C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA               VOL. V A Viagem do Peregrino da        Alvorada               Tradução    ...
As Crônicas de Nárnia são constituídas por:Vol. I – O Sobrinho do MagoVol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-RoupaVol. ...
Para Geoffrey Barfield__________________________________        2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
ÍNDICE1.     O QUADRO2.     A BORDO DO PEREGRINO DA ALVORADA3.     AS ILHAS SOLITÁRIAS4.     UMA VITÓRIA DE CASPIAN5.     ...
1                                          O QUADRO      Era uma vez um garoto chamado EustáquioClarêncio Mísero, e na ver...
Eustáquio      gostava     de    animais,especialmente de besouros quando estavammortos e espetados num cartão. Também gos...
professor nos Estados Unidos, durante quatromeses, e a mãe resolvera ir com ele.      Pedro, que tinha de preparar-se com ...
– Para mim ainda é muito pior – diziaEdmundo –, porque você terá um quarto separado,enquanto eu terei de dividir o meu com...
quadro, mas não podia jogá-lo fora, pois forapresente de casamento de uma pessoa a quem nãoqueria ofender. Representava um...
– Ficar olhando para um navio de Nárniasem poder chegar lá é pior ainda! – disseEdmundo.      – Olhar é sempre melhor do q...
– Estou vendo se me recordo de unsversinhos – disse Eustáquio –, qualquer coisamais ou menos assim:     Uns meninos que br...
– Pelo amor de Deus, não deixe elecomeçar a falar de arte e outras coisas –interrompeu Edmundo depressa. Mas Lúcia, queera...
andado de barco uma vez (uma pequenadistância), mas tinha enjoado pra valer. Ao ver asondas do quadro, ficou de novo enjoa...
do quadro. De súbito, com o vento, vieram osbarulhos... o marulhar das ondas, o bater da águade encontro ao costado do nav...
Eustáquio correu para o quadro. Edmundo,que sabia alguma coisa de magia, saltou atrás,dizendo que ele não fizesse uma best...
estivesse muito mais fria do que parecia noquadro. Mas não perdeu a serenidade, chegando atirar os sapatos – coisa que a g...
Seguiu-se o que lhe pareceu uma longaespera, durante a qual ficara com o rostoarroxeado e batendo queixo. Mas na verdade a...
– Quem é o amigo de vocês? – perguntoulogo Caspian, voltando-se para Eustáquio, comsemblante risonho e acolhedor.       Ma...
aromático para Suas Majestades. Precisam decalor depois desse        mergulho.       Tratava Edmundo e Lúcia por majestade...
Rinelfo apareceu com o vinho aromático,fumegando num jarro, e quatro taças de prata. Erajustamente disso que precisavam. À...
cerca de sessenta centímetros de altura,caminhando apoiado nas patas traseiras. Atada àcabeça, por baixo de uma orelha e p...
Ripchip avançou a perna esquerda, afastoupara trás a direita, fez uma reverência, beijou-lhea mão, endireitou-se, torceu o...
– Mas onde estou com a cabeça! Deixeivocês aqui com a roupa molhada! – exclamouCaspian. – Vamos descer para mudar de roupa...
imediatamente abriu uma porta a bombordo edisse:       – Este agora vai ser o seu quarto, Lúcia. Sóvou tirar daqui umas pe...
certeza de         que     passaria       uma   temporadamaravilhosa.__________________________________                   ...
2         A BORDO DO PEREGRINO                 DA ALVORADA      – Ah, aí vem Lúcia! – disse Caspian. –Estávamos à sua espe...
– Precisamos conversar – disse Caspian.      – É claro – concordou Edmundo. – Antesde tudo, acerca do tempo. Para nós pass...
– O meu querido Trumpkin! – exclamouLúcia.     – Claro que me lembro. Não podia ter feitomelhor escolha.       – Leal como...
– Isso mesmo. Pois bem, no dia da minhacoroação, com a aprovação de Aslam, jurei que seum dia estabelecesse a paz em Nárni...
sempre do Oriente, através do mar, que o GrandeLeão vem encontrar-se conosco.     – É uma idéia – comentou Edmundo, emtom ...
– Não sei o que isto significa, mas essesortilégio me perseguiu a vida toda.      – E onde estamos agora, Caspian? –pergun...
– ... e desmontou muitos cavaleiros –repetiu Drinian, com um trejeito. – Pareceu-nosque o duque teria ficado muito content...
armados afastou-se, de pois de rápida troca deflechas...      – Devíamos ter ido atrás deles e liquidadotodos aqueles piol...
– Ninguém sabe, real senhora. A não serque os próprios habitantes das ilhas saibam nosinformar.    – Não sabiam na nossa é...
deve ser desperdiçado em uma coisa comoenjôo...        – Só vou gastar uma gota – garantiu Lúcia.      Caspian abriu uma g...
havia vento ou para entrar ou sair de algum porto.Todos, menos Ripchip, que tinha as pernas curtasdemais, remavam muitas v...
do nível da água. Conforme o navio mergulhava,pareciam alternadamente douradas, com a luz dosol, ou verde-escuras, com o m...
– Que tempestade? – perguntou Caspian. EDrinian caiu na gargalhada, dizendo:      – Tempestade, meu jovem?! Não se podeped...
ao cônsul britânico, no primeiro porto a quechegassem.      Quando Ripchip perguntou que queixa eraessa e como se apresent...
castelo da proa estava a galé (ou cozinha donavio) e os alojamentos do contramestre, docarpinteiro, do cozinheiro e do arq...
aos nossos navios, e até mesmo às galeras quehavia em Nárnia na época em que Lúcia eEdmundo ali reinaram, pois quase toda ...
voltaram ao camarote para cear e viram o céu todoiluminado com um imenso pôr-do-sol, e sentiramo navio estremecer sob os p...
Durante todo esse período tem feito um mautempo insuportável (ainda bem que não costumoenjoar a bordo). Ondas imensas avan...
isso!!! Acho que não entende nada de nada. Édesnecessário dizer que me puseram no piorcamarote, um verdadeiro calabouço. À...
seguinte, antes do almoço, quando os outros jáestavam sentados à mesa esperando (o mar dá umapetite excelente), Eustáquio ...
dría-de lhe dedicara. Nunca se agarrava a nada e,embora o navio pulasse, conservava facilmente oequilíbrio. Sua cauda, que...
Mas, infelizmente, Rip lutara muitas vezespara defender a vida e não perdeu a cabeça um sóinstante. Nem a agilidade. Não é...
– Nunca usei uma espada – disse Eustáquio.– Sou um pacifista. Não me meto em brigas.      – Quer dizer – disse Ripchip, af...
de um minuto para chegar ao castelo da proa,cobrindo toda a extensão do convés como umrelâmpago e irrompendo pela porta do...
3                 As ILHAS SOLITÁRIAS        – Terra à vista! – gritou o homem da proa.      Lúcia, que conversava com Rin...
– Sempre a mesma Felimate! Sempre amesma Durne! – exclamou Lúcia, batendopalmas. – Oh, Edmundo, faz tanto tempo queestivem...
O povo vivia principalmente em Durne e umpouco em Avra, a terceira ilha, que não se vêdaqui.      – Então teremos de dobra...
– Ótimo! – gritou Lúcia.      – Quer vir também? – indagou Caspian aEustáquio, que tinha subido ao convés com a mãoenfaixa...
em torno: ficaram surpresos ao ver como oPeregrino parecia pequenino.       Claro que Lúcia continuava descalça, poishavia...
Via-se nitidamente a cidadezinha branca dePorto Estreito, em Durne.        – O que é aquilo? – perguntou Edmundo.      No ...
– Sim, é claro, mas se tivermos dereconquistar as três ilhas prefiro voltar aqui comum exército maior.       Já estavam mu...
desarmados e com as mãos amarradas às costas,com exceção de Ripchip, que se revirava nasmãos de seu captor e o mordia furi...
– Ora, não comece com besteiras –interrompeu o mercador. – Quanto maisbonzinhos ficarem, melhor será para todos. Nãofaço i...
Os quatro prisioneiros foram amarradosjuntos, não de maneira cruel, mas de modo queficassem seguros. Tiveram de caminhar a...
– Agora, jovens – disse o mercador –, nadade confusões, para não terem o que lamentar.Todos a bordo.       Nesse mesmo ins...
coração sensível, não devia ter entrado numaprofissão como esta. No entanto, para um clientecomo Vossa Senhoria...      – ...
trate bem os outros enquanto estiverem nas suasmãos; do contrário, será pior para você.      – Essa é boa! – exclamou Pug....
– Vamos, menina – disse Pug –, não fiqueassim que estraga a sua aparência. Tem de servendida amanhã. Comporte-se, nada de ...
– Não precisa ter medo de mim – disse. –Vou tratá-lo muito bem. Comprei-o por causa desua fisionomia. Você me lembra algué...
Caspian, filho de Caspian, legítimo rei de Nárnia,Senhor de Cair Paravel e Imperador das IlhasSolitárias.       -Justos cé...
– É muito curta, senhor. Vim dar aqui comos meus seis companheiros, gostei de uma moçadestas ilhas e cheguei à conclusão d...
– Não o aconselho a fazer isso – disse Bern.– Logo que começasse o combate, sairiam dePorto Estreito dois ou três navios e...
Este, como Caspian, teria preferido acostaro navio de escravos e fazer uma abordagem, masBern apresentou a objeção anterio...
– No domínio de Bern – completou lordeBern.       – Perfeito. Se existissem alguns navios,toda a travessia se faria fora d...
alguns preparativos (não disse exatamente quais)para o dia seguinte.__________________________________           69C.S.Lew...
4                          UMA VITÓRIA DE                                 CASPIAN     Na manhã seguinte, lorde Bern chamou...
No cais, Caspian                    encontrou   grandemultidão a recebê-lo.      – Foi isto que mandei preparar na noitepa...
e gostavam disso; mas depois vieram as crianças,porque estas adoravam os desfiles e tinham vistoainda muito poucos. Em seg...
Naquela época, tudo quanto se fazia nasilhas era com desleixo e de maneira descuidada.Abriu-se apenas uma portinhola do ca...
O rei e seu séquito entraram no pátio, ondecochilavam alguns guardas, e muitos outrossaíram aos tombos de várias portas, a...
quero vê-los neste pátio como gente de armas enão como vagabundos. Providencie para que secumpra como ordenamos, sob pena ...
– Não há audiência sem hora marcada,exceto das nove às dez nos segundos sábados decada mês.       Caspian fez um sinal a B...
muito ir regular. Gostaria de considerar o assuntocom mais vagar.      – Estou aqui para inquirir do desempenhode suas fun...
– Oh, mas isso é inadmissível. Éfinanceiramente impossível. Vossa Majestadedeve estar brincando.       Lá no fundo, estava...
– Em segundo lugar – disse Caspian          –,gostaria de saber por que permitiu que            sedesenvolvesse aqui esse ...
paternal – impedem-no de compreender oproblema econômico daí resultante. Mas eu tenhoestatísticas, gráficos, tenho...     ...
– Não assumo a responsabilidade por essamedida – disse Gumpas.       – Então, muito bem! Está desobrigado deseu encargo. L...
negócios?... A questão que temos realmenteperante nós é que...      – A questão é saber – disse o duque – sevocê e o resto...
os senhores têm músculos para servi-los! Olhempara este peito! Dez crescentes para aquele senhorali do canto. Está brincan...
comércio de escravos foi abolido em nossosdomínios há quinze minutos. Declaro livres todosos escravos deste mercado.      ...
Dois     comerciantes      da    Calormâniaaproximaram-se imediatamente. Os calormanostêm rostos escuros e longas barbas. ...
Mas onde está meu outro amigo?      – Oh, aquele! Leve-o e faça bom proveito.Ainda bem que me livro dessa droga! Nunca vin...
– Amanhã vão recomeçar realmente asnossas aventuras! – disse Ripchip, ao despedir-sede todos para ir deitar-se. Mas não se...
que, se navegassem demasiado para oeste,chegariam às ondas de um mar sem terras querodava perpetuamente em torno da crosta...
ocasião em que se encontrava com Caspian noponto mais alto de Avra, olhando lá embaixo parao oceano oriental.       – Venh...
5                              A TEMPESTADE      Três semanas após o desembarque, saía oPeregrino da Alvorada de Porto Est...
inspeção à popa, enquanto o navio virava paraleste, contornando o sul de Avra.       Seguiram-se dias deliciosos. Lúcia se...
repente, esquecia-se de que estava jogandoxadrez, julgando-se em um combate real,obrigando o cavaleiro a proceder como ele...
havia operado, quando Drinian gritou, dominandoo barulho do vento:        – Todos ao convés!       Num instante começaram ...
-Já para baixo, minha senhora! – bradavaDrinian, e Lúcia, sabendo que a gente da terra éum estorvo para a tripulação, tent...
Havia sempre três marujos agarrados ao leme,vendo se descobriam uma rota. Trabalhavam nasbombas sem parar. Quase não havia...
que se dirá com demônios em forma de gente.Caspian e Edmundo são uns brutos comigo. Nanoite em que perdemos o mastro (agor...
O mais sensato seria virarmos para leste, sefosse possível, e voltarmos às Ilhas Solitárias.Mas levamos dezoito dias para ...
habitual calma e firmeza, que havia sido raptado etrazido à força para esta viagem estúpida, nãosendo portanto minha obrig...
cuidado de não incomodar Caspian e Edmundo,pois dormem mal desde que o calor e a escassezde água se fizeram sentir. Tenho ...
acreditaram nele. Como se pode lutar contraisso?!       “Tive de pedir desculpa para que omonstrozinho não caísse de espad...
“7 de setembro. Hoje houve um pouco devento, mas ainda de oeste. Fizemos algumasmilhas para leste só com uma parte da vela...
“2 2 de setembro. Pegamos uns peixes,comidos no jantar. Lançamos âncora às sete danoite numa baía desta ilha montanhosa. O...
denteada, através da qual se vislumbrava ao longea indecisa escuridão de montanhas, cujos cimosdesapareciam no meio de nuv...
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C.s.lewis as cronicas de narnia vol v - a viagem do peregrino da alvorada

  1. 1. C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. V A Viagem do Peregrino da Alvorada Tradução Paulo Mendes Campos Martins Fontes São Paulo 2002
  2. 2. As Crônicas de Nárnia são constituídas por:Vol. I – O Sobrinho do MagoVol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-RoupaVol. III – O Cavalo e seu MeninoVol. IV – Príncipe CaspianVol. V – A Viagem do Peregrino da AlvoradaVol. VI – A Cadeira de PrataVol. VII– A Última Batalha__________________________________ 1C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  3. 3. Para Geoffrey Barfield__________________________________ 2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  4. 4. ÍNDICE1. O QUADRO2. A BORDO DO PEREGRINO DA ALVORADA3. AS ILHAS SOLITÁRIAS4. UMA VITÓRIA DE CASPIAN5. A TEMPESTADE6. AS AVENTURAS DE EUSTÁQUIO7. COMO TERMINOU A AVENTURA8. DOIS SÉRIOS PERIGOS9. A ILHA DAS VOZES10. O LIVRO MÁGICO11. OS ANÕEZINHOS DO MÁGICO12. A ILHA NEGRA13. OS TRÊS DORMINHOCOS14. O PRINCÍPIO DO FIM DO MUNDO15. AS MARAVILHAS DO MAR DERRADEIRO16. O FIM DO MUNDO__________________________________ 3C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  5. 5. 1 O QUADRO Era uma vez um garoto chamado EustáquioClarêncio Mísero, e na verdade bem merecia essenome. Os pais diziam Eustáquio Clarêncio, e osprofessores, apenas Mísero. Não posso dizercomo era chamado pelos amigos, pois não tinhaamigos. Não tratava o pai e a mãe por papai emamãe, mas por Arnaldo e Alberta. Os pais eramgente moderna, de idéias abertas. Vegetarianos,não fumavam nem bebiam, e usavam roupa debaixo de fabricação especial. Havia muito poucamobília em sua casa, pouquíssima roupa de camae mantinham sempre as janelas escancaradas.__________________________________ 4C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  6. 6. Eustáquio gostava de animais,especialmente de besouros quando estavammortos e espetados num cartão. Também gostavade livros instrutivos, com gravuras em que sepodiam ver armazéns para guardar cereais ourobustas crianças estrangeiras fazendo ginásticaem escolas-modelo. Eustáquio não gostava nada mesmo era dosprimos, os quatro Pevensie: Pedro, Susana,Edmundo e Lúcia. Mas ficou contentíssimoquando soube que Edmundo e Lúcia vinhampassar uns tempos com ele, pois lá no fundoadorava bancar o mandão e chatear os outros.Apesar de ser um molengão, que na hora da briganão conseguia nem enfrentar Lúcia, e muitomenos Edmundo, sabia que há muitas maneiras deaborrecer os outros, quando a casa é da gente eeles são nossos hóspedes. Edmundo e Lúcia também não sentiam amenor vontade de ir para a casa do tio Arnaldo eda tia Alberta, mas não tinham outro remédio.Naquele verão, o pai arranjara uma vaga como__________________________________ 5C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  7. 7. professor nos Estados Unidos, durante quatromeses, e a mãe resolvera ir com ele. Pedro, que tinha de preparar-se com todo oafinco para o exame, passaria as férias recebendoaulas do velho professor Kirke, em cuja casa asquatro crianças tinham tido aventurasmaravilhosas, já havia muitos anos, na época daguerra. Se o professor ainda morasse na mesmacasa, os garotos teriam ido para lá; mas, depoisdaquela época, ele perdera tudo o que tinha evivia agora num chalé, com apenas um quartovago. Como ficaria muito caro levar os filhostodos para os Estados Unidos, somente Susanatinha partido com os pais. A gente grande achavaSusana a mais bonita da família. Como era bemdesenvolvida para a sua idade e não tinha grandequeda para os estudos, a mãe dissera que “elaaproveitaria mais a viagem do que os outros maisnovos”. Edmundo e Lúcia fizeram o impossívelpara não sentir inveja de Susana, mas era de fatohorrível ter de passar as férias na casa da tia.__________________________________ 6C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  8. 8. – Para mim ainda é muito pior – diziaEdmundo –, porque você terá um quarto separado,enquanto eu terei de dividir o meu com aquelenojento do Eustáquio. A nossa história começa numa tarde em queEdmundo e Lúcia aproveitavam juntos algunsminutos preciosos. Como é óbvio, falavam deNárnia, nome do país secreto deles. Acho quequase todos nós temos um país secreto, que, paraa maioria, é apenas um país imaginário. Edmundoe Lúcia eram bem mais felizes: o país secretodeles era verdadeiro. Já tinham até visitado Nárniaduas vezes, de verdade, não sonhando, nembrincando. É claro que tinham conseguido chegarlá por Magia, que é a única maneira de atingirNárnia. E tinham prometido que lá voltariamalgum dia. Assim, você pode imaginar como elesfalavam de Nárnia, sempre que podiam. Naquela tarde, estavam sentados na beira dacama no quarto de Lúcia, olhando para um quadropendurado na parede – o único quadro de quegostavam em toda a casa. Tia Alberta detestava o__________________________________ 7C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  9. 9. quadro, mas não podia jogá-lo fora, pois forapresente de casamento de uma pessoa a quem nãoqueria ofender. Representava um barconavegando em nossa direção. A proa era douradae tinha o formato de uma cabeça de dragão deboca escancarada. Tinha apenas um mastro e umagrande vela quadrada de um vivo tom de púrpura.As laterais do barco, só visíveis onde terminavamas asas do dragão, eram verdes. Estavaexatamente na crista de uma grande onda azul, e ocôncavo da vaga mais próxima, franjada deespumas e salpicos, parecia vir para cima dagente. Via-se que corria ligeiro, impelido por umvento forte, inclinando-se um pouco parabombordo. (A propósito, se você está mesmoresolvido a ler esta história, acho melhor ter emmente que a esquerda de um barco, quando seolha de frente, é bombordo, e a direita éestibordo.) A luz do sol incidia sobre o ladoinclinado do barco e a água estava cheia de tonsverdes e roxos. Do outro lado, o mar era azul-escuro, devido à sombra do barco.__________________________________ 8C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  10. 10. – Ficar olhando para um navio de Nárniasem poder chegar lá é pior ainda! – disseEdmundo. – Olhar é sempre melhor do que nada –respondeu Lúcia. – E esse aí é um verdadeironavio de Nárnia. – Ainda brincam como antes? – perguntouEustáquio, que andara escutando atrás da porta eagora arreganhava os dentes. No ano anterior, quando estivera em casados Pevensie, conseguira flagrar os primosconversando sobre Nárnia e adorava aborrecê-lospor causa disso. Achava que eles estavamimaginando aquilo tudo e, como era bestalhãodemais para imaginar seja lá o que fosse, não via amenor graça. – Ora, vá andando, não queremos você aqui– disse Edmundo secamente.__________________________________ 9C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  11. 11. – Estou vendo se me recordo de unsversinhos – disse Eustáquio –, qualquer coisamais ou menos assim: Uns meninos que brincavam de NárniaForam ficando cada vez mais birutas... – Pra começo de conversa, Nárnia e birutasnão rimam – disse Lúcia. – É uma rima toante – disse Eustáquio. – Não pergunte para ele o que é isso! Estádoido para que você pergunte! Não fale nada,talvez assim ele se mande. Com uma recepção dessas, qualquer garototeria ido embora, mas Eustáquio era diferente.Continuou a rondar de um lado para outro,arreganhando os dentes, e de repente voltou afalar: – Você gosta deste quadro?__________________________________ 10C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  12. 12. – Pelo amor de Deus, não deixe elecomeçar a falar de arte e outras coisas –interrompeu Edmundo depressa. Mas Lúcia, queera de muito boa-fé, já havia dito: – Adoro! – É uma porcaria de pintura – disseEustáquio. – Caia fora daqui, que você não vê mais aporcaria – respondeu Edmundo. – Por que você gosta dele? – perguntouEustáquio a Lúcia. – Por um motivo especial – respondeuLúcia. – Porque o navio parece que está andando,a água parece mesmo molhada, e as ondas sobeme descem. Eustáquio podia dar-lhe meia dúzia derespostas, mas dessa vez nada disse. Naquelemesmo instante, ao olhar para as ondas, viu querealmente elas pareciam em movimento. Só havia__________________________________ 11C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  13. 13. andado de barco uma vez (uma pequenadistância), mas tinha enjoado pra valer. Ao ver asondas do quadro, ficou de novo enjoado. Já estavaquase verde, mas tentou olhar mais uma vez. E aías três crianças ficaram estupefatas eboquiabertas. O que viram naquele momento é difícil deacreditar, mesmo nos livros; mas é muito maisdifícil de acreditar quando acontece na vida real.Tudo no quadro estava em movimento. Não eracomo no cinema, não: as cores eram muito maisreais e vivas, como ao ar livre. A proa do navioafundava e tornava a subir nas ondas com umagrande franja de espuma. Quando uma ondaergueu o navio atrás, viu-se pela primeira vez apopa e o convés, que desapareceram logo no bojoda onda seguinte. Nesse mesmo instante, umcaderno, que estava caído sobre a cama deEdmundo, começou a virar as folhas e foi levadopelo ar, batendo na parede; o cabelo de Lúciaenrolou-se em torno do rosto, como num dia devento. Era um dia de vento, mas o vento soprava__________________________________ 12C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  14. 14. do quadro. De súbito, com o vento, vieram osbarulhos... o marulhar das ondas, o bater da águade encontro ao costado do navio e, mais alto quetudo, o estrépito do vento e da água. Foi o cheiro(agreste, salgado) que convenceu Lúcia de que elanão estava sonhando. – Acabem logo com isso! – disseEustáquio, com uma voz rouca de medo e raiva. –Que brincadeira mais estúpida vocês arranjaram!Acabem com isso! Vou falar com Alberta... Oh! Os outros dois já estavam bastanteacostumados com essas aventuras, mas, no exatomomento em que Eustáquio disse oh, também elesdisseram oh. Pois uma grande rajada de água friae salgada saltara do quadro, deixando-os semrespiração e completamente encharcados. – Vou arrebentar essa porcaria de quadro! –gritou Eustáquio. Mas foi logo acontecendo umaporção de coisas.__________________________________ 13C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  15. 15. Eustáquio correu para o quadro. Edmundo,que sabia alguma coisa de magia, saltou atrás,dizendo que ele não fizesse uma besteira. Lúciaquis agarrá-lo, mas foi arrastada para a frente. E,nesse mesmo instante, ou os garotos diminuíramde tamanho ou o quadro ficou maior. Eustáquio deu um pulo para ver se retiravao quadro da parede, mas ficou encravado namoldura; na sua frente não havia vidro, mas ummar verdadeiro, com ventos e ondas batendo nocaixilho, como se fosse de encontro a uma rocha.Perdeu a cabeça e se agarrou aos outros dois quejá tinham pulado para perto dele. Houve uminstante de confusão e gritaria; quando achavamque tinham recuperado o equilíbrio, surgiu umagrande onda azul que os fez rodopiar, atirando-osao mar. O grito desesperado de Eustáquio apagou-se quando a água lhe entrou pela boca. Lúciahavia praticado muita natação nas férias, o que foia sua sorte. Talvez até se agüentasse melhor sedesse braçadas mais lentas e se a água não__________________________________ 14C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  16. 16. estivesse muito mais fria do que parecia noquadro. Mas não perdeu a serenidade, chegando atirar os sapatos – coisa que a gente sempre devefazer quando cai vestida dentro de água funda.Fechou bem a boca e conservou os olhos abertos.Estavam muito perto do navio e a menina via ocostado verde, erguendo-se lá no alto, e váriaspessoas olhando do convés. Então, como era de esperar, Eustáquioagarrou-se a ela, cheio de pavor, e os dois forampara o fundo. Quando voltaram à superfície, amenina viu uma figura vestida de brancomergulhando do costado do navio. Edmundoestava agora junto dela, bracejando e segurandoos braços de Eustáquio, que não parava de gritar.De repente alguém cujo rosto lhe era vagamentefamiliar passou-lhe o braço por debaixo do corpo.Do navio gritavam o tempo todo; na amuradaapinhavam-se cabeças e de bordo lançavamcordas. Lúcia sentiu que Edmundo e odesconhecido lhe atavam cordas ao corpo.__________________________________ 15C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  17. 17. Seguiu-se o que lhe pareceu uma longaespera, durante a qual ficara com o rostoarroxeado e batendo queixo. Mas na verdade aespera não foi de fato grande; só estavamaguardando pelo momento em que poderiam içá-la para bordo, sem ir de encontro ao costado donavio. Mesmo com todas essas precauções,quando finalmente alcançou o convés, todaencharcada e tremendo de frio, tinha um joelhomachucado. Puxaram depois Edmundo e o infelizEustáquio. Por fim, subiu o desconhecido – umrapaz de cabelos dourados, alguns anos maisvelho do que a menina. – Ca... Ca... Caspian – gaguejou Lúcia, logoque tomou fôlego. Porque era mesmo Caspian, ojovem rei de Nárnia, a quem haviam ajudado asubir ao trono quando visitaram aquele país pelaúltima vez. Edmundo também o reconheceu.Cumprimentaram-se os três, dando tapinhas nascostas uns dos outros, com grande alegria.__________________________________ 16C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  18. 18. – Quem é o amigo de vocês? – perguntoulogo Caspian, voltando-se para Eustáquio, comsemblante risonho e acolhedor. Mas Eustáquio, que chorava de maneirainacreditável para um rapaz da sua idade que nãosofrerá mais do que uma simples molhadela,apenas gritou: – Quero ir embora! Não gosto disto! – Embora para onde? – perguntou Caspian. Eustáquio correu para a amurada do navio como se esperasse ver a moldura do quadrosobre o mar e, quem sabe, até mesmo umpedacinho do quarto de Lúcia. Mas só viu ondasazuis e o céu, de um azul mais claro, estendendo-se até a linha do horizonte. É compreensível quetenha ficado em pânico, e logo começou a enjoar. – Chegue aqui, Rinelfo – disse Caspianpara um dos marinheiros. – Busque vinho__________________________________ 17C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  19. 19. aromático para Suas Majestades. Precisam decalor depois desse mergulho. Tratava Edmundo e Lúcia por majestades,porque estes, como Pedro e Susana, haviam sido,muito tempo atrás, reis e rainhas em Nárnia. Otempo em Nárnia não corre como em nossomundo. Mesmo que passemos cem anos emNárnia, voltamos ao nosso mundo exatamente nomesmo dia e na mesma hora em que partimos.Mas, se quisermos voltar a Nárnia depois determos passado uma semana aqui, podem já ter sepassado mil anos em Nárnia, ou um dia só, ou aténão ter passado tempo algum. Só quando se chegalá é que se sabe quanto tempo se passou. Assim,quando os Pevensie haviam estado em Nárnia pelaúltima vez, na segunda visita, era para oshabitantes de Nárnia como se o rei Artur tivessevoltado à Grã-Bretanha, como se diz que há devoltar. E eu digo que o quanto antes melhor!__________________________________ 18C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  20. 20. Rinelfo apareceu com o vinho aromático,fumegando num jarro, e quatro taças de prata. Erajustamente disso que precisavam. À medida queLúcia e Edmundo iam bebendo, sentiam o calorpercorrer-lhes todo o corpo. Eustáquio é quecomeçou a fazer caretas e engasgar-se, lançandotudo fora e ficando ainda mais enjoado.Recomeçou a chorar e a pedir que lhe dessem umchá feito com água potável. Ou que odesembarcassem no porto mais próximo. – Que companheiro de viagem mais gozadovocê nos trouxe! – murmurou Caspian paraEdmundo, rindo-se disfarçadamente. Porém, Eustáquio irrompeu de novo: – Opa, Hã... Que troço é aquele? Tiremdaqui essa coisa horrorosa! Aí ele tinha certa razão de mostrar espanto:da cabine da popa saíra um ser muito curioso, quese aproximava deles devagar. Podia-se dizer queera um rato, e era realmente. Mas um rato com__________________________________ 19C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  21. 21. cerca de sessenta centímetros de altura,caminhando apoiado nas patas traseiras. Atada àcabeça, por baixo de uma orelha e por cima deoutra, exibia uma fina fita dourada na qual seprendia uma pena vermelha. Como a pele do ratoera muito escura, quase negra, o efeito eraimpressionante. Apoiava a pata esquerda nopunho de uma espada quase tão comprida quantosua cauda. Seu equilíbrio, ao caminharsolenemente ao longo do convés que balançava,era perfeito, e seus modos revelavam que estavahabituado à corte. Lúcia e Edmundo viram logoquem era. Era Ripchip, o mais valente de todos osanimais falantes de Nárnia, o rato-chefe, queganhara glória imorredoura na segunda batalha deBeruna. Lúcia sentiu uma vontade enorme, comosempre lhe acontecia, de pegar Ripchip no colo eacariciá-lo. Mas sabia muito bem que nuncapoderia satisfazer essa vontade, pois ele ficariaprofundamente ofendido. Em vez disso, ajoelhou-se para conversar com ele.__________________________________ 20C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  22. 22. Ripchip avançou a perna esquerda, afastoupara trás a direita, fez uma reverência, beijou-lhea mão, endireitou-se, torceu os bigodes e disse nasua voz aguda e chiante: – Sou vosso humilde servo, assim como dorei Edmundo. (Fez outra reverência.) A estamaravilhosa aventura faltava apenas a presença deVossas Majestades. – Ai, ai, ai! Tirem-me daqui! – gemeuEustáquio. – Tenho horror a rato. Não agüento verbicho fazendo palhaçada. São uns idiotas quegostam de bancar os espertalhões. – Devo compreender – disse Ripchip aLúcia, de pois de olhar demoradamente paraEustáquio – que essa criatura singularmentedescortês está sob a proteção de Vossa Majestade.Porque se não for assim... Lúcia e Edmundo espirraram ao mesmotempo.__________________________________ 21C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  23. 23. – Mas onde estou com a cabeça! Deixeivocês aqui com a roupa molhada! – exclamouCaspian. – Vamos descer para mudar de roupa.Como é natural, Lúcia, cedo-lhe o meu camarote,mas o que não tenho é vestimenta feminina deacordo. Ripchip, mostre-lhes o caminho como umbom sujeito. – Para servir a uma senhora, mesmo umaquestão de honra pode esperar, pelo menos poragora... – e Ripchip olhou severamente paraEustáquio. Mas Caspian os empurrou e logo Lúciaentrou por uma portinha para a cabine da popa.Ficou encantada. Na salinha abriam-se três janelasquadradas para o mar revolto; bancos baixos ealmo-fadados cercavam os três lados da mesa;uma lâmpada de prata balançava sobre suascabeças (viu logo que era trabalho de anões, peladelicada perfeição) e, na parede em frente, a efígiede ouro de Aslam, o Leão, pendurada acima daporta. Viu tudo isso num relance, pois Caspian__________________________________ 22C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  24. 24. imediatamente abriu uma porta a bombordo edisse: – Este agora vai ser o seu quarto, Lúcia. Sóvou tirar daqui umas peças de roupa para mim – eenquanto falava remexia as gavetas – e depoisdeixo você à vontade. Ponha sua roupa lá fora;mandarei que a levem para secar. Lúcia sentia-se tão à vontade no camarotecomo se o ocupasse havia semanas. O movimentodo navio não a incomodava nem um pouco, poisnos velhos tempos em que fora rainha em Nárniatinha viajado muito. O camarote era pequeno, masmuito alegre, com painéis pintados (aves, outrosbichos, dragões vermelhos e trepadeiras), e estavaimaculadamente limpo. As roupas de Caspianeram demasiado grandes, mas ela conseguiu darum jeito. Os sapatos, as sandálias e as galochas éque eram impossíveis de calçar, por causa dotamanho, mas Lúcia não se importava de andardescalça a bordo. Quando acabou de se vestir,olhou pela janela a água que ia ficando para trás,em torvelinho, e suspirou profundamente. Tinha a__________________________________ 23C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  25. 25. certeza de que passaria uma temporadamaravilhosa.__________________________________ 24C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  26. 26. 2 A BORDO DO PEREGRINO DA ALVORADA – Ah, aí vem Lúcia! – disse Caspian. –Estávamos à sua espera. Este é o meu capitão,lorde Drinian. Um homem de cabelos escuros pôs umjoelho em terra e beijou a mão de Lúcia. Os outrospresentes eram só Ripchip e Edmundo. – Onde está Eustáquio? – perguntou Lúcia. – Na cama – respondeu Edmundo. – Achoque não podemos fazer nada por ele. Fica aindapior quando tentamos ajudá-lo.__________________________________ 25C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  27. 27. – Precisamos conversar – disse Caspian. – É claro – concordou Edmundo. – Antesde tudo, acerca do tempo. Para nós passou um anodesde que o deixamos, antes de sua coroação.Quanto tempo passou em Nárnia? – Três anos precisamente – respondeuCaspian. – Vai tudo bem por lá? – quis saberEdmundo. – Iria eu deixar o meu reino e viajar sealguma coisa não estivesse bem? – respondeu orei. – As coisas não podem ir melhor. Não háagora nenhum problema entre os telmarinos, osanões, os bichos falantes, os faunos e todos osoutros. E no verão passado demos uma lição tãogrande naqueles turbulentos gigantes da fronteira,que agora já me pagam imposto. Deixei comoregente, durante minha ausência, uma pessoaexcelente, Trumpkin, o Anão. Lembra-se dele?__________________________________ 26C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  28. 28. – O meu querido Trumpkin! – exclamouLúcia. – Claro que me lembro. Não podia ter feitomelhor escolha. – Leal como um texugo e valente como...um rato – disse Drinian. Estivera para dizer“como um leão”, mas notara os olhos de Ripchipfixos nele. – Para onde se dirigem vocês? – perguntouEdmundo. – Ah – respondeu Caspian –, isso é umalonga história. Talvez ainda se lembrem de que,quando eu era criança, meu tio Miraz usurpou otrono e livrou-se de sete amigos de meu pai (paraque não ficassem do meu lado), mandando-osexplorar os Mares Orientais além das IlhasSolitárias. – Sim – disse Lúcia. – E nenhum delesvoltou.__________________________________ 27C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  29. 29. – Isso mesmo. Pois bem, no dia da minhacoroação, com a aprovação de Aslam, jurei que seum dia estabelecesse a paz em Nárnia navegariadurante um ano para encontrar os amigos de meupai, ou ter a certeza da morte deles e vingá-loscaso pudesse. Seus nomes eram lorde Revilian,lorde Bern, lorde Argos, lorde Mavramorn, lordeOctasiano, lorde Restimar e... oh!... há mais um... como é mesmo?... – Lorde Rupe, senhor – acrescentouDrinian. – Exatamente, lorde Rupe – disse Caspian.– Esta é a minha intenção principal. Mas oRipchip aqui tem mais altas esperanças. – Todosos olhos se viraram para o rato. – Tão altas quanto o meu espírito. Aindaque, talvez, tão pequenas quanto a minha estatura.Por que não haveríamos de chegar ao extremooriental do mundo? Que poderíamos encontrar lá?Espero encontrar o próprio país de Aslam! É__________________________________ 28C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  30. 30. sempre do Oriente, através do mar, que o GrandeLeão vem encontrar-se conosco. – É uma idéia – comentou Edmundo, emtom muito respeitoso. – Mas acha – perguntou Lúcia – que o paísde Aslam é desse jeito, quero dizer, do tipo que sepode navegar até ele? – Não sei, minha senhora. Mas repare bem:estava eu ainda no berço, e uma dríade do bosquecantou assim: Onde o céu e o mar se encontram, Onde as ondas se adoçam, Não duvide, Ripchip, Que no Leste absoluto está Tudo o que procura encontrar.__________________________________ 29C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  31. 31. – Não sei o que isto significa, mas essesortilégio me perseguiu a vida toda. – E onde estamos agora, Caspian? –perguntou Lúcia, depois de ligeiro silêncio. – O capitão poderá informá-la melhor doque eu. – Drinian puxou o mapa e estendeu-osobre a mesa. – Nossa posição é esta – disse, apontandocom o dedo. – Ou, pelo menos, era, hoje ao meio-dia. Tivemos um vento magnífico desde CairParavel e paramos um pouco ao norte de Galma,aonde chegamos no dia seguinte. Estivemos noporto durante uma semana, pois o duque deGalma tinha organizado um grande torneio emhonra de Sua Majestade, que desmontou muitoscavaleiros... – E levei também umas tremendas quedas,Drinian – observou Caspian. – Ainda tenho asmarcas...__________________________________ 30C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  32. 32. – ... e desmontou muitos cavaleiros –repetiu Drinian, com um trejeito. – Pareceu-nosque o duque teria ficado muito contente se o reitivesse casado com a filha dele, mas isso nãoaconteceu... – Tem olhos tortos e sardas – disse Caspian. – Coitadinha! – exclamou Lúcia. – Saímos de Galma – continuou Drinian – epor dois dias pegamos uma grande calmaria quenos obrigou a remar, mas o vento voltou elevamos quatro dias para chegar a Terebíntia. Aí,o rei nos mandou um recado para que nãodesembarcássemos, pois havia peste no país.Assim, dobramos o cabo, ancoramos numapequena enseada longe da cidade e recolhemoságua. Tivemos de ficar ancorados três dias nesselugar, antes que apanhássemos um vento sudoestepara seguir a caminho das Sete Ilhas. No fim doterceiro dia, um navio pirata (de Terebíntia, pelaaparência) alcançou-nos, mas quando nos viu bem__________________________________ 31C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  33. 33. armados afastou-se, de pois de rápida troca deflechas... – Devíamos ter ido atrás deles e liquidadotodos aqueles piolhos – disse Ripchip. – Cinco dias mais tarde estávamos à vistade Muil, que, como sabem, é a mais ocidental dasSete Ilhas. Remamos através dos estreitos e, pertodo anoitecer, chegamos a Porto Vermelho, na ilhade Brena, onde nos receberam festivamente, eonde nos abastecemos à vontade de víveres eágua. Deixamos Porto Vermelho há seis dias etemos navegado com tanta rapidez que esperamosver as Ilhas Solitárias depois de amanhã. Emresumo, estamos no mar há uns trinta dias e jánavegamos mais de quatrocentas léguas desdeNárnia. – E além das Ilhas Solitárias? – perguntouLúcia.__________________________________ 32C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  34. 34. – Ninguém sabe, real senhora. A não serque os próprios habitantes das ilhas saibam nosinformar. – Não sabiam na nossa época – respondeuEdmundo. – Por isso – disse Ripchip –, é depois dasIlhas Solitárias que a aventura é pra valer! Caspian sugeriu que talvez gostassem dever o navio antes da ceia, mas a consciência deLúcia a afligia muito. – Acho que vou dar uma olhada emEustáquio. Como sabem, o enjôo é uma coisaterrível. Se tivesse comigo o meu antigo elixir,poderia curá-lo. – Pois está aqui – disse Caspian. – Tinha-me esquecido completamente. Como o deixou aopartir, achei que podia ser guardado comopatrimônio do tesouro real e o trouxe. Se acha que__________________________________ 33C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  35. 35. deve ser desperdiçado em uma coisa comoenjôo... – Só vou gastar uma gota – garantiu Lúcia. Caspian abriu uma gaveta e tirou ofrasquinho de diamante de que Lúcia se lembravatão bem. – Restituo-lhe o que é seu. Depois voltaram para a luz do sol. Havia noconvés duas grandes escotilhas, sempre abertasquando o tempo estava bom, uma de cada lado domastro, para deixar passar a luz e o ar para ointerior do navio. Caspian conduziu-os por umaescada que levava à escotilha da frente. Acharam-se em um compartimento onde se enfileiravamlado a lado bancos para remadores; a luz, entrandopelo orifício dos remos, dançava no teto. Claro que o navio de Caspian não se parecianada com uma galera movida a remo porescravos. Só eram usados os remos quando não__________________________________ 34C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  36. 36. havia vento ou para entrar ou sair de algum porto.Todos, menos Ripchip, que tinha as pernas curtasdemais, remavam muitas vezes. De cada lado dobarco, debaixo dos bancos, havia um espaço paraos pés dos remadores, e, bem no centro de tudo,uma espécie de poço que descia até a quilha,cheio de vasos das mais variadas coisas: sacos defarinha, tonéis de cerveja e água, barris com carnede porco, jarros de mel, odres de vinho, maçãs,nozes, queijos, biscoitos, nabos, fatias detoucinho. Do teto – isto é, da parte de baixo doconvés – pendiam presuntos e braçadas de cebolase, deitados nas suas redes, os vigias que estavamde serviço. Depois foram para a popa, chegando a umaparede de madeira com uma porta, que Caspianabriu. Entraram numa cabine que ocupava a partede baixo da popa e dos camarotes do convés. Nãoera tão bonita quanto a outra. O teto era muitobaixo, e as paredes tinham uma inclinação muitoacentuada. Embora de vidro grosso, as janelas nãopodiam ser abertas, pois ficavam quase debaixo__________________________________ 35C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  37. 37. do nível da água. Conforme o navio mergulhava,pareciam alternadamente douradas, com a luz dosol, ou verde-escuras, com o mar. – Eu e você, Edmundo, vamos ficaralojados aqui – disse Caspian. – Cederemos aoseu parente o beliche e dormiremos nas redes. – Rogo a Vossa Majestade... – disseDrinian. – Não, meu amigo – replicou o rei –, jádiscutimos isso. Você e Rince (Rince era oajudante) dirigem o navio e terão muito trabalhotodas as noites, enquanto nós ficaremos a cantarou a contar histórias. Por isso, vocês ficam nocamarote superior. O rei Edmundo e eu ficaremosembaixo comodamente instalados. Como vai indoo estrangeiro? Eustáquio, muito esverdeado, fechou a carae quis saber se havia indícios de a tempestadeacalmar.__________________________________ 36C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  38. 38. – Que tempestade? – perguntou Caspian. EDrinian caiu na gargalhada, dizendo: – Tempestade, meu jovem?! Não se podepedir um tempo melhor! – Quem é esse cidadão? – perguntouEustáquio, irritado. – Mandem que ele se retire. Avoz dele me dá nos nervos. – Trouxe uma coisa que vai fazer-lhe bem,Eustáquio – disse Lúcia. – Ora, deixem-me em paz! – resmungouEustáquio. Mas tomou uma gota do frasco. Apesarde dizer que era uma droga horrenda (o cheiro quese espalhou pela cabine era delicioso), seu rostoretomou a cor natural, segundos depois de terbebido. Devia sentir-se melhor, pois, em vez dequeixar-se da tempestade e da cabeça, começou apedir que o desembarcassem e a garantir quehaveria de “apresentar queixa” contra todos eles__________________________________ 37C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  39. 39. ao cônsul britânico, no primeiro porto a quechegassem. Quando Ripchip perguntou que queixa eraessa e como se apresentava (Ripchip achava queera uma nova maneira de arranjar um duelo),Eustáquio apenas pôde responder: – Vejam só! Não sabe nem isso! Por fim conseguiram convencê-lo de queestavam navegando o mais depressa possível paraa terra mais próxima que conheciam, e que ir paraa Inglaterra ou para a Lua seria a mesma coisa –impossível! Acabou consentindo, de cara feia, em vestiroutra roupa e subir para o convés. Caspian acompanhou-os na visita ao barco,ainda que já o tivessem visto quase todo. Subiramao castelo da proa e viram os vigias num pequenocompartimento dentro do pescoço dourado dodragão, olhando pela boca aberta. Dentro do__________________________________ 38C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  40. 40. castelo da proa estava a galé (ou cozinha donavio) e os alojamentos do contramestre, docarpinteiro, do cozinheiro e do arqueiro-mor. Se você acha estranho que a cozinha estejana parte da frente, pensando que o fumo dachaminé se espalha para trás, por todo o navio, éporque está imaginando um navio a vapor, ondehá sempre vento de frente. Numa embarcação avela o vento vem de trás, e qualquer coisa quedeite cheiro é colocada bem na frente. Subiram à torre de combate, onde, àprimeira vista, era aflitivo olhar lá embaixo oconvés, tão pequeno e tão longe. Quem caíssedali, tanto podia cair dentro, no navio, como nomar. Depois foram levados à popa, onde Rince eoutro homem estavam de serviço na grande rodado leme, detrás da qual o dragão erguia a cauda deouro, formando um pequeno compartimento comum pequeno banco. O navio chamava-se Peregrino daAlvorada. Era uma coisinha à-toa se comparado__________________________________ 39C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  41. 41. aos nossos navios, e até mesmo às galeras quehavia em Nárnia na época em que Lúcia eEdmundo ali reinaram, pois quase toda anavegação havia cessado com os antecessores deCaspian. Quando seu tio, o usurpador Miraz,mandou os sete fidalgos para o mar, teve decomprar um navio galmiano. Mas, agora, Caspiancomeçara a ensinar aos narnianos a ser de novogente do mar, e o Peregrino era o mais bonito dosbarcos que mandara construir, mas tão pequenoque quase não tinha convés entre o mastroprincipal e a escotilha, de um lado, e o galinheiro,do outro (Lúcia deu de comer às galinhas). Emseu gênero, era uma beleza, como diziam osmarinheiros, de linhas perfeitas, cores puras, todosos pormenores feitos com amor. Não agradava nada a Eustáquio, que nãoparava de contar vantagens sobre ostransatlânticos, barcos a vapor, aviões,submarinos (“Como se entendesse qualquer coisadisso” – murmurou Edmundo). Mas os outros doisestavam encantados com o Peregrino. Quando__________________________________ 40C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  42. 42. voltaram ao camarote para cear e viram o céu todoiluminado com um imenso pôr-do-sol, e sentiramo navio estremecer sob os pés, e o gosto de sal noslábios, tudo isso aliado à perspectiva de terrasdesconhecidas, tiveram tão grande sensação defelicidade, que Lúcia não conseguiu dizer umapalavra. Quanto ao pensamento de Eustáquio, émelhor sabermos por intermédio de suas própriaspalavras; pois quando lhe devolveram sua roupaseca, na manhã seguinte, tirou do bolso umcaderninho de capa preta e um lápis e começou aescrever um diário. Costumava apontar nessecaderno inseparável suas notas de colégio. Não seinteressava de fato por nenhuma das matérias,mas adorava tirar boas notas e vivia perguntandoa todos: “Quanto você tirou em Geografia? Eutirei nove!” Como não era provável que lhedessem boas notas no Peregrino, resolveu iniciaro diário. Eis o começo: “7 de agosto. Se isso não é um sonho, jáestou 24 horas neste barco abaixo da crítica.__________________________________ 41C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  43. 43. Durante todo esse período tem feito um mautempo insuportável (ainda bem que não costumoenjoar a bordo). Ondas imensas avançamconstantemente sobre a parte da frente do barco, ejá o vi em perigo de ir ao fundo inúmeras vezes.Os outros fingem que não notam, ou porfanfarronice, ou por fecharem covardemente osolhos aos fatos (como Arnaldo afirma que fazemas pessoas medíocres). E uma autêntica loucuravir para o mar em uma miserável casquinha comoesta. Não é mais espaçosa que um salva-vidas. Ointerior, claro, é de todo primitivo. Não tem umsalão, nem rádio, nem banheiros, nem poltronas.Ontem à noite levaram-me quase de rastos paraver o barco todo, e era de morrer de rir ouvirCaspian gabar o seu barquinho como se fosse oQueen Mary. Ainda tentei explicar-lhe como eramos barcos de verdade, mas é burro demais. E. e L.não estão de acordo comigo. Acho que L. aindanão tem consciência do perigo, e E. vive botandoazeitonas na empada de C, como fazem todosaqui. É chamado de rei. Disse-lhe que eu erarepublicano, e perguntou-me o que vinha a ser__________________________________ 42C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  44. 44. isso!!! Acho que não entende nada de nada. Édesnecessário dizer que me puseram no piorcamarote, um verdadeiro calabouço. À Lúciaderam um camarote no convés, só para ela. Se ocompararmos com o resto do barco, dir-se-ia queé quase belo. C. diz que é por se tratar de umamoça. Tentei explicar-lhe o que Alberta semprediz, que esse tipo de coisa inferioriza as moças,mas não conseguiu entender. Porém, podia bemcompreender que vou adoecer se continuar pormais tempo neste covil. E. diz que não devemosqueixar-nos porque o próprio C. divide o quartoconosco, cedendo o seu a L. Como se assim nãoficássemos mais apertados e numa situação aindapior. Quase me esquecia de dizer que há tambémaqui uma espécie de rato, que trata a todos com amais incrível arrogância. Os outros que osuportem, se quiserem; quanto a mim, dou-lhe umbom nó na cauda na primeira em que se metercomigo. A comida também é detestável.” A questão entre Eustáquio e Ripchipestourou mais cedo do que se esperava. No dia__________________________________ 43C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  45. 45. seguinte, antes do almoço, quando os outros jáestavam sentados à mesa esperando (o mar dá umapetite excelente), Eustáquio entrou correndo,apertando uma das mãos e gritando: – Aquele animal quase me matou! Exijoque seja posto sob vigilância. Eu podia intentaruma ação contra você, Caspian. Podia até exigirque executasse o rato! Ripchip apareceu, espada desembainhada,bigodes eriçados, mas cortês como sempre.Edmundo perguntou o que se passava. – Peço perdão a todos, e especialmente aVossa Majestade (referindo-se aqui a Lúcia). Sesoubesse que ele se refugiara neste recinto, teriaesperado melhor ocasião para castigá-lo. Acontecera o seguinte: Ripchip, que nuncaachava que o barco ia rápido o bastante, gostavade sentar-se na amurada, na cabeça do dragão,olhando o horizonte para as bandas do oriente ecantando na sua vozinha chiante a canção que a__________________________________ 44C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  46. 46. dría-de lhe dedicara. Nunca se agarrava a nada e,embora o navio pulasse, conservava facilmente oequilíbrio. Sua cauda, que se estendia peloconvés, devia contribuir para essa estabilidade.Todos a bordo conheciam esse hábito, e osmarinheiros gostavam disso, pois é sempre bomter alguém para conversar quando se está de vigia.A verdadeira razão que levou Eustáquio a irescorregando, cambaleando, tropeçando por todoo caminho até o castelo da proa (ainda não seacostumara com os balanços do navio) é que eununca soube. Talvez esperasse ver terra, talveztenha ido rondar a cozinha do navio para ver seabiscoitava alguma coisa. De qualquer modo,assim que viu aquela cauda estendida – realmentedevia ser uma tentação – pensou que seria genialfazer Ripchip rodopiar preso pela cauda, uma ouduas vezes, para baixo e para cima, e sair depoiscorrendo em grandes risadas. A princípio tudoparecia ir muito bem. O rato era pouco maispesado que um gato grande. Eustáquio o fez girarumas três vezes e achou muito engraçado verRipchip com as patinhas afastadas e a boca aberta.__________________________________ 45C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  47. 47. Mas, infelizmente, Rip lutara muitas vezespara defender a vida e não perdeu a cabeça um sóinstante. Nem a agilidade. Não é muito fácildesembainhar uma espada quando se está rodandono ar, preso pela cauda, mas ele conseguiu. Dois dolorosos golpes na mão obrigaramEustáquio a soltar imediatamente a cauda do rato.Endireitando-se logo, este saltou para o convéscomo uma bola e enfrentou o rapaz; manejavapara a frente e para trás uma coisa comprida,brilhante, afiada como um espeto, apenas àdistância de cinco centímetros da barriga doadversário. – Pare com isso! – berrou Eustáquio. – Váembora! Vou contar tudo para Caspian! Apostoque irão amordaçá-lo! – Por que não tira a sua espada, covardão? –chiou o rato. – Tire-a e lute, ou lhe baterei tantocom a espada que vou deixá-lo roxo.__________________________________ 46C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  48. 48. – Nunca usei uma espada – disse Eustáquio.– Sou um pacifista. Não me meto em brigas. – Quer dizer – disse Ripchip, afastando aespada e falando com grande severidade – quenão pretende conceder-me uma reparação? – Não entendo o que quer dizer – disseEustáquio, esfregando a mão. – Se você é incapazde entender uma brincadeira, não vou perder meutempo. – Então, tome esta – disse Ripchip – e maisesta, e esta, para aprender a ter modos e arespeitar um Cavaleiro do Reino e a cauda de umrato. – E, a cada palavra, castigava Eustáquio comum golpe lateral de sua pequena espada, que erafina, de aço forjado por anões, e tão flexível eeficiente quanto um chicote. Eustáquio, é claro, estudava em uma escolaem que não havia castigos corporais: a sensaçãoera completamente nova para ele. Assim, mesmonão tendo pernas de homem do mar, levou menos__________________________________ 47C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  49. 49. de um minuto para chegar ao castelo da proa,cobrindo toda a extensão do convés como umrelâmpago e irrompendo pela porta do camaroteainda perseguido por Ripchip. Não houve grande dificuldade em resolver aquestão. Ao perceber que todos aderiram, muito asério, à idéia de um duelo (ouviu Caspianoferecer-lhe sua espada, enquanto Drinian eEdmundo discutiam as condições que lhedeveriam impor, visto ser muito mais alto do queRipchip), Eustáquio desculpou-se, emburrado.Depois retirou-se com Lúcia, para que estatratasse do seu ferimento. Quando foi dormir, teveo cuidado de deitar-se de lado.__________________________________ 48C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  50. 50. 3 As ILHAS SOLITÁRIAS – Terra à vista! – gritou o homem da proa. Lúcia, que conversava com Rince na popa,correu escada abaixo e, no caminho, encontrouEdmundo. Quando chegaram ao castelo da proa,Caspian, Ripchip e Drinian já estavam lá. A manhã era fria, com o céu muito pálido eo mar azul-escuro com pequenas cristas brancasde espuma. Longe, avistava-se a mais próxima dasIlhas Solitárias, Felimate, como montanha verdeno meio do mar, e, mais longe ainda, as vertentescinzentas de sua irmã Durne.__________________________________ 49C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  51. 51. – Sempre a mesma Felimate! Sempre amesma Durne! – exclamou Lúcia, batendopalmas. – Oh, Edmundo, faz tanto tempo queestivemos aqui! – Nunca entendi por que pertencem aNárnia – disse Caspian. – Foram conquistadaspelo Grande Rei Pedro? – Não! – respondeu Edmundo. – Jápertenciam a Nárnia antes disso, desde o tempo daFeiticeira Branca. De minha parte, nunca soube por que essasilhas afastadas passaram a pertencer à coroa deNárnia; se algum dia souber e se a história tiverrealmente interesse, hei de narrá-la em outro livro. – Vamos lançar âncora aqui? – perguntouDrinian. – Acho que não vale a pena desembarcarem Felimate – disse Edmundo. – Era quasedesabitada no nosso tempo e acho que não mudou.__________________________________ 50C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  52. 52. O povo vivia principalmente em Durne e umpouco em Avra, a terceira ilha, que não se vêdaqui. – Então teremos de dobrar aquele cabo –disse Drinian – e desembarcar em Durne. Issoquer dizer que precisamos remar. – É uma pena que não vamos desembarcarem Felimate – disse Lúcia. – Gostaria de dar umavoltinha por lá. Era tudo tão solitário... Umasolidão linda. Tudo relva, trevo e ar puro do mar. – Também gostaria de mexer as pernas –disse Caspian. – Tenho uma idéia: iremos de bote,e depois o enviamos de volta; atravessamosFelimate a pé e pegamos o Peregrino do outrolado da ilha. Se Caspian já fosse tão experiente comoveio a ser mais tarde naquela mesma viagem, nãoteria feito essa sugestão, que, de momento, lheparecia excelente.__________________________________ 51C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  53. 53. – Ótimo! – gritou Lúcia. – Quer vir também? – indagou Caspian aEustáquio, que tinha subido ao convés com a mãoenfaixada. – Qualquer coisa é melhor do que a drogadeste navio! – Droga! Que quer dizer com isso? –perguntou Drinian. – Num país civilizado, como aquele deonde vim, os navios são tão grandes que, quandose entra neles, nem se chega a perceber que andouno mar. – Nesse caso podiam ficar sempre em terra.– disse Caspian. – Drinian, pode mandar descer obote. O rei, o rato, os dois Pevensie e Eustáquioentraram no bote e foram levados à praia de Feli-mate. Quando o bote os deixou e voltou, olharam__________________________________ 52C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  54. 54. em torno: ficaram surpresos ao ver como oPeregrino parecia pequenino. Claro que Lúcia continuava descalça, poishavia tirado os sapatos para nadar, mas nãoachava nada difícil caminhar sobre a relva macia.Era formidável pisar novamente no chão, sentir ocheiro da terra e da relva, ainda que a princípio oterreno parecesse balançar como no barco, o queacontece normalmente durante algum tempo,depois de uma viagem por mar. Era mais quenteali do que a bordo, e Lúcia gostou de pisar naareia. Uma cotovia cantava. Subiram a um monte bastante escarpado,ainda que baixo. No alto, como é natural, olharampara trás e lá estava o Peregrino brilhando comoum grande inseto reluzente, movendo-selentamente para noroeste com os seus remos.Dobraram a crista do monte e não mais o viram. Durne estava na frente, separada deFelimate por um canal com menos de doisquilômetros; à esquerda ficava Avra.__________________________________ 53C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  55. 55. Via-se nitidamente a cidadezinha branca dePorto Estreito, em Durne. – O que é aquilo? – perguntou Edmundo. No vale verde, para o qual desciam,estavam sentados, à sombra de uma árvore, seisou sete homens de má aparência, todos armados. – Não lhes digam quem somos – falouCaspian. – Pode-se saber por quê, Majestade? –perguntou Ripchip, que concordara em sertransportado no ombro de Lúcia. – Ocorreu-me agora que talvez ninguémaqui ouça falar de Nárnia há muito tempo. É bempossível que já não reconheçam a nossa soberania. De qualquer forma, não é muito seguro serconhecido como rei. – Temos as nossas espadas – disse Ripchip.__________________________________ 54C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  56. 56. – Sim, é claro, mas se tivermos dereconquistar as três ilhas prefiro voltar aqui comum exército maior. Já estavam muito perto dos homens, quandoum deles, um homenzarrão de cabelo escuro,gritou: – Bom dia! – Bom dia! – disse Caspian. – Ainda há umgovernador nas Ilhas Solitárias? – Claro que há – respondeu o homem –, ogovernador Gumpas. Sua Excelência está emPorto Estreito. Sentem-se e bebam conosco. Caspian agradeceu, e, ainda que nem elenem os outros gostassem da aparência dos novosconhecidos, sentaram-se todos. Mal tinham levadoo copo aos lábios, já o homem de cabelo escurofazia sinal aos companheiros, e num relâmpago oscinco visitantes viram-se agarrados por braçosfortes. A luta foi rápida, e logo estavam todos__________________________________ 55C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  57. 57. desarmados e com as mãos amarradas às costas,com exceção de Ripchip, que se revirava nasmãos de seu captor e o mordia furiosamente. – Cuidado com esse animal, Taco – disse ochefe. – Não o machuque. Vai alcançar o melhorpreço de todo o lote. Quem haveria de dizer! – Covarde! Poltrão! – guinchava Ripchip. –Passe a minha espada e liberte-me, se for homem! – Puxa! – exclamou o mercador deescravos, pois era essa sua profissão. – Ele fala!Nunca pensei! Quero ser mico de circo se não fizer comele duzentos crescentes. (O crescente doscalormanos, que é a principal moeda da região,vale cerca de duzentos reais.) – Então o seu trabalho é esse? – falouCaspian. – Raptor de crianças e vendedor deescravos! Deve sentir-se muito orgulhoso...__________________________________ 56C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  58. 58. – Ora, não comece com besteiras –interrompeu o mercador. – Quanto maisbonzinhos ficarem, melhor será para todos. Nãofaço isso por gosto. Tenho de ganhar a vida comotodo o mundo. – Para onde está nos levando? – perguntouLúcia, pronunciando as palavras com dificuldade. – Para Porto Estreito – respondeu omercador. – Amanhã é dia de feira. – Existe lá um cônsul britânico? –perguntou Eustáquio. – Existe o quê?! – estranhou o homem. Mas, antes que Eustáquio se cansasse deexplicar, o mercador disse apenas: – Chega de conversa fiada. O rato é umaboa mercadoria, mas este aqui fala peloscotovelos. Vamos andando, pessoal.__________________________________ 57C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  59. 59. Os quatro prisioneiros foram amarradosjuntos, não de maneira cruel, mas de modo queficassem seguros. Tiveram de caminhar até apraia. Ripchip era transportado no colo. Tinhaparado de morder, sob a ameaça de lheamordaçarem, mas desforrava-se protestando.Lúcia estava boba de ver como o mercadoragüentava as coisas que o rato lhe dizia. –Continue! – dizia ele, sem se irritar, sempre queRipchip parava para tomar fôlego; e acrescentavade vez em quando: – Isto é melhor do que ir aoteatro de marionetes; chego a pensar que sabe oque está dizendo! Quem o ensinou a falar? Isso enfureceu tanto Ripchip que ele acabousufocado (com tanta coisa para falar ao mesmotempo) e calou a boca. Quando chegaram à praia, que ficava emfrente de Durne, encontraram uma aldeiazinha e,um pouco mais longe, um barco comprido, queparecia sujo de lama.__________________________________ 58C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  60. 60. – Agora, jovens – disse o mercador –, nadade confusões, para não terem o que lamentar.Todos a bordo. Nesse mesmo instante, um homem barbado,de boa aparência, saiu de uma casa (umaestalagem, acho) e disse: – Olá, Pug. Mais um pouco de suamercadoria de sempre? O mercador fez uma profunda reverência edisse num tom mesureiro: – Pois é. Vossa Senhoria quer alguma? – Quanto está pedindo por aquele rapaz? –perguntou o outro, apontando para Caspian. – Ah, Vossa Senhoria sempre escolhe omelhor. Não se deixa enganar com coisa desegunda classe. Aquele rapaz, ora essa, é também o meupreferido. Sinto simpatia por ele. Tenho um__________________________________ 59C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  61. 61. coração sensível, não devia ter entrado numaprofissão como esta. No entanto, para um clientecomo Vossa Senhoria... – Diga-me o preço dele, seu verme – disse osenhor, severamente. – Acha que quero ouvir essaconversa mole? – Trezentos crescentes, meu senhor, para aVossa honrada Senhoria, mas para qualqueroutro... – Dou cento e cinqüenta. – Oh, por favor, por favor! – interrompeuLúcia. – Seja como for, não nos separe. Não sabeque... – Mas calou-se logo, pois viu que Caspian,nem mesmo naquela situação, queria serreconhecido. – Cento e cinqüenta! – repetiu o senhor. –Quanto a você, menina, tenho muita pena, masnão posso comprar todos. Solte o rapaz, Pug. E__________________________________ 60C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  62. 62. trate bem os outros enquanto estiverem nas suasmãos; do contrário, será pior para você. – Essa é boa! – exclamou Pug. – Quem jáouviu falar de um cavalheiro, nesse meu ramo denegócio, que tratasse a mercadoria melhor do queeu?! Trato deles como se fossem meus filhos. – E bem provável que sim – disse o outro,de modo sombrio. O momento terrível chegara. Caspian foidesatado e o seu novo amo lhe disse: – Por aqui, moço. Lúcia desandou a chorar, e Edmundo ficoumuito pálido. Caspian, no entanto, olhou por cimado ombro, dizendo: – Coragem! Tenho certeza de que no fimdará tudo certo. Até mais ver.__________________________________ 61C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  63. 63. – Vamos, menina – disse Pug –, não fiqueassim que estraga a sua aparência. Tem de servendida amanhã. Comporte-se, nada de choro.Entendeu? Foram levados em um bote a remo para obarco de escravos e metidos num largocompartimento, bastante escuro e nada limpo,onde já se encontravam outros infelizesprisioneiros. Pug, sem dúvida alguma, era umpirata e havia naquela ocasião regressado de umaincursão pela ilha, onde apanhara tudo o quepudera. As crianças não encontraram nenhumconhecido; a maior parte dos prisioneiros era deGalma ou de Terebíntia. Sentaram-se na palha,imaginando o que estaria acontecendo comCaspian. E tentando calar Eustáquio, que queriaculpar a todos, menos a si próprio, peloacontecido. Do lado de Caspian, as coisas eram maisinteressantes. O homem o levou por um atalho atéum campo atrás da aldeia.__________________________________ 62C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  64. 64. – Não precisa ter medo de mim – disse. –Vou tratá-lo muito bem. Comprei-o por causa desua fisionomia. Você me lembra alguém. – Posso saber quem, meu senhor? –perguntou Caspian. – O meu amo, o rei Caspian de Nárnia. Caspian resolveu então arriscar tudo de umavez: – Meu senhor, eu sou Caspian, rei deNárnia. – Assim é muito fácil. – disse o outro –Como posso saber se é verdade? – Em primeiro lugar, vê-se pela minha cara.Em segundo lugar, porque sou capaz de dizerquem é você entre seis outros. Você é um dos setefidalgos que meu tio Miraz mandou para o mar:Argos, Bern, Octasiano, Restimar, Mavramorn,e... e... me esqueci dos outros. Se me der umaespada provarei, em combate leal, que sou__________________________________ 63C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  65. 65. Caspian, filho de Caspian, legítimo rei de Nárnia,Senhor de Cair Paravel e Imperador das IlhasSolitárias. -Justos céus! – exclamou o homem. – Éexatamente a mesma voz e a mesma maneira defalar do pai. Meu senhor e meu rei! Ajoelhou-se e beijou a mão de Caspian, quelhe disse: – O dinheiro que desembolsou serárestituído pelo nosso tesouro. – Já não deve estar na bolsa de Pug, senhor– disse lorde Bern, pois era ele – e, segundopenso, nunca estará. Já disse centenas de vezes aogovernador para acabar com esse infamecomércio de seres humanos. – Caro lorde Bern, temos muito o que falarsobre o que se passa nestas ilhas, mas quero ouvirprimeiro a sua história.__________________________________ 64C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  66. 66. – É muito curta, senhor. Vim dar aqui comos meus seis companheiros, gostei de uma moçadestas ilhas e cheguei à conclusão de que haviaandado muito tempo pelo mar. Enquanto seu tioestivesse no governo não seria possível voltar aNárnia; assim, casei-me e aqui tenho vivido desdeentão. – Como é esse Gumpas, o governador?Ainda reconhece o rei de Nárnia como soberano? – Aparentemente sim. Tudo é feito emnome do rei. Mas ele não vai ficar nada satisfeitoao ver o rei de Nárnia, real e vivo, a pedir-lhecontas do que fez. Se Vossa Majestade aparecessena frente dele sozinho e desarmado, bem... nãonegaria vassalagem, mas fingiria não acreditar. – O meu navio está agora virando o cabo.Se for preciso combater, somos trinta espadas.Posso cair sobre Pug com o meu navio e libertarmeus amigos, que ele tem cativos.__________________________________ 65C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  67. 67. – Não o aconselho a fazer isso – disse Bern.– Logo que começasse o combate, sairiam dePorto Estreito dois ou três navios em socorro dePug. Vossa Majestade tem de agir fazendo alardede um poderio que na realidade não tem e debaixodo terror produzido pelo nome do rei. Não deve irem combate. Gumpas não agüenta uma galinhapelo rabo e acovarda-se facilmente. Falaram mais algum tempo e desceram atéa costa, desviando-se para oeste da aldeia; aí,Caspian fez soar a trompa (não era a trompamágica da rainha Susana, que ficara em Nárniacom o regente Trumpkin, para o caso de algumaurgência). Drinian, que estava de vigia à espera de umsinal, reconheceu logo a trompa real, e oPeregrino começou a aproximar-se da praia. Obote foi de novo arriado, e em poucos momentosCaspian e lorde Bern encontravam-se no convésexplicando para Drinian a situação.__________________________________ 66C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  68. 68. Este, como Caspian, teria preferido acostaro navio de escravos e fazer uma abordagem, masBern apresentou a objeção anterior. – Navegue reto pelo canal, capitão – disseBern. – Vire depois para Avra, onde tenho osmeus domínios. Hasteie o pavilhão azul, suspendatodos os escudos, mande para a ponte de combateo maior número possível de homens. Cerca decinco tiros de flechas daqui, quando chegar àentrada do porto, faça alguns sinais. – Sinais? Para quem? – perguntou Drinian. – Para os navios que não trouxemos, masque é preciso que Gumpas julgue que trouxemos. – Estou entendendo – respondeu Drinian,esfregando as mãos. – E eles irão ler os nossossinais. Que vamos dizer? Que a Armada vire aosul de Avra e se reúna...__________________________________ 67C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  69. 69. – No domínio de Bern – completou lordeBern. – Perfeito. Se existissem alguns navios,toda a travessia se faria fora das vistas de PortoEstreito. Caspian sentia pena dos amigos, quedefinhavam no barco de escravos, mas não pôdedeixar de achar o resto do dia muito agradável. Jámuito tarde, entraram em um belo porto da costasul de Avra, onde as ricas terras de Bern desciamaté o mar. Os habitantes de Bern, muitos dos quaistrabalhavam no campo, eram todos livres; odomínio era feliz e próspero. Foram regiamenterecebidos em uma casa baixa, sustentada porcolunas, da qual se via toda a baía. Bern, suasimpática esposa e suas encantadoras filhasacolheram os visitantes com alegria. Depois de anoitecer, Bern enviou ummensageiro de bote a Durne, para organizar__________________________________ 68C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  70. 70. alguns preparativos (não disse exatamente quais)para o dia seguinte.__________________________________ 69C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  71. 71. 4 UMA VITÓRIA DE CASPIAN Na manhã seguinte, lorde Bern chamou oshóspedes bem cedo e pediu a Caspian quemandasse seus homens vestirem armaduracompleta. – E especialmente – acrescentou – que tudoesteja tão limpo e reluzente como na manhã de umgrande combate entre nobres reis, com um grandepúblico assistindo. Assim fizeram; Caspian com a sua gente eBern com alguns de seus homens embarcaram emtrês botes com destino a Porto Estreito.__________________________________ 70C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  72. 72. No cais, Caspian encontrou grandemultidão a recebê-lo. – Foi isto que mandei preparar na noitepassa da – disse Bern. – São todos meus amigos egente de bem. Logo que Caspian desembarcou, a multidãorebentou em hurras e gritos: “Nárnia! Nárnia!Viva o Rei!” No mesmo instante – também devido aomensageiro de Bern –, começaram a tocar os sinosem vários lugares da cidade. Caspian mandouavançar seu pavilhão, ordenou que o corneteirotocasse, que todos desembainhassem as espadas eque tivessem no rosto uma expressão de alegreserenidade. Marcharam de tal modo que toda a ruaestremecia, e as armaduras brilhavam tanto ao solda manhã que era impossível olhá-las fixamente. A princípio, as únicas pessoas que davamvivas eram as que tinham sido avisadas pelomensageiro de Bern, que sabiam o que se passava__________________________________ 71C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  73. 73. e gostavam disso; mas depois vieram as crianças,porque estas adoravam os desfiles e tinham vistoainda muito poucos. Em seguida, foram os garotosde escola, que também gostavam de desfiles eachavam que quanto mais barulho houvessemenor seria a probabilidade de irem à escolanaquela manhã. E depois as velhas começaram aesticar o pescoço para fora das portas e janelas e atagarelar... Um rei ia passar, e o que é umgovernador comparado com um rei? Vieramdepois as moças, pela mesma razão, e tambémporque Caspian, Drinian e os outros eram muitosimpáticos. E depois os rapazes vieram para ficarperto das moças. Já era quase a cidade todaaclamando quando alcançaram os portões docastelo. Sentado à sua mesa, remexendo contas,regulamentos e leis, Gumpas ouviu o barulho. À entrada do castelo, o corneteiro tocou,gritando em seguida: – Abram para o Rei de Nárnia, que vem emvisita ao seu fiel servo, o governador das IlhasSolitárias.__________________________________ 72C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  74. 74. Naquela época, tudo quanto se fazia nasilhas era com desleixo e de maneira descuidada.Abriu-se apenas uma portinhola do castelo eapareceu um homenzinho com um chapéu sujo nacabeça, em vez de elmo, e um chuço velho eenferrujado na mão. Pestanejou quando viu asfiguras brilhando na sua frente e, falando de umjeito que mal se podia entender, disse: – Não podem ver Sua Excelência. Não seconcede audiência sem hora marcada, exceto dasnove às dez nos segundos sábados de cada mês. – Tire o chapéu perante Nárnia, cão! –trovejou Bern, dando-lhe tal pancada com suamão imensa que o chapéu saltou-lhe da cabeça. – Que é isto? – começou o porteiro, masninguém lhe deu importância. Dois dos homensde Caspian entraram pela portinhola e, depois dealguma luta com as trancas e ferrolhos (estavatudo enferrujado), escancararam as duas partes dogrande portão.__________________________________ 73C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  75. 75. O rei e seu séquito entraram no pátio, ondecochilavam alguns guardas, e muitos outrossaíram aos tombos de várias portas, aindalimpando a boca. Apesar de terem as armas empéssimas condições, aqueles homens poderiamlutar se fossem levados a isso ou entendessem oque estava se passando. O momento era naverdade perigoso, mas Caspian não lhes deutempo para pensar. – Onde está o capitão? – perguntou. – De certo modo sou eu, se é que está meentendendo – disse um jovem de aspectolânguido, sem armadura. – É nossa intenção – disse Caspian – tornara nossa visita um motivo de alegria e não de terrorpara todos os nossos leais súditos das IlhasSolitárias. Se assim não fosse, teríamos muito quefalar sobre o estado das armas e das armaduras deseus homens. Por esta vez estão perdoados.Mande abrir um tonel de vinho para que bebamtodos à nossa saúde. Mas, amanhã, ao meio-dia,__________________________________ 74C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  76. 76. quero vê-los neste pátio como gente de armas enão como vagabundos. Providencie para que secumpra como ordenamos, sob pena do nosso realdesagrado. O capitão ficou boquiaberto, mas Berngritou logo: – Três vivas ao Rei! – E os soldados, quetinham ouvido qualquer coisa acerca de um tonelde vinho, mesmo sem terem entendido nada mais,juntaram-se a eles. Caspian ordenou que a maior parte de seushomens ficasse no pátio. Ele, Bern, Drinian e maisquatro outros entraram no salão. O governadordas Ilhas Solitárias sentava-se a uma mesa noextremo da sala, rodeado de vários secretários.Era um homem de aspecto doentio, com umacabeleira que outrora fora ruiva, mas que estavaagora toda grisalha. Ergueu os olhos quando osdesconhecidos entraram e depois, olhando para osseus papéis, foi dizendo automaticamente:__________________________________ 75C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  77. 77. – Não há audiência sem hora marcada,exceto das nove às dez nos segundos sábados decada mês. Caspian fez um sinal a Bern e afastou-separa o lado. Bern e Drinian avançaram, e cada umdeles pegou de um lado da mesa. Ergueram-na,atirando-a de encontro à parede de um dos ladosdo salão, espalhando uma cachoeira de cartas,pastas, tinteiros, canetas, carimbos e documentos.Depois, delicadamente, mas firmes, como se asmãos fossem pinças de aço, arrancaram Gumpasda cadeira e o colocaram no chão, um metro maislonge. Caspian sentou-se imediatamente nacadeira e descansou a espada desembainhadasobre os joelhos. Olhando fixamente paraGumpas, disse: – Meu senhor, não tivemos de sua parte aacolhida que esperávamos. Sou o rei de Nárnia. – Na correspondência não vejo nada acercade sua vinda – disse o governador. – Nem nasminutas. Não fomos notificados. Tudo isso é__________________________________ 76C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  78. 78. muito ir regular. Gostaria de considerar o assuntocom mais vagar. – Estou aqui para inquirir do desempenhode suas funções. E há especialmente dois pontosque exijo que me sejam explicados. Em primeirolugar, não há qualquer registro que indique tersido pago algum tributo por estas ilhas à Coroa...há cerca de cento e cinqüenta anos. – Isto é uma questão para ser tratada emconselho no próximo mês. Se for necessário,formarei uma comissão de inquérito para apreciaro panorama financeiro destas ilhas, na próximaassembléia do ano que vem, e só então... – E também vejo escrito muito claramentenas nossas leis – continuou Caspian – que, se otributo não for entregue, todo o débito terá de serpago pelo governador das ilhas de sua bolsaparticular. Aí Gumpas começou a tomar interesseverdadeiro pelo assunto.__________________________________ 77C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  79. 79. – Oh, mas isso é inadmissível. Éfinanceiramente impossível. Vossa Majestadedeve estar brincando. Lá no fundo, estava imaginando de quemodo poderia ver-se livre daqueles visitantesindesejáveis. Se soubesse que Caspian só tinhaum navio, teria pronunciado naquela ocasiãopalavras muito melífluas, esperando que a noitecaísse para cercá-los e matá-los todos. Mas tinhavisto um navio de guerra atravessar o estreito nodia anterior, fazendo sinais, conforme supunha,para outros navios. Não havia reconhecido onavio do rei, pois não havia vento suficiente paradesenrolar a bandeira e tornar visível o leão deouro, e assim esperara pelos acontecimentos.Julgava agora que Caspian tinha uma armadacompleta no domínio de Bern. Gumpas nuncaseria capaz de supor que alguém entrasse emPorto Estreito para tomar as ilhas com menos detrinta homens; não era de modo algum uma coisaque ele mesmo tivesse coragem de fazer...__________________________________ 78C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  80. 80. – Em segundo lugar – disse Caspian –,gostaria de saber por que permitiu que sedesenvolvesse aqui esse ignominioso tráfico deescravos, contrariando antigos usos e costumes denossos domínios. – Não foi possível ser de outro modo –respondeu Sua Excelência. – Posso assegurar-lheque é uma parte essencial do desenvolvimentoeconômico das ilhas. O nosso presente estado deprosperidade depende disso. – Mas que necessidade tem dos escravos? – Para exportação, Majestade. São vendidosespecialmente para a Calormânia. E temos outrosmercados. Somos um grande centro comercial. – Em outras palavras, não precisa deles.Tem outra finalidade além de encher os bolsos deum tal de Pug? – Os verdes anos de Vossa Majestade –disse Gumpas com um sorriso que pretendia ser__________________________________ 79C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  81. 81. paternal – impedem-no de compreender oproblema econômico daí resultante. Mas eu tenhoestatísticas, gráficos, tenho... – Por mais verde que seja a minha idade,acho que entendo tanto de comércio de escravosquanto Vossa Excelência. O tráfico não traz para ailha carne, pão, cerveja, vinho, madeira, couve,livros, instrumentos musicais, armaduras ouqualquer outra coisa. Mas, mesmo que trouxesse,não pode ria continuar. – Isso seria o mesmo que impedir o relógiode marcar o tempo – articulou a custo ogovernador. – Não faz idéia do que seja odesenvolvimento, o progresso? -Já vi essas duas coisas num saco só. EmNárnia chamamos a isso ir de mal a pior. Essenegócio tem de acabar.__________________________________ 80C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  82. 82. – Não assumo a responsabilidade por essamedida – disse Gumpas. – Então, muito bem! Está desobrigado deseu encargo. Lorde Bern, venha cá. – E, antes queGumpas compreendesse o que ia acontecer, Bernajoelhava-se como governador das IlhasSolitárias, segundo os antigos costumes deNárnia. E Caspian disse: – Acho que já tivemos governadores demais– e assim concedeu a lorde Bern o título de duque,Duque das Ilhas Solitárias. – Quanto ao senhor – falou Caspian paraGumpas –, está perdoado pela dívida do tributo.Mas, antes do meio-dia, o senhor e os seushomens todos têm de sair do castelo, que é agoraresidência do duque. – Um momentinho – disse um dossecretários de Gumpas –, tudo isto está muitodivertido, mas que tal se os senhores acabassemcom a brincadeira e começássemos a tratar de__________________________________ 81C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  83. 83. negócios?... A questão que temos realmenteperante nós é que... – A questão é saber – disse o duque – sevocê e o resto da canalhada vão embora comaçoites ou sem açoites! Podem escolher. Quando tudo ficou satisfatoriamenteresolvido, Caspian mandou buscar cavalos (havia,mas muito maltratados) e partiu com Drinian,Bern e alguns outros para a cidade, dirigindo-seao mercado de escravos. Era um prédio baixo ecomprido perto do porto. O espetáculo lá dentroera muito parecido com o de qualquer outroleilão: uma grande multidão e Pug no estrado,bradando com voz rouca: – Agora, meus senhores, lote 23. Um beloagricultor de Terebíntia, próprio para minas egalés. Menos de vinte e três anos. Bons dentes.Um rapaz sadio e forte. Tire a camisa dele, Taco,para que estes senhores possam ver melhor! Aqui__________________________________ 82C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  84. 84. os senhores têm músculos para servi-los! Olhempara este peito! Dez crescentes para aquele senhorali do canto. Está brincando, cavalheiro? Quinze!Dezoito! Arremata-se o lote 23 por dezoito? Vintee um. Muito obrigado. Arrematado por vinte e umcrescentes. De repente Pug calou-se e ficou de bocaaberta ao ver as figuras vestidas de cota de malhaque subiam ao estrado. – Todos de joelhos perante o Rei de Nárnia!– clamou o duque. Ouvia-se lá fora o relinchar de cavalos, emuitos que ali estavam já tinham ouvido rumoressobre o desembarque e os acontecimentos nocastelo. A maioria obedeceu. Os que nãoobedeciam eram empurrados pelos vizinhos.Alguns davam vivas. – A sua vida me pertence, Pug, por terousado ontem pôr as mãos na minha real pessoa –disse Caspian. – Mas perdôo sua ignorância. O__________________________________ 83C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  85. 85. comércio de escravos foi abolido em nossosdomínios há quinze minutos. Declaro livres todosos escravos deste mercado. Levantou a mão para deter as aclamaçõesdos escravos e perguntou: – Onde estão os meus amigos? – A graciosa mocinha e o bonito rapaz? –perguntou Pug, com um sorriso bajulador. – Ah,já foram levados... – Estamos aqui, estamos aqui, Caspian –gritaram Lúcia e Edmundo ao mesmo tempo. – Eàs suas ordens, Majestade – chiou Ripchip dooutro lado. Tinham sido todos vendidos, mas os seus“proprietários” continuavam a dar lances. Amultidão afastou-se para deixar passar os três, ehouve grandes apertos de mão e saudações entreeles e Caspian.__________________________________ 84C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  86. 86. Dois comerciantes da Calormâniaaproximaram-se imediatamente. Os calormanostêm rostos escuros e longas barbas. Usam vestesamplas e turbantes cor-de-laranja e são um povosábio, rico, cortês, cruel e antigo. Inclinaram-sepolidamente perante Caspian e endereçaram-lhegrandes saudações, falando em fontes daprosperidade que irrigam o jardim da prudência eda virtude – e outras coisas desse tipo –, mas oque pretendiam na verdade era o dinheiro quehaviam pago pelos escravos. – É absolutamente justo, senhores – disseCaspian. – Todos os que compraram escravos,hoje, têm de receber de volta o dinheiro. Pug,entregue a eles tudo o que ganhou. – Vossa Majestade quer levar-me a pediresmolas na rua da amargura? – gemeu Pug. – Você viveu a vida toda à custa decorações despedaçados. Ainda que peça esmola narua da amargura, sempre é melhor do que serescravo.__________________________________ 85C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  87. 87. Mas onde está meu outro amigo? – Oh, aquele! Leve-o e faça bom proveito.Ainda bem que me livro dessa droga! Nunca vinada pior. Já estava pedindo por ele só cincocrescentes e mesmo assim ninguém queria...Entrou como gratificação em outros lotes e nemassim... Nem olhavam para ele. Taco, traga aqui oResmungão. Trouxeram Eustáquio, que tinha de fato umar taciturno, pois, ainda que ninguém goste de servendido como escravo, mais doloroso ainda é nãoencontrar comprador. Caminhou ao encontro deCaspian para dizer: – Estou vendo que, como de costume, vocêandou por aí se divertindo, enquanto estávamosprisioneiros. Acho que ainda nem procurou ocônsul britânico, é claro! Naquela noite houve uma grande festa nocastelo.__________________________________ 86C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  88. 88. – Amanhã vão recomeçar realmente asnossas aventuras! – disse Ripchip, ao despedir-sede todos para ir deitar-se. Mas não seria no diaseguinte que partiriam. O Peregrino da Alvorada foi descarregadoe puxado para terra, sobre rodas, por oito cavalos.Cada pedacinho do navio foi examinado pelosmais hábeis construtores navais. Depois, lançadode novo ao mar, foi abastecido de mantimentos eágua – o que dava para trinta dias. Mesmo assim,conforme notou Edmundo desapontado, só lhespermitia navegar durante quinze dias para oeste;depois teriam de abandonar a busca. Enquanto se tratava de tudo isso, Caspianinterrogava os capitães mais velhos para saber setinham conhecimento ou tinham ouvido falar deterras mais afastadas para os lados do oeste.Despejou muitos jarros de cerveja do castelo parahomens sedentos, de barbas grisalhas e olhosazuis, ouvindo em troca muitas histórias incríveis.Os mais dignos de confiança não conheciam terrapara além das Ilhas Solitárias. Muitos pensavam__________________________________ 87C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  89. 89. que, se navegassem demasiado para oeste,chegariam às ondas de um mar sem terras querodava perpetuamente em torno da crosta domundo. – E foi lá, acho, que os amigos de VossaMajestade afundaram. Os restantes só contavam histórias de terrashabitadas por homens sem cabeça, ilhasflutuantes, trombas marítimas e um fogo que ardiaem cima das águas. Para alegria de Ripchip, pelomenos um disse: – E mais para longe fica o país de Aslam.Mas está além do fim do mundo, e lá não podemchegar. Contudo, quando insistiram com ele, apenassoube dizer que ouvira seu pai contar a história. Bern só podia informá-los de que vira osseus companheiros navegarem para oeste e quenada mais soubera deles. Dissera isso numa__________________________________ 88C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  90. 90. ocasião em que se encontrava com Caspian noponto mais alto de Avra, olhando lá embaixo parao oceano oriental. – Venho aqui muitas vezes pela manhã –disse o duque – ver o sol sair do mar. Penso nosmeus amigos e no que existe realmente alémdaquele horizonte. O mais provável é que nãoexista nada, mas sempre fiquei envergonhado deter ficado para trás. Preferia que Vossa Majestadenão partisse. Podemos precisar de sua ajuda aqui.O fechamento do mercado de escravos pode criarnovos casos. Desconfio que vamos ter guerra comos calormanos. Pense bem, meu soberano. – Fiz um juramento, meu duque – disseCaspian. – Além disso, que iria eu dizer aRipchip?__________________________________ 89C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  91. 91. 5 A TEMPESTADE Três semanas após o desembarque, saía oPeregrino da Alvorada de Porto Estreito. Asdespedidas foram solenes; juntou-se grandemultidão. Houve aclamações e lágrimas quandoCaspian dirigiu-se pela última vez aos ilhéus e aodespedir-se do duque e sua família. Quando obarco se afastou, todos ficaram silenciosos, vendoa vela purpurina tremular e ouvindo a trompa deCaspian. A vela inflou, e sob o Peregrino daAlvorada rolou a primeira onda das grandes,dando-lhe de novo vida. Os homens que estavamde folga desceram, e Drinian fez a primeira__________________________________ 90C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  92. 92. inspeção à popa, enquanto o navio virava paraleste, contornando o sul de Avra. Seguiram-se dias deliciosos. Lúcia sentia-sea garota mais feliz do mundo quando acordava evia os reflexos do sol dançando no teto docamarote e olhava as lindas coisas que trouxeradas Ilhas Solitárias – galochas, botas altas, capas,xales. Subia depois ao convés e olhava do casteloda proa para o mar, de um azul cada vez maisbrilhante, e aspirava o ar cada dia mais quente.Depois chegava o café da manhã, e era aqueleapetite que só se tem nas viagens por mar. Lúcia passava um tempão na popa jogandoxadrez com Ripchip. Era engraçado vê-lo pegarcom as duas patas as peças muito grandes para elee esticar-se na ponta dos dedos quando tinha defazer jogadas no centro do tabuleiro. Era um bomjogador e, quando prestava atenção ao que estavafazendo, era certo e sabido que ganhava. Àsvezes, porém, Lúcia ganhava, pois o rato faziacoisas incríveis, pondo um cavaleiro em perigopor causa de uma dama ou de um castelo. De__________________________________ 91C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  93. 93. repente, esquecia-se de que estava jogandoxadrez, julgando-se em um combate real,obrigando o cavaleiro a proceder como ele faria seestivesse no seu lugar. Pois tinha o espírito cheiode arrebatamentos de outros tempos, de missõesde morte ou glória, de decisões heróicas. Não durou muito essa felicidade. Uma tardeem que Lúcia olhava sonhadoramente para o sulcoou esteira, viu amontoar-se com grande rapidezuma enorme massa de nuvens para os lados dooeste. As nuvens rasgaram-se num buraco e neleapareceu o sol, derramando os últimos raiosamarelos do poente. As ondas atrás do naviotomavam formas nunca vistas, e o mar estava comuma cor castanha ou amarelada, como se estivessesujo. O ar ficou mais frio. O navio parecia mover-se com dificuldade, como se sentisse o perigoperseguindo-o. A vela esticava-se toda e ficavalisa durante um minuto, para no minuto seguinteenfunar-se bruscamente. A menina reparava emtudo isso, perplexa com a sinistra mudança que se__________________________________ 92C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  94. 94. havia operado, quando Drinian gritou, dominandoo barulho do vento: – Todos ao convés! Num instante começaram todos a trabalharfreneticamente. Fecharam-se as escotilhas,apagou-se o fogo da cozinha, e homens subiram láno alto para recolher a vela. Antes de acabarem,caiu sobre eles a tempestade. Lúcia teve aimpressão de que se cavara enorme vale atrás daproa e que se precipitavam num abismo incrível.Uma grande montanha de água, muito maior doque o mastro, arrojou-se sobre eles; a morteparecia certa, mas foram impelidos para cima daonda. Nessa altura o navio começou a rodopiar.No convés derramava-se uma catarata de água; apopa e o castelo da proa pareciam duas ilhasseparadas por um mar tempestuoso. Osmarinheiros esticavam-se lá no alto, tentandodominar a vela. Uma corda arrebentada estalavacom o vento, dura e rija como um cabo de ferro.__________________________________ 93C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  95. 95. -Já para baixo, minha senhora! – bradavaDrinian, e Lúcia, sabendo que a gente da terra éum estorvo para a tripulação, tentava obedecer,mas não era nada fácil. O Peregrino inclinava-se terrivelmente paraestibordo, e o convés parecia o declive do telhadode uma casa. Ela teve de subir agarrada aocorrimão, esperar um pouco, para deixar doishomens subirem, e depois descer do melhor jeitoque pôde. Foi uma sorte continuar firmementeagarrada, pois, ao chegar ao fim da escada,atingiu-a uma onda que a deixou ensopada.Sentindo frio, atirou-se de encontro à porta docamarote e fechou-se lá dentro, tentando esquecera cena do convés, a velocidade com que corriampara a escuridão. Só não podia deixar de ouviraquela horrível confusão de estalos, lamentos,pancadas, bramidos e estampidos, ainda maisalarmantes ali do que na popa. A tempestade durou o dia todo, e o diaseguinte e mais outros. Demorou tanto a passarque já nem se lembravam do que acontecera antes.__________________________________ 94C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  96. 96. Havia sempre três marujos agarrados ao leme,vendo se descobriam uma rota. Trabalhavam nasbombas sem parar. Quase não havia descanso paraninguém. Não se podia cozinhar, nem secar roupa,um homem caíra no mar, e o sol sumiracompletamente. Quando por fim veio a bonança,Eustáquio escreveu em seu diário: “3 de setembro. É o primeiro dia, desde hámuito, em que posso escrever. Fomos arrastadospor um furacão treze dias e treze noites. Sei quesão treze porque os contei bem, embora os outrosdigam que foram só doze. Que ótimo fazer uma viagem assimperigosa com gente que nem sabe contar! Passeium tempo horroroso: ondas enormes, para baixo epara cima, horas a fio, sempre molhado até osossos, sem nunca se darem ao trabalho de fornecerrefeições decentes. Como não temos rádio, nemfoguetões, é impossível pedir socorro. Tudo issoprova o que estou sempre proclamando, que é amaior loucura viajar numa porcaria de banheiracomo esta. Já seria detestável com gente normal, o__________________________________ 95C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  97. 97. que se dirá com demônios em forma de gente.Caspian e Edmundo são uns brutos comigo. Nanoite em que perdemos o mastro (agora só temosum toco), apesar de eu não me sentir nada bem,obrigaram-me a subir ao convés e a trabalharcomo um escravo. Lúcia puxava pelo remo e diziaque Ripchip tinha muita vontade de remar, masque não podia por ser muito pequeno. Será que elanão percebe que tudo o que esse animal faz é sópara impressionar? Na idade dela já se deve termais bom senso. Hoje este navio diabólico estáfinalmente direito e discutimos todos o que temosde fazer. Há comida que chega para dezesseisdias, mas é quase tudo intragável (a criação caiutoda no mar, mas mesmo que não caísse atempestade teria impedido que as galinhaspusessem ovos). O pior é a água. Arrombaram-sedois barris, que ficaram vazios (mais uma vez sepõe à prova a eficiência de Nárnia). Ainda temoságua para doze dias, distribuindo rações de meiacaneca a cada pessoa. (Há ainda muito vinho, masaté eles, que não sabem nada, compreendem que,se bebessem, ficariam ainda com mais sede.)__________________________________ 96C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  98. 98. O mais sensato seria virarmos para leste, sefosse possível, e voltarmos às Ilhas Solitárias.Mas levamos dezoito dias para chegar aqui,correndo como uns loucos, impelidos por umfuracão. Mesmo que apanhássemos vento leste,demoraríamos muito tempo para regressar. Nestemomento não há qualquer sinal de vento leste...Para dizer a verdade, não há vento nenhum. Nãopodemos voltar a remo, pois ainda levaria maistempo, e Caspian diz que os homens não podemremar com uma ração de meia caneca de água pordia. Tentei explicar-lhe que a transpiração refrescaos corpos e que os homens não necessitariam detanta água se trabalhassem. Não deu a menorimportância – que é a sua maneira de procederquando não sabe o que responder. Todos os outrosvotaram para que se vá em frente, na esperança deencontrar terra. Era meu dever chamar-lhes aatenção para o fato de não sabermos se existe terramais adiante e tentar fazê-los compreender osperigos da sua precipitação. Em vez de elaborarum plano melhor, tiveram a cara de me perguntaro que eu sugeria. Expliquei-lhes, com a minha__________________________________ 97C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  99. 99. habitual calma e firmeza, que havia sido raptado etrazido à força para esta viagem estúpida, nãosendo portanto minha obrigação tirá-los dosapertos. “4 de setembro. O tempo continua calmo.Rações muito pequenas para todos e para mimmenos do que para os outros. Caspian é muitoesperto ao servir-se, mas julga que eu não o vejo!Lúcia, não sei por que razão, quis reconciliar-secomigo e ofereceu-me da ração dela, mas ointrometido do Edmundo não deixou. O sol estáquentíssimo. Tive uma sede horrível a tarde toda. “6 de setembro. Dia pavoroso. Acordei denoite sentindo-me febril e tive de beber um copode água. Qualquer médico teria me receitado isso.Sabe Deus que eu seria a última pessoa a tentarprejudicar os outros, mas nunca imaginei que oracionamento de água atingisse também umdoente. De fato eu devia era ter acordado alguémpara pedir-lhe água, mas não quis ser egoísta. Porisso levantei-me na ponta dos pés, peguei o meucopo e saí deste buraco escuro, tendo o máximo__________________________________ 98C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  100. 100. cuidado de não incomodar Caspian e Edmundo,pois dormem mal desde que o calor e a escassezde água se fizeram sentir. Tenho grandeconsideração pelos outros, sejam ou não amáveiscomigo. Fui direto à sala grande, se é que se podechamar aquilo de sala, onde estão os bancos dosremadores e as bagagens. A água está no lado decá. Corria tudo às mil maravilhas, mas antes queconseguisse encher um copinho de água... quemhaveria de me apanhar senão o espião do Rip!Quis explicar-lhe que viera tomar um pouco de arno convés (a questão da água não era da contadele), mas me perguntou por que estava de copona mão. Fez tanto barulho que o navio todo selevantou. Trataram-me escandalosamente.Perguntei, como qualquer um faria, por que oRipchip andava farejando em volta do barril deágua em plena noite. Disse que era tão pequenoque não tinha qualquer serventia no convés, e quetomava conta da água todas as noites para queassim mais um homem pudesse dormir. E agoratorna-se óbvia a tremenda má vontade: todos__________________________________ 99C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  101. 101. acreditaram nele. Como se pode lutar contraisso?! “Tive de pedir desculpa para que omonstrozinho não caísse de espada em cima demim. E então Caspian revelou toda a sua faceta detirano, dizendo alto, para todos ouvirem, quequem fosse apanhado “roubando” água, dali em diante,levaria “duas dúzias”. Eu não sabia o que issoqueria dizer, mas Edmundo me explicou. Aparecenos livros que esse tolos vivem lendo. “Depois desta covarde ameaça, Caspianmudou de tom, começando a tomar uns aresprotetores. Disse que tinha muita pena de mim,mas que todos se sentiam tão febris quanto eu,que tínhamos de agüentar da melhor maneirapossível a situação, etc. Requintado pedante!Fiquei hoje na cama o dia todo!__________________________________ 100C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  102. 102. “7 de setembro. Hoje houve um pouco devento, mas ainda de oeste. Fizemos algumasmilhas para leste só com uma parte da vela,colocada em um mastro improvisado que Drinianchama de guindola – o gumpés é posto na verticale amarrado ao toco do verdadeiro mastro.Continuo morrendo de sede. “8 de setembro. Continuamos navegandopara leste. Passo agora o dia todo no meu buraco enão vejo ninguém, a não ser Lúcia, até que os doisdiabos vão dormir. Lúcia deu-me um pouco dasua ração de água. Disse que as meninas nãosentem tanta sede quanto os meninos. Já sabiadisso, mas os outros a bordo também deviamsaber. “9 de setembro. Terra à vista: umamontanha muito alta, lá longe a sudoeste. “20 de setembro. A montanha está maior emais nítida, mas ainda muito longe. Pela primeiravez, já não sei há quanto tempo, hoje vimosgaivotas.__________________________________ 101C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  103. 103. “2 2 de setembro. Pegamos uns peixes,comidos no jantar. Lançamos âncora às sete danoite numa baía desta ilha montanhosa. O idiotado Caspian não nos deixou ir a terra porque jáestava escurecendo e tinha medo de selvagens eanimais ferozes. Tivemos esta noite uma raçãoextra de água.” O que iria acontecer na ilha dizia maisrespeito a Eustáquio do que a qualquer outro, masnão podemos sabê-lo por suas palavras, pois apartir de 11 de setembro não escreveu mais nodiário. Certa manhã, muito quente, com um céupesado e cinzento, os aventureiros se achavam emuma baía rodeada de rochas e penedos, lembrandoum fiorde norueguês. Em frente da baía elevava-se um terreno cheio de árvores frondosas,parecendo cedros, no centro das quais seprecipitava uma impetuosa corrente. O bosque estendia-se por uma ladeiraíngreme, indo terminar numa cordilheira__________________________________ 102C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. V
  104. 104. denteada, através da qual se vislumbrava ao longea indecisa escuridão de montanhas, cujos cimosdesapareciam no meio de nuvens baças. As rochasmais próximas estavam riscadas aqui e ali de fitasbrancas, que todos sabiam ser quedas-d’água, masque, àquela distância, pareciam imóveis, semfazer qualquer ruído. A água lisa como vidrorefletia o perfil das rochas. Numa pintura apaisagem poderia ser bonita, mas na vida real eraopressiva. Aquela terra não acolhia os visitantesde braços abertos. A tripulação desembarcou toda em doisbotes, indo lavar-se e beber, deliciada, a água dorio. Depois comeram e descansaram, tendoCaspian mandado para bordo quatro homens paraguardarem o navio. Só então começaram ostrabalhos do dia. Tinham de trazer os barris paraterra, consertá-los, se possível, e tornar a enchê-los de água. Era preciso derrubar uma À

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