ALGUMAS LINHAS HISTÓRICAS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
Frei Antonio C.M. Mota
Introdução
1. Falar de espiritualidade, grosso ...
Além disso, sendo também Jesus Cristo, como vemos através do mistério pascoal, mais
que um fato histórico, ou seja, Ele é ...
BREVE HISTÓRIA DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
Rigorosamente falando, a primeira espiritualidade cristã tornada memória é justam...
1.1.Fases de desenvolvimento da espiritualidade patrística
1.1.1. Os Padres Apostólicos (final do séc. I – início do séc. ...
da virgindade cristã no contexto escatológico da Primeira Carta ao Corintios (7, 29-
31). O matrimônio indissolúvel ou o c...
carne de Jesus Cristo, filho de Davi, quero por bebida o seu sangue, que é amor (ágape)
incorruptível”.17
A espiritualidad...
participante desses. Todos os escritores puderam ver alguma coisa da verdade
por meio da semente do Verbo que neles se enc...
A tradição dos Apóstolos, manifestada em todo o mundo, pode ser encontrada
em todas as Igrejas, por aqueles que desejam co...
quem realiza a primeira obra de crítica textual, onde, através de uma tabela sinótica,
compara as diversas edições do Anti...
Santo Atanásio, além de tratar da espiritualidade – também ele – do Logos, concebe a
vida espiritual como um retorno ao es...
cunho mais moral que teológico, embora seja considerado “doutor da Eucaristia”; dentre
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- Santo Agostinho de Hipona (354-430): Talvez seja o Padre mais conhecido. Filho de
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  1. 1. ALGUMAS LINHAS HISTÓRICAS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ Frei Antonio C.M. Mota Introdução 1. Falar de espiritualidade, grosso modo, é falar da maneira com a qual uma pessoa ou uma comunidade traduz na vida concreta, na história, a experiência que se faz do mistério de Deus. Assim, espiritualidade significa um modo de ser, um modo de viver no mundo1 , cuja fisionomia é determinada por aquela experiência que se fez do mistério de Deus2 que, para usar uma expressão de Micea Eliade, irrompe na história3 . Dentro da experiência bíblica, a história humana vai se desenvolvendo desde um contínuo diálogo entre Deus e o seu povo, diálogo esse no qual Deus vai-se dando, gradativamente, a “conhecer”, inserindo-se na vida desse povo, dando-lhe, dessa forma, uma identidade de povo de Deus. Esse “dar-se a conhecer” de Deus é chamado de Revelação e consiste em um processo no qual Deus fala, sempre em modo circunstancial4 , e o povo, acolhendo a Palavra emitida por Deus, encontra aí uma estrada para prosseguir uma história que, ao longo de seu itinerário, vai se configurando como “história de salvação”. A Palavra que Deus emite ao seu povo é uma Palavra na qual vem “informada” a própria identidade de Deus. Todo o Antigo Testamento não é outra coisa senão esse dia- logo que Deus, em modo histórico, faz com seu povo que, por sua vez, vai sempre mais conhecendo e vivendo a partir dessa identidade que lhe é revelada; e é nessa direção que quando chega a plenitude dos tempos, em Jesus de Nazaré, a Palavra reveladora de Deus se torna realidade na realidade humana e, assim, a humanidade pode ver o Rosto de Deus (cf. Jo 1,18). 2. Dessa maneira, porque a Palavra que se fez carne e habitou no meio de nós (cf. Jo 1, 14), o cristianismo se pauta em uma realidade, em dado: o Evento Jesus Cristo. Evento este do qual o ser humano pode, no horizonte do Espírito Santo, fazer uma experiência5 , cujas “concreções” se tornam memória; memória esta que, dependendo da profundidade e relevância da experiência que lhe gerou, torna-se “fonte” espiritual para uma comunidade e, assim, herança legada à posteridade. Essa memória são justamente os Escritos dos grandes mestres espirituais, tais como: Origines, São Bento, São Francisco e Santa Clara de Assis, São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila, etc. 1 Cf. C. M. MÉNARED – F. VILLENEUVE (a cura), Spiritualité contemporaine. Défis culturels et théologiques. Actes du Congrés 1995 de La Société canadienne de théologie, Quebec: Fides, 1996. 2 CF. G. MOIOLI, L’esperieza spirituale. Lezioni introdutive, Milano: Glossa,1992. 3 Cf. MICEA ELIADE, O sagrado e o profano: A essência das religiões, São Paulo: Martins Fontes, 1992. 4 Cf. Gn 12, 1-25,18; Ex 2,1-3,20. 5 Cf. . MOIOLI, L’esperieza spirituale, p. 31-34.
  2. 2. Além disso, sendo também Jesus Cristo, como vemos através do mistério pascoal, mais que um fato histórico, ou seja, Ele é o Senhor6 (“título que alude seja à grandeza imensurável de Jesus seja a atitude que, coerentemente, se deve assumir diante d’Ele7 ), a experiência que o ser humano d’Ele pode fazer, será sempre uma experiência que conhece os limites históricos da humanidade aí envolvida. A partir do que é acima dito, pode-se verificar ao longo do itinerário histórico do Cristianismo, diversas “memórias” de Cristo na história, ou seja, experiências diversas e singulares de Cristo. Significa dizer: em cada época do seu percurso histórico, o ser humano se “apropriou” do “Evento cristológico” em modo todo particular. E é justamente isto que possibilita falar de uma história da espiritualidade cristã; em cada época, e de diversos modos, se fez uma determinada experiência de Deus em Jesus Cristo, como diz o conhecido historiador da espiritualidade André Vauchez: [A espiritualidade é] considerada como um conjunto de relações entre alguns aspectos do mistério cristão, particularmente valorizados em uma determinada época e algumas práticas (ritos, orações, devoções); estas aí são privilegiadas em relação a outras possibilidades que se encontram dento da vida cristã. A Sagrada Escritura transmite, na realidade, elementos muitos diversos dentre os quais cada civilização é obrigada a fazer algumas escolhas, em função do seu nível de cultura e de suas específicas necessidades.” 8 3. Como já colocado acima, as diversas experiências significativas feitas do Evento cristológico ao longo da história permanecem como memória, sobretudo, nos escritos espirituais onde os grandes mestres da espiritualidade narraram suas experiências espirituais; Porém, além de tais escritos se pode – considerando o que foi colocado por Vauchez – encontrar traços da espiritualidade de diversos grupo e épocas através de outros modos de expressão, tais como: “gestos, cânticos, representações iconográficas9 . Nesse sentido, poder-se-ia, por exemplo, tomar a iconografia do Crucificado de acordo com as características de expressão de cada época; neste caso, perceber-se-ia que a representação da Cruz feito Igreja Antiga é muito diferente daquela representada pela Baixa Idade Média, e assim por diante. Ou seja: a mesma cruz que na Sociedade Imperial Antiga essa representada como símbolo força que dá a vitória (in hoc signo vinces), a partir do tempo de São Francisco de Assis passa a ser representada como expressão da Paixão que o Crucificado sofreu em seu amor pelo mundo (Passio Christi). Todavia, nas páginas que se seguem, procurar-se-á descrever, em linhas gerais, as principais experiências espirituais que se fez do Evento Jesus Cristo a partir dos escritos dos grandes mestres de espiritualidade, ou seja, aqueles que fizeram escolas de espiritualidade cristã ao longo da história. 6 Cf. At 2,21; Fl 2,11. 7 G. CANOBBIO, “Introduzione”, in R. GUARDINI, Il Signore, Brescia-Milano: Vita e Pensiero- Morcelliana, 2005, p. 6. 8 A. VAUCHEZ, La spiritualitá dell’Occidente medievale, Milano: Vita e pensiero, 2006, p. 4. 9 Ibidem.
  3. 3. BREVE HISTÓRIA DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ Rigorosamente falando, a primeira espiritualidade cristã tornada memória é justamente aquela que é narrada pelo Novo Testamento. A Palavra neo-testamentária não é, primeiramente, outra coisa senão a expressão da experiência que a comunidade dos seguidores de Jesus Cristo fizeram da sua Pessoa.10 Por isso, a narração neo- testamentária é o critério para toda experiência espiritual que se queira autêntica, é a partir da Palavra neo-testamentária, sobretudo dos Evangelhos, que se pode ter acesso a Jesus Cristo; e, de fato, a partir dessa experiência dos seguidores e apóstolos do Senhor, vão se desdobrando uma série de experiências com a Pessoa-Palavra que Jesus Cristo, conforme se verá – em linhas gerais – nas páginas que se seguem. (Módulo I................................................................................................................) 1. Espiritualidade Patrística A espiritualidade patrística é aquela que sucede imediatamente a experiência de Deus, em Jesus Cristo, da qual fala o Novo Testamento; se trata de uma experiência que começa com grupos de pessoas, ou comunidades, que não tiveram contato imediato com Jesus, mas que conheceram Jesus Cristo através da pregação do Apóstolo – os primeiros Padres da Igreja são chamados Padres Apostólicos – que vai adentrando a história, atingindo grandes homens de cultura, como, por exemplo, Aurélio Agostinho, e é exatamente nesse percurso vai-se construindo os pilares da doutrina cristã. Tomados em seu conjunto, os Padres da Igreja, autores nos quais se encontra a espiritualidade patrística, “são escritores da Antiguidade cristã que foram reconhecidos pela sua posteridade por causa da sua santidade de vida, pela força da doutrina. São bispos, monges e leigos”.11 Um Padre da Igreja é reconhecido como tal pelos seguintes quatro elementos: 1. Antiguidade: no Ocidente Isidoro de Sevilha († 636) é considerado o último Padre, e no Oriente, João Damasceno († 750); 2. Ortodoxia: doutrina consonante com o corpo eclesial; 3. Autoridade: seja reconhecido pela Tradição, no sentido de ser uma autoridade citado pelos Concílios da época; 4. Santidade de vida: aspecto que revela a autoridade de sua doutrina. 10 Cf. M. MAZZEO, I vangeli sinottici. Introduzione e percorsi tematici, Milano: Paoline, 2001, p. 497. 11 P. DE LIGNEROLLES – J.-P. MEYNARD, Storia della spiritualitá cristiana, Milano: Gribaudi, 2005, p.9.
  4. 4. 1.1.Fases de desenvolvimento da espiritualidade patrística 1.1.1. Os Padres Apostólicos (final do séc. I – início do séc. II) Como já acenado, a época patrística começa com os Padres Apostólicos, esses assim são chamados por terem sido contemporâneo dos Apóstolos ou, então, os sucederam quase imediatamente e, assim, a partir do ensinamento apostólico e dos escritos do Novo Testamento, começam a desenvolver a doutrina cristã em contextos sempre mais amplos. Nesse período, além das questões que dizem respeito à vida das comunidades, tais como: unidade, celebrações litúrgicas e conduta da vida cristã; do ponto de vista da espiritualidade, a tônica foi se direcionando para o valor do “celibato”, como imitação da vida de Cristo e do “martírio, entendido como fidelidade à vida de Jesus, assim como o valor da vida ascética12 . a) Temas de espiritualidade emersos na época dos Padres Apostólicos - As primeiras formas de vida ascética e o ideal do celibato: “A partir do final do I século, temos testemunhos da prática da continência: “Que aquele que é casto de carne não se gabe, porque é um outro que lhe concede a continência (Clemente de Roma, Carta aos Corintios, 38,2 ). Ao início do II século, as Cartas de Inácio de Antioquia mostram que já existem grupos de virgens: “Eu saúdo as famílias dos meus irmãos, com as sua mulheres e seus filhos, e as virgens chamadas viúvas [...]”.13 No início do cristianismo parece que os ascetas e as virgens continuavam a viver com as próprias famílias; todavia, para que as mulheres – sobretudo – não terminassem sozinhas, começam a depender de um clérigo ou de um asceta. Uma prática que vai ser criticada por alguns padres, tais como São João Crisostomo e São Jerônimo.14 - Raízes neotestamentárias do celibato: “Jesus nasceu de uma virgem. Com Maria se iniciam os últimos tempos (cf. Lc 1, 26-38). Jesus é o Virgem. N’Ele o reino de Deus se faz próximo (cf. mc 1,15). Ele encarna todas as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). O seu relacionamento de Unigênito com o Pai faz com que n’Ele a vida jorre em abundância (cf. Jo 1,4) e, através da sua Palavra, esta vida seja participada a todo fiel (Jo 5,17ss). A sua plenitude de caridade em relação ao Pai e aos irmãos é o segredo da livre oferta que faz de si em favor da salvação de todos (cf. Jo 15, 9-17). Os discípulos são convidados a seguir-lhe de perto nesta vida de absoluta dedicação ao reino dos céus (Mc 10, 28-30; Lc 18, 28-30). O matrimônio, nas palavras de Jesus, se torna uma realidade penúltima , que, na vida eterna, deixará o lugar para o estado “angélico” dos ressuscitados (Mt 22, 30-32). Por isso, sendo o celibato uma realidade “última”, escatológica, deve ser, de acordo com as buscas espirituais de então, ser buscado como ideal de vida. O celibato voluntário pelo reino é um carisma que a pessoa chamada pode livremente acolher e realizar com a graça de Cristo (cf. Mt 19, 11-12). Paulo elabora a mensagem 12 Cf. LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 12. 13 LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 12-13. 14 Cf. Ibidem, p. 13.
  5. 5. da virgindade cristã no contexto escatológico da Primeira Carta ao Corintios (7, 29- 31). O matrimônio indissolúvel ou o celibato são propostos ao cristão, na vigilância e na oração (v. 5). O Apostolo é ele mesmo celibatário (VV. 7-8) e gostaria que os irmãos aspirassem a tal carisma. Quem escolhe livremente tal estado de vida deve tender à perfeição da caridade unindo- se ao Senhor com coração indiviso (VV. 32-35). Mas o próprio Paulo adverte contra as tendências heréticas de quem proibia o casamento por aversão à carne (1Tm 4,3); aconselha o matrimônio às viúvas jovens desejosas de marido (1Cor 7,9; 1Tm 5,14). No contexto da comunidade primitiva, os Atos dos Apóstolos recordam das quatro virgens profetas, filhas de Felipe, um dos Sete (21,9). Na liturgia do Apocalipse, o Cordeiro pascoal é seguido, aonde vá, pelos virgens que “não se mancharam com mulher” (14,4). A virgindade de Cristo se torna um sinal para a comunidade eclesial, como se vê na Segunda Carta aos Corintios (11,2)”. 15 - A dimensão escatológica da espiritualidade patrística: Como se pode entrever através do ideal da virgindade, a espiritualidade patrística é movida por um forte desejo de antecipar na vida do cristão, aquilo que é próprio da realidade do reino de Deus, se procura viver a virgindade porque no reino dos céus, na realidade escatológica, os homens e as mulheres não se darão em casamento (cf. Mt 22,30). - Il martírio como ideal cristão: ao início da história do Cristianismo, a perspectiva do martírio fazia parte da vida cristã a partir do momento em que os cristãos se colocavam fora dos modos comuns: embora os três primeiros séculos não tenham sido um período de perseguições permanente e generalizada, a condição dos cristãos era precária e a perseguição era sempre possível. São notáveis os martírios de Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna, assim como o de Perpétua e Felicidade.16 O martírio, todavia, vai ser vivido, por um lado, como ideal de antecipação do encontro com Deus e, por outro, como perfeita imitação de Cristo, verdadeiro testemunho da fé. Dentre a literatura martiriológica, destaca-se a Carta aos Romanos que Santo Inácio de Antioquia († 110) escreve do seu caminho em direção ao martírio, na qual diz: Escrevo a todas as igrejas, e a todos anuncio que morrerei, de bom grado, por Deus, se vocês não me impedirem. Suplico-lhes: não queiram usar para comigo de uma benevolência que seria inoportuna! Deixem-me ser alimento das feras, por meio das quais me é dado chegar até Deus! Eu serei trigo de Deus, mastigado pelos dentes das feras, para que possa me tornar imaculado pão de Cristo. Ao invés, acariciem as feras, para que se tornem o meu sepulcro e nada deixem dos meus membros, afim que, mesmo morto, não seja de peso para ninguém. Não, o mundo não verá mais o meu corpo, serei, então, verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo. Supliquem a Cristo por mim, afim que, por meio daqueles dentes, eu seja feito hóstia a Deus [...] Eu, até agora, sou um escravo, mas, se sofrer o martírio, me tornarei uma pessoa livre e de Jesus Cristo e n’Ele ressurgirei. Ora, acorrentado, aprendo a despir-me de todo desejo [humano- (eros)] [...] Em plena posse da minha vida, digo-vos que desejo morrer. Os desejos humanos estão em mim crucificados; não há mais nada em mim que arda pela matéria. A água viva borbulha dentro de mim e diz-me: Vem ao Pai. Não me agrada mais o alimento corruptível, nem os prazeres desta vida. Quero o pão de Deus, aquele pão que é a 15 L. BOUYER – L. DATTRINO, La spiritualità dei Padre (II-V secolo): martírio, verginità, gnosi cristiana, Bologna: EDB, 1984, p. 78-79. 16 Cf. LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 13.
  6. 6. carne de Jesus Cristo, filho de Davi, quero por bebida o seu sangue, que é amor (ágape) incorruptível”.17 A espiritualidade martiriológica era, assim, experienciada como: imitação de Cristo, dimensão eucarística da vida cristã, encarnação de Cristo na vida do cristão, batismo de sangue (confirmação do primeiro batismo). A espiritualidade martiriológica passou também a ser entendida como dimensão missionária da vida cristã. É famosa a sentença de Tertuliano que diz: O sangue dos mártires é a semente para novos cristãos. 1.1.2. Os Padres Apologetas (II século) Com a entrada do Cristianismo na sociedade imperial e na medida em o mesmo ia sendo conhecido, impôs-se a necessidade dos cristãos “darem as razões de sua fé” perante tal saciedade. Assim, inicia-se uma nova etapa dentro da época patrística. Se na primeira expressão da patrística, aquela dos Padres Apostólicos, a espiritualidade se endereçava mais à prática, com os Padres Apostólicos, dá-se, então, início a uma espiritualidade mais reflexiva, no sentido que aí se busca “expor teoricamente” o que é o Cristianismo, por isso, os escritores dessa época são chamados Padres Apologetas, ou seja: que elaboram uma “defesa” da fé. Os estudiosos, em linhas gerais, dizem que os Padres Apologetas têm a tarefa de “apresentar os cristãos como autênticos herdeiros e ponto de chegada da civilização greco-romana e, dessa forma, apresentar a fé cristã através de uma linguagem e alguns conceitos acessíveis ao público culto. Seus escritos se apresentam em forma de discurso ou de diálogos, que obedecem as regras da retórica grega”.18 Dentre os Padres Apologetas, se destaca São Justino († entre os anos 163-167),o qual começa a desenvolver a Teologia do Logos já presente no Quarto Evangelho (cf. Jo 1, 1-18): “Justino foi o primeiro cristão que fez um esforço coerente para uma conciliação entre fé e razão, servindo-se de uma terminologia filosófica aplicada ao pensamento cristão e utilizando as categorias da filosofia de Platão. O tema principal do pensamento de Justino é o plano criador e salvífico de Deus, manifestado e cumprido em CRISTO- LOGOS; a sabedoria dos antigos encontra espaço dentro desse plano divino porque, em cada homem, existem “semente do Logos” (conseqüentemente, os filósofos gregos possuíam, segundo Justino, “sementes do Logos”).19 Na II Apologia, escreve Justino: “Tudo aquilo de bom que disseram e revelaram os filósofos e os legisladores, foi por eles elaborado, fatigosamente, através da descoberta e contemplação do Verbo. Mas porque nem todos conheceram pelo menos aprte das coisas referentes ao Verbo, que é Cristo, algumas vezes, disseram também coisas contraditórias [...] Tudo o que é dito de verdadeiro, por quem quer que seja, pertence a nós, Cristãos; porque nós, depois de Deus adoramos e amamos o Verbo que procede de Deus, incriado e inefável, que por nós se faz até mesmo homem, para, assim, curar os nossos sofrimentos, tornando-se 17 Citado por: BOUYER – DATTRINO, La spiritualità dei Padre (II-V secolo), p. 47-48. 18 LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 13-14. 19 LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 14.
  7. 7. participante desses. Todos os escritores puderam ver alguma coisa da verdade por meio da semente do Verbo que neles se encontra gravada, embora o tenham feito de maneira obscura”.20 Justino defende, portanto, o Cristianismo como a verdadeira filosofia. Além de suas Apologias, é conhecido o seu escrito denominado Diálogo com Trufão. Seus escritos tratam ainda, em particular modo, da Eucaristia. Também ele morre martirizado entre os anos de 163 e 167, durante o império de Marco Aurelio.21 1.1.3. Literatura Anti-herética (final do séc. II e séc. III) Como se pode ver em São Justino, já no II século, o Cristianismo ia se inserindo no ambiente cultural grego-romano; um ambiente cujas estradas eram povoadas não somente pelas armas do Império romano, mas permeadas pelas idéias helenísticas e, como diz Lima Vaz, a cultura cristã aí vai se erguendo em profunda “simbiose” com as idéias que circulavam nesse ambiente.22 Aquilo que o Cristianismo fazia não era outra coisa que o processo de inculturação da fé que lhe é próprio. Todavia, esse processo significava assumir os elementos da cultura greco-romana que melhor ajudavam a explicitar a fé, o que não resultava fácil. Daí o surgir de muitas idéias que na verdade desviavam a mensagem cristã, tornando-a parcial. Trata-se das chamadas heresias, contra as quais surgiu uma abundante literatura patrística. O interessante, nisso tudo, é que o perigo de desvio da mensagem cristã levada, em seu bojo, a necessidade de se pensar sobre o dato cristão e, assim, vai nascendo a teologia enquanto tal. Dessa forma, o III século cristão foi um período de grande reflexão sobre a mensagem cristã nela mesma, dobre aquilo que essa mensagem tem de essencial (teologia dogmática) e sobre sua incidência na vida cristã (teologia moral). Lembrando que em tal período toda expressão teológica nascia de uma profunda experiência espiritual e, por isso, era expressão de espiritualidade23 . - No contexto que acima exposto, destaca-se, dentre alguns nomes ilustres da época, Santo Irineu de Lion (140 ca.-200). Irineu escreveu numerosas obras, dentre as quais a Adversus haereses (contra as heresias) é muito conhecida. Sua teologia se colocava contra uma visão segunda a qual “a salvação é fruto do conhecimento (gnosticismo herético) e, portanto, nem todos os homens podem chegar à salvação, mas apenas uma elite conhecedora de tradições secretas”. Diante de tal heresia, o Bispo de Lion chama à cena a Tradição Apóstolica, dizendo que por meio dessa, na Igreja, aberta a todos, o acesso à salvação é uma realidade pública: 20 Citado por: BOUYER – DATTRINO, La spiritualità dei Padre (II-V secolo), p. 129. 21 Cf. LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 14. 22 Cf. C. H. DE LIMA VAZ, “Teologia Medieval e Cultura Moderna”, in Síntese – Nova Fase, VI (1979). 23 Cf. H. U. VON BALTHASAR, “Teologia e santidade”, in ID., Verbum caro, Milano-Brescia: Jaca-Book- Morcelliana, 2005, p. 189-192.
  8. 8. A tradição dos Apóstolos, manifestada em todo o mundo, pode ser encontrada em todas as Igrejas, por aqueles que desejam conhecer a verdade. Podemos aqui enumerar os bispos estabelecidos pelos Apóstolos, assim como os seus sucessores, até os nossos dias: eles não ensinaram e nem conheceram nada daquilo que estes [os hereges] fantasiam. Ora, se os Apóstolos tivessem conhecido “mistérios secretos” e os tivessem ensinado aos “perfeitos”, sem o conhecimento dos demais, os teria confiado, antes de tudo, àqueles aos quais confiaram as próprias igrejas [...].24 A idéia de sucessão apostólica está em sintonia com outra idéia cara a Santo Irineu, que é a de Economia da Salvação, na qual toda a história é pensada a partir de Cristo e em direção a Cristo. Irineu diz que em Cristo todas as coisas são recapituladas. Essa idéia é chamada de teologia da recapitulação, que é pensada por Santo Irineu para livrar o cristianismo o desprezo da matéria e do humano; desprezo esse que negava a encarnação Cristo. Assim, afirmará: Quando (o Filho de Deus) se encarnou e se fez homem, “recapitulou” em si toda a longa serie dos homens, dando-nos junto a salvação, de tal maneira que aquilo que tínhamos perdido em Adão, o recuperamos em Cristo Jesus.25 Dentro dessa Economia de Deus, o Antigo e o Novo Testamento encontram, portanto, a sua unidade: ambos Testamentos provêm do mesmo e único Deus, que conduz o ser humano à salvação de maneira processual, cujo ápice, desse processo, é justamente o Evento Jesus Cristo. 1.1.4. O desenvolvimento da teologia e sua incisão na vida prática (século III) A partir do século III – sobretudo depois das perseguições de Décio e Valeriano – a Igreja começa a gozar de certa tranqüilidade graças à tolerância dos imperadores sucessivos. Nesse contexto, as comunidades cristãs se multiplicam e se organizam. Por isso, os Padres da Igreja são aí considerados como verdadeiros mestres e pontos de referência moral26 . Além disso, na prestigiosa cidade de Alexandria, no Egito, conhecida como centro cultural e eixo comercial entre Oriente e Ocidente, a mensagem cristã começa a ser pensada por grandes figuras como Clemente Alexandrino, o qual elabora um elevado pensamento cristológico a partir da categoria de Logos – como tinha já feito Justino. Para Clemente, o Logos é o grande Mestre, Pedagogo que conduz o ser humano à perfeição através de um caminho de salvação”.27 Todavia, é Origines (185 ca.-253), discípulo direto de Clemente Alexandrino, quem vai imprimir na Escala de Alexandria um caráter enciclopédico. A sua principal obra, Sobre os Princípios, é considerada a primeira síntese de teologia cristã. Também Origines é apaixonado pela filosofia platônica, mas a Bíblia continua sendo para ele a fonte da Verdade. De fato, a maior parte das suas obras é consagrada à exegese bíblica. É ele 24 Adversus Haereses, citado por: BOUYER – DATTRINO, La spiritualità dei Padre (II-V secolo), p. 138. 25 Ibidem, p. 140. 26 Cf. LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 18. 27 Cf. M. GRONCHI, Trattato su Gesù Cristo Figlio di Dio Salvatore, Brescia: Queriniana, 2008, p. 401- 406.
  9. 9. quem realiza a primeira obra de crítica textual, onde, através de uma tabela sinótica, compara as diversas edições do Antigo Testamento disponíveis na época.28 Uma das grandes originalidades de Origine vai ser justamente explicitar que no Texto sagrado existem três significados, os quais correspondem às dimensões antropológicas: corpo, alma e espírito; ou seja: o texto bíblico tem um sentido, material, um sentido moral e um sentido espiritual. Os sentidos da Escritura são considerados pela teologia cristã até hoje.29 Origines é acima de tudo um místico, cuja espiritualidade aparece patentemente em escritos como Da Oração, Exortação ao martírio e, sobretudo, seu comentário exegético-espiritual ao Cântico dos cânticos. Nesta última obra descreve o crescimento do Logos divino, que é Cristo, na alma a partir da teologia do amor, um crescimento que vai se dando de maneira progressiva. Trata-se de um itinerário espiritual que vai desde o enamoramento entre a alma e Cristo que se torna, no amor, seu esposo, até a união nupcial. Esse itinerário espiritual se dá na vida eclesial; na verdade, a noiva é a Igreja, onde as almas enamoradas de Cristo se congregam e caminham em direção a Ele.30 1.1.5. A idade de ouro dos Padres da Igreja (IV-V século) No início do IV século, sob o reinado de Constantino, aos cristãos é concedida a plena liberdade e à Igreja uma existência oficial e mesmo privilegiada. Esta “paz na Igreja” favorece o anúncio do Evangelho e o desenvolvimento da sua mensagem, favorecendo o trabalho teológico dos padres. É por isso que os séculos IV e V são considerados a “idade de ouro dos Padres da Igreja”. Todavia, é um período ambíguo e mesmo perigoso para a vida cristã. Escrevia São Jerônimo: “A partir do momento em que a Igreja passa a ter imperadores cristãos, certamente cresceu a sua potência, mas diminuiu a sua força moral”.31 É justamente nesse período que a Igreja teve que definir a sua doutrina, porque, por um lado, o perigo agora não vinha de fora, mas do próprio interno da comunidade eclesial e, por outro, descobrir novas formas de vida, para, assim, manter a fidelidade à mensagem evangélica diante desse novo estado de coisas. A seguir, classificar-se-á alguns nomes de destaque desse período que conclui a “Idade dos Padres”; - Santo Atanásio de Alexandria (295-373): Enfrenta a Heresia de Ário – que pregava a subordinação do Filho (Cristo) em relação ao Pai – refletindo sobre o mistério da Santíssima Trindade e expressando a unidade das Pessoa da Trindade Santa. Atanásio contribui muito para a confissão de fé do concílio de Nicéia (325). 28 Cf. LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 20-21. 29 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A interpretação da Bíblia na Igreja, São Paulo: 2002 (5ª. Ed.), Paulinas, p. 87-102. 30 Cf. BOUYER – DATTRINO, La spiritualità dei Padre (II-V secolo), p. 212-217. 31 Citadi por: LIGNEROLLES – MEYNARD, Storia della spiritualitá Cristiana, p. 23.
  10. 10. Santo Atanásio, além de tratar da espiritualidade – também ele – do Logos, concebe a vida espiritual como um retorno ao estado de pureza, por isso, se voltará para a vida de Santo Antão, ressaltando, por ela, o valor da solidão, da oração e da castidade. - São Basílio, o Grande (330-379): Pertence ao grupo dos Padres chamados “Padres Capadocios”. Basílio expressa o valor da vida comunitária e social e, por isso, vivendo em um período de grandes dificuldades sociais e econômica reflete sobre o valor da solidariedade e igualdade dos seres humanos diante de Deus. Por isso pensará a vida monástica como lugar onde as relações humanas se dão na caridade e a partir da caridade. Do ponto de vista da teologia se detêm, sobretudo, à pessoa do Espírito Santo. - São Gregório de Nissa (335-395): Também ele capadócio, irmão de São Basílio, entrou no mosteiro por este fundado. Depois da morte do irmão, torna-se bispo de Nissa, em 371; missão esta que ele aceita, embora tenha a consciência de ser mais voltado para a vida espiritual e teológica do que para o governo eclesiástico. São Gregório de Nissa contribui muito com o Concilio de Constantinopla. Sua obra porta uma perfeita unidade entre filosofia, mística e poesia. Dentre as obras que escreveu a Vida de Moisés ocupa um lugar de destaque para a espiritualidade; em um contexto marcado pela filosofia grega que buscava a perfeição na imobilidade, a partir da experiência de Moisés, o Bispo de Nissa, mostra que, diferentemente de Deus que é imutável, a criação é “movimento” e a sua perfeição é atingida através d movimento, assim, o caminho para Deus é dinâmico; esse dinamismo é impulsionado pelo “desejo”; e o desejo mais profundo que habita o coração humano é a voz do Espírito Santo que impulsiona e direciona o afeto humano em direção a Deus. Nesse caminho em direção a Deus, como mostra a vida de Moisés, o ponto de partida é a luz – Deus que se revela na sarça ardente – mas, paradoxalmente, o ponto culminante dessa caminhada do desejo humano é a “escuridão” – Moisés esconde o rosto –, a não evidência de Deus, que é chamada, em São Gregório de Nissa, de “mística das trevas”: “A manifestação de Deus a Moisés se deu primeiramente na luz; em seguida Ele falou-lhe na nuvem; enfim, tornado mais perfeito, Moisés contempla Deus nas trevas. A passagem da escuridão à luz é a primeira separação da idéias falsas e errôneas sobre Deus; a inteligência mais atenta às coisas escondidas, conduzindo a alma através das coisas visíveis à realidade invisível, é como uma nuvem que escurece todo o sensível e habitua a alma à contemplação daquilo que está escondido; enfim, a alma que caminhou por esta via em direção às coisas celestes, tendo deixado as coisas terrestres à natureza humana – ma medida em que isto é possível –, penetra, circundada de todos os lados pela treva divina, nos santuários do conhecimento de Deus”.32 - São João Crisostomo (350 – 407): João, chamado “boca de ouro”, estudou em Antioquia, depois fez uma experiência de quatro anos numa comunidade monástica do deserto e dois anos de vida solitária, foi ordenado sacerdote em 386 e dois anos depois, bispo de Constantinopla. A maior parte da sua obra é baseada naquilo que chamamos hoje teologia apofática, ou seja: a não-evidência de Deus. Mas a sua pregação é de 32 GREGÓRIO DE NISSA, Homilia sobre o Cântico (tradução livre do autor deste texto, para uso pedagógico).
  11. 11. cunho mais moral que teológico, embora seja considerado “doutor da Eucaristia”; dentre os seus escritos é famosa sua homilia sobre o sacerdócio, onde mostra o ministro ordenado como especialista da alma humana, como se pode constatar através do seguinte trecho dessa homilia: “As doenças dos animais são evidentes, quer estes sejam atingidos por algum mal quer pela fome, ou então por uma ferida ou qualquer outra coisa; e não é muito difícil curar a causa desses males. Depois, uma outra coisa se apresenta nessa situação que facilita a cura dessa enfermidades. Que coisa é essa? Os pastores agem sobre as ovelhas com muita força para que estas recebam o medicamento, quando elas não o aceitam de bom grado. Isto torna fácil mesmo amarrá-las (as ovelhas) quando existe a necessidade de fazer, por exemplo, uma cauterização ou amputação. Do mesmo modo é muito fácil deixá-las presas, que isto contribui para o tratamento. Enfim, dar-lhes uma comida invés de outra, deixá-las em determinadas pastagens, e todos os outros procedimentos que o pastor julgue ser necessário para o cura, é-lhe (ao pastor) permitido fazer com bastante facilidade. “Diferentes são as doenças dos homens. Neste caso, não é, em primeiro lugar, fácil de identificá-las, porque “ninguém conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que está nele”. Ora, como uma pessoa poderia aplicar um medicamento a uma doença da qual não conhece a natureza, quando geralmente não lhe concedido nem mesmo saber se os outros estão ou não doentes? E quando até mesmo isto se torna evidente, e justamente aí que reside a maior dificuldade, pois não é possível cuidar de todos os indivíduos com a mesma liberdade com a qual um pastor cuida de uma ovelha. No caso humano, existe a dificuldade de conter a pessoa, de proibir um determinado alimento, de fazer uma cauterização ou então uma amputação. Todavia, a dificuldade de aceita uma medicação reside não em quem está a administrar o remédio; essa dificuldade se encontra, ao invés, no próprio enfermo. Sabendo disso, aquele admirável homem disse: “Não tencionamos dominar a vossa fé, mas colaboramos para que tenhais alegria” (2Cor 1,24). Além disso, sobretudo aos cristãos não é permitido corrigir à força os erros dos culpados. Os magistrados civis, quando submetem os malfeitores à norma das leis, demonstrar o seu grande poder e, assim, forçam os relutantes a mudar os seus costumes. No caso da vida cristã, esses indivíduos dever ser corrigidos com a persuasão e não com a violência; isto porque não nos é conferido (pelas leis) a faculdade de tirar do mal os culpados, e se tal coisa nos fosse conferida não deveríamos usar a força, deixando Deus dar a coroa não a quem deixa o mal porque é forçado a isto, mas a quem o deixa por sua própria escolha; isto então mostra que é necessária uma grande habilidade para fazer com que os enfermos sejam persuadidos e se submetam de bom grado aos cuidados dos sacerdotes; Mas não só isso, eles (os enfermos) devem ver a vantagem que o tratamento lhes dará, pois a aplicação de um procedimento brusco, mesmo quando se há poder de fazê-lo, provoca um mal ainda pior. Nesse sentido, se o sacerdote não se der conta daquelas palavras que são cortantes tanto quanto o ferro, aplicando-as pode causar uma outra ferida àquela que entendia curar; neste caso, o pretexto da cura se torna ocasião de doenças mais graves. Tudo isto porque [no caso humano] não existe quem tenha o poder de forçar e cuidar de um doente contra a sua vontade”.33 33 JOÃO CRISÓSTOMO, Homilia sobre o sacerdócio (tradução livre do autor deste texto, para uso pedagógico)
  12. 12. - Santo Agostinho de Hipona (354-430): Talvez seja o Padre mais conhecido. Filho de santa Mônica, nascido na África, se transfere a Milaõ, onde é convertido ao cristianismo através da pregação de Santo Ambrosio. Grande parte da sua obra tenta combater a visão maniqueísta, donatista e o pelagianismo. Sua obra é muito vasta, mas Confissões é aquela que mais se popularizou, embora A cidade de Deus tenha influenciado enormemente a teologia posterior. Agostinho coroa sua obra com uma teologia que visa a unidade interior do ser humano, uma unidade que é melhor buscada em um espaço propício que é o mosteiro. 

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