Espiral 43

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Espiral 43

  1. 1. espiral da ANO xiI fraternitas moviment - ternit N.º 43 vimento boletim da associação fraternitas movimento - Abril / junho de 2011 assumimos o desafio FERNANDO fÉLIX E m Abril de 2005, a convite do casal Vicente e Secretária Urtélia Oliveira Lourenço da Silva, como Tesoureiro Cidália, eu e a Maria José decidimos comparecer Fernando Ribeiro das Neves e como Vogal António Almeida no Encontro Nacional da Fraternitas, em Fátima. Duarte.Marcou-nos, de imediato, o modo como fomos Por sua vez, no Conselho Fiscal contamos com Alípiocalorosamente acolhidos pelo casal Vasco e Isabel. Sentimo- Martins Afonso, Cibele da Silva Carvalho Sampaio e Lucílianos em família. Esteves Martins Soares. Chegámos no sábado, 23, e ficámos até segunda-feira, 25. No decorrer da Assembleia-geral, o Artur Cunha deForam três dias em que percebemos como a Fraternitas tem Oliveira pediu, mais uma vez, para repensarmos asem si raízes santas no saudoso Cónego Filipe Figueiredo; nossas atividades: precisamos de reconhecer o mundo acomo traz em si uma riqueza imensa nos talentos e que somos enviados. O mundo precisa de ser ouvidocapacidades, na experiência de vida e na ousadia dos sonhos pela Igreja. Para isso, importa ouvir a voz do mundo dedos seus membros; e como também está ferida por histórias hoje – cientistas, filósofos, sociólogos, etc. – e nãode sofrimento. apenas a voz da Instituição – padres e bispos. Passaram-se seis anos. Para mim é claro: para a Igreja e Assumiremos este desafio.para o mundo, a Fraternitas sempre se apresentou como ummovimento cristão – ou católico só no sentido original dapalavra: universal, aberta a todos e para todos – e reconheceu O tema do 18.º Encontro Nacional da Fraternitas foi a Exortação Apostólica «Verbum Domini», acerca da Palavra de Deus na Vida e Missão da Igreja. Ajudou-nosque foi marcada pelo Espírito Santo para ser uma presença D. Gilberto Canavarro, bispo de Setúbal.de profecia. E, neste sentido, esforça-se por ser uma célula da Esta Exortação surge após o Sínodo e como explanaçãoIgreja. Uma célula que tem características de antibiótico, pois das proposições dos padres sinodais. Tem 124 parágrafosalberga e acarinha os presbíteros dispensados do ministério temáticos, que exploram os conceitos da definição da Palavrasacerdotal, cuja decisão exigiu coragem e comporta vicissitudes de Deus – que é a pessoa de Jesus Cristo, Verbo de Deustantas vezes desagradáveis. Mas esta célula também está encarnado – e da sua actuação na Igreja e no mundo. É bom,destinada a multiplicar-se, a ser geradora de novas modalidades pois, ler e praticar.de vida, a ser aliada de Deus no processo criativo da evolução. Mas houve proposições que não tiveram total deferimento E m Abril de 2011, no Encontro Nacional da Fraternitas, como sempre, em Fátima, houve eleições para osórgãos sociais. A Fraternitas conheceu a sua quarta equipa pelo Papa Bento XVI. Como a proposição 17. O primeiro parágrafo figura na Exortação, mas o segundo não: «Os padres sinodais reconhecem e encorajam o serviço dos leigos nacoordenadora. Não podemos esquecer nem deixar de ser transmissão da fé. As mulheres, em especial, desempenham agratos para com as três anteriores, que personalizo na pessoa este nível um papel indispensável, sobretudo na família e nado Presidente: João Simão, Vasco Fernandes e Serafim de catequese. Com efeito, elas sabem suscitar a escuta da Palavra,Sousa. Aliás, convido todos a (re)ler os boletins «Espiral» a relação pessoal com Deus e transmitir o sentido do perdãoanteriores, em papel ou na Internet, no sítio www.fraternitas.pt. e da partilha evangélica.Nos acontecimentos relatados, nas palavras escritas, nas fotos Deseja-se que o ministério do leitorado seja aberto tambémestá estampado o espírito e a mensagem da nossa associação. às mulheres, de modo que na comunidade cristã sejaEu sou o primeiro a sentir-me obrigado a fazer este trabalho reconhecido o seu papel de anunciadoras da Palavra.»de “beber” na fonte das nossas origens e da nossa tradição. Quando as mulheres assumem protagonismo na sociedade E sta é a quarta equipa coordenadora da Fraternitas. Na Assembleia-geral estão José Serafim Alves de Sousa,Manuel Alves de Paiva e Alberto J. P. Videira D’Assumpção. – leia-se criticamente o texto «As mulheres e o futuro da Igreja» deste boletim –, reflitamos porquê na Igreja se vive, tantas vezes, “como se…” De facto, as mulheres proclamam a A Direcção tem como Presidente Fernando Jorge Félix Palavra de Deus, mas não lhes é reconhecido o ministério deFerreira, como Vice-presidente Luís da luz e Cunha, como leitorado… Será a “excepção” a confirmar a regra?...
  2. 2. notícias2 espiral Em memória de Luís António Gouveia Nasceu a 1 de Dezembro de 1927 na freguesia e concelho cada um em relação ao evoluir do Movimento, de Encontrode Vila Flor, diocese de Bragança. Foi ordenado em 29 de em Encontro, é uma página da história da FRATERNITAS.Março de 1953, na diocese do Porto. Dispensado do celibato Todos têm algo muito importante a dizer, tanto eles comoeclesiástico em Janeiro de 1969, casou com Maria do Carmo, elas, tanto os Maridos como as Esposas. Fico a aguardar ascom quem teve dois filhos. Foi professor do Ensino Secundário, vossas respostas para juntar tudo num só volume.»escritor e jornalista colaborador de jornais regionais. Partiu Um sonho não realizado pelo «santo» Cónego Filipe. Opara o Pai no dia 3 de Junho transacto. Senhor, imprevistamente, chamou-o em Novembro deste ano. O Luís Gouveia foi o primeiro sócio da Fraternitas a Cumpriu-se o Evangelho: «Uns semeiam, outros colhem.»colaborar activamente com o nosso Cónego Filipe na recolha O Presidente da Direcção, José Serafim de Sousa, em 2009,de materiais respeitantes ao Movimento, tendo em vista uma calcorreou carreiros e caminhos para arranjar operários paraMONOGRAFIA. Para o efeito arquivou todas as a «ceifa» de dar vida ao sonho. No último caminhofotografias sobre os Encontros em que participou e bateu-me à porta. E, porque aos amigos nadaos recortes de todas as notícias que foi descobrindo se recusa, aceitei a tarefa de ceifar o trigoa nosso respeito, em jornais e revistas. que o Luís Gouveia ajudara a semear, A saúde tê-lo-á impedido de ir mais além. confiante na ajuda solicitada aos sóciosConsciente disso, quando, em 2008, foi decidido pelo Cónego Filipe. A colaboraçãoavançar com a elaboração do livro, o Luís apareceu e o livro “CÓNEGO FILIPEGouveia, de imediato, pôs à minha disposição DE FGIGUEIREDO. Uma vida aotodo esse material, distribuído por quatro dossiers, serviço dos outros. HOMENAGEMacrescentando: «Eu nunca tive dúvidas quanto à sua VIVENCIAL DAnecessidade, antes, sempre certezas sobre a sua F R A T E R N I T A Svantagem e oportunidade, no presente MOVIMENTO” surgiu umcontexto da Igreja Católica. A ideia ano depois.de ser elaborado um livro sobre o Obrigado Luís Gouveia,nosso Movimento surgiu no por mim e pela Fraternitas.Encontro de 24 a 27 de Abril de Este livro tem o teu sinete,2003, em Fátima. como resultado de um pouco do teu «ADN», oeu próprio ter sugerido, em 14/07/ teu duplo testemunho de2001, que, em vez dum memorial poeta sonhador e decomo fora solicitado pelo Osório de operário diligente. DuasCastro, fosse feito um trabalho mais nobres acções, mais duas,abrangente, capaz de elucidar melhor com que te apresentaste naa nossa hierarquia e o público em Casa do Pai..geral sobre o que somos e para lhes Martins Alípio Martins Afonsoassegurar a nossa disponibilidade graciosa ao serviço daEvangelização, como padres e leigos conscientes.» As palavras do Gouveia não caíram em saco roto. O O Dr. Gouveia foi chamado à comunhão plena e«santo» Cónego Filipe agarrou a ideia e passou-a a todos nós definitiva com o Pai.na circular de 13 de Maio seguinte: «Falou-se no nosso último Recordo-o nos encontros preparatórios para a formaçãoEncontro, em Fátima, em Abril passado, da necessidade da “FRATERNITAS”.urgente de se escrever a história da FRATERNITAS. Estou Homem simples, de fé esclarecida. Perseverante,inteiramente de acordo e mais acrescento que esta história convencido da razão que motivava o seu comportamentonão seja limitada à sua génese, isto é, aos antecedentes do 1.º humano, religioso. Muito prudente, mitigava o entusiasmoRetiro. Deverá ir mais aquém e incorporar os testemunhos de de alguns colegas que previam alguma facilidade nacada um e cada uma de vós, desde o 1.º Retiro até hoje, aprovação do Movimento pela hierarquia ou aindasobre o que foram os diversos encontros que cada qual estimulava a esperança dos mais céticos.frequentou, a nível nacional e regional, como foi contactado, Partiu sem ver concretizado o objetivo do celibatoisto é, como conheceu o Movimento, o que vem sentindo de opcional. Acreditou, lutou. O resultado final não é necessárioentão até hoje nos diversos aspectos da vida, os sentimentos para o justo prémio que o Pai lhe dará. Paz ao Dr. Gouveia!que foram perpassando pelo seu espírito, a acção da graça Acreditamos que prepara o nosso encontro com o Pai.nos caminhos da vida. Lembranças à esposa e aos filhos. Joa q uim Soares Joa Soares Parece-me ter expressado aquilo que sinto. A história de
  3. 3. reflexão l espiral 3 Padr es dispensados adres A Igreja vive no Sínodo de Viseu Não tendo sido possível a concretização do encontro os problemasprevisto para 4 de Dezembro do ano transacto, em 23 deMarço do corrente ano, D. Ilídio reuniu-se pela terceira vez dos homenscom os padres dispensados do ministério sacerdotal, noCentro Pastoral Diocesano. A convite de quem nele se intitulou “o irmão e amigo Joa q uim So ares Joa Soaresbispo de Viseu”, compareceram nove daqueles elementos, Qdois dos quais acompanhados, pela primeira vez, das ue a crise se instalou, não temos dúvida. E temosrespectivas esposas, e seis padres em exercício convidados de geri-la. Todos os setores da vida públicapelos primeiros. Para representar a Cáritas Diocesana de Viseu devem contribuir com as suas achegas para ae falar dos seus projectos, esteve o respectivo Presidente, Sr. superarmos. É uma avalanche! Somos enredados!Borges. O tema foi de reflexão sobre as Obras de Misericórdia Também a Igreja tem uma palavra a dizer. A sua intervençãoe as Bem-aventuranças. é oportuna e necessária. Buscam-se soluções, mas nem todas «Para além da vivência deste tempo quaresmal, que apela estão adequadas.a “consagrar-nos aos outros”, D. Ilídio desafiou este grupo É certo que alguns bispos já intervieram. Chamaram ade fiéis ordenados da nossa diocese a serem caminhantes tenção para a partilha de bens. É fundamental! Diversos setoresempenhados no desafio sinodal, que, desde Outubro, interpela da Igreja responderam. E comoveu! Recolheram-se toneladascada um a reflectir sobre a Igreja que somos, queremos e de alimentos, para resposta imediata a quem estava emdevemos ser, à luz dos desafios do Concílio Vaticano II», necessidade. A partilha sempre esteve no ‘modus operandi’anotou o Jornal da Beira. da Igreja. E diante de nós a Encíclica – “Caridade na Verdade” O semanário diocesano relatou ainda: «D. Ilídio considera – a última palavra do magistério sobre estes assuntos.mesmo que os sacerdotes dispensados do exercício do Todavia, temos os problemas próprios do nosso meio,ministério sacerdotal estão capacitados para darem um aos quais só de uma forma generalizada a palavra do Papacontributo válido à reflexão que se pretende exercitar, ao responde.longo da realização do Sínodo. Seria uma perda a Diocese Mas temos de falar de justiça. Quem trabalhou tem direitonão contar contributo que eles poderão trazer a esta reflexão, à retribuição justa. Que dizer dos salários retidos? De fato, ospartilhando o que foi e é a sua vivência em Igreja, com as salários em atraso “bradam aos céus”. As Centrais Sindicaislimitações, desafios e inquietações que encontram no seu dia- cifram em trezentos milhões de euros essa realidade, ema-dia, enquanto cristãos que sabem bem das implicações do falências e outras situações de injustiça. Não nos podemosseu Baptismo.» Luís Cunha calar! A Igreja não pode calar-se nem ignorar. São milhares de pessoas em situação aflitiva que precisam de apoio, compreensão, estímulo. Mas esta gente precisa de justiça. Não Vaticano Ciganos portugueses no Vaticano da justiça tardia dos homens… Confrange-nos a facilidade com que se recorre à falência… Há ainda as situações Uma cigana e três ciganos católicos, das dioceses de fraudulentas!Setúbal, Viana do Castelo, Guarda e Lisboa foram recebidos E os desempregados? E os recibos verdes? E ono dia 11 de Junho, pelo Papa Bento XVI, em audiência congelamento das pensões? E a desigualdade dosprivada, juntamente com outros ciganos de toda a Europa. vencimentos?Acompanhou o grupo o Director executivo da Obra Os cristãos não podem cruzar os braços, fechar os olhos.Nacional da Pastoral dos Ciganos. A Igreja tem de ser porta de esperança. Não tem soluções, A audiência papal foi o primeiro acto da peregrinação não tem meios… é verdade! Mas está no mundo, tem dedos ciganos europeus ao Santuário de N.ª Sr.ª do Amor Divino, viver os problemas dos homens. E tem a palavra de Jesus, aem Roma, por ocasião dos 150 anos do nascimento do Beato força de Jesus. Tem o dever de abrir caminho, de apelar àcigano Zeferino Giménez Malla (El Pelé) e dos 75 anos do ética para que se encontrem soluções que dêem dignidade aseu martírio. Na tarde do dia 11 houve uma comemoração todos os homens. O salário é uma forma de participação dosda memória do Beato Zeferino na Basílica de S. Bartolomeu, lucros da empresa. Mas que se há-de pensar do lucro brutona Ilha Tiberina, dedicada aos mártires dos séculos XX e que uma empresa obtém? Deve distribuí-lo só pelosXXI. No dia 12, celebrou-se Missa no Santuário do Amor accionistas? O lucro é reservado ao capital?Divino, em que foi construída uma igreja ao ar livre, em forma Na política só há barulho, ruído. Não precisamos de ruídos!de tenda, dedicada ao Beato Zeferino. Precisamos de uma palavra serena, com sabor a eternidade. Obra Nacional dos Ciganos Profetas precisam-se! E a Igreja tem uma doutrina social.
  4. 4. reflexão4 espiral As mulheres e o futuro da IgrejaDepois de ter dirigido por cerca de 30 anos (de 1968 a 1997) a Religieuse,prestigiosa revista teológica Recherches de Science Religieuse , a viva resistência da Igreja católica, queJoseph Moingt, aos 95 anos, ainda está ativo. O teólogo jesuíta multiplicou os apelos à lei natural e divina refle letir escrever, tes est presente artigocontinua a ref le tir e a escrev er, como tes t emunha o presente ar tigo na que liga, segundo ela, o ato sexual à Études,revista Études , de Janeiro de 2011. procriação, e as condenações do uso de tradução Dischinger.A tr adução é de Benno Dischinger. qualquer preser vativo ou método anticoncepcional. Sentindo-se U m traço importante da civilização ocidental no início do século XXI – incompreendidas, desprezadas ou seguramente o mais significativo há diversos milénios – refere-se à atacadas pela Igreja, muitas mulheres condição da mulher que, após ter adquirido os seus direitos civis e se começaram então e continuam sempreter emancipado da tutela paterna e marital na segunda metade do século passado, mais a deixá-la, enquanto a confiançaestá a conquistar – porque a luta está bem longe de seu término – a igualdade com daquelas que lhe permaneciam fiéis –os homens no tratamento profissional e está abrir para si um acesso equânime aos embora endereçando a sua vida sexualpostos de responsabilidade mais altos em todos os âmbitos, económico, cultural e segundo a sua própria consciência –, erapolítico da vida social. e permanece consideravelmente abalada. Outro traço da evolução – entre os mais importantes –, que apareceu no mesmo Após ter perdido grande parte doperíodo e no mesmo espaço cultural, é o declínio da Igreja católica, cujo número mundo operário e depois do mundode fiéis diminuiu tão velozmente quanto o de seus quadros pastorais, e que está a intelectual, a Igreja perdia, no terreno dosperder aquele pouco que lhe resta da influência que exercia há 2000 anos sobre a costumes, amplas faixas do mundosociedade e sobre os indivíduos, a ponto do seu futuro próximo levantar questões feminino que, em todo o caso, forneceraangustiantes. no século passado a maior parte dos Há uma correlação entre estes dois aspectos da evolução que estamos a viver e, seus fiéis. Desde quando estabelecera ase é assim, qual deveria ser a condição da mulher na Igreja para interromper o regra de batizar as crianças desde o seudeclínio da Igreja e devolver esperança para o seu futuro? nascimento, era papel da mulher despertá-las para a fé e para a devoção Conflito no âmbito dos costumes Ora, aquela condição era a mesma e depois educá-las na obediência às A Igreja gaba-se de ter ensinado o prevista para a mulher pelos costumes regras da moral e às práticas religiosas.respeito pela mulher ao mundo pagão, das sociedades patriarcais e tradicionais, No lugar do padre que instruía osde sempre a ter defendido e sustentado nas quais o povo da Bíblia havia catecúmenos adultos nos séculose de professar a eminente dignidade da meditado e transcrito a lei do Criador e precedentes, era a mulher que entãomulher, chamada à mesma santidade que no qual a Igreja nascera e depois se assegurava o crescimento da Igreja nao homem. Como prova deste fato desenvolvera, sem procurar transformá- sociedade através do fluxo das gerações.universal, a Igreja elevou muitas mulheres la, a não ser no sentido que ela sempre Mas, eis que a mulher da época modernaàs honras dos altares e também declarou empregou – é justo reconhecê-lo –, de – emancipada das estruturas nas quais adiversas doutoras da Igreja, com o defender as mulheres contra os maus aprisionavam as sociedades tradicionaismesmo título de bispos e teólogos tratos que as ameaçavam, de proteger – foge à vocação de gerar pequenosfamosos. Esta dignidade está ligada, aos as famílias, favorecer a instrução das cristãos que lhe era assinalada pelaseus olhos, àquilo que define a dignidade meninas e também, mais recentemente, tradição da Igreja. Esta última tende,da mulher no estado conjugal segundo o seu ingresso na vida profissional e civil. então, a opor-se o mais possível àa lei do Criador: a castidade, que exclui Isso não desdiz que aquela condição emancipação da mulher, que chega,as relações sexuais antes e fora do limitava fortemente os seus horizontes então, a ver na Igreja o maior obstáculomatrimónio, e a maternidade, que destina de vida e suas ambições mais legítimas e à própria promoção social. Estaa mulher à procriação, à educação dos as mantinha em clara situação de hostilidade recíproca comprometefilhos, ao apoio do marido, à união das inferioridade em relação aos homens. gravemente o futuro do catolicismo (1).famílias e ao bom governo da casa. A Mas a mulher da era modernaIgreja oferece como modelo Maria, Mãe acabou por emancipar-se disso, No terreno da cidadaniade Jesus, que conciliou em si, num grau beneficiando-se da evolução da cultura, As mulheres não eram e não sãoextraordinariamente eminente, a das ciências e das técnicas, em particular somente as mais numerosas entre os fiéis,castidade e a maternidade, e cujo destino com a ajuda – ou ao preço? – da eram e são também, mais do que nunca,mostrou claramente a dignidade que o “libertação sexual” e do controlo dos as mais ativas em todos os âmbitos noscristianismo reser va à condição nascimentos. E é sobre este ponto que a quais se edifica a Cidade de Deus emfeminina. emancipação da mulher se chocou com meio aos homens. Entre elas havia muitas
  5. 5. reflexão l espiral 5religiosas, e ainda as há, mas sempre em permanente” para reconduzir, sob a outras, que frequentavam a Igreja semmenor número, vista a rarefação das obediência e a especificidade do se terem posto ao seu ser viço,vocações ao estado religioso, de modo sacramento da ordem, o máximo humilhadas pelas proibições e pelasque as mulheres laicas são, há muito possível das responsabilidades que exclusões que golpeiam o seu género,tempo, as principais auxiliares do clero. haviam caído no âmbito do laicado. Esta abandonam-na, e a recusa de lhesOcupam postos de responsabilidade na motivação referia-se, pois, tanto aos reconhecer uma “cidadania” de plenomaior parte dos campos da vida da homens como às mulheres, mas estas exercício não faz senão aumentar aIgreja: catequese e catecumenato, últimas eram as primeiras a serem hemorragia da qual a Igreja corre o riscomovimentos de ação católica e de atingidas, já que eram mais numerosas de morrer.espiritualidade, ensino religioso e no serviço da Igreja.também teológico, obras missionárias, Todavia, manifestou-se a vontade da Ampliar os elos da tradiçãoserviços pastorais de animação litúrgica, hierarquia de afastar as mulheres, elas em No plano da moral, a Igreja conectade preparação para o Batismo, particular, de tudo aquilo que se refere o uso da sexualidade ao matrimónioMatrimónio, exéquias... Em muitos ao serviço do altar e dos sacramentos, a legítimo e à procriação, em virtude delugares, elas ainda são, vista a distância e ponto, um pouco ridículo, de proibir a uma lei natural que tem Deus como autora raridade de padres, o único sustento tendência de escolher acólitas entre as e de quem ela tem a custódia. Mas osda vida paroquial. – São? Eu apresso- meninas. O motivo, claro ou realmente antropólogos sabem muito bem que asme a corrigir-me: elas eram e já não são admitido, era o temor de encorajar nas regras matrimoniais são um fato de“responsáveis” de nada, porém tudo mesmas o desejo do sacerdócio. Com convenções sociais que variam segundocontinua a depender delas em ampla efeito, ordenações de mulheres ao as épocas e os lugares: o que osmedida. presbiterado tinham ocorrido, muito moralistas antigos consideravam como Na esteira do Vaticano II, não se oficialmente, em diversas Igrejas “lei natural” não era indene aos costumeshesitara confiar-lhes responsabilidades anglicanas que se vangloriavam sancionados pela lei civil. E, quando seem todos os níveis, paroquial, diocesano, precedentemente de permanecerem fiéis faz apelo à “natureza”, se lhe submete oregional, nacional. Conheço até um caso ao rito romano, e também mulheres regime da razão comum.(sem dúvida houve outros) no qual uma católicas tinham conseguido fazer-se Certamente esta última está sujeita amulher (por certo qualificada no plano ordenar padres de maneira “selvagem” variações e erros, mas nem sequer ateológico) recebera devido mandato do em diversos países: a questão moral da Igreja é disso isenta eseu bispo para assegurar a homilia e a preocupava a opinião pública católica e frequentemente é com sabedoria que elaanimação da eucaristia dominical. Mas teólogos sérios sustentavam a soube tomar em conta certas evoluçõesuma reviravolta teve lugar desde os anos possibilidade de se proceder a tais dos costumes. Hoje, por exemplo,80 do século passado e só se acentuou ordenações. O Papa João Paulo II embora professe que os jovens casaisdesde então. Ah! Conta-se sempre e mais considerara fechar o debate com uma não desposados “vivem em pecado”,do que nunca com a ajuda das mulheres: recusa “definitiva” (2), e o seu sucessor acolhe-os com bondade para prepará-como se poderia deixar de fazê-lo? Mas recordou-o recentemente, uma prova de los ao matrimónio sacramental ou paraque permaneçam no seu lugar de servas que o debate não está efetivamente batizar os seus filhos. Vozes autorizadasdóceis, bem enquadradas em equipas encerrado (3). cada vez mais numerosas preconizam“pastorais” sob responsabilidade A maioria das mulheres empenhadas um acolhimento similar nas“sacerdotal”. na Igreja está bem longe de ter a ambição comunidades cristãs em benefício dos Um pouco por toda parte e em do presbiterado ou de reivindicar poder; divorciados redesposados.todos os setores, elas têm sido afastadas, isso não exclui que se sintam ofendidas A Igreja deveria aceitar um livrenão – uma vez mais – das atividades pela desconfiança de que se sentem debate sobre as questões éticas queque lhes tinham sido confiadas, mas da objeto, tanto que a imprensa, intervindo interessam a todas as sociedades esua animação, direção e orientação. De neste debate, recrimina frequentemente participar dele ela própria, sem arrogar-quanto pude ler e ouvir dizer, o motivo ao papado uma discriminação entre os se um direito exclusivo e absoluto deera a vontade de restaurar a “identidade” sexos, contrária aos direitos humanos. ensinamento. A sua condenação do usodos padres, perturbada, pensava-se, pela Estas mulheres, que têm podido ser o do preservativo, como meioperda de funções que lhes haviam sido que ainda são, em postos de reconhecido de prevenção daconfiadas até aquele momento, e da responsabilidade tanto na vida civil propagação da sida, tem fortementeconsideração que lhes estava ligada, a como profissional, vêm muito bem que denegrido o seu crédito junto deperda de identidade que se considerava a Igreja não está disposta a conceder- organismos internacionais que sepudesse explicar também a trágica lhes os direitos e as competências preocupam com este flagelo (4). Quediminuição das vocações ao estado equivalentes àqueles que têm adquirido ela não queira debater com uma opiniãopresbiteral. Em todas as dioceses foram na sociedade. Muitas delas, pública hostil quaisquer regras morais,multiplicados os apelos ao “diaconado desencorajadas, vão-se embora e muitas entende-se; mas, poderia dar confiança
  6. 6. reflexão6 espiralaos seus teólogos e aos fiéis instruídos também eles pelo ingressar leigos, devidamente delegados pelas suasEspírito Santo, acima de tudo às mulheres, as primeiras comunidades, nos lugares onde se tomam as decisõesenvolvidas. A consciência e experiência destas mereceriam ser pastorais, em todos os níveis e em paridade com o clero, eescutadas antes que se decida sobre a sua sorte da parte de não somente em grupos de simples consulta. E deixar entrarmachos celibatários. A Igreja talvez tivesse medo de perder as mulheres nestes lugares de decisão em paridade com ospoder consultando os seus fiéis? A alternativa é perdê-los. homens. Ainda é uma questão de poder o que a impede de dar Porquê em paridade? Para não elevar a Igreja a símboloespaço, nos seus organismos dirigentes, às mulheres que de uma contracultura.trabalham para ela. Se por tradição se abstinha delas, o motivo a) Portanto: para abrir-se ao espírito do mundo, malgradoé o mesmo de outras sociedades que precisaram de muito São Paulo que exorta os cristãos a “não conformar-se aotempo para libertar-se do seu espírito patriarcal, feudal ou século presente” (8)? Não! Para melhor abrir o mundo àcorporativo. penetração do espírito evangélico. Agora a Igreja dirige-se a O poder da Igreja conecta-se com o que é sagrado. Ora, um mundo “adulto” e não pode amestrá-lo do alto da cátedra;a fé que ajuda a entender o âmbito do sagrado, é deve reconhecer os valores dele para fazê-lo escutar a suacompartilhável por todos. Com efeito, no nosso mundo palavra.laicizado e secularizado, isto é, democrático, a fé só pode b ) Então: adaptar-se aos valores de um mundoperecer se for privada da liberdade à qual Cristo chama todos secularizado? Não exatamente, porque muitos daqueles valoresos cristãos, segundo as palavras de São Paulo (5), o qual são o fruto das sementes evangélicas que a Igreja lançou norecordava que a única vez em que Cristo havia falado de poder mundo no decurso da sua vida comum. É sobretudo assimfora para proibir os seus apóstolos de o usar à maneira dos que pode reorientar as ideias de liberdade e de igualdade, daspoderosos que gostam de impor o seu domínio, fazê-lo ver e quais nasceu a emancipação da condição feminina, que temsentir (6). sido desviadas do seu sentido original e produzido frutos Eis porque o remédio para o perecimento da Igreja na disformes. E pode fazê-lo somente deixando que aquelasera presente parece-me que seja o de pôr resolutamente em mesmas ideias produzam frutos no seu interior, do qual elaato as recomendações do Vaticano II, ao invés de olhar para as havia expulsado. É assim que o reconhecimento efetivo daele com suspeita e de agir em sentido contrário (7). Ou seja: emancipação da mulher, na Igreja como no mundo, se tornoudeixar maior liberdade de iniciativa e de experimentação às a condição de possibilidade de uma evangelização do mundo.Igrejas locais: preocupar-se menos em reforçar as estruturas E, já que a missão evangélica é a razão de ser da Igreja, oadministrativas da instituição do que de fazer viver as novo acolhimento que ela reservar à mulher será o “símbolo”comunidades de cristãos, mesmo pequenas, lá onde residem. operante de sua presença evangélica no mundo, bem como aChamar os cristãos a assumirem a responsabilidade de seu garantia da sua sobrevivência. A mulher já não veste corpetesser cristãos ou de seu viver na Igreja; e isso não individualmente nem espartilhos, que a constringiam. Também a Igreja devenem somente entre eles, mas em comum e em concretização emancipar-se da tradição que a liga às sociedades patriarcaiscom a autoridade episcopal. Dar maior confiança a uma do passado para dar-se, com o espaço que saberá dar àsliberdade criativa antes do que à obediência passiva; fazer mulheres, o direito de sobreviver neste novo mundo (9). Reler o Evangelho no feminino plural época e do seu país, circundava-se voluntariamente de A Igreja está habituada a interpretar as Escrituras fazendo companhia feminina: e esta observação merece ser tomadaapelo à Tradição. Em rigor teológico, tem maior legitimidade em consideração, mas em sentido oposto às conclusõeso contrário: quando a tradição não tem respostas para os negativas que produzia.problemas novos e recusa as respostas que se propõem, o Os encontros de Jesus com algumas mulheres não têm,recurso às Escrituras impõe-se com pleno direito. Foi isso o de fato, nada de casual, e é para a nossa instrução que eles temque fez João Paulo II, quando queria tomar uma decisão sobre sido referidos. Jesus manifesta a sua glória pela primeira veza questão da ordenação das mulheres: notou que Jesus, em Caná, após solicitação da sua mãe; em diversas ocasiões,querendo constituir o seu colégio apostólico no termo de erige mulheres como modelos de fé e realiza curas que atribuiuma noite de oração, não fez apelo à mais digna das criaturas, à fé delas; da unção recebida de uma mulher na vigília da suaa sua mãe, e deduziu que as mulheres tinham sido, por este morte faz um memorial da sua paixão que, prescreve Ele,fato, deliberadamente afastadas do sacerdócio (10). Mas, Jesus seja transmitida às gerações futuras. Dá crédito às duas irmãs,não nutria nenhum projeto no sentido de instalar a sua Igreja suas amigas, Marta e Maria, como autênticas discípulas,na duração do tempo, Ele que não a via senão em termos de recebendo de uma delas o melhor testemunho de suaReino de Deus, e não havia dado aos seus apóstolos nenhuma divindade: “Tu és a Ressurreição e a Vida”, e apresentando ainstrução de tipo institucional, já que estes, na tarde de sua outra como o perfeito receptáculo de sua Palavra: “MariaAscensão, davam por certo o seu próximo retorno para escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada”. Enfim, é arestaurar o reino de Israel (11). O Papa também havia notado outra mulher, outra amiga, Maria de Mágdala, que apareceque Jesus, rompendo neste ponto com o costume da sua por primeira vez na saída do túmulo e a quem confia a
  7. 7. reflexão l espiral 7 Notas: (1) A revista Esprit, de Fevereiro de 2010, publicou dois artigos sobre “o declínio do catolicismo europeu” que tratam particularmente Por um pouco de sexo frágil... da relação da Igreja com as mulheres. O historiador Claude Langlois, em “Sexo, modernidade e catolicismo. As origens esquecidas”, analisa O simples fato de pertencer ao “sexo frágil”, como o a evolução das Congregações romanas desde 1820, passando de umadefine uma tradição orgulhosamente “machista”, poderia ser “compreensão pastoral” pelas práticas sexuais ao “rigorismo” atualmotivo de discriminação e de eliminação numa Igreja que (pp. 110-121). A socióloga Catherine Grémion, em “A decisão nadeduz o seu orgulho e a sua força da debilidade da Cruz? Igreja. Contracepção, procriação assistida, aborto: três momentos-Jesus não encontrava imagens suficientemente humildes, chave”, mostra a trágica consequência das decisões dos últimos trêssuficientemente comoventes para falar do seu Reino: as flores papas nesta matéria sobre o êxodo crescente dos fiéis para fora dados campos, o grão de trigo, uma moedinha perdida, a ovelha Igreja (pp. 122-133).perdida, o dono da casa em vestes de serviço... Ele próprio (2) Com a Carta Ordinatio Ssacerdotalis, de 1994, que requer “umnão carecia de qualidades geralmente atribuídas ao sexo assenso definitivo” à doutrina que exclui a mulher do sacerdócio, porfeminino: intuição, sensibilidade, compaixão, a arte de atrair motivos que expõe mais adiante. (3) La Croix, de 14 de Julho de 2010, apresenta um documentoas confidências, e também da debilidade: cedia às vezes à sua da Congregação da Doutrina da Fé, publicado na véspera, que definemãe, explodia de alegria, de cólera ou enchia-se de lágrimas, e toda tentativa de ordenar uma mulher como padre um “delito gravesabia sofrer, esperar, suportar como poucos homens são disso contra a fé”, enquanto “ofensa à ordem sagrada”.capazes. Introduzir na Igreja um pouco de feminilidade, sob (4) Um livro recente do Papa Bento XVI, Luz do Mundo, parecea condição de lhe garantir um espaço no qual ela possa anunciar uma leve mudança da posição da Igreja sobre este ponto.resplandecer, será ampliar-lhe a parte de humanidade (5) Gl 5,1.demasiado reduzida ou mascarada por um poder (6) Lc 22, 24-25.exclusivamente masculino e sacro, isto é, intolerante. (7) Ver os cap. II, “O povo de Deus” e IV, “Os leigos”, da Mas, repito, o primeiro problema não é dar poder às Constituição Dogmática da Igreja.mulheres. Não nos embalemos em idéias idílicas: encontrar- (8) Rm 12, 2. (9) Leio numa entrevista do sociólogo Alain Touraine, publicadase-iam facilmente mulheres extasiadas pela idéia de entrar na em Le Monde, de 5 de Setembro de 2010: “Há dois suportes depersonagem do padre, transmitindo-nos igualmente uma dose mudança já ativos. O primeiro é a Ecologia [...]. O segundo é quede sedução da qual se sabe que torna o poder mais perigoso. estamos a passar de um mundo de homens para um mundo deTrata-se, acima de tudo, de renovar o terreno das comunidades mulheres. As mulheres, tendo sido do lado do pólo frio de quecristãs, de nelas instaurar liberdade, alteridade, igualdade, falava Lévi-Strauss, querem passar à parte quente, para recolocar tudocorresponsabilidade, cogestão, de nelas deixar penetrar as junto, o corpo e o espírito, o homem e a mulher, os seres humanospreocupações do mundo exterior, de tornar as celebrações e a Natureza, etc. Tudo isto explode neste momento, embora nãomais conviviais, à imagem das primeiras refeições eucarísticas seja muito sentido pelo público [...].”nas quais se compartilhava o pão e os víveres sob a presidência (10) O essencial da argumentação de João Paulo II (v. nota 2)benévola de um pai de família, sem esquecer o princípio paulino deriva de uma intervenção de Paulo VI em 1975 e de uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1976.de excluir tudo aquilo que exclui. Nesta nova atmosfera o (11) Act, I, 6.compartilhamento do poder apresentar-se-á sob nova luz. (12) Jo 2, 1; Mt 9, 22; Mc 14, 3-9; Jo 11, 27; Lc 10, 38-43; Jo 20, 11.18. (13) Gl 3, 28. (14) Não condenou a escravidão, nem rejeitou a submissão damensagem de sua ressurreição, a fim de que ela comunique a mulher ao marido: era da sua época. Mas excluía estas desigualdadesBoa Nova as seus apóstolos (12). da Igreja, e foi assim que fez evoluir o costume. Jesus jamais pronunciou a palavra sacerdócio. Porém, Ele (15) Lcas 1, 52.acreditou nelas, confiou-Se a elas, confiou a elas o seuEvangelho, como aos seus apóstolos, talvez de modo diverso: Humanidade com a sua morte e a sua ressurreição, deduziunão as envia a percorrer o mundo, mas de modo não menos disso o único princípio fundador do cristianismo, a exclusãoautêntico faz delas transmissoras da missão que havia recebido de qualquer exclusivismo: “Já não há judeu nem grego, já nãodo Pai de difundir a Vida no mundo. Desta forma, convidava há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porquea sua Igreja a retirar recursos igualmente das mulheres para todos vós sois um em Cristo Jesus” (13). Ele não queria dizercontinuar a sua obra. Em suma, não pode ser deduzido que não há mais diferença entre os dois termos de cada casal,nenhum princípio de exclusão das palavras ou dos exemplos mas que nenhuma dessas diferenças podia ser, no corpo dede Jesus, em nada diversos de uma insistente exortação a não Cristo que é a Igreja, fonte de divisão ou de exclusão. Emboratemer de encarregar do ministério do Evangelho qualquer não tenha talvez podido ou sabido deduzir todas asum, homem ou mulher, uma vez que tenha bastante fé Nele consequências (14), Paulo enunciava assim o princípio fundadorpara oferecer-se a esta tarefa: porque somente Ele dá a força das sociedades abertas, libertas das oclusões das sociedadesde levá-la em frente e de fazer com que produza frutos. antigas, o que permitiu à mulher dos tempos modernos livrar- São Paulo, não querendo mais conhecer Cristo “segundo se da opressão do homem e reivindicar a igualdade com ele.a carne”, consciente que Ele havia renovado a velha E a instituição eclesial não tem outra lei orgânica (15).
  8. 8. | P.Ta Malmequeres, 4 - 3.º Esq | 2745-8168 A SUPERABUNDÂNCIA DA VIDA espiral Não será por acaso que os textos evangélicos reservam estranheza naqueles que não fazem tal aposta e poderá atépoucas linhas para os episódios referentes ao túmulo vazio, parecer delirante para a nossa cultura moderna, comoapesar de eles corporizarem o núcleo mais central da fé cristã. pareceu extravagante a muitos dos que assistiam à explosãoDeste acontecimento crucial para o Cristianismo conhecemos de entusiasmo dos apóstolos, no dia de Pentecostes. Mas équase nada, mas é essa «ignorância» que revela o dado mais este contacto com as raízes mais profundas do real queprecioso do que se viveu naquela radiosa madrugada. O que permite perceber que «a verdade do finito está no infinito»,as primeiras testemunhas começaram por ver foram peças para utilizar palavras de Hegel.de tecido e o sepulcro vazio, mas esses sinais de ausência Estes pressupostos da fé são difíceis de aceitar pelatornaram-se mais eloquentes que mil palavras. O mais decisivo mentalidade moderna que, desconfiada de tudo o quenão foi aquilo que os seus olhos avistaram, mas a experiência extravasa as fronteiras do pragmatismo, concede uma baixade uma presença que excedia inimaginavelmente tudo o que cotação aos bens do Espírito. Isto não deixa de ser estranho, porque, apesar de todos os progressos científicos, o mundo P.Tapodiam esperar ou desejar. Foi esse saber interior queproporcionou às mulheres e aos discípulos, testemunhas do de hoje não sabe mais do que um Séneca ou um Platãosepulcro vazio, a audácia mais intemerata de proclamar que sobre a realidade da morte e do Além. Diante dosJesus Cristo estava vivo. sobressaltos provocados por esta incerteza, a cultura hodierna de Fraternitas Movimento | Trimestral | Redacção: Fernando Félix Se aqui se recordam esses dados, é para sublinhar que a cultiva uma subliminar indiferença relativamente àqueles que,Boa Nova celebrada pelos cristãos nesta época pascal radica no meio de uma obscuridade insuperável, professam quedo pressentimento de uma super-abundância de vida, que a este mundo não é tudo.nossa condição terrena não pode conter. A mensagem da É possível que os frutos da celebração pascal,Ressurreição é o anúncio alegre de um acontecimento designadamente das formas populares do anúncio domisterioso que dilata a insatisfação humana até um horizonte Ressuscitado, como o compasso, sejam demasiadamentealém do vivido na terra. Isso não significa qualquer cedência modestos para tocar a indiferença da nossa época niilista.ao irracionalismo, mas a abertura a uma luz matinal, apta a Mas é também ao nosso mundo fechado numa secularizaçãodar à existência um sentido que supera a capacidade de radical que a Igreja deve testemunhar que só se chega àapreensão racional, pois, como Adorno nos previne, «uma plenitude, quando se chega à fecundidade de um Amor capazrazão que não se decapita a si mesma, desemboca na de germinar vida nova em abundância. Para aqueles quetranscendência». apenas sabem proclamar o miserável credo do progresso, A esperança pascal nasce de uma Presença não visível em ou que se contentam em definir para a vida objectivossi mesma mas implicada nos sinais dos tempos, que se vêem. utilitaristas a curto prazo, a alegria pascal anunciada pelosEste olhar novo sobre a História provoca um certo grau de cristãos poderá parecer delirante. Mas é o sobressalto profético contido nesta manifestação pública da fé que poderá irradiar centelhas de luz, num mundo a que o | E-mail: fernfelix@gmail.com materialismo está a roubar a alma. Se ousamos acreditar que No dia 3 de Abril, o fim da nossa vida não coincide com o dia da nossa morte, cantaram-se os parabéns ao é porque em nós bruxuleia um conhecimento interior que P.e Guilhermino Teixeira Saldanha, em Chaves. faz ver tudo de uma maneira nova. É uma certeza que os Ele está bem, dentro do cenário das suas capacidades: cristãos não podem guardar só para si, porque o mundo percebe o que lhe dizem, gosta de jogar dominó..., tem o direito de saber que a morte, que é do tempo, não e das limitações: um lado paralisado, não fala... pode atingir uma vida que não pertence ao tempo. Essa convicção geradora de uma alegria irreprimível é o que testemunha a Igreja, em consonância com a quadra primaveril, quando a natureza desabrocha febrilmente por todos os recantos, depois do repouso vegetativo do Inverno. Louvável tentativa de anunciar que a ternura de Deus suscita em quem a acolhe uma felicidade que se expande em alegria eterna. A vivência desta verdade só está ao alcance daqueles que se deixam conduzir pela sabedoria do coração, assim Boletim QUELUZ descobrindo que o essencial está para lá daquilo que vemos. O verdadeiro saber é aquele que nos ajuda a encontrar o sabor da vida, levando-nos a apreciá-la com um coração apaixonado. Seguramente que o grande Albert Einstein experimentou esta vibração interior, quando escreveu: «O espiral mais belo sentimento que podemos experimentar é o sentido do mistério. Ribeiro Manuel António Ribeiro

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