- Capítulo 7 -            UM DOMINGO MUITO ANIMADO:              A MISSA, A FEIRA E O CIRCO.       Pela manhã, logo às oit...
A missa, celebrada em latim, transcorria em ritmode piedade cristã, sob um silêncio profundo e no rigortotal da liturgia. ...
bancas em fila ordenada, flexionavam o joelho direito eretiravam-se da igreja.        Depois de cumprida a obrigação, volt...
Na volta ainda ficavam um tempo sentadas no“pavilhão”, apreciando os cabriolets que chegavam ouvoltavam para os engenhos, ...
à minúscula bilheteria lá se postava a turminha na filapara a compra dos ingressos: Aline, Maninha, Denisesegurando a pequ...
Dos serões tradicionais        Finda a apresentação, aplausos, vaias e gritinhoshistéricos. Os vendedores de gulozeimas ac...
pra andar com o circo, é? Tem muita graça! Vou jáembora pra casa!      - Calma, Aline, foi só uma brincadeira de Severina....
A dançarina apareceu trajando uma sainha curtade fitinhas coloridas e um sutien também decorado nomesmo estilo. O conjunto...
- Oh, Lourdes, está esquecida que pertence àcruzada? Já pensou se o padre sabe que você tárumbando pela rua e se comportan...
- Capítulo 6 -                  AS SANTAS MISSÕES        Mês de janeiro. A comunidade católica serejubilava com a notícia....
cidade para esperar os missionários. Jovens e senhorasvestidas sobriamente, sem pintura nenhuma nos rostoscom ramos verdes...
- Mas, mãe, eu tô já me mijando, continuou ogaroto.       - Tá bom, vá ali atrás daquelas bananeiras,prosseguiu a mãe.    ...
Na pauta das pregações, a presença do pecadomortal, do demônio, da concupiscência, dos mauspensamentos e todos aqueles ite...
Demônio – “O demônio existe, estão ouvindo? Eleexiste. Numa cidade do sertão, entrei numa casaabandonada e ele me jogou se...
pelo vosso Coração,       dai que todos com proveito       freqüentemos a Missão.       É favor de vossa graça,       de n...
santo, transportado de Recife até Amaraji. A comitiva,responsável pela imagem chegou de trem e dezenas depessoas se desloc...
Como de tradição muitos fieis pertencentes àsdiversas associações formaram um cortejo para levá-loaté a estação onde ele v...
como Dr. Mário Domingues da Silva, deputado e senadordo congresso pernambucano; Dr. Davino dos SantosPontual, também deput...
- Capítulo 5 -              A BORBOLETA VAI À ESCOLA         Nos meados do século passado, na pequenacidade de Amaraji, ha...
métodos pedagógicos bem pessoais, devendo ternascido em mil novecentos e bauzes bauzes, época emque o arco-íris era preto ...
A cada dois meses, geralmente num domingo à tarde,ela visitava seu Ernesto Coelho e dona Iaiá, meus avós,para tomar um caf...
Outra atividade interessante eram as aulas de trabalhosmanuais. Desenhos, quadros de vidro pintados de preto ecom compleme...
Não dá para esquecer o final de horário escolardo Grupo. Dona Maria do Carmo tocava a campainha ea professora anunciava qu...
alerta. Não era permitido sequer pular de dois em doisdegraus da longa escada do grupo. De repente, ouve-seum grito estrid...
de miss. Todos queriam usar luvas brancas pra carregar olábaro nacional. Geralmente o escolhido era algum“peixinho” da dir...
era cantada, tradicionalmente, enquanto as árvoreseram plantadas:      Cavemos a terra, plantemos nossa árvore,      Que a...
- Pronto, lá vai aquela baixinha metida de novo,reclamou uma menina no meio da turma.       - Deixa de ser invejosa, Sever...
A Árvore       "Criança, a árvore merece       A nossa estima sincera       Dá frutos doces no outono       E flores na pr...
“muxicões” nos mais alvoroçados. Nada lhe escapava.Lá pelas duas da tarde, os alunos começaram a deixar aescola. A diretor...
- Capítulo 4 -   SÓ DANÇO SE EU FOR MESTRA, EXIGIU ABORBOLETA        A primeira infância da pequenina Aline, bembaixinha, ...
sapatinhos de pulseira, impecavelmente polidos por seuJoão Engraxate.       Depois de prontas, as duas sentavam-se nacalça...
Em dias de chuva, reuniam-se em torno de donaQuinquina, mãe de Maria Andrade, para ouvirem,atentas, as estórias de Trancos...
As outras colegas havia se aproximado ecercavam, receosas, a pequena enferma. Denisecontinuou insistente:      - É não, is...
teve a menor dúvida; saiu empurrando todo mundo queestava em sua frente, chegou até o quarto daagonizante e, mui calmament...
braços de Morfeu. Durante a noite, o máximo que podiaacontecer, era alguma moçoila noiva ou comprometida,ser roubada pelo ...
sua estatura “mignon”, e para que se cumprisse aprevisão de seu João Severo no dia de seu nascimento,ela deveria ficar bal...
- De jeito nenhum, se eu não for a mestra, nãodanço, pronto! Podem arranjar outra borboleta que euestou indo embora.      ...
Pois é, e você acha que ia ficar balançandoasinhas pra lá e pra cá, eu mesma não. Está pensandoque eu sou zig-zag, é? Ora,...
E a festa prosseguia noite afora até o final daapresentação, com muitos gritos e palmas dos partidáriosdo cordão azul e do...
- Capítulo 3 -     A PRIMEIRA INFÂNCIA E SEU “DÉBUT” CATÓLICO       Os primeiros anos da infância da mini “ninha”foram den...
Naquela época, o sonho de muitas famíliascatólicas era ter um padre ou uma freira na família.Aqueles que não conseguiam ta...
Usina Bonfim. Já à tarde, a pequena coroante e demaiscolegas de solenidade, após participar do ensaio finalcom o coro, aju...
claras na cabeça, um pouco de carmim nas bochechase uma leve sombra de batom nos lábios era elevadadelicadamente por um do...
santa. Naquele momento, o vigário bradava vivas àsanta, a São José, à igreja, ao papa, etc.       A essa altura, a coroant...
- “Pixiiiiiiit”. Funcionou: anjos, arcanjos e querubinsse reorganizaram em seus lugares e mais uma vez a corteceleste esta...
- Mas cumpade Zito, tem um tatu do tamanho deum bacurinho lá na mata das Três Bacias. E nos vaidesintocá-lo hoje. Se prepa...
duas subiram a rua em direção da igreja. Por sinal, RitaMoraes, além de coroar a santa muitas vezes, era anjo detodas as p...
Dona Lourdes Araújo, responsável pelas flores dadecoração da igreja, cercada por meia dúzia desenhoras que se desmanchavam...
- Capítulo 2 -               O BATIZADO DA BORBOLETA        Naqueles velhos tempos, a religião católica quepretendia ser a...
frutificavam as melhores goiabas da região. Narealidade, não era época da fruta e todos, olhandoansiosos para os galhos ma...
pé-de-moleque, manuê, grude de goma, ponches delimão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as“chupetas de açúcar” de ...
Sinfronina”, uma antiga lavadeira da família, que tinhafama de ser catimbozeira e fazer uns despachos.       - Dando uma f...
- Ela vai sê muito intiligente, vai estudá e se formá,vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muitopor esse mun...
- Dapaz, minha santa, já está passando muito dahora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite eterminar passando mal se n...
- Ô minha gente, esses filhos de vocês não temestilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquantoos meninos parecem q...
- É verdade, estão na mala do carro, Alguém meajude aqui, por favor!        E os convidados que já se preparavam pra fazer...
Difícil descobrir, afinal tinha criança demais nafesta. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L.sobre o ocorrido...
- Capítulo 1 -         JINGLE BELLS, NASCEU A “MINI” NINHA...       Era uma vez, numa cidadezinha da mata sul,torrão bendi...
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Aline e a maninha Ana Maria, primogênita docasal, encheram de alegria a vida dos pais e de todos osvizinhos de rua.      M...
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Capítulo 7

  1. 1. - Capítulo 7 - UM DOMINGO MUITO ANIMADO: A MISSA, A FEIRA E O CIRCO. Pela manhã, logo às oito horas, Aline e Maninha jáestavam paramentadas de branco, com as fitasamarelas da associação, o Adoremus e o Cecília nasmãos para comparecer à missa da Cruzada Eucarística.No bolso, a notinha de cinco mil reis, pois era dia dereunião da santa associação. - Vamos, Maninha, vê se anda mais depressa.Padre José vai terminar reclamando, irritou-se a menina. Chegando à igreja, ocuparam os assentos dafrente na fileira de bancas reservada para os membrosda cruzada e como a garota já era apóstolo, isto é, usouum assento ainda mais privilegiado. Além dessedestaque, Aline usava uma fita mais larga com desenhosde das armas do Vaticano encrustados nela e colocadaem diagonal. Os poucos que usavam aquele tipo de fitaeram mais graduados dentro da associação de criançase jovens. A igreja estava repleta de fiéis. Algumas senhorasde engenho e outras damas da elite ocupavam seusgeniflexórios particulares que ficavam entre os bancos eas colunas do templo. Os homens se aglomeravam naárea de entrada da sacristia e no lado oposto. Seu JoséFiel nunca dispensou a fita vermelha do SagradoCoração.
  2. 2. A missa, celebrada em latim, transcorria em ritmode piedade cristã, sob um silêncio profundo e no rigortotal da liturgia. O cura de origem teutônica, aspectosisudo e voz grave, dominava a platéia de fiéis através desuas grossas lentes. Ai de quem se atrevesse a cochicharou tirar a atenção de algum fiel do andamento dacerimônia. O reverendo fitava o perturbador por algumasdezenas de segundos e o constrangimento era geral. E sea perturbação, por menor que fosse, continuasse, aí sim,vinham os gritos seguidos da expulsão do(a) indesejáveldo templo. Numa ocasião, em meados do outono, em plenamissa das nove horas do domingo, caiu uma fortechuvada e algumas dezenas de pessoas, homens em suamaioria, que conversavam no Pé-do-Santo, correrampara dentro da igreja e ficaram acotovelados na entradaprincipal, abrigando-se dos respingos. O reverendo,notando a movimentação vira-se para trás e grita paraos recém-chegados: - “Isto aqui não é um guarda-chuva, é uma igreja.Retirem-se imediatamente”. Aguardou que os biguzeirosse retirassem e continuou a cerimônia. A criançada participava da comunhão e depoisde uma hora de culto ouvia-se o “Ite, missa est”, quesignificava o final da cerimonia. O padre retornava para a sacristia e voltavadentro de poucos minutos para presidir a reunião. Alinelia a ata e anotava os assuntos do dia para seremcolocados no próximo relatório. Cantava-se, rezava-se e,aos poucos, o pessoal ia ficando com fome. Uma horadepois os cura abençoava os pequenos cruzados eretirava-se da reunião. Os participantes iam saindo das
  3. 3. bancas em fila ordenada, flexionavam o joelho direito eretiravam-se da igreja. Depois de cumprida a obrigação, voltavam paracasa para o café da manhã e logo corriam para a feira.Era uma alegria geral. Passear de banco em bancoapreciando as mercadorias e as novidades. Tomavamgelada de morango, caldo de cana com pão doce emseu Otávio; passavam por seu Pontual para verem aspessoas serem “curadas de cobra”; havia outro queaplicada choque de bateria elétrica com algumafinalidade terapêutica, etc. Experimentavam os óculos de grau, ou sedeleitavam cheirando as diversas fragrâncias utilizadasnas vaselinas para cabelos. Bom mesmo eram asnovidades da capital: pulseiras de alumínio dourado, degalalite, ligeiras largas para segurar os cabelos,diademas, brincos, etc. Os trocados que cada um levavaeram mesmo gastos com as saborosas cocadas, cavacosjaponês, pitombas, ingás, chupetas de açúcar e pirulitos.Aline não se conformava se não degustasse um daquelesinusitados pãezinhos doces que tinham um formato dejacaré. A feira se estendia até às 13:00 h do domingo. Uma ocasião, quando passavam nas imediaçõesdo banco de dona Maria Morais, Aline queixou-se dalente dos óculos. Segundo ela, estavam ficando fracas.Lourdes Alves que acompanhava o grupo logo achouuma solução. - Vem cá, Aline, experimenta um desses óculos dobanco de dona Maria. - Tá abiscoitada é, meu caso tem que ser emRecife e com Dr. Altino Ventura.
  4. 4. Na volta ainda ficavam um tempo sentadas no“pavilhão”, apreciando os cabriolets que chegavam ouvoltavam para os engenhos, carregando os senhores esenhoras de engenho que tinham vindo para a missadominical e a feira. Uma delas comentou empolgada: - Olha o rapaz que vai dirigindo o cabriolet comoé simpático, Aline! - Pronto, menina aquilo é somente o boleeiro, odono do engenho é o que vai no assento traseiro. Era um verdadeiro desfile de charretes ecabriolets. Seu Eugênio e Dona Julieta de Animoso, seuRaul e dona Lourdes de Riachão do Sul, dona Laura e osfilhos, proprietários do engenho Refrigério, seu AntônioCadete, de Amaraji d´Água, seu Horácio Esteves e donaConceição de Raiz de Dentro, seu Amaro Ferreira e donaNely de Guloso, entre outros. Era pouco mais de meio-dia quando todasdecidiram retornar as suas casas para o almoço. Afinal ocirco estava na cidade e à noite todo mundo iria assistir afunção. A tarde passou rápido. Jantaram cedinho e àssete horas as garotas acompanhadas de algum adultocomeçaram a se encontrar na praça do coreto. Ia seruma grande apresentação. Estariam se apresentando nocirco nada mais nada menos que a loura Suely Monteiro,famosa rumbeira e artista circense, a cantora romântica,Conchita Moreno e o famoso trapezista Wilson Wayne.Era um delírio. O circo era armado no pátio em frente aocemitério. Tinha somente meia coberta na parte em quese apresentariam os artistas. E do lado de fora em frente
  5. 5. à minúscula bilheteria lá se postava a turminha na filapara a compra dos ingressos: Aline, Maninha, Denisesegurando a pequena Leda pela mão, Lourdes e JoséAlves, e um grupo de amigos. Ingressos comprados todos se dirigiram para ageral do circo, chamada carinhosamente de “poleiro”.Os vendedores de confeitos, chicletes, amendoim ecavaco japonês disputavam os fregueses. De repente abandinha do circo começa a tocar e o apresentadoraparece em frente às cortinas anunciando o início dafunção. Mágicos, macacos amestrados, trapezista,equilibrista e, é claro, os engraçados palhaços.Finalmente o mais esperado da noite. Senhores e senhoras, o circo Arcoiris Dourado tema prazer de apresentar, vinda diretamente de Rio deJaneiro, a grande cantora Conchita Moreno. Aplausosestrondosos. Abria-se a cortina e aparecia a cantoratrajando um longo preto tomara-que-caia com corte naslaterais da saia e latejolas brilhantes sobre colo.Maquiagem carregada e cabelos penteados com umcoque no estilo ninho de passarinho brilhante de laquê. Opequeno conjunto dava um solo e sua voz maviosaelevava-se ao ar: “Ai mouraria, da velha rua da palma, onde eu um dia, deixei presa a minha alma, sabor que o vento, como um lamento trouxe comigo E que ainda agora, a toda a hora trago comigo E as vozes femininas faziam coro com a cantorana hora do refrão: “Ai, mouraria, dos roxinois dos beirais Dos vestidos cor de rosa
  6. 6. Dos serões tradicionais Finda a apresentação, aplausos, vaias e gritinhoshistéricos. Os vendedores de gulozeimas acotovelavam-se pelas tábuas dos poleiros alardeando seus produtos edisputando seus fregueses. - Olha o midubim, torrado e cozinhado. Olha oconfeito, chiclete e o nego bom. O grupo de amigas ocupava a parte mais altadas arquibancadas. Como o dinheiro de todo mundo erameio curto, se contentavam com um ou outro pacote deamendoim. De repente, Severina, aluna do grupo passa lá embaixo e grita: - Ô Aline, Wilson Wayne quer falar contigo. - Quem? - O trapezista, mulé. Ele tava perguntando teunome. Acho que ele tá querendo tirar umas linhascontigo. Que é que eu respondo? Ele prometeu unsingressos do circo pra tu e tuas amigas. Decide logo,visse! Tem um bocado de meninas a fim de namorar comele. - Aceita, Aline, tu namora com ele e a gente vemjunto contigo pro circo, pra gastar os ingressos que tu vaiganhar, comentou Marilene. - Mas é nada, respondeu a baixinha vermelha eirritada. Fique com ele pra você, sua idiota. Tá pensandoo quê, que eu já estou ficando no caritó, é? Leva ele pratua tia Julieta que já é vitalina há muito tempo. Sou muitonova ainda. Vocês acham mesmo que eu vou me formar
  7. 7. pra andar com o circo, é? Tem muita graça! Vou jáembora pra casa! - Calma, Aline, foi só uma brincadeira de Severina.Você não sabe que ela é meio doida e muitodesbocada! E o apresentador continuava: - Senhores e senhoras, agora o momento desuspense. O grande trapezista Wilson Wayne vai voarsobre a platéia. E ao som da bandinha, o artista subia atéo trapézio e começava sua apresentação. As pessoasolhavam para cima com um misto de temor eadmiração. Será que ele não ia despencar daquelebalanço? E lá de baixo, próximo ao picadeiro, Severina,rindo, acenava pra Aline e apontava para o trapezista. - Eita, menina chata da murrinha, comentou abaixinha. - Esquece, Aline, quanto mais você ficaabofelada, mais ela vai chatear, comentou uma dasmeninas do grupo. - Nada disso, amanhã vou ter uma conversa coma mãe dela. Ô racinha! Terminada a apresentação, o dono do circoaparece novamente e anuncia: Senhores e senhoras, agora o ponto alto da noite.Com vocês, diretamente de Cuba, a sensacional, amaravilhosa, a divina Suely Monteiro, a maior rumbeira detodos os tempos. Os homens acotovelavam-se em torno dopequeno palco e aplaudiam loucos de impaciência.
  8. 8. A dançarina apareceu trajando uma sainha curtade fitinhas coloridas e um sutien também decorado nomesmo estilo. O conjunto iniciou o ritmo caribenho e aSuely, remexendo freneticamente os quadris, fazendomovimentos sensuais com os braços e mãos e piscandopara um e outro dos mais próximos iniciou sua dança: Dona Maria a mulher do caroço Pegou uma foice pra cortar o meu pescoço (bis) Ó, gente, que bichinho é este? É a barata! Pega o chinelo e mata. (bis) Ai, ai, ai, sendo assim eu não vou lá Ai, ai, ai, vocês querem me matar. (bis) É show Mariana, é show, é show, Mariana, é show Remexedor, remexedor. Meninas, vamos embora, pra cima daquilo tudo Só vendo o meu chuchu, à turma dos cabeludos Refrão ... Meninas, vamos embora, pro pé de abacaxi Só vendo o meu chuchu, prá turma de Amaraji. Refrão ... Meninas, vamos embora, pro pé de abacateiro Só vendo o meu chuchu, a homem que tem dinheiro. Na saída do circo, quando já caminhavam pelarua do Cemitério, os comentários eram as piadaspicantes dos palhaços, o trapezista e as cantoras.Lourdes Alves adiantou-se um pouco e começou acantar e mexer as cadeiras imitando a Suely Monteiro.Algumas garotas riam, mas logo uma das mais moralistascriticou:
  9. 9. - Oh, Lourdes, está esquecida que pertence àcruzada? Já pensou se o padre sabe que você tárumbando pela rua e se comportando que nem uma ...?Foi água fria na fervura. Todo mundo se aquietou.Algumas cruzavam os braços por conta da frieza e dagaroa que caia. Aos poucos o grupo foi se dispersando, ecada um tomou o seu destino.
  10. 10. - Capítulo 6 - AS SANTAS MISSÕES Mês de janeiro. A comunidade católica serejubilava com a notícia. Na missa do domingo o vigárioanunciara para muito breve a realização das santasmissões na cidade. O evento teria a presença de nadamais nada menos que aquele santo missionário queencantava a todos os verdadeiramente fiéis das plagasquentes do nordeste. Aline chegou em casa toda jubilosa contando atodos, a notícia. Já estava se imaginando, às três e meiada madrugada, seguindo aceleradamente o santohomem pelas ruas do burgo, exibindo com orgulho suafita amarela de membro da cruzada eucarística, o livrodo hinário católico na mão, ladeada pelas santaszeladoras, pelas filhas de Maria e outros beatos, ao somtarquetraqueante da velha matraca. A menina cantava no coro, ajudava nosbatizados, enfeitava os altares da igreja e sempre faziaparte de todos os eventos da igreja. Certa estava ela.Com aquela participação constante e permanente,conseguiria ganhar muitas indulgências e, previdentecomo a formiga da fábula, estava fazendo seu pé-de-meia espiritual para, muito futuramente, assegurar umaboa “cobertura” em alguma nuvem ampla, com vistapara o mar no andar de cima. Afinal chegou o grande dia. A populaçãocatólica deslocou-se em procissão até a entrada da
  11. 11. cidade para esperar os missionários. Jovens e senhorasvestidas sobriamente, sem pintura nenhuma nos rostoscom ramos verdes nas mãos. Membros do apostolado daoração, da pia união das filhas de Maria e da cruzadaeucarística, enfileiradas solenemente. O sol causticantefazia com que o pó de arroz das faces angelicais dasjovens puras e das santas beatas se misturasse ao suorque se lhes escorria rosto abaixo. A espera era longa, masa fé superava tudo. De repente o jeep da prefeituraapareceu e um emissário anunciou que o carro dacomitiva já estava passando pelo engenho Jaguarana.Um murmúrio meio frenético e quase chegando à beirado histerismo percorreu a multidão. Havia velhinhas quebeijavam a mão direita e a elevavam para o céu. Outrasse benziam repetidamente. E algumas já puxavam umlencinho branco de dentro do porta-seios para enxugar ocopioso que estava por vir. - Silêncio, meus irmãos, gritava o padre. Silêncio!Vamos organizar a fila. Lá do fundo, dona Zefinha trajando seudomingueiro azul marinho, com a larga fita de tafetávermelho caindo cobre o colo começou a entoar o hinode santo Amaro. - Quem mandou a senhora começar os cânticos,irritou-se o cura. Não é o hino de santo Amaro, é o hinodas missões. Vinde, pais, e vinde, mães, vinde todos àsmissões,...” - Mãe, ô mãe, eu quero mijar. - Deixa disso, Raminho, é hora de rezar com opadre e não de ir à casinha, respondeu uma dasacompanhantes da procissão.
  12. 12. - Mas, mãe, eu tô já me mijando, continuou ogaroto. - Tá bom, vá ali atrás daquelas bananeiras,prosseguiu a mãe. Afinal o momento de glória. O carro dosmissionários apareceu e começou a ovação. - Viva os missionários! Viva! Viva as santas missões!Viva o Papa! Viva! E a multidão emocionada mais umavez: vivaaaa! E na esquina de uma barraca na entradado sítio de seu Eudóxio, um velhote que havia tomadouma meiota, confundido talvez o evento, gritou: - Viva Dr. Zé Lopes! E as velhinhas que corriam nofinal da fila, sem nem saber direito que santo era aquele,responderam empolgadas: Viva! O reverendo aindaencarou meio rancoroso o velhote, mas não havia tempopara ralhações. O carro passou em direção à igreja e o povoacompanhando em ritmo acelerado, esqueceu-se dasfilas, dos hinos, e só se pensava em ver o santo homemde perto, tocar nele ainda que por um segundo e beijar-lhe a mão. Entretanto não foi fácil. A prefeitura haviaorganizado um cordão de isolamento e os missionáriospuderam entrar para a casa paroquial sem seremimportunados. Na casa paroquial um rápido lanche e umdescaso. Meia hora depois os frades adentravam o altar-mor e davam início à cerimônia. Cânticos, orações, e oturíbio fumegante nas mãos do chefe dos coroinhasespirrando fagulhas pra todos os lados.
  13. 13. Na pauta das pregações, a presença do pecadomortal, do demônio, da concupiscência, dos mauspensamentos e todos aqueles itens que se não cumpridosfervorosamente levam o católico para as profundezas dafogueira eterna. Os conceitos do frade eram sintetizados de formataxativa, sem atenuantes e meios termos. Era ser ou nãoser, os mornos não entravam no reio dos céus. Vejamosalguns deles: Namoro – “Só na frente dos pais, com uma pessoasolteira. Deve ser breve, com casamento à vista”. Beijo – “Um beijo dado no rosto da namorada,como um beijo dado numa parenta, não tem nadademais. Entretanto, um beijo na boca, um beijo de língua,isso não, é pecado”. Divórcio – “O matrimônio só é quebrado por morteda esposa ou do esposo. Quem deixa o casamento paracasar com outro no civil, estará no inferno de cabeçapara baixo”. Dança – “A dança é um elemento de perdição.Quando um homem e uma mulher se juntam paradançar, não pode sair nada de bom disso tudo. Entãosobrevém os maus pensamentos, os desejospecaminosos, o pecado”. Saia curta – “Não usem saia curta. A saia curtanão presta. É uma rede de que se serve o demônio parapegar os homens. O demônio está enganchado na saiacurta das mulheres. Muitos homens perdem a cabeça porcausa dessas modas exageradas”. Concubinato – “Uma pessoa que vive com outrasem casar, estará no inferno de cabeça para baixo”.
  14. 14. Demônio – “O demônio existe, estão ouvindo? Eleexiste. Numa cidade do sertão, entrei numa casaabandonada e ele me jogou sete pedras”. Inferno – “No inferno só há sofrimento. Lá, o calor ébilhões de vezes pior que no Nordeste. As labaredassobem e queimam sem parar o corpo dos adúlteros, dasprostitutas, dos efeminados, dos criminosos. Lá, é o lugaronde vive o demônio”. Depois de uma pregação com esses conceitos asfilas do confessionário eram quilométricas. Todos queriamlavar suas almas e receber o perdão do santo homem. Ajovem Aline preferiu se confessar com um frade maisjovem que, segundo ela, escutava melhor. Na praça o comentário era a pregação dospadres. Crentes, duvidosos ou céticos, cada fielexternava sua opinião. Uma coisa era certa, o infernoamedrontava muita gente. Aline e Ana mal conseguiram dormir pensando naprocissão da madrugada. E às 3 horas em ponto as duas,acompanhadas por Neném e Mery, tomaram café esubiram para a matriz sob um frio de gelar a alma. Cadauma delas usando um daqueles chales triangulares queeram enfiados pela cabeça no estilo “poncho”. Às três emeia em ponto, o frade que já estava posicionado hábastante tempo começou a caminhar cantando o hinodas missões e tocando a matraca. E os fieis atrás dossantos missionários, respondendo os hinos: Vinde, pais; vinde, mães; vinde, filhos; vinde, todos à Missão. São dias de misericórdia, são dias de consolação. Ó Jesus, que amais as almas,
  15. 15. pelo vosso Coração, dai que todos com proveito freqüentemos a Missão. É favor de vossa graça, de nossa alma a salvação. Ó Jesus misericordioso, concedei-nos o perdão! Vinde, pais; vinde, mães; vinde, filhos; vinde, todos à Missão. Vinde, agora, pois é tempo de cuidar da salvação! As missões foram um sucesso. Foram realizadosmuitos batizados, confissões e casamentos. Dezenas decasais que viviam “amigados” ou “amancebados” comodiziam os missionários, reconciliaram-se coma igreja pelocasamento. Na época casais amigados não eram bem-vindos nos missas e outras celebrações da igreja, inclusivenão podiam ser padrinhos nos batizados. Afinal viviam empecado. Aline e algumas amigas colecionavam santinhose medalhinhas e ficavam, a todo instante, furando a filapara pedir a algum missionário que abençoasse asestampas e as medalhas. Haja fé! A população católica da pequena cidade,sempre muito fervorosa, participava ativamente dasatividades da igreja. Os padres e os missionários sempreeram esperados na estação do trem e, ao termino doevento religioso, levados de volta por uma multidão defiéis. Nos meados da década de quarenta, aprofessora Lourdes Barbosa adquiriu uma imagem de SãoTarcísio e organizou uma chegada festiva da imagem do
  16. 16. santo, transportado de Recife até Amaraji. A comitiva,responsável pela imagem chegou de trem e dezenas depessoas se deslocaram até a estação para receber omártir. Dá pra imaginar o empurra, empurra. Aplataforma da estação era pequena e o número de fiéisque queriam ver a imagem de perto e tocá-la eraimenso. Os pais de Aline e Ana, João Luís e Maria Dapaz,levaram as duas pequenas para assistir a solenidade.Cada uma das meninas acompanhadas de suasbazinhas. Mas nada foi como esperado. Naqueleaglomerado, Ana Maria levou um empurrão queprovocou uma queda e machucou-se. Os pais ficarambravos, as duas babás foram repreendidas pelo descuidoe a família retirou-se da festa retornando ao solar. Outra chegada festiva de santo ocorreu em 1950na inauguração da Capela de Santo Amaro construídapelo prefeito, Dr. Jorge Coelho. A imagem de SantoAmaro foi trazida da cidade de Sirinhaém onde ele haviatrabalhado como médico e fora nomeado prefeito em1947. Desta vez o santo veio de carro e a populaçãoesperou a comitiva na entrada da cidade. Ocorreu outro fato muito interessante no finalzinhodo século XIX na estação do trem. Minha avó TrifôniaCoelho (Iaiá) estava presente e me relatou este fato quefoi confirmado por várias pessoas da época dela. Havia chegado à cidade um missionário paracelebrar um evento de alguns dias na matriz de São José.Era um frade simples, humilde, e considerado santo pormuitos. Trajava um hábito bastante surrado e sandálias jádescoloridas pelo uso. Celebrou missas, batizou, oficioucasamentos e, depois de uma semana, voltou para oconvento em Recife.
  17. 17. Como de tradição muitos fieis pertencentes àsdiversas associações formaram um cortejo para levá-loaté a estação onde ele viajaria de trem. Durante todo o trajeto ele se manteve em silêncio.Enquanto aguardava o trem, ficou passeando pelaplataforma e lendo seu breviário. Os fiéis, achandoestranho aquela atitude do frade, começaram acochichar entre si. Foi quando uma senhora doapostolado aproximou-se e perguntou sutilmente o queestava acontecendo. Ele parou de andar de um ladopara outro, guardou o livro na bolsa que estava nobanco da plataforma e, de braços cruzados, batendodelicadamente no chão com a ponta do pé direito ecom um olhar vago para o horizonte, comentou: esta vilanão sabe valorizar um servo do Senhor, não está emsintonia com as coisas da Santa Igreja. “Este lugar não vaipra frente nunca”. Ninguém nunca soube o que realmente ocorreupra constranger o frade durante sua permanência emAmaraji, mas as palavras dele ficaram na mente demuitos por gerações. Não foi praga, pois homens santos que pregam apalavra de Deus não se utilizam disso para com seusdesafetos. Seria o frade um sensitivo, teria ele o dom dapremonição? O fato é que o município de Amaraji, naquelaépoca um dos mais promissores do estado, possuía:sessenta e um engenhos, vários deles banguês os quais,mesmo em fase de decadência, produziam açúcar,melaço e cachaça; as usinas União e Indústria, Cabeçade Negro, Bosque, Bamburral, Aripibu, e, na década de1920, Liberato Marques; a vila de Primavera a vila deCortês com a usina Pedroza. Além disso, políticos fortes
  18. 18. como Dr. Mário Domingues da Silva, deputado e senadordo congresso pernambucano; Dr. Davino dos SantosPontual, também deputado e senador e o comendadorJosé Pereira de Araújo que presidiu o senado do Estadonos anos de 1916-18. Isso sem contar o usineiro eadvogado Carlos de Lima Cavalcanti, natural de Amaraji,que foi interventor federal no Estado. Nas décadas de 1920-30, a cidade de Amarajifigurava como o 14º produtor de cana entre os 84municípios de Pernambuco e entrava nas estatísticasestaduais de produção de banana, mandioca, algodãoe coco. No município havia duas máquinasdescaroçadeiras de algodão e cerca de 250 casas defarinha distribuídas pelos engenhos. O que aconteceu, afinal? Parece até uma “lendaurbana”. Conforme já escrevi uma vez, foram-se asusinas, os engenhos e as casas de farinha, mas ficaram asmatas verdejantes, o rio a correr e “tutta la bona gente”de lá da província. A análise final dos fatos fica a critério de cada um.
  19. 19. - Capítulo 5 - A BORBOLETA VAI À ESCOLA Nos meados do século passado, na pequenacidade de Amaraji, havia apenas duas escolas do ensinoprimário: o Grupo Escolar Dom Luiz de Brito, pertencenteà Secretaria de Educação do Estado e o Instituto CônegoAníbal Santos, escola particular, dirigido pela professoraLourdes Barbosa. Os jovens da elite e parentes daProfessora Lourdes iniciavam seus estudos naqueleInstituto e as demais crianças, na escola do Estado. Oensino supletivo também fora introduzido no final dosanos 40. Funcionava à noite e era destinadoprioritariamente a jovens e adultos que não tinham tidooportunidade de ter sido alfabetizado na infância. O D. Luiz de Brito marcou a vida de todos aquelesque passaram por suas salas. O prédio, de doispavimentos, fora adaptado da antiga cadeia pública domunicípio no final da década de 1940 e recebeu o nomedo primeiro arcebispo a visitar a cidade. Suas carteiras,fabricadas de sucupira, eram ortopedicamentedesconfortáveis; um estudante que fosse mais gordinho,nela se acomodava com bastante dificuldade. Mas jáera uma grande conquista para o setor educacional. Naparte de trás do prédio, onde se localiza o FórumMunicipal, havia uma campina verde que era usadacomo campo de futebol. Dona Maria Nely Gomes de Sá, a primeira diretorado grupo, etariamente idosa, de idéias pré-jurássicas,formação acadêmica paleoliticamente dinossáurica e
  20. 20. métodos pedagógicos bem pessoais, devendo ternascido em mil novecentos e bauzes bauzes, época emque o arco-íris era preto e branco. Segundo a tradição histórica das más línguas, elaera prima distante do Noé da arca e teria sido umaparenta sua muito remota que, após o dilúvio, teriasoltado a pombinha, lá do alto do monte Ararat. Conta-se também que uma de suas tias em grau muito afastadoe há alguns séculos atrás, fora auxiliar de copeira daSanta Ceia; a encarregada de lavar as taças. Baixinha, gorda, descenturada, voz estridente egasguita, trajando sempre saia justa de tecido escuro eblusa clara sobre corpetes pontiagudos, com dois eternosbendengós, na época, chamados de “cachorro-quente”ornando-lhe o penteado. Usava óculos de grau muitoforte numa armação estilo olho de gato. Sua armapedagógica mais presente e sempre às mãos, prontapara ser utilizada, não era a obra de Arnaldo Niskier e simuma sombrinha. Pela quantidade de sombrinhasdanificadas nas costas dos alunos “levados da breca”,acreditava-se que ela as comprava em grosso. Seu rigor administrativo extrapolava toda a noçãomoderna de recursos humanos. O tratamento dado àsoutras mestras era bem glacial e o relacionamento comas duas funcionárias que auxiliavam na administração,dona Maria do Carmo e Maria da Paz, mãe de Aline eAna, não ficava atrás. Só quem estava a salvo de suas sombrinhadas eraRosinha sua filha. Dona Nely e seu esposo eram, naépoca, os únicos que possuíam um veículo na cidade edesfilavam no automóvel de marca ford pelas ruas dacidade aos domingos.
  21. 21. A cada dois meses, geralmente num domingo à tarde,ela visitava seu Ernesto Coelho e dona Iaiá, meus avós,para tomar um cafezinho, fazer uma oração deagradecimento e acender uma velinha para a minúsculaimagem de santo Antônio que dona Iaiá havia herdadode seus avós e que, segundo muitos devotos, concediagraças àqueles que lhe invocassem. Sendo santo Antônioo padroeiro dos casamentos, imaginava-se que ela iaagradecer ao canonizado algo muito especial. Afinalmuitas dezenas de semestres separavam ela de seuesposo, o servidor municipal José de Assunção. As outras mestras da época: Rita de Souza,Bernadete Silva, Nieta Tabosa, Das Dores Teixeira, Isaura eCarmita, Mara Vasconcelos e Salete Coelho, formadaspor último, ensinavam no engenho Garra e na antigaescola rural da cidade. Todas eram um doce de pessoa.Também Abiacy e Neide Lins, formadas bem jovensiniciaram-se no magistério no final dos anos 50. O regimeera de ordem, disciplina e assiduidade. Os instrumentosde tortura: palmatória, caroço de milho e longas horas depé ou ajoelhado versus parede na diretoria e a famosa “sombrinha ” de Dona Nely, que mais se assemelhava aocoelhinho da Mônica. Os livros didáticos: “Vamos Estudar” e “Lili, Lalau eo Lobo.” Na quinta série, a bíblia: “Admissão ao Ginásio.”As aulas transcorriam dentro de uma programaçãocontínua e sempre se tinha algo que fazer. Decorava-sea tabuada, os pontos de geografia e história, e faziam-sedescrições, tendo como tema figuras e paisagens de umálbum ilustrado gigante que era colocado sobre umcavalete na frente dos alunos. Não se tinha outraalternativa: estudava-se e aprendia-se. Com mil perdõesdas “meninas da gre”, a coisa funcionava. Mesmopronunciando Vasingtón, quem decorou e aprendeu queWashington é uma capital, nunca esqueceu.
  22. 22. Outra atividade interessante eram as aulas de trabalhosmanuais. Desenhos, quadros de vidro pintados de preto ecom complementos de papel laminado de um tipo dechocolate em forma de peixinho em várias cores. Haviaainda uns quadros de madeira compensada nos quais sedesenhava algum tipo de paisagem e trabalhava oquadro com uma massa de alvaiade, óleo de linhaça epó secante, formando as figuras em alto relevo. Uma vezseco, pintava-se o trabalho de belas cores. Havia aindatrabalhos feitos em azulejo branco. Colocava-se o azulejosobre a chama de uma vela acesa e quando estavatodo tisnado, desenhava-se alguma figura, retirando oexcesso e tisna preta e deixando o verniz copal escorrersobre a silhueta desenhada. Os colegas de sala: Aline e Ana Costa Gomes,Alzerina Silva, Amara (Lala), Amara e Edite Araújo, AmaraPereira, Antonieta, Aspásio, Francisca e Margarida Carlos,Carlos Alberto, Carlos Eduardo e Cláudio LeonardoVasconcelos, Conceição Silva, Eleusis e DirceuVasconcelos, Enedina (Neném) de seu Delmiro, HelenoAmaro e Zuleide, Amara Hulda e Vicente Ramos, Ivonete,Joaquim (Quincas) Fabrício, Luís (Lula) Benigno, Márcio eMárcia Bandeira de Melo, Maria Celeste, Maria de seuSaul, Neide, Roberto Barbosa, Rômulo Ferraz, Santo eJoão Martins, Sônia e Airton Brito, Sônia e Giselda Santos,Terezinha, Vilma Brito, Wilton. As classes eram multisseriadas. O uniforme eraobrigatório para todos: dos mais carentes, passandopelos emergentes até os de famílias mais afortunadas.Para as meninas, saia azul de pregas, blusa branca coma logomarca da escola no bolso; para os meninos, calçano joelho, camisa branca com as mesmas letras. Sapatospretos e meias brancas para todos.
  23. 23. Não dá para esquecer o final de horário escolardo Grupo. Dona Maria do Carmo tocava a campainha ea professora anunciava que a aula estava terminada.Livros arrumados, alunos de pé, formando fila única emcada sala de aula. Na porta de entrada da escola Dona Nely demãos para trás, uma delas segurando seu inseparávelbibelô, a sombrinha, dizia: - Pode sair a terceira série! ” E os alunos deixavam a sala em fila indiana,marchando em formas de “cobrinha” pelo hall ecantando o hino Ardor do Infante de Castro Alves: Onde vais tu, esbelto infante Com teu fuzil lesto a marchar Cadência certa, o peito arfante Onde vais tu a pelejar? Pra longe eu vou, a Pátria ordena Sigo contente o meu tambor, Cheio de ardor! Cheio de ardor! Pois quando a Pátria nos acena Vive-se só da própria dor. É no combate que o infante é forte vence o perigo despreza a morte. Outras classes iam acompanhando a primeira quehavia iniciado a marcha e, quando o hall estava quasecheio ela batia duas palmas fortes e dizia: - Podem sair! Devagar! Quem correr, eu chamode volta. A essa altura, a diretora postada no portão desaída, já estava segurando a sombrinha em estado de
  24. 24. alerta. Não era permitido sequer pular de dois em doisdegraus da longa escada do grupo. De repente, ouve-seum grito estridente de Dona Nely: - Amaro Cavalcante, volte já aqui! Ele apenasacelerara o passo lá próximo do último degrau. E lá vemo menino cabisbaixo, cenho franzido, e ainda foialcançado de raspão pela sobrinha da diretora aocaminhar para a diretoria. - Ai, dona Nely, doeu! - Cale a boca, seu moleque insubordinado eatrevido, puxe para diretoria e fique de joelhos viradopara a parede. Deve ter saído da diretoria lá pelas duashoras da tarde. A gente esperava com ansiedade as datascomemorativas do ano escolar: carnaval, semana santa,São João, Semana da Pátria, dia da árvore, a visita dainspetora escolar, dona Hilda Brandão e, em dezembro, aentrega dos resultados das provas finais. O dia da pátria era comemorado com muitaalegria e participação da comunidade. Ensaiavam-sedurante muitos dias os passos da marcha, a divisão dospelotões, etc. Seu Luís Soldado era o instrutor. A bandaera composta de um surdo, um tarol e uma caixa e umacorneta que tocava os comandos. Os meninosdisputavam uma vaga na banda, mas quem escolhia erao instrutor. Os ensaios se realizavam no campo de futebol. Aline, muita sabida, mas bastante pequena aindaficava num pé e noutro pra saber onde ia ser o seu lugarno desfile. A bandeira ela não podia carregar. Imagineum pé de vento mais forte: bandeira e porta-bandeiraiam voar pelos céus da província. Aliás, carregar abandeira do Brasil era mesmo que disputar um concurso
  25. 25. de miss. Todos queriam usar luvas brancas pra carregar olábaro nacional. Geralmente o escolhido era algum“peixinho” da diretora ou de alguma professora. Tinha deser um aluno alto, garboso e saber marchar, claro. Fazero esquerda, direita, esquerda, direita, no ritmo certo.Havia também uma estudante mais baixa que, de luvas,marchava à direita do porta-bandeira segurandodelicadamente a ponta da bandeira. O desfile saia da frente do grupo e dirigia-se até oprédio da prefeitura para a solenidade especial dehasteamento da bandeira, discursos e uma demoradahora de arte. A borboleta que já havia passado o mêsmexendo com os pauzinhos, conseguiu abrir o desfile,marchando na frente da bandeira com luvas brancas euma faixa auriverde. Sem contar que foi uma dasoradoras na prefeitura e, de quebra, ainda declamouuma poesia. E, claro, com todos aqueles aplausos, a filhade J.L. e dona Dapaz, desceu as escadas do PaçoMunicipal e dirigiu-se ao seu lugar no desfile com aquele“oco patriótico”. E o desfile continuou pelas ruas e praçasda cidade até retornar ao ponto de saída. Depois dasolenidade, o lanche patrocinado pela escola e pelaprefeitura municipal. Naquele momento, todo mundoamava Dom Pedro II, o rio Ipiranga e o bradoretumbante. A comemoração do dia da árvore era outrasolenidade muito esperada. Naquela data, professores ealunos dirigiam-se ao campo de aviação, o campo depouso da cidade, para o plantio de árvores. O ambienteera verde e bucólico; de um lado a mata das Três Bacias,do outro, as matas da ladeira de Riachão, e, por trás, asmatas de Sete Ranchos e engenhos circunvizinhos.Cânticos, declamações, discursos e, na volta, aquelagostosa salada de frutas. Esta música de Arnaldo Barreto
  26. 26. era cantada, tradicionalmente, enquanto as árvoreseram plantadas: Cavemos a terra, plantemos nossa árvore, Que amiga e bondosa ela aqui nos será! Um dia, ao voltarmos pedindo-lhe abrigo, ou flores, ou frutos, ou sombras dará! O céu generoso nos regue esta planta; o Sol de dezembro lhe dê seu calor; a terra, que é boa, lhe firme as raízes e tenham as folhas frescuras e verdor! Plantemos nossa árvore, que a árvore amiga seus ramos frondosos aqui abrirá, Um dia, ao voltarmos, em busca de flores, com as flores, bons frutos e sombra dará O céu generoso nos regue esta planta; o Sol de dezembro lhe dê seu calor; a terra, que é boa, lhe firme as raízes e tenham as folhas frescuras e verdor! As alunas mais velhas apresentaram sketches,poesias e cânticos. Professoras também participavamativamente. No final da solenidade, a diretora franqueoua palavra, com a tradicional pergunta: alguém quer fazeruso da palavra ou apresentar alguma atividade? Não épreciso dizer que alguém lá de trás, com os cabelosdesalinhados pelo vento forte, o rosto avermelhado como calor do sol respondeu quase gritando: - Claro que eu quero, dona Nely. Preparei umapoesia que está na ponta da língua.
  27. 27. - Pronto, lá vai aquela baixinha metida de novo,reclamou uma menina no meio da turma. - Deixa de ser invejosa, Severina, pior é você quenão sabe apresentar nada. Só pensa em encher abarriga com salada. - E apoi, mulé, tô me acabando de fome. Eu nemtomei café direito pensando na salada de fruta. As tripasestão quase brigando no meu bucho. - Mas você é muito ignorante mesmo, nossa,como é que pensa em se formar, casar ter filhos e educá-los? - E quem disse que estou pensando em nadadisso, eu vou é fugir com trapezista do circo. Já tá tudoacertado. E ai de você se contar a mãe, dou-lhe umapisa de lascar. E Isabel saiu de perto da colega horrorizada comtanta ignorância e irresponsabilidade. A essa altura, Aline já estava posicionada nopequeno palco improvisado. Dona Nely, já perdendo apaciência, mandava os alunos calar a boca, osprofessores se abanavam com os cadernos, o calor eraescaldante. - Pode começar a declamação, Aline, comandoua diretora que suava às bicas e enxugava o rosto e opescoço gorducho com um minúsculo lencinho de linho: - Senhores professores, prezados alunos, a poesiaque vou apresentar é da autoria de Raul Aroeira Serrano.E começou:
  28. 28. A Árvore "Criança, a árvore merece A nossa estima sincera Dá frutos doces no outono E flores na primavera. Nunca maltrates uma árvore A quem tudo nós devemos Desde a madeira da porta Ao lápis com que escrevemos. Na sombra da árvore amiga Pensa bem no teu destino Pois dela foi feito O teu berço pequenino." Terminada a apresentação, muitos aplausos,palmas e alguns apitos e assovios de alguns alunos. DonaNely, olhando inquisidoramente para os responsáveispelos apitos e assovios, quase que histérica, gritou: - Se não acabarem com a baderna e a falta deeducação, eu acabo com a salada e o lanche e aindadeixo vocês até às três horas na diretoria. Santo remédio. Um silêncio sepulcral reinoudurante todo o trajeto, desde o campo, até a escola.Formou-se a fila da merenda e foi distribuída uma saladade frutas, biscoitos e bastante ponche de laranja. Havia sempre algum estudante meio abusadoque tentava furar a fila ou, simplesmente, se servir mais deuma vez. Dona Nely, porém, estava de plantãopermanente distribuindo cascudos, puxões de orelhas e
  29. 29. “muxicões” nos mais alvoroçados. Nada lhe escapava.Lá pelas duas da tarde, os alunos começaram a deixar aescola. A diretora estava tão absorta em manter adisciplina no interior do prédio que nem notou a correriae bagunça de alguns alunos pela escada de saída dogrupo. Amaraji, na época, apesar de ser uma minúsculacidade da zona da mata sul possuía um campo de pousopara aviões de muito pequeno porte. Era o único daregião. Uma curiosidade a respeito do campo de pouso.Ele foi construído no início da década de 1950 na gestãodo prefeito Dr. Jorge Coelho da Silveira. No dia da festada inauguração, toda a população da cidade dirigiu-separa o local do evento para ver a descida de um aviãomonomotor, na época, chamado de “teco-teco”.Algumas autoridades da cidade foram convidadas pelopiloto para um pequeno voo. Dona Toinha Coelho,esposa do secretário da prefeitura, cheia de euforia,candidatou-se para um pequeno tour sobre a cidade.Quando tentou subir na aeronave, pra sua grandedecepção, não conseguiu passar pela porta e quaseque fica presa. Ela era meio “fortinha”. Frustrada, desistiue a multidão que presenciou a cena não pode conter oriso que não foi nem um pouco discreto. Aline e suas colegas, pra lá e pra cá, loucas porum convite pra subir aeronave, mas é claro que aquilonão era nenhuma canoa ou jaú de parque de diversões.Só pra os adultos que fossem autoridades. Paciência,Aline, um dia você cresce, perdão, fica com mais idadee vai poder fazer tudo isso, voar à vontade.
  30. 30. - Capítulo 4 - SÓ DANÇO SE EU FOR MESTRA, EXIGIU ABORBOLETA A primeira infância da pequenina Aline, bembaixinha, cintura roliça, bochechinhas acentuadas e jáusando seus óculos miudinhos no estilo olho de gato, foipassada no solar da Rua 15 de Novembro, sob os olharesatentos e cuidadosos da dileta mamãe, da secretariaMery, substituta de Ivanise, e dos bons vizinhos: seuCorocochô, do “hotel estrela única” da esquina; seuLuizinho, alfaiate, e dona Terezinha; dona Maria doCarmo; seu Eurico, Corina e Corinto; dona Elvira Fontes eMaria Andrade (Neném, a guardiã da família); seuAvelino da padaria; seu Mário Telegrafista, dona Áurea eAurinha; seu Zé Goiana e dona Laura; seu Manoel Firminochefe do clã dos Amaros e Amaras Silveira; os fervorososcrentes da Igreja Batista; dona Olindina, Permínia eClaudionor; dona Toinha e as tias Zezé e Santinha, eAlaíde Brito da vendinha da esquina. O dia a dia na província era mais ou menoscorriqueiro. Pela manhã, as aulas no Grupo Escolar DomLuiz de Brito, à tarde, os deveres escolares de casa, cujasdúvidas eram tiradas com as mestras Bernadete e Rita,hóspedes do hotel. À tardezinha, auxiliadas por Mery, elas seaprontavam, penteando os cabelos cortados à modacapelinha, que eram presos por diademas de galalite ouligeiras largas, vestidinhos de organdi bordados de crivoou ponto de cruz, com faixa de tafetá na cintura e
  31. 31. sapatinhos de pulseira, impecavelmente polidos por seuJoão Engraxate. Depois de prontas, as duas sentavam-se nacalçada, saboreando os deliciosos pãezinhos da padariade seu Alcides, recheados de manteiga e açúcar,gentilmente preparados pela bondosa Mery. Assim, asduas manas esperavam o retorno da mamãe, quepassava o dia trabalhando no Grupo Escolar. À noite, em frente ao solar, as manas Aline e Anae as amigas Denise, Lourdes Alves, Elêusis, Cleide daBorboleta, Maria Ângela e outras coleguinhas, brincavamde roda, de pega, de academia, de manja, barra-bandeira, boca de forno ou de esconder. De longe se escutavam os sons das cantorias: “Pai Francisco entrou na roda...” ou “Samba Lelê, tá doente, tá com a cabeçalascada.. .” ou “Apareceu a Margarida, olê, olê, olâ...”, ou ainda “Boca de forno! Forno! Tirando o bolo! Bolo!...” Quando não corriam na rua, simplesmentesentavam-se na calçada, brincando de anel, contandoestórias ou arrepiando-se de medo, ao falar sobre a“Comadre Florzinha”, o “Pantel” da mata ou o últimocapítulo do Mistério do Além. Às vezes, comentavam sobre algum estranho quehavia aparecido na rua de mochila nas costas e malencarado. Será que não era o “papa-figo” mandadopelos Amorim da capital para pegar criancinhas earrancar-lhes o fígado, paliativo para aquela doençahorrível que fazia suas orelhas crescerem?
  32. 32. Em dias de chuva, reuniam-se em torno de donaQuinquina, mãe de Maria Andrade, para ouvirem,atentas, as estórias de Trancoso, narradas pela bondosavelhinha. De vez em quando, em torno das oito horas,escutava-se a voz de dona Elvira que gritava: - Denise, está na hora da novela, venha prá casa! Ninguém perdia o horário de “O Direito deNascer” e todas suspiravam com Albertinho Limonta eIsabel Cristina, seus amores e desventuras. Em outras ocasiões, era Maria Andrade queaparecia perguntando: - Oh, Aline e Ana, vocês já fizeram o dever decasa? E a poesia da hora de arte, Aline? Já decoroutoda? Quando Aline chegava atrasadas à brincadeira,significava que estava escutando o Repórter Esso. Mesmosem entender tudo ainda, adorava uma notícia. Uma ocasião ela atrasou-se uma meia hora. Asoutras coleguinhas que já se sentavam na calçada einiciavam a brincadeira do anel, estranharam a ausênciada baixinha. De repente lá vem a menina respirandocom dificuldade, erguendo os ombros, com os olhosmarejando. As amigas ficaram preocupadas e Deniseaproximando-se perguntou curiosa: - Que é isso, Aline, você está com puxado? AveMaria, será que isso pega? Aline, enraivecida, respondeu irritada: - Deixe de ser lesa! Que puxado, que nada? Estoucom uma crise de asma alérgica.
  33. 33. As outras colegas havia se aproximado ecercavam, receosas, a pequena enferma. Denisecontinuou insistente: - É não, isso é puxado. Eu vi o menino de BauAmaro lá em Estivas, impando desse mesmo jeito, e erapuxado. E a menina foi se irritando mais ainda. - Vamos perguntar a mamãe? Nesse momento, Maria Andrade ia passando.Aline, cada vez mais brava, gritou: - Oh, Neném, isso que eu tenho não é uma asmaalérgica? E Maria Andrade, sem dar muita atenção,abanando a saia, respondeu: - Sei lá, Aline, é uma dessas coisas mesmo. Masvocê devia era estar dentro de casa agasalhada porcausa da frieza. Entre logo, vamos. - Oh, Dapaz ... Aline vestiu um agasalho e teimosa como ela só,ainda voltou para a prosa. O assunto da noite foi a brigado padre. O vigário da paróquia de origem holandesa foraavisado de que dona Serafina, uma viúva muito devota emembro do apostolado da oração, estava se ultimando.Decidiu, então, fazer uma visita à enferma para confessá-la e dar a santa extrema unção. Seus familiares eramevangélicos. Na porta da residência da enferma foibarrado pelos parentes da moribunda que não queriamsua presença. O reverendo muito bravo e muitorevoltado e com a rudez flamenga à flor da pele, não
  34. 34. teve a menor dúvida; saiu empurrando todo mundo queestava em sua frente, chegou até o quarto daagonizante e, mui calmamente, fez sua orações. Asmeninas comentavam com orgulho a atitude do padre. De repente, duas das meninas do grupocomeçaram a cochichar e rir o que chamou a atençãodo restante do grupo. - Que cochicho é esse? Grande falta deeducação, reclamou Aline. - Você não pode saber, Aline, é muito criançaainda. - Essa não, apartou Ana Maria tomando as dores.O que? Aline não tem nada de criança, ele é muitointeligente e sabida. - Depois de muita adulação ficaram sabendo queuma das garotas mais velhas do cochichado havia “sidomoça” recentemente. Foi uma festa, todo mundo queriasaber os mínimos detalhes do acontecimento. Mas nemtodas concordaram com aquele tipo de conversa. - Ave Maria, isso é conversa de moça direita,minha gente. Já pensou se a chefe da cruzada sabe quevocês estão falando disso? Não quero nem pensar... Muitas vezes a brincadeira se estendia até depoisdas nove, quando as pequenas infantes começavam aretornar a seus lares, pois às 22 horas em ponto, Corinto,encarregado do motor que fornecia energia elétricapara a cidade, dava o sinal, fazendo as lâmpadaspiscarem três vezes e, em seguida, as luzes eramdesligadas. Vinte e duas e trinta, luzes apagadas, grilos esapos se orquestrando, a província se entregava aos
  35. 35. braços de Morfeu. Durante a noite, o máximo que podiaacontecer, era alguma moçoila noiva ou comprometida,ser roubada pelo pretendente, evitando, com essa fuga,as despesas do casamento. E nessa tranqüilidade paradisíaca, o anotranscorria e chegava o mês de dezembro com seusfestejos natalinos e folclóricos. O pastoril religioso era umdeles. Era um acontecimento que movimentava toda acomunidade provinciana. Papais e mamães torciampara que suas filhas pequenas fossem escolhidas parafazer parte do evento organizado por algumas jovens esenhoras da comunidade católica. Afinal, tudo tinha desair perfeito para as pessoas que participavam e torciampelo “encarnado” ou “azul”, comprassem muitos lacinhosde fita de sua cor preferida para ajudar a vencer ocordão escolhido, no qual, normalmente dançava umade suas filhas. A renda era destinada as obras paroquiais. Usando vestidos confeccionados de papelcrepon, saias rodadas, muita areia prateada ornando asorlas dos babados franzidos e fitas da cor do partido queenfeitavam a indumentária. Os pandeiros, enfeitados defitas das duas cores, ajudavam a marcar o ritmo dadança. Era uma trabalheira a sua confecção. Assenhoras Belisa Rolin, Sônia Dantas, Salete Coelho eDasdores, entre outras, eram as encarregadas do eventofolclórico. Rômulo Barbosa, sempre no comando daanimação, fazia a platéia ir ao delírio aos gritos de: azul,azul, azul, ou encarnado, encarnado, ou o taxativo jáganhou. Era um verdadeiro leilão de venda de lacinhos,para a alegria geral das pastorinhas. A pequena Aline já chegando aos oito anos foiconvidada para fazer parte do tradicional festejo. Pela
  36. 36. sua estatura “mignon”, e para que se cumprisse aprevisão de seu João Severo no dia de seu nascimento,ela deveria ficar balançando as asinhas em volta daspastoras, no papel da borboleta. No dia da reunião para escolha das pastoras e dopersonagem de cada uma no evento, o papel daborboleta ficou para ela, claro. Pelo seu tipo, sua altura,ia ser a borboleta mais qualificada dos últimos tempos. Mas, de personalidade forte que tinha, já desdecriança, a menina embirrou, emperrou fez ver que só seapresentaria se lhe dessem o papel da “mestra”.Nenhuma das promotoras do pastoril conseguiaconvencê-la do contrário. A reunião parou e ninguémsabia o que fazer. Dasdores Teixeira, com muita calma e delicadeza,tentou convencer a pequena pastorinha: - Olhe, Aline, você vai ficar uma gracinha deborboleta. A saia franzidinha, as asinhas douradas e assapatilhas também. Já pensou, Dapaz vai lhe achar linda.Ainda vamos colocar uma coroa de pedrinhas em suacabeça. Vai ficar parecendo uma rainha, não émeninas? E as outras pastorinhas responderam em coro: - É, dona Dasdores. A essa altura ela já tinha se levantado, ido parafrente do grupo com passadas largas, firmes edeterminadas e com uma das mãos na cintura e o dedoda outra mão apontando para as senhoras, bateu o pé efalou em tom decidido e definitivo:
  37. 37. - De jeito nenhum, se eu não for a mestra, nãodanço, pronto! Podem arranjar outra borboleta que euestou indo embora. E a baixinha deu dois sopapinhos na cabeça,ajeitou o franzido da saia e encarou as organizadorasuma a uma. Em seguida, deu meia volta, apanhou seuchale minúsculo e caminhou em direção à saída dosalão paroquial. Dona Sônia Dantas tentou argumentar, masquando sentiu o olhar de desafio da quase borboleta,calou-se e comentou baixinho: - É melhor não insistir, Dasdores, deixa ela ser amestra e Denise fica sendo a borboleta. E agora, quemvai avisar a ela? E Dasdores saiu apressada alcançando a meninaque já estava passando ao lado do bilhar de seu Aristeu. - Oh, Aline, um momento, por favor, exclamouDasdores. Ela virou-se e já se sentiu vencedora. - Escute, Aline, o pessoal resolveu que você vai sera borboleta. Vamos voltar para o salão e agradeça adona Sônia, pois foi ela quem decidiu. O que? Eu mesma não. Ela queria que a mestrafosse a filha de dona Minervina. Só porque ela é maior doque eu e já tem busto, é? Grande coisa, eu sou pequena,mas canto muito melhor do que ela. E assim ela voltou para o salão e terminou deassistir a reunião. Na volta para casa, uma das colegas falou, tu épeia, não é, Aline? Consegue tudo que quer...
  38. 38. Pois é, e você acha que ia ficar balançandoasinhas pra lá e pra cá, eu mesma não. Está pensandoque eu sou zig-zag, é? Ora, pinóia! E nos primeiros dias de dezembro, depois demuitos ensaios, o pastoril começou a se apresentar nopalanque construído em frente ao salão paroquial. E lá se foi Aline triunfante, puxando o cordãoencarnado. O seu fã clube era imenso. Vinha atétorcedores da vizinha Caracituba. Seu padrinho João Itoe o jovem Luiz Jacinto. Maria Andrade, a mamãe Dapaze Mery eram do mesmo modo, torcedoras exaltadas, semcontar dona Bernadete Silva, sua professora. DeniseFontes foi por muito tempo, a detentora das asinhas daborboleta. E quando a apresentação começava echegava a vez da mestra, a voz da menina ecoava pelapraça: Boa noite meu senhores todos, Boa noite senhoras também, Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Sou a mestra do cordão encarnado, O meu cordão eu sei dominar, Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários peço proteção. Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários, peço proteção. - Mas a mestra canta demais, comentava MariaJoaquina. É verdade, a filha de dona Dapaz canta quenem um passarinho, comentou Durrei.
  39. 39. E a festa prosseguia noite afora até o final daapresentação, com muitos gritos e palmas dos partidáriosdo cordão azul e do cordão encarnado. Depois, a troca de roupa, os parabéns e a alegriados familiares e amigos e a “mestra” mal cabia em si decontente. Estava bestinha, não tirava o sorriso da boca e,de vez em quando, davas umas piscadinhas maisagitadas. O vigário apareceu e dona Belisa passou para elea renda da noite. Tinham conseguido vender muitoslacinhos. Dasdores havia preparado um lanche e lá seforam os participantes do show tomar guaraná FratelliVita com sanduíches de pão com carne enlatada ebolinhos de bacia. Era uma alegria só. Cada uma que de se exibissemais. E a mestra já se imaginava, no próximo ano, indo seapresentar na usina Nossa Senhora do Carmo e emBonfim.
  40. 40. - Capítulo 3 - A PRIMEIRA INFÂNCIA E SEU “DÉBUT” CATÓLICO Os primeiros anos da infância da mini “ninha”foram dentro da normalidade. Ela havia perdido o pai, J.L., quando tinha dois anos de idade. A mamãe Dapaz foiuma grande guerreira e batalhou muito para criar eeducar as duas manas. Trabalhou no comércio e depoisfoi contratada pela Secretaria de Educação para prestarserviços no Grupo Dom Luiz de Brito. As festinhas de aniversário ficavam restritas aosprimos e amiguinhos mais próximos da família, sem muitabadalação. Mesmo depois de um dia de trabalho na lojade tecidos e miudezas “A Borboleta”, Dapaz aindaencontrava tempo para ensinar as primeiras letras àsduas meninas. Aline, aos quatro anos de idade, já haviaaprendido a ler as primeiras palavras e, mais tarde,quando se matriculou no Grupo Escolar para estudar aprimeira série primária com a professora Maria Bernadeteda Silva, já estava alfabetizada. Ela idolatrava a mestra.Ainda hoje, ela lembra a fragrância do perfume usadopor ela. Olha a profecia de sinhá Fronina se realizando. Dona Bernadete era de Caruaru. Uma jovem depele clara, olhos esverdeados, cabelos encaracolados,extremamente paciente e dedicada aos alunos. Ela erahóspede de Hotel de Seu Corocochô, que ficavalocalizado no local onde, hoje, existe o supermercado daPraça Pereira de Araújo. Lembro da professora, pois euestudava na mesma turma.
  41. 41. Naquela época, o sonho de muitas famíliascatólicas era ter um padre ou uma freira na família.Aqueles que não conseguiam tal “benção”, ficavamconformados com a “dádiva dos céus”, se uma de suasfilhas pequenas pudessem participar da coroação deNossa Senhora no último dia do mês maio. Aos oito anos de idade, como filha de toda boafamília cristã, a ainda pequenina Aline, foi convidadapelo vigário para coroar Nossa Senhora, naqueleinesquecível dia 31 de maio. Ela era detentora dascaracterísticas exigidas pela tradição da igreja e possuíao perfil perfeito para colocar a coroa sobre a cabeça daVirgem. Cor branca, cabelos claros, e voz maviosa. Naépoca, ninguém deu muita atenção ao fato, mas nuncauma menina de cor “morena” ou afro-descendentelegítima, foi escolhida para coroar a santa. Preconceito?Não, apenas “tradição” da igreja. Os anjos do céutinham a pele branca desde a criação. E assim, a borboletinha foi escolhida paraparticipar daquele evento tão disputado pelas meninasde sua idade. Seria o seu “début” católico na sociedadeinfantil da Igreja. O ato litúrgico exigia toda uma preparação. Elafoi auxiliada por Santinha Silveira, responsável pelaCruzada Eucarística e com o assessoramento daprofessora Belisa Rolin, Sabina Andrade, do Apostoladoda Oração, da professora Dasdores Teixeira e de MariaJoaquina. Os noiteiros, famílias encarregadas da decoraçãoda igreja e da organização geral da festa doencerramento do mês de maio, eram: seu Raul e donaLourdes do engenho Riachão do Sul; seu Bequinho doengenho Sete Ranchos e a família de seu Luiz Dubeux da
  42. 42. Usina Bonfim. Já à tarde, a pequena coroante e demaiscolegas de solenidade, após participar do ensaio finalcom o coro, ajudavam na decoração do altar,fabricando buchas de papoula para a incrustação decravos e céssias em forma de meias guirlandas que eramcolocadas em todos os recantos da matriz. Os castiçaiseram polidos e longos brandões de espermacete nelescolocados. Feita a limpeza final da igreja, espalhavam-sefolhas de canela e eucalipto pelo chão para que oambiente ficasse naturalmente aromatizado. Durante o ensaio, A solenidade religiosa era preparada combastante antecedência, desde o ensaio dos cânticos atéo da coroação propriamente dita. No coro da igreja, oshinos, cantados em latim, estavam sob o comando daorganista Ivone Oliveira que era coadjuvada pelascantoras Teresinha, Dos Anjos, Agenilda e Quiterinha,entre outras. Na ocasião, encontrava-se na cidade ummissionário alemão, responsável pela celebração dasolenidade, enquanto o cura local, Padre José,acompanhava os cânticos com o violino. O altar de nossa senhora fartamente decorado debranco e azul, reunia um verdadeiro séquito de acólitos,solenemente paramentados de vermelho, com seusroquetes impecavelmente brancos, além de uma dúziade anjinhos espalhados por toda parte. Integrava a cortede celeste: Ana Maria, irmã da coroante, Denise Fontes,Cleide da Borboleta, Eleuses Vasconcelos, Neném de seuBelmiro, entre outras. E após a ladainha, o magnificat e acoroação propriamente dita. A pequena “anjinha” trajando uma túnica longade laquê branco, ornada de galões dourados; portandoum par de asas brancas nas costas e uma coroa de flores
  43. 43. claras na cabeça, um pouco de carmim nas bochechase uma leve sombra de batom nos lábios era elevadadelicadamente por um dos fiéis e colocada no suporteque ficava ao lado da santa. A mamãe, do lado debaixo do suporte, olhava ansiosa e repetidamente paracima, receosa de que a garotinha pudesse escorregar.Silêncio sepulcral no adro da matriz. O missionárioteutônico elevava a voz de barítono e dizia: - Caríssimos irmaos, agôra vamos iniciarr acoroaçon de Nôssa Senhôra. Do alto do coro, a organista dedilhava unsacordes da melodia na velha sarafina e o público,atento, dirigia os olhares para o altar da virgem. O coroiniciava a solenidade, cantando a primeira estrofe daconhecida música. Aí, então, a pequena cantora comvoz um pouco tímida, mas bastante firme cantava asegunda: “Virgem recebe esta coroa, Que te oferece o nosso amor, Seja do céu, ó mãe tão boa, Pra todo nós feliz penhor”. O coro apresentava a segunda estrofe e agarotinha prosseguia com a última parte, desta vez, jábastante desenvolta e dona da situação: “Aceitai esta coroa, Virgem santa mãe querida, Para que seja a rainha. O penhor de eterna vida.” Ao tempo em que entoava os versos do hino, suamão direita ia aos poucos erguendo a coroa de NossaSenhora até a mesma ser depositada sobre a cabeça da
  44. 44. santa. Naquele momento, o vigário bradava vivas àsanta, a São José, à igreja, ao papa, etc. A essa altura, a coroante já havia concluído suamissão, e estava sendo conduzida para baixo do suporte,quando se ouviu um grito: - Cuidado com o “barandão”! Vai queimar a asado anjo! Era a voz aflita e estridente de Maria Joaquina,uma beata, membro da Pia União das Filhas de Maria, Mas nada de mais grave aconteceu. A asinha dacoroante foi levemente chamuscada pela chama de umbrandão, no momento em que seu José Fiel trazia amenina para baixo. Todos respiraram aliviados,principalmente a mamãe que ainda olhou apreensivapara a asinha atingida pela chama. - Cadê meus óculos? Não estou enxergandonada. Questionou a menina. - Está aqui, Aline, apressou-se a mãe. E a coroante, já refeita do susto, colocou os óculosde armação estilo olho de gato e foi cercada por todoum pelotão de coleguinhas aladas, que seacotovelaram, hilariantes, barulhentas e quase histéricasem torno da pequena “star”, elogiando sua atuação.Muitas delas já fazendo planos para ser a sucessora dacoroante no próximo ano. Frei Johann Werner, ocelebrante, olhava de lado para os anjos e meioimpaciente repetia: - Silência, meninos, a coroaçon ainda non acabar,silência! Naquele instante, o vigário parou o solo de violinoe do alto do coro bateu palmas três vezes com força esibilou aquele conhecido:
  45. 45. - “Pixiiiiiiit”. Funcionou: anjos, arcanjos e querubinsse reorganizaram em seus lugares e mais uma vez a corteceleste estava em ordem. O frade terminou a solenidade, abençoando ospresentes e ajudantes, acólitos e anjos posicionaram-seem fila dupla para retornar à sacristia. Começanovamente a barulheira de anjos e ajudantes. Mais umavez o Padre José entra em cena, determinando que asbatinas e roquetes fossem guardados nos armários, asasas e túnicas dos anjos nas caixas. Em seguida,agradeceu a colaboração de todos e desejou que nopróximo ano a solenidade tivesse o mesmo brilho. Coroar a santa era como “concurso de miss”. Sóacontecia uma vez na vida de uma criança e a mãeestava sempre por perto com medo que garotinhadespencasse do suporte ou alguma vela pudesseincendiar suas asinhas. Coroar a santa era como “concurso de miss”. Sóacontecia uma vez na vida de uma criança e a mãe e osparentes e uma verdadeira equipe de assessoresestavam sempre por perto com medo que garotinhadespencasse do suporte ou alguma vela pudesseincendiar suas asinhas. Foram muitas as garotinhas da cidade queparticiparam daquele evento tão significativo. Algumasduas ou três vezes, como é o caso de Alice Batista e RitaMoraes. Em cada nova coroação ocorriamparticularidades interessantes com as participantes. Alice Batista participou três vezes. Na últimacoroação, logo pela manhã, seu Baixa, compadre deZezito, passou em sua casa e comentou:
  46. 46. - Mas cumpade Zito, tem um tatu do tamanho deum bacurinho lá na mata das Três Bacias. E nos vaidesintocá-lo hoje. Se prepare que a turma vai sair denove da noite. - Não vou poder ir, compadre Baixa. Hoje é 31 demaio e minha menina vai coroar Nossa Senhora. - Oxente, cumpade, e a santa num já tá tem umacoroa? - Compadre, pelo visto você não entende muitode igreja, não! A caçada fica pra outra oportunidade. - De quarque forma, eu lhe trago uma banda dotatu, cumpade. Inté. E a noite de Alice, mais uma vez foi de alegria esucesso, com a presença de toda a família: tio Beca, tioNivaldo, sem contar os primos que vieram de Recife. Tudoindica que foi ela quem primeiro ficou sobre os livros daigreja que eram colocados no suporte para aumentar aaltura da coroante. Três vezes, quase que fica vitalícia. Teresa Mota, com seu riso muito alegre e openteado de longos cachos negros, também foi anjocoroante. No ano em que ela participou, toda a famíliaestava presente. Seu Mota avisou logo cedo aos clientesdo Bar dos Motoristas: - Hoje o bar só funciona até às seis da noite. Vouassistir a coroação de Nossa Senhora. A família Moraes foi campeã de participantes. Ritae Bel Moraes, esta segurava o livro e Rita cantava ecoroava. Certa ocasião, de última hora, Salete recebeuum recado para preparar Rita, pois a menina escolhidaestava com medo de subir no suporte. Ela já tinha umtraje de anjo preparado no armário. E rapidamente as
  47. 47. duas subiram a rua em direção da igreja. Por sinal, RitaMoraes, além de coroar a santa muitas vezes, era anjo detodas as procissões e daminha de honra de muitoscasamentos. A primeira vez que Rita participou a emoção dafamília foi muito grande. O evento caiu num sábado diade feira. Valdo liberou os funcionários da padaria parairem a igreja assistir a coroação. Deixou apenas umcuidando de uma fornada de pão. Zezinho encostou aporta do estabelecimento e foi dar um “olhadinha” lá daporta da igreja. Demorou e quando voltou o pão tinhaqueimado. Tudo bem, o patrão relevou o prejuízo emnome de Nossa Senhora. É claro que com tantas pessoasda família participando do evento, ele não poderiafechar a padaria cada vez; a população ficaria sem pãosem contar com o lado financeiro. Verônica e Valéria Moraes seguiram a tradição.Danielle e Leila Moraes também participaram do evento.Dona Elvira, radiante, ao lado de Denise e Dedé e dosoutros irmãos. Mas a festa de último dia de maio não parava poraí. No final da solenidade a apresentação do showpirotécnico: girândolas barulhentas, fogos de lágrimas,etc., todo aquele espetáculo, comandado por seu JoãoBracinho. O auge do espetáculo era a soltura dosfamosos balões de Seu Né Coelho. A subida daquelesartefatos coloridos e iluminados fazia a alegria dagarotada. Ainda na calçada, alguns políticos locais seacercavam de seu Luiz Dubeux, um dos donos da usinaBom Fim, tentando puxar conversa e solicitando dele queo trenzinho de passageiros passasse a trafegardiariamente, em vez de apenas três vezes por semana.
  48. 48. Dona Lourdes Araújo, responsável pelas flores dadecoração da igreja, cercada por meia dúzia desenhoras que se desmanchavam em elogios e pediammudinhas de rosas e outras variedades para seus jardins.Seu Bequinho, com aspirações políticas para o futuro,cumprimentava a todos, esbanjando simpatia. O padre José e o Frei Werner passam pelos meioda multidão em direção à casa paroquial. Seu NéCoelho, o fabricante de balões, anuncia a subida doúltimo da noite. Um enorme balão de papel de sedamulticolorido. Precisa da ajuda de várias pessoas parasegurá-lo e atear fogo na bucha. O balão subiu e amultidão acompanhou com os olhos até o seudesaparecimento no firmamento. Naquela época, soltar balões não era ilegal nempoliticamente incorreto. A cidade era cercada de matasverdes e úmidas. O inverno, muito rigoroso e, no mês demaio, as chuvas eram intensas. Quando os balõesentravam em combustão e caiam, suas chamas eramapagadas pela umidade do solo ou simplesmente erammolhados pela neblina permanente do inverno. São os bons tempos que não voltam mais; hoje, sóna foto e na “telinha da TV”. Quem, entretanto, viveuaqueles momentos, conserva na memória para sempre.
  49. 49. - Capítulo 2 - O BATIZADO DA BORBOLETA Naqueles velhos tempos, a religião católica quepretendia ser a única, era levada muito a sério. Ou se eracatólico ou crente e, estes, nunca eram bem aceitosentre os membros da santa madre igreja. A segregação ediscriminação eram explícitas e tinha a aprovação geralde todos. Havia até uns mais radicais que apelidavam osnão seguidores do Vaticano de “bodes”. E é claro que nahora das compras básicas o bom católico não ia buscaro pão da tarde na padaria do irmão Joab ou comprarrendas e bicos na lojinha da irmã Midiã. E foi nesse ambiente de Irlanda do Norte semarsenal bélico que, novinha ainda, a pequenina miniAline foi levada à Pia Batismal, por seus zelosos pais,guardiães da fé cristã. Na época do batizado, a família havia mudadode residência e estava habitando uma ampla casa, estilosolar, na Rua 13 de Maio. Quebrando uma tradição da época, os pais deAline não tiraram o nome da criança da folhinha denomes de santos. Seu nome tem a seguinte origem.Maria, por que a menina havia nascido laçada e, casonão lhe fosse dado aquele nome, ela poderia vir a morrerqueimada. Quanto à Aline, originou-se de um desejo damamãe, quando estava grávida da pequena. Dapazsentiu desejos de comer goiabas e juntamente com J. L.dirigiu-se à casa de seu Né Coelho e dona Toinha, onde
  50. 50. frutificavam as melhores goiabas da região. Narealidade, não era época da fruta e todos, olhandoansiosos para os galhos mais altos da goiabeira,começaram a procurar uma frutinha por pequena quefosse. De repente, papai João Luiz exclamou eufórico eentusiasmado: - “Ali, Né”, tem uma goiaba madura! Foi daquela exclamação que a mamãe Dapaz,além de obter a fruto do seu desejo de gestante,conseguiu uma boa inspiração para colocar o segundonome do futuro rebento: Aline. Este fato desconhecidode muitos, foi fruto de longa pesquisa da estudiosa degenealogia e heráldica, Leda Maria. Os padrinhos da garotinha, escolhidos entreamigos próximos, moravam no vizinho distrito deCaracituba, futura cidade de Primavera de SantoAntônio. Seu José Rocha e dona Nina, juntamente com ojovem Luiz Jacinto e outros convidados, vieram de “carrode linha”, gentilmente cedido por seu Frederico Dubeux.Padre Clodoaldo oficiou a liturgia, colocando os sais e ossantos óleos e vertendo a água benta sobre as lourasmadeixas da garotinha, que se esganava de tanto gritar,sem contar que, dona Nina sua madrinha, quase quedeixa a pequena se afogar na pia batismal, não fosse orápido auxílio de Cila Rodrigues que ajudou a segurá-la. Aneo batizanda tinha seis meses de idade e já pesavadoze quilos e meio. Todos os presentes elogiavam o timãobranco, decorado de renda francesa e lacinhos cor-de-rosa, obra-prima de dona Elvira Fontes, a mais famosamodista da cidade. Era dia de festa no solar de J. L. e Dapaz. Umgrande almoço, com aquele cardápio regional:buchada, cabidela, peru assado, fritada, bolo de milho,
  51. 51. pé-de-moleque, manuê, grude de goma, ponches delimão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as“chupetas de açúcar” de seu Heleno para a criançada. Na cozinha, aquele exército de comadres eafilhadas: dona Severina Cavalcanti, Maria Calixto,Santa, Zefinha e outras, ajudando a mexer o pirão,decorar os pratos, encher a buchada e carregar oscopinhos de bebidas fortes para os homens, e asgarrafinhas de gasosa e guaraná para as damas e ospimpolhos. Afinal, à época, o uso de bebidas fortes nãohavia se tornado moda ainda entre as damas e estas, sóingeriam bebidas leves, tipo ponches e refrigerantescomo Fratteli Vita e Gasosa. Maria Andrade e dona Quinquina cortavam osdoces de batata e as goiabadas em lata, verdadeirasdelícias da culinária de seu Laurindo Doceiro. Na sala o papai J. L. recepcionava os convidadosdo sexo masculino, oferecendo bebidas quentes; dosesde vinho Quinado Imperial e conhaque Palhinha eCastelo, além de cerveja Pielsen esfriada. Os canapéseram torresmo, bode assado, e sarapatél. Para osfumantes, caixas de cigarilhas, cigarros Petisco, Caruso,Bom Marché, Cara Preta e charutos Suerdick Bahia. Haviaaté uns maços de Gesira e Pour la Noblesse, importadosraros da época. Presentes o prefeito da cidade, Dr. PlínioAraújo e a esposa, seu José de Assunção e dona NelyGomes de Sá, seu Erasmo e dona Levina, seu AlcidesRodrigues e Saló, além de alguns amigos da prefeitura,comerciantes, senhores de engenhos e, naturalmente, osprimos e parentes do engenho e de Recife. Em meio à festança, enquanto os convivas sedeleitavam bebendo e dançando a polca, a porta seabriu e adentrou o recinto, bastante irritada, “Sinhá
  52. 52. Sinfronina”, uma antiga lavadeira da família, que tinhafama de ser catimbozeira e fazer uns despachos. - Dando uma festa e nem mim convidam, né? Intéeu que ajudei a engomar os lençó de linhe do enxová dacriança!, berrou a velha. Qui ingratidão. Cadê a minina?Cadê cumade Santa. To a pui de dá um bale nela. - Sente-se, Sinhá Fronina, convidou dona Elvira.Aceita um pedacinho de peru assado ou uma fatia debolo? - Inhora não, já cumi meu prato de pirão de ovo,respondeu ela, fumaçando de raiva. Só vim dá umaispiada e rezar a minima pru meu Padim Ciço e MãeDasdore portregê a bruguela. Adonde ela tá? - Venha comigo, Sinhá Fronina, convidou donaElvira. E as duas se dirigiram para o quarto onde estava oberço da neném. - Oxente, mai qui tanta caxa é essa dento dobeço? “São as lembrancinhas que ela recebeu, SinháFronina! - Mai num pode não, essa tuia de brebote vaiterminá sofocando a minina”. E a velha foi logo retirandoas caixas e os presentes e jogando tudo na cama aolado. Agora sim, nói pode vê ela. Meu Padim Ciço, cumaele gorda. Benza Deus!” A benzedeira concentrou-se e olhou a recém-nascida demoradamente. Então puxou um galhinho dearruda preso pelo turbante junto da orelha e começou aaspergir a garotinha, enquanto rezava sua prece. Depoispersignou-se e exclamou solenemente:
  53. 53. - Ela vai sê muito intiligente, vai estudá e se formá,vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muitopor esse mundo de meu Deus, vai inté se casar, mai numvai passá de um metro e meio de artura. Mai aiguente ospovo vai impelidá-la de Baxinha e Nina Bolinha.” Tem maiainda, ela vai sê muito braba; quando ela apontar odedo fura bolo, der três piscadinha cum as pestana e umpiqueno supapo no peito, corram de perto, que vai sobrápra arguém. É o castigo pru tere se isquecido de mim. E a velha Fronina retirou-se como um pé-de-vento,deixando os convidados pasmos. Será que os augúrios da velha iriam se tornarrealidade? Os convidados entre assustados e pasmosnão paravam de cochichar entre si, mas o papai J. L.logo pediu que o sanfoneiro tocasse um baião e a festavoltou à animação inicial. Já quase uma hora da tarde, os homens iam seanimando com os repetidos tragos e com grandesbaforadas de charuto e cigarros. As senhoras,acomodadas na sala, conversavam discretamenteenquanto enxugavam o suor do colo e do pescoço comtoalhinhas de feltro. As crianças, já “adocicadas” detanto pirulito e chupeta de açúcar, corriam enquantoesbarravam nos mais velhos e promoviam a aquelabaguncinha organizada. Num recanto da sala, sentado numa poltrona, opadre Clodoaldo de batina preta com dezenas debotões que iam do colarinho até o abanhado, barretepreto na cabeça, enxugava o rosto com um lenço e seabanava com o breviário. De vez em quando dava umaolhada no relógio de algibeira. Salomé de seu Alcidesnotou aflição do reverendo e correu esbaforida para acozinha:
  54. 54. - Dapaz, minha santa, já está passando muito dahora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite eterminar passando mal se não forrar logo o estômago. Maria Andrade logo tomou a frente e começou apreparar um prato para o vigário. Colocou numabandeja e levou até a mesa da sala. O reverendo foiconvidado para sentar e recebeu o prato sorrindo, jáestava passando o lenço na testa e na iminência de teruma oria. Maria Andrade, apressada, gritou para donaZefinha: - Prepara uma sangria para o padre. E dona Zefinha, espantada, respondeu: - Mas dona Maria, o sangue todo foi colocado nacabidela. - Santa ignorância, Zefinha, sangria é um ponchede vinho com água e açúcar. Não bote gelo, o padretem problemas de garganta. Afinal, toda a comunidade religiosa tinha umhistórico completo da saúde do pároco. PadreClodoaldo começou a se servir e, quando, preparava ocopo para tomar o primeiro gole de sangria, passa ummenino correndo e bate no braço do reverendo. Atoalha de linho da mesa ficou lilás. Dapaz apareceu nasala e lamentou o estado se sua toalha de linhoengomada. O padre, pálido, quase perdeu o apetite,ficou sem ação. Mais uma vez Maria Andrade contornoua situação. - Não se preocupe, padre, aqui está outra sangria.Vou ficar por aqui pra domar estes meninos.
  55. 55. - Ô minha gente, esses filhos de vocês não temestilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquantoos meninos parecem que estão correndo no prado. O padre almoçou, fez uma rápida leitura nobreviário e começou a se despediu dos convidados e dosanfitriões. Ao sair ainda benzeu os que estavam por perto. Quase catorze horas, estava na hora de servir oalmoço. Mas como iria caber tanta gente à mesa? Foiquando apareceu dona Frederica Faneca, esposa doprefeito, e apresentou a solução. - Por que vocês não fazem um almoçoamericano? Os nativos entreolharam-se e ficaram sementender nada. De novo Maria Andrade em cena. - Que história é essa de almoço americano, donaFrederica? - Muito simples, colocam-se os pratos e talheres namesa, em seguida, vão trazendo os pratos das iguarias ecada um se serve e vai comer em algum lugar da casaque não seja na mesa. - Que idéia maravilhosa, dona Frederica,exclamou Dapaz. Os pratos, talheres, guardanapos e as iguarias doalmoço foram colocados na mesa da sala de jantarsobre a toalha de linho branco engomada e com umaenorme mancha de sangria. Os convidados famintoscomo estavam, nem perceberam. - O Clodomiro, cadê as grades de coca-cola?Perguntou dona Lita.
  56. 56. - É verdade, estão na mala do carro, Alguém meajude aqui, por favor! E os convidados que já se preparavam pra fazeros pratos, pararam e ficaram admirados com asgarrafinhas de coca. - Eu vou tomar uma coca em lugar da gasosa,fala dona Minervina, enquanto enchia o copo,espantada com a espuma. - Ave Maria, fica fervendo no copo e na boca.Queima e arde. - Dona Minervina, fala seu Clodomiro, é pra tomargelada. Quente, ninguém agüenta. Quando nada, boteuma pedra de gelo no copo. - E a coca-cola roubou a cena do almoço. Afinalela só tinha chegado ao Brasil há dois anos e, naprovíncia, pouca gente tinha experimentado o novorefrigerante. E assim foi servido o primeiro almoço no “estiloamericano” em Amaraji. - De repente, um grito estridente e um choro decriança. Dapaz e outras mães correram para o quarto e,espantadas, viram a mini “nina” muito vermelha, sedebatendo no berço, engasgada e quase sufocada comuma chupeta de açúcar. - Quem foi que fez uma barbaridade dessas?Perguntou a mamãe. Deve ser cria de alguma daquelasindolentes que estão na sala e não se levantam paranada.
  57. 57. Difícil descobrir, afinal tinha criança demais nafesta. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L.sobre o ocorrido. - Tá bom de tanta festa e de dança, João Luiz,esses meninos já bagunçaram demais e a casa está umlixo, além do que a bebida já acabou. Tá na hora detodo mundo voltar pra suas casas. João Luiz pediu que o sanfoneiro parasse que afesta já ia acabar. Aos poucos os convidados iamagradecendo e se retirando. Lá pelas quatro da tarde não restava maisninguém, a não ser os familiares e as comadres quecomeçavam a fazer a faxina. Dapaz, bastante cansada,repetia: - Outra festa dessas aqui em casa, nunca mais.Teve gente que pareciam não ter se alimentado há ummês. Parece que vieram tirar a barriga da miséria mesmo.O filho de dona Regina estava lavando as mãos na jarra.Tem jeito? E a sobrinha de dona Davina, usou metade domeu vidro de Madeira do Oriente. Quem era aquele debigode que fumava e cuspia lá no canto da sala? JoãoLuiz convidou cada um... E os comentários foram se amenizando, enquantoa faxina estava quase concluída. O tempo passou e muitos esqueceram aquelacena insólita e curiosa da velha Fronina, histérica,saracoteando pela sala, mas algumas pessoas ainda seperguntavam: será que algo daquilo iria acontecer?
  58. 58. - Capítulo 1 - JINGLE BELLS, NASCEU A “MINI” NINHA... Era uma vez, numa cidadezinha da mata sul,torrão bendito, cercada de montanhas, poesia, matasverdejantes e rio a correr, um casal muito feliz que trouxeao mundo uma “mini” garotinha, fim de rama, caçulinha,cheia de graça e encantamento. A menininha veio ao mundo na residência de seusgenitores, situada à Rua Prefeito Rocha Pontual, juntinhodo cartório de seu Samuel Coelho. Seu papai era comerciante do ramo dapanificação e assessor do prefeito da província, e amamãe, de prendas domésticas. Como rezava a tradição da época, ela foi“pegada” por Mãe Dedé, a parteira mais famosa daregião e nasceu tão miudinha, tão bolotudinha, tãorechonchudinha, que cabia na palma da mão. Era, notodo, de aparência muito saudável, com madeixasgalegas e tez rosada. Parecia uma calunga de louça. Os felizardos pais, João Luiz e Maria da Paz, deramà nenenzinha, o nome de Maria Aline. Era o dia 27 deoutubro de mil novecentos e bauzes, exatamente doisanos após a chegada da coca-cola no Brasil. Como acontece em todo lugarejo do interior, anotícia espalhou-se com rapidez e, pelo fato do casal termuitos amigos, logo começou a aparecer pessoas paraver a mais nova moradora da casa.
  59. 59. As primeiras visitas recebidas foram: MariaAndrade, Quinquina e Dona Elvira; seu Alcides, Saló, Cila,já mocinha, e Concinha, bem novinha. Do vizinho distritode Caracituba: seu João Rocha e dona Nina, futurospadrinhos da recém-nascida. Do engenho Amora: seuJoão Vieira, dona Mariinha e as pequenas, Socorro,Josete e Anália. Da capital: os tios Clodomiro e Lita, e aprima Maria Alice ainda de braço. Cada visitante que aparecia (os homensevidentemente) eram agraciados pelo pai da garotinha,com um cálice de excelente cachimbada de mel deuruçu com cachaça de cabeça preparada na hora,charutos Suerdick Bahia ou cigarros Asa, dependendo dogosto de cada um. Um fato inusitado é que a menina era tãopequenina, tão curtinha, que todos os presentes ficaramcuriosos a respeito do futuro da garotinha. O que ela iriaser quando crescesse? E, em meio ao cochichado geraldas visitas, uma voz fanhosa e estridente gritou lá de trás:“Ela vai ser borboleta de pastoril!” A exclamação haviasido proferida por seu João Severo, o dono doenchimento, que estava entrando para ver a neném eescutara parte da conversa dos presentes. “Oxente, seuJoão Severo, ela vai ser é uma fleira, uma madresuperiora, isso sim, se Deus quiser,” afirmou a jovem e boaAurinha, futura moradora da Vila São Vicente, que haviachegado correndo para ver o novo rebento. Os presentes recebidos: lençóis e camisinhas depagão, mamadeiras, toucas e consolos coloridos,sapatinhos de crochet, chiquitos, maracás e uma figa deouro. Maria Andrade levou uma boneca de panograúda, confeccionada por Amara da Boneca e umvidro de alfazema da loja de seu Alcides. Levou tambémum capão gordo, para a canja do resguardo da mamãe.
  60. 60. Aline e a maninha Ana Maria, primogênita docasal, encheram de alegria a vida dos pais e de todos osvizinhos de rua. Maria Andrade, amiga e guardiã da família,ajudava a mamãe Dapaz na criação da “mini” Ninha eDona Maria Calixto, foi a sua ama-de-leite. Quando a gordinha começou a ficar maispesada, mamãe Dapaz contratou a ama Ivanise paracuidar das duas manas. Como ela teria de dormir nosolar, Dapaz encomendou uma cama-de-lona a seuAmaro Feitosa e, na feira, comprou um baú amareloornado de gregas, daqueles fabricados lá para asbandas do agreste, para as fardas da ama. A menininha crescia (perdão), se tornava a cadadia, mais saudável e rechonchuda, cabeleira farta commadeixas louras e as bochechas rosadas. A essa altura ela já se alimentava do leite gordo enutritivo da vacaria de seu Samuel, que, todas as manhãsera distribuído por meio de uma carrocinha, puxada porum robusto carneiro. A cidadezinha era muito pequena e quase nadade novo acontecia. As notícias eram trazidas poralgumas pessoas, geralmente comerciantes eautoridades municipais, que viajavam semanalmentepara a capital e, no retorno, compravam algum jornal ourevista que era repassado para amigos. Havia poucosrádios na cidade, mas duas pessoas possuíam aparelhosde rádio possantes da marca RCA Victor, seu João Luiz eseu Victor Alves. Muitas noites, o casal João Luiz e MariaDapaz convidava a jovem Elza Dorotéia e algumasamigas para ouvirem a programação do rádio que eracomposta de serestas e transmissão de apresentações deprogramas de calouros ou de outros artistas que vinham
  61. 61. do sul do país, sem esquecer naturalmente o RepórterEsso, responsável pelo noticiário do que estavaocorrendo no Brasil e no mundo. Nestes saraus radiofônicos, escutavam-se novelas,programas de auditório e músicas de sucesso da época.Um dos programas inesquecíveis foi quando seapresentou “Dilu Melo”, famosa artista de São Paulo, queveio daquele estado apresentar-se na PRA-8, RádioClube de Pernambuco. E deleitou a todos os ouvintes,cantando: “Fiz a cama na varanda, Esqueci o cobertor Deu o vento na roseira Me cobriu todo de flor.” Nas noites de verão, cadeiras eram colocadas nascalçadas, onde amigos e vizinhos se reuniam para atradicional prosa. Naquelas ocasiões, os homens falavamsobre a administração do prefeito, as notícias nacionais einternacionais escutadas no Repórter Esso e, as senhoras,discutiam as atividades da paróquia, os sermões dopadre Teodoro, as últimas peças bordadas ou algumareceita culinária nova recortada do Diário dePernambuco. Nossa história se passa no final da primeirametade do século passado. Não é um tempo tãodistante, mas a realidade das pequenas cidades dointerior era bem diversa. Na zona urbana uma populaçãopequena, poucas casas e um comércio diminuto. Na zona rural, grande engenhos com seuscasarões e muitos moradores. Estas propriedadesassemelhavam-se a pequenos feudos da idade média. Osenhor de engenho era o patrão, o conselheiro, o juiz que
  62. 62. decidia sobre todas as questões e acontecimentos dapropriedade. Tempos amenos, bucólicos e românticos Ainexistente poluição ambiental e mental fazia com que omeio se conservasse puro e paradisíaco; puras e arejadaseram também as mentes e o pensar da época.

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