Notas sobre a gênese da formação sócio espacial do planalto catarinense

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Maria Graciana Espellet de Deus Vieira

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Notas sobre a gênese da formação sócio espacial do planalto catarinense

  1. 1. 1 NOTAS SOBRE A GÊNESE DA FORMAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL ‫٭‬ DO PLANALTO CATARINENSE Maria Graciana Espellet de Deus Vieira Professora do Departamento de Geografia / UDESCIntroduçãoO processo de gênese da formação social do planalto catarinense - inserido naespecificidade da unidade morfológica do planalto meridional brasileiro, queabrange os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -se estende do século XVIII ao XIX.Neste período, o território planaltino vivencia, em suas manchas de campos, onascimento de uma formação social feudal-mercantil. Esta, por sua própria estruturae funcionamento, se expande para além dos limites dos campos, adentrando asmatas que misturam araucárias e ervais, sob a forma da pequena produçãoposseira cabocla.Isso acontece a partir da dinâmica histórica e geográfica de um complexo de modosde produção primevo, que internamente combina o comunismo primitivo nômade esemi-nômade das populações indígenas, o patriarcalismo dos clãs bandeirantesmamelucos - preadores inicialmente de índios e depois de gado – e a teocraciajesuítica missioneira.O complexo primevo se movimenta – pulsa – regido pela convergência de suasforças produtivas humanas e naturais internas, locais e regionais, aliadas aquelasdo complexo geral, que neste período de tempo passa, em termos políticos, deColonial à Imperial, de Imperial a Republicano.No que se refere a relação Sociedade/Natureza, todos estes modos de produção,estas combinações, presentes na gênese da formação sócio-espacial do planaltomeridional tem profundo vínculo com o quadro natural, com os seus elementosfísicos e biológicos - caracterizando a estruturação de um tempo em que a parte dohomem ainda não assumiu nitidamente a preponderância. 1‫٭‬ XII Encontro Nacional de Geógrafos (ENG) ; João Pessoa, 2002.Relatório de pesquisa, parte do Projeto Integrado de Pesquisa/CNPq intitulado Santa Catarina: sociedade enatureza. Realizado pelo LABEUR (Laboratório de Estudos Regionais) do Departamento de Geociências daUFSC, envolvendo pesquisadores de várias universidades, tem como coordenador o Prof. Dr. ArmenMamigonian (USP).1 cf. Cholley, A. Observações sobre alguns pontos de vista geográficos. “É somente naquelas combinações as mais evoluídas que a parte do homem assume, nitidamente apreponderância”... Para Cholley, as combinações mais evoluídas se estruturam pós revolução industrial.
  2. 2. 21. O processo de conquista do planalto meridional “O ouro produziu a conquista e a colonização de Minas, Mato Grosso e Goiaz, mas, produziu também a conquista e a colonização de zonas situadas a incomensuráveis distâncias da localização das suas jazidas”... ( Oliveira Viana)A conquista colonial do planalto meridional inicia no segundo quartel do século XVI.Pequenos contingentes populacionais coloniais do litoral açucareiro vicentista,exíguo e insalubre, galgam pioneiramente a Serra do Mar, atingindo o planalto(São Paulo), sua porção norte. Os jesuítas fundam Piratininga. 2 Dentro do contextocolonial, a liderança na produção de riquezas para a Coroa Portuguesa cabe entãoao nordeste escravista e açucareiro; logo, as atividades que se impõem para asobrevivência da formação meridional nascente, frente a sua posição periférica,resultam em grande mobilidade dos grupos que a compõem. A aliança com algumas tribos indígenas, o apresamento e escravização de índiosaldeados e ou reduzidos pela Igreja Católica, através da missão evangelizadorajesuítica, representa papel crucial na formação dos clãs bandeirantes do planaltomeridional. A constituição de uma “muralha movediça” , na imagem de GilbertoFreyre3, traduz a combinação do desejo de ascensão dos colonos da penínsulaibérica com o nomadismo e espírito guerreiro das nossas tribos comunistasprimitivas. Não é por acaso que esses clãs mamelucos tinham como principallíngua o tupi-guarani, obrigando a Coroa Portuguesa a proibi-lo no século XVIII. 4Esta combinação étnica e social, garantiu o exercício das atividades bandeirantes,seja na forma das bandeiras mineradoras (Planalto Oriental e Central/ MinasGerais, Goiás, Mato Grosso), quanto preadoras de índios e depois de gado (porçãoSul do Planalto Meridional/ Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). 5Neste período de preação indígena, as razias dos paulistas sobre as missõesjesuíticas de Guaíra e Tape (décadas iniciais do século XVII: clãs de RaposoTavares e Manuel Preto, por exemplo), provocaram além de sangue eescravização, o êxodo da população guaranítica missioneira para as bandas de ládo Paraná e do Uruguai. Caso não houvesse sido encontrado ouro nas terras altasdas Minas Gerais, estas razias teriam se prolongado e estendido ainda mais o seualcance.A descoberta das minas, aliada ao despertar para a “consciência do valoreconômico da planície platina” - que abrigava então centenas de milhares decabeças de gado - vão sustar o ciclo de preadores de homens, substituindo-o pelode preadores de animais.6 O meio de produção fundamental deixa de ser o próprio2 sobre o assunto consultar o estudo de Prado Jr O Fator Geográfico na Formação e no Desenvolvimento daCidade de São Paulo” In: Evolução Política do Brasil e outros Estudos.; como também o trabalho deBarros, G. L. A Cidade e o Planalto.3 Freyre , G. Casa Grande e Senzala, p. 95.4 cf. Pereira, R. M. Fontes do A. A Geografia e as Bases da Formação Nacional Brasileira, p. 895 cf. Vianna, O. Populações Meridionais do Brasil, vol. II, p.6 idem
  3. 3. 3Homem - os indígenas - sendo substituído pelo gado bovino, cavalar, muar, que seproliferara no Rio Grande do Sul, a partir das estâncias jesuíticas. Estas nasúltimas décadas do século XVII, se recompõem através do retorno dos jesuítas-missioneiros às bandas de cá do Uruguai, onde fundam os Sete Povos dasMissões.A propriedade dos homens, fonte da riqueza dos bandeirantes paulista, ésubstituída pela propriedade dos animais.A formação pastoril, que então se gesta, tem como objetivo inicial abastecer degado a formação mineradora. Esta atividade, ainda impregnada de espírito nômade,aos poucos passa a se sedentarizar, formando vilas, povoados e estânciascoloniais, transformando o “meio de produção fundamental” 7 de móvel ( homens edepois gado) em fixo – a terra.O monopólio da terra forma a estância pastoril, o precoce feudalismo 8 das áreas decampo do Brasil Meridional.É só a partir deste momento que podemos considerar concretizado o processo deconquista desta porção sul do território brasileiro, pois é a partir daí queinternamente a formação pastoril sul-brasileira se estrutura politicamente, a pontode ser capaz de se contrapor militarmente aos interesses do Império Brasileiro em1835, resgatando a sua origem insubordinada e guerreira e impondo, pela força,uma “íntima aliança” com os senhores de escravos das áreas agrícolas emanufatureiras, assim como com “.a novel classe dos comerciantes, surgida com aAbertura dos Portos –Independência, o pacto de poder que assumiu a forma deSegundo Império.” 92. A conquista do planalto catarinense: os Campos de Lages e CuritibanosO grande obstáculo para o transporte do gado na fase inicial de relacionamento daplanície platina com a região de mineração, serão a Serra do Mar e as Escarpasdo Planalto, a Serra Geral.(...) “Na região catarinense, o paredão da grande cordilheira oferecia um aspectoessencialmente rebarbativo e penhascoso, que a tornava, aí, de penosa, ouimpossível acessibilidade. (...) Os preadores lagunistas dominaram, porém, todosestes obstáculos. Em 1728, abriram , através destes flancos rebarbativos, umagrande estrada – a estrada do Araranguá.” 107 cf. Rangel, I. Dualidade Básica da Economia Brasileira, pp 27 e 28.8 conforme Ignácio Rangel nas áreas de campo do Brasil Meridional, assim como no sertão nordestino, a atividade pastoril estabeleceu precocemente a terra como meio de produção fundamental, decorrendo daí o “feudalismo precoce”.9 Rangel, I. Feudalismo e Propriedade Fundiária in: INCAO, Maria Angela d’ (org.). História e Ideal, p 216.10 Vianna, O. op. cit. vol II, p97.
  4. 4. 4Ao chegarem em cima da serra deram com “campos e pastos admiráveis, e nelesimensidade de gado, tirados das campanhas da nova colônia, e lançados naquelessítios pelos Tapes das Aldeias dos padres jesuítas no ano de 1712.” 11Até cerca de 1740 esta estrada pertencerá ao percurso arterial de tropas, ligando Viamão,Laguna, Lages, Curitiba e Sorocaba. A partir de então o litoral catarinense volta a sedesarticular das terras de Serra Acima, mas ao contrário de Laguna, Lages permanece nocircuito arterial das tropas, fortalecendo a atuação da corrente planáltica de ocupação. Estamudança de percurso, permanecendo Lages como ponto de passagem obrigatório, agora nãomais ligada ao litoral, mas sim ao planalto e planícies riograndenses, imporá umapreocupação de cunho estratégico, que resultará na sua edificação como vila em 1771.3. O campo, o gado e o feudalismo precoce pastorilQuando da Independência e da Revolução Farroupilha, o planalto catarinense jáse constituíra em uma “zona de percurso” de tropas que iriam abastecer ocomércio interno da região das minas 12 - origem da visão de Santa Catarina “comomero território de passagem entre São Paulo e Rio Grande do Sul”. 13 Em 1856,“Lajes, ainda como em 1820, o único distrito a oeste da serra”... 14, até às vésperasda Independência ainda pertencia à Capitania de São Paulo. 15Esta mudança de jurisdição, incorpora a formação social nascente – em especial aregião onde se concentra a mais extensa mancha de campo do planaltoCatarinense - os campos de Lages e Curitibanos - àquela do litoral, de história maisantiga, onde no decorrer do tempo se combinaram, desde os clãs patriarcaisvicentistas (corrente do litoral- século XVII - avanço territorial português frenteTratado de Tordesilhas – a fundação da Colônia de Sacramento), os escravosafricanos das manufaturas da baleia - pertencentes ao capital comercial portuguêse a pequena produção mercantil açoriana (século XVIII).Das localidades litorâneas catarinenses fundadas no século XVII, somente Lagunase destacará no processo de conquista pastoril do século XVIII, quando aquelepequeno núcleo fruto da corrente bandeirante litorânea rompe com sua “vidaprecária e estagnante”. 16 Logo, não é por acaso que a Revolução Farroupilha alcance os limites de SantaCatarina, incorporando na luta riograndense, Laguna e Lages. É significativotambém que no decorrer da revolução, Lages tenha inicialmente pertencido a11 Queiroz, M. V., Messianismo e Conflito Social, p. 13 Apud Goulart, J. A. , Tropas e Tropeiros na Formação do Brasil12 cf. Vianna, O., op. cit13 Mamigonian, A. , Indústria . In: Atlas de Santa Catarina, 1986.14 Pereira, C. da C., A Região das Araucárias, p 4315 (...) “Até 1820, pertencendo o planalto à Capitania de São Paulo e o litoral à de Santa Catarina, era a SerraGeral o limite entre essas unidades administrativas do Brasil Colonial . A partir daquele ano, com asubordinação do planalto de Lages ao Governo da Ilha, somente o trecho ao sul do rio das Contas continuoucomo divisa entre unidades distintas, que persiste no limite entre o Estado do Rio Grande do Sul e o de SantaCatarina.” (...)Peluso Jr, Victor.A Costa da Serra. In: Aspectos Geográficos de Santa Catarina, p.127.16 Vianna, O, op. cit, p. 107)
  5. 5. 5República Riograndense e depois tenha composto com Laguna a RepúblicaJuliana17, unindo politicamente, o litoral e o planalto.Importa ressaltar, que as guerras farroupilhas, que erigem em classe dominante ossenhores feudais pastoris18, que abastecem de gado o mercado interno brasileiro,representam principalmente a conquista das áreas de campo, seja de porções dolitoral ou da planície platina, seja as do planalto meridional. Desta forma, estaformação original se encontra geograficamente limitada pelas áreas de campo, quesão conquistadas de acordo com as necessidades dos trajetos de percurso e frentea disponibilidade de terra e gado.A economia charqueadora-pecuarista era dominante na depressão sul-riograndense(o pampa), enquanto nos campos do planalto meridional, de ocupação mais tardia,de difícil acesso e obstaculizados pela presença da mata, a economiacharqueadora não se desenvolve da mesma forma, fazendo com que ospecuaristas destas áreas planaltinas sejam, no dizer de Jean Roche, os “parentespobres da Campanha”.4. A conquista do Planalto Norte: os ervais dos sertões de LagesComo nos referimos anteriormente, em meados do século XIX, Lages era o únicodistrito a oeste da Serra. Além disso havia os arraiais de Campo Belo (Baguais) eCampos Novos, pertencentes ao distrito de Lages e a vila de Curitibanos, tambémfruto da frente expansionista lageana, que ali fundou por volta de 1800 um arraialde tropeiros. A população de Santa Catarina em 1856 atingia 111 109 habitantes,sendo que destes, 104 317 habitavam o litoral e 6 672 o planalto. 19“Na área de que tratamos, fundaram-se fazendas de todos os tamanhos. Emmeados do século XIX, ainda existiam algumas que demandavam três dias deviagem para ir-se de ponta a ponta”... 20Em virtude dos limites florestais das manchas de campo catarinenses, a porçãonorte do planalto não foi efetivamente conquistada em função de campos e gado,mas pela presença da mata de araucária (maior formação original vegetal deSanta Catarina), em especial, neste período, da erva-mate que a ela se apresentacombinada. Esta característica irá aproximar a formação ali gestada daquela doplanalto paranaense, pioneiro na exploração comercial da erva-mate, o que noperíodo colonial havia sido feito pelos jesuítas espanhóis nas suas missões.17 cf. Costa, Licurgo, O Continente das Lagens18 “A Guerra dos Farrapos ...representa a afirmação política das classes dominantes da formação gaúchaperante o poder central. (...) Ao contrário do feudalismo precoce nordestino, a pecuária não é mera subsidiáriada economia latifundiária-escravista dominante. Ela é a matéria- prima da charqueada, esta sim subsidiária daeconomia escravista central.” Vieira, Maria Graciana E. de Deus. Formação Social Brasileira e Geografia, p.123.19 Pereira, C. da C., op. cit., pp. 43/ 4420 Queiroz, M. V. ,op. cit. p 22
  6. 6. 6O desenvolvimento da manufatura ervateira no Paraná, que empregava mão deobra escrava, atinge em 1853 cerca de 90 engenhos, chamando a atenção dosgovernantes da província de Santa Catarina, que em 1849 se manifestam àAssembléia Legislativa Provincial da seguinte forma: “a erva-mate, ramoconsiderável de exportação em Paranaguá, bem vizinho de nosso limite ao Sul, deque abundam os Campos e Sertões de Lajes, tem estado em perfeito abandono;ao mesmo tempo em que um ou outro distrito dessa vila a prepara, acha prontocomprador que a exporta para o Rio Grande.”21Os primeiros engenhos catarinenses de erva-mate, situados em Lages, tinham seuslucros limitados pelas despesas de transporte, em razão da inexistência ou máscondições das estradas. 22Na verdade, “ao se espalharem as fazendas de gado ao longo e para fora dasEstradas de Tropas, a erva começou a ser colhida nas matas vizinhas e preparadamais para atender as necessidades locais do que para venda. Os fazendeirospermitiam aos agregados e peões prover-se com a planta por acaso encontradadentro da propriedade ou nas vizinhanças, `a qual não atribuíam maior valor. Épossível que os excedentes fossem então mercadejados, sem que representassemimportância de vulto.”23Aquele ervais que eram vizinhos às áreas de campo foram sendo apropriadospelos próprios senhores da terra através de seus peões e agregados. Os que sesituavam em plena floresta eram utilizados pelos posseiros, camponeses caboclos- excedente populacional dos latifúndios, índios de origem missioneira, negros,mestiços, que já haviam sido escravos e agregados – que se embrenham mata adentro e vão ocupando as terras florestadas do planalto.Na segunda metade do século XIX - enquanto eram fundadas as colônias alemãs eitalianas nos vales atlânticos catarinenses, com base na pequena produçãomercantil - no planalto, a terra continuava sendo ainda apropriada na forma dedomínio feudal e de posse cabocla. A fundação da vila de Canoinhas, pertencenteadministrativamente à Santa Catarina, mas já na faixa disputada pelo Paraná, comorelata Queiroz, ilustra o quadro da época.(...) “Antigo proprietário nos arredores de São Bento, Paula Pereira julgara-seperseguido pelas autoridades paranaenses e acabou resolvendo estabelecer-se àmargem do Canoinhas. No anos da proclamação da República levou para sua novafazenda algumas famílias : ‘Senhor absoluto das terras e tido como chefe local,Pereira foi logo tratando de localizar num morro perto de sua habitação e emterras de cultura todo a que fosse pedir terreno para edificar.’ (jornal FC10/10/1912). Logo após a revolução federalista, Canoinhas transformou-se numaespécie de república livre, para onde acorriam, a fim de evitar os tribunais ou ajustiça privada, velhos maragatos derrotados do Rio Grande, reais ou supostoscriminosos do Paraná e Santa Catarina. (...)” 2421 Pereira, C.da C. , op. cit., pp. 56/5722 idem, p 5723 Queiroz, M. V. de , op. cit. p. 2424 Queiroz, M. V de , op. cit., pp. 34/35
  7. 7. 7Somente em inícios do século XX, às vésperas da Guerra do Contestado,Canoinhas será erigida em vila (1911). “Sua principal fonte de comércio era a erva-mate.” 255. A pequena produção posseira cabocla: posse e expropriaçãoA expansão do domínio pastoril sobre todas as manchas de campo nativo doplanalto catarinense, obstaculiza a reprodução quantitativa do latifúndio pastoril. Afazenda - que comportava no século XVIII e XIX, escravos e agregados, e no XX,agregados e arrendatários26 - para reproduzir as relações de produção aliexistentes, necessitava de um controle populacional. O excedente, fruto docrescimento demográfico daquele domínio, era expelido. Para o agregado e suafamília, o sertão era a alternativa.Este habitat indígena27 e, gradativamente, também caboclo, era marcado pelapresença maciça da mata de araucária, da qual os ocupantes tiravam grande partede seu sustento, combinando para isso conhecimentos assimilados da culturaindígena com aqueles de origem ibérica. 28Coletando frutas, caçando, pescando, extraindo erva-mate, criando porcosselvagens - engordados pelos pinhões - e cultivando, de forma semi-nômade, emclareiras abertas a machado e fogo, se reproduzia a pequena produção cabocla. Osinstrumentos de plantio “só se distinguem dos paus-de-cavar usados pelos índiospor serem providos de uma ponta de ferro.” Quando sobra algum produto das roças“os caboclos fazem miúdo comércio – na base da troca – com os bodegueiros.” 29Na guerra do Contestado foram estes caboclos os camponeses revoltosos, quelutaram bravamente por suas posses, até a morte e ou expropriação.É em meados do século XIX que a comarca do Paraná se separa da província deSão Paulo e começa a definir sua feição territorial e sua estrutura política. Talformação tardia, implicará em grandes disputas fronteiriças com Santa Catarina,que se acirrarão a medida da valorização comercial dos recursos naturais alipresentes: a terra e a madeira.Importa salientar, que é também em meados do XIX que se promulga a Lei deTerras, prenunciando o fim da escravidão e a intensificação da imigração européia.Esta, iniciada nas primeiras décadas do XIX, teve como objetivo locacional, primeiroproteger pontos estratégicos dos caminhos das tropas, quase sempre onde o25 idem, p 2526 Peluso Jr, Victor. Fazenda do Cedro. In: Aspectos Geográficos de Santa Catarina, pp. 95 a 115.27 “Os Xokleng dominaram a Floresta de Araucária até o contato mais direto com o homem-branco. (...) Notempo da virada do século [ XIX / XX] foram caçados como animais por bandos armados de ‘ bugreiros’, asoldo de empresas colonizadoras, que invadiam a mata para liquidá-los.” (...) Tomé, N. Ciclo da Madeira, p.50.28 Cf. Tomé, N. , op. cit., p50.29 Queiroz, M. V de , op. cit., pp. 29 e 30.
  8. 8. 8campo se encontrava com a mata.30 Os objetivos iniciais da imigração se alterampós 1850. Neles, a comercialização de terras terá importante papel. Em fins doséculo XIX, já no advento da República, quando então as terras devolutas passarãodo domínio do poder central para os estados, a construção de ferrovias permitirá aocupação de áreas até então de difícil acesso, como os sertões dos pinhais e doscaboclos do planalto catarinense. Território contestado pelo Paraná.A mudança do Império para a República, sintetizada de forma geográfica e históricapela Revolução Federalista - Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - e pelaGuerra do Contestado – representou no primeiro caso, uma luta pela afirmação daoligarquia regional, pastoril–mercantil - nascida nos campos incrustados na mata doplanalto meridional - aliada à burguesia comercial fortalecida em decorrência dasimigrações européias anteriores à República. 31 A Guerra do Contestado, já foi odesenrolar da vitória nesta luta. A oligarquia regional se manifesta, estadualmente,no litígio de fronteiras entre os governos do Paraná e de Santa Catarina, naconcessão e venda de terras. Estas até então em posse da pequena produçãocabocla.A concessão e venda de terras, feitas pelo governo e também por particulares deforma significativa para o grupo americano Farquhar - que assumiu comexclusividade a construção da ferrovia, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul,no trecho que corta o território catarinense – tinha como objetivo também acomercialização de terras e a extração de madeira através da “Southern Brazil,Lumber and Colonization Company”, empresa do mesmo grupo. Com umacapacidade produtiva até então desconhecida na região 32, a “Lumber” potencializa avelocidade do processo de expropriação dos posseiros do planalto catarinense,resultando no quadro sangrento da Guerra do Contestado. 33 Na inscrição a lápisfeita por um sertanejo na porta de uma venda, se revela a consciência que osposseiros tinham do conflito: (...) “O governo da República toca os FilhosBrasileiros dos terrenos que pertence à nação e vende para os estrangeiros, nósagora estemo disposto a fazer prevalecer os nossos direitos.” 34Nota FinalAs atividades pastoril e ervateira são fundamentais a estruturação latifundiária doplanalto catarinense e a sua construção como formação política feudal e mercantil.30 cf. Waibel, Leo, Capítulos de Geografia Tropical e do Brasil31 cf. Rangel, Ignácio. Regionalismo e Federalismo. In: Dualidade Básica da Economia Brasileira, pp. 64 a 65 e Vieira, Maria Graciana E. de Deus. Formação Social Brasileira e Geografia, pp. 124 a 126.32 “Nas propriedades da ‘Southern Brazil, Lumber e Colonization Company’ foram construídas quatroserrarias, tendo a de Três Barras conquistado a posição destacada de o maior complexo industrial madeireiroda América do Sul. Esta serraria, praticamente toda mecanizada tinha a capacidade de fabricar de 10 000 a12 000 metros cúbicos por mês de pranchas e vigas, além de possuir estufas secadoras para eliminar oexcesso de umidade do pinho. ” Silva, Rosângela C. da. Terras Públicas e Particulares, p. 43.33 No planalto gaúcho o processo de expropriação da posse cabocla, desenvolvido gradativamente a partir dalei de Terras de 1850, e atingindo resultados semelhantes - a expropriação cabocla, a comercialização ecolonização de terras e a extração madeireira - não alcança a bárbara violência do ocorrido no planaltocatarinense. Cf. Zarth, Paulo Afonso. História Agrária do Planalto Gaúcho: 1850 – 1920.34 Queiroz, M. V de , op. cit., p. 179.
  9. 9. 9Já a atividade madeireira e a colonização mercantil das terras representam acombinação entre a estrutura vigente e novas forças produtivas e formas depropriedade presentes na região. Este novo arranjo - econômico, social e político -se expressa, geograficamente, pela violenta diferenciação da porção oeste doplanalto catarinense, que, a partir das primeiras décadas do século XX, passa aabrigar em suas terras uma dinâmica formação pequeno produtora agrícolamercantil, que para se instalar contou com o acelerado derrubar das matas,promovido pelo intenso desenvolvimento da atividade madeireira em toda a região.35BibliografiaANDRADE, Manuel C, FERNANDES, Eliane M. e CAVALCANTI, Sandra M.(orgs.) . O Mundo que o Português Criou. Recife:CNpq:FJN, 1998.BARROS, Gilberto Leite de. A Cidade e o Planalto. São Paulo: Martins, 1967.BERNARDES, Nilo. A Grande Região Sul. In: Panorama Regional do Brasil. Rio de Janeiro:IBGE, 1969CHOLLEY, André. “Observações sobre alguns pontos de vista geográficos”. In: Boletim Geográfico. Rio de Janeiro, CNG, n.179 e 180, 1964.COSTA, Licurgo. O Continente das Lagens: Sua História e Influência no Sertão da Terra Firme. (4 vols) Florianópolis:FCC, 1982DUARTE, Aluízio Capdeville (org). Grande Região Sul. Rio de Janeiro: IBGE, Vol IV, T. II, 1968.ESPÍNDOLA, Carlos José. As Agroindústrias no Brasil: o Caso Sadia. Chapecó: Grifos, 1999.FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 18.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.IHGSC. Anais do Congresso de História e Geografia de Santa Catarina. Florianópolis:CAPES/MEC, 1997INCAO, Maria Angela d’ (org.). História e Ideal: ensaios sobre Caio Prado Júnior. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, Editora da UNESP/Editora Brasiliense, 1989. LENZI, Carlos Alberto Silveira. Poder Político e Mudança Social (Estudo sobre o poder político oligárquico no município de Lages-SC). Dissertação de Mestrado em Direito: UFSC, 1977.MACCARINI, Maria de Fátima. Formação Sócio Espacial do Planalto Leste Catarinense: Gênese da Indústria de Papel e Celulose. Relatório de Iniciação Científica do Curso de Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina. Florianóplois, 1998.MAMIGONIAN, A. Vida Regional em Santa Catarina. In: Revista Orientação. São Paulo, set. 1966.______. Indústria. In: Atlas de Santa Catarina. Florianópolis:GAPLAN, 1986.35 (...) As condições naturais externas se distinguem economicamente em duas grandes classes: riquezasnaturais de meios de subsistência, isto é solo fértil, águas piscosas etc. e riquezas naturais de meios detrabalho, a saber, rios navegáveis, madeira , metais , carvão etc. Nos primórdios da civilização, o papeldecisivo cabe à primeira espécie de riquezas naturais; nos estágios de desenvolvimento superiores , à segundaespécie. (...) (Marx, K, O Capital, cap. XIV).
  10. 10. 10______. Genêse e Objeto da Geografia: Passado e Presente. In: . In: Geosul, Florianópolis n.28, jul./dez. 1999. ______. Desenvolvimento Econômico e Questão Ambiental. In: Anais da Semana de Geografia Maringá. 1997.MARX, Karl. O Capital. São Paulo:Difel, 1984.MONTEIRO, C. A. F; DUARTE, A. C.; SANTOS, L. B. dos. O Brasil Meridional. In: Panorama Regional do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1967.PELUSO JR., Victor A. Aspectos geográficos de Santa Catarina. Florianópolis: FCC/EDUFSC, 1991. _______. Estudos de geografia urbana de Santa Catarina. Florianópolis :FCC/EDUFSC, 1991.PEREIRA, Carlos da Costa. A Região das Araucárias. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico. Florianópolis, 2ª semestre,1943PEREIRA, Raquel M. Fontes do A. A Geografia e as Bases da Formação Nacional Brasileira. Tese de Doutoramento em Geografia Humana. FFLCH/USP, 1997_______. Da Geografia que se Ensina à Gênese da Geografia Moderna. Florianópolis: UFSC, 1989.PRADO JR., Caio. Evolução Política do Brasil e outros Estudos. São Paulo:Brasiliense,1971.QUEIROZ, Maurício Vinhas. Messianismo e Conflito Social (A guerra sertaneja do Contestado: 1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966 (Retratos do Brasil, v.45)RANGEL, Ignácio. Introdução ao Desenvolvimento Econômico Brasileiro. São Paulo:Bienal, 1990_______. História da Dualidade Brasileira. Revista de Economia Política, 4 (1), São Paulo, 1981._______. Dualidade Básica da Economia Brasileira. São Paulo: Bienal, 1999.SANTOS, Milton. Sociedade e espaço: Ensaios. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1982.SANTOS, Silvio Coellho dos. Os Índios Xokleng. Florianópolis: EDUFSC, Itajaí:EDUNIVALLI, 1997.SILVA, Rosângela Cavalazzi da. Terras Públicas e Particulares – O impacto do capital estrangeiro sobre a institucionalização da propriedade privada. Dissertação de Mestrado em Direito: UFSC, 1983.THOMÉ, Nilson. Ciclo da Madeira. Caçador:Universal, 1995._______. Trem de Ferro – A Ferrovia no Contestado. Florianópolis:Lunardeli, 1983.VALVERDE, Orlando. Planalto Meridional do Brasil. Rio de Janeiro:CNG, 1957.VIANNA, Francisco J. de Oliveira. Populações meridionais do Brasil. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1948.VIEIRA, Maria Graciana E. de Deus. Formação Social Brasileira e Geografia: reflexões sobre um debate interrompido. Dissertação de Mestrado em Geografia : Departamento de Geociências / UFSC, 1992.VIEIRA, Maria Graciana E. de Deus e PEREIRA, Raquel M. Fontes do A. FormaçõesSócio-Espaciais Catarinenses: Notas Preliminares. In Anais do Congresso de História eGeografia de Santa Catarina. Florianópolis, 1997.
  11. 11. 11WAIBEL, Leo. Capítulos de geografia tropical e do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1958.ZARTH, Paulo Afonso. História Agrária do Planalto Gaúcho: 1850-1920. Dissertação de Mestrado em História: Universidade Federal Fluminense, 1988.Atlas Geográfico de Santa Catarina. Departamento Estadual de Geografia e Cartografia. Florianópolis, 1959.Atlas de Santa Catarina. Florianópolis:GAPLAN, 1986.Quando outras áreas brasileiras já produziam para um mercado externometropolitano, o Sul não tinha condições de concorrer para esse comércio, pois aínão se podia obter produtos tropicais.Este fator de ordem natural, a subtropicalidade, influindo nas modalidades deaproveitamento econômico, foi, pois, o responsável pela tardia efetivação do
  12. 12. 12povoamento do Sul. .( Monteiro, C. A.. O Brasil Meridional. Rio de Janeiro: IBGE,1967, p88 )As feições morfológicas* , certamente se estendem bem mais para o norte daregião em causa. Porém clima, cobertura vegetal, solos, tipo de povoamento,formas econômicas constituem um complexo geográfico de cunho sub-tropicalmuito nítido... (Bernardes, N. A Grande Região Sul. Rio de Janeiro:IBGE, 1969, p70)* o autor se refere ao planalto meridional brasileiro

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