1097
O ROSTO SURREALISTA DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: ANÁLISE
HISTÓRICA A PARTIR DA OBRA DE ROBERTO PIVA.
Kátia Mayra Lopes Ba...
1098
O ROSTO SURREALISTA DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: ANÁLISE
HISTÓRICA A PARTIR DA OBRA DE ROBERTO PIVA.
Com o crescimento ve...
1099
não ser apenas artístico, de preocupações essencialmente estéticas. A
crítica à razão tradicional, os métodos de cria...
1100
políticos, na influência do desenrolar do século XX. Objetivamos
estabelecer diálogos entre os aspectos concretos do ...
1101
como (através das descobertas de Freud sobre o funcionamento da mente
humana) as oposições culturalmente e historicam...
1102
possibilidade de agir de forma revolucionária na atualidade, pois ela
comunica o que os discursos somente políticos, ...
1103
analisados em sua formação histórica. Assim, será necessária a busca de
documentos que permitam uma análise concisa d...
1104
cidades, num estudado contraste com a atividade apressada e intencional
delas, que as coisas se revelam em seu sentid...
1105
violência & angústia de suas almas em música
das esferas. 505
No ano de 1924 era lançado na França o Manifesto do
Sur...
1106
essência repressiva inevitavelmente. Herbert Marcuse, em Eros e
Civilização508
, realizou uma análise filosófica do t...
1107
à sonhos lúcidos, meditação, Yôga, terapias naturais como as avaliações
bioenergéticas, e muitos mais.
O surgimento d...
1108
por se identificarem, sentindo-se seguras já que amparadas por lugares
comuns, compartilhar ilusões vigentes é “outro...
1109
Referências
ALMEIDA, Jozimar Paes de. A instrumentalização da natureza pela ciência.
In: Revista Projeto História – N...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

O rosto surrealista_do_brasil_contemporaneo_analise_historica_a_partir_da_obra_de_roberto_piva

203 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
203
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
7
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

O rosto surrealista_do_brasil_contemporaneo_analise_historica_a_partir_da_obra_de_roberto_piva

  1. 1. 1097 O ROSTO SURREALISTA DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: ANÁLISE HISTÓRICA A PARTIR DA OBRA DE ROBERTO PIVA. Kátia Mayra Lopes Batista Prof. Rogério Ivano (Orientador) RESUMO Sentenciar o sono eterno dos instintos e dos sentidos, segundo autores como Freud e Marcuse, seria parte do que a civilização e sua razão operante fazem aos seres humanos para que se instaure seu “progresso”; ela nos separa da natureza terrestre e de nossa própria natureza; a essa negação da vida, alguns autores respondem com a negação, teorizada, exemplificada, a essa concepção de vida repressora. Com a intenção de analisar o contexto social-cultural da cidade de São Paulo a partir de um ponto de vista ainda pouco explorado, escolhemos a obra do poeta Roberto Piva, poeta paulista que iniciou suas publicações em 1961, tendo recebido influência do surrealismo e praticando também modos de vida e pensamento que se ligam ao movimento. Ao partirmos para a busca de documentos para uma análise social através das manifestações artísticas do caráter das que apresentaremos, consideramos a concepção básica presente na análise de Walter Benjamin acerca das produções surrealistas, de que as mesmas eram inspiradas na realidade factual, material, e não apenas alçavam vôo baseadas em fantasias irreconciliáveis com a vida do sujeito que escrevia. Palavras-chave: Surrealismo, Roberto Piva, São Paulo.
  2. 2. 1098 O ROSTO SURREALISTA DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: ANÁLISE HISTÓRICA A PARTIR DA OBRA DE ROBERTO PIVA. Com o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo no decorrer do século XX, pôde-se observar uma voz poética que trazia o delírio, saindo da tormenta da cidade. Estamos falando de Roberto Piva, poeta falecido neste ano de 2010. Os poemas de Piva estão povoados de referências a São Paulo, sua cidade, “OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar/ asilo na tua face?”493 , e sua postura de vida correspondeu ao desejo manifesto no surrealismo de que vida e obra não se separassem. São inúmeras características que o identificam partilhando do surrealismo em sua escrita, aspecto que o mesmo sempre ressaltou em entrevistas. Os temas surrealistas sempre estiveram ligados à cidade e seu caos, ou seja, advém de uma inspiração materialista, e não do caráter “puramente” (se é que isso é possível) ilusório de algum tipo de devaneio. O ensaio que clareou a escolha sobre o tema da análise de um período histórico abatido sobre uma metrópole a partir de um poeta da verve surrealista, foi escrito por Walter Benjamin 494 . Através de poemas do brasileiro Roberto Piva que iniciou suas publicações em 1961, analisaremos a São Paulo que possibilitou suas criações artísticas, povoadas de imagens alucinadas: arquitetura, cultura, política e relações sociais, dentre outros, neste dado contexto histórico da segunda metade do século XX até o presente, início do século XXI. O estudo de Walter Benjamin O surrealismo: último instantâneo da inteligência européia destaca variados aspectos e apontamentos sobre e deste movimento artístico, e um dos principais, é justamente o mesmo 493 PIVA, Roberto. Paranóia; fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. 2. ed. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000, p.11. 494 BENJAMIN, Walter. O surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia,In:Obras Escolhidas I – Magia e técnica, arte e política : Ensaios sobre literatura e história da cultura. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. pp. 21-35.
  3. 3. 1099 não ser apenas artístico, de preocupações essencialmente estéticas. A crítica à razão tradicional, os métodos de criação, a temática das obras e a idéia de liberdade que elas portavam, dentre outros, não eram gratuitos, mas desembocavam na afirmação categórica da vivência de um novo tipo de realidade: [...] A vida só parecia digna de ser vivida quando se dissolvia a fronteira entre o sono e a vigília, permitindo a passagem em massa de figuras ondulantes, e a linguagem só parecia autêntica quando o som e a imagem, a imagem e o som, se interpenetravam, com exatidão automática, de forma tão feliz que não sobrava a mínima fresta para inserir a pequena moeda a que chamamos “sentido” 495 . O citado ensaio de Benjamin como um todo, será uma das principais fontes inspiradoras de métodos para esta pesquisa, no que toca à observação da dinâmica das criações surrealistas, em si mesma. Segundo Hannah Arendt, Benjamin era bastante influenciado por esse modo de pensar que estamos debatendo 496 , havia nele a busca de um fenômeno arquetípico, momentos onde a compreensão aguçada do todo revelaria algum sentido oculto das coisas. No ensaio, o autor atribuiu aos surrealistas as descobertas das energias ocultas no óbvio, no mundo de coisas da cidade, em seus monumentos, edifícios, artificialidades (materiais ou morais), seu cenário afinal e nas relações de ordem social que o estabilizam. Entendemos uma análise da cultura enquanto mero subproduto da economia e da política, como errônea. Não trataremos de medir a primazia de aspectos culturais em relação a outros como os econômicos e 495 Ibdem, p. 22. 496 ARENDT, Hannah. Walter Benjamin 1892-1940. In: Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 133-176. p. 141 e 142.
  4. 4. 1100 políticos, na influência do desenrolar do século XX. Objetivamos estabelecer diálogos entre os aspectos concretos do que se chamou e ainda se chama de desenvolvimento tecnológico, progresso, racionalidade e suas legitimações ou pulsões interiores presentes nos indivíduos497 . Neste estudo, algumas linhas de pensamento de estudiosos das ciências humanas convergem em vários pontos com o pensamento artístico do surrealismo. As distinções entre corpo e espírito, realidade material e mental, razão e sentimento, racionalidade e irracionalidade, prática e prazer, dentre outros, são criticadas por eles; pois elas medem o grau de importância de um aspecto com relação ao outro, e nesta medição fogem da realidade social total. O livro Eros e Civilização – uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, de Herbert Marcuse, foi bastante utilizado na delimitação do tema deste estudo também. O autor, através do estudo da obra de Freud, incluindo a concepção que o mesmo tinha acerca da civilização e da cultura, põe em evidência o papel da dinâmica repressiva na legitimação e continuidade da opressão inerente a esse sistema de valores e práticas presente no ocidente sob a égide tecnológico-industrial. Uma sociedade que inversamente aos tantos limites que impõe aos homens trabalhadores, não impõe nenhum à expansão do lucro e da produção de bens de consumo supérfluos, resulta na crescente destruição da vida como um todo, no planeta. Marcuse, como Benjamin, também aborda o tema do surrealismo, em Eros498 e noutros escritos também, que serão incluídos no debate bibliográfico. O Manifesto do Surrealismo (1924), de Andre Breton, sinaliza os principais interesses deste movimento em sua gênese. Breton demonstra 497 ALMEIDA, Jozimar Paes de. “A instrumentalização da natureza pela ciência”, In: Revista Projeto História – Natureza e Poder, PUC-SP, n 23, São Paulo, novembro de 2001, pp. 169-191. 498 MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização – uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968. p. 136.
  5. 5. 1101 como (através das descobertas de Freud sobre o funcionamento da mente humana) as oposições culturalmente e historicamente criadas entre sonho e realidade, corpo e espírito, consciência e inconsciência, e outras, podem ser derrubadas na reivindicação por uma vivência mais total. O autor afirma que a vida humana num sistema que não negligencie o prazer da imaginação, estará mais repleta de verdades – pois o inconsciente guarda verdades – e possibilitará uma sociedade mais desenvolvida, na medida em que a repressão dos instintos resulta em violência. Sentenciar a morte dos instintos e dos sentidos, como a civilização e sua razão o fazem, nos separa da natureza terrestre e de nossa própria natureza; a essa negação da vida, os autores respondem com a negação, teorizada, a essa concepção de vida como a única possível, e a esse respeito citamos o Manifesto do Surrealismo, “Creio na resolução futura desses dois estados, aparentemente tão contraditórios, tais sejam o sonho e a realidade, em uma espécie de realidade absoluta, de super-realidade se assim se pode chamar” 499 . A afirmação de que o conhecimento e o contato efetivo com a arte podem ajudar as pessoas a viver melhor no mundo atual, não supõe que este contato esteja disseminado por agora. No psiquismo, a ajuda da arte se dá ao incorporarmos mecanismos da percepção e criação estéticas à vivência do ser humano para que ele possa sublimar as energias que, de outra maneira retornariam na forma de neuroses: segundo Vygotski, o sistema nervoso recebe mais excitações do que o número delas que teríamos possibilidade de resolver na atividade, e assim a arte libera essas potências, impedindo que elas retornem de maneira indesejável 500 . Marcuse, no ensaio intitulado A arte na sociedade unidimensional expõe a idéia de a linguagem artística ser talvez a única que possui a 499 BRETON, André. Manifesto do Surrealismo. In: Teles, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 18. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. p. 174-208.p. 183. 500 VYGOTSKI, L.S. Psicologia Pedagógica – Edição Comentada. Porto Alegre: Artmed, 2003, p. 338- 339.
  6. 6. 1102 possibilidade de agir de forma revolucionária na atualidade, pois ela comunica o que os discursos somente políticos, não comunicam. A vivência estética traz um potencial revolucionário no sentido de que ela não fala a linguagem da afluência, e é impossível que surjam novas relações entre os homens e coisas se os mesmos continuarem a falar a linguagem da repressão. A arte está comprometida com a sensibilidade: nas formas artísticas, as necessidades biológicas e instintivas reprimidas encontram sua representação – tornam-se “objetivas” no projeto de uma realidade diferente. A “estética” é uma categoria existencial e sociológica [...]. Mas então surge a questão: por que o conteúdo biológico e existencial da “estética” tem sido sublimado no reino do ilusório e irreal da arte, em vez de na transformação da realidade? [...] talvez não terá chegado o tempo de liberar a arte de seu confinamento em mera arte, em ilusão?501 Pesquisaremos os meios de criação surrealistas, o ideário do movimento, seus conceitos de liberdade, amor, realidade, e assim por diante. Os diálogos bibliográficos com pensadores e cientistas das áreas humanas darão tom social ao debate envolvendo a arte: os pontos convergentes com os pensadores da Escola de Frankfurt, com o anarquismo e a ligação de Breton e outros membros do grupo francês, bem como a recusa desta ligação por membros como Artaud, a partidos socialistas serão alguns dos aspectos discutidos. As iluminações profanas como meio de desnudamento da realidade terá base teórica em Walter Benjamin. Os elementos presentes nestas chamadas iluminações (simbólicos, críticos, e outros) serão 501 MARCUSE, Herbert. A arte na sociedade unidimensional. In: ADORNO, Theodor W. et al. Teoria da cultura de massa; introdução, comentários e seleção de Luiz Costa Lima. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. P.250-251.
  7. 7. 1103 analisados em sua formação histórica. Assim, será necessária a busca de documentos que permitam uma análise concisa da cultura brasileira da segunda metade do século XX em diante, ao menos nas grandes cidades. Obras que retratem a vivência da metrópole, estudos históricos, antropológicos, e sociológicos sobre São Paulo, para relacionarmo-las com as criações de Piva. No momento em que ainda corre a pesquisa, nos contentaremos apenas em partilhar algumas dúvidas que a leitura deste poeta nos deu: “[...] marchas nômades através da vida noturna fazendo desaparecer o perfume/ das velas e dos violinos que brota dos túmulos sob as nuvens de chuva [...] cafetinas magras ajoelhadas no tapete tocando o trombone de vidro/ da Loucura repartiam lascas de hóstias invisíveis”502 . Essas marchas nômades na noite da cidade, usualmente eram feitas por jovens e trabalhadores da noite (incluindo prostitutas) perto do ano de 1963 quando a Editora Massao Ohno publicou Paranóia, primeiro livro do autor (nascido em 1937). Não seria sem nexo a alusão a marchas que ele e seus amigos estariam realizando para que desaparecesse o perfume da tradição, basicamente. As cafetinas estão magras, flertando com a loucura (com L maiúsculo) e ainda repartem hóstias invisíveis, estão enfim na decadência. Quanto aos nômades na noite, provavelmente não são bem vistos pela maioria da população desde que a configuração das cidades vem incluindo um ideal higienista e organizador em prol do trabalho e da produção, e não abarca a atitude desses nômades como nada além de vagabundagem. Em Benjamin, segundo Arendt, há a figura central do flâneur, “É a ele, vagueando a esmo entre as multidões nas grandes 502 PIVA, Roberto. Paranóia; fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. 2. ed. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000, p.7.
  8. 8. 1104 cidades, num estudado contraste com a atividade apressada e intencional delas, que as coisas se revelam em seu sentido secreto”. 503 A contracultura no Brasil, as religiões africanas e indígenas, a união entre arte revolucionária e ação revolucionária, a liberação sexual reclamada pela juventude nos anos sessenta do século XX, as relações sociais vividas pelos cidadãos da metrópole brasileira, a relação do espaço físico da cidade com o espaço da natureza que ela abate, sendo a ecologia um dos temas de sua obra poética, serão temas pesquisados dentro da realidade cultural, social e histórica brasileira presente no século XX. Dentre os manifestos que Piva publicou, há o Manifesto Utópico- Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio 504 . Neste, encontramos sintetizadas (já que no texto, apesar de estar em formato de prosa, ele usa a síntese inerente à linguagem poética) linhas de pensamento que permitem colocarmos o poeta brasileiro como partilhando da reivindicação por uma vivência mais estética, ecológica, sensorial. Piva ironiza, seu manifesto é rápido e cheio de imagens intrigantes, outras impossíveis, o que o deixa mais interessante e ácido, como a proposta de fazer da onça pintada o totem da nacionalidade. Remetendo à utopia, tema abordado por Marcuse e Horkheimer dentre outros, citamos um trecho de seu manifesto: [...]Os partidos políticos brasileiros não têm nenhuma preocupação em trazer a UTOPIA para o quotidiano. Por isso em nome da saúde mental das novas gerações eu reivindico o seguinte: 1 - Transformar a Praça da Sé em horta coletiva & pública. 2 - Distribuir obras dos poetas brasileiros entre os garotos (as) da Febem, únicos capazes de transformar a 503 ARENDT, Hannah. Walter Benjamin 1892-1940. In: Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 133-176. p. 141 e 142. 504 PIVA, Roberto. Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio. Agulha – Revista de Cultura. Disponível em: < http://www.revista.agulha.nom.br/piva01.html>. Acesso em: 11 abr. 2009.
  9. 9. 1105 violência & angústia de suas almas em música das esferas. 505 No ano de 1924 era lançado na França o Manifesto do Surrealismo506 , escrito por André Breton, poeta que integrava anteriormente o movimento Dadá. Ao ler este famoso texto, percebe-se que as intenções surrealistas, desde princípios, iam muito além do campo artístico. O nome do movimento já trazia em seu significado uma nova maneira de pensar a realidade, em que o sonho, o devaneio, e outros estados que eles consideravam mais propícios ao “livre exercício do espírito”, não seriam tidos como menos reais que os fenômenos ocorridos enquanto estamos acordados ou conscientes; considerando que eram de opinião de que o ordenamento do pensamento na consciência retira o seu aspecto libertário, pois o homem continuaria domado exclusivamente pelos julgamentos da razão de seu tempo, mesmo que ela pareça pelos seus subprodutos factuais na sociedade, no mínimo equivocada em termos de princípios e de aplicação: A união da produtividade crescente e da destruição crescente; a iminência de aniquilamento; a rendição do pensamento, das esperanças e do temor às decisões dos poderes existentes; a preservação da miséria em face da riqueza sem precedentes, constituem a mais imparcial acusação – ainda que não sejam a razão de ser desta sociedade, mas apenas um subproduto, o seu racionalismo arrasador, que impele a eficiência e o crescimento, é, em si, irracional.507 Descartar a imaginação e o prazer da realidade é um dos aspectos culturais fundamentais da civilização, que para Freud, é de 505 Ibdem. 506 BRETON, André. Manifesto do Surrealismo. In: Teles, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 18. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. p. 174-208. 507 MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979. p. 16-17.
  10. 10. 1106 essência repressiva inevitavelmente. Herbert Marcuse, em Eros e Civilização508 , realizou uma análise filosófica do triunfo do que se chama de princípio de realidade sobre o princípio de prazer no pensamento de Freud, encontrando na própria teoria do psicanalista, elementos que refutam a afirmação que ele faz sobre a impossibilidade de uma vivência mais pautada na satisfação humana, e não na repressão, dentro da civilização. Para além destes autores citados até o momento, ampliaremos o debate sobre a idéia de civilização ocidental, desde produções do século XIX, época em que se disseminava a crença no progresso através deste modelo histórico. O surrealismo é um tema que gera certo interesse na sociedade atual. Em alguns momentos, vemos este termo e seus semelhantes (surrealista, surreal) sendo usados em sentidos distantes à intenção dos artistas que começaram a agir dentro de alguns objetivos traçados no interior do movimento surgido em 1924 em Paris. Hoje se tem empregado estes termos em conversas corriqueiras, sobre a rotina, e usualmente são usados no sentido de caracterizar o que não se pode compreender, o absurdo, o inesperado, a loucura. Bem, por outro lado, percebemos também na atualidade de inícios do século XXI, algumas aberturas de sensibilidade que parecem possibilitar o entendimento maior do que o surrealismo propunha, para um maior número de pessoas. Estamos nos relacionando a discursos correntes que hoje estão mais disseminados, que exploram o terreno da mente e do corpo humanos de maneira nova apesar de as dúvidas não o serem novas, exemplos desse fenômeno são os discursos sobre profecias baseadas em astrologia e astronomia (dentro desses estão documentários feitos por grandes redes de televisão), conhecimentos e práticas relativos 508 MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização – uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.
  11. 11. 1107 à sonhos lúcidos, meditação, Yôga, terapias naturais como as avaliações bioenergéticas, e muitos mais. O surgimento de um ramo na ciência chamado Noética está inserido nesses tipos de preocupações que estudam cientificamente entre outros o papel da mente no desaparecimento de doenças psicossomáticas como o câncer, a capacidade humana de premonição e seus mecanismos de ação, e muitos outros temas; iniciou-se com a criação de um instituto norte-americano em 1973 que não tem fins lucrativos, sendo financiado pelos integrantes espalhados pelo globo 509 . No dado momento histórico de inícios do século XXI, promover um entendimento satisfatório da arte é uma atividade que esbarra em barreiras já efetivadas à própria compreensão da mesma; estas já estão presentes na população de maneira geral, pois fazem parte da cultura estabelecida. Best-sellers, filmes que são sucesso de bilheteria, telenovelas, dentro outros precipitados da indústria cultural, embutem frequentemente padrões de gosto e/ou consumo, que vêm a ser justamente padrões opostos aos da verdadeira arte, por assim dizer. As diferenças desses “sucessos” de público, e da arte de fato, se dão desde os efeitos imediatos provocados no sujeito que os observam (momentos de fruição bastante distintos, por vezes mesmo opostos), até o resultado final da influência dos padrões destas obras na vida de quem passou por elas. A distância entre este instante em que o expectador vislumbra a obra, até o processo de incorporação de padrões de gosto, posturas em relação à sua vida, à arte, e tantas mais, é muito mais curta nos produtos da semicultura. A adesão é quase simultânea nessas obras, pois elas não costumam trazer nada de novo, as pessoas gostam delas 509 SANTANA, Ana Lucia. Noética- uma nova forma de sentir e conceber a vida. InfoEscola. Disponível em: http://www.infoescola.com/ciencias/noetica/. Acesso em: 05 jul. 2010.
  12. 12. 1108 por se identificarem, sentindo-se seguras já que amparadas por lugares comuns, compartilhar ilusões vigentes é “outro recurso para render-se ao coletivo” 510 ; pois as necessidades de sentir-se à vontade no modelo de sociedade estabelecido e ser aplaudido por sua ideologia, sufoca o desejo (humano) de entendê-lo, de se saber onde estamos, para onde provavelmente vamos ou poderíamos ir. 510 RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton. Educação: pensamento e sensibilidade. In: RAMOS-DE- OLIVEIRA, N.; ZUIN, A., S.; PUCCI, B. (Orgs.). Teoria crítica, estética e educação. Campinas/ Piracicaba: Autores Associados/Unimep, 2001. P.50.
  13. 13. 1109 Referências ALMEIDA, Jozimar Paes de. A instrumentalização da natureza pela ciência. In: Revista Projeto História – Natureza e Poder, PUC-SP, n 23, São Paulo, novembro de 2001, pp. 169-191. ARENDT, Hannah. Walter Benjamin 1892-1940. In: Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 133-176. BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I – Magia e técnica, arte e política : Ensaios sobre literatura e história da cultura. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. BRETON, Andre. Manifesto do Surrealismo. In: Teles, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 18. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. pp. 174-208. MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979. ______. Eros e Civilização – uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968. ______. A arte na sociedade unidimensional. In: ADORNO, Theodor W. et al. Teoria da cultura de massa; introdução, comentários e seleção de Luiz Costa Lima. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p.245-256. ______. Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio. Agulha – Revista de Cultura. Disponível em: < http://www.revista.agulha.nom.br/piva01.html>. Acesso em: 11 abr. 2009. PIVA, Roberto. Paranóia; fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. 2. ed. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000. RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton. Educação: pensamento e sensibilidade. In: RAMOS-DE-OLIVEIRA, N.; ZUIN, A., S.; PUCCI, B. (Orgs.). Teoria crítica, estética e educação. Campinas/ Piracicaba: Autores Associados/Unimep, 2001.p.43-60. SANTANA, Ana Lucia. Noética- uma nova forma de sentir e conceber a vida. InfoEscola. Disponível em: http://www.infoescola.com/ciencias/noetica/. Acesso em: 05 jul. 2010. VYGOTSKI, L.S. Psicologia Pedagógica: edição comentada. Porto Alegre: Artmed, 2003.

×