráveis sobre a influência do cristianismo nestoriano naquele país. Em 1908, foi encontrado muitos livros e escritos cristãos nas grutas de Tun- Huang, na China com referências ao cristianismo nos editos imperiais chineses dos anos 683, 745 e 845. Diz-nos que no ano 635 A-lo-pen, um líder chinês, chegou a capital de T'ai T'sung, levando consigo "uma religião luminosa vinda da Siria. Ele foi bem recebido pelo imperador, que estudou a nova religião, aprovou-a e ordenou e sua propagação. Naturalmente houve reações anticristãs por parte dos budistas. Mas a igreja conseguiu sobreviver e teve uma historia de pelo menos dois séculos. O Cristianismo da China foi sobretudo monástico, caracteristica nada prejudicial num país tão familiarizado com as tradições do monasticismo budista. A relação de livros cristãos traduzidos para o chinês, sugere que os monges estrangeiros aprenderam a lingua do povo e se instalaram na terra que os recebera. Mas teremos que perguntar: Até que ponto foi a sua presença sentida e se a sua influência ultrapassou as paredes dos mosteiros. Diferentemente, da vida monástica do ocidente, aqui, o monge era o único ser sivilizado, trazendo conhecimentos e também melhores métodos agrícolas, a uma população essencialmente simples. Em 845, a perturbação desabou sobre a Igreja. O Imperador Wu Tsung, que era uma taoista ardente e se opunha ao monasticismo sob todas as suas formas, publicou um decreto proibindo o budismo, dissolvendo os mosteiros e ordenando aos monges que voltassem à sua vida privada. Os nestorianos eram monges e o decreto também se lhes aplicava. Não se sabe o
  • 105. 105 que sucedeu. È provável que a Igreja cristã haja sido quase totalmente exterminada. Mas é natural que o seu poder e influência tenha diminuído ou até mesmo destruído, e que a partir de então declinasse rapidamente. IV. AS CRUZADAS E A EXPANSÃO DA IGREJA NA EUROPA Do ano 1.000 a 1500 ocorreram-se cruzadas, isto é, lutas de cunho religioso a serviço da igreja cristã. Sabemos que havia interesses políticos e econômicos, mas o motivo primeiro era religioso. Justus Gonzáles assevera: O objetivo das Cruzadas era derrotar os muçulmanos que ameaçavam Constantinopla, salvar o Império do Oriente, unir de novo a cristandade, reconquistar a terra santa, e em tudo isto ganhar o céu. Os quatro primeiros objetivos foram alcançados ainda que temporariamente. Se ganharam o céu ou não, cabe ao Supremo Juiz decidir.226 A expansão da igreja no norte da Europa e o combate aos muçulmanos ocorreram em função de interesses políticos e por questões religiosas. As cruzadas iniciaram-se em 1096 com o objetivo de expulsar os muçulmanos do sul da Europa e durou de certo modo até 1492, quando os mouros foram vencidos definitivamente. 1 – As Principais Cruzadas Podemos destacar sobre as cinco primeiras cruzadas armadas contra o domínio dos muçulmanos, os seguintes aspectos históricos: - A primeira cruzada iniciou-se em 1096 e conquistou a cidade de Nicéia, Antioquia e finalmente em 1098, conquistou Jerusalém (o alvo da cruzada), numa das mais sangrentas e violentas batalhas. - A segunda cruzada também rumo a Jerusalém foi um fracasso, e foi derrotada em 1187, quando os muçulmanos reconquistaram Jerusalém. - A terceira cruzada, chamada cruzada dos Reis, iniciou-se em 1189 como reação ao fracasso anterior; também foi fracassada, mas obtiveram um acordo, a permissão da entrada dos peregrinos em Jerusalém. - A quarta cruzada iniciou-se em 1202 para atacar os muçulmanos no Egito, e fazê-lo de base para as operações contra a Palestina. Contudo, ao passar por Constantinopla, saquearam-na e tomaram e o poder. - A quinta Cruzada aconteceu em 1219, no Egito, cuja Cruzada teveteve a companhia de Francisco de Assis. Earle Cairns, em sua obra O Cristianismo através dos Séculos, outorga-nos a seguinte informação: A cruzada das crianças de 1212 foi o episódio mais triste da história das cruzadas. Estevão e Nicolau, dois meninos, dirigiram um batalhão de crianças da França e da Germânia. Elas marcharam desde o sul da Europa até a Itália, na suposição de que a pureza de suas vidas lhes daria o sucesso não obtido por seus pais pecadores. Muitas morreram pelo caminho e as sobreviventes foram vendidas como escravos no Egito.227 São lamentáveis os resultados das cruzadas armadas. Estes resultados trágicos ainda se refletem no difícil relacionamento entre cristãos latinos e os orientais e entre os cristãos e muçulmanos. Elas acentuaram a intolerância religiosa, e justificaram a guerra desde que em defesa da fé. Deram início às ordens monásticas militares, e fortaleceram o poder do papa na igreja ocidental. "Do ponto de vista da história, todo o movimento das cruzadas foi um vasto fiasco".228 Apesar do interesse político dominante nas Cruzadas, temos alguns missionários extraordinários neste período como, por exemplo: 226 Justus Gonzáles. Gonzáles. História do Cristianismo. vol 4.(São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1981), 47. 227 Earle Cairns. O Cristianismo através dos Séculos (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1995). 228 Stephen Neill. História das Missões. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1997), 177.
  • 106. 106 Naturalmente, havia muitos interesses envolvidos tais como: interesse econômico, político, pessoal (os cavaleiros por fama, glória e recompensas) e o interesse religioso. Todavia, o fator preponderante segundo a maioria dos historiadores, foi o fator religioso. Fomentado pelo clero e autoridades religiosas, produziu-se um desejo particularmente europeu, de querer libertar Jerusalém e os lugares sagrados das mãos dos muçulmanos. A idéia se libertar dos muçulmanos, não era em si mesma uma idéia ignóbil. Os homens do ocidente já haviam lutado por causas muito menos nobres do que esta. Foi uma atitude astuta por parte dos papas, para desviar o vigor incansável das classes guerreiras da futilidade das guerras internas que devastavam a Europa medieval. Áqueles que tombavam e caiam nas guerras na terra santa, a auréola do martírio pela fé cristã coroava-lhes as cabeças, diante de uma morte por tão grande causa, asseguravam os religiosos.Aqueles que sobreviviam, tinham a esperança de grande recompensas materiais. A região da Palestina estava sob o controle dos muçulmanos desde o século sétimo. Para muitos, a contínua presença dos muçulmanos dominando a Palestina, era uma afronta para o Cristianismo e uma ameaça aos cristãos peregrinos rumo aos lugares sagrados. Existia também o desejo da Igreja do ocidente de reatar contatos com a igreja do oriente com sede em Constantinopla. Enquanto o mundo ocidental combalia em termos intelectuais na Idade média, Constantinopla resplandecia como a mais intelectual cidade na era medieval. Durante o século X, as relações entre essas igrejas do ocidente e do oriente deterioraram-se até chegar a ruptura em 1504 A. D. Assim sendo, havia uma certa prontidão e espírito resoluto por parte da Igreja Católica Romana em envidar esforços junto ao império bizantino, centralizado em Constantinopla, para que junto pudessem combater o inimigo em comum: O Islamismo. No século XI, o império bizantino foi vitimado por dias difíceis e nebulosos com a morte do imperador Basílio II , piorando ainda mais com o fim da dinastia macedônica em 1056. Dissenções internas e ameaças estrangeiras ameaçavam fortemente a existência do estado. A maior ameaça veio dos turcos, os quais, convertidos ao Islamismo, formaram no século XI um império que abrangia a Pérsia, a Mesopotâmia, a Síria, o Egito e a Palestina. Em 1071, em batalha acontecida na Armênia, os exércitos turcos infligiram uma grande derrota as forças bizantinas. Mas, depois de se ter dito tudo que se pode dizer de favorável,em relação às cruzadas, o cristão é obrigado a considerar que representaram um desastre irreparável de grandes proporções para a causa missionária da Igreja. Ainda hoje, muitos muçulmanos quando evangelizados, lembram do que acontecera com as cruzadas. As cruzadas foram romantizadas na Idade Medieval, com o propósito de conseguir o maior número de adesão possível. Para a maioria dos guerreiros cristãos, os muçulmanos eram infiéis q, sem direito à existência, cuja vida não era necessário conservar, podendo assim serem chacinados sem dó nem piedade, para maior glória do Deus cristão. É certo, evidentemente, que o ódio gera o ódio, e que o fel engendra o fel. Os guerreiros sarracenos sentiam-se igualmente felizes ao poderem chacinar os cristãos, o que perante o seu próprio juízo estaria bem justificado. E assim, durante os dois séculos que decorreram entre a primeira conquista de Jerusalém em 1099 e a perda do último forte dos cruzados em Acre, em 1291, o Mediterrâneo foi ensombrecido por uma nuvem ainda mais escura de ódio, tanto mais desastroso quanto este sentimento era conjurado em nome de Cristo. De três formas deixaram as Cruzadas a sua marca indelével na história cristã: 1 – Em primeiro lugar, lesaram para sempre as relações entre os ramos ocidental e oriental da Cristandade. Os cruzados ocidentais foram inicialmente convidados pelo império oriental, para somar esforços no combate ao Islamismo. De início, os cruzados ocidentais aceitaram estar sob a tutela e jurisdição dos patriarcas orientais. Mas, não tardou esta submissão e logo, insuflados pelo ocidente, eles criaram dioceses latinas sob a tutela de Roma. E, como seria de esperar, esta atitude provocou o ressentimento do clero oriental. O mal-estar atingiu o
  • 107. 107 clímax mais horroroso quando a quarta cruzada se desviou do seu próprio objetivo, saqueou Constantinopla em 1204 e instalou um precário Império Latino sobre as ruínas do Império Oriental, que assim fora destruído. Sessenta anos depois os bizantinos reagiram, expulsaram os estrangeiros e criaram de novo o seu próprio Império oriental. Mas este era simplesmente uma sombra do Império anterior, permanentemente enfraquecido pela luta infindável contra os muçulmanos. Quando Constantinopla caiu nas mãos dos turcos em 1453, revelou-se toda a extensão da culpa das cruzadas. Nunca mais a Igreja do Oriente seria a mesma! 2 – Em segundo lugar, as cruzadas deixaram um rastro de amargor nas relações entre os cristãos e os muçulmanos, que continua a ser um fator vivo na situação mundial dos nossos dias. Independentemente do que pensamos, para os muçulmanos o ocidente é o grande agressor. Há cerca de novecentos anos, os cristãos participaram deliberadamente deste papel, em nome de Cristo. Hoje, os novos missionários cristãos que chegam a países majoritariamente muçulmanos, ou são mortos ou expulsos daquelas nações. Não queremos dizer com isso que os muçulmanos hajam sido sempre ternos e gentis – também foram bastante agressivos, sempre que se viram com força e com oportunidade para aplica-la. Mas, em qualquer dos casos, os muçulmanos da idade Medieval não pretendiam tornarem-se cristãos ou seguir ao Senhor Jesus, o nosso Príncipe da Paz. Para os ocidentais, poderá parecer que as cruzadas se efetuaram há muitos séculos atrás e que os cruzados dormem tranqüilamente no silêncio das igrejas católicas da Europa. O oriente tem uma perspectiva diferente do tempo.Para cada muçulmano das terras mediterrânicas, os cruzados são um acontecimento de ontem e as feridas estão prontas a abrirem-se de um momento para o outro. 3 – Em terceiro lugar, as Cruzadas implicaram numa descida e declínio moral da Cristandade. Não tardou muito que o papa Inocêncio III mostrasse que o mesmo princípio poderia ser usado contra os chamados “hereges” pela igreja. Milhares de cristãos Albingenses e Valdenses, e até mesmo Judeus, foram mortos na Era Medieval. O próprio concílio de Latrão de 1215 aceitou a derrota moral da Igreja, ratificou e erigiu-a em lei. O papa não desconhecia as atrocidades cometidas pelos cruzados. É impossível discordar do juízo moderado de um historiador das cruzadas: Simon Runciman, em sua obra A History of the Cruzades, faz a seguinte assertiva: Visto dentro da perspectiva da história, todo o movimento das Cruzadas foi um vasto fiasco. Serviu para mostrar que a fé sem sabedoria é perigosa... O historiador, quando regride nos séculos observando a sua história, acaba por encontrar a sua admiração vencida pela tristeza, ao verificar as limitações da natureza humana. Havia muita coragem e demasiado pouca honra, muita devoção e pouca compreensão. Os grandes ideais foram maculados pela crueldade e selvageria. O Cristianismo viu-se afetado por uma retidão estreita e cega. A própria guerra santa nada mais era do que um longo ato de intolerância em nome de Deus, o que consistia em um pecado contra o Espírito Santo.229 V. ASSUNTO TEMÁTICO: AS MISSÕES CATÓLICAS NOS SÉCULOS XIII AO XVII. 1. As Missões Católicas na Alta Idade Média Os empreendimentos missionários politicamente orientados da Igreja Católica Romana, durante o período Medieval representaram muito pouco em termos de missões. As Cruzadas, um movimento que durou 200 anos (1095-1291), dificilmente se poderia chamar de empreendimento missionário. O objetivo precípuo era expandir o território controlado pelos 229 Simon Runciman. A History of the Cruzades Vol. III (Hodder and Stoughton, 1954), p. 469.
  • 108. 108 cristãos e não converter os muçulmanos. Foram duzentos anos de lutas sangrentas, nas quais dezenas de milhares de vidas se perderam. Embora as primeiras cruzadas tivessem alcançado algum êxito militar, não houve vitória final. Muito mais significativo, contudo, foi a perda do diálogo e da possibilidade de alcançar os sarracenos A animosidade dos muçulmanos contra os cristãos era tão grande, como resultado da crueldade selvagem demonstrada durante as Cruzadas, que até hoje a memória deles não se apagou, e o trabalho missionário permanece muito difícil e extremamente hostil entre os povos de fé islâmica. Nem todos os cristãos os cristãos professos do período acreditavam que a força militar era a maneira apropriada de tratar os muçulmanos. Durante os primeiros anos do século XIII, enquanto o espírito das Cruzadas ainda se mantinha vivo, Francisco de Assis fossem ganhos pelo amor em lugar do ódio. Convicto de que os muçulmanos não eram pessoas convertidas, e que isso se devia ao fato de que os Evangelhos não se lhes haviam sido apresentados em toda a sua simplicidade e beleza, ele próprio fêz três tentativas para consegui-lo. As primeiras duas, em Marrocos em 1212 e na Espanha em 1214, nada produziram. Mas, em 1219, quando os soldados da Quinta Cruzada acampavam no Egito, juntou-se-lhes e conseguiu ser apresentado ao sultão do Egito. É improvável que o sultão tenha apreendido e compreendido muita coisa do que foi dito por aquele homem vindo da Itália, com uma outra língua e outra cultura. No que tange ao assunto supra-mencionado, Neill faz a seguinte assertiva: Esta viagem de Francisco de Assis ao Egito foi algo mais do que a expressão de um interesse pessoal ou de um zelo missionário. Significava que um novo espírito surgira mundo cristão católico, e que uma notável transformação se efetuava nos métodos missionários daquela igreja.Durante vários séculos, os mosteiros ocuparam o centro da obra missionária, como elemento de perpetuidade imutável num mundo em transformação constante. A partir de agora e durante os dois próximos séculos, o lugar central das missões seria ocupado por duas grandes ordens de frades: Os Franciscanos e os Dominicanos. Até a fundação da ordem dos Jesuítas, nos meados do século XVI, só vimos os Franciscanos e os Dominicanos, como os grandes empreendededores da obra missionária.230 Havia, evidentemente, uma grande diferença entre os fins e as aspirações das duas ordens. Francisco de Assis (1181-1226), queria trazer de novo o amor, a simplicidade e a alegria ao mundo cristão, e suscitar um novo zelo e compaixão pelos pobres. Antes de findar o XIII, os Franciscanos já se haviam espalhado por várias partes do mundo. Na ordem de São Domingos (1170-1221) existiam desde o início características mais severas. A sua ordem destinava-se a ser intelectualmente competente, dedicada à conversão dos pagãos, em especial por meio da pregação, como indicava o seu título oficial: A ordem dos pregadores. Em cada um dos seus membros existia um forte impulso missionário. Em cerca de 1300, os Dominicanos formaram a Societas Fratrum Peregrinatium Propter Christum Inter Gentes (A Companhia dos Irmãos para a Salvação de Cristo entre as Nações). Desde o século XII, a pressão cristã em Portugal e Espanha, estavam obrigando os sarracenos (os muçulmanos) a recuar. Granada, a última praça forte dos muçulmanos, caiu em 1492. Mas, desde meados do século XII, Portugal encontrava-se livre dos muçulmanos e era evidente que em breve a Espanha estaria também Os muçulmanos deixariam atrás de si inúmeras marcas da sua ocupação, na vida da península Ibérica. Uma vez libertados da influência muçulmana, Portugal e Espanha, voltaram a ser novamente, a vanguarda do catolicismo medieval na Europa. No processo da reconquista, houve muitas coisas pouco nobres e outras que provocaram o descrédito. Era talvez inevitável que a violência e a pressão exercidas pelos cristãos fossem mais visíveis que o amor proclamado nos evangelhos. Contanto que alguns 230 Stephen Neill. História das Missões Cristãs, p. 118.
  • 109. 109 cristãos afirmassem que os muçulmanos só eram bons depois de mortos, havia outros cristãos que pensavam diferentemente e que acreditavam que, por meio da pregação do evangelho, os próprios muçulmanos seriam ganhos para a fé Cristã. É nesse contexto com entra em cena um dos homens mais marcantes da história cristã medievaL: Raymond Lull. O espanhol Raymond Lull deve figurar como um dos maiores missionários na história da Igreja. Outros possuíram o ardente desejo de pregar o Evangelho aos muçulmanos e se necessário fosse, sofrer no cumprimento desta missão. Contudo, coube a Raymond Lull ser o primeiro a desenvolver uma teoria de missões, não apenas por desejo de pregar o evangelho, mas para trabalhar com um cuidado pormenorizado na forma de fazê-lo. Lull nasceu em 1235, em Maiorca, uma ilha à costa da Espanha, no Mediterrâneo, cinco anos depois de os Catalães (sob a chefia do rei Jaime, o conquistador) terem conquistado a ilha dos muçulmanos. Quando jovem, depois de vários anos de uma vida devassa e promíscua, ele teve uma profunda experiência religiosa de conversão e a partir dali tudo mudou em sua vida. A reação inicial de Lull ao chamado para o serviço cristão foi característico da era em que vivia. Ele dedicou seu tempo à vida monástica – ao jejum, à oração e à meditação. A maior demonstração de amor por Deus, segundo acreditava, era viver como monge recluso, completamente separado das tentações do mundo. Segundo informa-nos Eliott Whight, em sua obra Holy Company: Heroes and Heroines, sua perspectiva cristã mudou a partir de uma visão que ele teve: Uma visão, porém, tornou-o consciente de suas responsabilidades para com os que o rodeavam. Esta visão tornou-se o seu chamado missionário. Enquanto se achava numa floresta à sos com Deus, bem distante das distrações do mundo, ele se encontrou com um peregrino que, ao saber da vocação escolhida por Lull, o repreende pelo seu egoísmo e o desafia a seguir para o mundo e levar a outros a mensagem de Cristo. Esta visão motivou Lull a dirigir suas energias para missões e, em particular, aos Sarracenos – os mais odiados e temidos inimigos da Cristandade.231 O tema central de todas as ambições e objetivos de Raymond Lull era a conversão dos muçulmanos à Cristo. Primeiro, foi atraído pelo Dominicanos. Não encontrando, porém, apoio para os seus planos e empreendimento missionário, transferiu suas afeições para os Franciscanos. Lull era da opinião que a evangelização dos Sarracenos exigia três estágios condicionais. Ou seja, sua abordagem missionária era tripla: Educacional, Evangelística e Apologética. Primeiro, No campo da Educação Missionária: Raymond Lull cria ser de fundamental importância que, para evangelizar os muçulmanos, os cristãos precisavam conhecer a sua linguagem. Ele viajou bastante, apelando para a igreja e os líderes políticos que o apoiassem na sua causa. O rei Jaime II da Espanha foi um dos que adotaram o seu ponto de vista e em 1276, com sua ajuda entusiástica e contribuições financeiras, Lull abriu um mosteiro em Miramar, na ilha de Maiorca com 13 monges Franciscanos e um currículo incluindo cursos na língua árabe e geografia de missões. Além disso, ele achava ser importante que se estudasse outras línguas relacioandas com o mundo muçulmano: o hebraico, o grego, e o Siríaco. O sonho dele era estabelecer centros em toda a Europa, mas para isso teria de convencer a hierarquia católico-romana do valor de seus projetos – o que não era tarefa fácil. Quando visitou Roma várias vezes, suas idéias foram ridicularizadas pelos papas e cardeais da igreja. Conforme informa-nos Stephen Neill, “em 1311 o concílio de Viena, cedendo aos argumentos de Lull, decidiu criar cinco colégios em associação com as mais famosas universidades do mundo: Roma, Bolonha, Paris, Oxford e Salamanca, para o estudo das línguas do mundo muçulmano.”232 231 Elliot Wright. Holy Company: Christian Heroes and Heroines (New York, USA: Macmillan Company, 1980), 234. 232 Neill, História das Missões, 138.
  • 110. 110 Em segundo lugar, no campo da Evangelização: Raymond Lull não foi o primeiro cristão a interessar-se pela língua árabe. Haviam existido notáveis lingüistas na Espanha medieval e foi por meio de suas traduções do árabe para o latim que o conhecimento de Aristóteles começou a ser difundido no ocidente. Contudo, Lull foi decerto o primeiro a relacionar o estudo do idioma árabe com a evangelização. Ele não se interessava tanto pela língua em si mesma, como pelo fato de poder conduzir uma compreensão cabal do pensamento e das doutrinas dos Sarracenos e à possibilidade de uma discussão elevada e fraterna com eles, acerca de temas religiosos e cristãos. A carreira missionária de Lull não começou com a facilidade que seria esperada de um estadista e missionário especializado, que promovera os seus projetos nos mais altos níveis da sociedade européia. Conforme aprendeu, uma coisa era pregar missões e outra coisa era praticar ele mesmo o que pregava. Ele cria que os cristãos deveriam oferecer um testemunho fiel e corajoso perante os Sarracenos, mesmo à custa da prória vida. Empreender a pregação do evangelho em países muçulmanos era decerto uma decisão perigosa, pois tal fato constituía, sob a lei islâmica, uma ofensa punível com a morte. O bispo Stephen Neill faz a seguinte assertiva: Lull não era um homem que formulasse pensamentos que não estivesse pronto a traduzir em atos. Ele fez sozinho quatro viagens missionárias para pregar o evangelho aos países muçulmanos do norte da África. Na sua quarta viagem missionária em 1315, ele foi preso, agredido e apedrejado em praça pública na cidade de Bugia, na Argélia.233 Elliot Wright em sua obra Holy Company: Christian Heroes and Heroines, comenta: Ele se achava no porto de Gênova para viajar para a Tunísia. Seus pertences se achavam-se a bordo do navio e multidões de conhecidos se apinhavam, todos prontos para uma despedida ruidosa. Então, no último momento, ele foi engolfado pelo terror, com a idéia do que poderia acontecer-lhe naquele país muçulmao para o qual se dirigia. A possibilidade de suportar tortura, prisão perpétua, ou a própria morte, apresentou-se-lhe com tanta força que não podia suportar.234 Os temores de Lull quanto ao trabalho missionário na Tunísia não eram infundados. A Tunísia era um entro poderoso do Islamismo na África do Norte que resitira a repetidas invasões. Os cruzados eram vistos com ódio e ressentimento. A chegada dele à primeira vez, não foi porém acolhida com tanata hostilidade. Ele apresentou-se aos principais eruditos muçulmnaos e solicitou depois uma conferência para debater os méritos relativos ao Cristianismo. Quando teve oportundiade de defender o Cristianismo, ele estabeleceu uma posição doutrinária que, era ortodoxa e evangélica, com pouca teologia medieval e um mínimo de idéias romanas. Edith Deen em sua obra Great Women and men of the Christrian Faith, insere na íntegra uma parte do primeiro discurso de Raymond Lull na Tunísia. Os princópios básicos de seu argumento continuam plenamente válidos hoje num debate com muçulmanos. Todo homem sábio deve reconhcer que a religião, para ser verdadeirda, Atribui a maior perfeição ao Ser Supremo e não só transmite a mais alta concepção de todos os seus atributos, sua bondade, poder sabedoria e glória, mas demonstra a harmonia e igualdade existente entre eles. A religião deles era porém deficiente por reconhecer apenas dois princípios ativos na Divindade, sua vontade e sabedoria, deixando sua bondade e grandeza inoperantes como se fossem qualidades indolentes, nãos sendo chamados para o exercício ativo. Mas a fé Cristã não podia ser acusada desta falha. Em sua doutrina da Trindade ela transmite a mais alta concepção da Divindade, como o Pai, o Filho e o Espírito Santo em uma simples essência e natureza. Na encarnação do Filho ela revela a harmonia existente entre a bondade e a grandeza de Deus; e na pessoa de Cristo demonstra a verdadeira união 233 Ibid., 140. 234 Wright, Holy Company,233.
  • 111. 111 do Criador e criatura; enquanto na paixão que sofreu por causa de seu grande amor pelo homem, ela estabelece a harmonia daquele que por nós, homens, e pela salvação e restituição a nosso estado de perfeição, submeteu-se a esses sofrimentos e viveu e morreu pelo homem. 235 Em terceiro lugar, no campo da Apologética: Ele queria que os Cristãos compusessem livros em que a verdade da religião Cristã fosse comprovada por razões necessárias. Ele foi impelido nesta direção, em virtude dos seus próprios encontros com muçulmanos cultos e devido a ter obtido conhecimento dos pontos de vista muçulmanos. A teologia muçulmana havia desenvolvido a sua própria escolástica e tinham a certeza de demonstrar a verdade das suas doutrinas para lá da possibilidade de erro. Segundo assevera Wright, “Lull inventou um sistema filosófico para convencer os muçulmanos e os demais não-cristãos da verdade do Cristianismo.”236 Lull foi um sábio e profundo entendedor de todos sistemas filosóficos do seu tempo. Conforme o testemunho de Tucker, “a contribuição de Lull como apologista cristão aos muçulmanos foi imensa. Escreveu cerca de 60 livros sobre teologia, muitos dos quais eram dirigidos aos intelectuais muçulmanos. O tema que maus desenvolveu se associava à doutrina de Deus.237 Apesar de Lull sempre afirmar que se aproximava dos muçulmanos com amor, sua mensagem era bastante ofensiva para o muçulmano, é claro. O historiador Kenneth Scott Latourette declara: “Um dos argumentos de Lull era apresentar os Dez Mandamentos como a Perfeita lei de Deus, e depois demonstrar nos próprios livros dos muçulmanos que Maomé havia violado cada um dos mandamentos.“238 Embora os muçulmanos fossem o principal objeto da paixão missionária de Lull, os judeus chamaram sua atenção. Os séculos XII e XIII foram manchados por terríveis histórias de anti-semitismo. Os judeus eram acusados de quase todo os males da sociedade e, como resultado, foram expulsos da França e Inglaterra naquela época medieval. – cujo castigo pareceu brando em comparação ao infligido pela inquisição espanhola. Aqui e ali, indivíduos mais ousados defendiam os judeus e entre eles achava-se Lull. Ele os abordou com amor, apresentando-lhes Cristo como o seu Messias e Mestre. Conforme afirma Sherwood Wirt em seu artigo God´s Loved Ones: A missão de Raymond Lull era experimentar se poderia persuadi-los, conferenciando com os seus sábios e manifestando a eles, segundo o método divinamente concedido, a encarnação do Filho de Deus e as três pessoas da Santíssima Trindade na unidade Divina da essência. Ele procurou estabelecer um parlamento de religiões, onde desejava confrontar face a face o monoteísmo pobre do Islamismo com a revelação do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O CONTEXTO HISTÓRICO O apogeu das missões Católicas dá-se entre os anos 1600 a 1800 d.C.. Entretanto, para que isso acontecesse, existiram muitos fatores corroborativos. Como em toda mudança de paradigma, no caso, de “Idade Média” para a “Idade Moderna,” houveram muitas mudanças e descobertas em todos os campos: Intelectual, geográfico, social, econômico e político. No cenário mundial das grandes potências colonizadoras, dois países, ambos católicos, destacam-se naquele período da história: Portugal e Espanha. Portugal foi a vanguarda, partindo 235 Edith Deen. Great Women and men of the Christrian Faith ew York: Harper & Row, 1959), 6. 236 Ibid., 235. 237 Ruth Tucker, Até aos Confins da Terra (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1996), 54. 238 Kenneth Scoth Latourette. The First Five Centuries (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publisching Company, 1970), 213.
  • 112. 112 primeiro nas suas viagens dalém mar. A Espanha do século XV, ainda tinha como preocupação a expulsão dos mouros que haviam invadido o seu território. As grandes descobertas na era da navegação como a bússola, o astrolábio, o mapeamento dos mares, o uso dos conhecimentos astronômicos, influenciaram os aventureiros navegadores a saírem em busca de novos caminhos para alcançar a Ïndia e China, e a busca de novas terras e riqueza, princiapalmente “o ouro,” “él oro.” Entretanto, havia outro forte motivo: o motivo religioso. Muitas expedições saíram com o intuíto de livrar Jerusalém do domínio dos turcos. Um grande exemplo disto foi o desejo expresso por Cristovão Colombo, de acumular riquezas enquanto explorava à espanhola, afim de montar um exército para chegar a Jerusalém, desejo este que foi deixado em seu testamento de herança para seus descendentes, com cláusula condicional. No nacionalismo espanhol estava imbuído o fervor católico. Igreja e estado não possuiam funções tão distintas. O espanhol possuía em seu caráter e personalidade a influência muçulmana do fanatismo religioso pela fé católica. Ser mensageiro da coroa Espanhola em outras nações, era uma honra; mas, muito maior honra estava no fato de ser um representante da “Santíssima Igreja” a os povos bárbaros e pagãos, conforme era difundido. Nesse contexto, é imprescindível que seja notabilizado o domínio que Igreja possuía sobre as emoções e mentes das pessoas. A compreensão prevalescente e lógica era que Deus enviou seu filho Jesus ao mundo, como o mais importante dos homens para cumprir uma missão. Este, deixou o seu domínio aqui na terra nas mãos de seu representante: o apóstolo Pedro. Pedro, por sua vêz, delegou poderes aos santos papas, os quais foram sucessivamente, sentaram no trono de pedro revestidos de poder espiritual e temporal, e com a incumbência de cristianizar os povos. Portanto, na descoberta das novas terras, olhando nessa perspectiva, nada seria mais aceitável do que a decisão do papa Nicolau V, no ano de 1454, através da Bula Romanus Pontifex, outorgando aos portugueses o direito a todas as terras descobertas dos “infiéis,” em toda a costa ocidental da África. Como a Espanha também entrou no negócio rentável das navegações e consequentes descobrimentos de novas terras, dá-se a necessidade de dividir o globo terrestre entre os soberanos portugueses e espanhóis. Os papas davam o “direito” às novas terras descobertas ou a descobrir, desde que houvesse o compromisso de converter os pagãos ao cristianismo católico, independentemente dos meios utilizados. Daí, muitos historiadores afirmarem que os grandes instrumentos das missões católicas foram “a cruz e a espada.” E foi justamente a espada que impediu muitos povos de chegarem a cruz, pois a crueldade dos colonizadores era o maior obstáculo à evangelização. 2. Os Reformadores e a Tarefa Missionária da Igreja É dito amplamente que os Reformadores Protestantes não tinham visão missionária; embora cressem que tinham redescoberto o evangelho apostólico, não tinham nenhuma visão apostólica para anunciá-lo às partes extremas da terra. Esta é uma visão que os historiadores modernos parecem adotar. Gustav Warneck, tido como o pai da missiologia como disciplina teológica, foi um dos primeiros estudiosos protestantes a promover esta visão. Perdemos na Reforma não somente a ação missionária, disse ele, “mas até a idéia de missão, no sentido em que a compreendemos hoje”. “Isto é assim”, afirmou, “porque os pontos de vista teológicos fundamentais impediram- nos de dar a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma orientação missionária.”239 Stephen Neill, em seu livro A History of Christian Missions, procura um julgamento equilibrado e escreve: 239 Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier, 1906), 9.
  • 113. 113 É claro que a idéia de progresso consistente da pregação do evangelho por todo o mundo não é estranho ao pensamento de Lutero. Entretanto, quando todas as coisas favoráveis que têm sido ditas e que podem ser ditas; quando todas as evidências possíveis dos escritos dos Reformadores têm sido reunidos, isto resulta em muito pouco missões.240 O livro History of the Expansion of Christianity, de Kenneth S. Latourette, revela o registro das igrejas da reforma (século dezesseis) comparado com o registro de Roma: “No século dezesseis, apogeu da atividade missionária católica, os protestantes não fizeram nenhuma tentativa de propagar a fé fora da Europa.”241 3 - O Ambiente da Época: Em 1492 Colombo deparou com um novo mundo, e cinco anos depois Vasco da Gama tinha sido o primeiro europeu a alcançar a costa ocidental da Índia por mar. Vastas oportunidades para a igreja cristã foram abertas. Como Latourette observa, “A descoberta e a conquista estavam abrindo a maior das portas para a expansão que qualquer religião jamais teve.”242 As grandes viagens de descobrimento foram motivadas pela necessidade de comércio, ambição por ouro, desejo de fama e de absoluta e inexorável curiosidade. Mas elas foram também devidas ao impulso missionário da Igreja Católica Romana, que tinha sido mais ou menos contínuo por centenas de anos. Durante esse período, a história da missão cristã foi, necessariamente, a história do monasticismo. No ano seguinte ao da descoberta de Colombo, o Papa Alexandre VI dividiu o mundo em duas esferas de operação: a espanhola e a portuguesa. Ao mesmo tempo instigou os hispânicos a procurar converter os povos do novo mundo e “para enviar tanto às ilhas como aos continentes homens honestos, tementes a Deus e virtuosos que fossem capazes de instruir os povos indígenas na boa moral e fé católica.”243 5 - Obstáculos às Missões Protestantes Obstáculos práticos e teológicos tinham de ser superados antes que as missões protestantes pudessem agir com determinação. Havia, em primeiro lugar, sérias dificuldades práticas. Até 1648, quando a Paz de Westphalia marcou o fim da luta religiosa da Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Germânia, os protestantes estavam lutando por sobreviver e não dispunham de tempo para se preocupar com missões aos pagãos estrangeiros. Além disso, a oportunidade para missões aos pagãos era inacessível aos protestantes, uma vez que não dispunham de contato direto com os povos bárbaros ou pagãos; as rotas marítimas eram dominadas naquele tempo por navios de países católicos. Outro fator é que, enquanto numerosos Reformadores, tais como Lutero e Bucer, tinham sido monges, a Reforma havia rejeitado todo o sistema monástico e o conceito que por quase mil anos tinha constituído a tradição, habilidade e equipamento das missões. 6 - Preocupação Missionária dos Reformadores Houve, inquestionavelmente, vários pontos de preocupação missionária nas igrejas protestantes da Reforma. Houve mais do que um estudioso que detectou uma visão missionária verdadeira. W. P. Stephens fáz o seguinte comentário acerca de Martin Bucer, pastor reformado de Estrasburgo, na época de Calvino: 240 Stephen Neill, A History of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964), 222. 241 Kenneth S. Latourette, A History of the Expansion of Christianity (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing Company, 1971), 42. 242 Ibid., 38. 243 Stephen Neill, A history of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964), 141.
  • 114. 114 Comentando sobre a determinação em Ezequiel 14.16 para buscar os perdidos e arrebanhar de volta os extraviados, Martin Bucer observa que a igreja deve levar a Cristo aqueles que não o conhecem, enviando o evangelho da terra natal até os confins das terras pagãs. Como Bucer vê esta questão, enquanto somente Deus conhece seus eleitos, Ele ordena a seu povo que saia e chame as criaturas para a vida eterna. A igreja é a cidade de Deus “onde Deus governará por sua Palavra e Espírito mais do que qualquer outro no mundo, e a partir daí Ele propagará a doutrina salvadora a toda a terra.244 Arrazoar que os Reformadores não tinham visão missionária alguma é desconhecer o impulso básico de sua teologia e ministério. Scherer afirma que “os cristãos devem permitir-se ler a Bíblia através dos olhos de Martinho Lutero como missiologista.”245 Um ponto de partida relevante na teologia dos Reformadores não era o que as pessoas podiam ou não podiam fazer pela salvação do mundo, mas o que Deus já havia realizado em Cristo. Em conexão com a doutrina do sacerdócio de todos os crentes, Lutero enfatiza o direito e dever de todo cristão propagar o evangelho; o cristão é obrigado a fazer isto com medo de perder sua alma e incorrer no grave descontentamento do Senhor. Se ele estiver em um lugar onde não haja nenhum cristão, não precisa de outro chamado para ser cristão, chamado e ungido por Deus no seu interior. Aqui é seu dever pregar e ensinar o evangelho aos pagãos extraviados, ou não-cristãos, por causa do dever do amor fraternal, muito embora nenhum homem o chame a fazer isto.246 Seria anacrônico esperar que os Reformadores falassem em termos do movimento missionário dos séculos XIX e XX: eles certamente não tinham definido claramente o conceito de obra missionária estruturada contemporânea. A chave do pensamento de Lutero sobre esta questão é sua inequívoca compreensão da missão como missão da Palavra de Deus. Os homens são os instrumentos fracos e dispensáveis do poder irresistível da Palavra de Deus. Embora os pastores possam ser fracos e o mundo, poderoso, o santo evangelho é ainda mais poderoso, e nenhum obstáculo pode impedir seu progresso. Ainda que todos os pastores tivessem de ser eliminados, o evangelho prosseguirá no mundo da melhor forma e transformará o mundo.247 Segundo Oberman, “Calvino, por outro lado, foi mais explícito, uma vez que sua teologia era a que impunha a responsabilidade do crente no mundo mais seriamente do que a de Lutero.”248 Os Reformadores imaginavam uma expansão missionária em direção aos países em que não havia protestantes. Em 1555, Calvino foi contatado por Nicolas Durand de Villegagnon, com apoio do Almirante Gaspar de Coligny, sobre o envio de pastores de Genebra para ministrar a uma pequena colonização huguenote na baía do Rio de Janeiro. A companhia genebrina de pastores comissionou de fato 14 deles, que viajaram com várias famílias calvinistas huguenotes para o Brasil. Sua intenção foi não apenas ministrar às famílias protestantes, mas também converter os nativos, tendo, porém, abandonado o empreendimento devido à violenta e selvagem ação contrária dos portugueses. Digno de nota é também que eles abandonaram completamente com qualquer idéia de fazer uso da força na cristinianização das pessoas. 244 W. P. Stephens, The Holy Spirit in the Theology of Martin Bucer (London, England: Hodder and Stoughton, 1968), 159. 245 J. A. Scherer, Gospel, Church and Kingdom: Comparative Studies in World Mission Theology (Minneapolis, Minnesota: Augsburg Publishing House, 1987), 66. 246 Luthers’ Works, vol. 19, (London, England: SCM Press, 1955) 310. 247 Ibid., vol. 19, 98. 248 Heiko Oberman, The Down of the Reformation: Essays in Late Medieval and Early Reformation Thought (Edinburgh, Scotland: T. & T. Clark, 1986), 235.
  • 115. 115 Lutero disse: A espada do imperador nada tem a ver com a fé, e nenhum exército pode atacar outros sob a bandeira de Cristo; na verdade, se o papa fosse realmente o vigário de Cristo sobre a terra, ele pregaria o evangelho aos turcos, em vez de incitar os governadores seculares a desfechar violentos ataques contra eles.249 A principal preocupação dos Reformadores foi a de irradiar a fé Reformada em toda a Cristandade, concebida como missão da Palavra de Deus; Além dos vastos problemas teológicos naquele tempo, olharam também além do horizonte imediato para difundir o evangelho aos ainda não alcançados. A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. Mas os métodos pelos quais esta responsabilidade deve ser realizada em variadas circunstâncias requer estudo adicional e delineamento. Entretanto, é importante ouvir o testemunho da igreja em sua história sobre a questão da pregação do evangelho por todos os cristãos, à medida que a igreja se torna cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus membros para espalhar a grata boa- notícia da salvação em Jesus Cristo. Esta afirmação pode também ser dita com respeito aos Reformadores. O testemunho de Calvino e Lutero com vistas à obrigação que todos os crentes têm de transmitir o evangelho a seus próximos é clara e sincera. As persuasões mais fortes possíveis fomentaram o despertar dos membros da igreja para sua responsabilidade. Essa responsabilidade é firmemente ancorada na condição oficial do povo. O Espírito Santo está ativo em toda a igreja. Toda a comunidade testemunha porque é a habitação do Espírito Santo. Portanto, a igreja existe para o mundo como reflexo da obra salvadora estendida a todo o mundo. Como Kraemer declara: “Começando desta orientação fundamental, os aspectos essenciais da igreja como corpo, que Cristo cria para si mesmo através do Espírito Santo, são que a igreja é missionária e ministerial.250 Isto implica que cada membro do corpo de Cristo tem o direito e o dever de realizar a Obra missionária da Igreja. O ensino cristão da era apostólica inicial até o presente, tem como premissa afirmar o direito e o dever dos membros comuns da igreja de levar a outrem o evangelho. Os Reformadores enfatizaram o fato de que a confissão pessoal e o compartilhamento da fé são implicações éticas da vida cristã, embasando estes atos no ofício que os crentes recebem de Cristo, o ofício de sacerdócio de todos os crentes, ou, mais especificamente. o ofício profético de todos os crentes. Qualquer tentativa de negar este direito e obrigação contraria o testemunho unânime da igreja cristã ao longo de sua história. A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. É importante ouvir o testemunho da igreja em sua história sobre a questão da pregação leiga do evangelho, à medida que a igreja se torna cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus membros para espalhar a grata boa-notícia da salvação em Jesus Cristo. O dever dos crentes de anunciar o evangelho a seu próximo não-crente é um aspecto da responsabilidade de testemunhar o que promana da natureza missionária da igreja. Os investidos do ofício têm o dever de lembrar aos membros cristãos esta natureza da igreja e preparar os santos para a tarefa do ministério (Efésios 4.12). O ministério dos santos é um ministério de palavra e virtude a todas as pessoas dentro e fora da comunidade cristã (Colossenses 3.12-17; 1 Tessalonicenses 5.15; 1 Coríntios 10.31-11.1). O chamado de Deus tem a intenção de mover a igreja de dentro do espaço físico do templo para fora, para alcançar o mundo, conforme observa o bispo anglicano Leslie Newbigin: “A igreja é o povo peregrino de Deus que corre por todos os cantos da terra, instando todos os homens a reconciliar-se com Deus, e apressa-se em chegar ao fim do tempo para encontrar seu Senhor, que reunirá todos em um.”251 249 Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier, 1906), 11. 250 Hendrik Kraemer, A Theology of the laity (Philadelphia, pennsylvania: Westminster Press, 1958), 127. 251 Leslie Newbegin, The Household of God (London, England, 1953), 25.
  • 116. 116 João Calvino e Missões Um Estudo Histórico Scott J. Simmons Introdução Existe uma duradoura tradição que afirma que Calvino e o movimento protestante primitivo não tinham interesse em missões. Gustav Warneck escreveu no começo deste século: “Nós perdemos com os Reformadores não apenas a ação missionária, mas mesmo a idéia de missões... [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma direção missionária”[1] Warneck chega a afirmar que Calvino afirmou que a Igreja não tinha a obrigação de enviar missionários [2]. Seu engano continua até os dias de hoje. Ralph D. Winter, por exemplo, escreve que os Reformadores “nem mesmo falavam de missões estrangeiras” [3]. Ele afirma que o movimento missionário protestante pode ser dividido em três eras: a primeira iniciando em 1792, com William Carey, a segunda iniciando em 1865 com Hudson Taylor, e a terceira iniciando em 1934 com Cameron Townsend e Donald McGavran. O autor descreve os esforços missionários até 1792 ao dizer “nossa tradição protestante nos levou durante 250 anos a pensar apenas em nossos próprios negócios e nossa própria bênção (como o antigo Israel)”. [4] Mesmo que estes ataques possam ser lançados contra muitas igrejas da tradição protestante, e mesmo contra algumas igrejas calvinistas, é simplesmente falso dizer que João Calvino não tinha interesse em missões. Na verdade, Calvino enviou centenas de missionários para a França, o resto da Europa, e mesmo para o Novo Mundo. A discussão a seguir, portanto, não somente demonstrará que João Calvino tinha uma coerente teologia de missões, mas provê um resumo de como sua teologia o levou a agir em seus propósitos missionários através do mundo. A Teologia de Missões de Calvino Calvino nunca escreveu um tratado sistemático sobre sua teologia de missões. Entretanto, suas Institutas, seus comentários e cartas contêm muitas referências à sua teologia de missões e seu espírito missionário. Uma descrição acurada de sua teologia de missões pode ser reconstruída destas afirmações feitas por Calvino em seus escritos. O que se segue nos trará um resumo de sua teologia de missões, bem como respostas a objeções à sua teologia e como ela se relacionaria com missões. Uma afirmação positiva A base para as missões cristãs, de acordo com Calvino, é o presente Reino de Jesus Cristo. Em seu comentário aos Salmos e profetas, fica claro que Calvino considerava o reino de Davi como a sombra do Reino maior que viria. Por exemplo, comentando Isaías 2.4, Calvino escreve: “a diferença entre o Reino de Davi, que era apenas uma sombra, e este outro Reino” é que, “pela vinda de Cristo, [Deus] começou a reinar... na pessoa de seu Filho unigênito”[5]. Comentando Salmo 22.28, Calvino escreve: “esta passagem, não tenho dúvidas, concorda com muitas outras profecias que representam o trono de Deus erguido, no qual Cristo pode assentar-se para comandar e governar o mundo[6]. Este Reino presente de Deus, por meio de Cristo, é pressuposto através de seus escritos quando ele fala da base para missões mundiais. Uma importante dinâmica que toma efeito neste novo Reino é a destruição da distinção entre judeus e gentios. Calvino frequentemente faz uso de Efésios 2.14 para insistir que a parede divisória entre judeus e gentios foi quebrada e o Evangelho tem sido proclamado, de forma que “nós [judeus e gentios] fomos reunidos juntos no corpo da Igreja, e o poder de Cristo é posto para sustentar-nos e defender-nos”[7]. Desde que o reinado de Cristo se estende não somente
  • 117. 117 sobre os judeus, mas sobre o mundo inteiro, gentios são chamados junto com os judeus ao Seu Reino[8]. É a inclusão dos gentios na comunhão de Israel que permite que o Evangelho do Messias judeu seja proclamado aos gentios por todo o mundo. A tarefa de Cristo enquanto governa a terra dos céus é subordinar a terra a Ele mesmo. Isto acontece de duas formas. Primeiro, os réprobos que se recusam a submeter-se ao domínio de Cristo “atacam” o Reino de Cristo “de tempos em tempos até o fim do mundo”, e ao mesmo tempo eles se prostrarão aos Seus pés [9]. Segundo, os eleitos serão “trazidos para prestar uma disposta obediência a Ele”, se submetem e se humilham-se diante dEle. Depois do último dia, estes serão feitos “participantes com Ele em glória” [10]. Por meio desses dois métodos, o Reino será estendido por todo o mundo. Em nenhum momento, o progresso do Reino será barrado. Comentando Isaías 2.2, Calvino escreve que haverá “progresso ininterrupto” na expansão de Seu reino “até que Ele apareça uma segunda vez para nossa salvação” [11]. O Reino de Cristo, o “Reino invencível” será “vastamente estendido” porque Deus faz “sua comitiva avançar para longe e numa larga estensão” [12]. Por toda a era da Igreja, de acordo com Calvino, o Reino de Cristo será expandido por todo o mundo. O meio pelo qual o Reino de Cristo é espalhado pela terra é através da pregação do Evangelho às nações. Calvino escreve “não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira igreja”[13]. Calvino insistia que os cristãos carregam a responsabilidade de espalhar o Evangelho. Ele escreve “porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as nações... a obra não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares” [14]. Embora Deus pudesse ter usado outros meios, Ele escolheu “empregar a ação de homens” para a pregação do Evangelho [15]. A teologia de missões de Calvino é, portanto, teocêntrica e cristocêntrica, focando a glória de Deus em Cristo assim como a obrigação do homem. Tudo na vida deve ser vivido para a glória de Deus. Enquanto a Igreja Católica usava obras meritórias e ascetismo como ferramenta de motivação para missões, protestantes não usariam este tipo de motivação[16]. Para Calvino, o fator motivacional de missões mundiais era a glória de Deus. Quando o Evangelho é proclamado e aceito entre as nações, Deus é adorado e glorificado. Esta é a finalidade principal do homem. Charles Chaney escreve sobre Calvino: “o fato de que a glória de Deus era o motivo primordial nas primeiras missões protestantes e isto ter se tornado, mais tarde, uma parte vital do pensamento e atividade missionárias, pode ser traçado diretamente em direção à teologia de Calvino” [17]. Ataques contra a Teologia de Missões de Calvino Muitos disseram que a teologia de Calvino era uma obstrução para missões, nos séculos XVI e XVII. Dois ataques são comumente dados contra a teologia de missões de Calvino. Há um mau entendimento quanto à Grande Comissão e sua doutrina da predestinação. Entretanto, estes ataques refletem um entendimento pobre da teologia de Calvino. A Grande Comissão Alguns objetam contra o entendimento missionário de Calvino ao afirmar que Calvino cria que a Grande Comissão (Mt 28.18-20) estava ligada apenas aos apóstolos do século I, fazendo missões desnecessárias para as gerações futuras [18]. É verdade que Calvino interpretava a Grande Comissão como se referisse ao ministério apostólico [19]. Entretanto, seu motivo para interpretar a Grande Comissão desta forma não era diminuir a necessidade de missões no tempo atual. Ele estava lutando uma batalha diferente – a saber, a batalha contra a doutrina católica da sucessão apostólica. Calvino pretendia mostrar que o Apostolado era um munus
  • 118. 118 extraordinarium temporário que cessou após os Doze. A Grande Comissão era trazida à discussão para argumentar contra o Catolicismo, não contra a atividade missionária [20]. Calvino nunca expressou a idéia de que os apóstolos completaram o mandamento missionário de tal forma que a atividade missionária não é mais necessária. Ele via somente o princípio do avanço do Evangelho para todas as nações completado pelos apóstolos [21]. Calvino escreveu sobre o ministério apostólico: “Cristo, como sabemos, penetrou com velocidade assustadora, do oriente ao ocidente, como o relâmpago, com o objetivo de levar à igreja os gentios de todas as partes do mundo” [22]. Ainda assim, Calvino também escreveu sobre a necessidade da atividade missionária no tempo presente. Por exemplo, comentando Mateus 24.19, ele escreveu: “o Senhor ordena que os ministros do Evangelho vão para longe, com o objetivo de anunciar a doutrina da salvação em todas as partes do mundo” [23]. Calvino também fez afirmações similares em seus comentários sobre Isaías 12.5; 45.24; Mateus 24.14 e 2 Coríntios 2.12. Ainda que houveram alguns após Calvino que ensinaram que o mandado missionário foi cumprido [24], esta perspectiva não pode ser atribuída ao próprio Calvino. Predestinação Tem sido objetado que, se a doutrina da predestinação de Calvino é verdadeira, então não existe razão para se envolver com missões, pois todos os eleitos serão certamente salvos e todos os réprobos certamente serão condenados. Ruth Tucker, por exemplo, escreve em sua história das missões cristãs que a doutrina da predestinação ensinada pelos calvinistas “fizeram missões irrelevantes se Deus já escolheu aqueles que ele salvaria” [25]. Entretanto, de acordo com Calvino, esta objeção se esquece da doutrina da palavra pregada. Calvino insistia que Deus usava a pregação do Evangelho pelos homens para levar pessoas à fé. Calvino escreve: “embora ele seja capaz de realizar a obra secreta de seu Santo Espírito sem qualquer meios ou assistência, ele também ordenou a pregação externa, para ser usada como um meio. Mas para torná-la um meio efetivo e frutífero, ele escreve com seu próprio dedo em nossos corações aquelas palavras que ele fala em nossos ouvidos pela boca de um ser humano”. [26] Não somente Deus ordenou a pregação de Evangelho como um meio de salvação, mas é o único meio de salvação. Calvino escreve “Deus não pode ser invocado por ninguém, exceto por aqueles que conheceram sua misericórdia por meio do Evangelho”. [27] Além disso, Calvino insistia que o número de eleitos é desconhecido. Portanto, o Evangelho deveria ser livremente proclamado a todos. Citando Agostinho, Calvino escreve “Porque não sabemos quem pertence ao número de predestinados ou quem não pertence, devemos ter em mente um desejo de que todos os homens sejam salvos” [28]. Desta forma, a pregação do Evangelho às nações não é obstruída, mas encorajada. A vontade do homem está cativa à vontade de Satanás (2 Tm 2.25,26) de tal forma que é impossível para alguém desejar sua própria salvação. Entretanto, o pregador sabe que existem eleitos que serão salvos pela pregação do Evangelho, por meio da obra interna do Espírito Santo [29]. Portanto, o pregador pode proclamar o Evangelho com confiança de que os eleitos para a vida eterna atenderão ao chamado. Atividades Missionárias de Calvino Certamente Charles Edwards estava correto quando afirmou que “A Reforma foi um movimento missionário em uma grande escala internacional” [30]. Com a Reforma espalhando-se pela Europa, a atividade missionária tomava lugar. O sacramentalismo do Catolicismo abriu caminho para o verdadeiro Cristianismo baseado na sola scriptura, sola fide e sola gratia. Na verdade, mesmo o entendimento católico do Evangelho não chegou a alcançar muitas classes sem instrução. As Escrituras eram escritas em latim e as missas eram dirigidas em latim. Muitos
  • 119. 119 destes eram incapazes de entender esta língua, de forma que o Evangelho não era pregado a eles de uma maneira inteligível. Com a Reforma espalhando-se pela Europa, a Bíblia foi traduzida para as línguas comuns e os cultos da igreja eram inteligíveis para as massas. Povos não- alcançados na Europa foram alcançados pelo o Evangelho com a Reforma. Os Reformadores continuamente tinham de lutar por sua sobrevivência, lutando para estabelecer sua própria identidade sobre seus adversários Católicos Romanos [31]. Ainda assim, mesmo com toda esta confusão, Calvino foi capaz de fazer um esforço extraordinário para evangelizar a França, o resto da Europa e mesmo o Novo Mundo. França Calvino teve uma paixão intensa pela conversão da França à fé reformada. Em 1553, Calvino começou a enviar missionários para a França. Muitos destes missionários vieram à Genebra como refugiados da França, enquanto a perseguição avançava. Logo depois de treinados por Calvino em teologia, moral e pregação, ele os enviava de volta para plantar igrejas na França. Estes esforços de Calvino tiveram um tremendo sucesso. Em 1555, existiam cinco igrejas reformadas na França. Em 1559, haviam quase 1000. 1562, o número chegou a 2150 [32]. A membresia total destas igrejas em 1562 é estimada em três milhões (com a população total da França por volta de 20 milhões). [33] Quando pedidos da França por novos ministros foram recebidos em Genebra, Calvino fez seu melhor ao enviar pastores para preencher esses púlpitos. O Registro da Companhia de Pastores menciona 88 homens que foram enviados de Genebra entre 1555 e 1562[34]. Entretanto, esta não era uma lista completa. Alguns nomes foram mudados, e mesmo omitidos, para protegê-los de uma possível perseguição religiosa. Também, entre 1555 e 1562, seria certamente uma tolice guardar registros, por causa das perseguições. Além disso, pode ser determinado de outras fontes que nada menos que 142 missionários foram enviados de Genebra (uma cidade de 20.000 pessoas) em 1561 somente[35]. O retrato que fica é que um incrível número de missionários foi enviado por Genebra sob a influência de Calvino. Fred Klooster escreve que “a atividade missionária que emanou de Genebra sob a influência da inspiração de Calvino foi de proporções monumentais. Talvez seja o maior projeto de missões locais que a história viu desde a época dos apóstolos”.[36] Os esforços de plantação de igrejas eram tão bem sucedidos que chamou a atenção do rei da França. Em 1561, Charles IX, o novo rei da França, enviou uma carta ao Concílio de Genebra. A carta dizia que os pregadores enviados por Genebra estavam causando “sedições e dissensões que estão perturbando seu reino”[37]. O rei então pediu que os pastores fossem chamados de volta para que se mantivesse a paz na terra. Calvino respondeu ao rei dizendo que “nós nunca fizemos tentativas de enviar ao seu reino pessoas como sua majestade afirma...de forma que ninguém, com nosso conhecimento e permissão, tem saído daqui para pregar, exceto um único indivíduo que nos pediu, para a cidade de Londres”. Ele admite que algumas pessoas têm vindo a eles, mas eles são simplesmente instruídos a “exercitar seus dons onde quer que eles devam ir para o avanço do Evangelho”[38]. O resultado dos extraordinários esforços de Calvino para evangelizar a França foi que uma igreja protestante foi formada por meios pacíficos. Williston Walker escreve que “Uma grande Igreja nacional, pela primeira vez na história da Reforma, foi criada independente de um Estado hostil; e a obra foi a que Calvino deu o modelo, a inspiração e o treinamento”[39]. O sangue foi derramado na França sobre a causa protestante. Entretanto, após o massacre em Vassy e a paz de Amboise em 1563, Calvino escreveu: “eu aconselharia sempre que as armas sejam deixadas de lado, e que nós todos pereçamos ao invés de entrar novamente nas confusões que temos testemunhado.”[40]
  • 120. 120 Seu desejo de trazer reforma à França por meios pacíficos é também evidente em sua correspondência com os reis Francisco I e Henrique II. Em 1536, três anos depois de sua conversão, Calvino dedicou sua primeira edição das Institutas da Religião Cristã ao Rei Francisco I. Nesta dedicatória, ele chama o rei para a conversão à fé protestante[41]. Em 1557, Calvino escreveu ao Rei Henrique II explicando a fé das igrejas reformadas francesas. Nesta carta, ele dá ao Rei da França uma breve afirmação de fé a fim de encorajar o rei a “ter compaixão daqueles que buscam nada senão servir a Deus em simplicidade, enquanto eles lealmente cumprem suas obrigações para com você”. [42] O Resto da Europa Genebra: Centro de Refúgio e Centro Missionário Por volta de 1542, a Genebra de Calvino tornou-se um centro de refúgio. Protestantes de toda a Europa, incluindo Holanda, Inglaterra, Escócia e Itália, iam à Genebra para refugiar-se da perseguição religiosa. Em 1555, a população de Genebra duplicou. O próprio Calvino tinha prazer em abrigar esses refugiados, mas às vezes era extremamente difícil acomodá-los. Calvino escreveu uma carta a Farel datada de 1551: “Eu estou, por enquanto, muito preocupado com os forasteiros que diariamente passam por este lugar em grande número, ou que vêm aqui para viver... Você deveria nos fazer uma visita no próximo outono, você encontrará nossa cidade consideravelmente maior – um espetáculo agradável para mim, se eles não me sobrecarregarem com suas visitas”[43]. Ainda assim, a Genebra de Calvino pode ser considerada não apenas um centro de refúgio, mas um centro missionário para a propagação do Evangelho e fundação de igrejas reformadas por toda a Europa. Pessoas que vinham de toda Europa eram treinadas como missionárias e enviadas de volta como ministros do Evangelho. Laman escreve que “Por meio da ida e vinda destes refugiados, e por meio dos escritos evangélicos da imprensa de Genebra, e tudo em latim, francês, inglês e holandês, a fé reformada foi exportada vastamente, mesmo para Polônia e Hungria. Por correspondência, Calvino encorajou, guiou e dialogou com essa diáspora de cristãos evangélicos que testemunhavam sob perseguição”.[44] É impossível, dado o escopo deste documento, explorar em detalhes os resultados das ações de Calvino por toda a Europa. Abaixo, no entanto, simplesmente traremos luz a alguns dos envolvimentos de Calvino, focando somente a Holanda, Inglaterra, Escócia, Polônia e Hungria. Holanda Em 1544, Calvino enviou o primeiro missionário reformado à Holanda. Pierre Brully trabalhou para estabelecer uma igreja reformada lá, mas foi martirizado depois de apenas três meses [45]. Luteranos e anabatistas fizeram alguns convertidos nas décadas de 1520 e 1530, mas os calvinistas tiveram mais sucesso, possivelmente devido à forma calvinista de governo e disciplina eclesiásticas[46]. Guy de Bray, que se encontrou com Calvino em Frankfurt em 1556, escreveu a então chamada Confissão Belga em 1559. Esta confissão foi impressa em 1561 em Genebra[47]. Esta confissão tornou-se a fundação para a Igreja Reformada da Holanda. A Holanda produziu seus próprios missionários, muitos por meio dos escritos de Hadrianus Saravia (1531-1613). Ele tomou para si a tarefa de desenvolver uma perspectiva reformada em missiologia, mesmo que tenha sido influenciado de várias formas pelo sistema anglicano de governo eclesiástico. Em 1590, ele escreveu um tratado intitulado “Sobre os vários níveis de ministros do Evangelho como foram instituídos pelo Senhor”, em que argumentava contra a visão de que a Grande Comissão terminou na era apostólica. Os escritos de Saravia influenciaram mais tarde missionários na Índia, como Justus Heurnius (1587-1651).
  • 121. 121 Missionários foram enviados da Holanda à Índia quase duzentos anos antes que Carey escrevesse seu Inquérito em 1792[48]. O trabalho de Saravia também influenciou os primeiros puritanos na América, como John Eliot, que ministrou aos índios americanos na Nova Inglaterra, durante o século XVII.[49] Inglaterra Calvino conquistou alguma influência na Inglaterra durante o reino de Eduardo VI, como evidenciado em suas cartas a Cramner[50]. A aceitação à teologia de Calvino cresceu durante o reino de Eduardo. Além disso, foi por meio do ministério de Calvino em Genebra aos exilados por Maria que o calvinismo tomou lugar na Inglaterra[51]. Numerosos exilados foram aceitos em Genebra durante o reinado de Maria. Pelo menos 50 exilados eram recebidos por dia em 1557. John Knox, um discípulo devoto de Calvino, que mais tarde retornou à Escócia em 1559, pastoreou esses refugiados. Durante o reinado de Elizabeth, estes exilados retornaram à Inglaterra com sua doutrina calvinista. O resultado eventual foi a formação do partido puritano e a produção da Confissão de Fé de Westminster em 1646[52]. Durante o reinado de Eduardo VI, Londres também se tornou um centro de refúgio. Em 1550, John à Lasco (ou Jan Laski), um nobre polonês e amigo de Calvino, foi colocado como pastor sobre uma “igreja de estrangeiros” da França e Alemanha em Londres. A igreja de Lasco foi formada de acordo com as ordens de Calvino para Genebra, mas com algumas modificações. Calvino manteve um contato regular com a igreja de Lasco, que existiu até que Maria I a deteve. Potter e Greengrass escrevem que depois do término da igreja, Lasco e outros membros “foram importantes catalisadores para a reforma suíça na Europa”[53]. Muitos desses exilados foram para Frankfurt e formaram uma congregação lá, em 1554. Lasco foi para a Noruega antes de chegar em Frankfurt, para mais uma vez pastorear a “igreja de estrangeiros” de lá[54]. Em 1554, Lasco era superintendente das igrejas na Friesland oriental. Lasco encontrou-se com Simon Menno, com o propósito de converter Menno e seus seguidores à fé reformada. Um escritor nos diz : “A discussão aconteceu em 28 a 31 de janeiro, de 1554, quando os artigos a respeito da Encarnação, batismo, pecado original, justificação e chamado de ministros foram discutidos. Apesar de os dois não concordarem em tudo, Menno e seus seguidores despediram-se de Lasco de uma forma amigável. Menno prometeu apresentar uma confissão escrita a respeito da Encarnação, e ele escreveu... uma breve e clara confissão e declaração escriturística a respeito da Encarnação”[55]. Embora Lasco tenha mais tarde publicado esta confissão “sem o consentimento ou conhecimento de Menno”, este debate demonstra o desejo de Lasco de converter mesmo os reformadores radicais à causa protestante sem apelar para a violência.[56] Escócia O apoio de Calvino para trazer a reforma à Escócia foi por meio do ministério de John Knox. Knox deixou a Inglaterra depois que Maria subiu ao trono, e chegou em Genebra em 1554. Ele retornou à Escócia em 1555, numa tentativa fracassada de levar a Reforma, e então retornou rapidamente à Genebra[57]. Em 1556, começou a pastorear uma congregação de fugitivos ingleses em Genebra. Knox foi enviado de volta à Escócia em 1559 e estabeleceu com sucesso o Protestantismo naquele país. Em 1560, o parlamento escocês derrubou a autoridade papal e preparou a Primeira Confissão de Fé, que foi totalmente calvinista em sua orientação. A Igreja da Escócia foi preparada segundo o modelo calvinista encontrado nas Institutas e na prática das igrejas reformadas francesas[58].
  • 122. 122 Embora Calvino geralmente aprovasse John Knox e seu ministério, houve algumas tensões. Em 1558, enquanto Knox ainda estava em Genebra, ele publicou um panfleto sem o conhecimento de Calvino intitulado O Primeiro Toque da Trombeta contra o Monstruoso Regime das Mulheres. Este panfleto foi escrito em resposta ao reinado de Maria e afirmava que regentes femininas eram contra a lei de Deus. Calvino baniu a venda do livro em Genebra. Quando Elizabeth I tornou-se rainha em 1558, Calvino dedicou seu comentário de Isaías a ela, numa tentativa de reparar as relações entre Genebra e Inglaterra. Entretanto, o estrago estava feito, e em 1566, Beza afirmou que a hostilidade de Elizabeth contra o Calvinismo era resultado deste incidente. Depois que Knox retornou à Escócia, Calvino continuou preocupado sobre a natureza abrasiva e descompromissada de Knox. No entanto, parece que houve uma boa relação entre os dois reformadores. Ainda assim a preocupação de Calvino sobre Knox demonstra sua mente missionária. Calvino queria levar a Reforma à Inglaterra e Escócia em submissão completa às autoridades devidas[59]. Polônia Calvino teve muito sucesso logo no início da evangelização da Polônia. Em 1545, o Calvinismo estava espalhando por toda a nobreza da Polônia. O próprio Rei Sigismund Augustus da Polônia era um católico tolerante, “iluminado”, que tomou uma esposa protestante[60]. Calvino dedicou seu comentário de Hebreus a ele em 1549. Ele escreveu: “seu reino é grande e renomado, e abunda em muitas excelências, e sua felicidade somente então será sólida quando adotar a Cristo como regente maior e governador”[61]. Calvino novamente escreveu a ele na véspera de Natal de 1555 e dizia que “na Polônia, a verdadeira religião já começa a se desenhar entre as trevas do Papado...”[62]. De fato, Calvino pregou o Evangelho ao Rei da Polônia e pediu a ele para que encorajasse o trabalho da Reforma lá. Embora Calvino e Sigismund Augustus permanecessem em bons termos, o rei nunca concordou em permitir uma Reforma nacional. No entanto, John à Lasco (Jan Laski) retornou à Polônia em 1557, onde passou três dos últimos quatro anos de sua vida “em uma campanha evangélica para criar uma igreja evangélica digna na Polônia”[63]. Lasco foi o reformador inicial na Polônia. Ele inicialmente era um sacerdote e amigo de Erasmo, antes de tomar a tarefa de espalhar a Reforma em muitos países, incluindo Inglaterra e Alemanha. Depois de seu retorno, ele se ocupou de “pregar, sustentar sínodos, estimular a tradução da Bíblia para o polonês, e procurou trazer as variedades do Protestantismo numa única estrutura eclesiástica.”[64] De muitas formas, Lasco foi um líder protestante modelo. Kenneth Scott Latourett escreve que ele “era uma alma pacificadora que gastou muito de si mesmo em busca de acordo entre os protestantes”[65]. Calvino o via com um respeito similar. Ele escreveu a John Utenhoven, que também trabalhava na Polônia, “eu estou completamente convicto de que ele trabalhará confiante e energicamente no crescimento do Reino de Cristo”[66]. Embora os esforços de Calvino e Lasco tenham alcançado um sucesso inicial, não durou muito após a morte de Calvino. Conflitos com luteranos, anti-trinitarianos e jesuítas causaram o declínio do calvinismo, que não deixou ao menos uma marca na Polônia”[67]. Hungria O cenário para a Reforma na Hungria deve-se em parte a pelo menos três fatores. Primeiro, o ministério e martírio de John Hus (1373-1415), cujos ensinamentos foram espalhados por toda Hungria no século XV[68], e incitaram simpatia pela causa protestante. Segundo, 1541, todo o Novo Testamento foi traduzido para a língua húngara. Terceiro, em 1536, o Rei Soliman, o Magnífico, atacou a Hungria. Em 1526, o Rei Louise foi enfrentá-lo em Mohácz com apenas 27.000 homens – uma pequena fração do exército turco. O resultado foi um massacre, e o Rei Louise saiu do país, deixando um vácuo no poder da Hungria. James Wylie continua a história:
  • 123. 123 Dois candidatos agora lutavam pelo trono da Hungria – John Zapolya, o nobre antipatriota que viu seu rei marchar para a morte, mas ficou parado em seu castelo, e o Arquiduque Ferdinand da Áustria. Os dois coroaram a si mesmos, e então se levantou uma guerra civil que, complicada com aparições ocasionais de Soliman, ocupou os dois rivais por anos, sem deixar ninguém para proclamar editos de perseguição. No meio destes problemas, o Protestantismo fez um progresso rápido. Peter Perenyi, um poderoso nobre, aceitou o Evangelho, com seus dois filhos. Muitos outros magnatas seguiram seu exemplo, e colocaram ministros protestantes em seus domínios, construíram igrejas, criaram escolas e enviaram os filhos para estudar em Wittemberg. A maioria das cidades da Hungria uniu-se à Reforma[69]. Por estes ou outros motivos, na década de 1550, o calvinismo foi estabelecido na Hungria. Em 1557 e 1558, um sínodo foi apresentado, resultando na Confissão Húngara, exibindo uma distinta teologia calvinista. Em 1567, no Sínodo de Debrecen, a Igreja Reformada Húngara adotou o Catecismo de Heidelberg e a Segunda Confissão Helvética[70]. O calvinismo sobreviveu na Hungria, a despeito de muita perseguição, mesmo durante o século XVII, em que a Contra-Reforma conseguiu muitos convertidos à fé católica. Entretanto, na virada deste século, dois terços das igrejas evangélicas da Hungria são calvinistas em origem[71]. De quase 2,6 milhões de pessoas associadas a denominações cristãs na Hungria hoje (população de 10,5 milhões), aproximadamente 2 milhões são afiliadas à Igreja Reformada[72]. Missões além-mar no Brasil Protestantes foram grandemente impedidos de qualquer tentativa para levar o Evangelho além da Europa. Em 1588 (quando a Armada Espanhola foi derrotada) os espanhóis e portugueses controlavam as navegações[73]. O Papa dividiu o Novo Mundo entre eles. A França resistiu ao Papa neste assunto e enviou navios para o Novo Mundo[74]. Uma vez que esses países eram católicos, eles não permitiam missionários protestantes navegando pelos mares com o Evangelho. Como Gordon Laman notou, havia um tipo de “imperialismo religioso” unido ao imperialismo político e comercial” da Espanha e Portugal[75]. Portanto, é incrível que Calvino conseguiu enviar missionários ao Brasil. Nicolas Duran, que recebeu o título de Villegagnon de seu pai, era um estudante com João Calvino em Paris. No entanto, Villegagnon entrou para o exército e tornou-se Rei de Matal. Mais tarde ele recebeu o cargo de Vice-almirante da Bretanha. Depois de uma disputa com um governador, decidiu iniciar uma expedição colonial no Brasil. Villegagnon teve o auxílio de Coligny, Almirante da França, que era um sustentador e protetor da Igreja Reformada. Villegagnon lhe contou que desejava iniciar uma colônia que ofereceria proteção para protestantes perseguidos na França. Isto convenceu Coligny, e Coligny convenceu Henrique II a conseguir navios para a expedição[76]. Em 10 de novembro de 1555, Villegagnon partiu e depois de quatro meses, eles chegaram ao Rio de Janeiro. Depois de sua chegada ao Brasil, ele enviou uma mensagem a Coligny pedindo por reforço e por ministros para evangelizar os índios tupinamba. Coligny ficou muito feliz em atender ao pedido. Ele escreveu a Calvino sobre o assunto, e de acordo com Baez-Camargo, Calvino “viu uma maravilhosa porta abrindo-se para a extensão da Igreja de Genebra, e então começou de uma vez a organizar uma força missionária”[77]. Dois pastores e onze leigos se voluntariam para a missão. Eles deixaram Genebra em setembro de 1556 e chegaram ao Forte Coligny (no Rio de Janeiro) em março de 1557.[78] Os missionários genebrinos foram recebidos com alegria. Pierre Richier e Guillaume Chartier, os dois pastores, começaram a organizar a igreja no Forte Coligny. Em 21 de março de 1557, eles fizeram seu primeiro culto de comunhão. Villegagnon aparentava ser um líder protestante modelo. Entretanto, as coisas logo começariam a mudar. Villegagnon começou a interferir com os pastores em questões de disciplina e mesmo em “questões de fé”. Ele começou a exigir que o
  • 124. 124 batismo e a Ceia do Senhor fossem ministrados de uma forma similar aos ensinos católicos. Para resolver essa situação, os dois lados concordaram em enviar Chartier de volta à Genebra para discutir o assunto e Villegagnon disse que aceitaria o que Calvino dissesse sobre o assunto. Entretanto, logo que Chartier foi enviado, Villegagnon começou a chamar Calvino de herege. Ele também começou a punir os missionários genebrinos, sobrecarregando seus trabalhos na construção do forte e sem dar comida adequada. A esta altura, Richier confrontou Villegagnon face a face e contou a ele que os missionários de Genebra retornariam à cidade no próximo navio[79]. Em janeiro de 1558, os missionários prepararam-se para voltar para casa. Ainda assim, cinco dos homens de Genebra resolveram retornar à missão. Villegagnon inicialmente os recebeu bem, mas então as atitudes estranhas aumentaram. Ele exigiu uma declaração de fé dos calvinistas genebrinos. Quando recebeu a declaração, três dos cinco homens foram estrangulados e lançados no oceano (os outros dois foram salvos porque Villegagnon precisava de um alfaiate e um cozinheiro). Villegagnon mais tarde retornou à França em busca de reforços, e em 1560, os portugueses atacaram e destruiram o forte, e a colônia francesa terminou[80]. De todos os pontos de vista práticos, a missão no Brasil foi um fracasso. Ainda durante o curto tempo em que os missionários genebrinos estavam no Brasil, tentativas de evangelizar os índios foram feitas. Richier foi desencorajado pela natureza dos índios canibais. Ele os via como “primitivamente estúpidos” e “incapazes de distinguir o bem do mal”. Ele também foi desencorajado pela grande barreira da língua. Ainda assim, ele escreveu a Calvino: “uma vez que o Altíssimo nos deu esta tarefa, esperamos que esta Edom torne-se uma futura possessão para Cristo”[81]. Em um momento mais otimista, Richier reconheceu a oportunidade que teve de evangelizar aqueles índios e escreveu a Calvino que eles eram “como uma tábua rasa, fácil de pintar”[82]. Assim, Richir nunca abandonou seu desejo pela conversão dos índios. Um dos leigos, um estudante de teologia chamado Jean de Léry, era menos pessimista. Ele gastou tempo com as pessoas e tomou notas sobre suas crenças e costumes religiosos. Ele até mesmo viu algumas boas características entre eles. Certa vez ele escreveu que “se nós tivéssemos conseguido permanecer neste país por um tempo maior, teríamos sucesso e ganhado alguns deles para Cristo”[83]. Léry deu um exemplo de uma vez em que ele cruzou a floresta com três índios amigos. Compelido pela beleza do ambiente deles, Léry começou a cantar o Salmo 104 “Bendize ó minha alma, ao Senhor”. Os índios pediram para que ele explicasse a música. Léry não sabia o dialeto indígena muito bem, mas começou a explicar a música e o Evangelho por uma hora e meia. Os índios se alegraram com o que ouviram e o presentearam com um aguti (um tipo de roedor do tamanho de um coelho).[84] Portanto, ainda que não houve um único convertido indígena na missão brasileira, a razão foi mais falta de tempo do que falta de esforços. Calvino aproveitou a única oportunidade que teve de iniciar uma missão no Novo Mundo. Embora a missão tenha falhado, esse esforço demonstra o desejo de Calvino de ver o Reino de Cristo espalhado por todas as nações da terra. Calvino nunca teve outra oportunidade de enviar mais missionários. Seriam os Puritanos ingleses do século XVII que retornariam ao trabalho iniciado por Calvino. Conclusão João Calvino nunca apresentou uma teologia sistemática de missões em seus escritos. Entretanto, mostrou-se que não somente uma teologia de missões coerente pode ser reconstruída de seus escritos, mas que Calvino considerava Genebra como um “centro missionário” para evangelização da França, do resto da Europa, e até mesmo do Novo Mundo. Talvez a razão para não encontrarmos uma teologia de missões em seus escritos é porque missões eram centrais em seu ministério em Genebra. Missões não era uma “seção” de sua teologia sistemática, era central
  • 125. 125 ao que ele tentava cumprir em seu ministério. Calvino daria uma definição do século XX sobre o que um missionário deveria ser? Provavelmente, não, mas nem mesmo William Carey ou Hudson Taylor dariam. O fato que permanece é que a teologia de Calvino e seus esforços missionários constituem um passo importante em direção à missiologia protestante. Depois de discutir os esforços missionários de Calvino, destacar o trabalho dos puritanos na Nova Inglaterra e os missionários holandeses no oriente (para não mencionar as missões morávias), deve estar evidente que uma quarta era de atividade missionária deveria ser adicionada ao histórico de Winter, começando em 1544, quando João Calvino enviou seus primeiros missionários à Holanda. Enquanto esta era possa parecer diferente quando comparada ao movimento iniciado por William Carey (um calvinista), ainda assim merece um reconhecimento adequado em qualquer história das missões protestantes. NOTAS: [1]Gustav Warneck, History of Protestant Missions, trans. G. Robinson (Edinburgh: Oliphant Anderson & Ferrier, 1906), 9, citado em Fred H. Klooster, “Missions—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological Journal 7 (Nov. 1972): 182. [2]Ibid., 19. [3]Ralph D. Winter, “The Kingdom Strikes Back,” em Perspectives on the World Christian Movement (Pasadena: William Carey Library, 1992), B—18. [4]Ralph D. Winter, “Four Men, Three Eras, Two Transitions,” em Perspectives on the World Christian Movement, B—34. [5]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32 (Grand Rapids: Baker, 1979), 98-99. [6]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 4, Josué —Salmos 1-35, 385. [7]Comentário sobre o Salmo 110:2, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmos 93-150, 301; veja também seus comentários sobre Isaías 45:22, Mateus 24:19, e Atos 8:1. [8]Veja também o comentário de Calvino sobre Isaías 2:4, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 98-102. [9]Veja também o comentário de Calvino sobre o Salmo 110:1, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmos 93-150, 299. [10]Ibid., 300. [11]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 92. [12]Comentário sobre o Salmo 110:2, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmo 93-150, 300. [13]Comentário sobre Miquéias 4:1-2, citado em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964): 28. [14]Comentário sobre Isaías 12:5, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 403. [15]Comentário sobre Isaías 2:3, em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” 28. [16]J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between Calvinism and Missions.” Evangelical Quarterly 22 (Jul. 1950): 177. [17]Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964): 36-37. See also Samuel Zwemer, “Calvinism and the Missionary Enterprise,” Theology Today 7 (Jul. 1950): 211. [18]Isto é sugerido por Ruth A. Tucker em Jerusalem to Irian Jaya: A Biographical History of Christian Missions (Grand Rapids: Zondervan, 1983), 67. [19]John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 4.8.4; 4.8.8. [20]J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message,” 178. [21]Ibid., 179. [22]Comentário sobre o Salmo 22:27 , em Calvin's Commentaries, vol. 4, Josué —Salmos 1-35, 386. [23]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 17, Harmonia de Mateus, Marcos e Lucas, 384. [24] Beza ensinou que os apóstolos levaram o Evangelho até mesmo à América. Veja J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message,” 179. [25]Ruth A. Tucker, From Jerusalem to Irian Jaya, 67. [26]John Calvin, The Bondage and Liberation of the Will: A Defence of the Orthodox Doctrine of Human Choice against Pighius, ed. A.N.S. Lane, trans. G. I. Davies (Grand Rapids: Baker, 1996), 215. [27]Veja John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 3.20.12. Veja também 3:20.1; 3.20.11. [28]John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 3.23.14. Veja também, The Bondage and Liberation of the Will, 160. [29]John Calvin, The Bondage and Liberation of the Will, 163-65. [30]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” The Evangelical Quarterly 8 (1936): 47. [31]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” Reformed Review 43 (Aut. 1989): 53. [32]Ibid., 59. [33]Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France (Genève: Libraire E. Droz, 1956), 79. [34]Prefácio a Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France.
  • 126. 126 [35]Philip E. Hughes, “John Calvin: Director of Missions,” Columbia Theological Seminary Bulletin 59 (Dec. 1966): 20. [36]Fred H. Klooster, “Missons—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological Journal 7 (Nov. 1972): 192. [37]Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France, 34. [38]John Calvin, Selected Works, Vol. 7, Letters, Part 4, 168. [39]Williston Walker, John Calvin: The Organizer of Reformed Protestantism 1509-1564 (New York: Knickerbocker Press, 1906), 385. [40]Ibid., 387 [41]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 58. [42]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 372. [43]Corpus Reformatum, XLII, col. 134, citado em G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, Documents of Modern History (New York: St. Martins Press, 1983), 123. [44]Ibid., 59. [45]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 59. [46]W. Fred Graham, ed., Later Calvinism: International Perspectives, Sixteenth Century Essays and Studies, vol. 22 (Kirksville, MO: Sixteenth Century Journal Publisher, 1994), 386. [47]Ibid. Veja também Williston Walker, John Calvin, 388. [48] Os escritos de Carey provavelmente foram muito influenciados pelos escritos de Justus Heurnius. Veja Ibid., 63. [49]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 62-3. [50]Williston Walker, John Calvin, 389. [51]Ibid., 389-90. [52]Ibid., 390-91. [53]G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, 134-35. [54]Ibid., 138. Veja também Williston Walker, John Calvin, 393. [55]Canadian Mennonite Encyclopedia On Line: http://www.mhsc.ca/encyclopedia/contents/M4636ME.html. [56] Ao mesmo tempo, deve ser percebido que Lasco cria que a teologia de Menno errava em muitos pontos da verdadeira fé e poderia atrasar seu progresso. Em 1554, depois que alguns menonitas vieram ajudar alguns do grupo de Lasco, a discussão entre os grupos terminou em hostilidade. [57]Williston Walker, John Calvin, 392-93. [58]G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, 157. [59]Ibid., 156-57. [60]Williston Walker, John Calvin, 394. [61]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” 50. [62]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 246. [63]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 323-24 n. Veja também G.R. Potter e M. Greengrass, John Calvin, 140-41. [64] Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity, vol. 2, Reformation to Present (Peabody, MA: Prince Press, 1975), 793-94. [65]Ibid., 891. [66]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3. Ibid., 325. [67]Williston Walker, John Calvin, 394. [68]James Aitken Wylie, Protestantism in Hungary and Transylvania, vol. 3, bk. 20. On line: http://www. whatsaiththescripture.com/Voice/History.Protestant.v3.b20.html. [69] James Aitken Wylie, Protestantism in Hungary and Transylvania, vol. 3, bk. 20. [70] Encyclopedia Britannica, s.v. “Reformed Church in Hungary.” On line: http://www.britannica.com. [71]Ibid., 395. [72]Patrick Johnstone, Operation World (Grand Rapids: Zondervan, 1993), 268. [73]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” 47. [74]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil , ” The Reformed Journal 17 (1967): 15. [75]Gordon Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 53. [76]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil , ” 14. [77]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” Church History 21 (Jun. 1952): 135. [78]Ibid., 136. [79]Ibid., 138. [80]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil ,” 20. [81]Ibid., 17. [82]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” 140. [83]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil ,” 17-18. [84]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” 141-42.
  • 127. 127 Bibliografia - Trabalhos citados Beaver, R. Pierce. “The Genevan Mission to Brazil .” The Reformed Journal 17 (Jul.-Aug., 1967): 14-20. Baez-Camargo, G. “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America .” Church History 21 (Jun. 1952): 135-145. Calvin, John. The Bondage and Liberation of the Will: A Defence of the Orthodox Doctrine of Human Choice against Pighius. Ed. A.N.S. Lane . Trans. G. I. Davies. Grand Rapids : Baker Books, 1996. ________. Calvin's Commentaries. Vol. 4. Josué—Salmos 1-35. Grand Rapids : Baker, 1979. ________. Calvin's Commentaries. Vol. 6. Salmos 93-150. Grand Rapids : Baker, 1979. ________. Calvin's Commentaries. Vol. 7. Isaías 1-32. Grand Rapids : Baker, 1979. ________. Calvin's Commentaries. Vol. 8. Isaías 33-66. Grand Rapids : Baker, 1979. ________. Calvin's Commentaries. Vol. 17. Harmonia de Mateus, Marcos e Lucas. Grand Rapids : Baker, 1979. ________. As Institutas da Religião Cristã. Philadelphia : Westminster Press, 1960. ________. Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters. Vols. 4-7. Letters, Parts 1-4. Eds. Henry Beveridge and Jules Bonnet. Grand Rapids : Baker, 1983. Chaney, Charles. “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin.” Reformed Review 17 (Mar. 1964): 24- 38. Edwards, Charles E. “Calvin and Missions.” The Evangelical Quarterly 8 (1936): 47-51. Graham, W. Fred, ed. Later Calvinism: International Perspectives. Sixteenth Century Essays and Studies. Vol. 22. Kirksville , MO : Sixteenth Century Journal Publisher, 1994. Hughes, Philip Edgcumbe. “John Calvin: Director of Missions.” Columbia Theological Seminary Bulletin 59 (Dec. 1966): 17-25. Johnstone, Patrick. Operation World. Grand Rapids : Zondervan, 1993. Kingdon, Robert M. Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France . Genève: Libraire E. Droz, 1956. Klooster, Fred H. “Missions—The Heidelberg Catechism and Calvin.” Calvin Theological Journal 7 (Nov. 1972): 181-208. Laman, Gordon D. “The Origin of Protestant Missions.” Reformed Review 43 (Aut. 1989): 52-67. Latourette, Kenneth Scott. A History of Christianity. Vol. 2. Reformation to Present. Peabody , MA : Prince Press, 1975. Potter, G. R. and M. Greengrass. John Calvin: Documents of Modern History. New York : St. Martins Press, 1983. The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin. Ed. Philip Edgcumbe Hughes. Grand Rapids : Wm. B. Eerdmans, 1966. Tucker, Ruth. From Jerusalem to Irian Jaya: A Biographical History of Christian Missions. Grand Rapids : Zondervan, 1983. Van den Berg, J. “Calvin's Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between Calvinism and Missions.” Evangelical Quarterly 22 (Jul. 1950): 174-187. Walker, Williston. John Calvin: The Organizer of Reformed Protestantism 1509-1564. New York : Knickerbocker Press, 1906. Winter, Ralph D. and Steven C. Hawthorne, eds. Perspectives on the World Christian Movement. Rev. Ed. Pasadena , CA : William Carey Library, 1992. Zwemer, Samuel M. “Calvinism and the Missionary Enterprise .” Theology Today 7 (Jul. 1950): 206-16. Bibliografia Estendida Avis, The Church in the Theology of the Reformers. Atlanta : John Knox Press, 1981. Benz, Ernst. “The Pietist and Puritan Sources of Early Protestant World Missions.” Church History 20 (Jun. 1951): 28-55. Bonar, Horatius. Words to Winners of Souls. Originally Published 1866. Phillipsburg , NJ : Presbyterian and Reformed, 1995. Calvin, John. Tracts and Treatises. Vol. 1. On the Reformation of the Church. Trans. Henry Beveridge. Grand Rapids : Wm. B. Eerdmans, 1958. ________. Tracts and Treatises. Vol. 2. On the Doctrine and Worship of the Church. Trans. Henry Beveridge. Grand Rapids : Wm. B. Eerdmans, 1958. ________. Tracts and Treatises. Vol. 3. In Defense of the Reformed Faith. Trans. Henry Beveridge. Grand Rapids : Wm. B. Eerdmans, 1958. Carey, William. An Inquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the Conversion of the Heathens. Ed. John L. Pretlove. Dallas , TX : Criswell Publications, 1988. Cogley, Richard W. “Idealism vs. Materialism in the Study of Puritan Missions to the Indians.” Method and Theory in the Study of Religion 3.2 (1991): 165-182. Colbert, Charles. “They are our Brothers: Raphael and the American Indian.” Sixteenth Century Journal 16.2 (1985): 181-90. Conn, Harvie M. “The Missionary Task of Theology: A Love/Hate Relationship?” Westminster Theological Journal 45 (Spr. 1983): 1-21. De Greef, W. The Writings of John Calvin: An Introductory Guide. Grand Rapids : Baker Book House, 1993. Gibbons, Richard. “Aspects of the Preaching of John Calvin.” Glasgow University : Unpublished Paper, 1996. Glaser, Mitch. “The Reformed Movement and Jewish Evangelism.” Presbyterion 11.2 (Fall 1985): 101-117.
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