DOSSIER: nazis Beiras e BNG

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Dossier sobre a reacción da ultradereita negacionista europea parabenizando ao BNG e a AGE (Beiras+IU) pola súa negativa a condenar o Holocausto no Parlamento de Galicia

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DOSSIER: nazis Beiras e BNG

  1. 1. Dossier sobre as simpatias do nazismo internacional com Beiras e BNG por terem-se negado a condenar o Holocausto O ÓDIO É UM ESPELHO João Guisan Seixas, escritorSe o mundo hoje é como é, e não um lugar muito pior, não é graças a nenhum revolucionárioiluminado, mas ao empenho pessoal e à lucidez mental de um político conservador chamadoWiston Churchill. Foi o mesmo que, derrotado nas primeiras eleições logo após ter ganho aguerra, em vez de dizer "que ingratos!", disse que tinha lutado todos aqueles anosprecisamente para que uma coisa assim pudesse acontecer.Churchill disse muitas frases na sua vida. Bom, nisso não foi muito original. As frases é que oeram. Há de facto uma frase de Churchill para cada ocasião, mesmo para as mais triviais.Também para esta, que o não é. A que melhor a ilustra não é, porém, das mais brilhantes,mas, mesmo assim, arroja muita luz sobre este assunto.Quando Hitler atacou a URSS, Churchill não duvidou em apoiar Estaline, mesmo apesar deeste ter pactuado anos atrás com Hitler para que ele pudesse atacar comodamente a Grã-Bretanha. Sendo um político conservador, muitos correligionários lhe censuraram umaactuação que ajudava a consolidar o poder comunista, mas Churchill respondeu-lhes: "SeHitler tivesse decidido invadir o inferno, eu aliava-me com o diabo".Foi graças a essa lucidez que o mundo ocidental tem gozado, de 1945 até hoje, do maiorregime de liberdades, de bem-estar económico e do mais longo período de paz que nenhumasociedade humana nunca gozou, pelo menos de que haja registo histórico.A vida não é um jogo de bons e maus, como muitas das últimas tendências de infantilizaçãopolítica nos querem fazer ver. Eu penso que podemos dizer que somos maduros quandoentendemos que o dilema é quase sempre entre aceitáveis e péssimos, e mesmo muitas vezesentre maus e piores.Todos temos que escolher alguma vez entre o diabo e alguém que é pior do que o diabo. Aprova máxima de lucidez é saber fazer essa escolha. Saber quem é o diabo com que a gente sepode chagar a aliar, e quem aquele pior do que o diabo, com que nunca se pode pactuar.Xosé Manuel Beiras, pela sua actuação, parece que já fez a sua escolha. ParafraseandoChurchill: se Israel inventasse uma máquina do tempo e resolvesse atacar a Alemanha nazi,ele aliava-se com Hitler.No dia 14 de Março começou a circular na Internet uma fotomontagem em que dois vultos donegacionismo (= conjunto daqueles que negam a existência, ou importância, do Holocausto)actual, o islamista Ahmadinejad e o neofascista Jean Marie Le Pen, sentam ao lado de Beirase Jorquera, na mesma bancada da câmara autonómica. Dias atrás estes últimos tinhamimpedido finalmente que o Parlamento Galego aprovasse nesta ocasião a DeclaraçãoInstitucional em memória das vítimas do Holocausto que vinha sendo aprovada de formaunânime nestes últimos anos no Dia Internacional instituído pela ONU a este fim.Na imagem, Ahmadinejad parece celebrar como uma vitória do seu anti-semitismo estaactuação, enquanto Le Pen mais bem compartilha, braço contra braço, esse certo "ar ausente"do Beiras:
  2. 2. Alguém poderá achar exagerada, e mesmo injusta, esta imagem, mas é realmente uma formade pôr as coisas, e as pessoas, no lugar em que merecem. Se Ahmadinejad e Le Pen fizessemparte do Parlamento Galego, teriam votado exactamente como eles, teriam pronunciado asmesmas palavras e teriam buscado a mesma justificação: a memória das vítimas doHolocausto nazi é "propaganda israelita". Se, neste assunto, no mundo das ideias seencontram ao lado uns de outros, a montagem o único que propõe é fazer o mesmo no mundofísico, e visualizar esse encontro.Não sei se será preciso esclarecer que na proposta de Declaração (redigida por umsobrevivente do Holocausto, Jaime Vandor) não se fazia referência nenhuma a Israel, masfazia-se, sim, uma referência aos cerca de 4.000 galegos que também morreram nos camposde extermínio.Mas, mesmo que se tivesse feito a primeira e não se tivesse feito a segunda, quem (esobretudo, por quê) pode negar-se a assinar uma declaração de condena ao assassínio de seismilhões de pessoas exterminadas só pelo delito de serem filhos dos seus pais ou mesmo(segundo as leis racistas de Nuremberga) netos dos seus avós?Por muito que já se tivessem feito declarações parecidas nos anos anteriores, era pôr apenasuma assinatura, pulsar num botão ou dizer "sim". Não era preciso carregar um saco decimento nem levantar uma pedra, nem sequer mover-se do assento. Ainda que isso pudesseser utilizado para a propaganda política do Estado de Israel (estou a ver Netanyahu diante daassembleia geral das Nações Unidas a inchar o peito: "Eh, que no Parlamento Galegoaprovaram uma Declaração a dizer que não é legítimo exterminar judeus!"), e ainda que oEstado de Israel fosse o diabo, não deveria ser, para todo o democrata, o nazismo uma coisabastante pior do que esse diabo?Parece claro que, para Beiras e o BNG, não. Pode que para eles o nazismo seja o diabo, mas oque para eles de certeza ocupa o lugar de aquilo pior do que o próprio diabo é Israel, e antesde servir para a sua "mais-que-infernal" propaganda, acham melhor servir para a "apenas-infernal" propaganda nazi. Parece que o líder de AGE (ou talvez apenas de si próprio) prefereque o seu cotovelo se roce amigavelmente com o de Le Pen, antes que o seu dedo se movauns centímetros para votar afirmativamente a condena do genocídio do povo judeu.
  3. 3. Insisto no papel de Beiras, porque nos anos anteriores o BNG tinha apoiado declaraçõessimilares, e se neste ano não apoiou penso que a única variável que coincide com estamudança, e a explica, é a irrupção de AGE "no mercado eleitoral". Se neste ano o BNG nãoapoiou o que tinha apoiado nos anos anteriores não foi senão para não ficar diminuído, na sua"cota eleitoral de radicalismo", a respeito desta nova concorrência. E insisto, aliás, em colocarBeiras à frente da iniciativa, porque o ódio a Israel tem sido uma das teimas pessoais dele, emesmo aquele que exibe o BNG não deixa de ser, em boa medida, uma consequência dapassagem de Beiras pelas suas estruturas, pois me consta que, embora não ousem reconhecê-lo publicamente, há vozes discordantes dentro dessa formação a respeito da linha seguidaneste assunto. Também na AGE, mas duvido que a AGE seja politicamente outra coisa queuma marca comercial de Beiras, e não se pode falar apropriadamente de militantes, mas deacompanhantes.Que aquela fotomontagem não era nem exagerada nem injusta, e que mesmo tinha ficadocurta (pois podiam ter-se sentado nesses lugares pessoas ainda menos recomendáveis, comovamos ver) o tempo encarregou-se de o demonstrar e de pôr as coisas no seu lugar. No casode Beiras e Jorquera, ao lado de Le Pen e Ahmadinejad (pelo menos).Aos poucos dias recebi na minha conta um mail em que se informava do escândalo que aatitude de Beiras e BNG tinha provocado em meios de diferentes comunidades judias domundo. Como as ligações das páginas que me mandavam, não sei por quê, não funcionavam,resolvi procurá-las a colocar aquelas referências na barra de procura do Google e dar-lhe a"enter".Ao abrir-se a página dos resultados apareciam, com efeito, aquelas webs de comunidadesjudias, e também algumas de "informação neutra" que se faziam eco das suas reacções, masentremeadas, apareciam outras páginas que não eram nem judias nem neutras, mas todo ocontrário, e que também se faziam eco (um eco agressivamente zombeteiro) das outras.Paginas que celebravam o que as outras lamentavam. Surpreendeu-me vislumbrar pelo rabodo olhos, enquanto ia varrendo as diferentes ocorrências, palavras como "White Pride"("Orgulho Branco") ou "News for white europeans" e símbolos reconhecíveis do racismo, doódio, do nazismo.Aprimorei então a minha busca com os termos que apareciam mais frequentemente nelas"Galicia party dismisses Holocaust remembrance" ("partido da Galiza repudia recordação doHolocausto") e aí é que então começaram a aparecer elas! Páginas fascistas, neonazis, nazisclássicas, racistas. Coisas que eu pensei que não poderiam, que não deveriam, existir naInternet, e que alguma autoridade responsável deveria banir para sempre.Se essa autoridade existisse, curiosamente essas cinco palavras seriam, no dia de hoje, omelhor recurso para localizar esse género de páginas. E resulta uma vergonha pública para ospartidos a que se referem essas cinco palavras, que a expressão que os denomina, "GaliciaParty dismisses Holocaust remembrance", possa ser o melhor instrumento para localizarpáginas neonazis e racistas em dia nenhum.A primeira que me tinha chamado à atenção, já na busca inicial, intitulava-se "Unity ofNobility", e é um site de informação "alternativa" "deskosherizada" (="desjudeizada") para"europeus brancos", subtitulada "Unidos pelo sangue", com uma foto de dois soldados nazis asusterem gatinhos no colo e uma outra, ao lado, de duas crianças loiras vestidas de anjos coma legenda: "Diz não ao genocídio branco". É um grupo supremacista branco baseado, ao queparece, no Reino Unido, mas de vocação "europeia".O mais triste da presença de Beiras e BNG nesta página é que sei que o único que os vaidesgostar é uma parte do título que abre a notícia: "Partido espanhol, diante da Comemoraçãodo Holohoax: Fora com a propaganda israelita!"
  4. 4. http://unityofnobility.com/2013/03/23/spanish-party-on-holohoax-rememberance-no-way-israeli-propaganda/("Holohoax" é um ridículo jogo de palavras, muito estendido em meios negacionistas delíngua inglesa, entre "Holocaust" e "hoax" = boato, mentira, invenção)Abre assim a sua resenha da façanha de Beiras e BNG: "Os judeus espanhóis acusam ospolíticos da Galiza por terem impedido uma resolução de comemoração do Holohoax comotantas que fazem todos os idiotas do mundo", e a seguir reproduz, com desqualificações para aAGAI (Associação Galega de Amizade com Israel) e FCJE (Federação de Comunidade Judiasde Espanha) basicamente as informações tiradas das fontes judias antes aludidas.O que mais nos interessa são os comentários. "Silvia" confirma em espanhol: "La actualizquierda es en verdad fascista". O que, no contexto dessa página, só pode interpretar-se comoelogio. Ainda que "Tyr" (administrador do site, que escreve o nome no avatar com caracteresrúnicos) retorque, em inglês: "O fascismo não é um movimento de esquerdas, é ummovimento do povo. Nunca quem está ao lado dele a combater a propaganda do Holocaustopode ser considerado um movimento de esquerdas, igual que não pode ser um movimentojudeu". Então já ficamos esclarecidos: BNG e AGE são tão de esquerdas como judeus.Porque eu tive, contudo, uma curiosidade malsã e fui em seguida à página de início para ver olugar que ocupava a informação, e, com efeito, estava no "quadro de honra", dois lugaresabaixo das declarações de um representante municipal de um partido neonazi sueco, queafirmava que os judeus controlam a Casa Branca e um lugar abaixo de um sisudo artigo deWilliam Pierce fundador do partido racista e neonazi americano "National Alliance" que,numa "lógica esquizofrénica" muito frequente também na "esquerda anti-semita", acusava osjudeus de serem os culpáveis inclusive do ódio aos judeus:
  5. 5. Abaixo de um neonazi sueco e abaixo de um racista americano. Ah, se Dante tivesse queridoinventar um inferno para a nossa esquerda anti-semita, não podia ter imaginado um maisapropriado! Porque, com efeito, não podiam ter caído mais baixo.Eles dirão e repetirão que são anti-sionistas, não anti-semitas, mas a realidade teimosa vairesponder-lhes que, de facto, os anti-semitas, além de lhes dar os parabéns, tratam,informativamente essa notícia como mais uma expressão de anti-semitismo. A notícia danegativa de Beiras e BNG a expressarem o seu apoio às vítimas do Holocausto situa-se aolado de notícias que falam de judeus (ou antes "contra judeus"), de manifestações anti-semitas, não de nada que tenha a ver com Israel.Outra página, bastante relacionada com a anterior, que não podia deixar de congratular-seportanto com a atitude de Beiras e o BNG é Storm Front ("Frente de Tormenta"), um forumracista criado por um conhecido dirigente do Ku Klux Klan, justamente castigado pela vida ater que levar o nome de Don Black. Tem vários thread abertos com o tema. No banner daligação de um deles não se oculta o entusiasmo que desperta a actuação dos nossos curiosos"progressistas": "Partido espanhol repudia recordação do Holocausto como PropagandaIsraelita. Cada pequeno golpe aos Chosenites é um raio de luz no horizonte" ("Chosenite" éum termo insultante utilizado nos meios anti-semitas para se referirem aos judeus, tirado de"Chosen"= escolhido. É como dizer: "esse lixo que se considera o povo escolhido". O de"povo escolhido", como qualquer pessoa com um mínimo de informação deveria saber, temum sentido religioso e não de nenhuma classe de supremacia racial: eles consideram-se opovo escolhido por deus para lhe revelar a doutrina do monoteísmo)
  6. 6. No logo aparece, à volta de um conhecido símbolo do fascismo internacional, um slogancomum a muitos movimentos racistas: "White Pride World Wide", "Orgulho Branco em Todoo Mundo". Não sei se isto encherá de orgulho (branco) os nossos cruzados anti-israelitas, masde certeza tornaram-se já célebres em todo o mundo... racistaJá no seu interior (http://www.stormfront.org/forum/t956094/) deparamo-nos com uma surpresa:um "branco da casa", um "sudista do noroeste". Um racista galego diz em inglês,provavelmente com sotaque do Alabama: "Eu sou desta região autónoma de Espanha, aGaliza. O partido mencionado neste thread é um partido de extrema-esquerda que quer paraesta região a independência de Espanha. Nós temos, com efeito, algumas coisas em comumcom eles".Noutro dos thread abertos (http://www.stormfront.org/forum/t956106-2/) "Geboren Weiss"("Nascido Branco" em alemão), diante da notícia, grita tipograficamente: "Guau, que grande éisto!". Mas o mais curioso são as imagens postadas para ilustrarem as reacções destesinternautas orgulhosamente pálidos. Há muitas do famoso encontro de Franco com Hitler emHendaye, que devem querer significar que a notícia demonstra uma relação igual de estreitaentre os espanhóis e os ideais da Alemanha nazi.Eu acho, porém, mais reveladora esta:
  7. 7. O "nick" escolhido pelo autor do post baseia-se no nome de Revilo Pendleton Oliver, umoutro supremacista branco americano colaborador do antes mencionado Willian Pierce nafundação de "National Alliance".O documento que aparece reproduzido no ângulo inferior esquerdo é o tão conhecido "parteda vitória": "Cautivo y desarmado el ejército rojo...". O quadro representa Franco vitorioso, ea mensagem é clara: o facto de estes grupos terem impedido lembrar as vítimas do Holocaustoé mais uma vitória (uma vitória póstuma, como as do Cid) de Franco.Noutras páginas do mesmo foro (http://www.stormfront.org/forum/t956106/ ehttp://www.stormfront.org/forum/t956106-3/) fica ainda mais clara esta relação:"Gladiatrix" celebra a notícia: "Os espanhóis estão a acordar do hollow hoax (variação de"holohoax" que acrescenta "hollow"= "oco")Ao que "American NS" (= "National Socialist", supõe-se) acrescenta: "Certamente não é sóque Franco tivesse deixado um valioso ponto de referência, parece também que os espanhóiscontinuam conscientes dos seus direitos diante das mentiras e honram o legado dele""Ukaway" ("Fora o Reino unido"), então, emociona-se: "Está a crescer uma enorme vaga quevai limpar da peste judia os nossos países""Deathknight303" ("Cavaleiro da Morte"303) soma-se ao entusiasmo: "Isso! E quando ostempos forem chegados, vai correr pelas ruas o sangue dos porcos judeus, como deve ser"E realmente, na sua burrice, estes racistas estão a fazer, sem o saberem, uma análisecertíssima. Estão a estabelecer uma linha de continuidade (mais que ideológica cultural ouquase étnica) entre o anti-semitismo orgulhoso do nacional-catolicismo espanhol e o anti-semitismo vergonhoso da nossa esquerda esquizofrénica, que demonstra arrastar, no seuradicalismo infantil, os mesmos preconceitos rançosos dos avós e da mais escura tradição
  8. 8. "espanhola". Uma esquerda nacionalista galega sumamente "cañí"(quer dizer "racialmenteespanhola")A adesão ao veto de Beiras e o BNG à memória do Holocausto chega também, sem ir maislonge (e já é bastante) até à Grécia.Na página Paspartou (http://paspartoy.blogspot.com.es/2013/03/blog-post_5632.html),abaixo do seguinte logo:... e antes do post intitulado: "Partido espanhol impede a comemoração do Holocausto",aparece o seguinte epígrafe: "Uma coisa que nos anima. Espanha mostra-nos o caminho certo.Basta das mentiras deles" (dos judeus, entende-se)Claro que só com estes dados, e com os meus conhecimentos de grego clássico e moderno (atradução acima foi feita com a ajuda de um tradutor automático, incapaz de traduzir a imagemdo logo), dificilmente nos podemos aventurar a dizer se se trata de uma página de ultra-esquerda ou de ultra-direita.Isto já é sintomático, e deveria mover à reflexão. Sobretudo quando, depois de uma pequenapesquisa, acabamos por descobrir que quem se sente animado e estimulado pelo exemplo deBeiras e BNG é nem mais nem menos que o partido Aurora Dourada (ΧΡΥΣΗ ΑΥΓΗ,pronunciado Chryssí Avguí), o partido neonazi grego, infelizmente muito popular nos últimostempos a raiz da sua preocupante ascensão nas últimas eleições do páis heleno (e por falar em"heleno", não faz falta saber grego, só conseguir ler o alfabeto, para deduzir do logótipo que olema deles é "A Grécia para os gregos")A ideologia de Aurora Doura talvez acaba por ficar completamente clara quando voltamos aencontrar o mesmo nome associado, não à bandeira grega, mas ao emblema do própriopartido, baseado, como se pode comprovar, num motivo decorativo tipicamente heleno,utilizado aqui pelas evocações com um outro símbolo, infelizmente muito conhecido, quedesperta:
  9. 9. Mas o aplauso da ultra-direita internacional à negativa de Beiras e BNG a condenar oHolocausto, viaja ainda mais longe. Tão longe que vamos ter que fazer a viagem em trêsetapas. Às vezes o dado mais importante de uma informação reside antes no caminho quesegue do que no próprio conteúdo.O ponto de partida da primeira etapa não sabemos muito bem se colocá-lo no Irão, naPalestina, na Argélia e na França. Na sua página pessoal, alguém que assina "Mounadil alDjazaïri" ("O Combatente Argelino"), que aparece também como colaborador da rádioiraniana em francês ("Iran French Radio", onde o responsável da seguinte etapa, Alain Soral,aparece também frequentemente entrevistado e citado) e que podemos colocar, com umasimples pesquisa na net, em relação com diferentes grupos de apoio a Gaza e aos prisioneirosde Guantánamo, publica uma nota intitulada "A Comunidade autónoma da Galiza (Espanha)diz não ao lobby sionista!"http://mounadil.wordpress.com/2013/03/07/la-communaute-autonome-de-galice-espagne-dit-non-au-lobby-sioniste/O título só é já todo um exemplo de "objectividade informativa", pois iguala 15% doeleitorado (percentagem de votantes de Beiras e BNG) com 100% dos cidadãos. É umexemplo óptimo para que possamos comprovar, em primeira mão, diante de uma situaçãoobjectiva que conhecemos, qual a fiabilidade das fontes pró-palestinianas. Como se vê, ésempre necessário dividir por 10, no mínimo, a informação recebida para obtermos algumaaproximação da realidade.A nota em si limita-se a traduzir para francês uma informação de El Mundo dando conta dobloqueio de Beiras e BNG à declaração contra o Holocausto judeu, precedido de algunsesclarecimentos acerca do que é a Galiza (que, num estudo "em profundidade", se identificacomo a terra de origem de Julio Iglesias, Raul Alfonsín, Franco "le caudillo" e Fidel Castro) ede quem são AGE e BNG (que são definidos como partidos "da esquerda terceiro-mundista epró-palestiniana, da esquerda à Hugo Chávez, vamos!")Já sei que o assunto deste dossier são as páginas de ultra-direita, e que alguém julgará que,por ser árabe, esta aqui vai estar livre automaticamente dessa suspeita. Talvez não baste dizerque nela se reciclam todos os tópicos nazis sobre os judeus (embora aplicados aos "sionistas),que se dão sistematicamente informações de actos de agressão anti-semita tentando relativizá-los ou desacreditar as vítimas, que se propalam impunemente todos os boatos anti-semitas,que se chega a dizer que Eichmann era muito amigo dos judeus e que o próprio Hitler erajudeu. Talvez não chegue dizer que todos os recursos que ele utiliza vão aparecer repetidosmais para a frente em páginas que vamos descobrir que pertencem, em última instância, ao KuKlux Klan. Sendo uma página árabe e pró-palestiniana, para muitos tem vénia para o fazer.A prova definitiva se calhar terá de ser como assumem literalmente as suas palavras e o seuponto de vista algumas outras publicações de carácter inequivocamente fascista.O texto, por exemplo, é reproduzido literalmente (segunda etapa da viagem) no site "Égalité& Réconciliation" ("Igualdade e Reconciliação")http://www.egaliteetreconciliation.fr/Une-note-d-espoir-17202.htmlCom esse nome pode parecer uma associação benéfica quase. Trata-se, porém, dadenominação de um movimento que pretende reunir o melhor da esquerda e da direita ("Aesquerda do trabalho e a Direita dos valores", segundo reza o seu slogan). Bom, na verdade osite é mais a página pessoal do seu fundador, Alain Soral, uma personagem "singular" dapolítica francesa que já militou no Partido Comunista Francês e no Front National de Le Pen(onde chegaria a ser cabeça de lista nas eleições europeias) antes de tentar esta síntese, e quese apresenta assim aos seus seguidores na própria web:
  10. 10. Coisa que não deve estranhar, porque a profunda "filosofia política" de Soral parte daconvicção de que há uma conspiração capitalista-maçónico-buguesa-protestante-sionista-americana para feminizar a sociedade, e ela precisa de ser masculinizada. Precisa de umadireita e uma esquerda viris e bem musculadas. Na faixa superior da página aparece de factoum friso de grandes "machos" anti-americanos, anti-sionistas e anti-etc.: Fidel Castro, Gadafi,Chávez e Ahmadinejad, entre outros.Também não deve estranhar que este site ultra (segundo ele, ao mesmo tempo ultra-esquerdista e ultra-direitista) assuma directamente o ponto de vista de um meio árabe. Durantea sua estada no Front National, Alain Soral teve o empenho de tentar atrair os jovens radicaisárabes da Banlieue (fonte inesgotável de testosterona), numa tentativa de compatibilizar oislamismo radical e o ultra-nacionalismo fascista do partido. Empenho meritório, porquanto opartido de Le Pen se caracteriza precisamente pela sua xenofobia anti-árabe, mas enfim, aesquizofrenia ideológica é uma das características, como dissemos, de todos estes grupos.Assim, um texto que, sendo escrito por um árabe pro-palestiniano teria sido considerado semmais "progressista" por muitos, acontece que calha às mil maravilhas nos moldes de um sitede ultra-direita como o de Alain Soral, que reproduz sem mais o texto de "Mounadil alDjazaïri", limitando-se a acrescentar simplesmente, no título, um pequeno texto em que saúdaa notícia do boicote: "Uma nota de esperança. A comunidade autónoma da Galiza diz não aolobby sionista".E daí saltamos (na terceira etapa da viagem) directamente para as estepes de Ásia Central.Porque a "nota de esperança" de Soral aparece, por sua vez, reproduzida literalmente nestaoutra página escrita também em francês, mas que ecoa aplausos mais longínquos:http://eurempire.skynetblogs.be/archive/2013/03/26/la-communaute-autonome-de-galice-dit-non-au-lobby-sioniste.htmlTrata-se de blog com um título de referências bastante claras "Eurempire" (Euro-império), epresidido por um logótipo que não precisa de traduções:
  11. 11. É a águia bicéfala, símbolo do Império Czarista, adoptada também pelo Império Prussianocriado por Bismarck, tomada por sua vez do escudo de armas do Sacro Império Romano-Germânico, inspiração também do escudo dos Áustrias nos não menos imperiais tempos deCarlos V e Filipe I de Espanha, e que vem, em última instância, do símbolo do ImpérioRomano (na altura do "Império Dual", daí as duas cabeças) que continuou durante muitosséculos a ser o do Império Bizantino. Não estranha portanto que o lema da página seja"Refundar Europa como Império".Na verdade é que, se não fosse por tão imperiais referências, voltaríamos a ter dúvidas de sese trata de uma página de extrema esquerda ou de extrema direita, tanto se parecem asretóricas anti-israelitas e o mundo de referências míticas de uma e de outra. Por exemplo, umdos artigos que aparecem na coluna à direita, "Como foi Inventado o Povo Judeu", reproduzargumentos pseudo-históricos e anti-semitas, que se podem encontrar repetidos literalmentena boca de "alter-mundistas com pedigree" como Michel Collon, cujo veneno anti-semita éconsiderado dogma de fé histórico por todos os progressistas bem intencionados e piorinformados.Além das constantes referências a Russia Today e outros meios oficiais russos como únicasfontes confiáveis de informação, uma pista pode fornecer-no-la o nome do autor, Friedrichvon Dietersdorf, que procurando noutras páginas (por exemplohttp://www.4pt.su/en/content/friedrich-von-dietersdorf), descobrimos que se trata na verdadede um alter-ego de Alexander Dugin, nem mais nem menos que o ideólogo privado de Putin.Não por acaso o velho escudo imperial com que Dugin-Dietersdorf, águia de duas cabeças,pretende identificar-se, foi adoptado como o da Federação Russa depois da crise institucionalde 93 que inaugurou um regime presidencialista de corte neo-imperialista. Afinal estapesquisa na política doméstica revela algumas coisas importantes da internacional.Dugin é um delirante líder carismático, preconizador da ideia da Eurásia, império queabrangeria o conjunto de Europa e Ásia e cujo epicentro seria "logicamente" a Rússia. Umultra-nacionalista russo, que mistura ideias místicas e esotéricas com um ideal de supremaciarussa. Podíamos dizer que é "O Rasputin de Putin", e ele mesmo cultiva um certo parecidocom aquele monge lunático, ainda que só consiga parecer-se mais com Carlos Taibo. Doparecido físico Carlos Taibo não tem culpa, também podia ter-se parecido comigo. Mas osparecidos ideológicos deveriam começar a preocupar. Dugin é filo-islamista, amigo dos
  12. 12. aiatolás do Irão e habitual conferencista naquele país. Fala contra a globalização com toda aindignação de um indignado. Admira Hugo Chávez e odeia tudo quanto cheira a EUA e aIsrael. Um perfeito esquerdista.... se não fosse que é um ultra-direitista:As frechas amarelas atravessadas que aparecem atrás dele, numa foto tirada de The Green Star(http://americanfront.info/2012/07/27/alexander-dugin-on-friends-and-enemies/, é um site depropaganda de "New Resistence" a quinta coluna americana de Dugin,) são o símbolo daEurásia, o império destinado a salvar a humanidade do imperialismo americano e sionista.Se somarmos o símbolo da águia com o das frechas amarelas atravessadas, obtemos nem maisnem menos este:É o brasão da Prússia como província do III Reich, directamente inspirado no do Império, sóque a águia tem perdido uma cabeça (para Hitler mesmo uma só resultava excessiva, quantoduas!) e em lugar da cruz, assegura na garra esquerda uma feixe de setas, que a todos noslembrará, e com razão, o símbolo da Falange Espanhola, e que também foi utilizado pelo
  13. 13. Partido da Cruz-Flechada, que sustinha, na Hungria da II Guerra Mundial, o governo fantocheda Alemanha nazi que controlava então o país.Não é um caprichosa associação de imagens cuja semelhança pudera ter-se devido ao meroacaso. Estando proibidos os símbolos nazis na maior parte dos países civilizados, os gruposultras, para conseguirem ser facilmente identificados, têm que acudir à simbologia menor,derivada, indirecta, associada ou próxima do nazismo. Às vezes à mera concomitânciagráfica: desenhos lineares, ângulos marcados, padrões repetitivos, fortes contrastescromáticos, fundos escuros com o intuito de uma certa sobriedade tétrica, etc. Se possívelaproveitando algum motivo local associado, para disfarçar, como víamos no caso de AuroraDourada. Há uma "estética" nazi, que se utiliza como código "difuso" para se dizer quem se é,sem ser um quem o diga.Todos esses procedimentos aparecem utilizados no símbolo de Dugin. Existe de facto umrascunho de 1920, da mão do próprio Hitler, em que aparece, entre os vários símbolos queandava a considerar para o seu movimento, um muito parecido com o do euro-asiático:Todos esses desenhos giram à volta de uma pretensa simbologia solar de raiz "indo-europeia"(o mito nazi da unidade racial "indo-europeia" está na base da ideia da "Eurásia") que nãopode resultar alheia ao mundo ideológico de Dugin, que compartilha também com Hitler,além da psicopatia, as suas crendices esotéricas (são duas coisas que costumam ir unidas).A coincidência gráfica patenteia, portanto, umas coincidências muito mais profundas.Alexander Dugin é um reconhecido anti-semita e neofascista(http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0962629801000439), fundador do "PartidoNacional Bolchevique", tradução russa do "Partido Nacional Socialista" alemão, embora eleao mesmo tempo diga odiar os nazis. Coisa que acontece precisamente porque ele gostava deo ser mas não pode por causa do seu patriotismo russo que o impede de perdoar que osalemães tivessem invadido o seu país. Podemos dizer que é justamente o contrário do que sedeve ser. É ao mesmo tempo pró-nazi e anti-alemão. Mas tudo isso é perfeitamente lógicodentro da lógica esquizofrénica que caracteriza estas ideologias. E quando falo em "lógicaesquizofrénica destas ideologias", outra vez não sei se estou a pensar realmente nas de ultra-direita ou nas de ultra-esquerda.Com o aplauso de Dugin, os ecos do boicote de Beiras e o BNG ao Dia Internacional emMemória das Vítimas do Holocausto, chegam já portanto até à Vladivostoque.E para acabarmos de dar a volta ao mundo (... do racismo, o nazismo e a ultra-direita), vamosvoltar a América. Porque uma das páginas que, por causa dessa esquizofrenia ideológica das
  14. 14. extremas direita e esquerda, mais me esquentou a cabeça na hora de determinar o seuextremismo, foi esta:http://thisiszionism.blogspot.com.es/2013/03/spanish-party-dismisses-holocaust.htmlExperimentem, se tiverem estômago. Pode-se percorrer de cima para baixo e de baixo paracima e registar todas as ideias, crenças e pretensas informações que contém, sem se saber sese trata de uma página de ultra-direita ou de ulta-esquerda. É uma página que se apresentasimplesmente como "anti-sionista" (daí o título: "This Is Zionism"), e todos os seusargumentos e mistificações podiam fazer parte de qualquer página alter-mundista feita porpessoas que se consideram o cúmulo do progressismo.Sem ir mais longe, ilustram a informação em que celebram a negativa de Beiras e BNG alamentar a morte de milhões de pessoas nos campos de extermínio nazi, com um desenho quereproduz ponto por ponto o mesmo "raciocínio" (ou antes o "irraciocínio") com que osresponsáveis de ambos os grupos parlamentares galegos pretenderam justificar a sua decisão:O desenho representa um "pioneiro" israelita, já entrado em anos, e caracterizado com todosos traços que o anti-semitismo atribui aos judeus. Repare-se especialmente no narizdesenhado com forma de 6 (neste caso de 6 virado por causa da direcção da marcha).Compare-se com estoutro desenho "pedagógico" tirado de um livro escolar alemão da épocanazi, em que um aluno mostra aos colegas a maneira de identificar um judeu:
  15. 15. O texto que acompanha a ilustração diz: "O nariz judeu é curvado na ponta. Parece um seis"Ora, o texto do cartaz que exibe no desenho anterior o perverso israelita que respira por um 6,diz: "Mais ajuda para Israel. O meu avô morreu em Dachau. O mundo deve-me dinheiro. E jápor último, comemora o Holocausto".É exactamente o argumento utilizado por Beiras e o BNG para se negarem a lamentar nempor um segundo de legislatura o assassínio de 6 milhões de "seises" por isso constituir umclaro acto de propaganda em favor de Israel! Há uma caricatura com todos os traços do anti-semitismo que reproduz todos os argumentos de Beiras e BNG. Isto deveria provocar-lhes umnojo profundo, se o juízo moral dos seus cérebros controlasse as suas vísceras, e nãoacontecesse exactamente o contrário.Não poderíamos, contudo, apenas pelo detalhe do nariz, acabar por inclinar pelo lado dadireita a balança em que pesamos esse site, e com ele esse texto, e com ele esse argumento.Todo o site está cheio de desenhos de igual laia, mas, contudo, sempre são dirigidos contra os"sionistas", nunca directamente contra os judeus. Simplesmente todos os preconceitos que hásessenta anos os anti-semitas reconhecidos aplicavam aos judeus, estes anti-sionistas actuaisaplicam-nos aos "sionistas". Quando se nega o holocausto nega-se exclusivamente, igual queBeiras e BNG, em função apenas de não ser senão propaganda sionista. Falar do lobby judeue da conspiração dos judeus para controlar o mundo das finanças, da política e dos meios decomunicação, também não é já património Goebbels nem dos Protocolos dos Sábios de Sião.É uma coisa que todo o "progre" pró-palestiniano dá por demonstrada. A única diferença éque agora, quem faz isso são os "judeus maus": os sionistas. Coloca-se, porém, (nesta página,como nas da esquerda radical) o contra-exemplo dos "judeus bons": os judeus anti-sionistas,os judeus mesmo negacionistas (o texto do cartaz podia ter sido assinado também por NormanFinkelstein, cuja obra deve estar na base da argumentação de Beiras e o BNG), os judeus quemesmo negam a existência do povo judeu, os judeus anti-semitas.A aplicação sistemática da "lógica esquizofrénica" de que falávamos antes, faz com queresulte impossível resolver a dúvida. Este site insiste fervorosamente em rejeitar qualqueracusação previsível de anti-semitismo e insiste na legitimidade do seu anti-sionismo, quesempre adopta um tom "humanitário". Um ódio com tom humanitário. A lógica
  16. 16. esquizofrénica permite estas e muitas mais coisas. Permite, por exemplo, negar por momentoso Holocausto, para, a seguir, culpar os judeus pelo Holocausto. Insinua-se, de uma parte, queos nazis não eram assim tão maus ao tempo que, da outra, se afirma que os "sionistas" sãonazis de hoje em dia porque são muito maus. Chega a culpar os próprios judeus pelo nazismohistórico até, insistindo-se em demonstrar que todos os grandes chefes nazis, Hitler à cabeça,eram judeus!Ora, meus senhores, todos estes são argumentos que utilizam, e dados que consideramprovados, muitos pretensos progressistas em todos os foros de debate pró-palestinianos. Oúnico truque para passar de um lado a outro "do espelho" é, onde a propaganda nazi colocavaa palavra "judeu", colocar agora "israelita" ou "sionista".Embora nos possa causar escândalo que isto não cause escândalo à mentes bem-pensantes, osmesmos procedimentos utilizados nesta página são aqueles que se utilizam nos meios auto-considerados progressitas dos nossos dias. Por não sairmos do mundo da caricatura, é oprocedimento que aplica regularmente o humorista espanhol Forges a todos as suas chargesque têm Israel como alvo. Não que ele desenhe israelitas com nariz em forma de 6(curiosamente evita pôr-lhes rosto), mas ele retrata, na mesma, os israelitas com traços muitomais graves do anti-semitismo: a crueldade caprichosa, a dominação do mundo, utilizandosempre um recurso gráfico e simbólico, desta vez sim, tomado directamente do "humorgráfico" anti-semita: o de relacionar sempre iconograficamente os judeus com o sangue. Osdesenhos dele no El País sempre aparecem a preto e branco, mas nesta charge publicada porocasião dos incidentes da primeira "flotilha a Gaza" organizada pelos islamistas turcos,utilizou excepcionalmente a cor (vermelha, claro):Ele ficou de certeza muito satisfeito julgando-se o mais sensível e humanitário desenhador domundo, mas estava a ecoar, de forma consciente ou inconsciente, um preconceitomultissecular. A frase ignominiosa parece uma reflexão, mas é na verdade uma reflexo. Umreflexo automático do fundo cultural espanhol mais escuro e mais anti-semita. A obsessão porrelacionar os judeus com o sangue pode-se ver também nos sites que temos visitado, erepresentada com imagens que me nego a reproduzir. Trata-se afinal de uma recriação dofamoso "libelo do sangue" da Idade Média, ainda de curso corrente no mundo árabe (sem irmais longe eis o título de um "sisudo" artigo aparecido estes dias no jornal jordano Al-ArabA-Yawn: "É Obama, que costuma celebrar a Páscoa Judia, ciente do uso de sangue de cristãonesta celebração?" (http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/0/7114.htm#_ednref1).Compare-se o desenho de Forges com este tirado do blog "Relámpago Informativo",(http://relampagoinfo.blogspot.com.es/2009_05_01_archive.html, o seu nome parece uma
  17. 17. tradução castelhana de "Storm Front") ligado ao grupo neonazi argentino Bastión NacionalRevolucionario):Grupo que, já agora, utiliza um emblema que nos lembra um outro que já encontrámos,embora apareça agora transplantado das estepes para as pampas:A ligação directa desta classe de representações com o "libelo de sangue" aparece, porém, deforma mais directa neste outro desenho com a legenda "Israel bebe sangue", utilizado napropaganda da Marcha Global a Jerusalém organizada por grupos "progressistas" pró-palestinianos do mundo ocidental e grupos integristas do mundo islâmico:E finalmente esta é uma das tantas representações medievais da, na altura, "absolutamenteprovada" (tanto como o genocídio do povo palestiniano hoje em dia) prática judia de verter osangue de uma criança cristã para utilizar nos ritos da Páscoa:
  18. 18. Como se vê, há uma continuidade discursiva em todos esses desenhos. Uma mesmamensagem e um mesmo motivo central: os judeus vistos como seres "sedentos de sangue".Claro que nos desenhos actuais, nunca se diz "os judeus", diz-se Israel (ou supõe-se "Israel"no desenho de Forges) ou "os sionistas". Ora, atribuir a Israel ou aos sionistas uma inata sedemaléfica de sangue, parece-me que só pode fazer-se em função do velho preconceito damaléfica sede de sangue inata dos judeus.O recurso à imagem de crianças daria para um outro dossier tão amplo como este, que teriaque abranger também o anti-semitismo medieval, o nazismo e a propaganda pró-palestiniana,ou melhor dito anti-israelita. O que interesse é salientar agora a continuidade nos argumentosideológicos e nos recursos retóricos (quer verbais, quer gráficos ou simbólicos) entre essastrês expressões do ódio anti-judeu.Desta digressão pelo grafismo anti-semita, tiramos apenas uma conclusão: Resulta impossívelsaber, quando se trata de sionismo ou de Israel, se uma caricatura foi feita por uma pessoasdaquelas que querem parecer as mais progressistas do mundo ou daquelas que querem ser asmais reaccionárias do mundo. O desenho que acompanha a celebração do repúdio de Beiras eBNG a render tributo à vítimas do Holocausto, por muitos traços anti-semitas que apresente,não serve para descartar completamente a hipótese de que o site "This is Zionism" seja obrade pessoas que se auto-proclamam progressistas.Afinal, para podermos acabar de inclinar a balança no sentido de atribuir o site ao racismomais nojento e não a algum ingénuo movimento eco-pacifista, temos que acudirnecessariamente a uma informação externa. Vejamos o post que segue àquele que celebra oboicote de Beiras e BNG. É um vídeo de um activista de barba branca e olhar iluminado queacusa o Estado de Israel de ser um Estado racista, supremacista e mesmo "anti-semita". Umvídeo que acusa o Estado de Israel de nazi. Mas não, não é Xosé Manuel Beiras (embora eutenha visto um vídeo de ele a dizer coisas muito parecidas há alguns anos na TVG).Trata-se de um tal David Duke, e pela maneira de falar dele também não podemos resolver aquestão. Antes parece incliná-la "do lado esquerdo". O "dado externo" vem agora.Averiguemos, então, quem é David Duke. Será um activista americano dos direitos humanos?Não senhor, David Duke resulta ser um conhecido dirigente do Ku Klux Klan (só colocar"conhecido" ao lado de "dirigente do Ku Klux Klan" já causa arrepios) que chegou acandidatar-se para a presidência dos Estados Unidos (isto causa ainda mais), ainda que fossecom a bandeira da Confederação, e não a da União, de fundo:
  19. 19. Na verdade este personagem já tinha aparecido no nosso drama (que deve ser o drama determos a esquerda mais anti-semita da Europa). Porque voltando a uma das primeirascitações, no foro de Storm Front (http://www.stormfront.org/forum/t956106-2/), abaixo dosparabéns a Beiras e a BNG por dizerem num parlamento o que eles têm que conformar-secom propalar pelos esgotos mais ocultos da Internet, aparecia já este anúncio:"Ouve o Dr. David Duke. Um homem que ousa dizer a verdade!". É o anúncio da rádio deDavid Duke. Resulta realmente triste pensar que uma informação relativa a uma votação noParlamento Galego possa ser sponsorizada pela rádio de um racista do Ku Klux Klan! Masresulta muito mais triste pensar que o nexo de união entre duas páginas racistas americanasresulta ser tanto o de contar com a presença de David Duke como o de celebrar uma notíciaprotagonizada por Beiras e o BNG....E não é a única aderência de Duke que leva a notícia da oposição de Beiras e BNG a honrar amemória das vítimas do Holocausto. O racista americano tem relação com outras pessoasque, como víamos atrás, também celebraram a ignomínia dos nossos deputados. Assim, ojornal vienense "Die Presse", a denunciar a presença de Duke na Áustria, em 2009, entreoutros detalhes da sua biografia, nos ilustra:"Duke mantém bons contactos com o negacionista espanhol Enrique Ravello e o anti-semitarusso Alexander Dugin. Ambos encontraram-se perto de Moscovo. Ravello e Dugin foramconvidados, no final de Janeiro, no Bruschenschaftenball no Palácio de Hofburg"(http://oberhaidinger.wordpress.com/2009/05/12/david-duke-in-zell-am-see/)O "Bruschenschaftenball" é o baile anual de um tipo especial de associações ou "irmandades"de estudantes ("Bruschenschaften") de carácter patriótico, típicas da Alemanha e a Áustria,frequentemente infiltradas por elementos de extrema-direita. Nos últimos anos oBruschenschaftenball tem sido palco de inúmeras manifestações de anti-semitismo.Especialmente nesse ano (2009) em que, além da presença de grandes vultos da extrema-direita internacional (como os acima citados), convidados por Heinze-Christian Strache, líderdo FPO (o denominado Partido Liberal da Áustria, mas na verdade o partido neonazi
  20. 20. austríaco) e a polémica pelo uso de uniformes parecidos aos da época do "Anschluss" (daanexação alemã durante o III Reich), causou indignação o facto de fazerem questão de que acelebração do baile coincidisse com o Dia Internacional em Memória das Vítimas doHolocausto, 17 de Janeiro. Precisamente a mesma data em que o Parlamento Galego devia teraprovado, neste ano, a Declaração Institucional que a oposição de Beiras e BNG impediu.Fecha-se assim um círculo perfeito de afrentas à memória das vítimas do Holocausto. Dentrodesse círculo tece-se a maranha da ultra-direita, o nazismo, o racismo internacional. A seguira pista das adesões internacionais à postura anti-anti-Holocausto de Beiras e BNG, acabámosde fazer, curiosamente, uma radiografia das principais linhas do nazismo e racismointernacional. Ou antes uma ecografia ou uma tomografia com contraste, porque é o eco dosaplausos à postura deles que nos devolve a imagem do nazismo internacional, e é o rasto quevai deixando essa notícia (a valoração positiva dessa notícia) que vai actuando como umcontraste que desenha as linhas que relacionam a teia de aranha dessa maranha de ódio.Bom, na verdade, temos visto apenas uns poucos fios da maranha. O importante é que temosdescoberto alguns dos nós mais importantes. Temos visto (na verdade sem excessivoassombro) que um deles se localiza em Teerão. Não só em bailes de opróbio às vitimas doHolocausto é que se encontram estes indivíduos. Se seguirmos as peripécias vitais de todas aspersonagens que têm aparecido ao longo desse artigo, veremos que as linhas de todas as suasvidas se cruzam na capital dos aiatolás. Já vimos que o autor da primeira notícia que vaimarcando um desses fios, aquele " Mounadil al Djazaïri", colaborava em meios iranianos, etínhamos falado das frequentes visitas a Irão de Alexander Dugin. Mas na verdade quasetodas as pessoas e movimentos que se regozijaram com a repugnância de Beiras e BNG arender tributo à vítimas dos Holocausto, têm passado por aí.A começar pelo final, o nosso último protagonista, o racista David Duke, que foi convidadoespecialmente pelo regime islâmico como estrela do congresso internacional do negacionismoque organizou em 2006 o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (quem, como vemos,estava portanto muito justamente sentado à beira de Jorquera na fotomontagem que abre esteartigo).http://archive.adl.org/learn/extremism_in_america_updates/individuals/david_duke/duke_Tehran.htmNa sua intervenção Duke lamenta que o povo palestiniano tenho sido imolado "no altar doHolocausto", num delirante arrazoado irracional também muito frequente nos lábios dosnossos esquerdistas.O bom deste percurso pelos infernos, não é tanto localizarmos as pessoas e movimentos deextrema-direita que aplaudem a decisão de Beiras e BNG, mas identificar nos lábios de uns osmesmos argumentos que nos dos outros. O realmente importante desta pesquisa tem sidoidentificar, nuns e outros, uns mesmos processos mentais. Um deles é este: o da inversão. Édevolver o Holocausto aos judeus, colocar sadicamente as vítimas no lugar dos assassinos.Nega-se ao mesmo tempo um genocídio do que há constância histórica inegável (ematemática: havia 6 milhões menos de judeus no mundo no final da II Guerra mundial do queno início) ao tempo que se dá por demonstrado um genocídio de que não há constânciahistórica nenhuma, o do povo palestiniano (e que também não resiste a constataçãomatemática de que a população palestiniana é uma das que mais cresceram no planeta e umadas que apresentam menor taxa de mortalidade). Também depois das reacções aoBruschenschaftenball negacionista, o líder do partido neonazi austríaco, Heinze-ChristianStrache, afirmou que eles eram os novos judeus e que a censura das autoridades podiacomparar-se com a "Noite de Cristal", início da perseguição sistemática dos nazis contra osjudeus. Agora atentem às declarações de Beiras sobre o conflito do Oriente Médio e verão
  21. 21. como este processo de inversão, de devolver a "bola" do Holocausto ao campo judeu (ele dirá"sionista") aparece também por toda a parte.Neste congresso internacional do negacionismo, que se auto-intitulava "InternationalConference to Review the Global Vision of the Holocaust" ("revisionismo" é um eufemismopor "negacionismo"), havia também judeus convidados (os "Neturei Karta" à cabeça), o queconstitui um outro procedimento do novo anti-semitismo: a coarctada do judeu. "Nós nãosomos anti-semitas, convidámos também judeus". Como sempre há judeus o suficientementee estupidamente narcisistas (cujo único objectivo na vida é serem considerados heróis daabertura, a compreensão, a elasticidade, o pacifismo e o progressismo), nunca lhes faltarãocoarctadas. Revejam também os foros, manifestações e "flotilhas" e verão como o "argumentoad hominen inverso do judeu convidado" aparece também por toda a parte.Mas não só Duke e os pontos inicial e final daquele fio (Mounadil al Djazaïri e AlexanderDugin) apresentavam vinculações directas com o Irão. Elas são igualmente claras na etapaintermédia daquela viagem, a protagonizada por Alain Soral.Soral, além de criar "Égalité & Réconciliation" fundou também o "Partido Anti-Sionista" comque se apresentou à últimas eleições europeias. Um partido que utiliza, naturalmente, acoarctada do judeu convidado, e inclui, como não podia deixar de ser, um judeu ultra-ortodoxo no seu cartaz:Pois bem, neste vídeo, Alain Soral reconhece abertamente que a sua lista foi financiada, afundo perdido, pelo Irão:http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=kzyRB7pHvwQTradução: "Se foi possível fazer a Lista Anti-sionista, que custou 3 milhões de euros, é porqueobtivemos o dinheiro dos iranianos. Pode-se dizer, não há que surpreender-se. Não temos 3milhões de euros, sobretudo para os perdermos. Para sermos reembolsados precisamos obter5% dos votos... (Risos. Eles sabiam perfeitamente que não tinham hipótese nenhuma e que alista era simples propaganda: obtiveram 1,3% na região da Île de France)... Isto quer dizer oque? Que eu sou o homem de uma potência estrangeira?"
  22. 22. O logo utilizado na campanha ilustra, aliás, às mil maravilhas um outro mecanismo comum atodas estas pessoas e ideologias ultra-esquerdistas-direitistas. Repare-se na forma subtil defazer, gráfica e ideologicamente, a passagem subliminar do pretenso "anti-sionismo" para oanti-semitismo não declarado:À esquerda tal e como aparece na web do partido (www.partiantisioniste.com) e à direita tal ecomo aparece reproduzido numa web mais "de casa", neste caso a página "de humorpalestiniano" "La Gueule Enfarinée" (http://la.gueule.enfarinee.over-blog.com/article-jericho-iii-menace-toutes-les-capitales-europeennes-87955381.html "Avoir la gueule enfarinée", "Tero focinho enfarinhado", quer dizer em francês precisamente fingir-se inocente para conseguirpropósitos ocultos, como o gato da fábula de La Fontaine que cobriu de farinha o focinho paraenganar o rato e o atrair assim directamente às suas fauces)No primeiro, ainda se pode interpretar que o que se está a riscar é a bandeira de Israel, e queportanto estamos no terreno do "anti-sionismo politicamente correcto". No segundo, porém, jánão estamos a riscar a bandeira, que excede o sinal de proibição (mesmo as bandas azuis nãorepresentam os seus limites, e há ainda uma área branca acima e abaixo delas). Está a riscar-sea estrela de David, que não representa já apenas Israel, mas a totalidade do povo judeu, emqualquer lugar do tempo e do espaço em que se encontre. É o símbolo com que erammarcados os judeus na Alemanha nazi antes da criação do Estado de Israel.Pode parecer exagerado, e de teoria conspiratória, analisar estes pormenores. Temos de ter emconta, porém, que estamos a tratar precisamente com ideologias de uma parte"conspiratórias", cujo procedimento retórico mais frequente é, aliás, o da "inversão", e a queportanto resulta conveniente aplicar as teorias conspiratórias que eles aplicam aos outros, Edevemos considerar também, de outra parte, que são ideologias que consideram fundamentaistodas as questões "identitárias", pessoas que vivem num mundo habitado de símbolos, e paraas quais um emblema vale mais do que uma vida humana. Quando eles querem queimar, ouriscar, uma bandeira, queimam-na ou riscam-na inteira. Para eles os símbolos não sãoarbitrários nem irrelevantes. Cada centímetro é tão valioso como uma cidade perdida ouconquistada. Quando renunciam a uma parte do símbolo é que alguma coisa querem dizer.Quando fazem este género de coisas estão a enviar uma piscadela para os acólitos: "bom, nósdizemos que somos anti-sionistas, mas vocês já sabem que o que queremos dizer é que épreciso riscar os judeus da face da Terra".Interpretação que se revela, aliás, como incontestavelmente certa quando encontramos naUncyclopedia (uma Wikipédia "alternativa" sem "censura", onde ao lado de muitas piadasabsurdas podemos encontrar apologia da violência, elogios de Hilter ou conteúdos anti-
  23. 23. semitas como é o caso) este símbolo catalogado como "No Jews" , "Não aos Judeus"(http://uncyclopedia.wikia.com/wiki/File:No_Jews.gif), ou o vemos em páginas anti-semitascomo Veterans News Now ( cujo nome pretende evocar, ao mesmo tempo, pelas siglas VNNo da CNN e pela última palavra e o ar bélico do site também o do filme "Apocalypsis Now"http://www.veteransnewsnow.com/2011/12/05/thought-u-s-military-would-protect-individual%E2%80%8Bs-from-in-rank-bigotry-and-injustice/no-jews-allowed/), utilizado aolado da sua tradução em letra gótica "Não se admitem judeus!":Bom, na verdade o mero facto de riscar a bandeira de um outro país não deveria seradmissível na propaganda política de um país civilizado. Imaginam o que aconteceria se umPartido anti-romeno se apresentasse às eleições europeias com o mapa da França com umabandeira romena riscada no centro? Daí que resulte ainda mais surpreendente que isto sejapermitido num país que costuma ter as coisas muito mais claras que Espanha e cujo SupremoTribunal declarou ilegal a campanha BDS de boicote a Israel por constituir necessariamenteum acto de xenofobia.Campanha precisamente em cujo logo parece inspirar-se o do Partido Anti-sionista, e com oqual também se realiza (de uma maneira se calhar mais clara) a subtil transição gráfica doanti-sionismo para o anti-semitismo, do "Boicote a Israel" ao "Não aos judeus!". O daesquerda é tirado da página brasileira Liberdade Palestina(http://liberdadepalestina.blogspot.com.es/2010/09/bds-o-boicote-internacional-israel.html), eo da direita de uma página polaca empenhada também em tão nobre fim(http://palestyna.wordpress.com/2011/02/08/list-otwarty-do-rzadu-rzeczypospolitej-polskiej/):E campanha também à que coincide que, nestes dias atrás, acabou de somar-se publicamenteo BNG. É bom sabermos que na França seria considerado um partido ainda mais xenófobo doque o Partido Anti-sionista.No cartaz eleitoral acima, além do judeu ortodoxo (cujo nome não se especifica, neminteressa, porque como sabemos não representa senão o álibi do "judeu convidado")
  24. 24. aparecem, junto com Soral, duas personagens que delineiam outros tantos fios da malha doracismo, negacionismo, nazismo e anti-semitismo.No centro Dieudonné Mbala, e ao lado direito dele, Yahia Gouasmi (nos nomes, em baixo, oslugares aparecem trocados). Yahia Gouasmi é o presidente da Federação dos Xiitas da Françae dirige o centro pró-iraniano Zahra. Num comunicado do próprio Partido Anti-sionista,reconhece-se que se reuniu com o comandante do grupo terrorista libanês pró-iraninaoHezbollah, Hassan Nasrallah, patenteando a coincidência de objectivos e estratégias eproclamando a vontade de colaboração:http://www.partiantisioniste.com/communications/rencontre-entre-m-gouasmi-parti-anti-sioniste-et-m-nasrallah-hezbollah-331.htmlOs caminhos de Dieudonné e Gouasmi voltam a levar-nos, como cabia esperar, a Teerão:Neste encontro, celebrado em Novembro de 2009, Dieudonné conseguiu tambémfinanciamento, não já para o partido mas para sua particular "carreira artística", assegurandoque graças à generosidade do regime islamista ia poder fazer filmes à altura dos deHolliwood, dominado, como todo o anti-semita sabe, pelo lobby judeu. Perdão: ele disse"sionista".http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20091128.OBS9083/dieudonne-en-iran-pour-recolter-des-fonds-et-liberer-reiss.htmlMas a figura de Dieudonné tem outras muitas ramificações. Dieudonné faz parte dessatendência ultimamente registada na política pelo freakismo. Como Tiririca no Brasil ou BeppeGrillo em Itália, Dieudonné começou como cómico antes de se decidir a provar fortuna napolítica.Dieudonnée é originário da República dos Camarões, mas colabora sem pudor com partidosxenófobos como o Front National. Dieudonné é mulato e colabora sem pudor commovimentos racistas. Dieudonné é um caso único dentro da cromatismo político. Porque é umracista mulato. Primeiro, porque é mulato e racista (exactamente igual que há judeus anti-semitas), mas também porque, dada a sua largueza de espírito, é também capaz de ser racistadas duras cores, um "racista de amplo espectro" podíamos dizer.
  25. 25. Assim, as suas amizades políticas, e pessoais, abrangem um racista branco, Jean Marie LePen, padrinho da sua filha e padrinho também na sua carreira política (mais um convidado, jáagora, no Bruschenschaftenball negacionista. Le Pen é outro nó da malha e portanto também"muito bem sentado", na fotomontagem inicial, à beira de Beiras), e um racista negro comoKémi Seba (alcunha que significa "Estrela Negra"), fundador de diversas organizações desupremacismo negro, condenado por instigação ao ódio racial, etc. Coisa que também nãodeve estranhar, pois Le Pen e Kémi Seba concordam numa coisa: brancos e negros devemviver separados.Como cómico a especialidade de Dieudonnée são, como se pode imaginar, as piadas anti-semitas, e foi graças às polémicas que suscitaram que ele se tornou uma vedeta do "show-bisness". Num dos seus espectáculos fez a "brincadeira" de convidar para sair ao palco, nofinal, o ancião, mas nada venerável, historiador Robert Faurisson, considerado o "patriarca donegacionismo", e pedir ao público (entre o qual se encontravam, como não, Jean Marie LePen e Kémi Seba) uma salva de palmas para ele. A "piada" consistia em que um figurantevestido com o uniforme às riscas dos internados nos campos de concentração e uma estrela deDavid amarela no peito, saísse também à cena e lhe desse como troféu uma menorah commaçãs espetadas nos braços (escapa-me a simbologia disto, mas alguma ofensiva e delirantedeve ter), entre uivos desenfreados de Dieudonné que não cessava de pedir mais e maisaplausos para Faurisson ao público (http://www.lemonde.fr/societe/article/2008/12/28/l-humoriste-dieudonne-derape-une-nouvelle-fois_1135912_3224.html)Robert Faurisson leva-nos de novo a Teerão, onde foi também convidado estrela no congressonegacionista de 2006. Ali provavelmente terá encontrado Duke. Mas não terá sido, de certeza,o seu primeiro encontro com um racista americano. Este historiador, que nega a autenticidadedos diários de Anne Frank, das câmaras de gás, e só afirma as virtudes da principais figurasanti-semitas colaboracionistas do governo de Vichy, já se tinha dirigido, em Setembro de1979 aos militantes da National Alliance (http://www.anti-rev.org/textes/Fresco88a/index.html), o partido neonazi americano que encontrávamos naprimeira das webs analisadas, mesmo num lugar acima da celebração da negativa de Beiras eBNG a lamentar as vítimas do holocausto. Camaradagem ultra-direita-esquerda que tambémnão lhe resulta alheia a Faursisson que foi publicamente defendido por um "alternativo" comoNoam Chomsky, que não se importou, aliás, de fazer o papel de "judeu convidado" a prefaciarum livro deste campeão do negacionismo (http://www.anti-rev.org/textes/VidalNaquet81a/)Entre todos os nomes de pessoas e de grupos que celebraram o repúdio de Beiras e BNG amostrarem solidariedade com as vítimas do Holocausto, entre não importa que dois pontos docírculo de infâmia que desenha o percurso desse regozijo, podemos estabelecer, comoestamos a ver, ligações múltiplas.Não resulta estranho encontrar, por exemplo, o ultra-nacionalista francês Alain Soral comoprotagonista do site "Open Revolt" (http://openrevolt.info/2012/09/14/alain-soral-political-incorrectness-ideology-of-resistance/):
  26. 26. Já sei que pode parecer uma página do mais "alternativo". Mas repare-se no logo da estrelaverde. É o mesmo do que aparecia no site "The Green Star", donde tirávamos a foto do ultra-nacionalista russo Alexander Dugin com o emblema hitleriano do "movimento euro-asiático"atrás. Essa estrela verde é o símbolo do grupo New Resistence, o seu ramo americano:Sem dúvida está inspirado (mesmo o pretende patentear) no símbolo das Revolutionäre Zellen("Celulas Revolucionárias), um grupo terrorista alemão de estrema esquerda colaborador daFrente Popular para a Libertação da Palestina, com um forte viés anti-semita, que sequestrounão só israelitas, mas também judeus não israelitas só pelo feito de serem judeus, e, pelomesmo "pecado", planeou assassinar o célebre caça-nazis Simon Wiesenthal e o líder dacomunidade judia alemã:
  27. 27. A cor verde, segundo eles mesmo confessam (http://americanfront.info/green-star/) é umahomenagem a Muammar Gaddafi (venerado no site como mártir e guia da sua causa), queescolheu para a "revolução" líbia, não o vermelho das ocidentais, mas a cor simbólica doIslão, a cor do chamado à oração (de facto hoje em dia costumam colocar-se fluorescentesverdes no alto dos minaretes, e é a cor das fitas com versículos do Alcorão que se usam osterroristas do Hamas). Porque neste site abundam também as citas de Maomé, ao lado depanegíricos não só de Muammar Gaddafi, mas também de Hugo Chávez, cujas exéquiasocupam um enorme espaço.Então? Cada vez mais progressista, não acham?New Resistence é um movimento fundado por um líder neonazi americano que responde, asério, ao muito ilustrativo nome de James Porrazzo, sobre quem nos ilustra este informe doSoutthern Poverty Law Center, uma organização americana de luta contra o ódio e aintolerância: http://www.splcenter.org/get-informed/intelligence-report/browse-all-issues/2012/winter/the-fourth-positionPorrazzo provém do American Front, o principal grupo de skinheads racistas americanos.Declarado admirador de Muammar Gaddafi, foi-se aproximando cada vez mais de gruposislamistas como Hamas, Hezbollah e Al Qaeda, até que encontrou nas teorias de Dugin asíntese perfeita de tudo isso.Pode parecer estranho (se uma nova salada mental pudesse estranha a estas alturas) que ummovimento tão anti-americano como o de Dugin, tenha um ramo americano (um americanoeuro-asiático, e ainda em cima contrário à mundialização, deveria ou exilar-se na Antárctidaou suicidar-se...). E não deve estranhar porque o objecto reconhecido(http://americanfront.info/new-resistance/) de New Resistence é precisamente destruir osEstados Unidos e estabelecer, no seu território, uma série de nações determinadas comcritérios étnicos: uma para os brancos, outra para os negros, outra para os índios, etc. Por issoNew Resistence se declara "não racista". E ao que parece está de acordo com outrosmovimentos "não racistas" negros (Porrazzo declara-se admirador também de Malcom X),índios, muçulmanos, chicanos etc. (como New Black Panther Party, Nation of Islam, o grupo"nacionalista chicano" Aztlán, etc.)Resulta demolidor comprovar que os dois vínculos que temos encontrado entre Dugin e Soralsejam por um lado admiração que por eles sentem James Porrazzo e New Resistance, e dooutro a admiração que eles sentem por Beiras e BNG.Não é, porém, a única ocasião em que podemos encontrar vultos do Partido Anti-sionista empáginas inspiradas no "pensamento" (por o chamar de alguma forma) de Dugin. Como"Remetre Les Choses en Place"("Pôr as coisas no seu lugar"), que, com um texto e umaimagem do profeta da Eurásia, se apresenta como uma página nem de esquerda nem dedireita, cristã e muçulmana, contrária ao capitalismo e à mundialização promovidas pelos"lobbies ocultos", e contra os quais o melhor antídoto é a restauração do Sacro ImpérioRomano-Germânico.Nesta ocasião (http://justice.skynetblogs.be/archive/2009/12/30/les-agents-immobiliers-en-israel.html)insere-se um comunicado do Partido Anti-sionista em que se denuncia a conspiração dasimobiliárias israelitas para comprarem terrenos e casas aos árabes e vendê-los a judeus (noseguinte post afirmarão que os judeus roubam as suas terras aos palestinianos, mas isso énormal). Mas o que mais nos interessa é o desenho que o acompanha, porque ele traz à bailaum terceiro convidado, também já conhecido:
  28. 28. Já tínhamos encontrado a bandeira de Israel relacionada com o "libelo de sangue", e agoraencontramo-la relacionada com outro libelo, também exponente máximo do anti-semitismo: olivro "Os Protocolos dos Sábios de Sião", pretensa "confissão de parte" (como outras muitasutilizadas hoje em dia, sem ir mais longe nessa mesma informação) falsificada pela políciasecreta czarista para justificar os progroms de fins do XIX na Rússia. É por isso que vamosencontrar essa capa reproduzida onde? No site "This is Zionism" em que acabámos pordescobrir as pegadas do Ku Klux Klan:A serpente com as fauces abertas que "personifica" a conspiração judia para fazer-se com odomínio do mundo, serve perfeitamente portanto para ilustrar igual a conspiração imobiliáriasionista para adquirir uns quantos metros quadrados a um preço livremente pactuado com umproprietário árabe.É só mais um pequeno nó, neste caso, em que se apinham, à volta da causa palestiniana, maisuma vez Soral, Dugin e Duke, três das grandes mentes (ainda que eu preferiria não tratar estesde mentes) que aplaudiram a negativa de Beiras e BNG a lamentarem por cinco minutos oextermínio nazi, não fosse isso favorecer Israel.Encontro que vem ilustrar, aliás, duas coisas valiosas que temos aprendido neste estudo:- Como o moderno anti-sionismo bebe nas fontes do mais rançoso anti-semitismo, por meiode um transvasamento constante de argumentos ideológicos, recursos retóricos e elementossimbólicos de um para o outro.- Como existe uma rede internacional de movimentos e pessoas que abrangem um amploespectro (negacionistas, neonazis, racistas, supremacistas de todas as latitudes e cores, anti-
  29. 29. sistema, anti-mundialistas, anti-sistema, anti-ocidentais, pró-palestinianos, etc.) através daqual se realiza esse tráfico.São movimentos e pessoas com projectos em muitos aspectos antagónicos, alguns mais"nazis", mais revolucionários, mais centrados na "raça", outros de corte mais "fascista", maistradicionalistas, mais centrados no nacionalismo. A maior parte deles são furiosamente anti-americanos, mas estão também os nacional-socialistas americanos, que por sua vez nãodeviam dar-se muito bem com os sulistas do Ku Klux Klan, por não falar do imperialismorusso à Alexander Dugin, cujo projecto devia chocar, em boa lógica, com todos os outros, se aexpressão "boa lógica" pudesse fazer aqui algum sentido.Há só duas coisas realmente comuns a todos esses grupos e indivíduos: o anti-semitismo e ofacto de terem celebrado o nojo manifestado por Beiras e BNG de lamentarem a morte cruelde seis milhões de judeus. Claro que isso também pudera indicar que não se trata afinal de"duas coisas".Não esqueçamos que toda a trama dessa rede fomo-la desenhando a seguir o eco do aplausoao facto de Beiras e BNG terem rejeitado condenar o Holocausto. Como se fôssemosmorcegos, a reverberação dessa notícia é que nos forneceu o retrato da extrema-direitainternacional. E isso deveria fazer com que Beiras e BNG pedissem perdão publicamente coma cara vermelha de vergonha.Também por isso não deve estranhar tanto o facto de termos encontrado, num fio dessamalha, um conterrâneo. É um fio menor que sai daquela versão "gaddafista" do imperialismoeuro-asiático de Dugin, o site islamo-chavista The Green Star. Porque ele nos oferecia, numacoluna à direita, ou mesmo à ultra-direita, uma ligação directa, ou mesmo ultra-directa, paraum blog português intitulado Legio Victrix.A "piscadela" do feixe ("fascio") ao lado da águia imperial, com o álibi do latim (como a fazerver que se trata de saudades da Roma Imperial, quando se trata mais de admiração por umaRoma de há apenas 80 anos), indicam-nos que estamos claramente diante de um blog mais"neofascista" do que "neonazi". "Piscadela" que os conteúdos confirmam sobejamente.Entrei nele para ver se havia alguma reacção à ignomínia perpetrada no Parlamento Galego.Não encontrei. Mas, a pesquisar, topei inesperadamente um texto "made in Galicia":http://legio-victrix.blogspot.com.es/search/label/Xos%C3%A9%20Curr%C3%A1sTrata-se de uma defesa acesa de Gaddafi, aquando da guerra civil na Líbia, e contra aintervenção da OTAN. O texto acaba, nem mais nem menos que a dizer que, face as pressõesinternacionais: "o que não tem que fazer Muammar Gaddafi é convocar eleições livres,permitir a existência de partidos e aplicar as receitas europeias ao seu país."Assinam o texto Xosé Currás e Rafael Fernandes Veiga, que, a pesquisar um pouco mais,resultam ser dois empresários galegos com interesses económicos na Líbia de Gadaffi:http://www.farodevigo.es/portada-o-morrazo/2011/02/27/busca-ne-gocio-libia/522414.htmlQue perfeita síntese de anti-liberalismo político e de liberalismo económico!
  30. 30. Depois de tudo o visto, já quase que não provoca muita surpresa, encontrar um texto de umdos autores (ao que parece o principal e o ideólogo da dupla) Xosé Currás, também num meionacionalista galego:http://praza.com/opinion/461/cara-ao-nacionalismo-disxunto/É uma espécie de carta aberta escrita na sequência da cisão do BNG de que saiu a nova forçade Beiras. E, curiosamente, nela Xosé Currás manifesta ao mesmo tempo a sua adesão aoBNG (quer dizer à liderança da UPG do BNG) e a sua admiração por Beiras, a defenderprecisamente a linha (a coligação estratégica com Esquerda Unida) que acabaria por darorigem, meses depois, à AGE.Deveria causar arrepios constatar que "o autor de um texto publicado num meio neofascista"*a elogiar Gaddafi e a abjurar da democracia, seja também o autor de um texto publicado nummeio nacionalista galego a elogiar Xosé Manuel Beiras e defender o seu projecto político.Há estudos que analisam as relações sociais com os conceitos da física de redes. Num cristalos átomos estão ordenados e quaisquer dois não se relacionam assim tão facilmente masatravés de uma estrutura. Quanto mais facilmente se possam relacionar dois dados átomos,"menos cristalina" e mais fluida é a estrutura do material estudado. Os átomos relacionam-semais livremente, e mais frequentemente, num líquido e logicamente muito mais num gás.Acabámos de descobrir que, para chegar de Beiras a Dugin através de Xosé Currás, sóprecisávamos, até há pouco, dous cliques de rato: um de "Praza Pública" para "Legio Victrix",e outro de "Legio Victrix" para "The Green Star". Dois graus de separação vêm a equivaler àdensidade de uma geleia, e mesmo uma geleia bastante fluida.Agora, após ter-se tornado célebre no mundo da ultra-direita pelo seu nojo a renderhomenagem às vítimas do Holocausto, a distância informativa e informática entre Beiras e* Utilizo este circunlóquio para não dizer "o colaborador de uma página fascista" ou "um fascista" directamente,porque, a ser honesto, não posso estar seguro em 100% de que essa participação tenha sido voluntária. Semprepudera ter acontecido que o texto tivesse sido copiado de outro lado sem conhecimento nem consentimento doautor, e que da sua presença aí não caiba deduzir nenhuma adscrição política. Vejo com tudo, bastanteimprovável. No final do mesmo cita-se, de facto, uma fonte: http://yrminsul.blogspot.com/2011/10/libia-contrainformacao-de-combate.html, mas a ligação não funciona, e quando se tenta colocando-a na barra dedirecções do navegador, aparece um aviso a dizer que essa página não existe. De qualquer modo, o nomedo blog, mesmo que fosse na verde aquele onde foi originalmente colocado o texto, não deixa lugar adúvidas. O "irminsul" (ou "yrminsul" como se grafa também em línguas germânicas) é um símbolopertencente à iconografia mística do esoterismo nazi. Era o símbolo que se colocava nas lápides dos SSmortos. Então, neonazi ou neofascista, para mim pouca diferença faz. Se fizermos, aliás, uma procuradirecta pelo título do artigo e o nome do seu autor ("contrainformação de combate", "Xosé Currás":https://www.google.pt/search?q=%22contrainforma%C3%A7%C3%A3o+de+combate%22+%22Xos%C3%A9+Curr%C3%A1s%22&num=100&safe=off&filter=0 ) aparecem apenas 6 ocorrências. As 2 mais antigas sãoligações para a própria Legio Victrix, outras duas para páginas esotéricas bastante dúbias (uma inclusiveque fala dos "illuminati") e as outras duas para um blog que compila teorias conspiratórias. Todas 4 dedatas posteriores à publicação na página fascista, e todas 4 citam Legio Victrix como fonte. Não é possívelportanto que tenha havido "corta e cola", e o texto deveu ter sido enviado directamente para o blog fascista.A língua utilizada revela, aliás, ter sido escrita por um galego habituado à norma da RAG que tentaadaptar-se (com desigual sucesso) à norma lusitana, não por um português que "traduz" um texto galego. Oque parece corroborar a impressão de que o texto foi preparado propositadamente pelos autores para a suapublicação nesta página.
  31. 31. qualquer dos líderes neonazis antes mencionados, é já apenas de um grau (digamos, emtermos computacionais, de um "clique"). Parabéns. A sua relação com eles passou de geleiapara plasma, o estado mais fluido da matéria.Como pudemos comprovar ao longo deste escrito existe uma "tripla aliança", hoje em dia,entre uns colectivos aparentemente dispares. De uma parte a confusa amálgama dosmovimentos "alternativos", radicais de esquerda, anti-sistema, entre os quais pretendemsituar-se Beiras e BNG. Da outra, o turvo sistema coloidal que formam um integrismoislâmico que sempre foi além do religioso, e um pan-arabismo que nunca conseguiu sercompletamente laico. E em terceiro lugar o mundo, não menos viscoso, do neonazismo, doneofascismo, dos ultra-nacionalismos, supremacismos, e racismos de toda a classe.Há apenas três bandeiras que unem todas essas forças. Uma a do ódio a Israel. A outra, a quevíamos no final do último testemunho: o ódio à democracia (bom, à democracia que eleschamam de "liberal", mas não se conhece, nem no espaço nem no tempo, nem no mundo nemna história, nenhuma outra democracia autêntica que não seja essa). E por último o ódio aoprocesso imparável da mundialização. Se na catequese nos ensinavam que os inimigos daalma eram o demónio, o mundo e a carne, para estes os inimigos (à escolha: da pátria, da raçaou da fé), também são três. No lugar do demónio deve estar a democracia (que para algo tem"demo" na raiz). No lugar da carne, só pode estar Israel. Não por nenhuma causa. Só porexclusão. Porque, curiosamente, o único que não varia é "o mundo". O ódio aos EstadosUnidos podia ser um quarto elemento comum, se não fosse que nesse mercado de ódiostambém entram também alguns "patriotas" e racistas americanos (bom, também esse ódiopode que seja ainda mais acentuado no caso dos sulistas do Ku Klux Klan, mas há também"nacional-socialistas" yankees).O próprio Dugin reconhece esta aliança implícita num dos seus textos mais didácticos: "SobreAmigos e Inimigos":
  32. 32. "Se és a favor da hegemonia liberal global, és um inimigo. Se és contra, és um amigo. Oprimeiro é inclinado a aceitar esta hegemonia: o outro anda na revolta!"(http://americanfront.info/2012/07/27/alexander-dugin-on-friends-and-enemies/).Irmandade que podemos ver "em carne e osso", patenteada nesta imagem de umamanifestação (legal e publicitada pelos meios) realizada no centro de Moscovo emsolidariedade com Bachir El-Assad, em que podemos ver, além das pequenas bandeiras russae síria, outras maiores com o já conhecido emblema "euro-asiático" (© Adolf Hitler, lembre-se) junto a bandeiras do Hezbollah, bandeiras vermelhas e o símbolo da fouce e o martelo:A coisa então não começa neste ano nem com esta votação. Muito pelo contrário, a atitudehostil de Beiras e BNG à Declaração Institucional em Memória das Vítimas do Holocausto,não representa o início de nenhum processo, mas a consequência de um que vem de muitomais longe.O nacionalismo galego tem um pecado original. Todos os nacionalismos se reivindicam daidade de pedra, mas na verdade todos eles nascem no romantismo, como consequência doconceito de Estado-Nação que cristaliza na Ilustração (em Rousseau e em Montesquieu, queestes movimentos paradoxalmente tanto odeiam) e que se concretiza pela primeira vez narevolução francesa. O nacionalismo galego, como o espanhol, como o polaco, como o alemão,é um produto do romantismo, e como tal tem um elemento de irracionalidade e mitointrínseco. Goya colocou este lema a um dos seus mais famosos "Caprichos": "Os sonhos darazão produzem monstros". Ora, a racionalização das fantasias não os produz menores.Sem ir mais longe, a letra do hino galego, que é cantado de punho erguido pelos nossos"esquerdistas", foi feita por um proto-nazi, machista, com um característico complexo deinferioridade/superioridade, um Alain Soral de Ponteceso e do século XIX, chamado EduardoPondal. Um poeta "wagneriano" sempre imerso numa atmosfera delirante de exaltação daraça, da força, da virilidade agressiva.Tem-se discutido às vezes acerca do significado da expressão "nação de Breogan" queaparece no hino galego, que se interpreta no sentido político do nacionalismo actual, mas quechoca com outros versos do próprio poema original de que se toma o hino (mas que não se
  33. 33. cantam nele) onde a Galiza é chamada de "região de Breogan". Mas há uma outrainterpretação concorda muito bem com uma outra passagem do poema original (também nãoincluída no hino) em que se invoca a "Grei de Breogan". Breogan, para Pondal, era o míticoprogenitor de todos os galegos, e por isso a interpretação mais cabal da palavra "nação" nessecontexto seria a etimológica: "conjunto dos nascidos de...". "Nação" é um cognato de"nascer". A "nação de Breogan" seria o conjunto dos nascidos de Breogan, a suadescendência.Embora a palavra "nação" seja latina, o conceito é anterior à fundação mesma de Roma.Séculos antes de que o latim começasse a ser escrito, já se falava na Bíblia inúmeras vezes da"nação de Israel" (a primeira em Éxodo 40, 38), o que, como no hino galego, quer dizer "oconjunto dos nascidos de Jacob". Como se sabe, Israel é a alcunha que ganhou Jacob (o míticoprogenitor dos míticos progenitores das míticas doze tribos) após ter lutado com um anjo quelhe enviava deus, e quer dizer "aquele que luta contra Deus", o que já adianta o caráctercomplexo das futuras relações entre os judeus e a divindade. Daí que essa expressão às vezesapareça também traduzida como "povo de Israel", "filhos de Israel" ou "os israelitas", oucomo simplesmente "Israel". O nome da "nação" funde-se com o deu seu procriador, e surgeassim o primeiro nome de "nação" (não de "povo", nem de Estado) de que há registo.O conceito de "nação" aparece pois como o de "conjunto da descendência de algumapersonagem mítica". O nacionalismo de Pondal é nacionalismo sim, mas não no sentidopolítico actual. É um nacionalismo etimológico, "bíblico", "mítico", "religioso". Na verdadetodo o nacionalismo tem bastantes elementos comuns com a crença religiosa. Para começar, ocarácter axiomático e irracional da sua tese fundamental: a existência "per se" dessa nação oudesse deus.É claro que a expressão "nação de Israel" aparece apenas nas versões romances (e cristãs). Nooriginal hebreu a expressão que aparece é "beth Israel", traduzida na maior parte das versõesromances modernas (e em todas as traduções judias, que nunca tiveram como referência atradução latina mas a original hebraica) como "casa de Israel". Ora "beth" aqui não significa"casa" como edifício, mas no mesmo sentido "dinástico" com que se usava até há pouco nomundo rural galego, onde todo o mundo sabia de que "casa" era, que nada tinha a vernormalmente com o edifício que habitava. O sistema é idêntico ao bíblico, porque adenominação da "casa" faz-se, não a partir do nome "legal" de um indivíduo tomado como"patriarca" (chame-se Jacob ou José Pereira), mas da sua alcunha (seja "Israel" por ter lutadoconta deus, seja "da Raposa" por José Pereira ter passado a ser conhecido como "Pepe daRaposa" após ter caçado uma). Os teóricos descendentes do primeiro, durante milénios, serão"da casa de Israel", ou "os de Israel", ou os "israelitas", e os descendentes reais do segundo,durante várias gerações mas nem tantas, serão "da casa da Raposa", ou "os da Raposa". Nãoexiste a denominação "os rapositas", mas é só por falta de tempo histórico para ela podercoalhar.Este não foi apenas "o nascimento de uma nação". Foi o nascimento do conceito de "nação".Se os nossos nacionalistas pretendessem aderir com coerência à campanha de boicote aosprodutos de Israel, deveriam deixar de o ser, porque o nacionalismo, como tantas outrascoisas que nos fazem a vida mais fácil, é um invento israelita, ainda que não sei se por este ahumanidade deve estar-lhes realmente muito agradecida. Naturalmente que há outrosnacionalismos menos "românticos", ou menos "essencialistas", como o de muitos paísesafricanos actuais, que se reconhecem como fruto do acaso histórico de ter sido colonizadospor uma dada potência.No mundo antigo, por exemplo, ninguém relacionava fronteiras com línguas ou culturas. Eraantes ao contrário: eram os Estados que conformavam os domínios linguísticos e usosculturais. Os povos invadidos tinham (e não sem razão) o sentimento apenas de terem mudado
  34. 34. de senhor. Pare eles Estados e fronteiras eram mero fruto de interesses pessoais, de acasoshistóricos e de conquista. Concepção, já agora, bastante mais lógica, racional e baseada nosdados históricos objectivos, do que a crença mítica de que um dado território pertence desde aorigem dos tempos a um dado grupo humano que também existiu desde a noite dos tempos(Spengler, uma das bases teóricas do nazismo, dizia que as nacionalidades e culturas nasciamdos lugares, como o musgo nasce da rocha. E esta concepção inatista subjaz a todos osnacionalismos românticos).Até ao século XIX a única manifestação "nacionalista" na história da humanidade tinha sido arevolta judia de 66 d.C. Galaicos, Lusitanos, Íberos, Gauleses, Britânicos e Germânicos,lutaram contra os romanos antes da conquista, fieis aos seus "senhores naturais". Ora, umavez que foram conquistados, assumiam com "fair play" que tinham perdido o jogo, mudavamsem problemas de "camisola" (quer dizer de armadura) e passavam sem mais a "jogar comoromanos", a fazerem parte entusiasta, por exemplo, das legiões que iam alargar o império pelooriente. Os judeus não, porque a particularidade (realmente extravagante na altura) do seumonoteísmo os impedia de aceitarem o culto ao Imperador e admitirem qualquer poder acimado seu deus único e ciumento.Os nacionalismos nunca se deram bem com os judeus. Para já porque a sua presença rompe osesquemas dos nacionalismos modernos, como corpo estranho que desmancha a sua fantasiade unidade étnica, cultural e linguística, ao longo da história, de um território. Tambémporque, já não a sua presença nos territórios que deus, ou a natureza, tinha dado aos eslavos,aos germanos ou aos celtas, mas a sua mera existência como povo, punha em causa osprincípios mesmos do nacionalismo moderno, que pretende estabelecer una relação biunívocaentre língua, cultura e território. Diz-se que o judaísmo, a contrário do Cristianismo ouIslamismo, que santificam uma porção de espaço (uma igreja, uma mesquita, ou um paísinteiro) optou, expatriado pelos romanos, e destruído o seu único templo pelos mesmos, porsantificar uma porção de tempo: o Shabat. Talvez por isso tenham sobrevivido, no tempo, atodos os seus inimigos. Porque os judeus não precisavam de ter um território, nem uma línguacomum, nem um Estado, nem bandeira, nem exército, nem polícia, para manteremteimosamente a sua delgada identidade, a atravessarem o espaço e a permanecerem do tempo,infiltrados por todas as partes do mundo e ao longo de todos os séculos da história.Podemos concluir que os nacionalismos não se dão bem com o judaísmo por "pura inveja".Todos os movimentos (neonazis, racistas, islamistas, etc.) que temos visto ao longo desteestudo, referem-se a si próprios com o eufemismo de "movimentos identitários". Mais umtraço comum com os movimentos "progressistas", que também consideram fulcral a questão"identitária". Quando vejo criticar a proibição do véu islâmico como um ataque à identidadedas mulheres islâmicas que querem manifestar publicamente que são seres de segundacategoria, a deverem sempre submissão a um homem (pai ou marido), penso: "Que classe deidentidade é essa que pode levar o vento?". A identidade dos judeus pode parecer ainda muitomais frágil do que um véu, mas uma racha de ar não a consegue levar. Os judeus nuncabasearam a sua identidade nem numa peça de roupa (só os ultra-ortodoxos, mas esses são umaquestão à parte), nem num território, nem numa língua. Baseiam-na apenas nunca coisa quaseque intangível: a memória. A simples memória de serem "judeus", a consciência de nãopertencerem a nenhuma língua, a nenhuma terra (na sequência da II Guerra Mundial, muitospaíses, entre eles Espanha, qualificavam os refugiados judeus que lhes chegavam, como"apátridas").Com tão pouca coisa os judeus conseguiram, porém, sobreviver como povo ao longo demilénios. São o único povo do mundo antigo (Junto com os chineses! Compare-se!) que semantém como tal até aos nossos dias. Os gregos modernos ou os egípcios actuais não podemconsiderar-se realmente como uma continuação dos antigos. Outros povos, como osaborígenes australianos, por exemplo, mantiveram-se, pelo contrário, excessivamente iguais,
  35. 35. quer dizer: não "através da historia", mas a custo de viverem isolados do mundo e alheios aela. Só os judeus conseguiram manter-se como tais sem viverem isolados, mas participandoactivamente em todas as mudanças que o mundo experimentou nestes últimos 2.000 anos. Osjudeus foram os únicos que encontraram (provavelmente com a ajuda dos seus múltiplos esucessivos perseguidores) a arte de se manterem como tais "através da história" E isto é umaoutra coisa que nenhum nacionalismo lhes podia perdoar!Há curiosamente uma traço que o judeus ultra-ortodoxos compartilham com os anti-semitas (edaí que muitas vezes apareçam como os seus aliados): o seu ódio contra o judeu apátrida,contra o "judeu internacional". Os primeiros não lhes perdoam a ruptura entre a identidadejudia e a religião judia. E os segundos não lhes perdoam que a sua só existência ponha emcausa a ideia mesmo do "nacionalismo". Não lhes perdoam que eles tenham encontrado amaneira de ser eles próprios e estar no mundo. Do que mais gosto do "estilo de pensamentojudeu" é que é sempre contraditório (e a este traço alguma coisa deve dever-lhe a dialécticamarxista, tão esquecida pela nossa esquerda monofásica). Assim, os judeus, apesar de tereminventado o nacionalismo, foram também sem dúvida os primeiros "cidadãos do mundo" domundo.Se dizíamos que duas das bandeiras que uniam aquela "tripla aliança" de ultra-esquerdistas,islamistas e ultra-direitistas, eram o ódio a Israel (eufemismo do ódio aos judeus, à "casa deIsrael") e o ódio à mundialização, no ódio ao "judeu internacional" sintetizam-se ambas.Há muitas coisas que os nacionalismos não podem perdoar-lhes aos judeus. E o galego nãopodia ser, nisso, uma excepção. É curioso que apresente esta vertente anti-semita tão acusada,tomando em consideração de que se trata de um "anti-semitismo sem judeus", dado que,quando o nacionalismo galego começa, havia cinco séculos que a península ficara (graças auns curiosos aliados: os Reis Católicos. O ódio comum cria estas amizades imprevistas)"limpa" de judeus. Eu penso que a apresenta porque se trata de um "nacionalismo mimético"(que é o pior que se pode dizer de um nacionalismo). No nacionalismo alemão os judeusincomodam para eles se poderem sentir "mais alemães". O nacionalismo galego não é anti-semita para ser "mais galego" mas para ser "mais nacionalista". Para se sentir mais integradonos movimentos "identitários" mundiais, que também o são. Nos anos trinta o modelo era onazismo. Na actualidade os movimentos "alternativos", mas afinal pouco importa. Comovimos ambos compartilham esta fobia, chamem-lhe uns anti-semita, chamem-lhe outros anti-israelita.Essa corrente racista, celtista, ou mesmo "barbarista" (face a efeminação da romanização, aprimeira "mundialização") do nacionalismo galego, que já vem de Pondal, e chega até aosnossos dias, tem um dos seus máximos exponentes na figura de Vicente Risco, que em 1944publicaria uma documentada antologia do anti-semitismo intitulada "Historia de los Judíosdesde la Destrucción del Templo", em que precisamente hostilizava a figura do "judeuinternacional", embora fosse "tolerante" com a do "judeu nacional" (o do gueto voluntário, oultra-ortodoxo).Na altura Beiras teria os seus sete ou oito anos. Dada a grossura do volume, não é difícilconjecturar que, em grande parte, deveram crescer juntos. Mesmo pode ter acontecido queVicente Risco tivesse feito "festas" ao menino Beiras com as mãos sujas da tinta do libeloanti-semita. O caso de Beiras é precisamente paradigmático, por isso, em relação a todo esteassunto.As gerações posteriores, aquelas que nos setentas ou oitentas nos podíamos identificar como"nacionalistas galegos de esquerdas", fazíamo-lo numa espécie de revolta edípica contra ageração dos nossos país, que tinha suportado, ou pelo menos consentido, o franquismo. Haviaum doloroso processo de ruptura ideológica contra a educação no nacional-catolicismoespanhol que tínhamos recebido.
  36. 36. No caso de Xosé Manuel Beiras, não. Ele nasceu no mesmo ano da guerra civil (1936), noseio da família de um dos vultos do nacionalismo galego da pré e da pós-guerra, ManuelBeiras. Montaigne foi um caso inaudito de uma criança educada pelo pai, em pleno séculoXVI, com o latim como língua materna, como se fosse um cidadão do antigo ImpérioRomano numa ilha linguística, rodeada de francês, no meio da França. Xosé Manuel Beirasfoi também um caso de rapaz criado numa bolha de plástico, educado com o nacionalismogalego como língua materna, como se fosse cidadão da República Independente da Galiza (ouquem sabe se do Antigo Reino da Galiza, ou mesmo da mesmíssima tribo de Breogan, deBreogan...) numa ilha ideológica, rodeada de nacionalismo espanhol, no meio da Espanhafranquista.Ele é o verdadeiro "filho de proveta" do nacionalismo galego. Não teve de fazer revoluçãoedípica alguma para ser nacionalista galego. Ele começou a ver o mundo com esses anteolhosdesde que abriu os olhos. O nacionalismo dele é continuidade, e não ruptura. E daí que sejaum raro exemplo para podermos ver a continuidade das linhas de pensamento nacionalista.Bom, sejamos honestos, ainda que seja a custo de sermos complexos: nalguns aspectos elefez, sim a sua revolução edípica (sem ir mais longe, ao criar a AGE, acabou por fazerprecisamente aquilo que repudiava o pai e que o levara a separar-se do Partido Galeguista:coligar-se com a esquerda "espanholista") mas noutros muitos (provavelmente naquelesabsorvidos de uma forma mais inconsciente por terem a ver com preconceitos muito maisancestrais) não, e mesmo fez questão de inserir, já nos últimos anos de vida do pai, o PartidoGaleguista de direitas que ele "ressuscitara" na Transição, dentro de um BNG que se pretendia"muito de esquerda", como a marcar simbolicamente esta continuidade com o galeguismomais tradicional, e mais tradicionalista.Um ano antes de ele nascer (1935) o pai tinha fundado "Dereita Galeguista", uma cisão da aladireita do Partido Galeguista, desconforme com a coligação deste com partidos da esquerdaespanhola na Frente Popular. E fundou-a junto com Risco e Filgueira Valverde. Com osmesmos Risco e Filgueira Valverde que naqueles anos se dedicavam a percorrer as montanhasde Ourense a medirem os crânios dos paisanos (no que eles denominavam de "estudos deetnografia antropométrica") para chegarem à conclusão da pureza indo-europeia da raçagalega, muito mais limpa do que o resto dos peninsulares do elemento "semítico", o queconstituía um dos nossos elementos "identitários". Os mesmos Risco e Filgueira Valverdecujos estudos de etnografia nas páginas da revista Nós reflectiam as ideias racistas de Frazer,etnólogo britânico que foi outro dos precursores do nazismo e do conceito de "raça ariana". Omesmo Filgueira Valeverde autor de um hino das "Mocidades Galeguistas" que parecia das"Juventudes Hitlerianas". O mesmo Risco que só um ano antes (1934) publicava o livro dememórias "Mitteleuropa" em que fazia um elogio explícito e entusiasta de Hitler e daAlemanha nazi.Foi neste ambiente ideológico e cultural que Xosé Manuel Beiras se criou. Eu tenho ouvidoIsaac Díaz Pardo (outro "filho" do galeguismo da época, mas, nos seus últimos anos, uma dasmentes mais livres deste país) comentar, divertido, que quando via os trisqueles e ouvia oscânticos e as ideias que pululavam nos meios nacionalistas em que o pai tentava inseri-lo,com bom olfacto político abjurava de toda aquela "fascistada". Eu nunca tenho ouvido XoséManuel Beiras fazer este "exame de consciência".Não sei se Risco teve alguma vez o bebé Beiras no colo. Não sei nem se Risco teve algumavez algum bebé no colo. Talvez o pai dele, a partir do início da guerra, já não lhe falava.Curiosamente, o nacionalismo galego nunca lhe perdoou a Risco a sua adesão ao franquismo,mas nunca lhe censurou a sua anterior adesão ao nazismo. Esse simples dado é suficiente paraesclarecer alguma das linhas mais escuras do "pensamento galeguista". Na verdade a ilhanacionalista galega em que se educou o menino Beiras era tão anti-semita como o mar de

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