John flanagan rangers - ordem dos arqueiros 2 - ponte em chamas

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John flanagan rangers - ordem dos arqueiros 2 - ponte em chamas

  1. 1. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)Flanagan, JohnRangers — Ordem dos Arqueiros: Ponte em Cha-mas/John Flanagan; [versão brasileira da editora] — SãoPaulo, SP: Editora Fundamento Educacional, 2009.Título original: Rangers apprentice: The Burning BridgeI. Literatura infanto-juvenil I. Título.07-8417 CDD-028. 5 Índices para catálogo sistemático:l. Literatura infanto-juvenil 023. 5 2. Literatura juvenil023.5
  2. 2. Halt e Will estavam seguindo os Wargals por três dias.As quatro criaturas grandes e selvagens, soldados do re-belde comandante Morgarath tinham sido vistas passandopelo Feudo Redmont em direção ao norte. Assim que ainformação chegou aos ouvidos do arqueiro, ele saiu parainterceptá-los, acompanhado de seu jovem aprendiz. — De onde será que eles vieram, Halt? — Willperguntou durante uma de suas curtas paradas para des-canso. — O Desfiladeiro dos Três Passos já não está bemvigiado? O Desfiladeiro dos Três Passos era o único acessoexistente entre o reino de Araluen e as Montanhas daChuva e da Noite, onde Morgarath mantinha seu quar-tel-general. Agora que o reino estava se preparando para aguerra com Morgarath, a companhia de infantaria e os ar-queiros tinham sido enviados para reforçar a pequenaguarnição permanente na estreita passagem até que o e-xército principal pudesse se reunir. — Esse é o único lugar de onde eles podem vir emgrande número — Halt concordou. — Mas um pequeno
  3. 3. grupo como esse poderia entrar no Reino pela barreira depenhascos. O domínio de Morgarath era um inóspito planaltoque se erguia nas montanhas sobre as fronteiras no sul doreino. Do Desfiladeiro dos Três Passos, no leste, saía umalinha de penhascos íngremes e escarpados, em direção aooeste, formando a fronteira entre o planalto e Araluen. Àmedida que avançavam para o sudoeste, os penhascosmergulhavam em outro obstáculo chamado fenda: umaabertura na terra que corria para o mar e separava o terri-tório de Morgarath do reino dos celtas. Foram essas fortificações naturais que mantiveramAraluen e sua vizinha Céltica a salvo dos exércitos deMorgarath nos últimos dezesseis anos. Por outro lado, e-las também protegeram o rebelde comandante das forçasde Araluen. — Pensei que fosse impossível passar por essespenhascos — Will comentou. — Nenhum lugar é realmente impossível de atra-vessar — Halt retrucou com um sorriso sombrio. —Principalmente se você não der importância a quantas vi-das vai perder tentando provar esse fato. Na minha opi-nião, eles usaram cordas e ganchos e esperaram uma noitesem luar e de mau tempo para conseguirem passar pelaspatrulhas da fronteira. Ele se levantou, mostrando que o descanso tinhachegado ao fim. Will também se ergueu, e os dois foramaté os cavalos. Halt grunhiu levemente quando montou na
  4. 4. sela. O ferimento que tinha sofrido na batalha com osdois Kalkaras ainda o incomodava um pouco. — Minha principal preocupação não é saber deonde eles vieram — ele continuou. — É saber para ondeestão indo e o que pretendem. Halt mal tinha acabado de falar quando ele e Willouviram um grito vindo de algum ponto adiante deles,seguido por uma confusão de grunhidos e, finalmente,pelo choque de armas. — E talvez a gente descubra isso bem depressa! —concluiu. Ele fez Abelard galopar, controlando-o com os jo-elhos enquanto as mãos, sem esforço, escolhiam uma fle-cha e a ajustavam à corda de seu enorme arco. Will subiuna sela de Puxão com a ajuda das mãos e galopou atrás domestre. Ele não conseguia imitar a habilidade de Halt paramontar sem usar as mãos, pois precisava da mão direitapara segurar as rédeas enquanto segurava o arco com aesquerda. Eles estavam atravessando um bosque com poucasárvores, deixando que os espertos cavalos escolhessem omelhor caminho. De repente, saíram do meio das árvorespara uma ampla campina. Abelard, obedecendo a um co-mando de seu cavaleiro, parou, seguido imediatamentepor Puxão. Will deixou cair as rédeas no pescoço do ani-mal e sua mão instintivamente procurou uma flecha naaljava e a posicionou no arco.
  5. 5. Uma grande figueira crescia no meio do terrenocom pouca vegetação. Um pequeno acampamento tinhasido montado junto do tronco. Um fio de fumaça aindasubia da fogueira, e uma mochila e um cobertor enroladoestavam no chão ao lado dela. Os quatro Wargals cerca-vam um homem que estava de costas para a árvore. Suaespada ainda os mantinha longe dele, mas os Wargals fa-ziam leves movimentos em sua direção, tentando encon-trar uma brecha para atacá-lo. Eles estavam armados comespadas curtas e machados, e um deles carregava uma pe-sada lança de ferro. Will respirou fundo ao ver as criaturas. Depois deseguir suas pegadas por tanto tempo, era um choquevê-los claramente tão de repente. Seus corpos eram pare-cidos com os de ursos; eles tinham focinhos longos e for-tes e presas amarelas de cachorro, agora expostas ao ros-narem para sua vítima. Eram cobertos por pelos desgre-nhados e usavam armaduras pretas de couro. O homemestava vestido de modo parecido, e sua voz tremia demedo ao repelir as tentativas de ataque. — Para trás! Estou cumprindo uma missão paralorde Morgarath. Para trás, eu ordeno! Eu ordeno emnome de lorde Morgarath! Halt fez que Abelard se virasse, de modo a ter es-paço para puxar a flecha que já estava preparada no arco. — Larguem as armas! Todos vocês! — ele gritou. Cinco pares de olhos se voltaram para ele quandoos quatro Wargals e sua presa se viraram surpresos. O
  6. 6. Wargal que segurava a lança se recuperou primeiro. Per-cebendo que o espadachim estava distraído, disparou paraa frente e perfurou seu corpo com a lança. Um segundodepois, a flecha de Halt se enterrou no coração do Wargale ele caiu morto ao lado da presa ferida. Quando o espa-dachim caiu de joelhos, os outros Wargals investiram con-tra os dois arqueiros. Mesmo desajeitadas e enormes, astrês criaturas moveram-se numa velocidade incrível. O segundo tiro de Halt atingiu o Wargal da es-querda. Will atirou em outro à direita e percebeu nomesmo instante que tinha julgado mal a velocidade da cri-atura abrutalhada: a flecha passou sibilando no espaçoonde o Wargal tinha estado um segundo antes. Sua mãovoou para a aljava à procura de outra flecha, e ele ouviuum gemido rouco de dor quando o terceiro tiro de Haltatingiu o peito da criatura que estava no centro. EntãoWill soltou a segunda flecha na direção do Wargal sobre-vivente, agora assustadoramente perto. Apavorado diante dos olhos selvagens e das presasamarelas da criatura, o garoto atirou, sentindo que a flechairia passar longe do alvo. O Wargal estava quase sobre ele. Quando a criatura rosnou triunfante, Puxão veioem ajuda de seu dono. O pequeno cavalo empinou e ata-cou o monstro terrível com as patas dianteiras, avançandoem seguida alguns passos em sua direção. Will, tomado desurpresa, agarrou-se ao alto da sela. O Wargal ficou igualmente surpreso. Como todosde sua espécie, ele tinha um profundo medo instintivo de
  7. 7. cavalos, um medo nascido na Batalha de Hackman Heath,dezesseis anos antes, na qual o primeiro exército de War-gals de Morgarath foi dizimado pela cavalaria de Araluen.O monstro hesitou por um segundo fatal, recuando diantedos cascos impiedosos do cavalo. A quarta flecha de Halt atingiu a criatura na gar-ganta e, devido à curta distância, a atravessou. Com umúltimo grito agudo, o Wargal caiu morto na grama. Pálido, Will escorregou para o chão, pois não con-seguia se manter em pé. Teve que se segurar em Puxãopara se levantar. Halt saltou da sela depressa, foi até o ga-roto e o abraçou. — Está tudo bem, Will — a voz grave atravessou omedo que enchia a mente do rapaz. — Já passou. Mas Will sacudiu a cabeça negativamente horrori-zado com a rápida série de acontecimentos. — Halt, eu errei... duas vezes! Entrei em pânico eerrei! Ele foi tomado por uma profunda sensação devergonha por ter causado tamanha decepção ao seu mes-tre. O braço de Halt apertou ainda mais o ombro do ga-roto, que olhou para o rosto barbado e os olhos escuros eprofundos do mestre. — Há uma grande diferença entre atirar num alvo enum Wargal que está pronto para atacar. Geralmente oalvo não quer matar você.
  8. 8. Halt acrescentou as últimas palavras num tom maissuave. Ele percebeu que Will estava em choque. “E não épara menos”, ele pensou sombriamente. — Mas... eu errei... — E aprendeu uma lição. Da próxima vez, não vaierrar. Agora você sabe que é melhor atirar uma flechacom atenção do que duas com pressa — Halt disse comfirmeza. Então, pegou o braço de Will e fez o garoto se virarpara o local do acampamento debaixo da figueira. — Vamos ver o que achamos ali — ele sugeriupondo um fim na conversa. O homem vestido de preto e o Wargal estavammortos, caídos lado a lado. Halt se ajoelhou ao lado dohomem e o virou, assobiando surpreso. — É Dirk Reacher — ele informou meio para simesmo. — Ele é a última pessoa que eu esperaria ver a-qui. — Você conhece ele? — Will perguntou. Sua insaciável curiosidade já o estava ajudando aesquecer os terríveis minutos anteriores, como Halt sabiaque iria acontecer. — Eu persegui ele até que saísse do reino, há unscinco ou seis anos — o arqueiro contou. — Era um co-varde e assassino. Desertou do exército e encontrou seulugar, junto de Morgarath — ele fez uma pausa. — Pareceque Morgarath está se especializando em recrutar pessoascomo ele. Mas o que esse homem estava fazendo aqui...?
  9. 9. — Ele disse que estava numa missão para Morga-rath. — Duvido. Os Wargals estavam caçando ele e so-mente Morgarath poderia ter dado essa ordem. Dificil-mente os Wargals perseguiriam alguém que estivesse tra-balhando para o chefe deles. Acho que estava desertandooutra vez. Ele fugiu de Morgarath, e os Wargals forammandados atrás dele. — Por quê? — Will perguntou. — Por que deser-tar? — A guerra está para começar — Halt disse dandode ombros. — Pessoas como Dirk tentam evitar esse tipode aborrecimento. Ele pegou a mochila que estava perto da fogueirado acampamento e começou a remexer dentro dela. — Você está procurando alguma coisa em especial?— Will perguntou. Halt franziu a testa e, cansado de olhar dentro damochila, derramou o conteúdo no chão. — Bom, me ocorreu que, se ele tivesse desertado equisesse voltar para Araluen, teria que levar alguma coisapara trocar por sua liberdade. Assim... Sua voz desapareceu aos poucos quando ele apa-nhou um pedaço de pergaminho cuidadosamente dobradoentre as poucas roupas e utensílios de cozinha. Ele o exa-minou rapidamente e ergueu uma das sobrancelhas leve-mente. Depois de quase um ano convivendo com o ar-queiro grisalho, Will sabia que aquilo era o equivalente a
  10. 10. um grito de espanto. Ele também sabia que, se interrom-pesse Halt antes que terminasse de ler, seu mentor sim-plesmente o ignoraria. Will esperou até que Halt dobrasseo papel, levantasse devagar e olhasse para o aprendiz, en-xergando a pergunta no olhar do garoto. — É importante? — Ah, acho que posso dizer que sim — Halt res-pondeu. — Parece que tropeçamos nos planos de batalhade Morgarath para a próxima guerra. Acho melhor vol-tarmos para Redmont. Ele assobiou baixinho, e Abelard e Puxão trotarampara junto de seus donos. Das árvores, a várias centenas de metros de distân-cia, cuidadosamente a favor do vento para que os cavalosdos arqueiros não sentissem o cheiro do intruso, olhosinamistosos os observavam. Seu dono observou os doisarqueiros se afastarem da cena da pequena batalha e entãose virou para o sul, na direção dos penhascos. Era hora deinformar Morgarath que seu plano tinha dado certo.
  11. 11. Já era quase meia-noite quando um cavaleiro solitáriofreou o cavalo em frente à pequena cabana construída en-tre as árvores abaixo do Castelo Redmont. O pônei carre-gado que caminhava atrás do cavalo selado parou tam-bém. O cavaleiro, um homem alto que se movia com agraça fácil da juventude, escorregou da sela e entrou navaranda estreita, agachando-se para não bater no beiralbaixo. Do estábulo coberto ao lado da casa, vinha o somdo suave relinchar de cavalos, e o animal que acabara dechegar levantou a cabeça como se respondesse a umcumprimento. O cavaleiro tinha levantado o punho para bater naporta quando viu uma luz se acender atrás da cortina dajanela. Ele hesitou. A luz atravessou a sala e, cerca de umsegundo depois, a porta se abriu. — Gilan — Halt disse sem qualquer sinal de sur-presa na voz. — O que está fazendo aqui? O jovem arqueiro riu ao encarar o antigo professor.
  12. 12. — Como você faz isso, Halt? — ele perguntou. —Como você podia saber que era eu quem estava chegandono meio da noite, antes mesmo de abrir a porta? Halt deu de ombros, fazendo sinal para que Gilanentrasse na casa. Ele fechou a porta, foi até a pequena co-zinha bem arrumada, abriu o fogão e reavivou as chamasdo carvão em seu interior. Jogou alguns gravetos no fogãoe colocou uma chaleira de cobre na chapa quente sobre ofogo, sacudindo-a primeiro para se certificar de que tinhabastante água. — Escutei um cavalo há alguns minutos — elecontou. — Então, quando ouvi Abelard cumprimentar,soube que tinha que ser o cavalo de um arqueiro. Ele deu de ombros outra vez. “Simples, depois daexplicação”, dizia o gesto. Gilan riu em resposta. — Bem, isso reduziu as possibilidades para 50 pes-soas, não é mesmo? Halt inclinou a cabeça para o lado com um olhar depena. — Gilan, acho que ouvi você tropeçando naqueledegrau da frente umas mil vezes quando era meu aluno.Admita que eu não podia deixar de reconhecer esse sommais uma vez. O arqueiro mais jovem estendeu as mãos num ges-to de derrota. Ele tirou a capa e a pendurou em uma ca-deira, aproximando-se mais um pouco do fogão. A noiteestava fria, e ele ficou olhando com certa ansiedade Haltpreparar o café. A porta do quarto dos fundos se abriu, e
  13. 13. Will entrou na pequena sala com as roupas vestidas àspressas sobre o pijama e os cabelos ainda desgrenhados. — Boa-noite, Gilan — ele cumprimentou calma-mente. — O que trouxe você aqui? Gilan olhou de um para outro um tanto desespe-rado. — Ninguém fica surpreso quando apareço no meioda noite? — ele perguntou. Halt, ocupado no fogão, se virou para esconder umsorriso. Alguns minutos antes, ele tinha ouvido Will semover apressado e ir até a janela quando o cavalo se apro-ximou da cabana. Era evidente que o aprendiz tinha ou-vido a sua conversa com Gilan e estava fazendo o melhorque podia para tentar criar o seu jeito informal de tratar achegada inesperada. Entretanto, conhecendo Will comoconhecia, Halt tinha certeza de que o garoto estava ar-dendo de curiosidade quanto ao motivo da visita inespe-rada, por isso resolveu fazer uma brincadeira. — É tarde, Will. Acho bom você voltar para a ca-ma. Temos um dia cheio amanhã. No mesmo instante, a expressão indiferente de Willfoi substituída por um olhar infeliz. A sugestão do mestreequivalia a uma ordem. Todas as intenções de parecer ca-sual desapareceram de repente. — Ah, por favor, Halt! — o garoto exclamou. —Quero saber o que está acontecendo! Halt e Gilan trocaram um sorriso rápido. Will es-perava ansiosamente que Halt mudasse de ideia quanto a
  14. 14. mandá-lo para a cama. O arqueiro grisalho continuou sé-rio ao colocar três canecas fumegantes de café na mesa dacozinha. — Por que você acha que preparei três xícaras? —ele disse, e Will percebeu que tinha sido feito de bobo. Ele deu de ombros sorrindo e se sentou com seussuperiores. — Muito bem, Gilan, antes que meu aprendiz aca-be explodindo de curiosidade, qual é a razão para essa vi-sita inesperada? — Bom, tem a ver com os planos de batalha quevocê descobriu na semana passada. Agora que conhece-mos as intenções de Morgarath, o rei quer o exércitopronto nas Planícies de Uthal antes da próxima Lua cres-cente. É nesse dia que Morgarath planeja atravessar oDesfiladeiro dos Três Passos. O documento encontrado tinha muitas informa-ções. O plano de Morgarath falava de 500 mercenáriosescandinavos que iriam atravessar os pântanos e atacar aguarnição no Desfiladeiro dos Três Passos. Com o desfi-ladeiro desprotegido, o exército principal de Wargals po-deria invadir e espalhar suas tropas na planície. — Então Duncan planeja atacar primeiro — Haltdisse assentindo devagar. — Boa ideia. Desse jeito, vamoscontrolar o campo de batalha. — E vamos manter o exército de Morgarath presonuma armadilha no desfiladeiro — Will disse em tom i-gualmente sério, também concordando com a cabeça.
  15. 15. Gilan se virou ligeiramente para esconder um sor-riso. Ele se perguntou se tinha tentado imitar os trejeitosde Halt quando era seu aprendiz e chegou à conclusão deque provavelmente tinha, sim. — Ao contrário — ele disse. — Quando o exércitochegar, Duncan planeja se retirar, voltar para posiçõespreparadas com antecedência e deixar Morgarath sair dasplanícies. — Deixar ele sair? — Will indagou surpreso e comvoz aguda. — O rei está louco? Por que... Ele percebeu que os dois arqueiros o observavam.Halt com uma sobrancelha levantada e Gilan com um sor-riso zombeteiro dançando nos cantos da boca. — Quero dizer... — hesitou, sem saber ao certo sequestionar a sanidade do rei poderia ser considerado trai-ção. — Sem querer ofender ou qualquer coisa parecida. Éque... — Ah, tenho certeza de que o rei não vai ficar o-fendido se souber que um mero aprendiz de arqueiropensa que ele está doido — Halt retrucou. — Os reis ge-ralmente adoram ouvir esse tipo de coisa. — Mas Halt... deixar que ele saia, depois de todosesses anos? Parece... — ele ia dizer “loucura”, mas pensoumelhor. De repente, o rapaz se lembrou do recente encon-tro com os Wargals. A ideia de milhares daquelas criaturashorríveis se espalhando livremente para fora do desfila-deiro fez seu sangue congelar.
  16. 16. — Essa é exatamente a questão, Will — Halt foi oprimeiro a responder. — “Depois de todos esses anos.”Nós passamos dezesseis anos olhando para Morgarath enos perguntando quais as intenções dele. Anos atrás, nos-sas forças estavam ocupadas patrulhando a base dos pe-nhascos e vigiando Três Passos. E ele teve a liberdade denos atacar no momento em que quis. Os Kalkaras foramo exemplo mais recente, como você sabe muito bem. Gilan olhou para o antigo mestre com admiração.Halt tinha entendido imediatamente o raciocínio que es-tava por trás do plano do rei. Não era a primeira vez quepercebia por que Halt era um dos conselheiros mais res-peitados do monarca. — Halt está certo, Will. E há outro motivo. Depoisde dezesseis anos de relativa paz, as pessoas estão ficandocomplacentes. Não os arqueiros, é claro, mas o povo dasvilas que fornecem homens ao nosso exército. E até al-guns dos barões e mestres de guerra em feudos longín-quos ao norte. — Você mesmo viu como algumas pessoas hesitamem deixar as fazendas e ir para a guerra — Halt argumen-tou. Will assentiu. Ele e Halt tinham passado a últimasemana viajando para os vilarejos vizinhos do FeudoRedmont para alistar homens e formar o exército. Emmais de uma ocasião, foram recebidos com total hostili-dade. Uma hostilidade que desapareceu quando Halt usoutoda a força de sua personalidade e reputação.
  17. 17. — No que se refere ao rei Duncan, agora é o mo-mento de acertar isso — Gilan continuou. — Nós esta-mos tão fortes quanto sempre fomos, e qualquer atraso sóvai nos enfraquecer. Esta é a melhor oportunidade quetemos para nos livrar de Morgarath de uma vez por todas. — E tudo isso nos leva de volta à minha primeirapergunta — Halt replicou. — O que traz você aqui nomeio da noite? — Ordens de Crowley — Gilan disse animado. Ele colocou sobre a mesa uma mensagem escrita, eHalt, depois de um olhar interrogador para Gilan, a de-senrolou e leu. Will sabia que Crowley era o comandantedos arqueiros, a maior autoridade entre os 50 arqueiros daCorporação. Halt leu e tornou a enrolar as ordens. — Então você está levando mensagens para o reiSwyddned, dos celtas. Suponho que está invocando o tra-tado mútuo de defesa que Duncan assinou com ele há al-guns anos. Gilan assentiu, tomando um gole do café cheirosocom satisfação. — O rei acha que vamos precisar de todas as tro-pas que pudermos reunir. — Não posso criticar ele por pensar assim — Haltdisse em voz baixa concordando pensativo. — Mas...? Ele estendeu as mãos num gesto de interrogação. Ogesto parecia dizer que, se Gilan estava levando mensa-gens para Céltica, quanto mais rápido ele começasse, me-lhor.
  18. 18. — Bom — disse Gilan —, é uma missão oficialpara Céltica. Ele deu ênfase à ultima palavra e, de repente, Haltacenou com a cabeça compreendendo o que o outro ar-queiro queria dizer. — Claro — ele disse. — A velha tradição celta. — É mais uma superstição — Gilan comentou. —Na minha opinião, é uma perda de tempo ridícula. — Claro que é — Halt respondeu —, mas os celtasinsistem nela. Então, o que se pode fazer? Will olhou de Halt para Gilan e para seu mentornovamente. Os dois arqueiros pareciam entender do queestavam falando. Para Will, eles pareciam falar uma línguaestrangeira. — Não há problemas em tempos normais — Gilandisse. — Mas, com todos esses preparativos para a guerra,estamos com dificuldades em todas as áreas. Simplesmen-te não dispomos de pessoal. Então Crowley pensou... — Acho que já estou adiante de você — Halt dissee, finalmente, Will não conseguiu mais aguentar. — Bom, acho que estou bem atrás de você! — eleexplodiu. — O que raios vocês estão dizendo? Estão fa-lando a nossa língua ou algum estranho idioma estrangeiroque se parece com ela, mas não faz nenhum sentido?
  19. 19. Surpreso diante da explosão repentina, Halt se viroulentamente para encarar seu jovem e impulsivo aprendiz. — Sinto muito, Halt — Will murmurou se acal-mando. — Acho que deve mesmo — o arqueiro mais velhocomentou. — É mais do que evidente que Gilan estáperguntando se vou liberar você para acompanhar ele aCéltica. Gilan fez um gesto de confirmação e Will franziu atesta atordoado com a repentina virada nos acontecimen-tos. — Eu? — ele perguntou sem acreditar. — Por queeu? O que posso fazer em Céltica? Assim que proferiu as palavras, Will se arrependeu.Ele já deveria ter aprendido a nunca dar esse tipo de a-bertura para Halt. Seu mestre franziu os lábios e pensouna pergunta. — Não muito, provavelmente. A pergunta impor-tante é se você pode ser liberado de suas tarefas aqui. E aresposta é “com certeza”.
  20. 20. — Então por que... Will desistiu. Eles poderiam explicar o que estavaacontecendo ou não. E, por mais que perguntasse, Halt sódaria explicações quando achasse que tinha chegado omomento. Na verdade, ele estava começando a pensarque, quanto mais perguntas fazia, mais Halt gostava dedeixá-lo às escuras. Foi Gilan que sentiu pena do garoto,talvez por se lembrar de como Halt podia ser fechadoquando queria. — Preciso de você para completar o grupo, Will —informou. — Por tradição, os celtas insistem em que umamissão oficial seja composta por três pessoas. E, para serhonesto, Halt está certo. Você é uma das pessoas que po-dem ser liberadas das funções aqui em Araluen — ele riuum tanto tristemente. — Se isto o faz se sentir melhor,recebi a missão porque sou o integrante mais novo dosarqueiros da Corporação. — Mas por que três pessoas? — Will quis saber,vendo que pelo menos Gilan estava disposto a responderperguntas. — Uma pessoa só não pode entregar a mensa-gem? — Como estávamos dizendo, é uma superstiçãodos celtas — Gilan contou suspirando. — Ela remontaaos dias do Conselho Celta, quando eles, os scottis e oshibernianos eram aliados governados por um triunvirato. — A questão é — Halt interrompeu — que Gilanpode levar a mensagem sozinho. Mas, se assim for, elesvão fazer ele esperar e enganar ele com artifícios durante
  21. 21. dias, ou até semanas, enquanto se preocupam com etique-ta e protocolos. E não temos esse tempo a perder. Há umvelho ditado celta que fala sobre isso: Um homem podeser enganado. Dois, pode ser conspiração. Três é o nú-mero em que confio. — Então vocês estão me mandando porque não háoutro jeito? Will perguntou um tanto insultado com a ideia. Halt decidiu que era o momento de massagear ojovem ego um pouco; mas só um pouco. — Bem, na verdade, há, sim. Mas não se podemandar qualquer um para uma missão dessas. Os trêsmembros precisam ter algum tipo de status. Por exemplo,eles não podem ser simples soldados. — E você, Will — Gilan acrescentou —, é ummembro do Corpo dos Arqueiros. Isso vai pesar bastantepara os celtas. — Sou só um aprendiz — Will retrucou e ficousurpreso quando os dois homens balançaram a cabeçadiscordando. — Você usa a Folha de Carvalho — Halt disse comfirmeza. — Não importa se é de bronze ou prata. Você éum dos nossos. Will ficou visivelmente animado com a declaraçãodo mestre. — Bom, se vocês acham isso, vou ficar muito felizem acompanhar Gilan — Will respondeu.
  22. 22. Halt olhou para ele com frieza. Certamente eratempo de parar com as carícias no ego. Deliberadamente,ele se virou para Gilan. — Então, você sabe de mais alguém que seja to-talmente desnecessário para ser o terceiro membro? — eleperguntou. Gilan deu de ombros, sorrindo quando viu Will seacalmar. — Esse é o outro motivo pelo qual Crowley memandou para cá — ele contou. — Como Redmont é umdos maiores feudos, ele pensou que vocês poderiam dis-pensar outra pessoa daqui. Alguma sugestão? — Acho que talvez tenhamos exatamente a pessoade quem você precisa — Halt disse esfregando o queixoenquanto uma ideia se formava em sua cabeça. — Talvezseja melhor você ir para a cama — ele disse virando-separa Will — Vou ajudar Gilan com os cavalos e depoisvou até o castelo. Will concordou. Agora que Halt tinha mencionadoa cama, o rapaz sentiu uma vontade irresistível de bocejar.Ele se levantou e foi para o seu pequeno quarto. — Até amanhã, Gilan. — Bem cedo — Gilan respondeu sorrindo, e Willrevirou os olhos fingindo estar apavorado. — Eu sabia que você ia dizer isso. Halt e Gilan atravessaram os campos e foram até oCastelo Redmont num silêncio agradável. Gilan, atentoaos modos do antigo mestre, percebeu que Halt queria
  23. 23. discutir um assunto. Não demorou muito para que o ar-queiro mais velho quebrasse o silêncio. — Essa missão para Céltica pode ser exatamente oque Will precisa. Estou um pouco preocupado com ele. Gilan franziu a testa. Ele gostava do jovem e irre-freável aprendiz. — Qual é o problema? — Ele passou por maus momentos quando encon-tramos aqueles Wargals na semana passada — Halt con-tou. — Acha que perdeu a coragem. — E perdeu? — Claro que não — Halt disse e sacudiu a cabeçacom determinação. — Ele tem mais coragem do quemuitos homens adultos. Mas, quando os Wargals nos ata-caram, ele se apressou em atirar e errou. — Isso não é nenhuma vergonha, é? — Gilan re-trucou. — Afinal, ele nem tem 16 anos ainda. Suponhoque não tenha fugido. — Não, de jeito nenhum. Ele se manteve firme.Até conseguiu atirar outra flecha. Então Puxão fez oWargal recuar para que eu desse cabo dele. Bom cavaloaquele. — Ele tem um bom dono — Gilan replicou, e Haltconcordou. — Isso é verdade. Mesmo assim, acho que vai serbom para o garoto passar algumas semanas longe de todosesses preparativos de guerra. Ele vai esquecer os proble-mas se ficar algum tempo com você e Horace.
  24. 24. — Horace? — Gilan perguntou. — Ele é o terceiro membro que estou sugerindo.Um dos aprendizes da Escola de Guerra e amigo de Will.— Halt pensou alguns minutos e então disse para simesmo. — Sim. Algumas semanas com pessoas da mesmaidade vão fazer bem a ele. Afinal, dizem que fico umpouco carrancudo de vez em quando. — Você, Halt? Carrancudo? Quem diria uma coisadessas? — Gilan brincou. Halt olhou para ele desconfiado. Era evidente queo rapaz estava tendo dificuldades em ficar sério. — Você sabe, Gilan — Halt comentou —, que osarcasmo é a pior forma de fazer graça. Aliás, nem graçatem. Apesar de já passar da meia-noite, as luzes aindaestavam acesas no escritório do barão Arald quando Halte Gilan chegaram ao castelo. O barão e sir Rodney, o mestre de guerra de Red-mont, tinham muitos planos a fazer, preparando-se para amarcha até as Planícies de Uthal, onde iriam se juntar aoresto do exército do Reino. Quando Halt explicou do queGilan precisava, sir Rodney logo percebeu aonde o ar-queiro queria chegar. — Horace? — ele perguntou, e o pequeno arqueirode barba concordou de modo quase imperceptível. —
  25. 25. Sim, não é mesmo uma má ideia — o mestre de guerracontinuou, andando pela sala enquanto pensava no as-sunto. — Ele tem o status de que você precisa para a ta-refa: é um membro da Escola de Guerra, mesmo sendoapenas um aluno. Podemos dispensar ele da força a partirdeste fim de semana e... — ele fez uma pausa e lançou umolhar significativo para Gilan. — E você até pode acabardescobrindo que ele é uma pessoa útil. O arqueiro mais jovem olhou para ele com curiosi-dade, e sir Rodney continuou. — Ele é um dos meus melhores aprendizes e é umespadachim nato. Já é melhor do que a maioria dos mem-bros da Escola de Guerra, mas costuma encarar a vida deum jeito um tanto formal e inflexível. Talvez uma missãocom dois arqueiros indisciplinados possa ensinar ele a re-laxar um pouco. Ele sorriu brevemente, para mostrar que não pre-tendia ofender ninguém com a brincadeira, e então olhoupara a espada que Gilan usava na cintura. Era uma armaincomum para um arqueiro. — Foi você quem estudou com MacNeil, não éverdade? — O mestre espadachim. Sim, fui eu — Gilan as-sentiu. — Hum — sir Rodney murmurou olhando o jo-vem e alto arqueiro com novo interesse. — Bem, vocêpode ficar à vontade para dar algumas dicas para Horace
  26. 26. enquanto estiverem na estrada. Encare isso como um fa-vor para mim e você vai descobrir que ele aprende rápido. — Com todo o prazer — Gilan respondeu, já comvontade de conhecer aquele guerreiro aprendiz. Durante o período em que tinha sido aprendiz deHalt, ele notara que sir Rodney não costumava elogiar a-bertamente nenhum aluno da Escola de Guerra. — Bem, então está combinado — o barão Araldconcluiu ansioso para voltar para o planejamento de cen-tenas de detalhes da marcha até Uthal. — A que horasvocê pretende partir, Gilan? — Logo depois que o sol nascer, se possível, se-nhor — Gilan respondeu. — Vou mandar Horace se apresentar a você antesdo amanhecer — Rodney lhe disse. Gilan assentiu percebendo que a reunião tinha ter-minado, o que foi confirmado pelas palavras seguintes dobarão. — Agora, se vocês nos derem licença, vamos voltarao assunto relativamente simples que é planejar umaguerra.
  27. 27. O céu estava pesado, com nuvens de chuva sombrias.Em algum lugar, o sol devia estar nascendo, mas ali nãohavia sinal dele, apenas uma luz cinzenta e sem brilho queatravessava as nuvens e, aos poucos, hesitante, enchia océu. Quando o pequeno grupo subiu a última colina,deixando o contorno maciço do Castelo Redmont paratrás, o novo dia finalmente cedeu às nuvens e começou acair uma fria chuva de primavera. Ela era leve, mas persis-tente, e cobria tudo de névoa. No início, escorria pelascapas de lã dos cavaleiros, mas por fim começou a en-charcar o tecido. Depois de cerca de vinte minutos, os trêsestavam encolhidos nas selas e tentavam aquecer o corpoda melhor forma possível. Gilan se virou para os dois companheiros enquantoavançavam com dificuldade de olhos baixos e encolhidossobre os pescoços dos cavalos. Ele sorriu para si mesmo eentão se dirigiu a Horace, que estava ficando ligeiramentepara trás ao lado do pônei de carga conduzido por Gilan.
  28. 28. — E aí, Horace, estamos proporcionando bastanteaventura para você até agora? Horace enxugou o rosto molhado de chuva quenão o deixava enxergar bem e sorriu tristemente. — Menos do que eu esperava, senhor. Mas ainda émelhor do que os exercícios. Gilan assentiu e sorriu para ele. — Imagino que seja mesmo. Você sabe que nãoprecisa andar aí atrás — ele acrescentou com gentileza. —Nós, arqueiros, não somos muito de cerimônia. Venha efique com a gente. Ele cutucou Blaze com o joelho, e o cavalo baio seafastou para abrir espaço. Ansioso, Horace fez seu cavaloavançar para cavalgar ao lado dos dois arqueiros. — Obrigado, senhor — ele disse. Gilan fez umgesto para Will. — Educado, não? — ele perguntou divertido. —Pelo jeito, eles sabem como ensinar boas maneiras na Es-cola de Guerra atualmente. É bom ser chamado de “se-nhor” o tempo todo. Will sorriu com a brincadeira. Mas o sorriso desa-pareceu de seu rosto quando Gilan, pensativo, continuou: — Não é nada ruim quando mostram um pouco derespeito. Talvez você também deva me chamar de senhor— ele disse e virou o rosto para observar a fileira de ár-vores do lado da estrada, para que Will não pudesse ver oleve sorriso que insistia em aparecer.
  29. 29. Aborrecido, Will tentou engolir a resposta. Ele nãoacreditava no que estava ouvindo. — Senhor? — ele disse finalmente. — Você quermesmo que eu o chame de senhor, Gilan? Então, quando Gilan olhou para ele com a testa le-vemente franzida, ele ajuntou rapidamente muito confuso: — Quero dizer, senhor! Você quer que o chame desenhor... senhor? — Não — Gilan respondeu. — Acho que se-nhor-senhor não é adequado. Nem mesmo “senhor Gi-lan”. Acho que só “senhor” ficaria muito bem, você nãoconcorda? Will não conseguia pensar numa forma educada dedizer o que estava pensando e fez um gesto com as mãos,sem saber o que fazer. Gilan continuou. — Afinal, vai ser bom para que a gente se lembrede quem manda neste grupo, não é mesmo? Finalmente, Will conseguiu falar. — Bom, acho que sim, Gil... quer dizer, senhor. Will balançou a cabeça surpreso com essa súbitaexigência de formalidade por parte do amigo. Cavalgouem silêncio por alguns minutos e então ouviu um espirroexplosivo ao seu lado quando Horace tentou, sem suces-so, conter o riso. Will olhou para ele e depois, desconfia-do, se virou para Gilan. O jovem arqueiro estava sorrindo abertamente, o-lhando para o aprendiz e sacudindo a cabeça num falsoarrependimento.
  30. 30. — Brincadeira, Will. Brincadeira. Will percebeu que tinham lhe pregado uma peçanovamente e, desta vez, com o total conhecimento deHorace. — Eu... sa-bia — ele disse constrangido e falandodevagar para mostrar indiferença. Horace riu alto e, desta vez, Gilan o acompanhou. Eles viajaram o dia todo para o sul e finalmenteacamparam ao pé da primeira fileira de montanhas na es-trada para Céltica. Perto do meio-dia, a chuva tinha len-tamente começado a diminuir, mas o chão ao redor delesainda estava encharcado. Os três procuraram lenha seca debaixo das árvoresde folhagem mais espessa e aos poucos reuniram o sufici-ente para uma pequena fogueira. Todos comeram tro-cando experiências num clima de amizade. Horace, contudo, ainda mostrava um pouco de te-mor respeitoso pelo jovem e alto arqueiro. Will acaboupor perceber que, quando Gilan o provocava, estava ten-tando deixar Horace à vontade, certificando-se de que elenão se sentisse deixado de lado. Will se deu conta de quese apegava ainda mais do que antes ao antigo aprendiz deHalt. Pensativo, chegou à conclusão de que ainda tinhamuito a aprender sobre como lidar com as pessoas.
  31. 31. Will sabia que ainda enfrentaria pelo menos outrosquatro anos de treinamento antes de terminar seu apren-dizado. Depois, certamente iria cumprir missões secretas,obter informações sobre os inimigos do reino e, talvez,guiar membros do exército. Assim como Halt tinha feito.O pensamento de que um dia teria de contar com a pró-pria capacidade e inteligência ainda era assustador. Will sesentia seguro na companhia de arqueiros experientes co-mo Halt e Gilan. Uma tranquilizadora aura de conheci-mento e capacidade os cercava, e o garoto se perguntou sealgum dia seria capaz de assumir seu lugar ao lado deles.Naquele exato momento, ele duvidava disso. Will suspirou. Às vezes parecia que a vida faziaquestão de ser confusa. Menos de um ano antes, ele eraum órfão desconhecido e sem nome protegido do CasteloRedmont. Desde então, começara a aprender as técnicasusadas pelos arqueiros e tinha conquistado a admiração eos elogios de todo o Feudo Redmont quando ajudou obarão, sir Rodney e Halt a derrotar as terríveis bestas co-nhecidas como Kalkaras. Ele olhou para Horace, o inimigo de infância quetinha se tornado um amigo, e se perguntou se ele vivia omesmo conflito desconcertante de emoções. A recordaçãodos dias que passaram juntos no castelo o fez se lembrardos outros amigos, George, Jenny e Alyss, agora aprendi-zes de outros chefes de ofício. Ele gostaria de ter tidotempo de se despedir dos amigos antes de partir para Cél-tica. Especialmente de Alyss. Ele se mexeu inquieto
  32. 32. quando pensou nela. Alyss o tinha beijado naquela noite,na pousada, e ele ainda se lembrava do suave toque dosseus lábios. “Sim”, ele pensou, “especialmente Alyss.” Do outro lado da fogueira do acampamento, Gilanobservou Will com olhos semicerrados. Ele sabia que nãoera fácil ser aprendiz de Halt. O arqueiro era uma figuraquase lendária que colocava uma carga pesada em todosos seus alunos. Havia muitas expectativas a concretizar.Ele decidiu que Will precisava se distrair um pouco. — Certo! — ele disse e se levantou de um pulo. —Lições! Will e Horace olharam um para o outro. — Lições? — Will repetiu num tom de voz supli-cante. Depois de um dia na sela, ele só queria saber dedormir. — Isso mesmo — Gilan disse satisfeito. — Apesarde estarmos numa missão, cabe a mim ensinar vocês dois. — Ensinar o quê? — Horace perguntou confuso.— Por que eu deveria aprender técnicas usadas pelos ar-queiros? Gilan pegou a espada e a bainha presas à sela e ti-rou a lâmina fina e brilhante do estojo de couro. A espadasibilou e pareceu dançar na trêmula luz do fogo. — Técnicas de arqueiros, não, garoto. Técnicas decombate. Deus sabe que precisamos de espadas bem afia-
  33. 33. das o mais depressa possível. Você sabe que uma guerraestá para começar. Com um olhar crítico, ele observou o garoto cor-pulento sentado à sua frente. — Agora, vamos ver o que você sabe fazer comesse palito de dente que está usando. — Ah, está bem! — Horace concordou parecendoum pouco mais satisfeito com o rumo dos acontecimen-tos. Ele nunca se importou em praticar um pouco deesgrima e sabia que não era uma técnica aprendida pelosarqueiros. Puxou a espada com confiança e se posicionouna frente de Gilan, com a ponta da arma educadamentevirada para o chão. Gilan enfiou a ponta da própria espadana terra macia e estendeu a mão para Horace. — Posso ver isso, senhor? — ele pediu. Horace concordou e entregou a arma com o punhovoltado para Gilan. — Está vendo, Will? É isso o que se procura numaespada. Will olhou desinteressado para o objeto. Para ele,parecia uma espada comum. A lâmina era simples e reta, opunho era de aço revestido de couro e a cruzeta era umpedaço grosso de bronze. Ele deu de ombros. — Não parece especial — ele disse num tom dedesculpas, sem querer ferir os sentimentos de Horace. — Não é a aparência delas que importa — Gilanretrucou. — É a sensação que passam. Esta aqui, por e-
  34. 34. xemplo. Ela é bem equilibrada, e você pode agitar ela odia todo sem ficar cansado demais; e a lâmina é leve, masforte. Já vi lâminas duas vezes mais grossas cortadas aomeio por um bom golpe de porrete. As sofisticadas, comgravações, incrustações e joias, também — ele acrescentoucom um sorriso. — Sir Rodney diz que joias no punho de uma es-pada são apenas peso desnecessário — Horace respondeu,e Gilan concordou com um gesto de cabeça. — E mais, elas costumam encorajar as pessoas aatacar você para roubar as joias — contou. Então, com atitude professoral outra vez, devolveua espada de Horace e pegou a dele. — Muito bem, Horace, vimos que a espada é deboa qualidade. Vamos ver o dono. Horace hesitou sem saber ao certo o que Gilanpretendia. — Senhor? — ele disse sem jeito. Gilan fez um gesto na direção de si mesmo com amão esquerda. — Me ataque — ele disse alegre. — Dê um golpe,invista contra mim. Arranque minha cabeça. Sem saber o que fazer, Horace continuou parado. Aespada de Gilan não estava em posição de guarda. Ele asegurava negligentemente na mão direita com a pontavoltada para baixo. Horace fez um gesto desamparado. — Vamos, Horace — Gilan chamou. — Não va-mos esperar a noite toda. Mostre o que sabe fazer.
  35. 35. Horace virou a ponta da própria espada para ochão. — Mas, senhor, eu sou um guerreiro treinado —ele disse. Gilan pensou nisso e assentiu. — É verdade. Mas você vem treinando há menosde um ano. Acho que não vai arrancar muitos pedaços demim. Horace olhou para Will em busca de apoio. O a-migo apenas deu de ombros. Ele supôs que Gilan sabia oque estava fazendo, mas não o conhecia há muito tempo enunca o tinha visto empunhar a espada, muito menos u-sá-la. Gilan balançou a cabeça fingindo desespero. — Vamos lá, Horace! — ele repetiu. Relutante, Horace deu um golpe desanimado emGilan. Naturalmente, ele estava preocupado com o fato denão ser suficientemente experiente para controlar o golpee acabar ferindo o arqueiro, caso conseguisse derrubar adefesa do rapaz. Gilan nem mesmo levantou a espada parase proteger. Em vez disso, oscilou tranquilamente para olado, e a lâmina de Horace passou longe dele sem feri-lo. — Vamos! — ele disse. — Ataque com vontade! Horace respirou fundo e desferiu um golpe vigo-roso em Gilan. Para Will, que via a cena, aquilo foi como poesia.Era parecido com uma dança ou com o movimento daágua correndo sobre pedras lisas. A espada de Gilan, apa-rentemente impelida só por seus dedos e seu pulso, agi-tou-se no ar num arco cintilante para interceptar o golpe
  36. 36. de Horace. Ouviu-se um som metálico, e Horace parousurpreso. A defesa fez sua mão tremer até o ombro. Gilanolhou para ele com as sobrancelhas levantadas. — Assim está melhor — ele disse. — Tente outravez. E Horace obedeceu. Cortadas, golpes por cima, gi-ros completos com o braço. A cada vez, a espada de Gilan disparava para blo-quear o golpe com um estrépito agudo. Horace desferiagolpes cada vez mais fortes e rápidos. O suor caía em suatesta, e sua camisa estava encharcada. Agora ele não pen-sava em tentar não ferir Gilan. Cortava e investia livre-mente e tentava romper a defesa impenetrável do opo-nente. Finalmente, quando a respiração de Horace ficouentrecortada, Gilan mudou os movimentos de bloqueio,que tinham sido tão eficientes contra o ataque vigoroso dorapaz. Sua espada se chocou contra a de Horace e entãodescreveu um pequeno movimento circular, fazendo quesua lâmina ficasse por cima. Em seguida, com um barulhoforte, Gilan deslizou a lâmina ao longo da de Horace, o-brigando a ponta da espada do aprendiz a se virar para ochão. Quando a ponta tocou a terra úmida, Gilan rapida-mente pôs o pé sobre ela e a prendeu. — Certo, isso é suficiente — ele disse com calma. No entanto, seus olhos continuaram fixos nos deHorace, pois o arqueiro queria ter certeza de que o garotopercebera que a sessão de prática tinha terminado. Gilan
  37. 37. sabia que, às vezes, no calor do momento, o espadachimperdedor podia tentar dar apenas mais um golpe, enquan-to, para o oponente, a luta já chegara ao fim. E então, na maioria das vezes, chegava mesmo. Ele viu que Horace estava atento, recuou um poucoe em seguida se afastou depressa para fora do alcance desua espada. — Nada mal — Gilan disse em tom aprovador. Mortificado, Horace deixou a espada cair na terra. — Nada mal? — ele exclamou. — Foi terrível!Nem consegui chegar perto da... — Horace hesitou. De alguma forma, não parecia educado admitir quedurante os últimos três ou quatro minutos ele tinha ten-tado arrancar a cabeça de Gilan. — Não consegui derrubar sua defesa nenhuma vez— ele finalmente confessou. — Bem — Gilan disse com modéstia —, você sabeque já fiz esse tipo de coisa antes. — Sim — Horace respondeu sem fôlego. — Masvocê é um arqueiro, todos sabem que arqueiros não usamespadas. — Pelo que parece, esse usa — Will disse sorrindo.Horace, cansado e derrotado, devolveu o sorriso. — É, acho que você tem razão — ele se virou res-peitosamente para Gilan. — Posso perguntar onde vocêaprendeu a usar a espada, senhor? Nunca vi nada pareci-do.
  38. 38. — Aí vem você de novo com esse “senhor” —Gilan retrucou zombando. — O meu mestre foi um velhohomem. Um morador do norte chamado MacNeil. — MacNeil! — Horace sussurrou admirado. —Você não está falando “daquele” MacNeil, está? MacNeil,de Bannock? — Esse mesmo — Gilan respondeu. — Então vo-cê ouviu falar dele? — Quem não ouviu falar de MacNeil? — Horacereplicou com respeito. E, nesse momento, Will, cansado de não saber oque estava acontecendo, decidiu falar. — Bom, eu nunca ouvi — ele contou. Mas vou fa-zer um chá se alguém me contar a história dele.
  39. 39. — Então me contem sobre esse Neil — Will pediuquando os três se ajeitaram confortavelmente em volta dofogo, com canecas fumegantes de chá de ervas aquecendosuas mãos. — MacNeil — Horace corrigiu. — Ele é uma len-da. — Ah, ele é muito real — Gilan disse. — Acho queposso dizer isso. Treinei com ele durante cinco anos. Co-mecei quando tinha 11 e com 14, fui ser aprendiz de Halt.Mas ele sempre me dava uma licença para continuar meutrabalho com o mestre espadachim. — Mas por que você continuou a aprender a lutarcom a espada depois de começar o treinamento como ar-queiro? — Horace quis saber. — Talvez as pessoas pensassem que era uma ver-gonha desperdiçar todo aquele treinamento — Gilan res-pondeu dando de ombros. — Eu queria muito continuar,e meu pai é sir David, do Feudo de Caraway, então achoque me deram alguma liberdade nesse sentido.
  40. 40. Horace endireitou o corpo ao ouvir esse nome sermencionado. — O chefe de guerra David? — ele perguntou, ob-viamente mais do que impressionado. — O novo coman-dante supremo? Gilan assentiu sorrindo diante do entusiasmo dogaroto. — Ele mesmo. Então, vendo que Will estava em silêncio, continu-ou a explicação. — Meu pai foi nomeado comandante supremo dosexércitos do rei depois da morte de lorde Northolt. Elecomandou a cavalaria na Batalha de Hackman Heath. — Quando Morgarath foi derrotado e obrigado a irpara as montanhas? — Will indagou de olhos arregalados. Gilan e Horace assentiram com um gesto de cabe-ça. Horace continuou a explicação com entusiasmo. — Sir Rodney diz que a forma como ele coordenoua cavalaria com o auxílio dos arqueiros nas laterais, no es-tágio final da batalha, é um verdadeiro clássico. Ele aindausa isso como exemplo de tática perfeita. Não é de sur-preender que o seu pai tenha sido escolhido para substitu-ir lorde Northolt. Will percebeu que a conversa tinha se afastado dotema principal. — Então, o que seu pai teve a ver com esse Mac-Neil? — perguntou voltando ao assunto.
  41. 41. — Bom — Gilan recomeçou —, o meu pai tam-bém foi aluno dele. Por isso, foi natural que MacNeil aca-basse dando aulas em sua Escola de guerra, não é mesmo? — Acho que sim — Will concordou. — E era mais do que natural que eu me tornasseseu aluno assim que consegui levantar uma espada. Afinal,eu era o filho do mestre de Guerra. — Então como você se tornou arqueiro? — Hora-ce perguntou. — Você não foi aceito como cavaleiro? Os dois arqueiros olharam para ele curiosos, decerta forma achando engraçado o fato de ele supor queuma pessoa apenas se tornava arqueiro por não conseguirser cavaleiro ou guerreiro. Na verdade, não fazia muitoque Will tinha se sentido do mesmo jeito, mas agora eleignorara o fato convenientemente. Horace percebeu apausa na conversa e então notou os olhares que recebiados colegas. De repente, ele se deu conta da gafe que tinhacometido e tentou reparar o erro. — Quer dizer... vocês sabem. Bom, quase todosnós queremos ser guerreiros, não é? Will e Gilan trocaram olhares. Gilan levantou umasobrancelha, e Horace continuou a tentar se explicar demaneira bem atrapalhada. — Quer dizer... não quero ofender ninguém... mastodo mundo que conheço quer ser guerreiro. Seu constrangimento diminuiu quando ele apontouum dedo para Will.
  42. 42. — Você mesmo, Will! Lembro que quando éramoscrianças você sempre dizia que iria para a Escola deGuerra e que seria um cavaleiro famoso! Agora foi a vez de Will se sentir pouco à vontade. — E você sempre zombou de mim, não é? E diziaque eu era pequeno demais. — Bom, você era! — Horace retrucou um tantoexaltado. — É mesmo? — Will perguntou zangado. — Poisbem, já lhe ocorreu que talvez Halt já tivesse falado comsir Rodney e dito que me queria como aprendiz? E queessa é a razão por que não fui escolhido para a Escola deGuerra? Você já pensou nisso? Gilan interveio nesse momento, interrompendo adiscussão com delicadeza antes que saísse de controle. — Acho que já chega de briguinhas infantis — eledisse com firmeza. Os dois garotos, prontos para soltar mais uma alfi-netada, cederam um tanto sem jeito. — Ah... está certo — Will resmungou. — Sintomuito. Envergonhado pela cena desagradável que tinhaacabado de ocorrer, Horace balançou a cabeça várias ve-zes. — Eu também. Então, curioso, acrescentou:
  43. 43. — Foi assim que aconteceu, Will? Halt pediu a sirRodney para não escolher você porque queria que vocêfosse arqueiro? Will olhou para baixo e tirou um fio solto da cami-sa. — Bem... não exatamente — ele admitiu. — E vo-cê está certo. Eu sempre quis ser um cavaleiro quandocriança. Mas não mudaria agora, por nada no mundo! —acrescentou depressa virando-se para Gilan. — Comigo aconteceu o contrário — Gilan dissesorrindo para os garotos. — Lembrem-se, eu cresci naEscola de Guerra. Posso ter começado a treinar comMacNeil aos 11 anos, mas comecei o treinamento básicocom cerca de 9 anos. — Deve ter sito ótimo! — Horace disse com umsuspiro. Surpreendentemente, Gilan balançou a cabeçanegativamente. — Não para mim. Vocês já ouviram falar que agrama do vizinho é sempre mais verde? Os dois garotos ficaram espantados ao ouvir essaexpressão. — Quer dizer que você sempre quer o que não tem— Gilan continuou, e os dois assentiram mostrando quecompreendiam. — Bem, foi assim que aconteceu. Quandofiz 12 anos, estava cansado da disciplina, dos exercícios edos desfiles. Ele olhou de lado para Horace.
  44. 44. — Isso acontece muito na Escola de Guerra, vocêsabe muito bem. — Como se eu não soubesse — o garoto corpu-lento concordou suspirando. — Ainda assim, a equitaçãoe os treinos de combate são divertidos. — Talvez — Gilan afirmou. — Mas eu estava maisinteressado na vida que os arqueiros levavam. Depois deHackman Heath, meu pai e Halt ficaram bons amigos, eHalt costumava nos visitar. Eu sempre o via. Muito miste-rioso. Super aventureiro. Comecei a pensar em como seriair e vir à vontade. Viver nas florestas. As pessoas sabemmuito pouco sobre os arqueiros e, para mim, a vida delesparecia a coisa mais emocionante do mundo. — Sempre tive um pouco de medo de Halt — Ho-race confessou. — Eu achava que ele era algum tipo defeiticeiro. — Halt? Um feiticeiro? — Will riu sem acreditar.— Ele não é nada disso! — Mas você achava a mesma coisa — Horace pro-testou magoado outra vez. — Bom... acho que sim, mas eu era só uma criançanaquela época. — Eu também! — Horace retrucou com uma lógi-ca devastadora. Gilan sorriu para os dois. Eram só garo-tos. Halt estava com a razão. Era bom para Will passaralgum tempo com alguém da própria idade.
  45. 45. — Então você pediu a Halt que aceitasse você co-mo aprendiz? — Will perguntou para o arqueiro mais ve-lho. — O que ele respondeu? — Não pedi nada para ele — Gilan contou. — Euo segui um dia quando saiu do nosso castelo e entrou nafloresta. — Você o seguiu? Um arqueiro? Você seguiu umarqueiro na floresta? — Horace indagou. Ele não sabia se deveria ficar impressionado com acoragem de Gilan ou horrorizado com a imprudência. Willse apressou a defender Gilan. — Gil é um dos melhores membros do Corpo deArqueiros e sabe seguir alguém sem ser visto — ele dissedepressa. — Acho que é o melhor nisso. — Naquela época, eu não era — Gilan disse cha-teado. — Veja só, eu achava que sabia alguma coisa sobreme mover sem ser visto. Descobri como sabia poucoquando tentei seguir Halt. Ele parou para comer ao mei-o-dia, e a primeira coisa que vi foi sua mão me agarrandopelo colarinho e me jogando no rio. Ele sorriu com a lembrança. — E então ele mandou você para casa? Você ficouenvergonhado? — Horace perguntou, mas Gilan negoucom um movimento de cabeça e um leve sorriso aindadançando no rosto ao se lembrar daquele dia. — Ao contrário, ele ficou comigo durante uma se-mana. Disse que eu não tinha me saído tão mal ao me es-gueirar pela floresta e que talvez tivesse algum talento para
  46. 46. andar por aí sem ser visto. Começou a me ensinar o queera ser um arqueiro. E, no fim daquela semana, eu tinhame tornado seu aprendiz. — Como seu pai reagiu quando você contou paraele? — Will indagou. — Provavelmente queria que vocêtambém fosse um cavaleiro, não é mesmo? Acho que fi-cou desapontado... — De jeito nenhum — Gilan respondeu. — Foiestranho, mas Halt tinha dito para ele que provavelmenteeu o seguiria pela floresta. O meu pai já tinha concordadoque eu poderia servir como aprendiz de Halt antes mesmode eu saber que queria. — Como Halt poderia ter sabido disso? — Horaceperguntou franzindo a testa. Gilan deu de ombros e lançou um olhar significa-tivo para Will. — Halt tem um jeito especial de saber das coisas,não é, Will? — ele perguntou rindo. Will se lembrou da noite escura no escritório dobarão e da mão que tinha disparado de dentro da escuri-dão para agarrar seu pulso. Halt estava esperando ele na-quela noite. Do mesmo jeito que obviamente esperara queGilan o seguisse. Ele olhou para as brasas da fogueira antes de res-ponder: — Talvez, do jeito dele, ele seja algum tipo de fei-ticeiro.
  47. 47. Por alguns minutos, os três companheiros ficaramsentados num silêncio confortável, pensando no que ti-nham conversado. Então Gilan se espreguiçou e bocejou. — Bom, eu vou dormir — avisou. — Precisamosnos manter alertas no momento, por isso vamos fazerturnos. Will, você é o primeiro, depois Horace e por últi-mo eu. Boa noite para vocês. E, assim, ele se enrolou na capa cinza-esverdeada elogo estava respirando profunda e regularmente.
  48. 48. Eles estavam de volta à estrada antes mesmo de o solsurgir no horizonte. As nuvens tinham desaparecido, car-regadas para longe por um vento fresco vindo do sul, e oar estava limpo e frio quando a trilha que percorriam su-biu sinuosa para o alto das colinas que levavam à fronteirade Céltica. As árvores ficaram mais mirradas e tortas, a gramaera grosseira e a floresta densa tinha sido substituída porarbustos baixos e retorcidos pelo vento. Aquela era uma parte do território onde os ventossopravam constantemente e a terra refletia sua incessanteação destruidora. As poucas casas que viram ao longe comsuas paredes de pedra e telhados rústicos, estavam amon-toadas ao lado das colinas. Aquela era uma parte fria e de-sagradável do reino e, conforme Gilan tinha dito a eles,ficaria ainda pior quando entrassem em Céltica. Naquela noite, enquanto relaxavam em volta dafogueira do acampamento, Gilan continuou a dar aulas deesgrima para Horace.
  49. 49. — A coordenação é a essência da coisa toda — eledisse para o suado aprendiz. — Você está vendo comoestá se defendendo com o braço travado e rígido? Horace olhou para o braço direito e, realmente,Gilan tinha razão. Ele pareceu aborrecido. — Mas eu tenho que estar pronto para impedir oseu golpe — ele explicou. — Olhe... está vendo como eu faço? — Gilan, compaciência, fez uma demonstração com a própria espada.— Quando o seu golpe esta vindo, a minha mão e meubraço estão relaxados. Então, exatamente antes que a suaespada alcance o ponto em que quero que pare, faço umpequeno contragiro, viu? E foi o que ele fez, usando a mão e o pulso paragirar a lâmina da espada, formando um pequeno arco. — Seguro a espada com mais força no último mo-mento, e a maior parte da energia do giro é absorvida pelomovimento da minha própria lâmina. Horace ficou em dúvida. Parecia muito fácil paraGilan. — Mas... e se eu calcular mal o tempo? — Bom, nesse caso, eu provavelmente vou arran-car sua cabeça — Gilan retrucou com um sorriso largo. Ele fez uma pausa, porque viu que Horace não ti-nha ficado muito satisfeito com a resposta. — A ideia é não calcular mal — Gilan acrescentoucom delicadeza. — Mas... — o garoto começou.
  50. 50. — E como você consegue melhorar a coordena-ção? — Gilan interrompeu. — Eu sei. Eu sei. Prática — Horace respondeucansado. — Isso mesmo. Então, está pronto? — Gilan in-dagou radiante. — Um, e dois, e três, e quatro, assim está melhor, etrês, e quatro... Não! Não! Só um pequeno movimento dopulso... e um, e dois... O tilintar das lâminas ecoava pelo acampamento.Satisfeito com o fato de que não era ele que estava suandoem bicas, Will observava com pouco interesse. Depois de alguns dias, Gilan percebeu que Will pa-recia um pouco relaxado demais. Gilan estava sentado a-fiando a lâmina de sua espada depois de uma sessão detreino com Horace quando olhou para o aprendiz de ar-queiro com ar de zombaria. — Halt já lhe mostrou a defesa da espada com facadupla? — ele perguntou de repente. Will olhou surpreso para ele — Faca dupla... o quê? — ele perguntou hesitante. Gilan suspirou profundamente. — A defesa da espada. Droga! Eu devia ter perce-bido que teria mais trabalho para fazer. Bem feito paramim! Trazer dois aprendizes... Ele se levantou com um suspiro exagerado e fezsinal para que Will o acompanhasse. Atordoado, o garotoobedeceu.
  51. 51. Gilan mostrou o caminho para uma clareira circularonde ele e Horace tinham praticado esgrima. Horace aindaestava lá, dando golpes e cortes num inimigo imaginárioenquanto contava baixinho o tempo para si mesmo. Osuor corria livremente por seu rosto, e sua camisa estavaensopada. — Certo, Horace — Gilan chamou. — Faça umapausa de alguns minutos. Agradecido, Horace obedeceu. Abaixou a espada ese deixou cair no tronco de uma árvore tombada. — Acho que estou pegando o jeito da coisa — eledisse, e Gilan concordou. — Bom para você. Mais três ou quatro anos e vocêpoderá dominar essa arte. Ele falou alegremente, mas a expressão de Horaceficou desanimada diante da perspectiva dos longos anosde treinamento cansativo que o esperavam. — Olhe para o lado bom, Horace — Gilan disse.— No fim desse período, vai haver menos que meia dúziade espadachins no reino que poderão vencer você numduelo. O rosto de Horace se animou um pouco, mas logotornou a ficar desconsolado quando Gilan acrescentou: — O segredo está em saber quem são essas pesso-as. Seria muito desagradável se você desafiasse um deles esó depois descobrisse isso, não é? Ele não esperou a resposta e se voltou para o garo-to menor.
  52. 52. — Agora, Will, vamos dar uma olhada nessas suasfacas. — As duas? — Will hesitou, e Gilan revirou os o-lhos. A expressão era muito parecida com a que Halt u-sava quando Will fazia perguntas demais. — Desculpe — Will murmurou, enquanto desem-bainhava as duas facas e as entregava a Gilan. O arqueiro mais velho não as pegou, mas inspe-cionou rapidamente o gume e verificou se estavam cober-tas por uma fina camada de óleo que as protegeria da fer-rugem. Satisfeito, ele assentiu quando viu que tudo estavaem ordem. — Certo. A faca de caça fica na mão direita porqueé a que se usa para bloquear um golpe de espada... — Por que eu iria precisar bloquear um golpe deespada? Gilan se inclinou para a frente e deu uma pancadanão muito delicada com os nós dos dedos no alto da ca-beça de Will. — Bom, talvez impedir que ela rache o seu crânioseja um bom motivo — ele sugeriu. — Mas Halt disse que os arqueiros não lutam cor-po a corpo — Will protestou. — Certamente não é nosso papel — Gilan con-cordou —, mas, se isso acontecer e tivermos que fazer, éuma boa ideia saber como proceder.
  53. 53. Enquanto falavam, Horace tinha levantado dotronco caído e se aproximado para observá-los. — Você não acha que uma faca pequena como essavai parar uma espada, acha? — ele interrompeu com umcerto desprezo. — Dê uma olhada melhor nessa “faca pequena”antes de falar com tanta segurança — Will convidou. Horace estendeu a mão para a faca, e Will rapida-mente a virou e colocou o cabo na mão do amigo. Will tinha que concordar com Horace. A faca eragrande. Na verdade, quase uma espada curta, mas, com-parada a uma espada de verdade, como a de Horace ou ade Gilan, parecia tristemente inadequada. Horace girou a faca para testar o equilíbrio. — É pesada — ele disse afinal. — E dura. Muito, muito dura — Gilan acrescen-tou. — Facas de arqueiros são feitas por artífices que a-perfeiçoaram a arte de endurecer o aço em um grau sur-preendente. A sua espada pode ficar cega nessa lâmina emal deixar uma marca nela. — Mesmo assim, você tem me ensinado a noçãode movimento e equilíbrio a semana toda. Uma lâminacurta como essa tem muito menos equilíbrio. — Isso é verdade — Gilan concordou. — Entãoprecisamos encontrar outra fonte de equilíbrio, não émesmo? E vamos achar isso na faca mais curta, na faca deatirar.
  54. 54. — Não entendo — Horace retrucou com a testamuito franzida. Will também não entendia, mas ficou sa-tisfeito porque o outro garoto admitiu sua ignorância pri-meiro. Então, ele adotou um olhar sabido enquanto espe-rava a explicação de Gilan. Mas deveria ter previsto que osolhos atentos do arqueiro não perdiam nada. — Bem, talvez Will possa explicar para você —Gilan disse feliz. Ele inclinou a cabeça na direção de Will,que hesitou. — Bem... é o... ah... hum... a defesa de duas facas— ele balbuciou. — Não é? — acrescentou, em dúvida,depois de uma longa pausa em que Gilan não disse nada. — Claro que é! — Gilan respondeu. — E que tal sevocê fizesse uma demonstração? Ele nem mesmo esperou a resposta de Will, poiscontinuou depois de uma breve pausa: — Eu achava mesmo que não. Então me dê licen-ça, por favor. Ele pegou a faca de caça de Will e tirou aprópria faca de atirar da bainha. Então fez um gesto na direção da espada de Horacecom a faca menor. — Pegue sua espada — ele ordenou muito sério. Horace obedeceu hesitante. Gilan gesticulou paraque ele se dirigisse à área de exercícios e se posicionou.Horace fez o mesmo, com a ponta da espada virada paracima. — Agora, tente dar um golpe acima do ombro emmim — Gilan disse.
  55. 55. — Mas... — Horace mostrou com ar infeliz as duasarmas menores nas mãos de Gilan, que revirou os olhosdesesperado. — Quando vocês dois vão aprender? — pergun-tou. — Eu sei o que estou fazendo. Agora, VAMOSCONTINUAR! Ele chegou a gritar as últimas palavras. O grandeaprendiz, estimulado a agir e condicionado a obedecerimediatamente às ordens proferidas aos gritos, depois demeses passados no campo de treino, agitou a espada numgolpe mortal na direção da cabeça de Gilan. Ouviu-se um tilintar forte de aço, e a lâmina paroude imediato no ar. Gilan havia cruzado as duas facas dearqueiro na frente dela, num movimento em que a faca deatirar dava apoio à lâmina da faca de caça, e bloqueou ogolpe facilmente. Horace, surpreso, recuou um pouco. — Viu? — Gilan perguntou. — A faca menor ofe-rece o apoio ou o equilíbrio extra para a arma maior. Ele dirigiu as observações principalmente para Will,que assistia a tudo com grande interesse. — Certo. Agora um golpe por baixo, por favor —continuou dirigindo-se para Horace. O aprendiz de guerreiro desferiu o golpe e, nova-mente, Gilan uniu as duas lâminas e bloqueou o movi-mento. Ele olhou para Will, que acenou mostrando queentendia. — Agora, um golpe lateral — Gilan ordenou.
  56. 56. Novamente, Horace girou a espada. Novamente, aarma foi parada no mesmo instante. — Está entendendo? — Gilan perguntou para Will. — Sim. E quanto a um golpe direto? — ele quissaber, Gilan fez um aceno de aprovação. — Boa pergunta. Esse é um pouco diferente. —Ele se virou para Horace. — Se, por acaso, algum dia vocêenfrentar um homem que esteja usando duas facas, umaestocada direta é a forma mais segura e eficiente de ata-que. Agora, ataque, por favor. Horace investiu com a ponta da espada, o pé direitoabrindo caminho com força no chão a fim de dar maisimpulso ao golpe. Desta vez Gilan usou somente a faca decaça para desviar a lâmina, fazendo que o aço passassedeslizando por seu corpo. — É impossível parar esse golpe — ele ensinou aWill. — Por isso, nós simplesmente o desviamos. A nossofavor está o fato de que uma estocada vem com menosforça, então podemos usar apenas a faca de caça. Horace, sem sentir uma verdadeira resistência aoseu golpe, tinha tropeçado para a frente quando a lâminafoi desviada. No mesmo instante, a mão esquerda de Gi-lan agarrou a camisa dele e o puxou para perto, até que osombros dos dois ficaram quase se tocando. Tudo aconte-ceu tão depressa e casualmente que Horace arregalou osolhos surpreso. — E é nesse momento que uma lâmina curta émuito útil. — Gilan ressaltou.
  57. 57. Ele fingiu dar um golpe por baixo do braço no ladodo corpo de Horace que estava exposto. O garoto arrega-lou os olhos ainda mais quando percebeu todas as impli-cações do que tinha acabado de ver. Seu desconforto au-mentou quando Gilan continuou a demonstração. — E, é claro, se você não quiser matar ele, ou se eleestiver usando uma malha de ferro, você sempre pode u-sar a lâmina da faca para aleijar. Ele fez um movimento rápido em direção à partede trás do joelho de Horace, deixando que a lâmina pesa-da e afiada parasse a alguns centímetros da perna. Horace prendeu a respiração, mas a aula ainda nãotinha terminado. — Ah, lembre-se — Gilan acrescentou alegremente—, minha mão esquerda, que está segurando o colarinho,também está segurando uma lâmina afiada — ele agitou afaca de atirar, de lâmina larga e curta, chamando a atençãopara ela. — Uma rápida estocada debaixo do maxilar eadeus para o espadachim, concorda? Will balançou a cabeça admirado. — Isso é fantástico, Gilan! — exclamou. — Nuncavi nada parecido. Gilan soltou o colarinho da camisa de Horace, e ogaroto recuou depressa antes que o arqueiro continuassese aproveitando de sua vulnerabilidade. — Não gostamos de fazer alarde sobre isso — oarqueiro admitiu. — É preferível nos depararmos com umespadachim que não saiba dos perigos que envolvem a
  58. 58. defesa com duas facas — ele olhou para Horace com ararrependido. — Naturalmente, isso é ensinado na Escolade Guerra do Reino. Mas é matéria para o 2o ano. SirRodney vai mostrar isso no ano que vem. — Posso tentar? — Will perguntou ansioso, en-trando na área de exercício e desembainhando a faca deatirar. — Claro — Gilan concordou. — Vocês tambémpodem praticar juntos, à noite, a partir de hoje. Mas nãocom armas de verdade. Cortem algumas varas para treinar. — É mesmo, Will — disse Horace concordandocom a ideia sensata de Gilan. — Afinal, você só está co-meçando a aprender essa lição, e não quero machucar vo-cê. Pelo menos não muito — acrescentou sorrindo depoisde pensar um pouco. — Realmente esse é um dos motivos — Gilan co-mentou, e o sorriso no rosto de Horace desapareceu. —Mas nós também não temos tempo para amolar sua espa-da todas as noites. Ele olhou para a lâmina de Horace de um jeito sig-nificativo. O aprendiz seguiu o olhar e soltou um leve ge-mido. Havia duas marcas profundas no fio da lâmina, ob-viamente causadas pelos bloqueios de Gilan. Um olhardisse a Horace que ele teria que passar pelo menos umahora afiando a espada para se livrar delas. Ele observou afaca de caça e esperou ver os mesmos danos ali. Contente,Gilan examinou a pesada lâmina de perto.
  59. 59. — Nenhuma marca — ele afirmou sorrindo. —Lembre que eu disse que as facas dos arqueiros são fabri-cadas de um jeito especial. Desanimado, Horace procurou o amolador em suamochila e, sentando-se no chão duro, começou a passá-loao longo do fio da espada. — Gilan — Will começou. — Andei pensando... Gilan ergueu as sobrancelhas num falso desespero.Novamente, sua expressão fez Will se lembrar de Halt. — Sempre um problema — o arqueiro disse. — Eo que pensou? — Bom — Will respondeu devagar —, está tudobem com essa história das duas facas. Mas não seria me-lhor simplesmente atingir o espadachim antes que ele seaproximasse demais? — Sim, Will, certamente seria — Gilan concordoucom paciência. — Mas e se você estiver pronto para fazerisso e a corda do seu arco arrebentar? — Eu poderia correr e me esconder — ele sugeriu. — E se não houver lugar para se esconder? — Gi-lan pressionou. — Você está encurralado junto da paredede um penhasco íngreme. Não tem para onde ir. A cordado arco arrebentou e o espadachim furioso está se apro-ximando. O que vai fazer? — Acho que então vou ter que lutar — ele admitiurelutante. — Exatamente. Evitamos um combate direto sem-pre que possível. Mas, se isso tiver que acontecer quando
  60. 60. não tivermos outra escolha, é uma boa ideia estar prepa-rado, certo? — Acho que sim — Will retrucou. Então Horaceapresentou uma questão. — E se for alguém com um machado? — Um homem com um machado? — Gilan per-guntou. — Sim — Horace reforçou a ideia. — E se vocêenfrentar um inimigo com uma acha? As suas facas vãofuncionar? — Eu não aconselharia ninguém a enfrentar umaacha somente com duas facas — ele disse com cuidadodepois de hesitar. — Então, o que devo fazer? — Will retrucou. Gilan olhou de um para outro com a impressão deestar sendo vítima de uma brincadeira. — Atire nele — ele disse simplesmente. Will deuum sorriso. — Não posso — ele lembrou. — A corda do arcoarrebentou. — Então corra e se esconda — Gilan devolveu en-tre os dentes cerrados. — Mas há o penhasco — Horace ressaltou. —Uma parede alta atrás dele e um homem furioso com ummachado se aproximando. — O que devo fazer? — Will repetiu. Gilan respirou fundo e encarou os dois, um depoisdo outro.
  61. 61. — Pule do penhasco. Vai fazer menos sujeira.
  62. 62. — Onde raios está todo mundo? Gilan fez Blaze parar e olhou ao redor do posto defronteira deserto. Havia uma pequena guarita ao lado daestrada onde dois ou três homens mal conseguiriam seproteger do vento. Mais atrás, tinha uma casa para a guar-nição. Normalmente, num posto de fronteira pequeno elongínquo como esse, havia uma guarnição de cerca demeia dúzia de homens que viviam na casa e faziam turnosna guarita à beira da estrada. Como a maioria dos edifícios de Céltica, as duasestruturas eram construídas com pedras calcárias cinzentasda região, pedras achatadas do rio que tinham sido parti-das no sentido do comprimento e telhas do mesmo mate-rial. Havia pouca madeira em Céltica. Até as fogueiras pa-ra aquecimento usavam carvão ou turfa sempre que pos-sível. A madeira disponível era usada para escorar os tú-neis e galerias das minas de carvão e ferro de Céltica. Will olhou em volta inquieto e espiou os arbustosraquíticos que cobriam as colinas varridas pelo vento co-mo se esperasse que uma horda de celtas surgisse delas de
  63. 63. repente. Havia alguma coisa assustadora no silêncio dolugar. Não se ouvia nenhum som, só o suspirar calmo dovento entre as colinas e os arbustos. — Será que eles estão trocando de turno? — elesugeriu com uma voz que pareceu extremamente alta. — É um posto de fronteira — Gilan retrucou. —Precisa estar guarnecido o tempo todo. Ele saltou da sela e fez sinal para Will e Horacepermanecerem montados. Puxão, sentindo a inquietaçãode Will, deu alguns passos nervosos para o lado. Will oacalmou com um afago delicado no pescoço. As orelhasdo pequeno cavalo se ergueram ao toque do dono, e oanimal balançou a cabeça como se quisesse negar que es-tivesse tão inquieto. — Será que eles foram atacados e expulsos? —Horace perguntou. Sua mente sempre o fazia pensar emluta, o que Will imaginou ser natural num aprendiz daEscola de Guerra. Gilan deu de ombros enquanto abria a porta daguarita e espiava ali dentro. — Talvez. Mas não parece haver nenhum sinal deluta. Ele se recostou no batente da porta e franziu a tes-ta. A guarita era uma construção de um aposento mobili-ado com apenas alguns bancos e uma mesa. Não havianada ali que mostrasse o paradeiro dos ocupantes. — Este é só um posto sem importância — ele dissepensativo. — Talvez os celtas simplesmente tenham pa-
  64. 64. rado de usar ele. Afinal, a trégua entre Céltica e Araluen jádura mais de trinta anos. Ele se afastou do batente e fez um sinal em direçãoà casa da guarnição com o polegar. — Talvez a gente encontre alguma coisa lá. Os dois garotos desmontaram. Horace levou seucavalo e o pônei de carga até uma cerca perto da estrada.Will simplesmente deixou as rédeas de Puxão caírem nochão. O cavalo do aprendiz estava treinado para não seafastar. Ele tirou o arco do estojo de couro atrás da sela eo pendurou atravessado nos ombros. Naturalmente, já es-tava preparado com a corda. Arqueiros sempre viajavamcom os arcos prontos para uso. Horace, percebendo ogesto, afrouxou levemente a espada dentro do estojo, e osdois se puseram a acompanhar Gilan até a casa da guarni-ção. O pequeno prédio de pedra era bem organizado eestava limpo e deserto. Mas ali havia sinais de que seusocupantes tinham partido apressados. Havia alguns pratosna mesa com restos secos de comida, e as portas de váriosarmários estavam abertas. E peças de roupa estavam es-palhadas no chão do dormitório, como se seus donos ti-vessem enfiado alguns pertences nas mochilas apressada-mente antes de sair. Muitos catres estavam sem lençol. Gilan correu o dedo indicador ao longo da mesa dasala de refeições, deixando uma linha ondulada na camadade poeira que se tinha juntado ali. Ele inspecionou a pontado dedo e franziu os lábios
  65. 65. — Já faz tempo que eles partiram — constatou. Horace, que estava espiando a pequena despensadebaixo das escadas, assustou-se com a voz do arqueiro ebateu a cabeça na soleira baixa da porta. — Como você pode ter certeza? — ele perguntou,mais para ocultar o constrangimento do que por verda-deira curiosidade. Gilan mostrou o aposento com um gesto do braço. — Os celtas são pessoas organizadas. Essa poeiradeve ter se acumulado desde que eles foram embora. Omeu palpite é que o lugar está vazio há pelo menos ummês. — Talvez isso seja verdade — Will respondeu,descendo as escadas, vindo da sala de comando. — Talvezeles tenham decidido que não precisavam mais manterhomens neste posto. Gilan acenou várias vezes com a cabeça, mas suaexpressão mostrou que ele não estava convencido. — Isso não iria explicar por que saíram apressados— retrucou — Olhem tudo isto: a comida na mesa, osarmários abertos, as roupas espalhadas no chão. Quandose fecha um posto como este, as pessoas fazem uma lim-peza e levam os pertences com elas. Principalmente osceltas. Como eu disse, eles são muito caprichosos. E, como se esperasse encontrar algum indício querevelasse aquele enigma, ele saiu da casa e olhou a paisa-gem deserta que os rodeava. Mas não havia nada visível
  66. 66. além dos cavalos que pastavam preguiçosamente no capimcurto que crescia junto da guarita. — O mapa mostra que a vila mais próxima é Por-dellath — ele informou. — Fica um pouco fora do cami-nho, mas lá talvez a gente possa descobrir o que está a-contecendo aqui. Pordellath ficava somente a 5 quilômetros de dis-tância. Por causa do terreno íngreme, o caminho davavoltas e ziguezagueava para o alto das colinas. Conse-quentemente, eles quase tinham chegado à vila quando aviram. Já era fim de tarde, e Will e Horace sentiam ponta-das de fome. Eles não tinham parado para a habitual re-feição do meio-dia, inicialmente porque queriam chegarlogo ao posto da fronteira e depois porque tinham se a-pressado para chegar a Pordellath. Com certeza, haveriauma pousada na vila, e os garotos estavam pensando ale-gremente numa refeição quente e em bebidas frias. Porcausa disso, ficaram surpresos quando Gilan puxou as ré-deas do cavalo assim que a vila ficou visível, depois dacurva de uma colina a cerca de 200 metros de distância. — Que diabos está acontecendo aqui? — ele per-guntou. — Olhem só aquilo! Will e Horace olharam. Sinceramente, Will não en-xergava o que poderia incomodar o jovem arqueiro.
  67. 67. — Não estou vendo nada — ele admitiu. Gilan sevirou para ele. — Exatamente! — ele concordou. — Nada! —Não há fumaça nas chaminés nem pessoas nas ruas. A vilaparece tão vazia quanto o posto da fronteira! Ele cutucou Blaze com os joelhos, e o cavalo baiosaiu num meio-galope na estrada pedregosa. Will o seguiu,enquanto o cavalo de Horace reagiu um pouco mais de-vagar. Formando uma fila, eles cavalgaram para a vila, fi-nalmente freando na pequena praça do mercado. Não havia muita coisa em Pordellath. Apenas apequena rua principal por onde eles entraram, cercada decasas e lojas dos dois lados e se abrindo para a pequenapraça no final. Esta era dominada pelo maior edifício davila, que era, segundo o costume dos celtas, a moradia doriadhah. O riadhah era o chefe da vila por tradição here-ditária, uma combinação de chefe do clã, prefeito e dele-gado. A sua autoridade era absoluta, e ele governava in-contestado os demais moradores. Quando havia moradores para serem governados.Naquele dia, não havia riadhah nem moradores, apenas osecos leves e agonizantes dos cascos dos cavalos na super-fície coberta de pedriscos da praça. — Olá! — Gilan gritou, e sua voz ecoou pela ruaprincipal, batendo nas pedras dos edifícios e depois se es-palhando para as colinas próximas. — O... lá... lá... lá... — o eco repetiu desaparecendolentamente até silenciar.
  68. 68. Os cavalos se mexeram nervosos outra vez. Willestava relutante em chamar a atenção do arqueiro, mas fi-cara inquieto pela forma como ele tinha anunciado a pre-sença deles ali. — Será que você deveria fazer isso? — indagou. Gilan olhou para ele, e um pouco de seu bom hu-mor habitual retornou quando percebeu a razão do des-conforto de Will. — Por que está perguntando? — ele quis saber. — Bom — Will disse olhando nervoso ao redor dapraça do mercado deserta —, se alguém levou as pessoasdaqui, talvez a gente não queira que ele saiba que chega-mos. — Acho que é um pouco tarde para isso — Gilanretrucou dando de ombros. — Entramos aqui a galope,como a cavalaria do rei, e viajamos na estrada totalmentevisíveis. Se alguém estava vigiando, certamente já nos viu. — Acho que sim — Will concordou sem muitacerteza. Enquanto isso, Horace tinha levado seu cavalopara perto de uma das casas e estava se preparando paradescer da sela e espiar para dentro das janelas baixas. Gi-lan notou o movimento. — Vamos dar uma olhada por aí — ele sugeriudesmontando. Horace não estava muito ansioso para se-guir esse exemplo. — E se houve algum tipo de praga ou alguma coisaparecida? — ele perguntou. — Uma praga? — Gilan replicou.
  69. 69. — Sim. Quer dizer, ouvi falar que coisas como es-sas aconteceram muitos anos atrás — Horace respondeuengolindo a saliva nervoso — Cidades inteiras foram varridas por uma pragaque surgia e simplesmente... meio que... matava as pessoasonde elas estavam. Enquanto dizia isso, ele fez o cavalo se afastar dacasa e foi para o centro da praça. Sem perceber, Will co-meçou a acompanhá-lo. No momento em que Horacesugeriu a ideia, ele formou imagens dos dois caídos napraça com o rosto negro, a língua para fora e os olhos sal-tados em seus momentos finais de agonia. — Então essa praga pode simplesmente aparecerdo nada? — Gilan perguntou com calma. Horace assentiu várias vezes. — Na verdade, ninguém sabe realmente como elase espalha — ele disse. — Ouvi dizer que é o ar da noiteque carrega as pragas. Ou, às vezes, o vento oeste. Masnão importa como viaja, ela ataca tão depressa que não háescapatória. Simplesmente mata você onde estiver. — Todos os homens, mulheres e crianças por ondepassa? — Gilan perguntou. Novamente, Horace balançou a cabeça com entu-siasmo. — Todos. Mortinhos da silva! Will estava começando a sentir a garganta secarenquanto os outros dois conversavam. Ele tentou engolir,sentiu um incomodo na garganta e teve um momento de
  70. 70. pânico quando se perguntou se aquele não era o primeirosinal da praga. Sua respiração ficou mais rápida, e ele qua-se não ouviu a próxima pergunta de Gilan. — E então ela simplesmente... derrete os corpos eos transforma em pó? — ele indagou com delicadeza. — É isso mesmo! — Horace respondeu e só de-pois percebeu o que o arqueiro tinha dito. Ele hesitou, olhou em volta da vila deserta e nãoviu sinal de nenhum corpo. De repente, por coincidência,Will deixou de ter a sensação desconfortável na garganta. — Ah... — Horace disse quando se deu conta dafalha em sua teoria. — Bom, talvez seja um novo tipo depraga. Talvez ela dissolva os corpos. Gilan olhou para ele com a cabeça inclinada para olado. — Ou talvez tenha havido uma ou duas pessoasimunes, e elas enterraram todos os outros? — Horace su-geriu. — E onde essas pessoas estão agora? — Gilan re-plicou. — Talvez tenham ficado tão tristes que não con-seguiram continuar vivendo aqui — ele disse, dando deombros, tentando manter viva sua teoria. — Horace, seja lá o que for que tenha expulsado aspessoas daqui, não foi uma praga — Gilan declarou. Ele olhou rapidamente para o céu que escurecia. — Está ficando tarde. Vamos dar uma olhada poraí e encontrar um lugar para passar a noite.
  71. 71. — Aqui? — Will se espantou inquieto. — Na vila? — A menos que você queira acampar nas colinas— ele sugeriu. — Há poucos abrigos adequados e geral-mente chove nesta área à noite. Pessoalmente, prefiropassar a noite debaixo de um teto, mesmo que esteja de-serto. — Mas... — Will começou, porém não encontrounenhum argumento racional para continuar. — Tenho certeza de que seu cavalo também prefe-re passar a noite debaixo de um telhado do que na chuva— Gilan acrescentou gentilmente devolvendo o equilíbrioa Will. Seu primeiro instinto foi cuidar de Puxão e não erajusto condenar o pônei a passar uma noite úmida e des-confortável nas colinas só porque seu dono tinha medo dealgumas casas vazias. Ele assentiu com um gesto de cabe-ça e pulou da sela.
  72. 72. Não havia respostas a serem encontradas em Pordellath.Os três companheiros atravessaram a vila e encontraramos mesmos sinais de partida repentina que tinham visto noposto da fronteira. Havia indícios de que algumas pessoastinham feito as malas apressadamente, mas na maioria dascasas quase todos os bens dos ocupantes ainda estavamno lugar. Tudo indicava que a população tinha partido àspressas levando o que podia carregar nas costas e umpouco mais. Ferramentas, utensílios, roupas, móveis e ou-tros itens pessoais foram deixados para trás. Mas os trêsviajantes não conseguiram encontrar pistas do motivo pe-lo qual o povo de Pordellath tinha desaparecido. Ou porque tinha partido. Quando começou a escurecer, Gilan finalmente pôsfim à busca. Eles voltaram à casa do riadhah, onde tiraramas selas dos cavalos e os escovaram no abrigo de uma pe-quena varanda em frente ao edifício. Passaram uma noite intranquila na casa. Pelo me-nos, foi o que aconteceu com Will, e este supôs que Ho-race estava tão pouco à vontade quanto ele. Gilan, por sua
  73. 73. vez, parecia relativamente calmo, pois tinha se enroladoem sua capa e pegado no sono no instante em que Will osubstituíra, depois do primeiro turno de vigília. Mas a ati-tude de Gilan estava mais controlada do que o normal, eWill imaginou que o arqueiro estava mais preocupadocom o desconcertante rumo dos acontecimentos do quedeixava transparecer. Enquanto montava guarda, Will ficou surpreso comos barulhos que uma casa podia provocar. As portas ran-giam, o piso gemia, o teto parecia suspirar a cada sopro dovento lá fora. E a vila parecia cheia de objetos soltos quetambém batiam e tiniam, o que levou Will a um estado deatenção nervoso e assustado, sentado junto da janela semvidros na sala da frente da casa, onde as venezianas demadeira estavam presas para ficarem no lugar. A Lua parecia ansiosa para também colaborar como clima sinistro; flutuava bem acima da vila, jogando entreas casas longas sombras que pareciam se mover levemen-te, quando se olhava para elas com o canto dos olhos, masparavam assim que se sentiam observadas. Mais movimento acontecia quando as nuvens pas-savam sob a Lua, fazendo que a praça principal ficasseiluminada e logo depois mergulhada numa repentina escu-ridão. Exatamente após a meia-noite, como Gilan tinhaprevisto, uma chuva constante começou a cair, e os outrosbarulhos foram acompanhados pelo gorgolejar da água
  74. 74. que corria e pelo pinga-pinga das gotas descendo dos bei-rais para as poças no chão. Will acordou Horace para assumir a guarda pertodas 2 horas. Ele fez uma pilha de almofadas e cobertoresno chão da sala principal, enrolou a capa ao redor docorpo e se deitou. Então ficou acordado por outra hora e meia, escu-tando rangidos, gemidos, gorgolejos, borrifos de água eimaginando se Horace tinha caído no sono e se, mesmoagora, algum terror invisível, incontrolável e sedento desangue estava rastejando na direção da casa. Ele ainda es-tava preocupado com essa possibilidade quando final-mente adormeceu. Eles pegaram a estrada nas primeiras horas da ma-nhã seguinte. A chuva tinha parado antes do amanhecer.Gilan estava ansioso para chegar a Gwyntaleth, a primeiracidade grande em sua rota, e descobrir algumas respostaspara as charadas com que tinham se deparado até o mo-mento em Céltica. Eles fizeram uma refeição fria e rápida,lavaram-se com água gelada da fonte da vila, depois sela-ram os cavalos e partiram. Com cuidado, os três desceram a trilha sinuosa eirregular que saía da vila, mas, quando chegaram à estradaprincipal, fizeram os cavalos galoparem. Eles galoparampor uns vinte minutos e então fizeram os animais avança-
  75. 75. rem num passo mais lento pelos próximos vinte, man-tendo esse ritmo alternado e constante durante toda amanhã. O grupo fez uma refeição rápida na metade do diae continuou a viagem. Eles estavam na principal área demineração de Céltica e tinham passado por pelo menosumas 12 minas de carvão ou ferro: grandes buracos ne-gros abertos nas laterais das colinas e das montanhas ecercados por escoras de madeira e por edifícios de pedra.Mas em nenhum lugar eles viram sinal de vida. Era comose os habitantes de Céltica simplesmente tivessem desa-parecido da face da Terra. — Eles podem ter desertado do posto da fronteirae até dos vilarejos — Gilan murmurou em determinadomomento, quase para si mesmo —, mas nunca conhecium celta que abandonaria uma mina enquanto restasse umgrama de metal para ser extraído. Finalmente, no meio da tarde, eles chegaram ao pi-co de uma montanha e ali, no vale que descia na frentedeles, viram as fileiras bem-ordenadas de telhados de pe-dra que formavam o condado de Gwyntaleth. Uma pe-quena torre no centro da cidade indicava um templo. Osceltas seguiam uma religião única e particular que veneravaos deuses do fogo e do ferro. Uma torre maior formava oprincipal ponto de defesa da cidade. Eles estavam longe demais para perceber qualquermovimento de pessoas nas ruas, mas, como antes, não ha-
  76. 76. via sinal de fumaça nas chaminés e, o que era ainda maisimportante na opinião de Gilan, nenhum barulho. — Barulho? — Horace perguntou. — Que tipo debarulho? — Batidas, marteladas, tinidos — Gilan respondeubrevemente. — Lembre que os celtas extraem o minériode ferro e também forjam ele. Com a brisa soprando dosudeste como acontece agora, deveríamos ouvir as ferrari-as em funcionamento, mesmo a esta distância. — Bom, então vamos dar uma olhada — Will su-geriu e começou a impelir Puxão para a frente. Gilan, contudo, o segurou. — Acho que talvez eu deva ir na frente sozinho —ele disse devagar sem que os olhos deixassem a cidade novale abaixo. Will olhou para ele espantado. — Sozinho? — perguntou, e Gilan assentiu. — Ontem você percebeu que ficamos bem visíveisquando entramos em Pordellath. Talvez seja a hora desermos um pouco mais cuidadosos. Alguma coisa estáacontecendo, e eu gostaria de saber o que é. Will teve que concordar que Gilan estava tomandouma atitude sensata ao ir sozinho. Afinal, ninguém sabiase mover sem ser visto melhor do que ele no Corpo deArqueiros, e os arqueiros eram os melhores do reino nessaatividade. Gilan fez sinal para que se afastassem do topo damontanha em que estavam parados e ficassem do outro
  77. 77. lado, num ponto em que uma pequena vala formava umlocal de acampamento protegido do vento. — Montem acampamento ali — ele disse. — Nadade fogueiras. Vamos ter que usar rações frias até sabermoso que está acontecendo. Devo estar de volta depois queescurecer. E, dizendo isso, ele fez Blaze virar, passou trotandopelo cume da montanha e desceu a estrada que levava aGwyntaleth. Will e Horace levaram cerca de meia hora para ar-rumar o acampamento. Havia pouca coisa a fazer. Elesamarraram a lona em alguns arbustos ressecados que cres-ciam perto de uma parede de rochas da vala e prenderama outra ponta com pedras. Pelo menos, havia muitas delas.A lona lhes dava uma cobertura triangular no caso de achuva recomeçar. Depois, eles prepararam um local paraacender fogo em frente ao abrigo. Gilan havia proibidofogueiras, mas, se ele voltasse no meio da noite e mudasseas ordens, eles já estariam preparados. Foi necessário muito mais tempo para juntar lenhapara fogueira. A única fonte real de gravetos eram os ar-bustos raquíticos que cobriam os lados das colinas. As ra-ízes e os galhos dos arbustos eram duros, mas altamenteinflamáveis. Os dois garotos cortaram um suprimento ra-zoável, Horace usando a machadinha que levava na mo-chila, e Will, a sua faca de caça. Finalmente, depois quetodas as tarefas domésticas tinham sido realizadas, eles sesentaram ao lado da fogueira apagada com as costas apoi-

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