Crônicas de moacyr scliar

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Crônicas de moacyr scliar

  1. 1. Desistindo de Natal Segundo pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pela AssociaçãoComercial de São Paulo, 32% dos consumidores não pretendem fazer comprasneste Natal. Folha Dinheiro, 9 de dezembro de 2005 "Prezado Papai Noel: há uma semana eu lhe mandei uma carta com a listados meus pedidos para o Natal. Agora estou mandando esta outra carta para dizerque mudei de idéia. Não vou querer nada. Ontem o papai nos avisou que não temdinheiro para as compras do fim de ano. Papai está desempregado há mais de umano. A gente mora numa cidade pequena do interior, muito pobre. No Natalpassado, o prefeito anunciou que tinha um presente para a população: uma grandefábrica viria se instalar aqui, dando emprego para muitas pessoas. Meu pai ficouanimado. Ele é um homem trabalhador, sabe fazer muitas coisas e achou que comisso o nosso problema estaria resolvido. Agora, porém, o prefeito teve de dizer quea fábrica não vem mais. Não entendo dessas coisas, mas parece que a situaçãoestá difícil. Portanto, Papai Noel, peço-lhe desculpas se o senhor já encomendou ascoisas, mas infelizmente vou ter de desistir. Para começar, não quero aquelabonita árvore de Natal de que lhe falei -até mandei um desenho, lembra? Nada depinheirinho, nada de luzinhas, nada de bolinhas coloridas. A verdade, Papai Noel,é que essas coisas só gastam espaço e, como disse a mamãe, gastam muita luz. E nada de ceia de Natal, Papai Noel. Nada de peru. Como eu lhe disse, nuncacomi peru na minha vida, mas acho que não vai me fazer falta. Se tivesse peru, eucomeria tanto que decerto passaria mal. Portanto, nada de peru. Aliás, se a gentetiver comida na mesa, já será uma grande coisa. Nada de presentes, Papai Noel. Não quero mais aquela bicicleta com a qualsonho há tanto tempo. Bicicletas custam caro. E além disso é uma coisa perigosa.O cara pode cair, pode ser atropelado por um carro... Nada de bicicleta. Nada de DVD, Papai Noel. Afinal, a gente já tem uma TV (verdade que demomento ela está estragada e não temos dinheiro para mandar consertar), masDVD não é coisa tão urgente assim. Também quero desistir da roupa nova que lhe pedi e dos sapatos. A minharoupa velha ainda está muito boa, e a mamãe vai fazer os remendos nos rasgões.E sapato sempre pode dar problema: às vezes ficam apertados, às vezes caem dopé... Prefiro continuar com meus tênis e o meu chinelo de dedo. Ou seja: nada de Natal, Papai Noel. Para mim, nada de Natal. Agora, se osenhor for mesmo bonzinho e quiser nos dar algum presente, arranje um empregopara o meu pai. Ele ficará muito grato e nós também. Desejo ao senhor um FelizNatal e um próspero Ano Novo." Folha de São Paulo (São Paulo) 19/12/2005
  2. 2. Felicidade não se compra. Nem mesmo pela internet "Sofá de dois lugares, seminovo: produtos como esse podem sair de sua casae serem vendidos com a ajuda da internet.". Folha Informática, 23.mar.2005 Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. A mulher odiava osofá de dois lugares que estava no living. Ele adorava o sofá de dois lugares queestava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir a TVaté altas horas. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porqueera ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir a TV até altashoras. E, vendo TV, o marido não queria fazer programas, não queria passear, nãoqueria nem conversar. Em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquerpreço. O marido não acreditava. Porque a mulher não tinha jeito para negociar. Nãosabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. Se dependesse desua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living pormuitos e muitos anos. De modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando dotrabalho, não encontrou o sofá. Vendi, disse a mulher, triunfante. Ele não quisacreditar, achou que fosse brincadeira. Ela explicou: graças à internet, tinhavendido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregaro dinheiro e levar o sofá. Aquilo deixou-o furioso. Queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nomedo comprador. Ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo. Brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vaziodesde que a filha tinha casado. De madrugada, uma idéia lhe ocorreu. Correu averificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pelacompradora, com nome, endereço, telefone. No dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la comurgência: assunto ligado à compra do sofá. Ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. Ele foi até a casa, num bairro afastado. E ali estava a mulher, ainda jovem, aesperá-lo. No living, diante da TV, o sofá de dois lugares. Que ele quis comprar de volta. Ela recusou; gostara do sofá, não o venderia.Ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro daquantia que ela havia despendido. Nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acaboudesistindo. Antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela nosofá. Ninguém, foi a resposta. Divorciada, estava sozinha havia algum tempo.Comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar umcompanheiro. Ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. Senta-se ao lado dela paraver TV, coisa que adora. No começo, ela gostava da companhia. Mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazerprogramas, não quer passear, não quer nem conversar. Ela pensa seriamente em vender o sofá. Não é muito hábil nessas coisas,mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema. Folha de São Paulo (São Paulo) 28/03/2005
  3. 3. A volta do filho pródigo "Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitentapor cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independênciasão as causas mais freqüentes das fugas. A volta é acompanhada dearrependimento". Folhateen, 28.mar.2005 Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa,eram freqüentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas,das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos,aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora demostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botoualgumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou umônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos. Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso.Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue àprópria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco,foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandouum e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãeera uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como "Filho Pródigo". Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como jánão tinha chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa. O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer oconhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio,disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em umaimobiliária: - Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram. A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio: - Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizandoo outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De suamãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual. Fábio não agüentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele,abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhemostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambosrindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa. A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lheensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, épor uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Maistarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aílevará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados. Folha de São Paulo (São Paulo) 04/04/2005
  4. 4. Continente e conteúdo Uma frase pronunciada pelo presidente Lula durante um jantar na embaixadado Brasil em Tóquio quase provocou outra tensão diplomática entre Brasil eArgentina. O principal jornal do país vizinho, o "Clarín", reproduziu informações dacoluna do jornalista Fernando Rodrigues, na Folha, de que o presidente brasileirodisse a interlocutores que "temos de ter saco para aturar a Argentina". A frase,entretanto, foi traduzida pelo diário como "hay que tener bolas para bancar a losargentinos", o que pode ser interpretado não no sentido que tem a expressão emportuguês, de ter paciência, mas sim algo parecido com "temos de ser machospara agüentar os argentinos". Folha Brasil, 31.05.2005 Como atesta qualquer tratado de embriologia, os testículos nascem em umrecôndito lugar do abdome, mais precisamente junto aos rins. Ali poderiam ficar,desempenhando tranqüilamente sua função de gerar os espermatozóides quedarão continuidade à espécie. Mas, por alguma razão, os testículos (e nisso, comono resto, embora sendo dois estão sempre de acordo) não se resignam com talposição anatômica, por eles considerada incompatível com a dignidade de órgãosque, afinal, representam a masculinidade. Junto aos rins, junto às tripas? Jamais.De modo que trataram de migrar. Num movimento tipo invasões bárbaras,começaram a descer abdome abaixo. Queriam mais luz. Queriam visibilidade,queriam exposição. Queriam criar uma imagem própria, porque, como se sabe,imagem é tudo. Para desagradável surpresa de ambos, contudo, não ficaram à mostra comoacontece com os seios. Foram dar, literalmente, num "cul-de-sac", num fundo desaco, e, pior ainda, num engelhado saco de pele conhecido como escroto, palavrade óbvia conotação pejorativa. A fúria de ambos foi enorme, e eles a despejaram no alvo mais próximo emais inerme, exatamente o tal saco escrotal. Você é um saco, diziam sem cessar,você não passa de um medíocre desmancha-prazeres. O pobre escroto nadarespondia. Estava acostumado a um papel subsidiário na anatomia; apenasobtinha algum consolo quando o seu dono -mas só quando não tinha o que fazer -coçava-o distraidamente (e nisso, ao contrário do que diziam os testículos, pareciaobter certa satisfação). De dentro do seu modesto invólucro, os testículos continuam se gabando:somos muito machos, repetem a todo instante, não temos paciência com osperdedores. E prometem que um dia virão à luz, proclamando ao mundo seu poderhegemônico sobre o continente. Haja saco para aturar esses caras, pensa o escroto. Pensa, apenas. Saco,como se sabe, não fala. Folha de São Paulo (São Paulo) 06/06/2005
  5. 5. Os dilemas da Fortuna Uma americana de 55 anos ganhou duas vezes na loteria no espaço de cincomeses no Estado da Pensilvânia -uma coincidência cuja chance de acontecer é de1 em 419 milhões. Donna Goeppert ganhou US$ 1 milhão (R$ 2,43 milhões) emcada vez que foi premiada pela loteria da Pensilvânia. Folha Online, 16.06.2005 Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a chance deacertar duas vezes na loteria não deve ser muito maior. Quando isso aconteceu,ela ficou simplesmente estarrecida, mesmo porque não era uma pessoaparticularmente afortunada: ao contrário, ela e o marido levavam uma vidamodesta, no interior, lutando com dificuldades. Agora, porém, tudo mudava: 1milhão de dólares, e mais 1 milhão de dólares -duas vezes milionária ela podiapensar em se aposentar, em deixar de trabalhar, em passar o resto de seus diasgozando a vida.Não era o que pensava o marido. Logo depois da notícia do prêmio ele ficara muito contente. Em seguida,porém, começou a se mostrar inquieto. Homem dado a certas especulaçõesesotéricas, acreditava que aquilo não era acaso, mas sim um desígnio do Destino.Há um recado aí, repetia constantemente à mulher. Um claro recado, para ele: amulher deveria apostar de novo. Quem tinha ganhado duas vezes seguramenteganharia uma terceira vez. Mais: ele passou a acreditar que a mulher, para quemaliás nunca dera muito bola, era uma criatura especial. Aquele tom meioesverdeado de sua pele, aqueles olhos esbugalhados, os cabelos que - por causado curioso penteado - pareciam duas antenas, aquilo não apontaria para uma certaorigem misteriosa? Não seria ela uma alienígena, uma Supermulher, deixada aindabebê na maternidade do lugarejo, em lugar de outra menina qualquer? Ela deveriajogar na loteria, sim. Jogaria e ganharia. Mesmo porque, como ele deixava claro,não se tratava só de dinheiro. Ganhando três vezes na loteria ela deixaria de serapenas uma pessoa de sorte, passaria a ser uma mulher abençoada, prodigiosa. Eaí mil possibilidades surgiriam: ela poderia, por exemplo, dar início a uma novaseita (para a qual ele já tinha até um nome: a Falange dos Afortunados). Poderiafornecer franchising para videntes e adivinhos. Poderia começar uma carreirapolítica, chegando, sem dúvida, à Presidência da República: quem deixaria devotar numa mulher capaz de prever o resultado de qualquer guerra? Os argumentos do marido deixavam-na apreensiva. Por ela, nunca maischegaria sequer perto de uma lotérica. Mas sabe que ele ainda dá as cartas. Nãoescapará, portanto: um dia terá de apostar de novo. Se isso for realmenteinevitável, sabe o que fazer: usará seus 2 milhões de dólares para comprarbilhetes de loteria. Um deles forçosamente terá de ser premiado. O Destino nãopode ser tão ruim assim. Folha de São Paulo (São Paulo) 20/06/2005
  6. 6. Biocombustível Cientistas de Cingapura criaram uma bateria que gera eletricidade a partir daurina. Folha Online, 17 de agosto de 2005. Quando leram sobre a bateria inventada pelos cientistas de Cingapura, osquatro ficaram alvoroçados. Cientistas amadores, eles se reuniam há anos paradiscutir projetos e inventos que em geral nunca saíam do papel. Mas a idéia dabateria de urina parecia sensacional. Como disse um deles, o mais entusiasta dogrupo, tal invento revolucionaria o nosso mundo: uma fonte de energiacompletamente alternativa que poderia figurar com destaque ao lado do biodiesel edo álcool. Seria também uma colaboração para o saneamento básico. Por último, enão menos importante do ponto de vista simbólico, recuperaria um produto doorganismo sempre desprezado. "Sai na urina" era uma frase que ninguém maisdiria. Lançaram-se, pois, ao trabalho. A bateria de Cingapura na verdade era um microchip, para uso emequipamento médico miniaturizado. A bateria que eles pretendiam era outra, umafonte de energia capaz de mover um carro elétrico, por exemplo, assim ajudando aacabar com a crise do petróleo. Depois de muita pesquisa e depois de muitosesforços conseguiram fabricar a tal bateria. Com uns 50 centímetros de altura eoutros tantos de largura não era pequena; além disso, tinha acoplado um tanqueonde seria depositada a urina que, através de uma reação química, produziria aeletricidade. Os primeiros testes se revelaram satisfatórios e eles estavam muito contentes,mas aí se depararam com um problema. Como era de esperar, a bateria consumiaurina. Mas não era pouca urina. Para mantê-la funcionando, os quatro tinham defazer generosas contribuições, e mesmo assim não era suficiente. De modo que seviram diante de uma questão - como aumentar a produção de sua própria urina?Foi aí que um deles se lembrou da cerveja, da qual todos gostavam. Cerveja,como se sabe, faz urinar; e graças às enormes quantidades que tomavam,urinavam muito. Ficaram alegrinhos, também, mas isso só fazia aumentar ootimismo deles. Logo se deram conta de que cerveja não era suficiente. Precisavam de maisurina. Há substâncias que fazem urinar, os diuréticos, mas aí eles teriam de correra toda a hora para o banheiro e corriam o risco da desidratação. Isso sem falar narelação custo-benefício: com o que já tinham gasto em cerveja e com o quegastariam em diuréticos, provavelmente a bateria deixaria de ser rentável. Acabaram abandonando o projeto. A bateria ainda está lá, no banheiro doescritório que eles partilham. Cada vez que um deles entra para fazer xixi, ageringonça solta umas faíscas. É, por assim dizer, uma manifestação deesperança, de confiança na imaginação criativa dos cientistas amadores. Folha de São Paulo (São Paulo) 29/08/2005
  7. 7. Como vencer o jogo da corrupção Corrupção na política vira jogo. Empresário lança "Escândalo!", que trazparlamentares como personagens. É um jogo recheado de fraudes e chantagens. Folha Brasil, 15.09.2005 Um novo jogo está sendo lançado no país e, ao que tudo indica, logo terámuitos aficcionados. Não é fácil de disputar, mas está na ordem do dia. Aqui vãoalgumas dicas para aqueles que estão interessados. Veja como vencer o jogo dacorrupção: 1. Posicione-se adequadamente na estrutura política. Para dirigir o tráfico deinfluências, é imprescindível estar por cima. Quanto maior a altura, maior o tombo?Talvez. Mas também quanto maior a altura, maiores as oportunidades. 2. Descoberto, negue. Negue com veemência, com convicção, comindignação, se possível. Fale em armação, fale em provas forjadas, fale até emconspiração. Descreva-se como vítima, como perseguido, como mártir. 3. Aperfeiçoe sua cara-de-pau. Você deve ter completo e absoluto domíniosobre seus músculos faciais. É preciso, por exemplo, olhar fixamente para acâmera de TV. Não pisque. Qualquer bater de pálpebras pode ser uma evidênciacontra você. 4. Crie suspense. Anuncie que você tem um documento secreto, sensacional -mas que só vai exibi-lo no momento adequado. Enquanto todos ficam aguardandoo momento adequado, você aproveita o tempo para ganhar fôlego e pensar emalgum outro truque. 5. Não confie em ninguém. A corrupção não gera amigos, gera sócios -e éuma sociedade transitória, pronta para ser desmanchada quando as tramóias vêmà luz. 6. Se nada mais der certo, parta para a solução extrema: defenda acorrupção. Isto mesmo: defenda a corrupção. Você dirá que para tanto é precisouma boa dose de cinismo, mas às vezes o cinismo é a única alternativa que restaa quem está contra a parede. Sustente que a corrupção não passa da continuaçãodos negócios por outros meios, que é o único recurso contra a pesada burocraciaestatal, que tantos problemas tem causado à economia. Descreva a corrupçãocomo uma espécie de lubrificante social, criado exatamente para facilitar as coisasàqueles que têm o senso de oportunidade. Retorne ao argumento do "rouba masfaz", evocando políticos que enriqueceram ilicitamente mas que não deixavam deser grandes empreendedores. Descreva a propina e a comissão como retribuiçãoinformal de serviços prestados, muitas vezes por pessoas cujos salários não estãoà altura de seu talento e de sua esperteza. Pondere que no orçamento de umaobra que custa, digamos, R$ 100 milhões, 1 milhão a mais ou a menos não farámuita diferença; o importante é que a obra seja realizada (e inaugurada). Enfim,tenha convicção. E confie no inesperado. É um elemento sempre presente no jogoda corrupção. Folha de São Paulo (São Paulo) 19/09/2005
  8. 8. Contra a pirataria Dupla assalta joalheria e escolhe marcas de relógio para levar. Um dosladrões abordou uma vendedora de uma joalheria que inspecionava a vitrine; oassaltante levantou sua blusa, mostrando uma arma à vendedora. Dentro da loja,outras vendedoras foram rendidas e obrigadas a recolher relógios das marcasBreitling, Omega e Mont Blanc da vitrine. Folha Online, 18 de outubro de 2005 Os dois assaltantes, um alto e robusto, outro baixo e magrinho, eramexperientes e organizados. Sabiam exatamente as marcas de relógio que queriam;coisa fina, nada de despertadores baratos. Examinavam cada relógio que eratrazido da vitrine pelas vendedoras, antes de colocá-los numa valise. Lá pelastantas surgiu um problema. Olhando um caríssimo relógio Breitling, o alto erobusto, que aparentemente era o chefe, teve uma súbita suspeição: - Acho que este aqui é falso. Mostrou ao colega, que ficou em dúvida: podia ser falso ou não. Na dúvidachamaram a vendedora-chefe. Que ficou indignada: - Falso, em nossa relojoaria? A loja mais famosa da cidade? Uma loja queestá há 30 anos no ramo, que tem clientes famosos? Ora, façam-me o favor,amigos. Assalto, sim; ofensa, não. Levem tudo, mas nos respeitem. Os assaltantes não se deixaram impressionar pela retórica. Afinal, como disseo baixinho, a pirataria campeava. Se CDs eram pirateados, por que não relógios,mercadoria mais valiosa e cobiçada? Queriam provas de que o Breitling eraverdadeiro. A vendedora-chefe pediu licença, foi até o escritório e voltou com umdocumento escrito em inglês. - O que é isto, perguntou o alto. - É um certificado de autenticidade. Acompanha o relógio. Os dois miraram o papel com desconfiança. Não sabiam inglês; além disso,quem lhes garantia que o certificado de autenticidade era autêntico, e não umafalsificação? Resolveram convocar o dono da relojoaria para esclarecer a questão.A vendedora-chefe resistiu o quanto pôde, mas, com um revólver encostado nocrânio, não teve outro jeito: ligou para o dono, que aliás morava ali perto, pediu queviesse para atender "dois clientes muito importantes". Vinte minutos depois ohomem chegava, esbaforido. Apesar da visível perturbação das vendedoras, nãodesconfiou de nada, mesmo porque os assaltantes, bem vestidos, e com as armasagora ocultas, pareciam mesmo clientes, e clientes muito cordiais. - Eu tenho este relógio Breitling -disse o alto- que estou pretendendo trocar.Queria sua valiosa opinião: é falso ou verdadeiro? Para o dono da loja, um veterano no ramo, bastou um olhar: é falso,proclamou. E aí mostrou o relógio que tinha no pulso: - Este, sim, é verdadeiro. Escusado dizer que os assaltantes levaram o Breitling verdadeiro. E o fizeramcom absoluta tranqüilidade. Deve-se confiar na palavra de quem entende doassunto. Folha de São Paulo (São Paulo) 24/10/2005
  9. 9. Parada obrigatória "1.000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer", best-seller mundial daamericana Patricia Schulz lançado no Brasil pela Sextante, traz cerca de 20paradas obrigatórias no país. Mônica Bergamo, 23 de abril de 2006 Tão logo ele tomou conhecimento dos mil lugares imperdíveis no mundo,decidiu: seria o primeiro brasileiro a conhecê-los todos. Homem muito rico,recursos para isso não lhe faltariam. Pretendia, inclusive, realizar este périplo emtempo recorde, em primeiro lugar para dar à façanha ainda maior destaque edepois porque, pela idade, já não podia fazer planos a longo prazo. Assim, tudo oque faria era entrar nos lugares mencionados na obra, tirar uma foto e seguiradiante. Consultou um amigo, dono de uma grande agência de turismo. Sim, erapossível fazer aquilo em um ano, desde que ele alugasse um jatinho particular. Oque sem demora foi feito, e assim ele partiu, disposto a visitar pelo menos trêslugares por dia. Era difícil, mas ele o conseguiu e assim pouco a pouco foi riscandoos lugares de sua lista. Deixou o Brasil para o fim. Em nosso país eram cerca de 20 lugares, a maioriadeles em São Paulo, cidade onde nascera e onde morava. Os amigos esperavamque ali se encerrasse a gloriosa trajetória, mas seus planos eram diferentes.Queria terminar com o Copacabana Palace, no Rio. Havia uma razão para isso, uma razão muito especial. Anos antes ele seapaixonara por uma mulher, uma jovem e linda carioca. Paixão tão fulminante, tãoavassaladora, que ele decidira largar tudo, esposa, filhos, empresas e viver com amoça no Rio. Para tanto, haviam marcado um encontro no Copacabana Palace. Encontro ao qual ele não compareceu. Chegou a viajar para o Rio e, noaeroporto, tomou um táxi para ir ao famoso hotel, mas no meio do caminhodesistiu: não, não abandonaria tudo que havia conquistado por causa de umaaventura amorosa. Voltou a São Paulo sem ir ao Copacabana Palace -no qual,aliás, nunca entrara. Agora, finalmente, adentraria o hotel. Não mais para uma aventura, mas paragozar seus 15 minutos de fama. Seus assessores haviam avisado a imprensa, quelá estaria para registrar o clímax da aventura, a chegada ao último dos mil lugares. Já era noite quando o jatinho pousou no aeroporto. Ele tomou um táxi.Nervoso: já estava atrasado. E, para cúmulo do azar, havia um congestionamentoem Copacabana. Decidiu completar o trajeto a pé, apesar das advertências domotorista. Já estava a uns 200 metros do famoso prédio da avenida Atlântica, quando oassaltante lhe apontou o revólver. Ele fez um gesto - um gesto que queria dizerleve tudo, mas não me retenha, tenho um encontro com o Destino - mas foi malinterpretado: o homem achou que ele tentava reagir e disparou. Caído no chão, agonizante, tinha apenas uma mágoa: havia um lugar, umúnico entre mil outros lugares, que ele não veria antes de morrer. O problema,concluiu antes de expirar, é que a gente não pode ter tudo o que se quer na vida. Folha de S.Paulo (São Paulo) 01/05/2006
  10. 10. Namoro e vestibular Namorados disputam vaga na USP. Fuvest leva casais a testarem não só oconhecimento mas também sua relação afetiva. Fovest, 22 de novembro de 2005. Esta história aconteceu há muito tempo, numa época em que a fiscalização daprova não era muito rigorosa. E só porque não era rigorosa que a história pôdeacontecer. Júlio e Francesca foram fazer vestibular para medicina. Eles eram namorados,amavam-se muito e, porque se amavam, tinham decidido seguir a mesmaprofissão, que ambos, aliás, admiravam muito. Naturalmente, estudaram juntospara o exame; mas aí havia uma diferença. Francesca, que era inteligente,aprendia as coisas com facilidade. Júlio, que tinha um raciocínio mais lento, nãoconseguia acompanhá-la. Mas, afinal, eram namorados e Francesca tratava deajudá-lo como podia, garantindo que no fim tudo correria bem e que seriam ambosaprovados. Veio o dia da prova, realizada no salão nobre da faculdade de medicina local,que funcionava num antigo e majestoso prédio. O local não era grande e as mesasnão ficavam muito separadas. Júlio e Francesca sentaram-se juntos para realizar aprimeira prova, que era então a de química. Foram distribuídas as questões. Todospuseram-se a trabalhar. Júlio estava apavorado. Ele não sabia nada do que fora perguntado. Era comose o conhecimento tivesse sumido de repente de sua cabeça. Notou então que oúnico fiscal da prova olhava distraidamente pela janela. Aproveitou e, em vozbaixa, perguntou a Francesca qual era a resposta da primeira questão. Sem nemsequer olhá-lo, ela respondeu, em tom baixo, mas firme, que colar no vestibularera proibido. Júlio não podia acreditar no que estava ouvindo. Francesca, a sua Francesca,negava-se a ajudá-lo naquele instante de angústia? Aquilo representava um duplochoque e ele ficou ali, imóvel, atarantado, sem saber o que fazer ou o que pensar. Ao lado dele estava sentada Luciana. Amiga de ambos, ela nutria por Júliouma paixão secreta. Percebendo o que acontecia, e num impulso, sussurrou aorapaz a resposta da primeira questão. E depois a resposta da segunda, e aresposta da terceira. Júlio e Francesca foram aprovados, Luciana não -muito boa em química, elaera fraca em física, e este exame acabou por excluí-la. Seu único consolo era terajudado o amado. Júlio e Francesca formaram-se há vários anos. Ambos são cirurgiões. Ah, sim,e estão casados. O trabalho no campo operatório acabou por reaproximá-los. Sãomuito felizes. E nunca mencionam o dia em que fizeram o exame de química novestibular. Folha de São Paulo (São Paulo) 28/11/2005
  11. 11. O carro com paixão Garagem na sala. Pode até parecer loucura, mas alguns motoristas cobiçamtanto um veículo que, quando conseguem comprá-lo, colocam-no dentro de casa. Classificados/Veículos, 6 de novembro de 2005 Apaixonado por carros ele era, e desde criança. Sabia tudo sobre automóveisantigos. O Ford modelo A? Dizia em que ano havia sido projetado, quantosautomóveis haviam sido vendidos na primeira leva. O Oldsmobile Ninety-Eigth1957? Descrevia a grade do motor, o painel, o estofamento. O Chevrolet 1937?Sabia até a potência do motor e onde, exatamente, ficava o botão do arranque. Se pudesse, ele se tornaria colecionador. Compraria lendários modelos,levaria para sua casa, montaria uma exposição permanente. Mas isso não podiafazer. Em primeiro lugar, porque não tinha dinheiro. Auxiliar de escritório, malganhava para sustentar a si próprio e à mulher. Em segundo lugar, não tinhaespaço para tais carrões: morava numa casinha de subúrbio, sem garagem, semquintal. Mas aí o destino interveio. Através de um amigo ficou sabendo do falecimentode um famoso colecionador - cuja esposa, que detestava a paixão do marido,estava se desembaraçando dos carros por preços relativamente acessíveis.Esperançoso, foi até lá. Mas chegou tarde: todos os antigos modelos haviam sidocomprados. Com exceção de uma enorme limusine, daquelas usadas em NovaYork para transportar celebridades e que ninguém comprara, exatamente porcausa do tamanho. - Sabe de uma coisa? - disse a senhora. - Se você quiser, pode levar essetrambolho de graça. Já estou farta dessa coisa. Quase sem acreditar no que ouvia, ele entrou na limusine e deu a partida. Amulher abanou para ele e entrou na casa, aliás um palacete. Tripulando o carrão (echamando a atenção de todo mundo) foi para casa. A mulher se desesperou. Onde colocariam aquilo? Dentro de casa, disse ele.Naquele fim de semana demoliu a parede da frente, introduziu a limusine norecesso do lar e tornou a edificar a parede. Mas o veículo era tão grande quetiveram de retirar todos os móveis da sala-quarto, inclusive a cama. O que nãoseria um problema: ele deu o jeito de transformar a limusine em quarto e em sala.A esposa, que nunca reclamava de nada, aceitou o arranjo. E, assim, realizaramum sonho dele: moravam num automóvel, aliás com bastante conforto. Poderiam ter sido felizes para todo o sempre, se não fosse o mecânico queele chamou para consertar um pequeno defeito no carro. A mulher se apaixonoupelo homem, aliás muito bonito, e fugiu com ele. O colecionador viu os dois saindo, ela de mala na mão. Pensou em ir atrásdeles, na limusine. Mas para isso teria de usar o carrão para demolir a parede dafrente. E ele jamais arranharia uma pintura tão bem conservada. Folha de São Paulo (São Paulo) 14/11/2005

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