Práticas quotidianas e construção de conhecimento

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Práticas quotidianas e construção de conhecimento

  1. 1. PRÁTICAS QUOTIDIANAS e CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS Helena Neves Almeida* Tal como as pessoas e as instituições, também as profissões possuemuma trajectória irregular, condicionada por factores internos e externos,individuais e colectivos, configurando ciclos de vida cuja característicafundamental é a mudança e a transformação. A análise do desenvolvimento do serviço social, desde a suainstitucionalização e luta pela sua legitimação (de 1897 a meados dos anos30) até à actualidade revela movimentos constantes de afirmação de uma baseteórica, onde se assinalam contributos, como os de Mary Richmond (1917,1922), Grace Coyle, Hunt e Kogan (anos 40-50), Lilian Ripple, Murray Ross(anos 60), Ander-Egg, William Reid e Ann Shyne (anos 1970), Schon, Mathildedu Ranquet , Howe (anos 80), Malcom Payne, Christina de Robertis (anos 90),e tantos outros, que são incontornáveis e alicerçam o saber fazer numconhecimento construído a partir de procedimentos submetidos á lógica daprova e da descoberta, sem desvalorizar as questões axiológicas, isto é osvalores que constituem referências transversais às práticas profissionais e deonde se realça o respeito pelos direitos do homem e do cidadão. Em Portugal o reconhecimento da profissão ocorre a partir da aprovaçãodo funcionamento das primeiras instituições de formação em Serviço Social em1935 (Lisboa) e 1937 (Coimbra), e a partir dos anos 50 –60 é reforçado o seuestatuto regulador das relações sociais, ao ser-lhe associada a área dedesenvolvimento comunitário e dos problemas decorrentes do processo deurbanização. O 25 de Abril ocorre num momento de questionamento einsatisfação dos profissionais em relação ao seu papel na sociedade e emrelação à sua prática quotidiana. Com a expansão do Estado-Providência e aintegração de Portugal na CEE (1986) criaram-se novos equipamentos eabriram-se portas para uma intervenção de cariz colectivo, indutores dareivindicação para os Assistentes Sociais de uma maior participação no* Doutora em Trabalho Social, Professora do Instituto Superior Bissaya-Barreto (Coimbra) XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 1 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  2. 2. processo de produção das normas. O campo de intervenção expandiu-se paraalém das tradicionais áreas da saúde, educação e assistência/segurançasocial, ocupando hoje novos domínios como os da Deficiência, Justiça,Emprego, Poder Local, Serviços Centrais e Regionais da AdministraçãoPública, Empresas, Organizações não Governamentais, e dentro delesdiversos serviços. O movimento pela afirmação de um papel mais activo não apenas nodomínio da execução de medidas de protecção social mas também no da suaplanificação e gestão, foi acompanhado por um binómio aparentementeparadoxal: por um lado, o reforço de uma formação multidisciplinar,alimentando a dependência teórica em relação às diversas Ciências Sociais eHumanas, e por outro lado, a afirmação do Serviço Social como um ramo dasciências sociais, assegurada pela criação de cursos de mestrado e dedoutoramento. De salientar que a partir de meados dos anos 90 se assistiu àproliferação de instituições de ensino superior que ministram formação emServiço Social. Estamos inegavelmente numa fase expansionista da profissão,e as novas dinâmicas sociais e locais revelam-se potenciadoras da suaintegração; porém, estas constituem igualmente oportunidades para ospsicólogos, sociólogos, e outros profissionais no campo das Ciências Sociais eHumanas. Tal afirmação não subentende a leitura da exclusividade do camposocial para o serviço social. Hoje o reconhecimento da multiplicidade defactores intervenientes nos fenómenos de exclusão social, leva-nos aconsiderar imprescindível uma intervenção multidisciplinar. Porém, tendo emconsideração a recente afirmação do serviço social no ensino universitário, talmultidisciplinaridade implica o reconhecimento da sua matriz teórica, e nestecontexto a importância do quotidiano profissional e das práticas desenvolvidaspelo assistente social assumem uma orientação estratégica ao serviço daconstrução de novos saberes. A valorização do quotidiano assume pois umpapel crucial no processo de produção de conhecimentos, um dos vectores deprojecção do serviço social. Do que falamos quando utilizamos o conceito deprática e em que condições essa prática se pode constituir como fonte deteoria, são duas questões que passamos a abordar. XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 2 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  3. 3. 1 - Atributos da prática profissional no quotidiano A prática pode ser entendida como experiência, uso ou hábito de qualquerarte ou ciência, que implica um conjunto de regras ou princípios, um saberresultante da experiência, mas pode também ser entendido como uma rotina,um exercício maquinal. O conceito de prática é portanto polissémico. Porém, quando se utiliza o termo prática profissional, reconhece-se ovalor da experiência dirigida por conhecimentos diversos mas essa experiênciatraduz conhecimentos informais que estão em elaboração permanente, isto é,teorias e valores mais amplos que existem tanto na sociedade como nasconstruções decorrentes da experiência prática, como refere Malcom Payne(2002: 63). Neste contexto, a prática não se reduz a um mero conjunto deactividades simples e rotineiras; a sua complexidade deriva da confluência devárias componentes analíticas do quotidiano profissional, a saber: • Dinâmica contextual que engloba o social existente, formalmente manifesto em práticas, regulamentações, normas tanto ao nível da instituições como das populações e o social latente, que corresponde às expectativas das pessoas, das populações, seus recursos potenciais, assim como novas áreas de intervenção institucional (Blanc, 1986). • Heterogeneidade: a acção profissional é objectivada em campos de intervenção diversificados (Saúde, Educação, Justiça,...), através de actividades (atendimentos, encaminhamentos, relações externas,...), atitudes (confronto, aceitação, conformismo, negação...) e procedimentos (adaptativos, pró-activos, conciliadores,...) diversos providos de diferentes significados. • Temporalidade: que remete o profissional para trajectórias pessoais e institucionais simultaneamente singulares e genéricas. Singulares na sua expressão individual e genéricas, expressão da historicidade que determina a situação de cada sociedade e sujeito. Cada sujeito, instituição e sociedade possui um tempo XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 3 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  4. 4. próprio, regulado por tensões e constrangimentos mas também oportunidades sociais específicas. • Construção social da realidade: a prática não se impõe ao profissional como se de uma rotina pragmática se tratasse. Cada profissional adapta-se ao contexto de intervenção, descreve e interpreta situações, constroi teorias informais sobre a prática, sobre os actores (utentes, técnicos e instituições), sobre o meio envolvente, utilizando para isso conhecimentos que capta e assimila na sua relação com o mundo e com os outros. Decorrente da presença destes factores, derivam atributos cujodesconhecimento contribui para a desvalorização dos saberes que estãoassociados à prática profissional: 1 – A prática profissional é sempre contextualizada. Ela situa-se “nocontexto das relações sociais concretas de cada sociedade” (Baptista, 2001:13) e de cada sujeito, num espaço de confluência de tensões econstrangimentos históricos, económicos, sociais, culturais e políticos quediferem de sociedade para sociedade, de instituição para instituição e desujeito para sujeito. Tal facto, faz com que as práticas nunca seja iguais. Elaspoderão ser similares. Porém a singularidade e a particularidade da situaçãoexigem uma avaliação diferenciada e o uso de procedimentos adaptados aessa realidade. A eficácia de um dado modo de agir numa determinadasituação não constitui garantia de bons resultados numa outra por muito similarque seja ; 2 – A prática profissional é uma construção, um produto humanomaterializado em actividades, atitudes, procedimentos, que resultam dainterpretação dos sujeitos e da sua relação com o mundo e com os outros(Berger e Luckmann, 1976). A relação entre o assistente social e o seu mundosócio-profissional estabelece-se também no quadro de uma rede de relações econsequentemente de interesses e lógicas que integram uma estruturaparticular de actores (utentes, organizações, profissionais) e de significados. XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 4 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  5. 5. Cada profissional constroi socialmente a sua realidade de trabalho, tomando-acomo uma unidade, através de esquemas tipificadores de acções e actores. O profissional é um actor dotado de vontade e a sua acção revelaintenção. Cada profissional é um ser singular com um projecto próprio deprofissão e de sociedade e um ser genérico, um sujeito activo da praxis social.Ele descreve, interpreta as suas experiências quotidianas, conferindo sentidoàs suas acções e às dos outros. A descrição e a interpretação permitem-lhe areconstituição permanente da realidade. Esta interpretação é produzida deforma contínua na interacção com os outros, ela é intersubjectiva. Atravésdeste processo, cada sujeito reconstroi o sistema social em que participa.Factores como a idade, formação ou estatuto, interferem no modo como osprofissionais definem e redefinem o seu propósito profissional, designadamenteo seu espaço e projecto profissional. Tal facto leva-nos a afirmar que a actividade profissional quotidiana estáorganizada em torno do “aqui” e “agora”, mas não se esgota no imediato ecircunstancial. Ela está alicerçada numa diversidade de origens e expectativassociais, comportamentos e preferências teóricas, ideológicas e societárias,projectos profissionais diferentes, embora se identifiquem valores comunsorientadores, tais como a liberdade, a defesa intransigente dos Direitos doHomem e do Cidadão, a democratização de procedimentos, o compromissocom a competência e com a qualidade dos serviços prestados (Netto, 2001)1 .1 Segundo este autor, existe um conjunto de valores comuns a projectos profissionaisdiferenciados, a saber (ver Almeida, H. (2002). Serviço Social, ética, deontologia & projectosprofissionais, Apresentação pública do livro, in www.cpihts) : A Liberdade: Reconhece aliberdade como valor central, concebida historicamente como possibilidade de escolha entrealternativas concretas. Deste modo, a liberdade surge associada à autonomia, à emancipaçãoe desenvolvimento dos sujeitos entendidos como actores providos de vontade; A Defesaintransigente dos Direitos do Homem e do Cidadão: A equidade e a justiça social, naperspectiva da universalização do acesso aos bens e serviços relativos aos programas epolíticas sociais, a ampliação e a consolidação da cidadania constituem condição para agarantia dos direitos civis, políticos e sociais; A democratização de procedimentos: O projectoreclama-se radicalmente democrático, entendendo-se democratização como a “socialização daparticipação política e socialização da riqueza socialmente produzida”; Um compromisso coma competência: A competência profissional implica uma formação académica qualificada queviabilize a “análise concreta da realidade social” imprescindível ao desenvolvimento deprocedimentos adequados. A auto-formação permanente e o exercício de uma posturainvestigativa revelam-se fundamentais.É necessário romper com o voluntarismo e com oisolamento profissional; Um compromisso com a qualidade dos serviços prestados: O projectoprofissional radica num compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população, oque implica uma maior participação dos utentes na tomada de decisão. A defesa e areprodução dos princípios e valores éticos que lhe estão subjacentes exige sujeitosprofissionais activos e autónomos XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 5 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  6. 6. . 3 - Rotina e ruptura constituem duas faces da prática profissional.Rotina na medida em que enquadra um conjunto de actividades sequenciais erepetitivas (fazer a visita diária num lar de idosos, proceder ao acolhimento deutentes, estabelecer contactos com recursos externos,...), mas igualmente deruptura quando os procedimentos correntes se revelam ineficazes na procurade alternativas sociais. Este é aliás um dos referentes fundamentais na práticados assistentes sociais, uma vez que a construção de alternativas sociaisimplica a rejeição do modelo de “deficit” em favor de uma pesquisa política eprática comprometida com experiências transformadoras (Almeida, 2001, ). Éneste contexto que emerge o questionamento, denunciador da ruptura com opragmatismo que está associado à rotina. A presença de rotinas na práticaprofissional não constitui em si mesma um problema, até porque pode libertaros profissionais para actividades mais complexas ou inovadoras. A rotinaapenas constitui problema quando ela é redutora da prática profissional aoimediaticismo e, por isso, inibidora de posturas de compromisso com amudança. 4 – A diversidade de posturas profissionais é útil à sedimentação deexperiências anteriores organizadas e estruturam o seu stock deconhecimentos que lhe conferem identidade e onde se incluem (Dubar,1996 : 261) diversos saberes: • Saberes práticos – saídos directamente da experiência de trabalho que não estão associados a saberes teóricos ou gerais; • Saberes profissionais – que implicam articulações entre saberes práticos e saberes técnicos que estão no centro da identidade estruturada pela profissão; • Saberes de organização – que implicam igualmente articulações entre saberes práticos e teóricos e que estão associados a uma lógica de responsabilidade; XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 6 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  7. 7. • Saberes teóricos - que estruturam uma identidade marcada pela incerteza e instabilidade, fortemente orientados para a autonomia, e que estão associados a uma constante exigência de actualização e reconversão profissional. Na prática cruzam-se e constroiem-se diversos tipos de conhecimentosque ultrapassam a lógica da divisão entre conhecimento teórico e prático,sempre permeados por valores. Os três campos são interdependentes ecruzam-se no quotidiano das práticas de intervenção, dando origem aconhecimentos e posturas diversificados. O facto de o assistente social se confrontar diariamente com anecessidade de construir respostas a questões concretas vividas pelos utentesque recorrem às instituições e ao serviço social torna complexa a relação entrea elaboração teórica e a intervenção. No entanto, convém assinalar que atomada de decisão no plano da construção de alternativas sociais, exige amobilização de competências de estudo, análise e de crítica fundamentaistambém no domínio da produção de novos conhecimentos. Na prática oconstroi teorias informais, através da interpretação que faz da situação numprocesso dialético de construção da realidade de forma peculiar em função dosconhecimentos que possui e elabora, materializando-os em acções concretas.Esta objectivação revela a relação que ele estabelece com a teoria,designadamente: • combinação entre teoria e prática, e neste contexto o problema é simultaneamente teórico e prático, • afirmação da teoria como fonte de análise e intervenção em situações concretas, • utilização da teoria na reflexão e justificação da prática, • utilização da teoria como um instrumento favorável a uma maior eficácia da prática. Teoria e prática estão, pois, indiscutivelmente associadas. A teoria deveser entendida como um instrumento orientador da acção e a acção como umespaço de renovação do conhecimento. Neste contexto, o campo da prática XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 7 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  8. 8. constitui-se como uma entidade dinâmica, propiciadora da construção de novosconhecimentos. A acção é sempre provida de sentido e significado e ointerventor não se pode remeter a um papel passivo no processo de recepçãoe aplicação dos conhecimentos. Os saberes renovam-se no quotidiano e nocontexto da relação entre actores sociais. Os interventores sociais têm de terconsciência deste facto e não podem ignorar ou negligenciar a enorme fonte deconhecimento que constitui a prática profissional. II - A prática profissional no quadro da confirmação de uma “cultura de investigação”. A prática profissional no quotidiano é uma rota de conhecimento, namedida em que se configura num conjunto de actividades heterogéneas, queespelham uma realidade interpretada pelo assistente social e por todos osactores intervenientes, acções subjectivamente dotadas de sentidos queconferem coerência ao saber profissional. Integra uma diversidade de campos,lógicas e interesses, no quadro de problemas e políticas sociais que énecessário explorar, decompor e construir através de procedimentos rigorosose metodológicos. Cada realidade de intervenção comporta problemas depesquisa diversificados. Para lá de cada objectivação, existe uma zona depenumbra que é necessário iluminar. Como refere Machado Pais (2002, 33) “o quotidiano é uma rota deconhecimento...não é uma parcela isolável do social...é o laço que nos permite“levantar caça” no real social, dando nós de intelegibilidade ao social”. Apesquisa permite captar a diversidade no sentido de identificar, compreender eexplicar aquilo que é comum (o repetitivo e ordinário) e diferente (oextraordinário). Porém, como refere o autor, “A revelação do social – seguindo as rotas doquotidiano - não obedece a uma lógica de demonstração, mas antes a umalógica de descoberta na qual a realidade social se insinua, conjectura, indicia”(Pais, 2002: 34). Tal não se compagina com uma mera construção e/ouaplicação de técnicas de recolha de dados; implica a mobilização decompetências de questionamento, reflexão, análise e crítica sistemáticasacompanhadas de um domínio do rigor metodológico. Este processo implica XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 8 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  9. 9. duas condições: a ruptura com o fatalismo funcional e a confirmação de uma“cultura de investigação”. Analisemos cada uma delas em particular. 1 – A adopção de um posicionamento de ruptura com o fatalismofuncional, alicerçado no modelo de “deficit” e que origina discursos de vitimizaçãoprofissional, evitando o ritual pragmático através do questionamento e críticaconstrutiva, valorizando a intervenção reflexiva que implica a aceitação do caracterredutor das acções pontuais e imediatas, reconhecendo os poderes associados àintervenção decorrentes da relação e da proximidade com o terreno. • Evitar o ritual pragmático: Diariamente existe um conjunto de diligências rotineiras, adequadas ao normal exercício das funções. Tal não significa que a intervenção possa ser entendido como se de um ritual pragmático se tratasse. Há que criar condições para a emergência do novo, através do domínio das atitudes comunicacionais, da construção de propostas inovadoras que formatem novas ofertas sociais, da integração no quotidiano de espaços propiciadores de reflexão sobre aquilo que se faz, como se faz e porque se faz. É preciso enveredar pela criação de novas representações a partir de novas práticas. • Valorizar a intervenção reflexiva e a investigação-acção. Confrontados diariamente com a urgência da resposta, os assistentes sociais desenvolvem acções detentoras de um residual assistencialista que importa incorporar como um patamar de intervenção não limitativo da sua imagem ou da sua prática. Ponderar as oportunidades, os recursos, os meios, os limites pessoais, profissionais, institucionais e sociais, exige por um lado uma ruptura com procedimentos standartizados e por outro lado a previsão de momentos de paragem para a escrita, a análise e a reflexão. O trabalho em equipa, a actualização de conhecimentos, a participação em foruns de discussão alarga horizontes e favorece a inovação das práticas quotidianas. É importante conceber a intervenção como uma mediação social, capaz de articular diferentes níveis e perfis de intervenção (Almeida, 2001). Neste contexto, é importante associar a investigação (produção de conhecimentos) e a acção (intervenção), como garante tanto da adequabilidade desta ao XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 9 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  10. 10. conhecimento objectivo da realidade social, como da participação dos sujeitos e da formação de competências que um processo de mudança exige. • Reconhecer os poderes associados à intervenção. Apesar de a intervenção dos Assistentes Sociais se processar à margem do exercício de um poder coercivo, resultando por isso naquilo que se designa por mediação desarmada, é inegável a sua contribuição no processo de procura de alternativas à exclusão social e na resolução dos problemas sociais. As fontes de legitimação da sua intervenção são diversas, com referências a nível conceptual, contextual e técnico-metodológica. A primeira decorre da perspectiva humanista e relacional que lhe está associada desde a institucionalização dos serviços sociais e do trabalho social; a segunda deriva do lugar intermediário do serviço social nas organizações, designadamente no âmbito da regulação da(s) procura(s) e da(s) oferta(s) social(is); a terceira prende-se com os saberes e competências associados à prática dos Assistentes Sociais, fortemente influenciados por conhecimentos provenientes das ciências sociais. Apesar de a sua intervenção se processar num clima de ausência de poder, é-lhe atribuído um papel mediador no processo de resolução de problemas sociais, tanto pelos clientes como pelas organizações. Ora, a noção de acção está logicamente ligada à de poder2. A acção implica, por um lado, a utilização de meios para alcançar resultados, através da intervenção directa de um actor no decurso do fenómeno e, por outro lado, uma acção intencionada. O poder representa a capacidade de um agente para mobilizar recursos que permitam alterar o curso de um fenómeno, e é uma propriedade da interacção. Por isso, poder-se-á falar de poder associado à intervenção como produto de factores intrínsecos e extrínsecos ao saber fazer profissional, um poder com características próprias: Poder relacional: A mediação do assistente social processa-se sempre no contexto de confluência de comunicações, reciprocidades e trocas. Apesar de2 GIDDENS, Anthony , Novas regras do método sociológico. Trajectos. Lisboa: Gradiva, 1996, p.128. XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 10 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  11. 11. se reconhecer que estas são também condições subjacentes a práticas depersuasão, quando esta se sobrepõe à capacidade de escuta e de diálogodeixamos de estar na presença de um processo de mediação. Este exigetempo e desenvolve-se de forma catalítica, no quadro de uma “liberdaderelativa de escolha” e num processo crescente de autonomia dos sujeitos querecorrem aos serviços.Poder partilhado e micro: Quando a solução provem apenas de uma fonte,ela resulta da autoridade que lhe é atribuída. Ora, o desempenho profissionalfaz-se sentir a nível micro (utentes, familiares, contexto social) e resulta dacombinação de esforços de diversos intervenientes: a equipa, outrosprofissionais, o utente, a família, organizações da comunidade, voluntários.Raramente a sua acção resulta de uma decisão própria e unidireccional. Porisso, o seu poder é partilhado e micro.Poder proponente: Resulta da capacidade de elaborar propostas e projectoscapazes de sinalizar problemas sociais, instituir salvaguardas processuais noplano dos direitos e deveres do utente-cidadão, argumentar de formaconvincente, rigorosa e objectiva sobre as vantagens, as desvantagens, oslimites e as potencialidades dos clientes, apresentar novas propostas deacção, defender os interesses do utente no quadro dos direitos que estãoconsagrados na lei, e dentro dos princípios da equidade e da justiça social,propor e elaborar projectos inovadores no campo social. O enquadramentolegal confere legitimidade ao fazer profissional e vem reforçar a suacredibilidade.Poder consultivo: Está aliado ao anterior, e resulta da proximidade que oassistente social tem com o utente e com o meio, e da sua capacidade paraanalisar a realidade social envolvente, a sua dinâmica, os seus limites epotencialidades. O conhecimento do contexto territorial e pessoal dassituações atribui-lhe um poder consultivo por parte da administração ougestão dos serviços sempre que seja necessário. É no quadro deste poderque se poderão inserir diligências de pesquisa-acção, como aproximações aoterreno, levantamento de novos dados, estudo das variáveis consideradas XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 11 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  12. 12. úteis à interpretação da situação na sua globalidade e particularidade. Tais procedimentos dão visibilidade a situações até aí não diagnosticadas e viabilizam o desenvolvimento de novas formas de intervenção. 2 – A confirmação de uma cultura de investigação que permita atransformação do campo da intervenção em objecto de pesquisa, no plano micro(destinatários/utentes), meso (processos de intervenção) ou macro-social(problemas e políticas sociais), e submetendo-o à lógica da prova e da descoberta. A aplicação/construção de conhecimentos a partir da realidade profissionalexige um esforço fundado em três vertentes: • o reconhecimento dos conteúdos teóricos que fundamentam as práticas renovadas e o sentido que lhes é atribuído. A teoria permite restringir a amplitude dos factos a serem observados e orienta os principais aspectos de uma investigação; oferece um sistema de conceitos, resume o conhecimento, estabelece uniformidades e generalizações e indicia lacunas no conhecimento. • a identificação da rede conceptual que alicerça posturas inovadoras. Os conceitos organizam a realidade, retendo as características distintas e significativas dos fenómenos, e designam, por abstracção, objectos perceptíveis. É o conceito que postula a realidade do objecto de pesquisa e a sua inteligibilidade. Por exemplo, importa reconhecer a rede conceptual associada ao conceito de pesquisa-acção, e que abrange aspectos metodológicos, organizativos e relacionais entre os actores sociais. O seu desconhecimento implica um uso abusivo do termo, introduz ruído na comunicação (por uma ausência de linguagem comum) e coloca questões no plano da validade ou da comparação dos resultados. • a aceitação do papel activo do interventor social no plano da construção do conhecimento. A(s) realidade(s) com que lida no seu quotidiano profissional são uma fonte de conhecimento. Elas permitem reformular, rejeitar, redefinir e esclarecer teorias, clarificar XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 12 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003
  13. 13. conceitos e encontrar uma (nova) ordem explicativa dos fenómenos. A proximidade com os utentes/cidadãos e com o terreno constitui uma mais valia no processo de compreensão dos contextos de emergência e de desenvolvimento dos problemas sociais, dos limites da aplicabilidade das medidas de política social, dos modelos de intervenção subjacentes e dos procedimentos utilizados. O desenvolvimento de uma cultura de investigação mostra-se útil eurgente, na medida em que favorece, por um lado, o desenvolvimento deacções coerentes, teoricamente fundamentadas, estratégicas, isto écognitivamente orientadas por relações meios-fins, adaptadas à realidadesocial de intervenção, e por outro lado, a produção de novos saberes. O campoda acção não pode nem deve ser entendido como um depósito deconhecimentos que se traduzam numa rotina, nem o interventor um meroexecutor de recursos segundo procedimentos standartizados. A acção é oresultado de interpretações (do contexto, dos actores, das procuras, dasmedidas de política social) e de opções objectivadas em práticas diversas. Taispráticas são indiciadoras de realidades, no que respeita aos destinatários e aosactores intervenientes na acção, no domínio dos problemas e das políticassociais e ainda a nível dos saberes e procedimentos profissionais utilizados e(re)construídos no quotidiano. Realidades que importa compreender, explicar,avaliar, estruturar e conceptualizar. A responsabilidade das instituições universitárias na confirmação (isto é,afirmação, desenvolvimento e consolidação) de uma “cultura de investigação”que aproxime os discursos da teoria e da prática é acrescida. Apenas fazendoe ensinando a fazer investigação, no quadro de uma lógica de construção deconhecimentos que supere os limites da esfera universitária e invista nainteracção com a esfera profissional (através da elaboração e desenvolvimentode projectos de pesquisa que observem a dinâmica da praxis social), é possívelafirmar e valorizar o potencial dos conhecimentos produzidos no contexto daintervenção. A relação de proximidade com o campo da prática permiterenovar conhecimentos, aproximar estratégias analíticas e valorizar saberes. XI SEMINÁRIO DA AIDSS – QUE ROSTO PARA O SERVIÇO SOCIAL? 13 Gondomar, 13 e 14 de Novembro 2003

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