C.s lewis as cronicas de narnia - vol vi - a cadeira de prata

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C.s lewis as cronicas de narnia - vol vi - a cadeira de prata

  1. 1. C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. VI A Cadeira de Prata Tradução Paulo Mendes Campos Martins Fontes São Paulo 2002
  2. 2. As Crônicas de Nárnia são constituídas por:Vol. I – O Sobrinho do MagoVol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-RoupaVol. III – O Cavalo e seu MeninoVol. IV – Príncipe CaspianVol. V – A Viagem do Peregrino da AlvoradaVol. VI – A Cadeira de PrataVol. VII– A Última Batalha___________________________________ 1C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  3. 3. Para Nicholas Hardie___________________________________ 2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  4. 4. ÍNDICE 1. ATRÁS DO GINÁSIO 2. A MISSÃO DE JILL 3. A VIAGEM DO REI 4. UMA REUNIÃO DE CORUJAS 5. BREJEIRO 6. AS TERRAS AGRESTES DO NORTE 7. A COLINA DOS FOSSOS ESTRANHOS 8. A CASA DE HARFANG 9. UMA DESCOBERTA QUE VALEU A PENA 10. VIAGEM SEM SOL 11. NO CASTELO ESCURO 12. A RAINHA DO SUBMUNDO 13. O SUBMUNDO SEM RAINHA 14. O FUNDO DO MUNDO 15. O DESAPARECIMENTO DE JILL 16. REMATE DE MALES___________________________________ 3C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  5. 5. 1 ATRÁS DO GINÁSIO Era um dia tristonho de outono e Jill Poleestava chorando atrás do ginásio de esportes. Chorava porque alguém andara mexendocom ela. Como não vou contar uma história deescola, tratarei de falar o mais depressa possívelsobre o colégio de Jill, assunto que não é nadasimpático. Era um “colégio experimental” parameninos e meninas. Os diretores achavam que ascrianças podiam fazer o que desejassem.Infelizmente, porém, havia uns dez ou quinze daturma que só queriam atormentar os outros. Láacontecia de tudo: coisas horríveis que, numaescola comum, seriam descobertas e punidas. Masali, não. Mesmo que se descobrisse quem as havia___________________________________ 4C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  6. 6. feito, o responsável não era expulso nemcastigado. O diretor achava que se tratava de“interessantes casos psicológicos” e passava horasconversando com tais alunos. E estes, seencontrassem uma resposta adequada para dizerao diretor, acabavam se tornando privilegiados. Por isso Jill estava chorando naquele diatristonho de outono, na alameda úmida que vai dofundo do ginásio de esportes à mata de arbustos.Ainda não tinha acabado de chorar quando, asso-viando, um menino surgiu do canto do ginásio,mãos nos bolsos, quase dando um tropeção nela. – Está cego? – perguntou Jill. – Opa, desculpe... também não precisava...– e aí notou a cara da menina. – Ei, Jill, o que hácom você? Jill só fez uma careta, a careta que a gentefaz quando quer dizer alguma coisa, mas senteque vai acabar chorando se falar.___________________________________ 5C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  7. 7. – Só podem ser eles, como sempre – disse omenino, carrancudo, afundando ainda mais asmãos nos bolsos. Jill concordou com a cabeça. Não erapreciso falar mais nada. Já sabiam de tudo. – Olhe aqui – disse o menino –, de nadaadianta que nós... Falava como quem começa um sermão. Jillirrompeu numa crise de nervos (o que é comumacontecer às pessoas quando são interrompidasdurante um acesso de choro). – Deixe-me em paz e cuide da sua vida.Ninguém lhe pediu para meter o bico. Você émesmo muito bacana para me ensinar o que eudevo fazer. Vai dizer, na certa, que a gente devechaleirar eles, fazer o que eles quiserem, comovocê faz. – Caramba, Jill! – disse o menino,sentando-se na relva espessa e pulando logo, poisa relva estava toda molhada. Seu nome___________________________________ 6C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  8. 8. infelizmente era Eustáquio Mísero; mas não eraum mau sujeito. – Jill, você está sendo injusta. Por acaso eufiz alguma coisa ruim este ano? Não fiquei dolado do Daniel no caso do coelho? E não guardeisegredo no caso da Gabriela... mesmo debaixo detorturas? E não fiquei... – Não sei, nem quero saber! – soluçou Jill.Eustáquio, vendo que ela ainda não estava bem,ofereceu-lhe uma pastilha de hortelã e começou achupar outra. Jill já enxergava tudo com maisclareza. – Desculpe, Eustáquio. Confesso que sófalei aquilo de maldade. Você foi muitobonzinho... este ano. – Então, esqueça o ano passado. Admitoque já fui um sujeito muito diferente. Puxa vida!Como eu era chato! – Para ser franca, era mesmo. – Acha que eu mudei?___________________________________ 7C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  9. 9. – Acho, e não sou só eu que acho. Todomundo diz o mesmo. Ainda ontem no quarto,Eleonor ouviu Adélia dizer que você está mudadoe que iam pegá-lo no ano que vem. Eustáquio sentiu um tremor. Todos noColégio Experimental sabiam o que era ser pegopela turma da pesada. – Por que você era tão diferente no anopassado? – Aconteceram comigo coisasestranhíssimas – disse Eustáquio, misterioso. – Como assim? Ele ficou calado durante um tempão. – Escute, Jill, tenho ódio deste lugar, maisdo que uma pessoa pode ter ódio de qualquercoisa. Você também, não é? – Ora, se tenho! – Assim sendo, acho que posso ter todaconfiança em você. – Quanta gentileza!___________________________________ 8C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  10. 10. – Pois é, mas acontece que é um segredopara lá de assustador. Jill, você é boa de acreditarem coisas... quer dizer... nas coisas que fariam osoutros aqui cair na gargalhada? – Nunca me aconteceu... mas acho que sou. – Iria acreditar em mim, se eu dissesse quejá estive fora deste mundo? – Não estou entendendo bulhufas. – Bem, vamos esquecer os mundos.Suponha que eu dissesse que já estive num lugaronde os animais sabem falar e onde há... hum...encantamentos, dragões... bem, essas coisas queaparecem nos livros de fadas. Eustáquio sentia-se como um noveloembaraçado, um novelo vermelho. – Como você chegou lá? – perguntou Jill,também um pouco encabulada. – Da única maneira possível: magia. Euestava com dois primos meus. Fomossimplesmente levados, assim. Eles já tinhamestado lá antes.___________________________________ 9C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  11. 11. Como tinham passado a cochichar, era maisfácil acreditar, mas, repentinamente, Jill foiapanhada por uma tremenda suspeita (tão violentaque, por um instante, virou uma onça): – Se eu descobrir que está querendo mefazer de boba, nunca mais falo com você durantetoda a minha vida! Nunca, nunca, nunca! – Juro que não estou! Juro por tudo que ésagrado! – Está bem, eu acredito. – E promete não contar para ninguém! – Quem é que você está pensando que eusou? Estavam muito nervosos. Mas, quando Jillolhou em torno e reparou o céu tristonho deoutono, com as folhas gotejando, e lembrou-se deque não havia esperança no Colégio Experimental(faltavam ainda onze semanas para as férias),disse:___________________________________ 10C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  12. 12. – Mas, afinal de contas, de que adianta?Não estamos lá: estamos aqui. E não há nenhumjeito de ir para lá. Ou há? – É por isso mesmo que estamos aquiconversando. Quando voltei do tal lugar, alguémdisse que os meus dois primos nunca mais iriamlá. Era a terceira vez que iam, entende? Mas essealguém não disse que eu não ia voltar. Se nãodisse é porque achava que eu ia voltar. Não me saida cabeça a idéia de que nós... poderíamos... – Dar um jeito para que a magia aconteçade novo? Eustáquio fez que sim. – Quer dizer que a gente podia desenhar umcírculo no chão, escrever umas letras dentro... erecitar umas fórmulas mágicas? Eustáquio ficou atento por um instante: – Estava pensando em coisa parecida. Masagora estou vendo que esse negócio de círculo ede fórmulas não dá certo. Só há uma coisa a fazer:temos de pedir a ele.___________________________________ 11C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  13. 13. – Quem é ele? – Lá naquele lugar ele é chamado deAslam. Mas vamos em frente. Ficamos um aolado do outro, assim, e estendemos os braços paraa frente com as palmas das mãos viradas parabaixo, como fizeram na ilha de Ramandu... – Ilha de quê? – Depois eu conto. Acho que ele gostariaque olhássemos para o oriente. Onde é o oriente? – Sei lá. – Gozado, as mulheres não sabem nada depontos cardeais – Você também não sabe – replicou Jillindignada. – Sei, sei e muito bem. É só você não meinterromper. Já vi tudo. Lá é o oriente, onde estãoaquelas árvores. Agora você tem de repetirminhas palavras. – Que palavras?___________________________________ 12C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  14. 14. – As palavras que eu vou dizer, é claro.Agora... Aslam, Aslam, Aslam! – Aslam, Aslam, Aslam – repetiu Jill. – Por favor, deixe que nós dois... Nesse momento uma voz do outro lado doginásio gritou: – Jill ? Eu sei onde ela está. Só pode estarchoramingando atrás do ginásio. Vou pegar ela. Jill e Eustáquio entreolharam-se,mergulharam debaixo das árvores e começaram aescalar a encosta íngreme da mata de arbustos auma velocidade de campeões. (Devido aoscuriosos métodos de ensino do ColégioExperimental, lá não se aprendia muitoMatemática ou Latim, mas todos sabiamdesaparecer rapidamente e sem ruído, quando elesestavam atrás de alguém.) Depois de um minuto de correria,detiveram-se para ouvir e concluíram quecontinuavam sendo perseguidos.___________________________________ 13C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  15. 15. – Se ao menos a porta estivesse aberta! –suspirou Eustáquio, e Jill concordou com acabeça. No fim da mata de arbustos havia um altomuro de pedra, com uma porta que dava para umterreno relvado. Essa porta quase sempre estavatrancada, mas já fora encontrada aberta uma ououtra vez. Ou só uma vez, quem sabe. Massempre havia uma grande esperança de que nãoestivesse trancada. Seria a oportunidademaravilhosa para que os alunos, sem serpercebidos, escapassem dos domínios do colégio. Jill e Eustáquio, fatigados e desarrumados,pois tinham corrido quase de gatinhas por debaixodas árvores, chegaram ofegantes ao muro. Aporta, fechada, como de hábito. – Não vai adiantar nada – disse Eustáquio,com a mão na maçaneta, para suspirar emseguida: – O-o-oh! A porta abriu-se. E eles, que não desejavamoutra coisa, agora ficaram apalermados, pois___________________________________ 14C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  16. 16. deram com uma paisagem muito diferente da queesperavam. Esperavam encontrar uma encosta cinzentaindo juntar-se ao céu tristonho do outono. Em vezdisso feriu-lhes os olhos o clarão do sol, queentrava pelo portal como a luz do verão quando seabre a porta da garagem. As gotas deslizavamcomo contas pela relva. Via-se melhor o rosto deJill lambuzado de lágrimas. A luz do sol pareciachegar de um mundo diferente. Mais macia era arelva. Umas coisas reluziam no céu azul comojóias ou borboletas gigantescas. Apesar de esperar por alguma coisaparecida, Jill sentiu-se amedrontada. Eustáquiodemonstrava o mesmo dizendo com dificuldade: – Vamos, Jill. Será que podemos voltar? Não há perigo?Uma voz gritou lá de trás, cheia de maldade eescárnio: – Já sei que você está aí, Jill. Não adianta seesconder.___________________________________ 15C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  17. 17. Era a voz de Edite, que não pertencia àturma da pesada, mas era subserviente e delatora. – Depressa! – exclamou Eustáquio. –Segure minha mão. Antes que ela soubesse bem o que estavaacontecendo, foi puxada para fora dos domíniosdo colégio, dos domínios do seu país, dosdomínios do mundo. A voz de Edite sumiu de repente como seapaga a voz de um rádio que se desliga. Outrosom dominou os ares. Vinha das coisas quereluziam no alto: pássaros, para dizer a verdade.Faziam um barulho de algazarra, que, no entanto,parecia música, música de vanguarda, de que agente não gosta logo. Contudo, apesar da cantoria,havia, envolvendo tudo, uma espécie de silêncioprofundo. Este, combinado à leveza do ar, levouJill a imaginar se não estariam no cume de umaalta montanha. Segurando a mão da menina, Eustáquioavançava. Arregalavam os olhos para todos oslados. Arvores imensas, mais altas do que cedros,___________________________________ 16C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  18. 18. erguiam-se à direita e à esquerda, deixandoabertas algumas brechas para a visão. Sempre amesma paisagem: relva lisa, pássaros de coramarela, com azulados de libélulas, ou plumagemde arco-íris e sombreados azuis... e o vazio. Erauma floresta solitária. Na frente não havia árvores, só o céu azul.Caminharam sem falar até que Jill ouviu a voz deEustáquio: – Cuidado! – E viu-se empurrada para trás.Estavam à beira de um precipício. Jill era uma dessas meninas felizes quepossuem a cabeça boa para grandes alturas. Podiaparar sem tremer à beira de um abismo. Nãogostou, portanto, do puxão de Eustáquio (“comose eu fosse uma criança”), e soltou a mão docompanheiro. Notando que ele ficou branco,chegou a sentir desprezo: – Que é que há? – E, para mostrar que nãotinha medo, parou na beirinha do precipício (unspalmos além da própria coragem) e olhou parabaixo.___________________________________ 17C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  19. 19. Só então percebeu que Eustáquio tinharazão de ficar branco, pois não há em nossomundo um penhasco como aquele. Imagine-se àbeira do precipício mais alto que você conheça.Imagine-se olhando lá para baixo. Pense agora oseguinte: o abismo não acaba onde devia acabar,mas continua, mais fundo, mais fundo, vinte vezesmais fundo. E lá embaixo você nota umascoisinhas brancas; à primeira vista parecemcarneiros; olhando melhor, descobre que sãonuvens, nuvens imensas e gordas. Enfiando oolhar entre as nuvens, você consegue afinal verum pouquinho do fundo do abismo, mas é tãodistante que se torna impossível afirmar se é feitode relva, de árvores, de terra ou de água. Jill ficou olhando de boca aberta. Não deuum passo para trás por medo do que Eustáquio iriapensar. Mas – decidiu logo – “que me importa oque ele vai pensar?” O jeito era afastar-se daqueleabismo e nunca mais zombar de quem tem medode altura. Tentou, mas não conseguiu sair dolugar. As pernas pareciam feitas de massa. Estavatudo dançando diante de seus olhos.___________________________________ 18C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  20. 20. – Que está fazendo, Jill ? Caia fora daí, suaboboca! – gritou Eustáquio. Mas a voz parecia virde muito longe. Sentiu que ele procurava agarrá-la. Jill, no entanto, não tinha mais o domínio dosbraços e das pernas. Houve um instante de agonia na ponta dopenhasco. O medo e a tontura impediam que elasoubesse de fato o que estava fazendo, mas deduas coisas se lembraria a vida toda, e sonhariacom elas: uma, de que se libertara, com umsafanão, das mãos de Eustáquio; outra, de queEustáquio, no mesmo instante, tinha perdido oequilíbrio, precipitando-se, com um grito deterror, em pleno abismo. Felizmente não teve tempo de pensar noque havia feito. Um imenso animal de coresbrilhantes apareceu à beira do precipício. Estavadeitado e (coisa estranha) soprando. Não estavarugindo ou bufando: simplesmente soprando coma boca escancarada, como se fosse um aspiradorde pó trabalhando para fora. Jill estava tão pertoda criatura que podia sentir as vibrações no___________________________________ 19C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  21. 21. próprio corpo. Por pouco não desmaiou. E atéqueria desmaiar, mas o desmaio não depende danossa vontade. Por fim, lá embaixo, viu umpontinho escuro afastando-se do penhasco,flutuando ligeiramente para cima. A medida quesubia, mais se afastava, movendo-se a grandevelocidade, até que Jill acabou por perdê-lo devista. Parecia que a criatura ao lado soprava opontinho para longe. Virou-se e olhou. A criatura era um Leão.___________________________________ 20C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  22. 22. 2 A MISSÃO DE JILL Sem olhar para Jill, o Leão levantou-se edeu uma última soprada. Depois, satisfeito comseu trabalho, voltou-se e entrou lentamente nafloresta. – Só pode ser um sonho, tem de ser umsonho – disse Jill para si mesma. – Vou acordaragorinha mesmo. – Mas não era sonho. – A gentenunca devia ter atravessado o portão. Duvido queEustáquio conheça melhor este lugar do que eu. E,se conhecia, não tinha nada que me trazer para cásem me dizer antes como era. A culpa não éminha se ele caiu no abismo. Se tivesse medeixado em paz, não teria acontecido nada. –Lembrou-se novamente do berro de Eustáquio aocair e debulhou-se em lágrimas.___________________________________ 21C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  23. 23. Chorar funciona mais ou menos enquantodura. Porém, mais cedo ou mais tarde, é precisoparar de chorar e tomar uma decisão. Ao parar,Jill sentiu uma sede enorme. Havia chorado decara contra o chão, mas agora estava sentada. Asaves não cantavam mais. O silêncio seria total,não fosse um barulhinho insistente que parecia virde longe. Ouviu com atenção e teve quase certezade que se tratava de água corrente. Levantou-se e olhou em torno, atenta.Nenhum sinal do Leão, mas, com tantas árvorespor ali, podia ser que ele estivesse por perto. Asede era intolerável e ela juntou coragem paralocalizar a água. Na ponta dos pés, escondendo-sede árvore em árvore, espreitando por todos oscantos, avançou. A floresta estava tão quieta quenão era difícil descobrir de onde vinha o ruído.Numa clareira corria o riacho, brilhante como umespelho. Apesar da visão da água multiplicar suasede, não correu logo para beber. Ficou paradinha,como se fosse de pedra, boquiaberta. Motivo: oLeão estava postado exatamente à beira do riacho,cabeça erguida, patas dianteiras esticadas. Não___________________________________ 22C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  24. 24. havia dúvida de que a vira, pois olhou dentro dosolhos dela por um instante e virou-se para o lado,como se a conhecesse há muito tempo e nãoprecisasse dar-lhe muita atenção. Ela pensou: “Se eu correr, ele me pega; seeu ficar, ele me come.” De qualquer forma, mesmo que tivessetentado, não teria saído do lugar. Não tirava osolhos de cima do Leão. Quanto tempo durou issonão saberia dizer. Pareciam horas. A sede era tãoforte que chegou a pensar que pouco se importariaem ser comida pelo animal, desde que dessetempo de beber um bom gole. – Se está com sede, beba. Eram as primeiras palavras que ouvia desdeque Eustáquio falara com ela à beira do abismo.Por um segundo procurou descobrir quem falara.A voz voltou: – Se está com sede, venha e beba. Lembrou-se naturalmente do que disseraEustáquio sobre os animais falantes daquele outro___________________________________ 23C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  25. 25. mundo e percebeu que era a voz do Leão. Não separecia com a voz humana: era mais profunda,mais selvagem, mais forte. Não ficou maisamedrontada do que antes, mas ficou amedrontadade um modo diferente. – Não está com sede? – perguntou o Leão. – Estou morrendo de sede. – Então, beba. – Será que eu posso... você podia... podiaarredar um pouquinho para lá enquanto eu mato asede? A resposta do Leão não passou de um olhare um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso aodefrontar o corpanzil) como pedir a umamontanha que saísse do seu caminho. O delicioso murmúrio do riacho era deenlouquecer. – Você promete não fazer... nada comigo...se eu for? – Não prometo nada – respondeu o Leão.___________________________________ 24C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  26. 26. A sede era tão cruel que Jill deu um passosem querer. – Você come meninas? – perguntou ela. – Já devorei meninos e meninas, homens emulheres, reis e imperadores, cidades e reinos –respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso,sem raiva, com a maior naturalidade. – Perdi a coragem – suspirou Jill. – Então vai morrer de sede. – Oh, que coisa mais horrível! – disse Jilldando um passo à frente. – Acho que vou ver seencontro outro riacho. – Não há outro – disse o Leão. Jamais passou pela cabeça de Jill duvidardo Leão; bastava olhar para a gravidade de suaexpressão. De repente, tomou uma resolução. Foia coisa mais difícil que fez na vida, mas caminhouaté o riacho, ajoelhou-se e começou a apanharágua na concha da mão. A água mais fresca e puraque já havia bebido. E não era preciso bebermuito para matar a sede. Antes de beber, havia___________________________________ 25C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  27. 27. imaginado sair em disparada logo depois desaciada. Percebia agora que seria a coisa maisperigosa. Ergueu-se de lábios ainda molhados. – Venha cá – disse o Leão. E ela foi. Estava agora quase entre as patasdianteiras do Leão, olhando-o diretamente nosolhos. Mas não agüentou isso por muito tempo edesviou o olhar. – Criança humana – disse o Leão –, ondeestá o menino? – Caiu no abismo – respondeu Jill,acrescentando: –...Senhor. – Não sabia comotratá-lo e seria uma desfeita não lhe dartratamento algum. – Como foi isso? – Ele estava querendo me segurar, para eunão cair. – Por que você chegou tão perto do abismo,criança humana?___________________________________ 26C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  28. 28. – Eu queria fazer bonito, senhor. – Gostei da resposta, criança. Não façamais isso. – Pela primeira vez a face do Leãomostrou-se um pouco menos severa. – O meninoestá bem. Foi soprado para Nárnia. A sua missão éque ficou mais difícil. – Qual missão, por favor? – A missão que me fez chamá-los aqui, forado mundo de vocês. Jill ficou intrigadíssima, achando que oLeão a tomava por outra pessoa. Não tinhacoragem de revelar isso, apesar de sentir quepodia dar numa confusão medonha. – Diga o que está pensando, criança. – Eu estava imaginando... quer dizer... nãoestá havendo um engano? Acontece que ninguémchamou a gente aqui. Nós é que pedimos para vir.Eustáquio disse que devíamos chamar... alguém...não me lembro do nome... e que esse alguémtalvez nos deixasse entrar. Foi o que fizemos, eentão encontramos a porta aberta.___________________________________ 27C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  29. 29. – Não teriam chamado por mim se eu nãohouvesse chamado por vocês. – Então o senhor é o Alguém? – perguntouJill. – Sim. Mas ouça qual é a sua missão.Longe daqui é o reino de Nárnia. Ali vive umvelho rei, que anda em aflição por não deixar umfilho, um príncipe de seu próprio sangue, quevenha a ser rei depois dele. Não tem herdeiro, poisseu único filho foi seqüestrado há muitos anos.Ninguém em Nárnia sabe onde está esse príncipeou mesmo se continua vivo. Mas está vivo.Ordeno que vocês procurem o príncipe atéencontrá-lo, para trazê-lo de volta, ou atémorrerem, ou até voltarem a seu próprio mundo. – Mas como? – perguntou Jill. – Vou lhe dizer. Estes são os sinais pelosquais hei de guiá-la na sua busca. Primeiro: logoque Eustáquio colocar os pés em Nárnia,encontrará um velho e grande amigo. Devecumprimentar logo esse amigo; se o fizer, vocêsdois terão uma grande ajuda. Segundo: vocês___________________________________ 28C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  30. 30. devem viajar para longe de Nárnia, para o Norte,até encontrarem a cidade em ruínas dos gigantes.Terceiro: encontrarão uma inscrição numa pedrada cidade em ruínas, devendo proceder comoordena a inscrição. Quarto: reconhecerão opríncipe perdido (caso o encontrem), pois será aprimeira pessoa em toda a viagem a pedir algumacoisa em meu nome, em nome de Aslam. O Leão parecia ter acabado de falar. Jillachou que devia dizer alguma coisa: – Certo, muito obrigada. – Criança – disse o Leão, com a voz maisamável do que antes –, talvez não esteja tão certoquanto você imagina. Seu primeiro cuidado élembrar-se de tudo. Repita para mim, pela ordem,os quatro sinais. Jill não se saiu muito bem. O Leão acorrigiu e fez com que repetisse outra vez, e maisoutra, e mais outra, até que a menina decorou tudodireitinho. Mostrava-se pacientíssimo, e Jill teve acoragem de perguntar:___________________________________ 29C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  31. 31. – Por favor, como é que eu vou paraNárnia? – De sopro. Vou soprá-la para o Oeste,como soprei Eustáquio. – Será que eu chego a tempo de contar-lheo primeiro sinal? Aliás, acho que isso não temimportância. Se ele encontrar um velho amigo,fatalmente irá falar com ele... é ou não é? – Você não tem tempo a perder. Tem de irimediatamente. Venha. Caminhe até a beira doabismo. Se não havia tempo a perder, a culpa era deJill, e ela sabia disso. “Se eu não tivesse bancadoa boba, Eustáquio e eu teríamos ido juntos, e eletambém teria ouvido as instruções todas.” Era assustador chegar à beira do abismo,principalmente porque o Leão não ia na frente,mas ao lado dela – e sem fazer o menor ruído comas patas. Já perto do precipício, ouviu uma voz atrásde si:___________________________________ 30C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  32. 32. – Fique quieta. Daqui a pouco soprarei.Antes de tudo, lembre-se dos sinais! Repita-os aoamanhecer, antes de dormir e, caso acordar,durante a noite. Por mais estranhos que sejam osacontecimentos, de maneira alguma deixe deobedecer aos sinais. Em segundo lugar, aviso-a deque falei, aqui na montanha, com a maior clareza:não o farei sempre em Nárnia. O ar aqui namontanha é limpo, e aqui o seu espírito também élimpo; em Nárnia, o ar será mais pesado. Cuidadopara que o ar pesado não confunda seu espírito.Os sinais que aprendeu aqui surgirão sob formasbem diferentes ao depará-los lá. Éimportantíssimo conhecê-los de cor e desconfiardas aparências. Lembre-se dos sinais, acredite nossinais. Nada mais importa. Agora, Filha de Eva,adeus... A voz tornara-se mais branda ao fim da falae agora sumira de todo. Jill olhou em torno. Paraseu espanto viu o penhasco mais de cem metros láatrás; o Leão era um pontinho dourado. Ela haviacerrado os dentes e fechado os punhos, esperandouma terrível lufada; mas o sopro do Leão foi tão___________________________________ 31C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  33. 33. delicado que ela nem chegou a notar o momentoem que deixou a terra. Sentiu medo só por uminstante de medo. Era tão longe o mundo láembaixo, que não podia ter com ele a menorrelação. Flutuar na respiração do Leão era umadelícia. Podia deslizar de frente ou de costas,revirar-se à vontade, como se fosse dentro d’água.Não havia vento e o ar era cálido. Sem barulho esem turbulência, era uma sensação bem diferentedo que a de viajar de avião. Parecia mais com umaviagem de balão, até melhor, mas Jill nuncaentrara num balão. Ao olhar para trás pôde avaliar a altura damontanha onde estivera. Perguntava a si mesmacomo uma montanha tão colossal não estavacoberta de neve e gelo. Essas coisas deviam serdiferentes naquele mundo. Olhando para baixo,não podia distinguir se estava flutuando sobre omar ou sobre a terra, tão alto estava. – Nossa! Os sinais! – disse subitamente. –Melhor repeti-los.___________________________________ 32C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  34. 34. Passou por um estado de pânico durantedois segundos, mas ainda era capaz de dizer ossinais com perfeição. Estava tudo bem, pensou,recostando-se no ar como se fosse um sofá edando um suspiro de satisfação. – Bem – disse Jill para si mesma algumashoras mais tarde –, devo confessar que dormi.Dormi no ar, veja só! Será que isso já aconteceu aalguém no mundo? Acho que não. Ora bolas, vaiver que o Eustáquio também dormiu! Nessamesma rota, só um pouquinho antes de mim. Voudar uma espiada lá embaixo. Parecia uma vasta planície azul-escura. Nãose percebiam montes, mas havia coisasesbranquiçadas que se moviam devagar. “Devemser nuvens”, pensou, “mas muito maiores que asdo abismo; são maiores porque estão mais perto:devo estar indo para baixo. Que sol chato!” O sol, que estava lá no alto no começo daviagem, feria-lhe os olhos, baixando à sua frente.Eustáquio tinha razão quando disse que Jill (nãosei se as meninas em geral) não era muito___________________________________ 33C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  35. 35. entendida em pontos cardeais. Se o fosse, aosentir o sol nos olhos deveria saber que viajava nadireção oeste. Olhando a planície azul lá embaixo, notouque existiam aqui e ali uns pontos bem brilhantes,mais pálidos. “É o mar”, pensou, “os pontosdevem ser ilhas.” E eram. Teria sentido inveja sesoubesse que Eustáquio já havia apreciadoaquelas ilhas de um navio, e até percorrido umaou outra. Mais tarde, começou a observarpequenas rugas na planura azul; rugas quedeveriam ser ondas imensas se estivesse entreelas. Juntando-se ao horizonte, estendia-se umalinha cada vez mais espessa e acentuada. Era oprimeiro sinal da grande velocidade em queviajava. A linha que se acentuava, ela sabia, sópodia ser a terra. Súbito, da esquerda (pois o vento era sul),uma grande nuvem branca veio a seu encontro, namesma altura em que ela se achava. Antes desaber onde se encontrava, mergulhou naquelenevoeiro frio e úmido. Por um instante nem___________________________________ 34C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  36. 36. conseguiu respirar. Foi piscando que encontrou,do outro lado, a luz do sol. Suas roupas estavam molhadas: vestia umcasaco esporte, suéter, saia-calça, meias e bonitossapatos. Foi descendo, descendo, e notou comsurpresa alguma coisa pela qual já devia estaresperando: ruídos. Até aquele instante viajara emabsoluto silêncio. Agora, pela primeira vez, ouviao marulhar das ondas e o grito das gaivotas.Sentia também o cheiro do mar. A terra estavacada vez mais próxima, com montanhas à frente eà esquerda. Eram baías e cabos, campos, matas epraias. O espraiar das ondas, cada vez maisintenso, abafava os demais alaridos do mar. A terra surgiu bem à frente – estavachegando à desembocadura de um rio. Voava apoucos metros da água. A crista de uma ondagolpeou-lhe os pés e a espuma molhou seu corpo.Já perdia velocidade. Deslizava na direção damargem esquerda do rio. Havia tanta coisa para ver que eraimpossível observar tudo: um lindo relvado, um___________________________________ 35C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  37. 37. navio tão brilhante que parecia uma jóia imensa,torres e ameias, bandeiras agitando-se ao vento,uma multidão, roupas festivas, armaduras, ouro,espadas, música. Mas viu tudo embaralhado. Aprimeira coisa que percebeu com nitidez foi queestava em pé, sob ramos de árvores, à beira do rio;a poucos metros, achava-se Eustáquio. Seu primeiro pensamento foi: “ComoEustáquio está sujo e desarrumado!” Depois:“Como estou molhada!”___________________________________ 36C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  38. 38. 3 A VIAGEM DO REI O que fazia Eustáquio parecer tãoencardido e desalinhado (e Jill também, caso sevisse no espelho) era o esplendor do ambiente. De uma brecha da montanha, a luz do solpoente jorrava sobre a relva lisa. Do outro lado darelva, com seus cata-ventos cintilando, erguia-seum castelo de numerosas torres, o mais belo queJill já havia visto. Perto ficava um cais demármore branco; amarrado a este, um navio alto,com o castelo de proa e a popa empinados, tododourado e carmesim, com uma grande bandeira nomastro central e flâmulas no tombadilho; escudosprateados enfileiravam-se no cais. A prancha deembarque fora colocada e um velho preparava-separa subir a bordo. Usava luxuoso manto___________________________________ 37C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  39. 39. escarlate, deixando entrever a malha de prata.Tinha na cabeça uma pequena coroa de ouro. Abarba cor de lã quase batia-lhe na cintura.Mantinha-se firme, apoiando a mão no ombro deum senhor ricamente vestido, mais novo que ele.Muito velho e frágil, parecia que uma lufada devento poderia carregá-lo, e trazia os olhosmarejados. Na frente do rei – que se virará para falar aopovo antes de embarcar –, havia uma poltronasobre rodas, atrelada a um burrinho pouco maiorque um cachorro. Sentado na poltrona estava umanãozinho gordo, vestido com o mesmo luxo dorei. Por ser muito gordinho e estar refesteladoentre almofadas, parecia uma trouxa de peles, deseda e veludo. Era tão velho quanto o rei, porémmais saudável e animado, de olhos espertos. Acabeça, sem um fio de cabelo, lembrava umagrande bola de bilhar banhada pelo crepúsculo. Mais atrás, os nobres postavam-se numsemi-círculo, com roupagens e armaduras dignasde se ver. Lembravam mais um canteiro de flores___________________________________ 38C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  40. 40. do que gente. Mas o que fez Jill abrir mesmo aboca e arregalar os olhos foi o próprio povo, se éque povo é a palavra certa. Pois só um em cincoera gente humana. Os outros eram criaturas quenão vemos em nosso mundo: faunos, sátiros,centauros. Jill havia visto aquelas figuras emlivros. E havia também anões, e uma porção deanimais que ela conhecia bem: ursos, castores,toupeiras, leopardos, camundongos, numerosospássaros. Pareciam, entretanto, algo diferentes dosanimais que conhecemos por esses nomes. Algunseram bem maiores; os camundongos, porexemplo, erguiam-se nas patinhas traseiras emediam meio metro de altura. Mas não só por issopareciam diferentes. Pela expressão de suas caras,via-se que sabiam falar e pensar como nós. “Que coisa!”, pensou Jill. “Quer dizer que étudo verdade! Mas... será que são amigos?”Acabara de observar nos arredores uns doisgigantes e outras criaturas que não sabia o queeram.___________________________________ 39C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  41. 41. Foi quando se lembrou de Aslam e dossinais. – Eustáquio! – cochichou, agarrando-lhe obraço. – Eustáquio, rápido! Está vendo algumconhecido seu por aí? – Ah, você de novo? – disse Eustáquio,com desagrado (tinha certa razão para isso). –Será que não pode ficar quieta? Quero escutar. – Deixe de ser pateta, Eustáquio. Não hátempo a perder. Não está reconhecendo aquialgum velho amigo? Porque você tem de ir e falarcom ele imediatamente! – Não estou entendendo nada. – Foi Aslam... o Leão... que mandou – disseJill, aflita. – Estive com ele. – Ah, esteve com ele? Que é que ele disse? – Disse que a primeira pessoa que você iaver em Nárnia era um velho amigo, e devia falarcom ele imediatamente.___________________________________ 40C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  42. 42. – Acontece que não há nenhum conhecidomeu aqui; aliás, nem sei ainda se isto aqui éNárnia. – Pensei que você já tinha estado aquiantes. – Então pensou errado. – Pois fique sabendo que você me disse... – Pelo amor de Deus, vamos ouvir o queeles estão dizendo. O rei falava com o anão, mas Jill não podiaouvir o que dizia. Pelo jeito, o anão nãorespondeu, apesar de sacudir a cabeça váriasvezes. O rei ergueu a voz e dirigiu-se a toda amultidão; mas sua voz era tão velha e trêmula queela entendeu pouquíssimo – e ainda por cima elefalava de pessoas e lugares desconhecidos.Terminado o discurso, o rei inclinou-se e beijou oanão nas duas faces, reergueu-se, levantou a mãodireita como se abençoasse o povo, e subiu para onavio com passadas incertas. Os nobresdemonstravam grande emoção. Agitavam-se___________________________________ 41C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  43. 43. lenços e ouviam-se soluços por todos os lados. Aprancha foi recolhida, trombetas soaram na popa,e o navio afastou-se do cais. (Estava sendorebocado por um barco de remos, mas Jill não oviu.) – Bem, agora... – disse Eustáquio, mas nãoprosseguiu, pois naquele instante uma coisabranca – Jill imaginou que fosse um papagaio depapel – veio planando e pousou aos pés domenino. Era uma coruja branca, enorme, da alturade um anão de bom tamanho. A coruja piscou os olhos, espreitando comose fosse míope, a cabeça meio de lado. A voz eracomo um pio suave: – Turru, turru! Quem são vocês? – Meu nome é Eustáquio, esta é Jill.Poderia ter a gentileza de dizer onde estamos? – No reino de Nárnia, no castelo real deCair Paravel. – Foi o rei que embarcou agora mesmo?___________________________________ 42C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  44. 44. – Turru, turru! – confirmou a coruja,balançando a cabeça com tristeza. – Mas quemsão vocês? Há alguma coisa meio encantada emvocês. Eu os vi chegando: voando. Estavam todostão entretidos com a partida do rei que ninguémviu. Só eu. Eu vi. – Fomos enviados por Aslam – falouEustáquio, em voz baixa. – Turru, turru! – exclamou a coruja,ruflando as penas. – Isso é demais para mim, e tãocedo! Minha cabeça não é muito boa antes doanoitecer. – Fomos enviados para procurar o príncipeperdido – informou Jill, que já se achava ansiosapara entrar na conversa. – Só estou sabendo disso agora – falouEustáquio. – Que príncipe? – É melhor que vocês venham logo falarcom o lorde regente – disse a coruja. – É aquelelá, sentado na carruagem com o burrinho; éTrumpkin, o anão.___________________________________ 43C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  45. 45. A ave abriu caminho, murmurando para simesma: “Turru, turru! Não consigo pensar comclareza. É cedo demais!” – Qual é o nome do rei? – perguntouEustáquio. – Caspian X – respondeu a coruja. Jill não entendeu por que Eustáquio levouum grande susto e ficou como se se sentisse mal.Não houve tempo de fazer perguntas; já estavamperto do anão, que recolhia as rédeas, pronto pararetornar ao castelo. Os nobres, dispersos, seguiamem grupos na mesma direção, como depois de umjogo de futebol. – Turru! Alô! Lorde regente! – chamou acoruja, abaixando-se um pouco e levando o bicopara perto do ouvido do anão. – Ei? Que é que há? – perguntou o anão. – Dois estrangeiros, senhor – respondeu acoruja.___________________________________ 44C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  46. 46. – Escoteiros!? Que história é essa? –estranhou o anão. – Só estou vendo dois filhoteshumanos. Que desejam? – Meu nome é Jill – disse a menina,adiantando-se, doida para explicar a importantemissão que os trazia. – O nome da menina é Jill – disse a coruja,na voz mais alta possível. – Que história é essa? Ardil? Quem fez oardil? – Não, meu senhor, não há nenhum ardil. Éuma menina... O nome dela é Jill. – Fale alto – disse o anão. – Não fique aízumbindo no meu ouvido. Quem fez o ardil? – NINGUÉM – berrou a coruja. – Calma, calma; não é preciso berrar. Nãosou tão surdo assim. Mas por que você vem medizer que ninguém fez um ardil? – Melhor dizer para ele que o meu nome éEustáquio – disse o menino.___________________________________ 45C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  47. 47. – Este, senhor, é Eustáquio. – Batráquio? – perguntou o anão, irritado. –E isso é motivo para trazê-lo aqui? Hein? – Não é batráquio – disse a coruja –, éEUSTÁQUIO. – É eu ou é ele? Não estou entendendocoisa nenhuma. Vou dizer-lhe uma coisa,Plumalume... – era o nome da coruja. – Quandoeu era moço, aqui neste país os animais falantessabiam falar de verdade. Não era esse blá-blá-bláconfuso. Isso não era permitido, entendeu? Urnus,traga minha corneta acústica. O pequeno fauno, que permanecera otempo todo quietinho ao lado do anão, estendeu-lhe uma corneta de prata. Parecia aqueleinstrumento musical chamado serpentão, pois otubo tinha de ser enrolado no pescoço do anão. Acoruja, ou Plumalume, cochichou para ascrianças: – Minha cabeça agora está ficando melhor.Não digam nada a respeito do príncipe___________________________________ 46C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  48. 48. desaparecido. Explicarei para ele depois. Agora iadar tudo errado, tudo, tudo, turru, turru! – Bem – disse o anão –, se tem algumacoisa razoável para falar, Plumalume, podecomeçar. Respire fundo e procure não falardepressa demais. Com o auxílio das crianças, e a despeito deum acesso de tosse do anão, Plumalume explicouque os estrangeiros haviam sido enviados porAslam, em visita ao reino de Nárnia. O anão logoolhou para eles com uma nova expressão. – Enviados pelo próprio Leão? – disse ele.– E vieram... hum... daquele Outro Lugar... alémdo Fim do Mundo... não é? – Exatamente, meu senhor – berrouEustáquio na corneta. – Filho de Adão e Filha de Eva, é ou não é? Mas como no Colégio Experimental não sefalava em Adão e Eva, Jill e Eustáquio nãosouberam o que responder. O anão, entretanto,___________________________________ 47C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  49. 49. não parecia ter notado o pormenor. Segurando asmãos de ambos, disse: – Muito bem, meus caros: é uma alegria tê-los aqui. Se o meu bom rei, bom e infeliz, nãotivesse acabado de partir para as Sete Ilhas, seriadele a satisfação em recebê-los. A presença devocês teria devolvido a mocidade ao meu senhor...pelo menos por um instante, um pequeno instante.Bem, já está passando da hora do jantar. Vocêsme dirão o que desejam na reunião do Conselhoamanhã de manhã. Plumalume, providencieaposentos e roupas próprias e mais o que forpreciso para os nossos convidados de honra. Alémdisso, Plumalume, chegue aqui... O anão colocou a boca perto do ouvido dacoruja, pretendendo falar em segredo; mas, comoacontece com certos surdos, não dominava ovolume de sua voz, e as crianças ouviram o quedisse: – Providencie também um banhocaprichado para eles.___________________________________ 48C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  50. 50. Depois disso, o anão tocou o burrinho nadireção do castelo; também muito gordo, o animalpartiu numa pisada que ficava entre o trote e obamboleio. O fauno, a coruja e as criançasseguiram um pouco mais devagar. O solescondera-se e o ar começava a ficar frio. Atravessaram a relva e um pomar nadireção do portão norte de Cair Paravel, queestava aberto. Dentro estendia-se um pátiogramado. Viam-se luzes das janelas do grandesalão à direita e de outras salas à frente. Umajovem muito simpática foi chamada para cuidar deJill. Não era muito mais alta do que ela própria ebem mais magra, embora fosse totalmentedesenvolvida. Conduziu a menina para um quartoredondo numa das torres, onde havia umabanheira embutida no chão, madeiras perfumadasqueimando na lareira e um candeeiro penduradoda abóbada do teto por uma corrente de prata. Ajanela dava para oeste do estranho reino deNárnia, e Jill ainda viu reflexos do sol poentefulgindo atrás de montanhas distantes. Ansiava___________________________________ 49C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  51. 51. por novas aventuras, sentindo que mal tinhacomeçado. Depois de tomar banho, pentear os cabelose vestir as roupas que lhe foram separadas (quealém de bonitas eram perfumadas e faziambarulhinhos gostosos quando ela semovimentava), Jill teria voltado à janeladeslumbrante, mas foi interrompida por umapancada na porta. – Entre. – E quem entrou foi Eustáquio,muito bem lavado e magnificamente vestido comos trajes de Nárnia (dos quais, aliás, parecia nãogostar muito). Jogando-se numa cadeira, disse, meiozangado: – Até que enfim! Estou há um tempãoprocurando você. – Bem, agora já me achou. Não éformidável, Eustáquio? Nem dá para falar! – Porum instante ela havia esquecido os sinais e opríncipe desaparecido.___________________________________ 50C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  52. 52. – Ah, acha isso? Pois acho que o melhor eraa gente não ter vindo – replicou o menino. – Mas por quê? – Não agüento ver o rei Caspian assimvelho e decrépito. É... é apavorante. – Mas por que você sofre com isso? – Você não pode entender. Não pode, éclaro. Esqueci de contar-lhe que este mundo temum tempo diferente do nosso. – Troque isso em miúdos. – O tempo que a gente passa aqui não levatempo em nosso mundo. Entendeu? Vou explicarmelhor: mesmo que fiquemos aqui durante muitotempo, quando voltarmos para o colégio será omesmo momento em que saímos de lá... – Que falta de graça! – Não amole. E quando você estiver emcasa... em nosso mundo... não saberá quantotempo está passando aqui. Pode ser uma pá deanos em Nárnia e só um ano na Inglaterra. Os___________________________________ 51C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  53. 53. meus primos explicaram tudo para mim, masbanquei o bobo e me esqueci. Parece quepassaram setenta anos em Nárnia depois que saídaqui. Está entendendo agora? É pavoroso voltare descobrir que Caspian é um velhinho. – Ah, quer dizer que o rei era amigo seu! –disse Jill, fulminada por um pensamento horrível. – Devo confessar que era – respondeuEustáquio, infeliz. – Amigo até demais. Da últimavez, ele era só um pouquinho mais velho do queeu. Agora encontro aquele velhinho de barbabranca e não me sai da cabeça a manhã em quecapturamos as Ilhas Solitárias. Ou a luta com aSerpente do Mar. Oh, é de doer! É pior do que seele estivesse morto. – Chega! É ainda muito pior do que vocêimagina! – Jill mostrava toda a sua impaciência. –O caso é que já perdemos o primeiro sinal. Eustáquio naturalmente não podia entender.Então Jill contou-lhe toda a conversa com Aslam,os quatro sinais, a missão de procurar o príncipe.E concluiu:___________________________________ 52C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  54. 54. – Agora está entendendo? Você viu umvelho amigo, exatamente como Aslam disse;devia ter ido falar com ele imediatamente. Ora,como não foi, tudo está dando errado, desde oinício. – Mas como eu podia saber? – Muito simples: se tivesse prestadoatenção quando tentei falar, estaria tudo certinho. – Ah, é claro! E se você não tivessebancado a idiota na beira do abismo, quase meassassinando... É isso mesmo, assassinando!...também teria dado tudo certinho... – Foi ele a primeira pessoa que você viu,não foi? Deve ter chegado horas antes de mim.Não viu ninguém antes? – Cheguei apenas um minuto antes de você.Ele deve tê-la soprado com mais força. Para tiraro atraso, o seu atraso. – Deixe de ser bobão, Eustáquio... Ei, o queé isso?___________________________________ 53C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  55. 55. Era o sino do castelo tocando para o jantar.A briga, que prometia ser das boas, foi logointerrompida, felizmente. Estavam os dois comexcelente apetite. Jamais haviam visto uma coisa tãodeslumbrante. O próprio Eustáquio, que jáestivera em Nárnia, passara todo aquele tempo nomar, e não chegara a conhecer o esplendor e ahospitalidade dos narnianos em seu próprio reino.As flâmulas pendiam do teto e as iguariasentravam com o som de trombetas e tímpanos. Assopas eram de dar água na boca, sem falar nospeixes fabulosos, nas finas caças, nas aves raras,nos pastéis, sorvetes, geléias, frutas, nozes, vinhose refrescos. O próprio Eustáquio animou-seadmitindo que era um banquete “pra lá de legal”. Terminada a imensa refeição, um poetacego contou uma história chamada O cavalo e seumenino, que se passava em Nárnia e no reino doscalormanos, na Idade de Ouro, quando Pedro erao Grande Rei em Cair Paravel. (Não tenho tempo___________________________________ 54C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  56. 56. de contá-la no momento, mas é uma história quevale a pena ouvir.) Quando subiram para os quartos,bocejando, Jill falou: – Aposto que a gente vai dormir feito umapedra. Isso mostra que jamais temos idéia do quepoderá acontecer-nos daqui a pouco.___________________________________ 55C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  57. 57. 4 UMA REUNIÃO DE CORUJAS É engraçado: quanto mais uma pessoa estácom sono, mais tempo leva para cair na cama,especialmente se existe no quarto o conforto deuma lareira. Jill pensou que, se não se sentasse umtempinho diante do fogo, seria incapaz até de tirara roupa. Sentou-se e não teve mais vontade delevantar-se, apesar de repetir para si mesma: “Vápara a cama, menina!” Foi quando se sobressaltoucom um barulhinho na janela. Ergueu-se, correu as cortinas, vendo aprincípio só a escuridão lá fora. Depois deu umsalto para trás: uma coisa grande lançava-secontra a janela, golpeando a vidraça. Passou-lhepela cabeça uma idéia muito desagradável:___________________________________ 56C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  58. 58. “Imagine só se existem mariposas gigantes nestepaís! Ai!” Mas a coisa voltou e ela teve quase acerteza de ter visto um bico, e era este bico quegolpeava a vidraça. “E um passarão”, pensou.“Será uma águia?” Não estava para visitas, nemmesmo de uma águia, mas abriu a janela e olhou.No mesmo momento, com um ruído farfalhante, acriatura pousou no peitoril, enchendo todo o vãoda janela. Era a coruja. – Quietinha! Turru, turru! Sem barulho –disse a coruja. – Agora diga-me: é verdade aquiloque disse? – Sobre o príncipe? É, é pra valer. – Poislembrava-se agora da cara do Leão, do qual quasese esquecera durante o banquete e a história de Ocavalo e seu menino. – Ótimo! – disse a coruja. – Então nãopodemos perder tempo. Tem de sair logo. Vouacordar o outro humano. Volto aqui em seguida.Melhor trocar essas roupas elegantes e vestir coisasimples para viajar. Não demoro nada. Turru,turru! – E, sem esperar resposta, partiu.___________________________________ 57C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  59. 59. Jill, pouco habituada a aventuras, nempensou em desconfiar da coruja: a idéia excitantede uma fuga à meia-noite fez com que esquecesseo sono. Vestiu o suéter e a saia-calça – havia nocinto um canivete que poderia ser útil –,escolhendo também algumas coisas que havia noquarto. Pegou uma capa, que lhe batia nos joelhos,um capuz (“pode chover”, pensou), alguns lençose um pente. Sentou-se e ficou à espera. Já estavasentindo sono de novo, quando a coruja voltoupara dizer: – Estamos prontos. – Melhor você ir na frente – disse Jill. –Ainda não conheço todas as passagens aqui. – Turru! Está pensando que vamos pordentro do castelo? Nada disso. Tem de montar emmim. Vamos voando. – Oh! – exclamou Jill, de boca aberta, nãogostando nada da idéia. – Sou muito pesada paravocê.___________________________________ 58C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  60. 60. – Turru, turru! Não seja boba. Já carregueio outro. Vamos. Mas primeiro apague essa luz. Apagada a luz, a noite ficou menos escura,meio cinzenta. A coruja postou-se no peitoril, debico para fora, e abriu as asas. Jill teve de ajeitar-se sobre o corpo curto e grosso, apertando osjoelhos sob as asas da ave. As penas eramquentinhas e macias, mas não havia nada em quese agarrar. Pensou: “Será que Eustáquio gostou dovôo?” Com um assustador mergulho no vazio,ambas deixaram a janela. As asas abanavam pertodas orelhas de Jill, e o ar da noite, meio frio eúmido, batia-lhe no rosto. O céu estava encoberto, mas um fulgorprateado mostrava as nuvens que tapavam a lua.Os campos embaixo eram cinzentos; as árvorespareciam negras. O ar abafado era sinal de chuva. A coruja deu uma volta e o castelo surgiuna frente dela. Havia poucas janelas iluminadas.Passaram por cima e cruzaram o rio. O ar ficava___________________________________ 59C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  61. 61. mais frio. Jill pensou ter visto o reflexo branco dacoruja na água. Logo voavam sobre a floresta. A coruja abocanhou qualquer coisa que Jillnão podia ver. – Por favor! Pare de sacudir desse jeito!Quase caí. – Mil perdões. Agarrei um morcego. Nãohá nada mais alimentício do que um morceguinhorechonchudo. Quer que eu pegue um para você? – Muito obrigada – respondeu Jill com umarrepio. Voavam agora mais baixo e uma coisaescura avultava-se diante delas. Jill só teve tempode ver que era uma torre, em parte arruinada ecoberta de hera, pois logo em seguida teve deabaixar a cabeça para não bater no arco de umajanela cheia de teias de aranha. Estavam numlugar escuro e bolorento no alto da torre. Nomomento em que deslizou de cima da coruja,adivinhou (como às vezes acontece) que o localestava repleto. Vozes começaram a falar de todos___________________________________ 60C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  62. 62. os cantos: “Turru! Turru!” Repleto, portanto, decorujas. Foi um certo alívio quando uma vozmuito diferente disse: – É você, Jill ? – É você, Eustáquio? – Acho que já estamos todos aqui – dissePlumalume. – Vamos dar início à sessão. – Turru, turru! Quem está certo és tu! Aquinão tem urubu! – disseram várias vozes ao mesmotempo. – Peço a palavra – disse Eustáquio. – Antesde mais nada quero dizer uma coisa. – Turru! Quem está certo és tu! – disseramas corujas. E Jill para ele: – Manda brasa. – Acho que oscompanheiros todos aqui... as corujas todas aquinão ignoram que Caspian X, no tempo damocidade, navegou para o Extremo Oriente. Bem,tive a honra de acompanhá-lo nessa viagem, nacompanhia ainda de Ripchip, o rato, do fidalgoDrinian e muitos outros. Sei que parece difícil de___________________________________ 61C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  63. 63. acreditar, mas as criaturas não envelhecem emnosso mundo no mesmo ritmo que no seu mundo.O que pretendo dizer é o seguinte: sou fiel ao rei,e se esta reunião de corujas tiver qualquer carátersubversivo, minha presença aqui é um equívoco. – Turru, turru! Somos todas fiéis ao rei,como tu! – Então, por que motivo estamos aqui? –indagou Eustáquio. – Muito simples – respondeu Plumalume. –Dá-se o seguinte: se o lorde regente, o anãoTrumpkin, souber que vocês pretendem procurar opríncipe desaparecido, não os deixará partir. E háde mantê-los confinados, sob vigilância. – Essa não! – exclamou Eustáquio. – Nãovai dizer que Trumpkin é um traidor? Ouvi muitosobre ele, nos velhos tempos. Caspian... o rei,digo... tinha nele uma confiança absoluta. – Mas não é isso – disse uma voz. –Trumpkin não é um traidor. O que se passa é oseguinte: mais de trinta dos nossos melhores___________________________________ 62C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  64. 64. guerreiros – centauros, bons gigantes e tantosoutros – já empreenderam várias viagens embusca do príncipe. Nem um só voltou! O rei disse,por fim, que não permitiria que os mais valentesnarnianos fossem aniquilados por causa de seufilho. Ninguém mais pode ir: é uma proibiçãoreal. – Tenho certeza de que nos deixará partir –disse Eustáquio – se souber quem eu fui e quemme enviou. – Quem nos enviou – acrescentou Jill. – Acredito que sim – ponderou Plumalume.– Mas o rei está ausente; Trumpkin observará aletra da lei. Trata-se de um anão verdadeiro comoa verdade, mas é surdo como uma porta e... umapimentinha. Não conseguirá convencê-lo de queagora é o tempo adequado para abrir uma exceçãona lei. – Não se esqueça – observou alguém – deque ele prestaria atenção ao que disséssemos, poissomos corujas, e todos sabem como as corujas sãosábias.___________________________________ 63C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  65. 65. – É, mas agora ele está tão velho quesimplesmente dirá: “Você não passa de um pinto.Eu me lembro de quando você era ainda um ovo.Não venha com lições para cima de mim. Orabolas!” A coruja que disse isso imitou tão bem avoz de Trumpkin, que foi uma gargalhada geral.As crianças começaram a perceber que osnarnianos olhavam para Trumpkin como alunosolham para um professor rabugento, do qual todossentem medo, mas de quem no fundo todosgostam. – Quanto tempo o rei passará fora? –perguntou Eustáquio. – Ah, se eu soubesse! – respondeuPlumalume. – Há rumores de que o próprio Aslamfoi visto nas ilhas (em Terebíntia, acho). O reidisse que fará tudo para vê-lo antes de morrer, afim de aconselhar-se sobre seu sucessor ao trono.Mas receamos que ele não encontre Aslam emTerebíntia e continue a viagem até as Sete Ilhas eas Ilhas Solitárias... e siga em frente. Ele nunca se___________________________________ 64C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  66. 66. refere ao assunto, mas sabemos todos que jamaisse esqueceu da viagem ao fim do mundo. Nofundo do coração, deseja ir até lá outra vez. – Assim sendo, é inútil esperar a volta dorei – disse Jill. – Inútil! – concordou a coruja. – Oh, o quefazer? Se ao menos vocês tivessem falado comele! Teria arranjado tudo... talvez mandaria umexército acompanhá-los. Jill ficou calada, esperando que Eustáquiotivesse a gentileza de não contar para as corujaspor que motivo isso não acontecera. Ele andouperto de contar, resmungando em voz baixa:“Culpa minha é que não foi.” Mas disse em vozalta: – Muito bem. Temos de dar um jeito. Mashá uma coisa que desejo saber: se esta reunião éleal e acima de qualquer suspeita, por que tem deser tão secreta, numa torre em escombros, nacalada da noite?___________________________________ 65C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  67. 67. – Turru, turru! – piaram diversas corujas. –E onde haveríamos de fazer a reunião? E não é sóna calada da noite que as pessoas se encontram? Plumalume interveio: – Acontece que a maioria das criaturas aquiem Nárnia têm hábitos pouco naturais. Fazemcoisas durante o dia, em plena luz do sol (oh!),quando todos deviam estar dormindo. Resultado:à noite ficam tão cegas e estúpidas que não searranca delas uma só palavra. E por isso que ascorujas têm o bom senso de fazer suas reuniõesnas horas noturnas. – Já vi tudo – disse Eustáquio. – Está bem,vamos continuar. Conte-nos tudo sobre o príncipedesaparecido. Uma velha coruja, e não Plumalume, foiquem narrou a história. Há cerca de dez anos, ao que parece,quando Rilian, filho de Caspian, era muito jovem,numa manhã de primavera, foi com a mãe acavalo para o norte de Nárnia. Levaram consigo___________________________________ 66C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  68. 68. numerosos escudeiros e damas de companhia.Não levaram cães, pois não iam caçar, masfestejar a primavera. À tarde chegaram a umaclareira onde jorrava a água pura de uma fonte; aídescansaram, comeram, beberam e riram. Como arainha sentisse sono, estenderam-lhe mantos narelva; o príncipe Rilian e os outros afastaram-se afim de não despertá-la com suas risadas econversas. Uma grande serpente surgiu da densafloresta e picou a rainha na mão. Ao ouvir o gritode dor, todos correram até ela. Rilian, espada empunho, partiu no encalço do animal, que eragrande, reluzente e verde como veneno. Mas aserpente deslizou para dentro das moitas espessase desapareceu. Ele voltou para perto da mãe,encontrando todos aflitos em torno dela. Era tardedemais. Rilian, ao vê-la, compreendeu que nenhummédico do mundo poderia fazer qualquer coisa.Enquanto lhe restava ainda um pequeno hausto devida, a rainha tentou dizer-lhe algo. Mas, incapazde articular com clareza, morreu sem transmitir___________________________________ 67C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  69. 69. sua última mensagem. Tudo não durou mais quedez minutos. A rainha morta foi transportada para CairPa-ravel e pranteada dolorosamente pelo filho,pelo rei e por todo o reino de Nárnia. Fora umagrande dama, cheia de sabedoria, de graça ealegria. O rei Caspian trouxera a noiva doExtremo Oriente. Diziam que corria em suas veiaso sangue da estrelas. O príncipe sofreu terrivelmente e, a partirde então, estava sempre a percorrer a cavalo asfronteiras do Norte, à caça da venenosa serpente.Ninguém dava grande atenção a isso, apesar de opríncipe voltar extenuado e agitado de suasperegrinações. Um mês depois da morte de suamãe, entretanto, alguns passaram a notar certamudança nele. Trazia nos olhos uma expressão dequem tivera visões; e, embora passasse todo o diafora, seu cavalo não demonstrava se ressentir dasduras caminhadas.___________________________________ 68C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  70. 70. Seu maior amigo, entre os velhos fidalgos,era Drinian, que fora capitão do navio de seu paina grande viagem para o Oriente. Uma noite Drinian disse para o príncipe: – Vossa Alteza deve cessar de caçar aserpente. Não há vingança em destruir um brutoirracional. É desperdício de energia. O príncipe respondeu: – Drinian, nesta última semana quase meesqueci por completo da serpente. Drinian quis saber qual era, então, o motivoque continuava a atrair o príncipe às matas doNorte. E ele respondeu: – Vi nas matas do Norte a criatura maisbela que jamais existiu. – Meu bom príncipe – replicou Drinian –,permita que amanhã eu o acompanhe, para quetambém possa ver a bela criatura. – Com grande prazer – concordou Rilian.___________________________________ 69C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  71. 71. No dia seguinte, selaram os cavalos epartiram a galope para as matas, apeando namesma clareira na qual a rainha encontrara amorte. Drinian estranhou que, dentre todos oslugares, o príncipe escolhesse aquele. Ali ficaramaté o meio-dia, quando Drinian viu a mais belacriatura que jamais existiu. Estava ao pé da fontee nada disse, mas fez um sinal para o príncipe,como se pedisse que se aproximasse. Era alta,viçosa, coberta por uma veste verde como veneno.O príncipe olhava para ela como se estivesse forade si. Subitamente, no entanto, a damadesapareceu, sem que Drinian soubesse como.Ambos voltaram para Cair Paravel. Drinian estava convencido de que aquelamulher fulgurante era maléfica. Pensou muito sedevia ou não contar a aventura para o rei, pois nãoqueria bancar o intrigante. Mais tarde arrependeu-se muito de ter silenciado o episódio, porque, nodia seguinte, o príncipe Rilian partiu sozinho enão voltou. Nunca mais foi visto em Nárnia, nemnas terras vizinhas. O cavalo e o manto tambémnão foram encontrados. Penando na sua amargura,___________________________________ 70C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  72. 72. Drinian procurou o rei e disse-lhe: “Senhor, mate-me logo como grande traidor; pelo meu silêncio,causei a destruição de seu filho.” E contou-lhetudo. Com um machete de guerra, Caspianprecipitou-se sobre ele para matá-lo; Drinianesperou impassível o golpe mortal. Subitamente,porém, o rei lançou fora o machete e bradou: “Jáperdi minha rainha e meu filho; devo tambémperder o meu amigo?” Caiu nos braços de Driniane ambos derramaram lágrimas de dor e verdadeiraamizade. E essa a história de Rilian. E quando acoruja terminou de contá-la, Jill foi logo dizendo: – Aposto que a serpente e a mulher eram amesma pessoa. – Turru, turru! – concordaram as corujas. – Mas não acreditamos que hajaassassinado o príncipe – disse Plumalume –, poisnão se encontraram ossos... – Sei disso – falou Eustáquio –, pois Aslamcontou para Jill que ele está vivo em algum lugar.___________________________________ 71C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  73. 73. – Isso é até pior – disse a mais velha dascorujas. – Significa que ela dispõe do príncipe etrama algum plano terrível contra Nárnia. Hámuito, muito tempo, no princípio de tudo, umafeiticeira branca, vinda do Norte, condenou nossoreino à neve e ao gelo durante cem anos. Essaoutra deve ser da mesma laia. – Muito bem – disse Eustáquio. – Jill e eutemos de encontrar o príncipe. Conto com a ajudade vocês? – E vocês sabem por onde começar? – Sabemos que temos de tomar a direçãonorte. E sabemos que devemos atingir a cidade emruínas dos gigantes. Foi um turru-turru-turru por todos oscantos. As corujas começaram a falar ao mesmotempo. Sentiam muito, mas não podiamacompanhar as crianças: “Vocês viajam de dia enós viajamos de noite. Não dá pé, não dá pé.” Uma coruja chegou a dizer que, mesmo alina torre, já não estava tão escuro como no___________________________________ 72C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  74. 74. princípio. A reunião prolongara-se por muitotempo. Ao que parece, a mera menção de umaviagem à cidade em ruínas dos gigantes haviaarrefecido o entusiasmo das aves. Mas Plumalumeinterveio: – Se eles querem ir nessa direção... pelacharneca de Ettin... devemos levá-los até umpaulama. São as únicas criaturas que poderãoajudá-los de fato. – Turru, turru! Quem está certo és tu! – Então, vamos – disse Plumalume. – Eulevo um. Quem leva o outro? Tem de ser hoje ànoite. – Eu levo: até a terra dos paulamas! – falououtra coruja. – Está pronta? – perguntou Plumalume paraJill. – Acho que Jill caiu no sono – disseEustáquio.___________________________________ 73C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  75. 75. 5 BREJEIRO Jill estava mesmo dormindo, depois de terbocejado o tempo todo durante a reunião. Nãogostou nem um pouco de ser acordada e de se vernum campanário empoeirado e escuro, cheio decorujas. Gostou ainda menos quando ouviu quedeviam partir para algum lugar que não pareciaser a cama – nas costas da coruja. – Ora, vamos, Jill – disse Eustáquio. – Émais uma aventura, afinal de contas. – Já estou cheia de aventuras – respondeu amenina, zangada. Mas acabou subindo em Plumalume, e ovento frio da noite deixou-a totalmente desperta(por algum tempo). A lua sumira e não haviaestrelas. Muito atrás, Jill conseguiu distinguir uma___________________________________ 74C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  76. 76. janela acesa, sem dúvida de uma das torres deCair Paravel. Isso lhe deu saudades daquelequarto maravilhoso. Colocou as mãos sob a capa,aconchegando-se. Eustáquio, a uma certadistância, conversava com a sua coruja. “Nemparece cansado”, pensou Jill, sem saber que oclima de Nárnia devolvia ao menino a força queadquirira quando navegara com o rei Caspianpelos mares orientais. Jill tinha de dar beliscões em si mesma paramanter-se acordada, temendo escorregar e cair dodorso de Plumalume. Quando as corujas chegaramao fim da viagem, ela pulou para o chão firme.Soprava um vento danado de frio. Não se via umaárvore. – Turru! Turru! – chamava Plumalume. –Acorde, Brejeiro, rápido. É da parte do Leão. Por um longo tempo não houve resposta.Depois, ao longe, surgiu uma luzinha, quecomeçou a aproximar-se. E uma voz: – Olá, corujas! O que há? Morreu o rei? Háinimigo em Nárnia? Enchente? Ou dragões?___________________________________ 75C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  77. 77. A luz vinha de uma lanterna, mas Jill podiadistinguir muito pouco da pessoa que a segurava.Parecia alguém feito só de pernas e braços. Ascorujas conversavam com ele, mas Jill estavacansada demais para prestar atenção. Tentoureanimar-se um pouquinho quando percebeu quese despediam dela. Nem mesmo mais tardeconseguiu se lembrar do que acontecera: sabiaapenas que entrara com Eustáquio por umaportinha e (oh, até que enfim!) pôde estender-sesobre alguma coisa macia e quente. E de uma vozque dizia: – Aí ficam vocês. O melhor que podemosdar. Chão frio e duro. E até úmido, é de seesperar. Não dá para tirar uma pestana, é claro,mesmo que não caia uma tempestade daquelas ouque a cabana não venha abaixo. Ajeitem-se comopuderem... Mas Jill caiu no sono antes que a vozterminasse... Quando as crianças acordaram no diaseguinte perceberam que tinham dormido num___________________________________ 76C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  78. 78. lugar seco e quente, em camas de palha. Aclaridade entrava por uma abertura triangular. – Estamos em terra? – perguntou Jill. – Na cabana de um paulama – respondeuEustáquio. – Na cabana de quem? – Um paulama. Não me pergunte o que éisso. Não consegui vê-lo ontem à noite. Vamosprocurá-lo. – Como é chato acordar hoje com a roupade ontem – disse Jill, sentando-se. – Engraçado: eu estava pensando como ébom a gente não ter de se vestir. – Nem de se lavar, na certa – replicou Jill,com ar de pouco caso. Mas Eustáquio já estava de pé, bocejando eespreguiçando-se, e logo caiu fora da cabana. Jillfez o mesmo. O que encontraram lá fora era bemdiferente do pedacinho de Nárnia visto navéspera. Estavam num terreno muito plano, cheio___________________________________ 77C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  79. 79. de inumeráveis ilhazinhas, cortadas porincontáveis canais. As ilhas eram cobertas decapim e cercadas de juncos. Nuvens de avespousavam e revoavam dos juncos: marrecos,narcejas, galinholas e garças. Viam-se por alimuitas cabanas iguais àquela em que passaram anoite, mas separadas a uma boa distância umasdas outras, pois os paulamas apreciam muito aprivacidade. A não ser a floresta, a muitosquilômetros de distância, não se via uma sóárvore. Para o leste, o alagadiço estendia-se nadireção de pequenas colinas arenosas. Ao norteficavam outras colinas esmaecidas. O resto eraalagadiço plano. Um lugar de dar tristeza numatarde de chuva. Visto ao sol matinal, com umvento refrescante, o ar repleto com os pios dasaves, era ainda um lugar solitário, mas tinha seusencantos. As crianças ficaram mais animadas. Jillperguntou: – Onde andará esse tal de paralama!___________________________________ 78C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  80. 80. – Paulama – respondeu Eustáquio,orgulhoso de saber o nome certo. – Acho... olhelá, só pode ser ele. Viram logo o paulama, sentado de costaspara eles, a uns cinqüenta metros, pescando. Nãoera fácil distingui-lo, assim tão quietinho e por serquase da mesma cor do alagadiço. Disse Jill : – Acho que o melhor é bater um papo comele. Sentiam-se um pouco nervosos, masEustáquio concordou. A medida que seaproximavam, a figurinha virou a cabeça,mostrando um rosto magro e comprido, sembarba, bochechas encovadas, boca apertada enariz pontudo. Usava chapéu alto, pontudo comouma torre de igreja, de abas enormes. O cabelo, seé que se pode chamar de cabelo, caído sobre asgrandes orelhas, tinha uma tonalidade cinza-esverdeada, e os tufos lisos lembravam juncosmiúdos. A expressão era solene: via-se logo quelevava a vida a sério.___________________________________ 79C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  81. 81. – Bom dia, meus hóspedes. É verdade quequando eu digo bom dia não estou querendo dizerque não vá chover... ou nevar... ou trovejar.Aposto que vocês não conseguiram dormir nemum pouco. – Pois dormimos muito bem – respondeuJill. – Passamos uma noite maravilhosa. – Ah! – replicou o paulama, sacudindo acabeça. – Sei que você está querendo bancar adurona. Faz muito bem. Aprendeu a sorrir nadesventura. – Qual é o seu nome, por favor? —perguntou Eustáquio. – Brejeiro. Mas não tem a menorimportância se esquecerem. Não me custa nadacontinuar dizendo que meu nome é Brejeiro. As crianças sentaram-se a seu lado,percebendo então que as pernas e os braços deleeram compridíssimos; apesar de o tronco não sermuito maior que o de um anão, ele devia ser, empé, mais alto que a maioria dos homens altos.___________________________________ 80C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  82. 82. Seus dedos das mãos eram ligados por umamembrana, como os dedos de um sapo, e domesmo jeito eram seus pés descalços, que elebalançava dentro da água lodosa. Usava roupas dacor da terra, que eram muito folgadas para ele. – Estou tentando pegar umas enguias parafazer um cozido, mas acho que não vou pegarcoisa alguma. E, mesmo que pegasse, vocês nãoiam gostar de enguias. – Por que não? – perguntou Eustáquio. – Ora, como é que vocês poderiam gostarda nossa comida? De qualquer maneira, enquantofico aqui tentando, os dois podiam tentar acendero fogo; não custa nada tentar! Tem lenha detrás dacabana. Deve estar danada de úmida. Podemacender o fogo dentro da cabana e chorar com afumaceira, ou podem acender o fogo do lado defora, e aí a chuva chega e apaga tudo. Aqui está aminha binga; suponho que não saibam mexer comisso? Mas Eustáquio aprendera essas coisas emsua aventura anterior. As crianças apanharam a___________________________________ 81C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  83. 83. madeira (que estava sequinha) e fizeram fogomais depressa do que se costuma. EnquantoEustáquio atiçava as chamas, Jill foi passar umaágua no rosto no canal mais próximo. Depois foi avez do menino. Sentiam-se muito melhor, mascom uma fome daquelas. O paulama juntou-se a eles. Apesar dopessimismo, trouxe uma dúzia de enguias, jálimpas. Pôs uma panela grande no fogo e acendeuum cachimbo. Os paulamas fumam um tabacomuito forte e esquisito (misturado com lama,dizem), e as crianças notaram que a fumaça nãosubia, pelo contrário, espalhava-se pelo chãocomo um nevoeiro. A fumaça escura fezEustáquio tossir. – Bem – disse Brejeiro –, essas enguias vãolevar um tempo enorme para cozinhar; vocês sãocapazes de desmaiar de fome. Conheci umamenina... mas é melhor não contar essa história.Coisa que eu não gosto é de deprimir os outros.Para disfarçar a fome, podemos também falar dosnossos planos. Querem?___________________________________ 82C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  84. 84. – Queremos! – gritou Jill. – Você podeajudar-nos a encontrar o príncipe Rilian? O paulama fez uma careta, encovandoainda mais as bochechas: – Bem, não sei se vocês chamam isso deajuda. Acho que ninguém é capaz de ajudarpropriamente. O lógico é a gente não ir muitolonge numa viagem para o Norte logo nesta épocado ano, com o inverno na porta, e outras coisasmais... Mas não devem desanimar por causa disso:com tantos inimigos, e montanhas imensas, e rioscaudalosos, e a dificuldade de achar o caminhocerto, e a falta de comida, ora, com tanta coisadesagradável, nem vamos dar atenção ao frio dematar. Afinal de contas, se a gente não chegarmuito longe, também não vai precisar voltarcorrendo. As crianças notaram que ele falava “nós” enão “vocês”. Perguntaram então ao mesmo tempo: – Você vem com a gente?___________________________________ 83C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  85. 85. – Oh, vou, naturalmente, é preciso. Achoque jamais veremos o rei de novo em Nárnia,agora que partiu para o exterior. E estava tossindomuito. E depois tem o Trumpkin, que já estábastante decadente. E vocês hão de ver: após esteverão de fogo, a colheita só poderá ser muitoruim. E para mim não será nenhuma surpresa seum inimigo nos atacar. Podem escrever o quedigo. – E como a gente começa? – perguntouEustáquio. A resposta veio com muita lentidão: – Bem... todos os outros que procuraram opríncipe Rilian começaram pela mesma fonteonde lorde Drinian viu a dama. Quase todos forampara o Norte. Ora, como nenhum deles voltou, nãopodemos saber o que se passou. – Devemos começar – falou Jill –encontrando uma cidade de gigantes, em ruínas.Foi o que disse Aslam.___________________________________ 84C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  86. 86. – Começar encontrando, não é? –perguntou Brejeiro. – Será que não é permitidocomeçar procurando a cidade? – Foi exatamente o que eu quis dizer.Depois de achada a cidade... – Ah, depois! – exclamou Brejeiro comsecura. – Ninguém sabe onde fica a cidade? –perguntou Eustáquio. – Eu não sei de ninguém. Mas não voudizer que nunca ouvi falar dela. Não precisampartir da fonte; vão pela charneca de Ettin. É ondefica a cidade em ruínas, se é que fica em algumlugar. Mas já fui bem longe nessa direção, comoquase todo mundo, e nunca topei com ruínaalguma. – Onde fica a charneca de Ettin? –perguntou Eustáquio. – Lá para as bandas do Norte – respondeuBrejeiro, apontando com o cachimbo. – Estãovendo aqueles montes e aquelas lascas de___________________________________ 85C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  87. 87. penedos? Pois lá é o começo de Ettin. Mas daquipara lá há um rio no meio, o rio Ruidoso. Não hápontes, é claro. – Espero que a gente consiga vadeá-lo –falou o menino. – Bem, já foi vadeado – admitiu o paulama. – E talvez encontremos em Ettin quempossa ensinar-nos o caminho – disse Jill. – Perfeito! Quem possa!... – Que espécie de gente vive lá? – indagouJill. – Não cabe a mim afirmar que eles nãoestão certos, ao modo deles – respondeu Brejeiro. – Mas o que são eles? – insistiu Jill. – Hátanta gente esquisita neste país! Estouperguntando se são animais, passarinhos, anões ousei lá o quê. O paulama deu um longo assovio: – Fiu! Você não sabe? Pensei que ascorujas tinham contado... São gigantes.___________________________________ 86C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  88. 88. Jill estremeceu. Jamais se dera bem comgigantes, mesmo nos livros, e já se encontraracom um durante um pesadelo. Notando depois acara de Eustáquio bastante esverdeada, achou queele estava pior do que ela (o que a fez sentir-semais corajosa). – O rei há muito me disse – falou Eustáquio–, quando andei com ele pelos mares, quederrotara esses gigantes e os forçara à submissão. – Verdade – confirmou Brejeiro. – Nãoestão mais em guerra conosco. Desde quefiquemos do lado de cá do rio Ruidoso, nãotocarão em nós. Mas do lado de lá... Sempre podehaver um jeito. Se não chegarmos muito pertodeles, se algum deles não perder a cabeça, se nãoformos vistos, poderemos caminhar um bompedaço. – Olhe aqui – disse Eustáquio, perdendo ocontrole, como costuma acontecer com as pessoasamedrontadas. – Não acredito na metade do queestá falando; as camas da cabana também nãoeram tão duras nem a lenha estava molhada.___________________________________ 87C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  89. 89. Aslam não nos teria enviado se o risco fosse tãogrande. Esperou que o paulama lhe respondesseenraivecido, mas não: – É isso aí, Eustáquio. E assim que se fala.É ver a coisa pelo lado melhor. Só que devemoster muito cuidado com os nervos, já que teremosde atravessar tantas dificuldades juntos. Nãoadianta brigar, pelo menos não desde já. Sei queas expedições desse tipo acabam em geral dessemodo: um esfolando o outro antes da hora.Quanto mais tempo a gente suportar... – Bem, se é tão pouca sua esperança –interrompeu o menino –, é melhor ficar. Jill e eupodemos ir sozinhos... – Não banque o burro, Eustáquio – atalhoua menina, apavorada com a idéia de que opaulama pudesse tomar as palavras dele ao pé daletra. – Não tenha receio – falou Brejeiro. – Eclaro que eu vou. Não posso perder essa___________________________________ 88C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  90. 90. oportunidade. Só irá me fazer bem. Eles sempredizem... os outros paulamas dizem... que eu soumuito volúvel; que não levo a vida muito a sério.Já disseram milhões de vezes: “Brejeiro, você étodo empáfia e fanfarronada, um brincalhão.Precisa aprender que a vida não é só rã e enguiana barriga, e mais nada. Precisa achar algo que lhesofreie um pouco. Estamos falando pelo seupróprio bem, Brejeiro.” É o que dizem sempre.Pois aí está a minha sorte: uma jornada para oNorte, na hora em que o inverno está começando!À procura de um príncipe que provavelmente nãose encontra lá! Passando por uma cidade emruínas que ninguém nunca viu!... Não podia sermelhor! Se uma aventura dessas não consertar umsujeito, é porque não tem mesmo conserto. E esfregou as mãos de sapo como seestivesse falando em ir a uma festa ou ao circo. – E agora – acrescentou –, vamos ver comoestão aquelas enguias. Pois foi uma refeição gostosíssima. Nocomeço o paulama não acreditou que eles___________________________________ 89C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  91. 91. poderiam gostar; quando comeram tanto que nãopodia haver mais dúvida, começou a achar queaquilo poderia não lhes cair bem. – Comida de paulama, veneno para gentehumana. Está na cara. Depois tomaram chá em latas, como osoperários bebem café na estrada, e Brejeiro deuumas boas goladas numa garrafa preta e quadrada.Perguntou se as crianças queriam provar, mas acoisa parecia repugnante. O resto do dia foi empregado empreparativos para a partida na manhã seguinte,cedinho. Brejeiro, sendo de longe o mais alto,carregaria três cobertores, com um bom pedaço detoucinho enrolado dentro. Jill devia levar assobras das enguias, uns biscoitos e a binga.Eustáquio carregaria duas capas, a dele e a dela,quando não precisassem vesti-las. Eustáquio (queaprendera a atirar um pouco na viagem aoOriente) levou o arco número dois de Brejeiro,que ficou com o melhor, dizendo que mesmoassim (com aquele vento, com as cordas úmidas,___________________________________ 90C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  92. 92. na luz de inverno, os dedos gelados) apossibilidade de acertarem em alguma coisa erauma em cem. Ele e Eustáquio levavam espadas.Eustáquio trouxera a que deixaram para ele noquarto em Cair Paravel. Jill teve de contentar-secom um canivete. Ia saindo briga por causa disso,mas o paulama, esfregando as mãos, foi logodizendo: – Já sabia disso; é o que acontece em geralquando as aventuras começam. Calaram-se logo. E foram dormir cedo nacabana. Dessa vez a noite para as crianças não foide fato excelente. Pois Brejeiro, depois de dizer“acho que ninguém vai fechar o olho esta noite”,começou na mesma hora a roncar alto e semparar. Quando Jill conseguiu por fim adormecer,sonhou o resto da noite com perfuratrizes deasfalto, cachoeiras e trens expressos atravessandotúneis.___________________________________ 91C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  93. 93. 6 AS TERRAS AGRESTES DO NORTE Na manhã seguinte, às nove horas, trêsfiguras solitárias podiam ser vistas procurando ocaminho através do rio Ruidoso sobre pedras ebaixios. Era um riacho raso e barulhento; nemmesmo Jill chegou a molhar mais do que o joelhoquando atingiram a outra margem. Uns cinqüentametros além, começava uma elevação de terrapedregosa e penhascos. – Acho que é este o nosso caminho – disseEustáquio. E apontou para a esquerda, para ondeum regato descia por um desfiladeiro raso. O paulama balançou a cabeça:___________________________________ 92C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  94. 94. – É na encosta desse desfiladeiro que osgigantes costumam viver. Para eles, o desfiladeiroé como uma rua. Melhor seguirmos em frente,apesar de ser um pouco íngreme. Acharam um lugar por onde podiam subiragarrando-se às pedras e, em dez minutos,chegaram ofegantes lá em cima. Deitaram umolhar saudoso para o vale de Nárnia e viraram-separa o Norte. A vasta e solitária charnecaestendia-se em todas as direções. À esquerda oterreno era mais rochoso. Puseram-se a caminho. Era uma terra boa para caminhar ao solmortiço do inverno. A medida que adentravam nacharneca, a solidão crescia: ouviam-se pios depássaros e via-se um ou outro falcão. Na metadeda manhã, pararam para descansar perto de umriacho, e Jill começou a imaginar que, afinal decontas, as aventuras podiam ser divertidas. E disseisso. – Ainda não tivemos aventura alguma! –falou o paulama.___________________________________ 93C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  95. 95. Caminhadas depois do primeiro descanso –assim como as manhãs na escola depois do recreioou as viagens de trem depois da baldeação –nunca são como eram antes. Quando se puseramoutra vez a caminho, Jill observou que a bordarochosa do desfiladeiro estava mais próxima. E aspedras eram menos achatadas, mais verticais,como se fossem pequenas torres. E tinham formasmuito engraçadas! “Acho”, pensou ela, “que essa históriasobre os gigantes começou com essas rochasengraçadas. Se a gente chegasse aqui aoescurecer, seria facílimo tomar aquelas pedras porgigantes. Olhem aquela ali! Não custa imaginarque aquele bola de pedra em cima é uma cabeça.Uma cabeça grande demais para o corpo, mas quenão ficaria de todo mal num gigante horroroso. Eaquelas moitas desgrenhadas – devem ser ninhosde pássaros – passariam por cabelos e barba. Eaquelas coisas penduradas de cada lado parecemmesmo orelhas. Orelhas monstruosamentegrandes, mas gigante deve ter mesmo orelhas deelefante. E... ooooh!”___________________________________ 94C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  96. 96. Ficou gelada. A coisa se mexia. Era de fato um gigante. Não havia maisdúvida: tinha virado a cabeça. Jill chegara aperceber a cara estúpida e bochechuda. Eramgigantes, não eram rochas, aquelas coisas. Unsquarenta ou cinqüenta, enfileirados. Tinham ospés pousados no fundo do desfiladeiro e oscotovelos apoiados na borda, como fazem ospreguiçosos na beirada de um muro depois doalmoço. – Em frente! – cochichou Brejeiro, quetambém os notara. – Não olhem para eles!Aconteça o que acontecer, não corram! Cairão emcima de nós como um raio. E assim continuaram, fingindo que nãotinham visto os gigantes. Era como atravessar oportão de uma casa onde houvesse um cachorroferoz, só que muito pior. Os gigantes nãodemonstravam raiva... nem bondade... nem omenor interesse. Nem davam sinal de que tinhamnotado os viajantes.___________________________________ 95C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  97. 97. Aí – zim, zim, zim –, um pesado objeto veiozunindo e um grande calhau explodiu uns vintepassos na frente deles. Depois – pimba! – caiu umoutro, cinco metros atrás. – Estão apontando para nós? – perguntouEustáquio. – Não – respondeu Brejeiro –, e estaríamosmais seguros se estivessem. Estão tentando acertarali, naquele monte de pedras à direita. Não vãoacertar nunca. Têm uma pontaria desgraçada.Passam a manhã quase toda brincando depontaria. É a única brincadeira que são capazes deentender. Foi um mau pedaço. A fila de gigantesparecia não acabar nunca, e não paravam de darpedradas. E, além do perigo real, as caras e osvozeirões já eram suficientes para apavorarqualquer um. Jill fez tudo para não olhar. Depois de quase meia hora, os gigantes,pelo jeito, começaram a brigar. Foi o fim doconcurso de pontaria, mas não é nada agradávelestar a um quilômetro de gigantes brigando.___________________________________ 96C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  98. 98. Agridem e escarnecem uns dos outros compalavras sem sentido, de vinte sílabas cada uma.Berram, espumam e saltam enfurecidos, fazendo aterra estremecer. Ferem-se uns aos outros nacabeça com martelões de pedra. As cabeças sãotão duras que os martelos saltam, e os monstrosdeixam cair o martelo e uivam de dor com osdedos machucados. Mas são tão estúpidos quevoltam a repetir a mesma coisa um minuto depois. De qualquer forma foi bom, pois depois deuma hora os gigantes estavam tão machucadosque se sentaram e começaram a chorar. Sentados,ficaram com a cabeça abaixo da borda dodesfiladeiro, e assim não foram mais vistos. Mas,mesmo um quilômetro à frente, Jill continuava aouvi-los uivar e abrir o berreiro, como se fossembebês enormes. Acamparam naquela noite em plenacharneca. Brejeiro ensinou às crianças como fazero melhor uso dos cobertores, dormindo uma decostas para a outra. (De costas, uma aquece aoutra, e podem-se jogar os dois cobertores por___________________________________ 97C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  99. 99. cima.) Mas estava gelado mesmo assim, e o chãoera duro e encaroçado. Disse-lhes o paulama que,para se sentirem melhor, bastaria lembrar queseria ainda muito mais frio quando seaproximassem mais do Norte. Mas isso não serviude consolo. Caminharam através de Ettin por muitosdias, poupando o toucinho e alimentando-seprincipalmente de aves (não eram, naturalmente,aves falantes) que Eustáquio e o paulamaderrubavam. Jill chegava a invejar a habilidade deEustáquio. Como havia riachos sem conta pelocaminho, água é que não faltava. Jill lembrou-sede que nos livros, quando as pessoas se alimentamde caça, nunca se faz referência ao trabalhomalcheiroso, demorado e sujo que é depenar elimpar uma ave abatida. O melhor é que nãotinham encontrado mais gigantes. Um deles osviu, mas deu uma gargalhada gigantesca econtinuou a tratar da vida. Por volta do décimo dia, chegaram a umlugar no qual a paisagem mudava. Tinham___________________________________ 98C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  100. 100. atingido a borda norte da charneca, que dava paraum território mais íngreme e penoso. No fundo deuma encosta havia penhas: além destas, uma terrade montanhas altas, negros precipícios, valespedregosos, abismos tão fundos e estreitos queficavam escuros, e rios que jorravam de gargantasressoantes para o fundo de sinistrosdespenhadeiros. Não é preciso dizer que foiBrejeiro quem apontou para um punhado de nevenas encostas mais distantes. – Mas haverá mais neve para o Norte, semdúvida – acrescentou. Levaram algum tempo para atingir o sopéda encosta. Olharam então do alto dos penhascospara um rio que corria embaixo, de oeste paraleste. Ladeado de precipícios, era verde esombrio, pontilhado de rápidos rios e cachoeiras.O rugido das águas estremecia a terra. – O melhor de tudo – disse Brejeiro – éque, se quebrarmos o pescoço ao descer dopenhasco, estaremos salvos de morrer afogados norio.___________________________________ 99C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI

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