Abdelmalek sayad

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Abdelmalek sayad

  1. 1. Dois aspectos fundamentais do “retorno”: símbolos e topologias dos processos demigração e sua circularidade 1 DimitriFazitoOs sistemas empíricos de migração podem ser representados por modelos de redes sociaisjustamente porque existe a condição do “retorno”. De um lado, tal condição essencializaofenômeno migratório, imputando-lhe uma causa fundamental singular, isto é, a idéiaoriginal para todo migrante de que seu projeto de deslocamento só encontra sentido se ociclo vital da migração se fecha no retorno à terra natal – um princípio simbólico queinscreve a circularidade nas migrações (Sayad, 2000).De outro lado, este princípio simbólico do retorno também se exerce formalmente, isto é,através de condições estruturais concretas que constituem um sistema de migração. Assim,na representação formal do processo migratório, também observamos a estruturação defluxos e pólos de origem e destino como num circuito integrado, ou seja, operado através depadrões relacionais das redes sociais – e, em contrapartida à essencialização, o retornotambém dinamiza o processo migratório (Fazito, 2005).Neste sentido, o retorno nas migrações cumpre dois aspectos básicos: 1) fundamentasimbolicamente todo e qualquer deslocamento; 2) desempenha uma função estrutural natopologia de um sistema de migração que, muitas vezes, o particulariza num dado contexto(a circularidade da rede social da migração).Este artigo pretende analisar estes dois aspectos e, principalmente, como eles atuam naqualificação de um sistema empírico de migração. Em outras palavras, a idéia defendidaaqui é que os sistemas de migração dependem do “retorno”, tanto ao nível dos discursosquanto ao nível das práticas, para a consolidação de um sistema migratório estável eexpansivo.Na última parte do artigo, através da comparação topológica de quatro sistemas demigração, procura-se mostrar que o retorno, através dos migrantes retornados,desempenham, de fato, um papel estrutural elementar na organização e evolução dos fluxosmigratórios – com especial destaque para a participação dos retornados nos processos deintermediação na travessia entre origem e destino.1 Pesquisador CEDEPLAR/UFMG
  2. 2. 1. O poder simbólico do retorno e o fenômeno migratório A migração é um fenômeno demográfico complexo, pois ao mesmo tempo em queum fluxo migratório possui características universais e estruturalmente semelhantes a outrosfluxos, ele desenvolve histórica e socialmente sua singularidade (Davis, 1989). Ao se pensar o fenômeno migratório segundo a perspectiva dos regimesdemográficos poder-se-ia dizer que os deslocamentos são como eventos vitais reguladores,ou integradores das estruturas populacionais que se vinculam a uma estrutura socialhistoricamente dada. Ao final, essa interatividade de eventos e estruturas garantiria acoerência interna de um regime demográfico específico, e revelaria os padrões e impactosdas migrações sobre populações e sociedades (Kreager, 1986). Na migração, a unidade e coerência entre os eventos do ciclo de vida e ossignificados percebidos e atribuídos ao longo de sua experiência (de indivíduos e grupossociais), deve-se àquilo que Sayad (2000: 11) chamou de retorno, o elemento constitutivoda condição do imigrante – de fato, um paradoxo inerente à constituição do fenômenomigratório que o define e unifica. Pois a noção mesma de retorno “está intrinsecamentecircunscrita à denominação e idéia de emigração e imigração. Não existe imigração em umlugar sem que tenha havido emigração a partir de outro lugar; não existe presença emqualquer lugar que não tenha a contrapartida de uma ausência alhures”. O produto do fenômeno migratório, uma duplicidade da presença/ausência comofaces de uma mesma moeda, não apenas unifica elementos opostos em um mesmo processo(regiões expulsoras e receptoras), mas torna esse mesmo processo em constituinte de umarealidade política, econômica, social e historicamente distinta (Bourdieu e Wacquant,2000). Por exemplo, uma pessoa ou família ausente de sua terra natal e presente em outraregião representa mais que um simples deslocamento, pois, de fato, o que se opera é atransfiguração de um evento vital em um significado particular na estrutura social na qual seinsere a pessoa ou grupo familiar (alterações profundas ocorrem tanto na origem quanto nodestino). Para Sayad, esse deslocamento físico é também um deslocamento de poder, o poderde significação do evento na estrutura social – ou seja, o poder simbólico presente no ato de
  3. 3. migrar. Afinal, “não se deixa sua terra impunemente, pois o tempo age sobre todosos seus pares. Não se prescinde impunemente do grupo e de sua ação cotidianamentepresente, (...) bem como de seus mecanismos de inserção social, mecanismos que são aomesmo tempo prescritivos e normativos e, enfim, largamente performativos” (Sayad, 2000:14). Portanto, tal duplicidade de ausência/presença representa uma profunda ruptura naordem do tecido social, disparada por processos populacionais reguladores. Em Sayad o retorno representa uma categoria fundamental do fenômeno migratórioporque confere sentido e explica a unidade das relações complexas entre emigração eimigração, ausência e presença, exclusão e inserção. Além disso, mostra que o retorno éuma possibilidade que só existe no seu devir, pois é em si mesmo uma justificativamanipulada politicamente pelo imigrante em resposta à sua ausência – o retorno não éapenas um retorno ao espaço físico, mas essencialmente o retorno ao espaço socialtransfigurado por eventos vitais e, conseqüentemente, uma impossibilidade concreta, poisnão se retorna àquela mesma estrutura de coisas e eventos que se vivia no passado e depoisse “abandonou”. A poder simbólico do retorno nasce exatamente dessa impossibilidade prática denão se poder retornar, de fato, para o mesmo “estado de coisas” que se deixou ao emigrar.Os deslocamentos não são operados apenas no espaço físico, mas sobretudo num campo derelações sociais que organiza o princípio estruturante espacial. Isto é, os deslocamentosrefundam os “territórios” e suas geografias através da inserção no campo social de novossujeitos e relações sociais. Contudo, para que o retorno continue sendo uma boa justificativa para o emigrante esua comunidade na defesa da racionalidade do deslocamento, a tal impossibilidade práticade retorno às origens deve ser prontamente mascarada ou ignorada. Emigra-se com a crençaabsoluta de que um dia retornar-se-á para o mesmo “espaço” original, como se a decisão deemigrar fosse puramente individual e pontual, localizada num espaço e tempo manipulávelracionalmente. Mais que isto, quando o emigrante inicia sua peregrinação por outros territórios,pouco a pouco se dá conta de que a ausência no lugar de origem implica políticas extremasde negociação com aqueles que ficaram e com aqueles estabelecidos no seu destino final.
  4. 4. Isto porque, como afirmou Pierre Bourdieu (1998: 11-2), a compreensão de Sayadsobre a migração nos lança “no cerne da contradição constitutiva de uma vida impossível e inevitável por via da evocação das mentiras inocentes com que se reproduzem as ilusões sobre a terra de exílio, ele [Sayad] traça com pequenas pinceladas um retrato impressionante dessas “pessoas deslocadas”, privadas de um lugar apropriado no espaço social e de lugar marcado nas classificações sociais. Como Sócrates, o imigrante é atopos, sem lugar, deslocado, inclassificável. (...) Nem cidadão nem estrangeiro, nem totalmente do lado do Mesmo, nem totalmente do lado do Outro, o “imigrante” situa-se nesse lugar “bastardo” de que Platão também fala, a fronteira entre o ser e o não-ser social. Deslocado, no sentido de incongruente e de importuno, ele suscita embaraço”.Diante da impossibilidade do retorno, muitas vezes vivida inconscientemente pelosimigrantes, parece só restar a alternativa socialmente estruturada de uma espécie dedissimulação. Ou seja, o imigrante manipula simbolicamente suas próprias experiênciascotidianas ao criar suas ilusões sobre o retorno às origens buscando, assim, justificar suasituação muitas vezes incômoda de deslocado e inclassificável. Neste sentido, segundo Sayad (1998) e Bourdieu (2003 e Bourdieu e Wacquant,2000) a dissimulação não é um fato planejado e pretendido pelos imigrantes (algo que podeser também plenamente consciente mas não necessariamente), pois depende das relaçõesentre as trajetórias pessoais no contexto estrutural da migração. Os acordos tácitos sobre oreconhecimento da realidade objetiva que os cerca são feitos cotidianamente e o migrantevai inscrevendo novos sinais (aprendizados, intuições, racionalizações, etc) em seuhabitus(que é dinâmico e se renova sempre), e que afinal se instala em seu próprio corpo(Bourdieu, 2003). Então a dissimulação é algo que se apreende logo, quando se torna migrante, e sedissimula para si mesmo, para os outros na origem e para os outros no destino, como formade consagrar um novo contrato social que precisa estabelecer os limites da crença social,nesse triplo sentido de relações. Portanto a dissimulação engendrada pelos migrantes, emface às impossibilidades de um retorno completo, é “o efeito propriamente simbólico dedesconhecimento, que resulta da ilusão da sua [do indivíduo] autonomia absoluta emrelação às pressões externas” (Bourdieu, 2003: 212). Acredita-se que é livre para escolher odestino, o trabalho, escolher as justificativas pra si mesmo sobre a ausência na origem,
  5. 5. porque ao final acredita-se absolutamente autônomo em relação aos outros – e atéao si mesmo! Enfim, segundo Sayad (1998: 44), “percebemos como, usando os recursos do aparelho tradicional, o informante [migrante] produz o próprio modelo do mecanismo segundo o qual se reproduz a emigração e no qual a experiência alienada e mistificada da emigração preenche uma função essencial. O desconhecimento coletivo da verdade objetiva da emigração [dissimulação] que todo o grupo se esforça por manter (os emigrantes que selecionam as informações que trazem quando passam algum tempo na terra; os antigos emigrantes que „encantam‟ as lembranças que guardaram da França; os candidatos à emigração que projetam sobre a França suas aspirações mais irrealistas etc.) constitui a mediação necessária através da qual se pode exercer a necessidade econômica.” Portanto, o retorno denuncia a natureza sistêmica e intimamente conexa dofenômeno migratório. Ainda que o retorno desejado pelos imigrantes seja umaimpossibilidade concreta, ele exerce uma força motriz capaz de se materializar em normas,valores e comportamentos de indivíduos e grupos. A partir da realização de um eventoparticular (a migração) no ciclo de vida de uma pessoa ou grupo, os significados, asrelações e a inserção do imigrante na estrutura social (tanto da sociedade de origem quantona de destino) são modificados, proporcionando dinâmica e complexidade a todo o sistema. Talvez por isso as redes da migração figurem como metáforas apropriadas àdescrição do fenômeno migratório ao conectar ações, pessoas, objetos e categorias em ummesmo regime demográfico (Tilly, 1990). 2. Análise demográfica e antropológica do retorno: perfil, padrão e causas Do ponto de vista das técnicas de mensuração, tendo por foco as pesquisas feitas noBrasil (Ribeiro et al. 1998; Ribeiro e Carvalho, 1998; Carvalho, 2004), conclui-se que asmigrações de retorno exercem grande impacto sobre o processo social das migrações,contribuindo definitivamente para o fortalecimento e expansão dos fluxos migratórios.Em linhas gerais, a análise do volume e evolução dos contra-fluxos da migração, permite-nosSAYAD, Abdelmalek. A imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: EDUSP, 1998. 299p.SAYAD, Abdelmalek. O retorno: elemento constitutivo da condição do migrante. Travessia, v.13, N.Esp., p.7-32, jan. 2000.
  6. 6. Enquanto a expansão econômica, grandeconsumidora de imigração, precisava de uma mão-de-obra imigrante permanente e sempre maisnumerosa, tudo concorria para assentar e fazercom todos dividissem a ilusão coletiva [...] (Sayad,2000, p. 46)
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  8. 8. Conteúdo Mais sobre Livros Comprar este livro este livro
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  10. 10. Conteúdo Mais sobre Livros Comprar este livro este livroAfinal, o que é um imigrante? Um imigrante é essencialmente uma força de trabalho, e umaforça de trabalho provisória temporária em trânsito. Em virtude desse princípio, umtrabalhador imigrante(sendo que trabalhador e imigrante são, neste caso, quase umpleonasmo), mesmo se nasce para a vida ( e para a imigração) na imigração, mesmo se échamado a trabalhar (como imigrante) durante toda a sua vida no país, mesmo se estádestinado a morrer (na imigração), como imigrante, continua sendo um trabalhador definido etratado como provisório, ou seja, revogável a qualquer momento. (...) E esse trabalho, quecondiciona toda a existência do imigrante, não é qualquer trabalho, não se encontra emqualquer lugar; ele é o trabalho que o “mercado de trabalho para imigrantes” lhe atribui e nolugar em que lhe é atribuído: trabalhos para imigrantes que requerem, pois, imigrantes;imigrantes para trabalhos que se tornam, dessa forma, trabalhos para imigrantes. (Sayad,2000, p. 54; 55)

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