C.s.lewis as cronicas de narnia - vol vii - a ultima batalha

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C.s.lewis as cronicas de narnia - vol vii - a ultima batalha

  1. 1. C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. VII A Última Batalha Tradução Paulo Mendes Campos Martins Fontes São Paulo 2002
  2. 2. As Crônicas de Nárnia são constituídas por:Vol. I – O Sobrinho do MagoVol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-RoupaVol. III – O Cavalo e seu MeninoVol. IV – Príncipe CaspianVol. V – A Viagem do Peregrino da AlvoradaVol. VI – A Cadeira de PrataVol. VII– A Última Batalha____________________________________ 1C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  3. 3. ÍNDICE1. No LAGO DO CALDEIRÃO2. A PRECIPITAÇÃO DO REI3. SUA MAJESTADE, O MACACO4. O QUE ACONTECEU NAQUELA NOITE5. CHEGA AUXÍLIO PARA O REI6. UM BOM TRABALHO NOTURNO7. VIVAM OS ANÕES!8. AS NOVAS QUE A ÁGUIA TROUXE9. A GRANDE REUNIÃO NA COLINA DO ESTÁBULO10. QUEM ENTRARÁ NO ESTÁBULO?11. ACELERA-SE O PASSO12. PELA PORTA DO ESTÁBULO13. OS ANÕES NÃO SE DEIXAM TAPEAR14. CAI A NOITE SOBRE NÁRNIA15. PARA CIMA E AVANTE!16. ADEUS ÀS TERRAS SOMBRIAS____________________________________ 2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  4. 4. 1 NO LAGO DO CALDEIRÃO Nos últimos dias de Nárnia, lá para asbandas do Ocidente, depois do Ermo do Lampiãoe bem pertinho da grande cachoeira, vivia ummacaco. Ele era tão velho que ninguém selembrava quando foi que aparecera por aquelasbandas. E era o macaco mais enrugado, feio eastuto que se pode imaginar. Ele morava numacasinha de madeira coberta de folhas, empoleiradanum dos galhos mais altos de uma grande árvore.Seu nome era Manhoso. Naquele recanto da floresta havia bempoucos animais falantes, homens, anões ouqualquer tipo de gente. Apesar disso, Manhosotinha um vizinho, que era também seu amigo, umjumento chamado Confuso. Pelo menos eles se____________________________________ 3C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  5. 5. diziam amigos. Na verdade, porém, Confuso eramais um empregado que amigo de Manhoso. Eraele quem fazia todo o serviço. Quando iam juntospara o rio, Manhoso enchia os alforjes de água,mas quem os carregava até em casa era Confuso.Quando precisavam de alguma coisa das cidades,que ficavam bem longe, rio abaixo, era Confusoquem descia com os paneiros vazios às costas evoltava depois com eles, pesados de tão cheios. Etudo que ele trazia de melhor e mais gostoso quemcomia era Manhoso, pois, como este costumavadizer: “Você bem sabe, Confuso, que eu nãoposso comer capim e forragem como você. Porisso é claro que eu preciso compensar de outrasformas...” E o jumento respondia: “Claro,Manhoso, claro. Eu sei disso.” Confuso nuncareclamava, pois sabia que Manhoso era muitomais sabido que ele, e até achava que, afinal decontas, era muito gentil da parte dele ser seuamigo. E se, por acaso, Confuso tentava discutircom ele sobre alguma coisa, Manhoso sempredizia: “Ora, vamos, Confuso, eu sei muito melhordo que você o que precisa ser feito. Você sabe____________________________________ 4C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  6. 6. muito bem que não é nada inteligente, não émesmo?” E Confuso concordava: “É verdade,Manhoso. Você tem toda a razão. Eu não sousabido mesmo.” E acabavam fazendo sempre oque Manhoso queria. Uma manhã, no comecinho do ano, os doisandavam passeando à margem do Lago doCaldeirão. O Lago do Caldeirão é o grande lagoque fica logo abaixo dos penhascos naextremidade oeste de Nárnia. A enorme cachoeiraprecipita-se dentro dele com estrondo, como sefosse um eterno trovão, e o rio de Nárnia brotapelo outro lado. Por causa da cascata as águas dolago estão sempre dançando, agitadas,borbulhando e fazendo círculos como seestivessem continuamente fervendo. Por isso éque se chama Lago do Caldeirão. É no comecinhoda primavera que ele fica mais agitado, porque aságuas da cachoeira crescem muito mais com aneve que derrete nas montanhas do lado de lá deNárnia, na floresta ocidental, onde nasce o rio.____________________________________ 5C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  7. 7. Eles estavam olhando para o Lago doCaldeirão quando, de repente, Manhoso apontoucom seu dedo escuro e fininho, dizendo: – Olhe! O que é aquilo? – Aquilo o quê? – perguntou Confuso. – Aquela coisa amarela que vem descendopela cachoeira. Olhe! Lá está ela de novo,flutuando na água. Precisamos descobrir o que éaquilo! – Precisamos...? – disse Confuso. – E claro que sim – respondeu Manhoso. –Pode ser alguma coisa útil. Vamos, seja camarada.Pule no lago e pegue aquilo lá, para a gente daruma olhada. – Saltar no lago? – resmungou Confuso,repuxando as orelhas compridas. – Bem... Como é que vamos pegá-lo sevocê não pular? – disse o macaco. – Mas... Mas... Não seria melhor que vocêentrasse no lago? Afinal de contas, quem quer____________________________________ 6C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  8. 8. saber o que é aquilo é você, e não eu... E você temmãos, não é mesmo? Quando se trata de pegaralguma coisa, você é tão bom quanto qualquerhomem ou anão. Eu só tenho cascos... – Puxa, Confuso! – exclamou Manhoso. –Nunca pensei ouvir uma coisa dessas. Nuncaesperei isso de você! – Por quê? O que foi que eu disse deerrado? – indagou o jumento, numa vozinha muitohumilde, pois percebera que o amigo estava muitoofendido. – Eu só quis dizer... – Querendo que eu entre na água... –queixou-se o macaco. – Como se não soubesseperfeitamente quanto são fracos os pulmões dosmacacos e quão facilmente eles se resfriam. Tudobem, eu vou. Já estou mesmo tremendo de frio porcausa deste vento terrível. Mas vou assim mesmo.Pode até ser que eu morra. E aí você vai searrepender! (E aqui a voz de Manhoso soou comose ele estivesse prestes a chorar.) – Não, por favor, não vá! Por favor, não! –disse Confuso, meio zurrando, meio falando. – Eu____________________________________ 7C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  9. 9. não quis dizer isso, Manhoso, juro! Você bemsabe o quanto sou idiota e que não consigo pensarem duas coisas ao mesmo tempo. Eu esqueci quevocê tem o peito fraco. É claro que eu vou. Nempense mais nisso. Prometa que não vai, Manhoso! Então o macaco prometeu, e Confuso saiutrotando em volta da margem rochosa do lago,procurando um lugar de onde pudesse pular. Nãoera brincadeira saltar dentro daquela água agitadae espumejante – e isso para não falar do frio!Confuso ficou um tempão parado, tremendo,tentando criar coragem. Mas aí Manhoso gritou lá de trás: – Talvez seja melhor eu ir, Confuso! Ao ouvir isso, o jumento apressou-se: – Não, não! Você prometeu! Já estou indo!– E pulou. Um monte de espuma espirrou-lhe na cara,enchendo-lhe a boca de água e cegando-lhe osolhos. Durante alguns minutos ficou submerso, equando voltou à tona encontrava-se num ponto____________________________________ 8C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  10. 10. totalmente diferente do lago. Então o redemoinhoo pegou, e foi rodopiando cada vez mais rápido,carregando-o para mais e mais longe, até deixá-loexatamente debaixo da queda-d’água. E a força daágua arrastava-o cada vez mais para o fundo, detal forma que ele pensou que não conseguiria retero fôlego... Até que começou a subir novamente.Quando voltou à superfície e afinal conseguiuchegar perto da coisa que estava tentandoalcançar, esta saiu boiando para longe dele e foicair bem embaixo da queda-d’água, que a fezafundar também. Quando a coisa voltou à tona,estava muito mais longe do que nunca.Finalmente, quando já estava quase morto decansaço, todo doído e dormente de frio, conseguiuagarrá-la com os dentes. E lá veio ele pelo lago,carregando à frente aquela coisa enroscada naspatas dianteiras, pois era um pelego enorme,muito pesado, frio e cheio de lodo. Confuso atirou a coisa aos pés de Manhosoe ali ficou, todo encharcado, tiritando de frio etentando recuperar o fôlego. O macaco, porém,nem sequer olhou para ele ou perguntou como se____________________________________ 9C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  11. 11. sentia. Manhoso estava muito ocupado dandovoltas e mais voltas ao redor da coisa. Esticava,alisava, cheirava... E de repente seus olhosbrilharam com um sorriso malicioso e eleexclamou: – É uma pele de leão! – Eh... ha... ha... é... mesmo? – ofegouConfuso. – Eu só queria saber... o que será... seráque... – dizia Manhoso consigo mesmo, pensandoprofundamente. – Quem será que matou o pobre do leão? –perguntou Confuso depois de alguns instantes. –Ele precisa ser enterrado. Vamos fazer umfuneral. – Ora, não era um leão falante – replicouManhoso. – Nem precisa se preocupar com isso.Não existem mais animais falantes do lado de ládas cascatas, para as bandas da floresta ocidental.Esta pele deve ter pertencido a um leão mudo eselvagem.____________________________________ 10C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  12. 12. A propósito, era isso mesmo. Um caçadormatara o leão e arrancara-lhe a pele em algumaparte da floresta ocidental, já havia vários meses.Isso, porém, nada tem a ver com a nossa história. – Tanto faz, Manhoso – disse Confuso. –Mesmo que seja a pele de um leão mudo eselvagem, por que não devemos dar-lhe umfuneral decente? Quer dizer, quando a genteconhece Ele, todos os leões são dignos derespeito, você não acha? – Não comece a meter minhocas na cabeça,Confuso – retrucou Manhoso. – Você bem sabeque pensar não é o seu ponto forte. Vamos pegaresta pele e fazer uma capa bem quentinha paravocê usar no inverno. – Ah, não! Nem pense nisso! – objetou ojumento. – Ia parecer... quer dizer, os outros animaispoderiam pensar... isto é, eu não iria sentir-me...____________________________________ 11C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  13. 13. – Do que você está falando? – interrompeuManhoso, coçando-se como costumam fazer osmacacos. – Eu acho que seria uma falta de respeitopara com o Grande Leão, para com o próprioAslam, se um asno como eu andasse por aí metidonuma pele de leão – explicou Confuso. – Não me venha agora com argumentos,por favor – disse Manhoso. – O que é que umburro como você entende dessas coisas? Vocêbem sabe que não é um bom pensador, Confuso.Por que não me deixa pensar por você? Por quenão me trata como eu o trato? Eu não acho quesou capaz de fazer tudo. Sei que há certas coisasque você faz muito melhor do que eu. É por issoque o deixei entrar no lago: sabia que você fariaisso melhor do que eu. Mas por que eu não possoter uma chance quando se trata de fazer algo queposso fazer e você não? Por que será que nuncaposso fazer nada? Seja justo e me dê uma chance,vá... – Está bem... se é assim que você pensa...____________________________________ 12C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  14. 14. – Sabe de uma coisa? – disse Manhoso. –Por que você não dá um pulinho até Cavacópolispara ver se encontra algumas laranjas e bananaspara nós? – Mas, Manhoso, estou tão cansado! –implorou Confuso. – Isso é verdade. Mas também estámolhado e com muito frio – disse o macaco. –Você precisa de alguma coisa que o aqueça, euma corridinha vem bem a calhar. Além do mais,hoje é dia de feira em Cavacópolis. Nem é preciso dizer que Confuso acabouconcordando. Assim que se viu sozinho, Manhososaiu gingando, ora sobre duas patas, ora sobre asquatro, até chegar à árvore onde morava. Então começou a pular de galho em galho,tagarelando e arreganhando os dentes o tempotodo, e finalmente entrou na casinha. Lá dentropegou agulha, linha e uma enorme tesoura(inteligente como era, havia aprendido a costurarcom os anões). Enfiou o novelo de linha na boca(era uma linha muito grossa, que mais parecia____________________________________ 13C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  15. 15. corda), de forma que as bochechas ficaramestufadas como se ele estivesse chupando umcaramelo bem grandão. Com a agulha entre osbeiços e segurando a tesoura com a mão esquerda,desceu da árvore e saiu bamboleando até a pele deleão. Então, acocorado, pôs-se a trabalhar. Manhoso logo percebeu que o corpo dapele de leão era grande demais para Confuso eque o pescoço era muito curto. Portanto, cortouum bom pedaço do corpo e emendou-o na partedo pescoço, fazendo uma gola comprida como opescoço do jumento. Depois arrancou a cabeça,costurando a gola entre esta e os ombros. Colocouumas tiras em ambos os lados da pele de leão, afim de amarrá-las por baixo do peito e do ventrede Confuso. De vez em quando um passarinhopassava voando e Manhoso parava de trabalhar,olhando ansiosamente para cima; não queria queninguém visse o que estava fazendo. Mas comonenhum dos passarinhos que viu era uma avefalante, não havia com que se preocupar.____________________________________ 14C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  16. 16. Quando Confuso voltou já era bem tarde.Ele não vinha trotando, mas caminhandolentamente, como fazem os jumentos. – Não achei laranja nenhuma e bananatambém não. Estou é morto de cansado! – disse,atirando-se ao chão. – Venha cá. Experimente a sua linda capanova, de pele de leão – chamou o macaco. – Essa pele velha que se dane! – disseConfuso. –Amanhã eu experimento. Hoje estoucansado demais. – Puxa, Confuso, como você é indelicado!– reclamou Manhoso. – Se você está cansado,imagine eu! Fiquei o dia inteiro aqui dando duropara lhe fazer uma capa, enquanto você trotavatranqüilamente pelo vale. Minhas mãos estão tãocansadas que mal consigo segurar a tesoura. Eagora você nem me diz obrigado... E nem sequerolha para a capa... Nem dá bola... – Manhoso, meu querido – disse Confuso,erguendo-se de um salto. – Sinto muito. Como fui____________________________________ 15C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  17. 17. estúpido! É claro que eu adoraria experimentar acapa. Como é bonita! Vou prová-la agora mesmo.Coloque-a em mim, por favor! – Bem, então fique quieto – disse o macaco.A pele era muito pesada para Manhoso erguê-lasozinho. Mas até que enfim, depois de muitopuxar, empurrar, soprar, bufar, conseguiu colocá-la no jumento. Amarrou-a por baixo do corpo deConfuso e atou as pernas e o rabo da pele naspernas e no rabo do jumento. Por dentro da bocaaberta da cabeça de leão ainda dava para ver umaboa parte do focinho e da cara cinzenta deConfuso. Quem já tivesse visto um leão deverdade jamais se enganaria ao vê-lo. Mas alguémque nunca vira um leão antes, ao ver Confusometido naquela pele, poderia muito bem tomá-lopor um leão, desde que ele não se aproximassemuito e que a luz não fosse muito boa, e, é claro,desde que ele não soltasse um zurro nem fizessenenhum barulho com os cascos. – Confuso, você está maravilhoso! Ma-ra-vi-lho-so! – disse o macaco. – Se alguém o visse____________________________________ 16C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  18. 18. agora pensaria que você é o próprio Aslam, oGrande Leão! – Oh, não! Isto seria terrível! – Nem tanto – disse Manhoso. – Todomundo iria fazer qualquer coisa que vocêmandasse. – Mas não quero mandar ninguém fazernada! – Imagine só quanta coisa boa a gentepoderia fazer – disse Manhoso. – Eu seria o seuconselheiro, é claro. Bolaria umas ordens bemsensatas para você dar. E todo mundo obedeceriaa nós – inclusive o próprio rei. Aí a gente ia darum jeito em Nárnia, botar tudo nos eixos. – Mas já não está tudo nos eixos? –estranhou Confuso. – Que nada! – respondeu Manhoso. – Tudonos eixos? Quando nem laranja ou banana seencontra?____________________________________ 17C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  19. 19. – Bem, você sabe... nem todos... aliás, achoque ninguém mais além de você gosta dessascoisas. – E açúcar? – insinuou Manhoso. – Hmmm! Até que seria bom se houvessemais açúcar... – Então, está combinado – disse o macaco.– Você vai fazer de conta que é Aslam, e eu lhedigo o que dizer. – Não, não, não! – protestou Confuso. –Pare com essa história horrível, Manhoso. Vai sairtudo errado. Posso não ser muito inteligente, masisso eu sei muito bem. O que seria de nós se overdadeiro Aslam aparecesse? – Acho que ele ia ficar muito satisfeito –respondeu Manhoso. – Quem sabe até foi elequem nos enviou de propósito a pele de leão, afim de que déssemos um jeito em Nárnia? Edepois, ele nunca aparece mesmo, você bem sabe.Pelo menos, não hoje em dia.____________________________________ 18C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  20. 20. Naquele momento um enorme trovãoribombou bem acima da cabeça deles e um ligeiroterremoto fez tremer o chão. Os dois animaisperderam o equilíbrio e se estatelaram de cara nochão. – Viu? ! – gaguejou Confuso, assim querecuperou o fôlego. – E um sinal, um aviso. Eusabia que a gente estava fazendo uma coisaterrivelmente perigosa. Tire logo de uma vez essapele ordinária de cima de mim. – Não, não – disse o macaco, cuja cabeçatrabalhava muito depressa. – É um outro tipo desinal. Eu ia justamente dizer que se o verdadeiroAslam, como você o chama, quisesse quelevássemos esta idéia avante, mandaria umatrovoada e um tremor de terra. Já estava napontinha da língua, só que o sinal veio antes queas palavras saíssem da minha boca. Agora vocêtem de fazer. E, por favor, não vamos maisdiscutir. Você bem sabe que não entende muitodessas coisas. O que é que um burro como vocêentende de sinais?____________________________________ 19C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  21. 21. 2 A PRECIPITAÇÃO DO REI Umas três semanas mais tarde, o último reide Nárnia estava sentado debaixo de um grandecarvalho que crescia à entrada do seu alojamentode caça, onde ele costumava passar uns dez diasdurante a primavera. O alojamento era umaconstrução baixa, coberta de sapé, não muitodistante do lado oriental do Ermo do Lampião eum pouco acima do encontro dos dois rios. O reiadorava aquela vida tranqüila e relaxada, longedas preocupações e das pompas de Cair Paravel, acidade real. Chamava-se Tirian e tinha entre vintee vinte e cinco anos. Seus ombros eram largos efortes e os membros rijos e musculosos, mas abarba era ainda bem rala. Tinha olhos azuis e umaexpressão honesta e corajosa.____________________________________ 20C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  22. 22. Não havia ninguém com ele naquela manhãde primavera, exceto seu amigo mais íntimo, ounicórnio Precioso. Os dois amavam-se comoirmãos e, em guerras anteriores, ambos já haviamsalvo a vida um do outro. O nobre animal estavabem pertinho do rei e, com o pescoço encurvado,ocupava-se em lustrar o belo corno azul,esfregando-o contra a brancura cremosa dopróprio flanco. – Hoje não tenho a mínima disposição paratrabalhar ou praticar esporte, Precioso – disse orei. –Não consigo pensar em outra coisa a não sernessa maravilhosa notícia. Você acha que aindahoje ouviremos algo mais sobre isso? – São as novas mais maravilhosas que jáouvimos em nossos dias, ou mesmo nos dias dosnossos pais e dos nossos avós, senhor – respondeuPrecioso. – Se é que são verdadeiras. – E como poderiam não ser verdadeiras? Jáfaz mais de uma semana que os primeirospassarinhos chegaram voando e nos disseram queAslam está aqui, que Aslam está de volta a____________________________________ 21C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  23. 23. Nárnia. Depois disso foram os esquilos. Não oavistaram, mas disseram que era certo que eleestava na floresta. E aí chegou o cervo e disse queo vira com seus próprios olhos, bem de longe, aoluar, no Ermo do Lampião. Depois veio aquelemoreno barbudo, o mercador da Calormânia. Oscalormanos não ligam muito para Aslam comonós, mas a maneira como o homem falou nãodeixa dúvida alguma. E na noite passada foi otexugo, que também viu Aslam. – De fato, senhor – disse Precioso –, euacredito. Se parece que não acredito é porque aminha alegria é tão grande que não consigoacreditar em mim mesmo. É quase bonito demaispara ser verdade. – Pois é – disse o rei com um grandesuspiro, quase um estremecimento de prazer. – Émuito além do que eu poderia imaginar em toda aminha vida. – Ouça! – exclamou Precioso, voltando acabeça para um lado e empinando as orelhas. – O que é isso? – perguntou o rei.____________________________________ 22C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  24. 24. – Cascos, senhor – respondeu Precioso. –Um cavalo a galope. Deve ser um dos centauros.Veja, lá está ele. Um grande centauro de barbas douradas,com suor de homem na testa e suor de cavalo nosflancos, precipitou-se em direção ao rei, parou einclinou-se numa reverência. “Salve, Majestade!”,exclamou, numa voz profunda como a de umtouro. – Ei, vocês! – disse o rei, olhando por cimados ombros na direção da porta do alojamento decaça. – Uma taça de vinho aqui para o nobrecentauro. Bem-vindo, Passofirme. Recupere ofôlego primeiro e depois transmita-nos a suamensagem. Um pajem saiu da casa trazendo umagrande taça de madeira curiosamente entalhada eentregou-a ao centauro. Este ergueu a taça,dizendo:____________________________________ 23C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  25. 25. – Bebo a Aslam e à verdade em primeirolugar, senhor, e depois à saúde de VossaMajestade! Bebeu o vinho de um trago (a quantidadeera suficiente para seis homens fortes),devolvendo ao pajem a taça vazia. – E agora, Passofirme – disse o rei. – Seráque nos traz alguma notícia de Aslam? O centauro fitou-o muito sério, franzindoum pouco as sobrancelhas. – Senhor – disse ele –, bem sabeis háquanto tempo venho estudando as estrelas, poisnós, os centauros, vivemos mais do que vós,homens, e ainda mais do que vós, unicórnios.Jamais, em toda a minha vida, vi coisas tãoterríveis escritas nos céus quanto as que vêmaparecendo a cada noite, desde o início deste ano.As estrelas nada dizem sobre a vinda de Aslam,nem sobre paz ou alegria. Pelos meusconhecimentos, sei bem que, nestes quinhentosanos, jamais ocorreu tão desastrosa conjunção deplanetas. Já estava pensando em vir prevenir____________________________________ 24C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  26. 26. Vossa Majestade de que algum grande mal estápor abater-se sobre Nárnia. Mas na noite passadaouvi rumores de que Aslam encontra-se emNárnia. Senhor, não acrediteis nessa história. Nãopode ser. As estrelas nunca mentem, mas oshomens e os animais, sim. Se Aslam estivesserealmente vindo para Nárnia, os céus o teriampredito. Se ele estivesse mesmo por vir, todas asestrelas mais formosas estariam reunidas em suahomenagem. É tudo mentira! – Mentira! — explodiu o rei. — Quecriatura, em Nárnia ou no mundo inteiro, ousariainventar uma mentira dessas? – E, sem nempensar no que estava fazendo, levou a mão àbainha da espada. – Isso eu não sei, meu senhor – disse ocentauro. – Só sei que na terra existemmentirosos; nenhum, porém, entre as estrelas. – Eu me pergunto – interveio Precioso – seAslam não poderia vir de qualquer forma, mesmosem ter sido previsto pelas estrelas. Ele não éescravo das estrelas, mas, sim, o criador delas.____________________________________ 25C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  27. 27. Não é o que se diz em todas as narrativas antigas,que ele não é um leão domesticado? – Isso mesmo, Precioso, isso mesmo! –exclamou o rei. – São exatamente estas aspalavras: ele não é um leão domesticado. Issoaparece em inúmeras histórias. Passofirme ergueu a mão e ia fazendo umareverência para dizer ao rei algo muito grave,quando de repente os três se voltaram, poisacabavam de ouvir um som de lamentação que seaproximava cada vez mais rápido. Do lado direitode onde eles estavam, a mata era tão espessa queainda não dava para enxergar quem vinha vindo.Logo, porém, distinguiram as palavras. – Ai, ai, ai! – gemia a voz. – Ai de meusirmãos e minhas irmãs! Ai das árvores sagradas!As matas estão arrasadas. O machado voltou-secontra nós. Estamos sendo derrubadas. Árvoresenormes estão caindo, caindo, caindo... E, junto com o último “caindo”, apareceu odono da voz. Parecia uma mulher, mas era tão altaque sua cabeça ficava no mesmo nível da do____________________________________ 26C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  28. 28. centauro. E ela própria parecia uma árvore. Paraquem nunca viu uma dríade é difícil explicar. Masquem já viu uma não se engana, pois há algodiferente nela, na cor, na voz, no cabelo... O reiTirian logo percebeu que se tratava da ninfa deuma faia. – Misericórdia, senhor rei! – chorava ela. –Venha em nosso auxílio! Proteja nosso povo!Estão nos derrubando no Ermo do Lampião.Quarenta árvores grandes dentre as minhas irmãsjá estão por terra. – O quê? ! Derrubando o bosque doLampião? Assassinando as árvores falantes? ! –exclamou o rei, dando um salto e sacando aespada. – Como ousam? Quem se atreve a fazerisso? Pela Juba do Leão, vou... – Ah-h-h! – ofegou a dríade, estremecendocomo se sentisse dores. E de instante em instanteestremecia novamente, como se estivesserecebendo golpes contínuos. Então, de súbito, caiude lado, tão de repente como se alguém lhe tivessearrancado de um golpe ambos os pés debaixo do____________________________________ 27C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  29. 29. corpo. Durante alguns segundos eles a viram ali,estirada na grama, morta; depois ela sedesvaneceu. Sabiam o que havia acontecido: aárvore dela, a quilômetros de distância, tinha sidoderrubada. O rei ficou tão furioso que, por algumtempo, nem conseguiu falar. Por fim disse: – Venham, meus amigos. Vamos subir o rioe descobrir quem são os vilões que estão fazendoisso, o mais depressa possível. Não deixaremosnem um deles vivo! – Sim, senhor, com todo o prazer! –concordou Precioso. Mas Passofirme retrucou: – Senhor, cuidado com a vossa justa ira.Coisas muito estranhas andam acontecendo. Seexistirem rebeldes armados lá para as bandas doErmo do Lampião, nós três somos muito poucospara enfrentá-los. Caso vos dignásseis a esperarum pouco, enquanto...____________________________________ 28C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  30. 30. – Não vou esperar nem um décimo desegundo! – interrompeu o rei. – Mas enquanto eue Precioso seguimos, galope o mais rápido quepuder até Cair Paravel. Tome aqui o meu anelcomo garantia. Arranje-me um batalhão dehomens armados, todos bem montados, e tambémum batalhão de cães falantes, dez anões (todoseles excelentes arqueiros!), um leopardo ou coisaparecida e ainda o gigante Pé-de-Pedra. Levetodos eles ao nosso encontro o mais depressapossível. – Com todo o prazer, senhor – dissePassofirme, voltando-se de uma vez para oOriente. E disparou a galope na direção do vale. O rei afastou-se a passos largos, ora falandosozinho, ora cerrando os punhos. Precioso seguiaao seu lado, sem dizer nada; entre os dois não seouvia som algum, a não ser o leve tilintar de umarica corrente de ouro que o unicórnio trazia aopescoço e o barulho de dois pés e quatro patas. Logo alcançaram o rio e começaram a subirpor uma estrada coberta de grama. Agora tinham a____________________________________ 29C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  31. 31. água à sua esquerda e a floresta à direita. Poucodepois chegaram a um lugar onde o terreno eraainda mais irregular e uma mata espessa desciaaté a beira da água. A estrada – aliás, o querestava dela – seguia agora pela margem sul e elestiveram de vadear o rio para alcançá-la. A águadava quase nos ombros de Tirian. Precioso, quepor ter quatro pernas tinha muito maisestabilidade, colocou-se à sua direita a fim dequebrar a força da corrente. Com seus braçosfortes Tirian agarrou-se ao potente pescoço dounicórnio e assim os dois chegaram a salvo dooutro lado. O rei ainda estava com tanta raiva quemal se deu conta do frio da água. Mesmo assim,logo que chegaram à outra margem, ele enxugoucuidadosamente a espada na manga da capa, queera a única parte seca em todo o seu corpo. Agora avançavam para o Oeste, tendo àdireita o rio e, bem à sua frente, o Ermo doLampião. Ainda não haviam caminhado umquilômetro quando ambos pararam, falando aomesmo tempo:____________________________________ 30C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  32. 32. – O que é isso? – perguntou o rei, enquantoPrecioso exclamava: – Olhe! – É uma balsa – disse Tirian. E era mesmo. Uma meia dúzia de troncosde árvores, todos recém-cortados e cujos galhosacabavam de ser podados, tinham sido amarradosum ao outro formando uma balsa e vinhamdeslizando velozmente rio abaixo. Na frente ia umrato-d’água, dirigindo-a com um varapau. – Ei, rato-d’água! O que está fazendo? –gritou o rei. – Levando estes troncos rio abaixo paravender aos calormanos, senhor – respondeu o rato,fazendo uma continência e tocando na orelhacomo quem toca no chapéu. – Calormanos? ! — vociferou Tirian. – Oque você quer dizer com isso? Quem deu ordempara derrubar essas árvores? O rio corre tão rapidamente nessa época doano que a balsa já tinha passado pelo rei e por____________________________________ 31C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  33. 33. Precioso. Mas o rato-d’água olhou para trás egritou por cima dos ombros: – Ordens do Leão, senhor. Do próprioAslam! –Ele ainda disse mais alguma coisa, maseles não conseguiram entender. O rei e o unicórnio se entreolharam. Nunca,em nenhuma batalha, pareceram tão assustadosquanto agora. – Aslam – disse finalmente o rei, numa vozquase inaudível. – Aslam. Será verdade? Serápossível que Ele esteja derrubando as árvoressagradas e matando as dríades? – A não ser que todas as dríades tenhamfeito algo terrivelmente errado... – murmurouPrecioso. – Mas vendê-las para os calormanos? ! –pasmou o rei. – Será possível? – Não sei... – disse Precioso, desolado. –Ele não é um leão domesticado...____________________________________ 32C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  34. 34. – Bem – suspirou o rei, depois de algunsinstantes. –Vamos em frente e vejamos queaventura nos espera. – É a única coisa que nos resta fazer, senhor–disse o unicórnio. Naquele momento, nem ele nem o rei sederam conta da loucura que estavam fazendo,indo avante só os dois. Sua precipitação, noentanto, acabaria por trazer muitos males. De repente, o rei inclinou-se, encostando-seno pescoço do amigo, e disse, abanando a cabeça: – Precioso, o que será de nós? Pensamentoshorríveis começam a me perturbar. Ah, setivéssemos morrido antes de hoje! Teria sidomelhor para nós. – Sim – disse Precioso. – Acho quevivemos demais. Não poderia ter nos acontecidocoisa pior. Ficaram ali parados durante uns doisminutos e depois seguiram em frente. De longepodiam ouvir o barulho dos machados devastando____________________________________ 33C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  35. 35. a floresta, embora ainda não conseguissem vernada, pois o terreno elevava-se logo à frente deles.Quando alcançaram o topo, avistaram o Ermo doLampião; o rosto do rei ficou branco como cera. Bem no meio daquela antiga floresta – amesma floresta onde, muitos anos atrás, cresciamárvores de ouro e de prata e onde certa vez umacriança do nosso mundo plantara a Arvore daProteção — já fora aberta uma vasta clareira. Erauma faixa horrorosa, parecendo uma ferida abertana terra, cheia de sulcos barrentos por onde asárvores derrubadas eram arrastadas para o rio.Havia uma porção de gente trabalhando em meioao estalar de chicotes; cavalos resfolegavam ebufavam arrastando as toras de madeira. Aprimeira coisa que o rei e o unicórnio notaram foique pelo menos metade dos trabalhadores eramhomens e não animais falantes. Depoisperceberam que aqueles homens não eram oslouros narnianos, mas, sim, barbudos e morenoshomens da Calormânia, o país grande e cruel quefica para lá da Arquelândia, ao sul do deserto. Nãoexistia, é claro, razão alguma para não haver____________________________________ 34C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  36. 36. calormanos em Nárnia, fossem eles mercadoresou embaixadores, pois naqueles dias havia pazentre Nárnia e Calormânia. O que Tirian nãoconseguia entender era por que havia tantos delesali, nem por que razão estavam abatendo asflorestas narnianas. Apertou ainda mais o punhoda espada, enrolando a capa sobre o braçoesquerdo, e em questão de segundos já seencontravam no meio daqueles homens. Dois calormanos montavam um cavalo aoqual haviam atrelado um tronco. O rei os alcançoujusto no momento em que o tronco atolara numapoça de lama. – Vamos, filho de uma lesma! Puxa, seuporco preguiçoso! – gritaram os calormanos,estalando os chicotes. O cavalo já se esforçara aomáximo; seus olhos estavam vermelhos e o corpocoberto de espuma. – Trabalhe, sua besta molenga! – berrou umdos calormanos, açoitando selvagemente o cavalocom o chicote. Aí então uma coisa terrível aconteceu.____________________________________ 35C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  37. 37. Até aquele momento Tirian imaginara queos calormanos estivessem usando seus próprioscavalos: animais mudos e irracionais como oscavalos do nosso mundo. E, embora detestasse verqualquer cavalo, mesmo mudo, sendo maltratado,naquele momento estava mais preocupado com oassassinato das árvores. Nunca lhe passara pelacabeça que alguém teria a ousadia de atrelar umdos livres cavalos falantes de Nárnia, e muitomenos de chicoteá-lo. O cavalo, porém, ao seratingido por aquele golpe selvagem, empinou-se esoltou um grito estridente: – Seu tirano idiota! Não vê que estou meesforçando ao máximo? ! Ao verem que o cavalo era um dos seuspróprios narnianos, tanto Tirian quanto Preciosoforam tomados de tamanha fúria que perderamtotalmente a noção do que estavam fazendo. Aespada do rei subiu e o corno do unicórnio desceu.Os dois avançaram de uma vez. Em questão desegundos os dois calormanos jaziam mortos nochão, um decepado pela espada de Tirian e o____________________________________ 36C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  38. 38. outro com o coração traspassado pelo corno dePrecioso.____________________________________ 37C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  39. 39. 3 SUA MAJESTADE, O MACACO – Mestre cavalo! Mestre cavalo! —exclamou Tirian, cortando-lhe apressadamente osarreios. – Como é que esses estranhos oescravizaram? Houve porventura alguma batalhaem Nárnia? Alguém a conquistou? – Não, senhor – respondeu o cavaloofegante. –Aslam está aqui. É tudo por ordemdele. Foi ele quem mandou... – Cuidado, senhor rei! – gritou Precioso. –Tirian levantou os olhos e viu que, de todas asdireções, começaram a aparecer calormanos e,junto com eles, alguns animais falantes. Como osdois homens tinham morrido sem dar um únicogrito, algum tempo se passou antes que os outros____________________________________ 38C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  40. 40. percebessem o que havia acontecido. Mas agora jásabiam. A maioria deles já vinha com a cimitarradesembainhada. – Rápido! Em minhas costas! – gritouPrecioso. O rei montou de um salto o velho amigo,que se virou e partiu a galope. Assim que se viramfora das vistas dos inimigos, mudaram de direçãoumas duas ou três vezes. Depois de atravessaremum riacho, Precioso gritou, sem diminuir avelocidade: – E agora, senhor, para onde vamos? ParaCair Paravel? – Agüente firme aí, amigo, que vou descer–disse Tirian, escorregando do lombo dounicórnio e colocando-se frente a frente com ele. – Precioso – disse o rei –, o que fizemos foiterrível! – Fomos cruelmente provocados, senhor –replicou o unicórnio.____________________________________ 39C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  41. 41. – Mas atacá-los desprevenidos... Semdesafiá-los... E, ainda por cima, desarmados...Que vergonha! Somos dois assassinos, Precioso.Estou desonrado para sempre. Precioso baixou a cabeça. Ele tambémestava envergonhado. – E o cavalo disse que eram ordens deAslam – continuou o rei. – E o rato disse a mesmacoisa. Todo mundo diz que Aslam está por aqui. Ese for verdade? – Mas, senhor, como é que Aslam iria darordens tão terríveis? – Ele não é um leão domesticado – retrucouTirian. – Como poderíamos saber o que elepretende? Logo nós, uns assassinos. Precioso, vouvoltar. Vou entregar minha espada, render-meàqueles calormanos e pedir-lhes que me levem àpresença de Aslam. Que Ele mesmo me façajustiça. – Mas assim estará caminhando para amorte!____________________________________ 40C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  42. 42. – E você acha que eu me importo se Aslamme condenar à morte? Isso ainda seria pouco,muito pouco. Melhor morrer do que viver comesse terrível temor de que Aslam voltou e não énada parecido com o Aslam em quem sempreacreditamos e por quem tanto esperamos. É comose de repente a gente acordasse e visse o solnascer escuro... – Eu sei – disse Precioso. – Ou como se agente bebesse um copo d’água e esta fosse seca.Tem razão, senhor. É o fim de tudo. Vamos voltare entregar-nos. – Não é preciso irmos os dois, Precioso. – Pelo amor que sempre nos uniu, Tirian,deixe-me ir com você agora – implorou ounicórnio. – Se você morrer, e se Aslam não formesmo Aslam, de que me adianta continuarvivendo? Os dois retomaram o caminho de volta,chorando amargamente. Quando chegaram aolugar onde os homens estavam trabalhando,ouviu-se uma gritaria e os calormanos avançaram____________________________________ 41C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  43. 43. para cima deles de armas na mão. O rei, porém,ergueu sua espada com o punho voltado contraeles, dizendo: – Eu, que era o rei de Nárnia e sou agoraum cavaleiro desonrado, rendo-me à justiça deAslam. Levem-me à presença dele. – Eu também me rendo – disse Precioso. Viram-se, então, cercados por uma enormemultidão de homens escuros, cheirando a alho ecebola, os olhos brancos faiscando terrivelmentenos rostos morenos. Passaram uma corda em voltado pescoço de Precioso. Tomaram a espada do reie amarraram-lhe as mãos às costas. Um doscalormanos, que usava um elmo em lugar deturbante e que parecia estar no comando, arrancouo diadema de ouro da cabeça de Tirian, fazendo-odesaparecer sutilmente por entre suas roupas.Depois os prisioneiros foram conduzidos colinaacima, até chegarem a uma clareira. E eis o que osdois viram. No centro da clareira, que era também oponto mais alto da colina, havia uma pequena____________________________________ 42C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  44. 44. cabana coberta de palha. A porta estava fechada.Na frente desta, sentado na grama, encontrava-seum macaco. Tirian e Precioso, que esperavam verAslam e nunca tinham ouvido coisa alguma arespeito de tal macaco, ficaram completamentedesnorteados ao verem aquela cena. Nem é preciso dizer que o macaco era opróprio Manhoso. Só que agora ele parecia dezvezes mais feio do que quando vivia no Lago doCaldeirão, pois estava trajado a rigor. Vestia umajaqueta escarlate que não lhe assentava muitobem, pois fora feita para um anão. Nas patastraseiras ele enfiara umas sandálias cheias de jóiasque o deixavam ainda mais ridículo, porque, comotodo mundo sabe, as patas traseiras de um macacomais parecem mãos. Na cabeça colocara algoparecido com uma coroa de papel. Havia ao seulado um montão de nozes, e ele ficava o tempotodo quebrando-as com os dentes e cuspindo ascascas no chão. E toda hora levantava a jaquetaescarlate para se cocar. De pé, voltados para ele,havia uma porção de animais falantes, epraticamente cada rosto naquela multidão trazia____________________________________ 43C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  45. 45. uma expressão aturdida e preocupada. Assim queviram quem eram os prisioneiros, começaram agemer e a soluçar. – O, grande Manhoso, porta-voz de Aslam–disse o chefe calormano. – Trazemosprisioneiros. Graças à nossa coragem e habilidadee com a permissão do grande deus Tash,capturamos vivos estes dois perigosos assassinos. – Dêem-me a espada daquele homem –ordenou o macaco. Eles pegaram a espada do rei e aentregaram, com tiracolo e tudo, para o macaco,que a pendurou em seu próprio pescoço, o que ofez parecer ainda mais ridículo. – Sobre esse dois conversaremos mais tarde– resmungou o macaco, cuspindo uma casca denoz na direção dos prisioneiros. – Tenho outrosassuntos a tratar primeiro. Esses aí podem esperar.Agora ouçam-me todos vocês. A primeira coisaque quero dizer é sobre as nozes. Onde está oesquilo-chefe?____________________________________ 44C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  46. 46. – Aqui, senhor – disse um esquilovermelho, adiantando-se nervosamente e fazendouma ligeira reverência. – Ah! Aí está você. Pois bem – falou omacaco com um olhar de desdém –, quero... istoé, Aslam deseja... mais nozes. Essas que você metrouxe não dão nem para o cheiro. Você tem quetrazer mais, ouviu bem? Duas vezes mais! E elastêm de estar aqui amanhã, antes do pôr-do-sol. Ecuide para que não haja entre elas uma única nozpequena ou estragada. Ouviu-se entre os esquilos um murmúrio dedesânimo, e o esquilo-chefe muniu-se de toda acoragem para dizer: – Por favor, será que o próprio Aslam nãopoderia conversar conosco sobre isso? Se aomenos nos fosse permitido vê-lo... – Bem, isso não vai dar – respondeu omacaco. – Mas pode ser que ele, num ato de muitagenerosidade, resolva sair um pouquinho hoje ànoite, embora isso seja muito mais do que amaioria de vocês merece. Aí todos poderão dar____________________________________ 45C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  47. 47. uma espiadinha nele. Mas nada de aglomeraçõesao redor dele ou de incomodá-lo comperguntinhas tolas. Tudo o que quiserem dizer-lheterá de ser por meu intermédio – isso se eu acharque é algo que valha a pena. Enquanto isso,esquilos, é melhor vocês irem se virando paraarranjar as nozes. E dêem um jeito de trazê-lasaqui até amanhã à noite, senão vão se arrepender! Os pobres esquilos saíram todos emdisparada, como que perseguidos por um cão decaça. Aquela nova ordem era o fim para todoseles: as nozes que haviam armazenadocuidadosamente para o inverno já tinham sidoquase todas comidas; e do pouco que ainda lhesrestava já haviam dado ao macaco muito mais doque podiam dispensar. Subitamente, do outro lado da multidão,ouviu-se uma voz muito profunda. Era um grandejavali peludo e de presas enormes. – Mas por que nós não podemos ver Aslame falar com ele? – perguntou o javali. – Quandoele aparecia em Nárnia, antigamente, qualquer____________________________________ 46C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  48. 48. pessoa podia vê-lo face a face e conversar comele. – Isso é pura conversa! – disse o macaco. –E mesmo que fosse verdade, os tempos mudaram.Aslam disse que tem sido generoso demais comvocês, mas que agora não vai mais ser tão mole.Desta vez vai colocá-los todos nos eixos. Vaiensiná-los a não pensar mais que ele é um leãodomesticado e bonzinho. Ouviu-se entre os animais um murmúriosurdo, entremeado de suspiros, e a seguir houveum silêncio de morte, ainda mais terrível. – E tem mais uma coisa que acho bomvocês saberem – continuou o macaco. – Ouvidizer que andam falando por aí que sou ummacaco. Pois bem, não sou, não. Sou um homem.Se pareço com macaco é só porque já vivi demais:tenho centenas e centenas de anos nas costas. Ejustamente por ser tão velho é que sou tão sábio. Eé porque sou muito sábio que sou o único comquem Aslam sempre vai falar. Ele não pode dar-seao incômodo de andar por aí falando com um____________________________________ 47C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  49. 49. monte de animais bobocas. Ele me dirá o quevocês têm de fazer e eu o transmitirei a todos. Eacho bom escutarem meu conselho e agirem duasvezes mais rápido, pois Aslam não está parabrincadeira. O silêncio era mortal, a não ser pelobarulho de um pequenino texugo que chorava e damãe tentando acalmá-lo. – E agora tem mais uma coisa – continuouo macaco, enfiando uma noz fresquinha na boca.– Alguns cavalos andam dizendo por aí: “Vamosnos apressar e acabar de carregar essa madeira omais rápido possível, e assim ficaremos livres denovo.” Pois bem, é melhor tirarem essa idéia dacabeça de uma vez. E não só os cavalos. Daquipara a frente, todo mundo que tem condições detrabalhar vai ter o que fazer. Aslam já acertoutudo com o rei da Calormânia, o Tisroc, como échamado pelos nossos amigos calormanos. Todosvocês – cavalos, touros e burros – serão enviadosà Calormânia para trabalhar pelo resto da vida...puxando carroças e transportando coisas, igual aos____________________________________ 48C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  50. 50. outros animais de carga do mundo inteiro. Equanto a vocês, toupeiras, coelhos e os outrosbichos que cavam buracos, irão todos juntos comos anões para trabalhar nas minas do Tisroc. Etambém... – Não! Não! Pare! – interromperam osanimais. – Não pode ser verdade! Aslam nuncanos venderia como escravos para o rei daCalormânia! – Esperem aí! – rosnou asperamente omacaco. – Para que essa barulheira toda? Quemfalou em escravidão? Vocês não vão ser escravoscoisa nenhuma. Serão pagos, aliás, muito bempagos. Quer dizer, o salário de vocês irá para otesouro de Aslam e ele utilizará tudo para o bemde todos. Então olhou de soslaio e deu uma piscadelapara o chefe calormano, que fez uma reverência ereplicou, à pomposa maneira dos calormanos: – Ó, sapientíssimo porta-voz de Aslam! OTisroc (que ele viva para sempre!) está____________________________________ 49C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  51. 51. perfeitamente de acordo com Sua Excelência noque diz respeito a esse sábio plano. – Viram só? – disse o macaco. – Está tudoacertado. E é tudo para o bem de vocês. Com todoesse dinheiro que irão ganhar poderemos fazer deNárnia um país digno de se viver. Haverá laranjase bananas à vontade... Haverá estradas, cidadesgrandes, escolas, escritórios, como tambémautoridades e armas, e selas, e cadeias, canis,prisões... Tudo, tudo! – Mas não queremos nada disso! – bradouum velho urso. – Queremos ser livres. E queremosque o próprio Aslam fale com a gente. – Não comecem a discutir agora, pois nãovou tolerar isso – esbravejou o macaco. – Sou umhomem e você não passa de um urso velho, gordoe bobo. E o que é que você entende de liberdade?Pensa que liberdade significa fazer o que a gentebem entende? Pois está muito enganado. Isso nãoé a verdadeira liberdade. Liberdade de verdadesignifica fazer aquilo que eu lhes digo.____________________________________ 50C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  52. 52. – Rrrrrr! — grunhiu o urso, cocando acabeça. Para ele essas coisas eram muito difíceisde entender. – Por favor! Por favor! – exclamou umaovelhinha felpuda, tão novinha que todos seadmiraram de que ela tivesse coragem de dizeralguma coisa. – E agora, o que se passa? – estranhou omacaco. – Seja rápida! – Por favor – disse a ovelha. – Eu nãocompreendo. O que temos nós a ver com oscalormanos? Nós pertencemos a Aslam; elespertencem a Tash. Têm um deus chamado Tash.Dizem que ele tem quatro braços e cabeça deabutre, e que humanos são mortos em seu altar.Não acredito que esse tal de Tash exista, mas, seexiste, como é que Aslam pode ser amigo dele? Todos os animais se voltaram e todos ospares de olhos chamejaram na direção do macaco.Todos sabiam que aquela era a melhor perguntaque alguém ali já fizera.____________________________________ 51C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  53. 53. O macaco deu um salto e cuspiu na ovelha. – Sua fedelha! Bebezinho chorão! Por quenão vai para casa mamar? ! O que é que vocêentende dessas coisas? Agora, vocês todos,escutem aqui. Tash é apenas um outro nome deAslam. Toda aquela velha história de que nósestamos certos e os calormanos errados é purabobagem. Agora já sabemos melhor das coisas.Embora os calormanos falem uma outralinguagem, querem dizer a mesma coisa. Tash eAslam, são apenas dois nomes diferentes, vocêsbem sabem de quem... Por isso é que nunca podehaver qualquer discórdia entre eles. Metam issona cabeça de uma vez por todas, seus brutosidiotas: Tash é Aslam, e Aslam é Tash. Quem tem um cachorrinho sabe muito bemcomo ele pode ficar com a carinha triste de vezem quando. Agora pensem nisso e depois imaginemcomo ficou a cara de cada um dos animaisfalantes, naquela hora. Imaginem todos aquelespássaros, ursos, texugos, coelhos, toupeiras e____________________________________ 52C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  54. 54. ratos, tão leais e humildes, agora desconcertados emais tristes do que nunca. Todos os rabinhosestavam caídos e todas as orelhas, murchas. Só deolhar cortava o coração. De todos eles, apenas umparecia não estar triste. Era um gato ruivo – umbichano enorme, no vigor dos anos – que sepostara todo empinado, com a cauda enrolada emvolta dos pés, entre os animais que estavam nafileira da frente. Ficara o tempo todo ali,encarando firmemente o macaco e o chefecalormano, sem piscar uma única vez. – Queira me desculpar – disse o gato compolidez –, mas isto realmente me interessa. Seráque o seu amigo calormano também pensa amesma coisa? – Certamente – disse o calormano. – Oiluminado macaco... quero dizer, homem... estáabsolutamente certo. Aslam significa nada mais,nada menos que Tash. – E, principalmente, Aslam significa nadamais que Tash, não é? – insinuou o gato.____________________________________ 53C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  55. 55. – Mais, não... De forma alguma! –protestou o calormano, encarando firmemente ogato. – Está satisfeito, Ruivo? – perguntou omacaco. – Oh, certamente – respondeu Ruivo comfrieza. – Muito obrigado. Eu só queria que ascoisas ficassem bem claras. Acho que estoucomeçando a entender. Até aquele momento, nem Tirian nemPrecioso haviam dito coisa alguma. Estavamesperando que o macaco lhes desse permissãopara falar, pois achavam que não era polidointerromper uma conversa. Agora, porém,olhando ao redor e vendo as feições desesperadasdos narnianos, e ao perceber que todos iam acabaracreditando que Aslam e Tash eram uma e amesma pessoa, o rei não pôde mais se conter. – Macaco! – gritou bem alto. – Você estámentindo! Mentindo terrivelmente. Mentindocomo um calormano. Mentindo como um macaco.____________________________________ 54C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  56. 56. Ele pretendia ir adiante e perguntar como oterrível deus Tash, que se alimentava do sanguedo seu povo, podia ser a mesma pessoa que o bomLeão, que dera o próprio sangue para salvarNárnia inteira. Se lhe tivesse sido permitido falar,o domínio do macaco teria acabado naquelemesmo dia, pois os animais teriam percebido averdade. Antes, porém, que pudesse dizer umapalavra mais, dois calormanos taparam-lhe a bocacom toda a força, e um terceiro veio por trás edeu-lhe um chute nas pernas, derrubando-obruscamente. Ao vê-lo cair, o macaco começou aguinchar, furioso e aterrorizado. – Tirem ele daqui! Levem-no embora!Carreguem-no para onde ninguém possa ouvi-lo enem ele a nós! Amarrem-no a uma árvore! Euvou... isto é, Aslam vai... fazer-lhe justiça maistarde.____________________________________ 55C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  57. 57. 4 O QUE ACONTECEU NAQUELA NOITE O rei ficou tão tonto com as pancadas querecebeu, que só percebeu o que estavaacontecendo quando os calormanos lhedesamarraram os pulsos e abaixaram-lhe osbraços, esticando-os firmemente de cada lado docorpo. Depois colocaram-no de costas contra otronco de uma árvore e passaram-lhe cordas emvolta dos tornozelos, dos joelhos, da cintura e dopeito. E foram embora. O que mais o incomodava naquelemomento (pois geralmente as coisinhas pequenassão as mais difíceis de suportar), era que seu lábioestava sangrando e ele não conseguia limpar o____________________________________ 56C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  58. 58. filete de sangue que escorria, fazendo-lhecócegas. De onde ele estava ainda dava para ver omacaco sentado na frente do pequeno estábulo, láno topo da colina. Podia ouvi-lo falando ainda e,de vez em quando, uma ou outra resposta damultidão, mas não conseguia discernir o quediziam. – Só queria saber o que fizeram comPrecioso – pensou o rei. De repente, a multidão dispersou e osanimais começaram a se mover em váriasdireções. Alguns deles passaram pertinho deTirian, olhando para ele como se estivessemassustados e, ao mesmo tempo, penalizados porvê-lo amarrado, mas ninguém disse nada. Logotodos tinham ido embora e a floresta ficou emsilêncio. Muitas horas se passaram, e Tiriancomeçou a sentir sede e depois fome. Quandochegou o final da tarde e a noite se aproximou,começou a sentir frio também. Suas costas doíam____________________________________ 57C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  59. 59. muito. Finalmente, o Sol se pôs e o crepúsculodesceu. Já estava quase escuro quando Tirian ouviuum leve tamborilar de pés miúdos e viu umascriaturinhas se aproximando. Os três da esquerdaeram ratos e no meio vinha um coelho; à direitaestavam duas toupeiras. Estas traziam às costasuns sacos pequenos, o que lhes dava umaaparência curiosa na escuridão (tanto que, noprimeiro instante, ele ficou imaginando quebichos seriam aqueles). Então, num dadomomento, todos se levantaram sobre as patastraseiras e, pousando as patas dianteiras nos seusjoelhos, começaram a dar-lhe beijinhos de animal.(Podiam alcançar-lhe os joelhos porque osanimaizinhos falantes de Nárnia são maiores doque os animais mudos do nosso mundo.) – Senhor rei! Querido senhor rei! –exclamaram. – Sentimos muito pelo senhor. Nãoousamos desamarrá-lo porque Aslam poderia ficarzangado conosco. Mas lhe trouxemos algo paracomer.____________________________________ 58C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  60. 60. Em questão de segundos o primeiro rato jáestava lá em cima, empoleirado na corda queatava o peito de Tirian e franzindo o focinhoáspero bem na frente do rosto do rei. Em seguidasubiu o segundo rato, dependurando-se bemdebaixo do primeiro. Então os outros animais seergueram no chão e começaram a passar as coisaspara cima. – Beba, senhor, e assim terá condições decomer – disse o rato de cima. Então Tirian viu queeste segurava bem à frente de seus lábios umapequenina taça de madeira. Era uma tacinha dotamanho de um ovo; portanto, mal ele conseguiraprovar o vinho, já a havia esvaziado. Mas o ratopassou-a para baixo e os outros a encheramnovamente, passando-a de mão em mão atéchegar lá em cima de novo, onde Tirian aesvaziou pela segunda vez. E assim foi, até queele havia bebido o suficiente – e desse modo foimuito melhor, pois beber em doses pequenas matamuito mais a sede do que tomar um longo trago.____________________________________ 59C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  61. 61. – Agora é queijo, senhor – disse o rato. –Mas não muito, pois não queremos que fique comsede. Depois do queijo deram-lhe bolinhos deaveia com manteiga fresquinha e, então, umpouco mais de vinho. – Agora me passem a água para eu lavar orosto do rei, que está sujo de sangue – disse oprimeiro rato. Tirian sentiu no rosto uma espécie deesponja muito pequena, que lhe trouxe umasensação muito agradável. – Meus amiguinhos – disse Tirian –, comopoderei agradecer-lhes por tudo isso? – Não precisa, não precisa – responderamas vozinhas. – O que mais quer que façamos? Nãoqueremos outro rei. Somos o seu povo. Se fossemapenas os calormanos e aquele macaco queestivessem contra o senhor, teríamos lutado atévirar picadinho para não deixar que o amarrassem____________________________________ 60C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  62. 62. desse jeito. Teríamos mesmo. Mas não podemos ircontra Aslam... – Vocês acham que é mesmo Aslam? –perguntou o rei. – É, sim! É, sim! – disse o coelho. – Elesaiu do estábulo ontem à noite. Todos nós ovimos. – E como era ele? – quis saber Tirian. – Como um Leão grande e terrível, podecrer – respondeu um dos ratos. – E vocês acham que é realmente Aslamquem está matando as ninfas da floresta e fazendode vocês escravos do rei da Calormânia? – Ah! Isso é ruim, não é? – disse o segundorato. – Preferia ter morrido antes disso tudocomeçar. Mas não há dúvida alguma. Todomundo diz que são ordens de Aslam. E nósmesmos o vimos. Puxa! Queríamos tanto queAslam voltasse para Nárnia! Não imaginávamosque ele fosse assim!____________________________________ 61C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  63. 63. – Parece que, desta vez, ele voltou muitobravo – disse o primeiro rato. – Acho que, semsaber, todos nós andamos fazendo algo realmenteterrível. Ele só pode estar nos castigando poralguma coisa. Mas acho que ele pelo menospoderia nos dizer do que se trata! – Suponho que o que estamos fazendoagora deve estar errado – disse o coelho. – E daí? – replicou uma das toupeiras. –Para mim, tanto faz. Se for preciso, faço outravez. Nesse momento alguém disse: “Cuidado,pessoal!”; e outro acrescentou: “Vamos, rápido!”Então todos falaram: “Sentimos muito, queridorei, mas temos de ir agora. Se nos pegam aqui...” – Deixem-me de uma vez, amigos – disseTirian. – Não quero, por nada neste mundo,colocá-los em dificuldades.____________________________________ 62C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  64. 64. – Boa noite! Boa noite! – disseram osanimais, roçando cada um o focinho em seusjoelhos. – Voltaremos, se pudermos. Depois que todos se foram, a florestapareceu muito mais escura, fria e solitária do queantes. As estrelas surgiram no céu e o tempo foipassando, lenta e vagarosamente, enquanto oúltimo rei de Nárnia permanecia ali, o corpo tododolorido e rigidamente imprensado contra aárvore à qual o haviam amarrado. Finalmente, porém, alguma coisaaconteceu. Lá longe surgiu uma luzinhaavermelhada, que desapareceu por um instantepara logo voltar, maior e mais forte. Então eleavistou vultos se movimentando do lado de cá daluz, carregando uns embrulhos que atiravam aochão. Por fim conseguiu ver do que se tratava: erauma fogueira recém-acesa, na qual atiravamfeixes de lenha. De repente, a labareda subiu eTirian viu que a fogueira ficava bem no alto dacolina. Agora podia enxergar perfeitamente oestábulo por detrás da fogueira, todo iluminado____________________________________ 63C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  65. 65. pelo clarão, e, entre este e o lugar onde seencontrava, uma grande multidão de homens eanimais. O pequeno vulto agachado ao lado dofogo devia ser o macaco. Estava dizendo algumacoisa para a multidão, mas Tirian não conseguiaouvir. Depois o macaco foi até a porta da cabana einclinou-se três vezes até o chão; em seguidalevantou-se e abriu a porta. Então alguma coisasaiu lá de dentro – algo que se movia rigidamentesobre quatro pernas – e postou-se de frente para amultidão. Ergueu-se no ar um grande murmúrio (ouseriam bramidos?), tão alto que Tirian pôde atéouvir algumas palavras: – Aslam! Aslam! Aslam! – suplicavam osanimais. – Fale conosco! Conforte-nos! Não fiquemais zangado conosco! De onde Tirian estava não dava para vermuito bem que bicho era aquele; via apenas queera amarelo e peludo. Ele nunca tinha encontradoo Grande Leão. Para dizer a verdade, nuncasequer vira um leão comum. Por isso não tinha____________________________________ 64C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  66. 66. certeza se aquilo era mesmo Aslam. Jamaisesperara que Aslam pudesse se parecer comaquela coisa tesa que estava ali, parada, sem dizeruma palavra. Mas como é que alguém poderiasaber ao certo? Durante alguns instantes,pensamentos horríveis passaram-lhe pela mente.Lembrou-se então do absurdo que ouvira sobreTash e Aslam serem um só, e concluiu que tudoaquilo só podia ser trapaça. O macaco chegou bem pertinho da coisaamarela, encostando sua cabeça na dela como quetentando escutar algo que lhe fosse cochichado aoouvido. Então virou-se e falou para a multidão,que começou a lamentar-se novamente. Depois acoisa amarela voltou-se desajeitadamente e saiuandando (talvez fosse melhor dizer gingando)para o estábulo de novo, e o macaco fechou aporta às suas costas. Depois disso parece que alguém apagou afogueira, pois a luz se extinguiu subitamente.Tirian ficou mais uma vez sozinho com o frio e aescuridão. À sua mente vieram, então, os outros____________________________________ 65C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  67. 67. reis que tinham vivido e morrido em Nárnia nostempos antigos. Nunca nenhum deles, pensouTirian, fora tão infeliz. Lembrou-se do rei Rilian,bisavô de seu bisavô, que, ainda bem jovem, foraraptado por uma feiticeira que o conservaraescondido, durante anos e anos, nas escurascavernas dos subterrâneos da terra dos gigantes donorte. Mas no final tudo acabara bem, pois duasmisteriosas crianças apareceram de repente,vindas das terras de Além-Mundo, e o libertaram;e depois que ele regressou a Nárnia teve um longoe próspero reinado. “Comigo não acontece nadadisso”, disse Tirian consigo mesmo. Então ele foiainda mais longe e pensou no pai de Rilian,Caspian, o Navegador, cujo perverso tio, o reiMiraz, tentara assassiná-lo, e em como Caspianconseguira escapar para as matas e viver entre osanões. Mas essa história também acabara bem,pois Caspian igualmente fora ajudado por crianças– só que dessa vez eram quatro, vindas de algumlugar para lá do fim do mundo e que, numa grandebatalha, lutaram até conseguir recolocá-lo notrono de seu pai. “Mas isso foi há muito tempo”,____________________________________ 66C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  68. 68. pensou Tirian. “Hoje em dia essas coisas nãoacontecem mais.” E aí ele lembrou (pois, quandomenino, sempre fora muito bom em História) queessas mesmas crianças que ajudaram Caspian játinham estado em Nárnia, anteriormente, haviamilhares e milhares de anos, e que fora naquelaépoca que tinham realizado os feitos maisnotáveis. Haviam derrotado a temível FeiticeiraBranca, pondo fim ao Inverno dos Cem Anos.Depois disso reinaram, os quatro de uma vez, emCair Paravel, até que não eram mais crianças e,sim, poderosos reis e adoráveis rainhas; e seureinado fora o período áureo de Nárnia. E,naquela história, Aslam aparecera uma porção devezes. Aliás, nas outras histórias ele tambémaparecera muitas vezes, lembrava agora Tirian.“Aslam... e crianças de um outro mundo”, pensou.“Sempre que as coisas estavam na pior, elesapareciam. Ah, se ao menos pudessem vir agora!” Então exclamou em voz bem alta: “Aslam!Aslam! Venha ajudar-nos agora!” Mas aescuridão, o frio e a quietude continuaram domesmo jeito.____________________________________ 67C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  69. 69. – Que eu seja morto! – gritou o rei. – Nadapeço para mim. Mas, por favor, venha salvarNárnia! A noite e a floresta continuaram do mesmojeito. Dentro de Tirian, porém, alguma coisacomeçou a mudar. Sem saber por que, viu nascerdentro de si uma pontinha de esperança e sentiu-se um pouco mais forte. “Oh, Aslam! Aslam!”,suspirou. “Se não vier pessoalmente, mande-mepelo menos os ajudantes de Além-Mundo!” Eentão, quase sem se dar conta do que estavafazendo, subitamente gritou bem alto: – Crianças! Crianças! Amigos de Nárnia!Venham, rápido! Eu vos chamo através dosmundos! Eu, Tirian, rei de Nárnia, senhor de CairParavel e imperador das Ilhas Solitárias! E no mesmo instante mergulhou em umsonho (se é que aquilo era um sonho) mais vividodo que qualquer outro que já tivera em toda a suavida. Pareceu-lhe estar em pé numa salailuminada onde havia sete pessoas sentadas em____________________________________ 68C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  70. 70. volta de uma mesa. Pelo jeito, tinham acabado decomer naquele instante. Duas delas eram bemidosas – um senhor de barbas brancas e umasenhora de olhos inteligentes, brilhantes e joviais.O rapaz sentado à direita do velho mal acabara desair da adolescência e era certamente ainda maisjovem que o próprio Tirian, mas já trazia no rostoa expressão de um rei e guerreiro. E quase sepoderia dizer o mesmo quanto ao outro jovem quese sentava à direita da senhora. Bem à frente deTirian, no outro lado da mesa, sentava-se umamoça loura, ainda mais jovem que os outros dois,e de cada lado dela um menino e uma meninaainda mais novos. Tirian pensou consigo mesmoque nunca vira roupas mais esquisitas do queaquelas que eles trajavam. Mas nem teve tempo de deter-se nessesdetalhes, pois de repente o menino mais novo e asduas meninas levantaram-se de um pulo e umadelas deu um gritinho. A senhora ergueu-se desúbito, prendendo firmemente a respiração. Ovelho também deve ter feito algum movimentobrusco, pois o copo de vinho que tinha na mão____________________________________ 69C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  71. 71. direita saiu voando da mesa. (Tirian até escutou obarulho do vidro estilhaçando no chão.) Só então Tirian deu-se conta de que aquelaspessoas podiam vê-lo; e o fitavam estarrecidas,como se vissem um fantasma. Notou, porém, queo jovem com aparência de rei sentado à direita dovelho não fez um único movimento (emborativesse empalidecido), a não ser cerrar o punhocom força. Em seguida, disse: – Fale, se é que você não é um fantasma ouuma visão. Existe em você algo que lembraNárnia. E nós somos os sete amigos de Nárnia. Tirian quis falar, e tentou gritar em alta vozque ele era Tirian de Nárnia e que necessitavamuito de ajuda. Mas descobriu (como muitasvezes nos acontece em sonhos) que sua voz nãofazia o menor ruído. Aquele que já lhe falara uma vez ergueu-see falou, encarando-o firmemente: – Espectro ou espírito ou seja lá o que for!Se você é de Nárnia, ordeno-lhe em nome de____________________________________ 70C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  72. 72. Aslam que fale comigo. Eu sou Pedro, o GrandeRei. A sala começou a tremer diante dos olhosde Tirian. Ele escutava as vozes dos sete, todasfalando ao mesmo tempo e ficando cada vez maisfracas: “Vejam! Está desaparecendo!”, “Estásumindo!”, “Está...” No momento seguinte, achou-secompletamente acordado, ainda amarrado àárvore, mais frio e enrijecido do que nunca. Amata estava repleta da luz pálida e monótona queantecede o nascer-do-sol, e ele estava todoensopado de orvalho. Já era quase manhã. Aquele despertar foi talvez o pior momentoque já tivera em toda a sua vida.____________________________________ 71C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  73. 73. 5 CHEGA AUXÍLIO PARA O REI Seu sofrimento, porém, não durou muito.Quase no mesmo instante ouviu um baque surdo,e depois mais um, e à sua frente surgiram duascrianças. Momentos antes, a mata diante deleestava completamente vazia, e ele sabia que elasnão tinham saído de trás da árvore, pois as teriaescutado. Elas simplesmente haviam aparecido delugar nenhum. Logo notou que usavam osmesmos trajes esquisitos e desbotados que aspessoas do sonho, e imediatamente percebeu queeram o menino e a menina mais novos daquelessete. – Caramba! – disse o menino. – Isso deixaqualquer um sem fôlego! Eu pensei...____________________________________ 72C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  74. 74. – Rápido! Vamos desamarrá-lo – disse amenina. – Depois a gente conversa. E, voltando-separa Tirian, acrescentou: – Sinto muito pelademora. Viemos assim que pudemos. Enquanto ela falava, o menino tirou umafaca do bolso e rapidamente cortou as cordas queprendiam o rei. E cortou até rápido demais, pois orei estava com o corpo tão duro e entorpecido que,quando a última amarra se soltou, caiu para afrente sobre as mãos e os joelhos. E só conseguiulevantar-se novamente depois de uma boamassagem nas pernas dormentes. – Ah! – disse a menina. – Foi você que nosapareceu naquela noite, quando estávamos todosjantando, há cerca de uma semana, não foi? – Uma semana, gentil senhorita? ! –exclamou Tirian. – Mas... meu sonho me levou aoseu mundo há menos de dez minutos! – É aquela costumeira confusão dostempos, Jill – disse o menino.____________________________________ 73C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  75. 75. – Ah, agora me lembro – disse Tirian. –Isso ocorre também nas histórias antigas. O tempono estranho mundo de vocês é diferente do nosso.Mas por falar em tempo, acho bom irmos emboradaqui. Meus inimigos estão bem pertinho. Vocêsvêm comigo? – É claro que sim – respondeu a menina. –Viemos aqui para ajudá-lo. Tirian pôs-se de pé e os conduziurapidamente colina abaixo, afastando-se doestábulo rumo ao Sul. Ele sabia muito bem paraonde ir; entretanto, seu primeiro objetivo eraalcançar as regiões rochosas onde não deixariampista alguma. O segundo era encontrar algumaágua que pudessem atravessar sem deixar rastro.Isso lhes custou cerca de uma hora, escalando evadeando. Enquanto isso, ninguém tinha fôlegopara conversar. Assim mesmo, de vez em quandoTirian olhava de soslaio para os seuscompanheiros. O fato de estar andando lado a ladocom criaturas de um outro mundo deixava-o meiotonto; mas também fazia com que todas as antigas____________________________________ 74C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  76. 76. histórias parecessem muito mais reais do quenunca. Qualquer coisa podia acontecer agora. – Estamos livres daqueles vilões por algumtempo, e podemos caminhar com mais facilidade–disse Tirian quando chegaram ao topo de umpequeno vale que descia à frente deles, entrepequenas moitas de bétulas. O sol já havia nascidoe gotas de orvalho brilhavam em cada galho. Ospássaros cantavam alegremente. – Que tal “bater uma bóia”? Quer dizer, osenhor, pois nós dois já tomamos nosso café –disse o menino. Tirian ficou um tempão imaginando o queseria “bater uma bóia”. Mas quando o meninoabriu a bojuda mochila que trazia às costas e tiroulá de dentro um pacote mole e gorduroso, entãoele entendeu. Tirian estava morto de fome, se bemque até aquele momento ainda não pensara nisso.Havia dois sanduíches de ovos cozidos, doissanduíches de queijo e ainda dois outros com umaespécie de patê. Se não estivesse com tanta fome,Tirian nem teria ligado muito para aquele patê,____________________________________ 75C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  77. 77. pois é o tipo de coisa que ninguém come emNárnia. Quando acabou de comer os seissanduíches, já estavam chegando ao fundo dovale, onde encontraram um penhasco cheio demusgo de onde brotava uma pequena fonte. Ostrês pararam, beberam e lavaram o rosto. – E agora – disse a menina, ajuntando oscabelos molhados na testa e atirando-os para trás–, não vai nos contar quem é você, por que estavaamarrado e tudo o mais? – Com todo o prazer, minha donzela –respondeu Tirian. – Mas acho melhorcontinuarmos andando. Assim, à medida que caminhavam, ele lhescontou quem era e tudo o que lhe haviaacontecido. – E agora – disse, por fim – estamos indopara uma certa torre, uma das três que foramconstruídas na época dos meus ancestrais paraproteger o Ermo do Lampião contra certosmarginais perigosos que viviam por ali naqueletempo. Por graça de Aslam não me roubaram as____________________________________ 76C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  78. 78. chaves. Nessa torre encontraremos suprimentos dearmas e cotas de malha e também mantimentos(embora nada mais que biscoitos secos). Tambémlá estaremos a salvo enquanto traçamos nossosplanos. E, agora, por que não me dizem quemsão? Gostaria de saber a sua história. – Eu sou Eustáquio e esta é Jill – disse omenino. – Já estivemos aqui uma vez, séculos eséculos atrás, e há mais de um ano, segundo onosso tempo. Tinha um sujeito chamado príncipeRilian, que estava preso no mundo subterrâneo, eaí Brejeiro... – Ah! – exclamou Tirian. – Então vocês sãoo Eustáquio e a Jill que libertaram o rei Rilian doseu longo encantamento? ! – É, somos nós mesmos – disse Jill. – Querdizer, então, que ele agora é o rei Rilian, hein? Éclaro, tinha que ser... Eu ia me esquecendo... – Bem – disse Tirian –, eu sou o último nasua descendência. Ele morreu há mais de duzentosanos.____________________________________ 77C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  79. 79. Jill fez uma careta, dizendo: – Bolas! Isso é que é chato quando se voltaa Nárnia! – Eustáquio, porém, continuou: – Bem, senhor, agora já sabe quem somosnós. E foi assim que aconteceu: o professorDigory e tia Polly tinham reunido todos nós, osamigos de Nárnia. – Esses nomes eu não conheço – disseTirian. – São os dois que vieram a Nárnia bem nocomecinho, no dia em que todos os bichosaprenderam a falar. – Pela Juba do Leão! – exclamou Tirian. –Aqueles dois! Lorde Digory e Lady Polly! Pelamadrugada! E ainda vivos, no mesmo lugar? !Maravilha das maravilhas! Mas me contem, mecontem! – Para dizer a verdade, ela não é bem nossatia – disse Eustáquio. – O nome dela é senhoritaPlummer, mas nós a chamamos de tia Polly. Poisbem: os dois reuniram todos nós, em parte para____________________________________ 78C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  80. 80. nos divertirmos um pouco, para a gente bater umbom papo a respeito de Nárnia (pois, como sabe,não tem ninguém mais com quem a gente possaconversar sobre essas coisas). Mas tambémporque o professor tinha a impressão de que, dealguma forma, alguém estava precisando de nóspor aqui. E foi então que você apareceu lá feitoum fantasma, ou sei lá o quê, e quase nos matoude susto, e depois se evaporou sem dizer umapalavra. Depois disso, já sabíamos por certo quealguma coisa errada andava acontecendo. Aquestão agora era como chegar até aqui. A gentenão pode vir assim, só por querer. Depois demuita discussão, o professor chegou à conclusãode que o único jeito era usar os anéis mágicos. Foiatravés desses anéis que ele e tia Polly chegaramaqui, muito tempo atrás, quando ainda eramcrianças. Mas os anéis haviam sido enterrados noquintal de uma casa em Londres (Londres é anossa grande cidade, senhor), e a casa tinha sidovendida. O problema agora era como consegui-los. Você nem imagina o que acabamos fazendo!Pedro e Edmundo (isto é, Pedro, o Grande Rei,____________________________________ 79C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  81. 81. aquele que falou com você) foram a Londres,planejando entrar no quintal pelos fundos, demanhã bem cedinho, antes que o pessoal da casaacordasse. Vestiram-se de trabalhadores, porquese alguém os visse pensaria que tinham ido fazeralgum reparo nos esgotos. Gostaria de ter estadoali com eles. Deve ter sido divertido pra valer. Eacho que deu tudo certo, pois no dia seguintePedro nos mandou um telegrama (é um tipo derecado, senhor; qualquer hora dessas eu lheexplico), dizendo que havia conseguido os anéis.No dia seguinte, Jill e eu teríamos de voltar para aescola; do grupo todo, somos os únicos que aindaestudam, e estamos na mesma escola. Ficoucombinado que Pedro e Edmundo nosencontrariam num determinado lugar a caminhoda escola, para nos entregar os anéis. Tinha de sernós dois, pois os mais velhos já não podiam maisvir a Nárnia. Assim, embarcamos no trem (umacoisa que as pessoas usam para viajar em nossomundo: uma porção de vagões engatados um nooutro). O professor, tia Polly e Lúcia vieramconosco, pois queríamos ficar todos juntos, o____________________________________ 80C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  82. 82. máximo de tempo possível. Pois bem, láestávamos nós no trem. Ao chegarmos à estaçãoonde os outros deveriam nos encontrar, pus-me aolhar pela janela para ver se conseguia avistá-los,quando, de repente, veio um tremendo solavancoe um barulhão. E aí nos achamos em Nárnia evimos Sua Majestade amarrado àquela árvore. – Quer dizer que vocês nem usaram osanéis? – Não – disse Eustáquio. – Nem sequer osvimos. Aslam fez tudo por nós à sua própriamaneira, sem anel algum. – Mas o rei Pedro deve estar com os anéis –disse Tirian. – Sim – respondeu Jill. – Mas não creio quepossa utilizá-los. Quando os outros dois (querdizer, o rei Edmundo e a rainha Lúcia) estiveramaqui a última vez, Aslam lhes disse que eles nuncamais voltariam a Nárnia. E disse a mesma coisaao Grande Rei, só que há muito mais tempo. Eulhe garanto que, se Aslam deixasse, ele viria quenem uma bala!____________________________________ 81C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  83. 83. – Caramba! – queixou-se Eustáquio. – Estesol está ficando quente. Já estamos chegando,senhor? – Vejam! – disse Tirian, apontando à frente.Não muito adiante deles erguiam-se umasmuralhas cinzentas acima do topo das árvores.Depois de andarem alguns minutos deram comuma clareira toda coberta de grama, onde corriaum pequeno riacho. No extremo deste, via-se umatorre baixa e quadrada, com umas poucas janelasestreitas e, na parede de frente, uma porta queparecia bem pesada. Tirian olhou cuidadosamente para um ladoe para o outro, certificando-se de que não havianenhum inimigo à vista. Então dirigiu-se para atorre e ficou uns minutos parado, tentando pegarum molho de chaves que usava por baixo do trajede caça, preso a uma correntinha de prata que eletrazia ao pescoço. Era um belo molho de chaves:duas eram de ouro e havia várias outras ricamenteenfeitadas. Via-se logo que eram chaves feitaspara abrir salas solenes e secretas de algum____________________________________ 82C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  84. 84. palácio, ou gavetas e cofres de madeira perfumadacontendo tesouros reais. No entanto, a chave queele meteu na fechadura da porta era uma chavecomum, grande e rústica. A fechadura estavaemperrada e por um momento Tirian chegou atemer que a chave não girasse; finalmente, porém,conseguiu movê-la, e a porta se abriu com umrangido. – Bem-vindos, amigos – disse ele. – Temoque, no momento, seja este o melhor palácio que orei de Nárnia pode oferecer aos seus convidados. Tirian ficou contente ao notar que os doishóspedes eram bem-educados. Ambos disseramque não falasse assim, que tinham certeza de queaquele era um ótimo lugar. Mas, para falar averdade, não era tão bom assim. Era muito escuroe tinha um terrível cheiro de umidade. Haviaapenas um compartimento, que ia dar direto notelhado de pedra. Uma escadaria de madeira emum canto dava para um alçapão por onde se podiachegar às muralhas. Para dormir, havia algunsbeliches bem rústicos encravados na parede. Um____________________________________ 83C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  85. 85. monte de baús trancados e uma infinidade deembrulhos espalhavam-se pelo chão. Haviatambém uma lareira que, pelo jeito, não via fogohá anos e anos. – Acho melhor a gente sair e ajuntaralguma lenha primeiro – observou Jill. – Ainda não, minha amiga – disse Tirian.Ele não queria correr o risco de serem pegosdesarmados. Por isso começou a remexer nosbaús, lembrando com gratidão que sempre tivera ocuidado de mandar inspecionar aquelas torres deguarnição pelo menos uma vez por ano, paragarantir que elas se mantivessem devidamenteestocadas com todo o necessário. Ali estavam osarcos com as cordas sedosas e cuidadosamentelustradas com óleo; as espadas e as lançasestavam untadas para não enferrujar, e asarmaduras brilhavam dentro das caixas. Haviauma coisa, porém, que era ainda melhor. – Olhem aqui – disse Tirian, tirando umacomprida cota de malha de um modelo muito____________________________________ 84C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  86. 86. curioso e fazendo-a brilhar ante os olhos dascrianças. – Que malha mais engraçada, senhor! –disse Eustáquio. – De fato, meu jovem – concordou Tirian. –Ela não foi feita por nenhum anão narniano. Euma malha da Calormânia, porcaria estrangeira.Sempre conservei algumas dessas vestimentas emprontidão, pois nunca se sabe quando será precisopassar pelas terras do Tisroc sem ser visto. Evejam só esta garrafa de pedra. Aqui dentro temum líquido que, esfregado no rosto e nas mãos,faz a gente ficar moreno como os calormanos. – Oba! – exclamou Jill. – Um disfarce!Adoro disfarces! Tirian mostrou-lhes como pingar umpouquinho do líquido na palma da mão e depoisesfregar no rosto e no pescoço, descendo para osombros, fazendo depois o mesmo nas mãos ecotovelos. Ele mesmo se besuntou também.____________________________________ 85C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  87. 87. – Depois que isto seca na pele – explicouele –, pode-se até lavar que a cor não muda. Sócom óleo e cinza se fica branco de novo. E agora,Jill querida, vamos ver como fica esta malha emvocê. É um pouco comprida, mas não tantoquanto eu pensei. Sem dúvida, pertenceu a algumpajem do séquito de um dos tarcaãs calormanos. Depois de vestir as cotas de malha,colocaram uns elmos calormanos, pequenos eredondos, que encaixam bem na cabeça e têm umaponta no alto. Em seguida, Tirian tirou do baú unsrolos compridos de uma coisa branca e foienrolando por cima dos elmos até que estesviraram turbantes; mesmo assim, a pontinha doelmo ainda aparecia. Ele e Eustáquio armaram-secom espadas curvas calormanas e escudospequenos e redondos. Como não havia umaespada que fosse leve o bastante para Jill, o reideu-lhe uma faca de caça comprida e reta; emcaso de emergência, esta lhe serviria de espada. – Sabe manejar o arco, senhorita? –perguntou o rei.____________________________________ 86C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  88. 88. – Não muito bem – respondeu a menina,corando. – Eustáquio é que é bom nisso. – Conversa dela, senhor – disse Eustáquio.– Nós dois praticamos arco e flecha desde quevoltamos de Nárnia a última vez, e ela é quase tãoboa quanto eu. Não que a gente seja tão bom,mas... Então Tirian entregou a Jill um arco e umaaljava cheia de flechas. Agora era tratar deacender um fogo, pois, por dentro, aquela torremais parecia uma caverna do que uma casa, edava até calafrios. Mas só de juntar lenha eles jáse aqueceram (agora o sol já estava a pino); equando as labaredas começaram a crepitarchaminé acima o lugar ficou até agradável. Oalmoço, no entanto, foi uma comida muito semgraça, pois o máximo que conseguiram fazer foipicar umas bolachas duras, que acharam num dosbaús, e colocá-las para ferver com água e sal,fazendo uma espécie de mingau. Para beber, éóbvio, nada além de água.____________________________________ 87C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  89. 89. – Ah, se eu tivesse trazido uns saquinhos dechá! – suspirou Jill. – Ou uma lata de chocolate em pó –acrescentou Eustáquio. – Até que não seria mau se a gente achasseum barril de vinho nessas torres – disse Tirian.____________________________________ 88C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  90. 90. 6 UM BOM TRABALHO NOTURNO Só umas quatro horas mais tarde Tirianatirou-se num dos beliches para tirar uma soneca.As duas crianças já estavam roncando: ele asfizera ir para a cama mais cedo porque teriam deficar acordadas a maior parte da noite, e Tiriansabia que, sem dormir, crianças daquela idade nãoagüentariam. Além disso, deixara os doiscansados demais. Primeiro tinha treinado arco eflecha com Jill e descobrira que, embora nãoatingisse os padrões narnianos, ela de fato não eratão ruim assim. Na verdade, conseguira acertarum coelho (não um coelho falante, é claro;naquela região de Nárnia existem muitos coelhoscomuns), que já estava sem o couro, limpo edependurado. Tirian descobrira que as duascrianças sabiam tudo sobre esse trabalho____________________________________ 89C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  91. 91. deprimente e malcheiroso, que haviam aprendidona sua grande viagem pela terra dos gigantes, nosdias do príncipe Rilian. Em seguida, tentaraensinar Eustáquio a usar a espada e o escudo. Omenino já aprendera bastante sobre o uso daespada lutando nas suas primeiras aventuras, masele só conhecia a espada reta narniana. Nuncahavia manejado uma cimitarra calormana, e nãofoi nada fácil, pois muitos dos golpes sãocompletamente diferentes, e alguns hábitos queele adquirira usando a espada comprida tinham deser aprendidos de novo. Tirian percebeu, noentanto, que ele tinha bom olho e era muito rápidocom os pés. Ficou surpreso com a força das duascrianças: na verdade, ambas pareciam agora muitomais fortes, maiores e mais maduras do quequando as encontrara pela primeira vez, poucashoras atrás. Esse é um dos efeitos que a atmosferade Nárnia produz nos visitantes do nosso mundo. Os três concordaram que a primeira coisa afazer era voltar à Colina do Estábulo e tentarlibertar Precioso, o unicórnio. Depois, se fossembem-sucedidos, fugiriam para o leste, ao encontro____________________________________ 90C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  92. 92. do pequeno exército que Passofirme, o centauro,estaria trazendo de Cair Paravel. Um guerreiro e caçador experiente comoTirian jamais tem dificuldade de despertar à horaque deseja. Assim, depois de ter dito a si mesmoque acordaria às nove horas da noite, deixou todasas preocupações de lado e adormeceu no mesmoinstante. Quando despertou, teve a impressão deque haviam transcorrido não mais que algunsminutos, mas sabia, pela luminosidade e pelopróprio aspecto das coisas, que dormiraexatamente o tempo que havia determinado.Levantou-se, colocou o elmo-turbante (eledormira com a cota de malha) e então sacudiu ascrianças para acordá-las. A bem da verdade, elaspareciam muito desoladas e abatidas quandosaltaram dos beliches onde dormiam, bocejandomuito. – Bem – disse Tirian –, daqui vamos para oNorte. Por sorte, a noite está estrelada, e nossajornada agora será bem mais curta, pois estamanhã nos desviamos muito, ao passo que agora____________________________________ 91C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  93. 93. iremos direto. Se formos interpelados, mantenhama calma; farei o possível para falar como umdetestável, cruel e orgulhoso lorde calormano. Seeu puxar a espada, Eustáquio, faça o mesmo; evocê, Jill, coloque-se atrás e fique com o arco apostos. Mas se eu gritar “Para casa”, então fujampara a torre. E, quando eu tiver dado o sinal deretirada, não tentem lutar – nem um golpe sequer–, pois esse tipo de falsa bravura em guerras jáarruinou muitos planos excelentes. E agorasigamos, amigos, em nome de Aslam. Então saíram na noite fria. Todas asgrandes estrelas setentrionais flamejavam acimado topo das árvores. A estrela polar em Nárnia échamada de Ponta da Lança e brilha mais do que anossa. Por algum tempo seguiram em linha reta,na direção da Ponta da Lança, mas então, tendochegado a uma mata espessa, tiveram de desviar-se de seu curso para contorná-la. Depois dissoficou difícil retomar o curso, pois os galhos aindaatrapalhavam sua visão. Foi Jill que os levou de____________________________________ 92C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  94. 94. volta ao caminho correto: na Inglaterra ela forauma excelente bandeirante. E, obviamente,conhecia muito bem as estrelas de Nárnia, poisviajara muito pelas terras desérticas do Norte epodia encontrar a direção das outras estrelas,mesmo quando a Ponta da Lança estava oculta.Ao perceber que ela era o melhor rastreador dostrês, Tirian colocou-a à frente. E ficou espantadoao ver quão silenciosamente ela deslizava nafrente deles, quase como se fosse invisível. – Pela Juba do Leão! – murmurou,dirigindo-se a Eustáquio. – Essa garota é umaextraordinária dama dos bosques. Se tivessesangue de dríade nas veias, dificilmente faria issomelhor. – O que ajuda é que ela é pequena –sussurrou Eustáquio de volta. Jill, à frente, apenasdisse: – Psiu! Não façam barulho. Ao redor deles, a floresta estava muitoquieta. Na verdade, quieta demais. Numa noitecomum, ali em Nárnia, estariam ouvindo ruídos –____________________________________ 93C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  95. 95. de quando em quando, um cordial “boa noite” deum ouriço, o grito de uma coruja vindo do alto,talvez o som de uma flauta à distância a dizer queos faunos dançavam, ou o barulho latejante dasmarteladas dos anões embaixo da terra. Mas tudoestava em silêncio: escuridão e medo reinavamem Nárnia. Após algum tempo, iniciaram a íngremecaminhada colina acima; as árvores cresciam cadavez mais afastadas umas das outras. Ainda queindistintamente, Tirian já podia divisar o topo dacolina e o estábulo. Jill seguia agora com maiscautela, e o tempo todo fazia sinais com a mãopara que os outros fizessem o mesmo. Entãoparou, totalmente imóvel, e Tirian viu-a afundar-se na grama e desaparecer sem o menor ruído. Daí a alguns instantes ela estava de volta e,chegando a boca bem pertinho do ouvido deTirian, sussurrou o mais baixo possível: “Abaixe-se! Dá para ver melhor!”____________________________________ 94C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII
  96. 96. Tirian abaixou-se rápido, quase tãosilencioso quanto Jill, mas não tanto, pois eramais velho e mais pesado. Daquela posição, deitado no chão, avistoudois vultos negros recortados contra o céu cobertode estrelas: um era o estábulo e o outro, poucosmetros adiante, um sentinela calormano. Ohomem montava uma péssima guarda: não estavaandando, nem sequer de pé, mas sentado, com alança recostada ao ombro e o queixo afundado nopeito. “Ótimo!”, disse Tirian a Jill. Ela lhemostrara exatamente o que ele precisava saber. Então eles se levantaram e Tirian retomou aliderança. Com muito cuidado, mal ousandorespirar, encaminharam-se lentamente para umpequeno amontoado de árvores que ficava a unspoucos metros de onde estava o sentinela. – Esperem aqui até eu voltar – sussurrou elepara os dois. Se eu fracassar, fujam. Então saiu caminhando decididamente, aplena vista do inimigo. Ao vê-lo, o homemestremeceu e já ia dar um pulo para ficar de pé,____________________________________ 95C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VII

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